3 REUNIÃO DE PAUTA: O QUE E COMO FAZER?
3.3 O PROGRAMA XEQUE-MATE
Tomando o gênero discursivo como categoria norteadora, como uma forma de discurso da vida que circula nas diferentes esferas da atividade humana (BAKHTIN, 2011), analisamos o Programa Xeque-Mate, que conta com o gênero discursivo entrevista como sua principal atividade prática. É em função dessa atividade que os alunos veem-se atualizando sua competência linguística − uma excelente oportunidade para compreender a importância da linguagem no processo de interação −, reiterando a compreensão de que “tanto a vida entra na linguagem, como a linguagem entra na vida por meio de práticas discursivas concretas” (CASADO ALVES, 2009, p. 2). Sob essa ótica, podemos dizer que o Xeque-Mate configura- se como uma prática discursiva concreta, tendo em sua composição alunos, professores e funcionários da universidade, que, como partícipes desse encontro interlocutivo mediado pela linguagem, dão dinamicidade a esse evento discursivo.
O projeto Xeque-Mate realiza-se sob uma perspectiva que integra a prática nos estudos teóricos, procurando compreender a entrevista como elemento indispensável à comunicação social, na verdadeira acepção do termo. É preciso compreender que não pode considerar o referido projeto como uma prática acabada, consolidada e imutável, mas sim como um processo em construção, em aperfeiçoamento e plenamente vinculado ao protagonismo dos discentes. Convém considerar a aproximação entre profissionais com grandiosa experiência, o que permite a elaboração de conhecimentos além da sala de aula, em confronto com a realidade concreta (ROCHA FILHO, 2009, p. 10).
Assim perspectivado, o programa mostra-se sempre em processo de construção contínua, quer no plano da teoria, quer no plano da prática. Para os comunicadores sociais em formação, estar inserido no projeto permite-lhes ter acesso a uma consciência mais elaborada da função social do jornalista e do radialista; enfim, da carreira que seguirão além das fronteiras da universidade.
Visando a um melhor conhecimento do programa Xeque-Mate, elaboramos a seguir um breve histórico de sua existência, para o que contamos, subsidiariamente, com o conteúdo informacional de duas entrevistas: a primeira realizada com Emanoel Francisco Pinto Barreto5, professor aposentado do Departamento de Comunicação Social da UFRN, responsável pela criação da versão televisiva do Xeque-Mate e primeiro apresentador do programa; a segunda realizada com Ruy Alckmin Rocha Filho6, professor lotado no Departamento de Comunicação Social da UFRN, responsável pela disciplina que produzia o programa e apresentador durante uma das fases do Xeque-Mate.
A edição televisiva do Programa Xeque-Mate deriva de uma versão que surgiu anteriormente, ainda quando a Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza funcionava na antiga Fundação José Augusto. O programa de entrevistas Xeque-Mate foi criado pelo Diretório Acadêmico da faculdade, em 1972, e consistia em uma entrevista coletiva realizada semanalmente pelos alunos de Jornalismo, no pátio da Fundação José Augusto. Sobre a primeira versão do Xeque-Mate, Monteiro (2015, p. 225-226) informa:
Apesar do cenário brasileiro, de censura e controle dos meios de comunicação, foi criado em junho de 1972, pelo Diretório Acadêmico da Faculdade de Jornalismo Eloy de Sousa, o Xeque-Mate, programa de entrevistas com pessoas engajadas no cenário da política, da economia, do esporte, da cultura – um artista, um político, um
5 A entrevista com o Professor Emanoel Francisco Pinto Barreto foi realizada em sua residência, Natal−RN, em
27 de setembro de 2016.
6 A entrevista com o Professor Ruy Alckmin Rocha Filho foi realizada no Setor II−UFRN, em 13 de abril de
jogador de futebol, um escritor, um jornalista, uma miss. Tinha finalidade didática. Os alunos eram supervisionados pelos professores, sobre a desenvoltura, os questionamentos, as pautas, as reportagens e sobre as fotografias. Assemelhava-se a uma cobertura jornalística. A cada sexta-feira da semana, geralmente às 20h, os alunos reuniam-se no pátio da Fundação e se organizavam ao redor do convidado: sentados em cadeiras, no chão ou em pé, gestos que realçavam a informalidade do diálogo. O primeiro convidado foi Diógenes da Cunha Lima, então Presidente da Fundação José Augusto.
Como podemos perceber, havia grande repercussão do programa no meio universitário e jornalístico do Estado. Anos depois, em 2002, o Xeque-Mate foi adaptado para a TV como um programa semanal7. A ideia foi do professor Emanoel Barreto, responsável por fazer a ponte entre a experiência antiga e a experiência contemporânea, concretizando uma parceria entre o Departamento de Comunicação Social da UFRN e a TV Universitária.
A nova fase do Xeque-Mate teve início no curso da disciplina “Reportagem, Pesquisa e Entrevista”, em que o professor Barreto utilizava o final da aula para estimular os alunos a prepararem pautas e a se engajarem na organização do programa, que surgiu com a proposta de reforçar as atividades laboratoriais do Departamento de Comunicação (DECOM) e, ao mesmo tempo, abrir espaço para um novo formato de programa na TV Universitária, priorizando a entrevista coletiva e o contato com personalidades de destaque local, nacional e internacional. Segundo o professor Barreto, esse formato faz-se interessante porque a entrevista gera discussão através do questionamento.
E vale ainda ressalvar o fato de que, se, por um lado, havia carência de um programa que ocupasse esse tipo de espaço na TVU, por outro lado, havia a necessidade de atividades experimentais (laboratoriais) para os estudantes. O jornalismo depende muito dessa combinação entre teoria e prática. De acordo com Ruy Alckmin, o curso de jornalismo exige que o aluno tenha conhecimentos de economia, de literatura, de artes, de geografia, de história, e de ciências em termos gerais, ao mesmo tempo em que lhe exige um bom desempenho na produção de textos de várias naturezas. Tudo isso sinaliza a necessidade de investir em atividades que integrem a formação acadêmica à comunidade.
Segundo o professor Barreto, a maior dificuldade enfrentada logo após a criação do Xeque-Mate, foi a baixa adesão dos alunos, que eram fundamentais para que as entrevistas acontecessem e para que o programa fosse ao ar. Na tentativa de solucionar o problema, o professor Ruy Alckmin decidiu transformar o programa em uma atividade de extensão. Com essa nova feição, as atividades eram divididas entre os alunos, sob orientação do professor.
Algum tempo depois, dá-se mais uma mudança: o projeto de extensão associa-se a uma disciplina instrumental. Foi nesse momento que houve a proposta da divisão em equipes, um formato semelhante ao que funciona hoje. As atividades desenvolvidas após a constituição das equipes tornaram-se mais eficientes e inovadoras: práticas que não eram contempladas anteriormente na produção do programa passaram a fazer parte da rotina dos alunos (produção de VTs, de reportagens, de notas cobertas, de enquetes...). Esse tipo de conteúdo, que foi pensado para dinamizar o programa, rendeu o desenvolvimento de atividades bastante significativas para a melhoria da formação do comunicador social, dando-lhe as condições ideais para atuar no mercado de trabalho.
Como é possível atestar, as constantes mudanças na apresentação e na supervisão do programa levaram o Xeque-Mate a vivenciar diferentes fases. Foi exatamente em uma dessas novas fases, entre os anos de 2006 e 2007, que as equipes foram formadas: assessoria, edição,
produção e reportagem. É certo que essas atividades já eram desenvolvidas; mas, com a
intervenção do professor Ruy Rocha, instituíram-se, em definitivo, as equipes e o programa foi absorvido pela disciplina Tópicos Avançados em TV. Esse novo formato visava resolver as antigas dificuldades para manter o programa, não apenas como uma atividade de extensão, pois a participação dos estudantes era muito inconstante e gerava uma série de incertezas para as gravações e até mesmo para a veiculação do programa. A partir de então, os alunos tinham como participar do Xeque-Mate sob matrícula em uma disciplina. A estratégia da associação a uma disciplina e da divisão em equipes deu-lhe consistência e reforçou a crença de que ele continuaria sendo produzido.
A equipe de assessoria era a responsável pela veiculação de informações a respeito do programa nas redes sociais digitais e por divulgar as atividades para a equipe do Xeque-Mate, para docentes e discentes de Comunicação, e para o público em geral, tanto o da UFRN como o público externo. A equipe de edição organizava o produto final, operava as câmeras, e oferecia auxílio às demais equipes no concernente ao uso dos equipamentos. A equipe de
produção trabalhava por trás das câmeras, organizando as pautas, contatando os entrevistados,
os seus assessores, marcando pré-entrevistas, pensando as reportagens, as enquetes e os demais quadros do programa. Por fim, a equipe de reportagem colocava em prática essas atividades, ia às ruas, enfrentava os desafios do telejornalismo. Todas as equipes trabalhavam conjuntamente a fim de contribuir para o sucesso do empreendimento.
A formação dessas equipes ocorria sempre no início do semestre, quando da oferta das oficinas para os alunos matriculados na disciplina. Nesse momento, faz-se uma explanação geral a respeito das atividades que cada equipe desenvolve, o que é fundamental para auxiliar
os comunicadores sociais em formação na escolha da área em que pretendem atuar no programa. Como veremos adiante, a opção por uma equipe no Xeque-Mate influencia, inclusive, na atuação do profissional no mercado de trabalho.
A gravação do programa ocorria nas tardes de sexta. Os alunos deviam chegar bem cedo para organizar o estúdio e para participar das reuniões que antecediam essa atividade. O apresentador era o professor responsável, e os entrevistadores eram os alunos, selecionados em todas as equipes. Também havia a participação de estudantes que não estavam matriculados na disciplina; eram alunos que já tinham contribuído com o programa em outros momentos. Mas até mesmo aqueles que queriam apenas conhecer tinham espaço na disciplina. O Xeque-Mate era um programa aberto e democrático.
O caráter de extensão do Xeque-Mate nunca foi abandonado; a ideia era conjugar o projeto de extensão à disciplina Tópicos Avançados em TV. Mas, para isso, era necessário que, além de contar com a atuação de alunos e professores, também atuassem os funcionários da TV universitária. Em síntese, era fundamental dispor de diversos suportes para que o programa pudesse ser desenvolvido satisfatoriamente. Nesse novo arranjo, “os discentes assumiam responsabilidades junto à produção do programa, o que [fortaleceria] o caráter extensionista e experimental do projeto” (ROCHA FILHO, 2009, p. 3). Aliás, não nos cabe duvidar do fato de que a comunicação é, em si, uma atividade extensionista. No seio da universidade, a TVU tem seu propósito voltado para a extensão, e serve a diversas finalidades, tanto a prestação de serviços para a comunidade propriamente, quanto a própria difusão científica (a comunicação científica), o que não deixa de ser, por um certo viés, uma forma de extensão.
3.3.1 O caráter de extensão do Programa Xeque-Mate
Os pressupostos da universidade no século XXI definem que, para ser assim concebida, ela precisa não só oferecer a formação graduada e pós-graduada mas também a pesquisa e a extensão; afinal, não se constrói uma universidade a não ser em função dessa demanda (SANTOS, 2004). Numa referência particular à extensão, Santos (2004, p. 54) assim se posiciona:
as actividades de extensão devem ter como objectivo prioritário, sufragando democraticamente no interior da universidade, o apoio solidário na resolução dos problemas da exclusão e da discriminação sociais e de tal modo que nele se dê voz aos grupos excluídos e discriminados.
A extensão promove o diálogo entre a universidade e a sociedade. Na visão de Freire (2002, p. 20), “o que busca o extensionista não é estender suas mãos, mas seus conhecimentos e suas técnicas”. É bem esse o alcance visado pelo projeto de extensão: promover a difusão de saberes e técnicas, direcionando os alunos à concretização dessa perspectiva. Assim percebida, nos termos de Freire (2002, p. 20), “a extensão é educativa”.
Por isto mesmo é que, no processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do aprendido, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isto mesmo, reinventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido- apreendido a situações existenciais concretas (FREIRE, 2002, p. 27-28).
O Programa Xeque-Mate cria uma situação existencial concreta, em que os alunos, de fato, são levados a agir e a refletir sobre suas ações. Nas atividades que se desenvolvem no projeto, eles se veem como profissionais, como sujeitos no mundo da vida, que atuam, transformam e criam uma realidade; e “este modo de pensar, como qualquer outro, está indiscutivelmente ligado a uma linguagem e a uma estrutura como a uma forma de atuar” (FREIRE, 2002, p. 32).
Ao participarem do projeto de extensão, os alunos tornam-se capazes de pensar sobre a teoria e a prática da profissão do comunicador social; “a prática, por sua vez, ganha uma significação nova ao ser iluminada por uma teoria da qual o sujeito que atua se apropria lucidamente” (FREIRE, 2002, p. 41). Mas para que essa prática seja bem desenvolvida, é importante que se enfatize a função do professor que os auxilia neste projeto.
O papel do educador não é o de “encher” o educando de “conhecimento”, de ordem técnica ou não, mas sim o de proporcionar, através da relação dialógica educador- educando, educando-educador, a organização de um pensamento correto em ambos (FREIRE, 2002, p. 53).
É bem esse o papel de que se investe o professor responsável pelo programa Xeque- Mate (que, como vimos, caracteriza-se como uma atividade extensionista), na medida em que desenvolve competências que são úteis para os alunos em sua atuação para além da universidade. Os projetos de extensão, a exemplo do Xeque-Mate, representam, portanto, oportunidades que se colocam aos alunos a fim de exercitarem a prática da profissão ainda na esfera acadêmica.
3.3.2 A construção do Programa Xeque-Mate e o gênero discursivo entrevista
Ao longo do tempo, as pessoas têm-se beneficiado do uso dos gêneros discursivos como meio de comunicação entre as diferentes esferas da atividade humana. Essa inevitável recorrência aos gêneros discursivos no processo de comunicação implica, em deriva, a necessidade de melhor conhecê-los para melhor adequá-los às situações de comunicação em que são requeridos. No Xeque-Mate, por exemplo, o gênero entrevista, característico da esfera jornalística, ganha destaque, uma vez que é o eixo norteador do programa.
O gênero entrevista “remete a diferentes gêneros com o mesmo nome, e diferentes conceitos existentes sobre o gênero entrevista na esfera do jornalismo”, conforme Silva (2009, p. 15). Isso ocorre em razão de o gênero variar de acordo com o seu propósito comunicativo. Em nossa investigação, o gênero entrevista assume a modalidade da entrevista televisiva, face a face, em que o entrevistado e os entrevistadores são protagonistas da cena. Numa tentativa de melhor esclarecer sobre esse gênero, Silva (2009, p. 59) diz o seguinte:
A primeira questão a ser abordada é a definição do termo ‘entrevista’, que pode designar diversas interações sociais e suas respectivas finalidades interativas, caracterizando gêneros diferentes, todavia reunidos sob a mesma terminologia. Nas interações humanas, há entrevistas com vistas à seleção de candidatos a emprego, para diagnósticos psicológicos ou clínicos ou, ainda, como instrumento metodológico de pesquisa. O termo ‘entrevista’ circula em esferas discursivas como a do trabalho, a acadêmica e a jornalística, podendo se referir a gêneros diferenciados, mas que recebem a mesma nomeação.
Se admitimos o fato de que, para compreender os gêneros discursivos, é necessário compreender o funcionamento das esferas das atividades humanas, então se torna pressuposto que, para compreender o gênero entrevista, é preciso conhecer a esfera jornalística, a função do jornalista, como ele exerce sua função, ou seja, as características da referida esfera.
O jornalista é acima de tudo um contemporâneo. É obrigado a sê-lo. Vive na esfera de questões que podem ser resolvidas em sua atualidade (ou ao menos num tempo próximo). Participa de um diálogo que pode ser terminado e até concluído, que pode passar à ação, pode tornar-se força empírica. É propriamente nessa esfera que é possível a “palavra própria”. Fora dessa esfera a “palavra própria” não é própria (o indivíduo está sempre acima de si mesmo); a “palavra própria” não pode ser a última palavra (BAKHTIN, 2011, p. 388, grifos do autor).
Para ir ao ar, o programa precisa de um professor (que é também o apresentador) e de alunos, escolhidos com antecedência, os quais assumem o papel de entrevistadores. Entre os entrevistados, o Xeque-Mate já recebeu pessoas importantes dos mais diversos campos do conhecimento: políticos, artistas, professores, médicos etc. O processo de escolha dos sujeitos
a serem entrevistados conta com a participação de todos os estudantes, auxiliados pelo professor da disciplina e pelo diretor do programa. Mas também são acolhidas sugestões de nomes indicados pelos telespectadores e pelos profissionais da TVU:
Dessa forma, o “fio condutor” na entrevista é o entrevistado e seu discurso, em outras palavras, o que interessa, de fato, nesse gênero, é o entrevistado, cujo discurso, através do enquadramento feito pelo autor, [que] é “encharcado” de valoração, é desacreditado, é contestado ou enaltecido. Essa valoração dada ao entrevistado concretiza-se através de seu papel social, que é validado pelas opiniões sociais, e pelos já ditos sobre esse objeto (entrevistado) (SILVA, 2009, p. 166).
Constatamos, assim, o quanto se faz necessário conhecer as características do gênero discursivo, e a forma como ele se apresenta nas mais diversas esferas da sociedade, pois a partir desse saber é que podemos analisar a sua funcionalidade em uma situação real na esfera jornalística, especificamente em um programa de TV.