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(1)

E rv in g G o ffm a n

desbravador do cotidiano

r

Edison Gastaldo

organizador Porto Alegre, 2004 t 0 1 1 Q R i A í

(2)

© dos autores Ia edição 2004

Direitos reservados desta edição: Tomo Editorial Ltda.

Capa:

Roberto Silva

Tradução:

Edison Gastaldo e Roberto Cataldo Costa

Revisão: Moira Diagramaçâo: Tomo Editorial Editor: João Carnáro ISBN: 85-86225-33-9

G 6 1 2 Erving G offm an : desbravador do cotidiano / Edison Gastaldo organizador. - Porto Alegre : Tomo Editorial, 2004.

176 p.

1. G offm an, Erving, 19 2 2-19 8 2 — Crítica e interpre­ tação. 2. Goffman, Erving, 1 9 2 2 -19 8 2 —Vida e obra. I. Gastaldo, Edison. (Org.).

C D D 923

Catalogação na publicação: Maria Lizete Gomes Mendes Bibliotecária: C R B 10/950

Tomo E ditorial Ltda. Fone/fax: (51) 3227.1021

tomo@ tomoeditorial.com.br www.tomoeditorial.com.br Rua Demétrio Ribeiro, 525 CEP 90010-310 Porto Alegre RS

(3)

S

umário

Apresentação...7

1 Goffman, o descobridor do infinitamente pequeno... 11

Pierre Bourdieu

2 Erving Goffman: o que é uma vida?

O incômodo fazer de uma biografia intelectual... 13

Yves Winkin

3 Becker, Goffman e a Antropologia no Brasil... 37

Gilberto Velho

4 Instantâneos ‘sub specie aetemitatis’

Simmel, Goffman e a sociologia formal...47

Greg Smith

5 Lendo Goffman em interação... 81

Rod Watson

6 As Políticas da Apresentação:

Goffman e as Instituições Totais ... ...101

Howard S. Becker

7 Erving Goffman, antropólogo da comunicação...111

Edison Gastaldo

8 A representação do self na obra de Goffman:

sociosemiótica da identidade...

125

Fernando Andacht

9 ‘Enquadrando’ Bibliografias

Reflexividade, relevância e a ‘imaginação sociológica’ ... 147

Andrew P. Carlin

10 Erving Goffman: obras originais e traduções... 167

Andrew P. Carlin

(4)
(5)

A

p r e s e n t a ç ã o

Erving Goffman sempre foi um homem polêmico. Sua morte pre­ m atura, em 1982, aos sessenta anos, colheu-o no apogeu de sua carreira, recém -eleito presidente da

American Sociological Association,

autor celebrado de onzedívros, dentre os quais o m aior

best seller

da história da sociologia,

The Presentation o f S elf in Everjday Life,

traduzido em quinze idiom as, com

vendagem de m ais de dois milhões de exemplares. O discurso que escreveu para a cerim ônia de posse não chegou a ser apresentado po r ele. N esse discurso, intitulado

The Interaction Order,

a verve provocativa, irônica e m es­ m o engraçada de Goffman está m anifesta na alfinetada dirigida aos colegas sociólogos: “deveriamos ficar felizes se conseguíssemos trocar tudo o que produzim os até agora por umas poucas distinções conceituais realm ente boas e uma cerveja gelada”. Ou zombando de si próprio, como na introdu­ ção de

Trame Analysis-.

“há m uita base para duvidar do tipo de análise que será apresentado. Eu m esm o duvidaria, se ela não fosse a m inha” . As “his­ tórias de Goffman” são quase tão famosas quanto seus livros. O protago­ nista dessas histórias é por vezes m al-hum orado, por vezes francam ente grosseiro, por vezes irônico ou sarcástico, m as sempre espirituoso e afiado: não é de espantar que Goffman tenha angariado por toda sua vida e até hoje críticos ferozes tanto quanto admiradores devotados.

Este livro tem por propósito apresentar ao leitor brasileiro um painel de diferentes perspectivas sobre a vida e a obra de Goffman, tomada como um todo, para além dos seus três únicos livros publicados em língua portu­ guesa —

The*Lk;esentatíonsefAef,m~Everyd<tyAfff‘A

Representação do Eu na Vida Cotidiana”, Vozes),

Asylums

(“Manicômios, Prisões e Conventos”, Pers­ pectiva) e

Stigma

(“Estigm a”, Zahar). Internacionalm ente, estes livros são conhecidos como

the big three,

seus três livros mais famosos e citados. Entre­ tanto, vinte anos depois de sua morte, sua obra continua tão viva e influente

(6)

quanto nos tempos em que Goffman era investigado pela polícia por estar levando cassinos à falência ou derrubando adversários mais do que teóricos a socos nos pubs ingleses. Como em quase tudo o que se refere a Goffman, as opiniões a respeito de sua obra são também controversas, divergentes e polê­ micas. N esta coletânea estão representados alguns dos maiores cientistas so­ ciais mundiais e especialistas na obra de Goffman, possibilitando ao leitor de língua portuguesa ter acesso a um material importante e inédito em português sobre a vida e a obra do polêmico sociólogo canadense.

O prim eiro texto,

Goffman, o descobridor do infinitamente pequeno,

"de Pierre Bourdicu, foi publicado originalm ente como um obituário no jornal

Le Monde,

em dezem bro de 1982. Bourdieu, responsável pela tradução, pu­

blicação e divulgação de grande parte de sua obra na França presta-lhe aqui um a homenagem.

A seguir, o ensaio de Yves W inkin,

Erving Goffman: o que é uma vida

?

O

incômodo fa g er de uma biografia intelectual,

no qual o autor traça um a “biogra­

fia intelectual” de Goffman, buscando no contexto histórico da constitui­ ção de Goffman como intelectual elementos que perm itam pensar sua vida e obra.

O terceiro ensaio, de Gilberto Velho,

Becker, Goffman e a Antropologia

no Brasil,

oferece informações inéditas acerca da rápida passagem de Goff­

man pelo Brasil no final dos anos 70, a convite de Howard Becker. Gilberto Velho, amigo e colega de Becker, conheceu Goffman pessoalmente naquela ocasião. Seu ensaio trata também da introdução do interacionismo simbólico no Brasil e seu impacto na antropologia brasileira.

As raízes filosóficas do pensamento de Goffman são o tema do quar­ to ensaio,

Instantâneos ‘Sub Specie Aeternitatis’: Goffman, Simmel e a Sociologia

Formal,

de Greg Smith, que analisa a influência de Georg Simmel e sua “soci­

ologia formal” sobre a Escola de Chicago e, em particular, sobre a obra de Goffman.

O ensaio de Rod Watson,

Eendo Goffman em interação,

trata, sob um ponto de vista etnometodológico, das descrições de interações sociais reali­ zadas por Goffman, analisando os mecanismos estilísticos empregados em seus livros como instâncias de representação da realidade social.

A s Políticas da Apresentação: Goffman e as Instituições Totais,

ensaio inédi­

to de Howard Becker, trata igualmente das categorias e estratégias discursi­ vas empregadas por Goffman, embora mais focado nas descrições das cha­ madas “instituições totais”, abordadas por Goffman em “Manicômios, Pri­ sões e Conventos”.

M eu ensaio,

Erving Goffman, antropólogo da comunicação,

pensa a obra tardia de Goffman a partir do ponto de vista da antropologia da comunicação

(7)

A presentação 9 e dos estudos de mídia, campos onde o pensamento de Goffman é ainda pouco explorado nos países de língua portuguesa.

Em

Al representação do

self

na obra de Goffman: sociosemiótica da identidade

,

Fernando Andacht relaciona a obra de Goffman a uma abordagem semiótica peirceana, aproximando a noção triádica de ‘signo’ com a noção de ‘

self

apre­ sentada por Goffman em ‘A Representação do Eu na Vida Cotidiana’, um ponto de vista semiótico triádico sobre a interação social cotidiana.

Finalm ente, em '

'Enquadrando

bibliografias: reflexividade, relevância e

a ‘imaginação sociológica

’, A ndrew Carlin aborda a elaboração de um a bibli­

ografia como fenôm eno analisável a partir da noção de

fram e

de Goffm an, pensada por um referencial etnom etodológico. Ao final, C arlin com pilou um a bibliografia da obra de G offm an, incluindo traduções em diversos idiom as.

A realização deste livro não teria sido possível sem a ajuda decisiva de algumas pessoas, em diversos momentos do processo editorial, a quem gostaria de agradecer. Em primeiro lugar, a Rod Watson, cujo generoso e en­ tusiástico apoio desde a primeira idéia deste projeto foi um a perene fonte de confiança em sua realização; aos professores Etienne Samain, Antonio Faus­ to Neto e José Luiz Braga, pelos oportunos aconselhamentos acerca do mer­ cado editorial brasileiro e, por fim, a Sarah Willis, Alison M iddleton e Anne- mieke Dolfing, que, em nome da Routledge Publishers, detentora do Copyri­ ght do artigo de Greg Smith, generosamente concederam autorização para tradução e publicação no Brasil.

O trabalho de Goffman trouxe à luz aspectos da vida cotidiana que não se julgavam “sociologicamente relevantes’’. Seus

insights

sobre as intera­ ções ordinárias; sobre o deslocamento dos pedestres, sobre a ocupação social dos espaços públicos, sobre a atuação de vigaristas, mendigos, loucos, espi­ ões, jogadores de todos aqueles que passam cotidianamente debaixo; de nossos narizes sem que prestemos atenção modificaram o pensar sociológico no. mundo. Sua descrição etnográfica de um hospital para doentes mentais colaborou decisivamente para deflagrar a luta antimanicomial no mundo in­ teiro.

(8)

Vinte e dois anos depois de sua m orte, os temas e os conceitos desen­ volvidos por Goffman ainda estão em pleno uso e vitalidade. Este livro pre­ tende trazer para o leitor de língua portuguesa informações, críticas e desen­ volvimentos teóricos inéditos sobre a vida e a obra de um espírito indomável. U m a homenagem sincera a um dos maiores cientistas sociais do século XX.

Porto Alegre, m arço de 2004. Edison Gastaldo

(9)

1

G

o f f m a n

,

o d e s c o b r i d o r

DO INFINITAMENTE PEQUENO1

Pierre

Bourdieu

A obra de Erving Goffman representa o produto mais bem-sucedido de uma das maneiras mais originais e raras de praticar a sociologia: aquela que consiste em olhar de perto e longamente a realidade social, em vestir o aven­ tal de médico para penetrar no asilo psiquiátrico e se colocar assim no próprio espaço desta infinidade de interações “infinitesimais” cuja integração faz a vida social. Goffman terá sido aquele que fez com que a sociologia descobris­ se o infinitamente pequeno: aquilo mesmo que os teóricos sem objeto e os observadores sem conceitos não sabiam perceber e que perm anecia ignorado, porque muito evidente, como tudo o que é óbvio. Como exemplo, a descrição que ele propõe do ciclo do cigarro tal como praticado em determinadas alas dos asilos:

“Um ‘protegido ’ vem se colocar em frente ao sen chefe quando este acende um

cigarro (...) e espera até que o agarro esteja quase no fim para poder herdá-lo.

A s veges, ele mesmo se f a g de chefe em relação a um outro doente, dando-lhe a

bagana que acaba de receber depois de tê-la fumado o máximo possível. O terceiro

beneficiado deve então utiligar um alfinete ou outro expediente qualquer para

segurar a bagana sem se queimar. Atirada ao chão, a bagana pode ainda servir

(...) muito pequena para ser fumada, mas ainda bastante grande para fornecer

fumo. ”

Essas curiosidades de entomólogo eram feitas para desconcertar ou até mesmo chocar um

establishment

habituado a observar o mundo social a distância e de cima. Aquele que os guardiões do dogmatismo positivista ali­ nhavam à

lunaticfringe

da sociologia, isto é, entre os excêntricos que pretendi­

1 Publicado origmalmente no jornal Le Monde de 4 de dezembro de 1982. (tradução: Luiz Eduardo Robinson Achutri)

(10)

am substituir os

rigo res

da ciência pelas facilidades da meditação filosófica ou da descrição literária, tornou-se uma das referências fundamentais não só para os sociólogos, mas também para os psicólogos, psicossociólogos e soci- olingüistas (refiro-me particularmente a seu último livro,

Forms o f Talk,

publi­ cado em 1981, na Filadélfia).

Se este observador apaixonado pelo real sabia ver tão bem, é porque também sabia o que procurava. Aluno de Everett C. Huges, um dos grandes mestres da sociologia americana, nutrira-se de todo o conhecimento da Esco­ la de Chicago —, especialmente, das contribuições de G. H. M ead e C. H. Cooley aos quais sempre se refere - e de tudo o que esse centro de excelência do profissionalismo científico acumulara e assimilara, quer se trate da obra dos durkheimianos ou da sociologia formal de Simmel. É armado de toda esta bagagem, à qual se deve certamente acrescentar a teoria dos jogos, que aborda objetos até então excluídos do campo de visão: científico. Através dos indícios.'mais=sutis e m ais fugazesüdas interaçõe&;s©4aai%>elc capta-a lógica do

trabalho de representação;

quer dizermos conjunto das? esft®tégias através'das*quais

os-sujeitos sociais-cs forçam-se-para construir sua

identidade,

moldar sua-ima- gem-social, em suma,

se produzir:

os sujeitos sociais são*também atores-que se exibem.e.que, em .um e^fpççD mais. .ou menos constante#;deK&nsenação, visam a-se distinguir, a dar a “melhor impressão”, enfim,, a se mostrar e a se valori- zai.

Esta visão do m undo social, que pode ter parecido pessimista, até mesmo cínica, era a de um homem caloroso e amigável, modesto e atencioso, sem dúvida ainda mais sensível à teatralidade da vida social porque era, ele próprio, profundamente im paciente com todas as formas cotidianas do ceri­ m onial acadêmico e da pompa intelectual.

(11)

E

r v i n g

G

o f f m a n

:

O QUE É UMA VIDA?

O INCÔMODO FAZER DE

UMA BIOGRAFIA INTELECTUAL

Yves Winkin

Incômodo

Erving Goffman jamais escreveu sobre sua própria vida. As únicas linhas autobiográficas a que o leitor pode ter acesso estão no prefácio de

A.sylums

[no Brasil,

Manicômios, Prisões e Conventos

] (Goffman, 1961) e em duas

ou três notas de rodapé em

Interaction Pdtual

(Goffman, 1967), que tratam das condições de seu trabalho de campo em hospitais para doentes m entais, e nada contêm de pessoal. Goffman não revelou muito a seus colegas ou ami­ gos sobre sua vida, sua juventude, sua família ou suas experiências passadas. Muitos têm noções vagas, que costumam estar associadas à grande quantida­ de de histórias a seu respeito como personagem, antes de tratar de sua verda­ deira trajetória social e intelectual. Não é fácil conhecer a pessoa por trás do personagem, já que apenas breves lampejos puderam ser obtidos. Talvez o único comentário confiável publicado sobre Goffman seja a observação que ele próprio fez a Dell Hymes, dizendo: “você se esquece de que eu cresci (convivendo com o iídiche) em uma cidade onde falar outra língua nos torna­ va suspeitos de homossexualidade” (Hymes, 1984: 628).

A primeira questão — e talvez a mais previsível — com que m e deparei quando decidi escrever um a biografia intelectual de Erving Goffman foi: te­ nho o direito de invadir sua privacidade? Segundo o senso comum, quando os intelectuais (ou as pessoas de algum renome) contribuem para suas biografias através de entrevistas e narrativas pessoais, por exemplo, pode-se ser menos escrupuloso na coleta sistemática de dados e em sua organização na forma de biografia. No caso de Goffman, ficou claro que sua privacidade era resguar­ dada com muito zèlo. Ele jamais deu entrevistas para a mídia, perm itiu que

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seus editores publicassem fotos suas ou apareceu na televisão. Em novembro de 1983, quando me aproximei de Gillian Sankoff, sua viúva e a responsável por sua obra, ela me recebeu educadamente, mas não prestou qualquer ajuda explícita (como dar acesso aos arquivos). Contudo, também não recebi uma recusa direta (por exemplo, a família não foi advertida da possibilidade de minha visita). Segundo Sankoff m e explicou, Erving Goffman queria manter sua vida totalmente separada de seu trabalho. Se alguém quisesse conhecer em detalhe esse trabalho, não haveria necessidade de saber coisa alguma so­ bre sua vida. A m ensagem de Goffman, nas palavras de Sankoff, era de que a resposta estava em seus livros e artigos.

Persisti por diversas razões, sendo que a mais simples foi o fato de me sentir cada vez mais encorajado, tanto pelos dados que havia coletado quanto pelos colegas que tomaram conhecimento de m eu projeto. Uma segunda ra­ zão, talvez mais substancial, foi que, embora Goffman considerasse sua vida pessoal exclusivamente sua, ao escolher tornar-se intelectual, escrever e pu­ blicar, atraiu atenção para si mesmo e, portanto, tornou-se propriedade públi­ ca. Mais ainda, deve ter sabido que suas atividades o lançariam à esfera públi­ ca (isto é, para uma arena de debate, no estilo de Habermas). Escolheu te­ mas, forjou um estilo de escrever e selecionou editoras que lhe garantiram ir além do mundo isolado da academia, enquanto mantinha uma lealdade estri­ ta à sua disciplina e ao fazer acadêmico. Goffman não comercializou sua arte, não procurou ativamente a fama; não obstante, o reconhecim ento público não ocorreu por acaso. Mais do que isso, suas estratégias públicas não suge­ rem qualquer timidez. Uma vez tendo se tornado uma figura pública, quer escolhesse admitir isso ou não, ele perdeu o controle de si m esm o e de sua privacidade. Portanto, um a pesquisa biográfica foi uma conseqüência quase “natural”. Qualquer figura pública está apta a gerar um “duplo”, seja através da produção de uma autobiografia ou de uma biografia. A parte “privada”, ou seja, o indivíduo em carne e osso, apenas fornece uma estrutura para a pessoa “pública”, na forma de discurso e imagem. Quando o suporte físico desapare­ ce, o duplo ainda pode continuar a ter vida própria por um bom tempo. Esta é a lógica do tipo de fama com a qual Goffman estava enredado, a despeito de seu próprio desejo ou dos esforços da responsável por sua obra.

Qualquer biografia de Goffman deveria, em m inha opinião, ser escrita por alguém que o conhecera e que pudesse ser tão bem-intencionado quanto os bons padrões literários permitissem. Não se deveria erguer um monumen­ to, nem tampouco fazer qualquer exposição desnecessária. Assim, segui adi­ ante, inicialmente com um pouco de dificuldade, mas fui ganhando força à m edida que o tempo passava. Os períodos mais importantes para coleta de dados para o projeto foram 1987 e 1991.

(13)

Em 1987, enquanto lecionava na U niversidade da Califórnia, em Berkeley, no mesmo departamento que Goffman conhecera nos anos 60, apro­ veitei para entrevistar muitos dos seus antigos colegas e amigos, e fazer algu­ ma pesquisa de arquivos. A partir desta rica fonte de dados, escrevi “Retrato do Sociólogo Quando Jovem ”, de noventa páginas, que foi publicado em uma coletânea de artigos de Goffman que editei (Winkin, 1988b). Embora tenha recebido um a resposta favorável da crítica, eu não estava satisfeito com o âmbito da biografia, porque minha apresentação havia se limitado aos primei­ ros anos, antes que Goffman começasse a publicar, e o retrato era por demais esboçado, tanto em termos empíricos quanto interpretativos. Resolvi retomar m inha investigação e produzir uma análise mais sofisticada a seu respeito.

Uma nova chance se apresentou quando, em 1991, fui convidado a ir à Universidade da Pensilvânia. Como em Berkeley, encontrei muitos infor­ mantes, tanto no campus quanto nas vizinhanças. Comecei também a desen­ volver um a sensibilidade com relação aos lugares que Goffman conhecera bem, por razões pessoais ou profissionais. Passei algum tempo em Dauphin, Manitoba, onde ele vivera quando menino, e em W innipeg, onde passou sua adolescência. Encontrei pessoas que o conheceram naquela época; visitei sua escola e a biblioteca pública que ele costumava freqüentar regularm ente. Caminhei em torno do campus da Universidade de Chicago e descobri, para m eu horror, o quanto a área entre Woodlawn Avenue e a rua 61 (onde ele m orou quando era estudante) havia sido devastada. V isitei o Hospital St. Elizabeths, em Washington, D.C., com um antigo colega seu, e explorei diver­ sas alas, algumas das quais haviam sido abandonadas, enquanto outras ainda estavam em uso. A o percorrer alguns dos antigos lugares freqüentados por Goffman, estava tentando trabalhar etnograficamente de modo a desenvol­ ver uma visão sobre como ele era “de dentro” . Como teria visto seu mundo? É impossível reconstruir completamente tal perspectiva subjetiva de modo semelhante ao de um antropólogo, que é, na melhor das hipóteses, a de um “nativo marginal”, mas, pelo menos, eu não imporia ingenuamente m eu pon­ to de vista ao dele. Pela mesma razão, fui a Baltasound em 1988, na Ilha de Unst, no arquipélago de Shetland, para investigar as condições de seu traba­ lho de campo para o doutorado, entre 1949 e 1951 (Winkin, 1988a). Tal abor­ dagem me fez concluir que a próxima versão da biografia deveria se basear nesses lugares, da form a como Goffman os vira, como os “nativos” viviam e como eu os percebia, anos depois. Escrevi uns poucos capítulos preliminares antes de retomar minhas atividades de ensino, em tempo integral, na Univer­ sidade de Liège.

Muitos anos depois, o projeto ainda não está completo, m as am adu­ receu. Com o passar do tempo, minha atitude analítica sofreu um a dupla Erving Goffman: o que é uma vida? 0 incômodo fa%er de uma biografia intelectual 15

(14)

evolução. Em prim eiro lugar, passei a ter certeza de que era possível dizer coisas relevantes sobre a vida de Goffman, não através de histórias propri­ am ente ditas, mas através de “biografem as”, isto é, fragmentos significati­ vos de um a totalidade, a qual talvez jam ais viesse a ser reunida em sua completude. Em segundo, passei a não abrir mão da necessidade de refletir sobre a atividade biográfica. Mesmo que nada haja de novo neste empreen­ dimento (cf. Nadei, 1984; Novarr, 1986), ainda se pensa pouco, nas ciênci­ as sociais, sobre a relação entre um intelectual e sua biografia. Não se supõe que o leitor esteja interessado na vida em si, mas no trabalho inserido em um contexto específico de criação (não falemos mais em “produção”). Quais são as conexões pressupostas entre textos e contextos? Haverá conexões causais? A vida explica a obra?

Horresco referensl

Deve-se ser m ais sutil do que esta versão à moda antiga da “análise externa” literária. M as então, o que fazer? Tentarei responder a esta questão na segunda parte de m eu capí­ tulo, após o início, dedicado a “instantâneos”: a vida de Goffman em quin­ ze cenas.1

16 Erving Goffman — desbravador do cotidiano

Instantâneos

Instantâneo 1

Dauphin, Manitoba, em tom o de 1930, na loja de departamentos da qual Max Goffman era proprietário e gerente. Max é um homem baixo e atar­ racado, que adora jogar cartas e bater papo na calçada com Eli Bay, seu ad­ versário e bom amigo, que seria pai de seu genro dentro de alguns anos.

M ax G offm an escapou dos

pogroms

no Exército Russo e chegou a W innipeg, no Canadá, em torno de 1917, sendo logo apresentado a Ann Auerbach, um a jovem com patriota que havia chegado à cidade em 1912, e com quem se casou em 1915, m udando-se para M annville, A lberta, um vi­ larejo de 300 habitantes. Seus dois filhos nasceram lá: Francês, em 1919, e E rving, em 1922. A fam ília se m udou mais duas vezes, à procura de um m ercado m elhor, antes de se estabelecer, em 1926, em D auphin, M anitoba, um movim entado ponto de escoamento da produção de trigo por via ferro­ viária, de 4.000 habitantes, m uitos dos quais recém -chegados da Ucrânia, com quem Max podia falar e negociar com facilidade. 1

1 Os instantâneos são baseados em diversas entrevistas com amigos e colegas de Goffman, e todos podem ser confirmados. Decidi não acrescentar notas de rodapé precisas por razões de estilo. Além do mais, algumas fontes são confidenciais.

(15)

O negócio progrediu, apesar de haver até oito lojas de tecidos em Dauphin no começo dos anos 30. Max Goffman conseguiu comprar uma casa no bairro de N orth End, em Winnipeg, na época em que Erving estava pron­ to para cursar a escola secundária. Assim, a família, se m udou para Winnipeg, em 1937, enquanto Max ia e voltava de Dauphin a cada fim-de-semana.

Em 1952, quando se aposentou e vendeu a loja, ele era um membro respeitado da comunidade comercial de Dauphin - certamente não o dono de loja eternamente falido de

Raisins and Almonds

(Maynard, 1964).2

Instantâneo 2

Maio de 1939, noite do baile de estudantes na escola técnica secun­ dária

St. John’s,

voltada em grande parte aos filhos de imigrantes judeus (havia 17.000 famílias judias em Winnipeg, em 1939). De repente, sente-se um chei­ ro de ovo podre: é a despedida de “Pooky” a seus colegas. Assim conta a história. Goffman é louco por química, um aluno brilhante, mas bastante tra­ vesso...

Erving Goffman: o que é uma vida? 0 incômodo fa^ er de uma biografia intelectual 17

Instantâneo 3

Verão de 1943, no gramado em frente ao prédio do

NationalFilm Board,

em Ottawa. Goffman está comendo um sanduíche com seu colega de quarto Alan Adamson e outros companheiros não-identificados; passa o verão em­ brulhando caixas de filmes que são despachadas para todo o país para “m os­ trar o Canadá aos canadenses”, como diz o lema do

National Film Board

(NFB). E provável que ele tenha entrado em contato com a equipe e parte das técni­ cas dos documentários de Grierson, como Alan Adamson dirá posteriormen­ te. Eram tantos os filmes produzidos no NFB (320 em 1945) e as pessoas jovens e brilhantes para discuti-los (Dennis Wrong entre eles) que Goffman não pode ter saído ileso.

Instantâneo 4

Outono de 1944, Universidade de Toronto, D epartam ento de Eco­ nom ia Política. Em um a aula de sociologia, vai-se estudando.aos poucos

Fe

Suicide

, de Durkheim, ainda não traduzido para o inglês. E rving está lá, com

seu amigo Dennis W rong e sua amiga e confidente Liz Bott. O professor, que usa toga completa, é Charles W illiam M orton Hart, um antropólogo que havia estudado com Radcliffe-Brown, em Sydney, no final dos anos 20,

2 FredeUe Biusar Maynard (1964), a filha de um proprietário de armazém que fica se mudando de uma cidade para a outra quando seus sucessivos negócios fracassam, descreve sua juventude como jovem judia em Manitoba.

(16)

especialista na cultura dos T iw i do norte da Austrália. Tem a unha do dedo m ínimo da mão direita longa, como sinal de sua iniciação, e adora dram ati­ zar suas aulas, que podem ser resumidas na frase “tudo é socialm ente deter­ m inado” . Caminha por entre as fileiras de cadeiras do auditório. D e repen­ te, ele pára, cobre a cabeça com a parte de baixo da toga, como um fotógra­ fo antigo, e aponta o dedo m ínim o direito ao estudante que deve responder à questão. Goffman adora esta cena e, ao final do ano, conhece a principal obra de Durkheim.

Instantâneo 5

Primavera de 1945, em um bar local próximo à Universidade de To­ ronto. Há um círculo de estudantes em torno de um jovem professor chama­ do Ray Birdwhistell, vindo do Departamento de Antropologia da Universida­ de de Chicago, onde completa sua dissertação sob a supervisão de Lloyd Warner. Está ensinando seus alunos a definir socialmente as pessoas, com base na escala de estratificação de Warner.

RB: 0

que vocês acham daquela jovem senhora

?

Estudantes:

Sem dúvida, as roupas, o modo como ela toma sua bebida

ela

é CMA (classe média alta).

RB:

Q ue é isso

?

Olhem os sapatos, olhem as sola s! E la é

definitivamente CMB (classe média baixa).

Goffman está impressionado. Que tal ir a Chicago e trabalhar com Warner? Seus amigos são mais atraídos por Parsons e Merton, que haviam ido recrutar no campus naquela primavera — mas Liz também gosta de Chicago.

Instantâneo 6

Algum momento em 1947, cerca de meia-noite, em um a pequena “es­ pelunca” na esquina da rua 63 com Woodlawn, em Chicago. Erving Goffman fala sem parar com seu amigo Saul Mendlovitz. Quando ele chegou a Chica­ go, no outono de 1945, havia por lá um a grande quantidade de estudantes beneficiados pela

“G.L B ilt’

— a legislação privilegiando os soldados que ha­ viam servido na Segunda Guerra Mundial — mas ainda poucos professores. Em Sociologia, havia em torno de 200 estudantes de pós-graduação para cer­ ca de dez professores. Assim, as conversas que os estudantes tinham entre si, sobre suas leituras, experiências e idéias, eram as melhores disciplinas. Goff­ m an e Mendlovitz pertencem a um círculo m eio indefinido de estudantes cujos nomes vão se tornar bem conhecidos mais tarde (incluindo Howard Becker, Jerry Carlin, Fred D avis, Eliot Freidson, Joseph Gusfield, Robert Habenstein, Richard Jeffrey, W illiam e Ruth Kornhauser, Kurt e Gladys Lang, Hans Mauksch, Bernard Meltzer, G reg Stone, W illiam Westley).

(17)

Saul e Erving costumam comer juntos à noite e “falam como; rabi­ nos”, como Saul me dirá mais tarde. Sobre Freud, cuja obra Goffman domina bastante bem; sobre Proust, a quem ele admira muito; sobre Gustav Ichhei- ser, um fenomenologista austríaco exilado em Chicago, solitário e raivoso, cujos artigos Mendlovitz passou a Goffman; sobre Kenneth Burke, que ofe­ receu um seminário naquele ano na Universidade de Chicago, e que faz pia­ das muito apreciadas por Goffman.

Chicago está explodindo em idéias e visitantes brilhantes, nem tanto na Sociologia, um departamento que está envelhecendo e que fica em rixas o tempo todo, mas em toda a parte, como em Ciências Sociais II, um im portan­ te curso de graduação oferecido na faculdade por gente como Daniel Bell, C. Wright Mills, David Riesman, Bruno Bettelheim e outros. Goffman está lá, em alguma parte, devorando tudo.

Instantâneo 7

Em algum momento no final dos anos 40, em algum lugar em Chica­ go. Erving Goffman está trabalhando duro com os dados que coletou no ou­ tono de 1946, administrando o Teste de Apercepção Temática (TAT) a cin- qüenta mulheres de classe média alta na área de Hyde Park, devendo apre­ sentar uma tese de mestrado, mas a relação que Lloyd W arner quer que ele perceba entre status sócio-econômico e personalidade simplesmente não apa­ rece. Desapontado com o TAT de Murray — não pode aceitar a clássica opo­ sição entre “resposta objetiva” e “resposta projetiva” — decide desenvolver um a comparação entre “respostas diretas” (o sujeito reage à im agem como se ela representasse a realidade) e “respostas indiretas” (o sujeito evita, de vári­ as maneiras, reagir à situação representada). Ele constrói uma relação entre o estilo de vida dos sujeitos e suas preferências de respostas. No último capítu­ lo de sua tese,

Some Characterístics o f 'Response to Depicted Experience

(Goffman, 1949), descreve com evidente prazer etnográfico o modo como os sujeitos do tipo “resposta dileta” se comportam: sentam-se com uma postura ereta, bem vestidos e tensos, e têm, na m esa de centro, a revista de decoração

Better

Homes and Gardens.

São muito diferentes das mulheres “resposta indireta”,

que se emoscam no sofá, vestindo um a camisa masculina, a revista

Neiv Yorker

sobre a mesa, próxima a um par de calças que elas provavelmente não se preocuparam em esconder do visitante. São tão descompromissadas em suas respostas quanto o são em seu estilo de vida.

Por fim, ele tem sua “Tese apresentada à Faculdade da Divisão de Ciências Sociais como requisito ao grau de M estre em Ciências Flumanas (MA,

Master o f A rtsff.

Não é um exercício warneriano diligente, nem uma etnografia fiel, ao estilo de Hughes; já é um trabalho bastante pessoal, embo­

(18)

ra não do tipo que Goffman apresentará mais tarde. N a verdade, ele jamais voltará a tocar em sua tese de mestrado.

Instantâneo 8

M arço de 1950. Os “eventos sociais” estão em pleno em balo no salão do vilarejo de Baltasound, na ilha de Unst, no arquipélago de She- tland. Jean Andrews e A lice Simon, as garotas m ais bonitas da com unidade, dançam com um parceiro após outro. Goffman não dança, preferindo con­ versar com o grupo de homens com quem joga bilhar todas as segundas e sábados. “Peerie” Goffman — como é conhecido na ilha — percorreu um longo caminho. Quando surgiu “do nada”, como disse o adm inistrador do hotel, em dezembro de 1949, ninguém poderia im aginar quem era e por que um forasteiro quereria vir e ficar em Unst, a últim a das Ilhas Shetland? Por que ele caminha pela ilha com suas enormes botas, o tempo todo? Por que sempre carrega uma câmera, e das sofisticadas: uma Leica, da Alem anha? Talvez seja um espião...

O mito logo foi desfeito. No final das contas, era um cara comum, mesmo que não falasse muito. No início, ficou no hotel com o Dr. Wren e sua esposa, depois comprou um a pequena cabana atrás do m esm o hotel, cuja cozinha continuou freqüentando para fazer suas refeições, com o cozinheiro e as duas empregadas. Uma delas o visitava regularmente em sua cabana, mas nunca pensou que ele pudesse lhe fazer algum mal. Ele pediu-lhe diversas vezes para “organizar uns triangulinhos estranhos” ou para lhe contar históri­ as sobre “umas imagens cinzas esquisitas” que tinha. Ela nunca entendeu o que ele queria; sua cabana era cheia de livros e ele pedia a ela para ler umas páginas em voz alta enquanto ele sentava na cama e ria. Na verdade, Goff­ man tinha pouca chance de rir ou mesmo de falar, já que os habitantes da ilha eram taciturnos. As únicas ocasiões onde se podia conversar eram durante os jogos de bilhar, nos “eventos sociais” e nos casamentos. Ele sempre compa­ recia, mas jamais se impôs a uma família. De certo modo, apenas viveu perto da comunidade, e não dentro dela.

Instantâneo 9

Primavera de 1953, Universidade de Chicago, D epartam ento de So­ ciologia. D ia de defesa de Tese: o departam ento inteiro está presente. E o dia da verdade de Goffman. Ele sua — não só por ser um dia quente de prim avera, mas também porque o questionam ento é duro. Lloyd W arner não está muito contente com o trabalho, ele havia enviado G offm an até seu velho am igo Ralph Piddington, em outubro de 1949, para ajudá-lo a dar início ao novo D epartamento de Antropologia Social [da U niversidade de

(19)

Edim burgo]. Depois de apenas uns poucos m eses, G offm an partira para aquela m inúscula ilha no arquipélago de Shetland e, ainda por cima, o que ele apresenta agora nem mesmo é um bom estudo sobre a comunidade. O próprio Goffman afirm a isso muito claramente na página 8 de sua disserta­ ção, que se intitula

Communication Conduct in an Island Communitj.

“este não é um estudo

sobre

um a comunidade: é um estudo que ocorreu

em

um a com u­ nidade.”

Everett Hughes também não está muito satisfeito. Que jargão novo é esse sobre “euforia” e “disforia” na interação? O que é esse negócio todo sobre conversações? Ainda por cima, considera o paralelo de Goffman entre a “ordem da interação” e a “ordem social”, de Parsons, no capítulo de abertu­ ra da dissertação, um pouco irritante.

Anselm Strauss, que era o terceiro examinador, já que Blum er havia partido recentemente para Berkeley, mais do que qualquer outra coisa, obser­ vou os dois homens. Estava estupefato com a capacidade de Goffman de deixar uma gota de suor rolar nariz abaixo enquanto dedicava-se atentamente a responder um a questão... Outra pessoa que estava na platéia e deve ter notado aquela gota foi a mulher de Goffman, Angélica Schuyler Choate, com quem ele se casaria em julho de 1952. Nascida em Boston, em 1° de janeiro de 1929, era uma brâmane pura. Seu pai era o editor do

Boston Herald

, e ela veio estudar psicologia e desenvolvimento humano na Universidade de Chi­ cago. Os amigos de Goffman nunca a conheceram muito bem, embora hou­ vesse rumores de que fosse tímida, frágil - e muito rica.

Instantâneo 10

Outubro de 1956, Princeton. Esta é a terceira conferência sobre “Pro­ cessos Grupais” sendo promovida pela

Josiah Macy Jr. Foundation,

com a pre­ sença de um grupo bastante seleto de intelectuais. O nome de Goffman foi sugerido por Ray Birdwhistell, que foi indicado por Margaret Mead. Ele aca­ bara de completar um ano de trabalho de campo no

St. Eligabeths,

um hospital psiquiátrico com 7.000 leitos, em Washington, D.C.

Sua apresentação se baseia na idéia do hospital como “processo me- tabólico”, uma analogia irritante para muitos dos delegados, que o interrom­ pem o tempo todo com seus comentários. A crítica mais agressiva vem de M argaret Mead:

Goffman:

Essa palavra ainda a incomoda?

Mead:

Sim.

Goffman:

M e apresente outra, e eu a usarei. Admissão? Expulsão?

Fremont-Smith:

Admissão, liberação.

Barron: O

processo não é cíclico.

(20)

22 Erving Goffman — desbravador do cotidiano

Mead:

Eu também não gosto muito de processos mecânicos. Por

que você não descreve o processo como ele ocorre em uma

instituição total?

Goffman:

Vou tentar, mas quero frisar que são processos orientados

para a ingestão e regurgitação de pessoas. Eu quero uma

palavra que dê conta disso. De agora em diante, visarei

metabolismo entre aspas, se é o que vocês querem.

Mead: Bateson: Goffman:

Que tal “processamento de pessoas”?

‘Processamento de pessoas” é aceitável para todos? Há

alguns sentimentos morais aflorando nesta discussão, que

eu espero que não surjam muito frequentemente.

(Shaffner 1957: 121-2) Ao longo de toda a sessão de quatro dias, Goffman atua na defensiva. O que o grupo provavelmente não entende é o seu sentimento de sufocação nesse grupo de distintos cientistas sociais, muitos dos quais são psiquiatras. Ele é o único que passou um ano “do outro lado”, junto aos doentes mentais, de jeans e camiseta, sem um molho de chaves preso ao cinto.

Instantâneo 11

Algum momento no final de 1959. Erving Goffman aguarda para ser confirmado no cargo, mas acredita que seu contrato não será renovado e está pronto para deixar a academia. Em 1957, foi convidado por Herbert Blumer para ingressar no Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, para ocupar a vaga de Psicologia Social, deixada pela partida de Tamotsu Shibutani. Em primeiro de janeiro de 1958, foi contratado como “professor-assistente visitante”, com salário anual de US$ 6.840.

Em 1959, “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” foi um suces­ so imediato, e o nome de Goffman foi ficando cada vez mais conhecido na área. Ainda assim, o comitê revisor, liderado por Andreas Papandreou, então titular do Departamento de Economia, enfrenta um dilema. Pelo menos dois membros do comitê estão em dúvida quanto à solicitação: Bendix está des­ contente com seu conteúdo e Blumer não tem uma boa impressão da perso­ nalidade de Goffman. O trabalho é considerado muito suave, muito literário, enquanto a pessoa parece ser muito ríspida, muito difícil.

Mas as cartas (de Riesman, Hughes, Sarbin, Cottrell, Schneider) pro­ vavelmente ganham a votação — Hughes até o descreve como “o nosso Sim- mel” . Goffman é promovido a “Professor-associado — Nível 1” e, em prim ei­

(21)

ro de janeiro de 1960, o salário anual é de US$ 7.920. Ele leciona por um semestre e então pede uma licença não-remunerada de seis meses. Depois, permanecerá na academia, mas evitará lecionar, sempre que possível.

Instantâneo 12

Primavera de 1962, o seminário de pós-graduação de Goffman é so­ bre “Contratos Sociais”, onde ele trata os alunos com dureza, questiona-os e os provoca. Apenas dois dos mais velhos têm a audácia de lhe responder, comportamento que ele parece aprovar.

Um dia, ele formula uma idéia e — poucos minutos depois — toma a posição contrária. Uma das alunas mais velhas levanta a mão e aponta sua contradição. O professor faz uma longa pausa (seus longos silêncios são fa­ mosos), e diz: “senhora Frederickson, não seja tão nostálgica”.

Instantâneo 13

Algum momento de 1965, uma carta estranha chega ao escritório do presidente da Universidade da Califórnia, vinda do D epartamento de Polícia de Las Vegas. Estão sendo feitas investigações sobre alguém chamado “Goff­ man, Erving (altura: l,65m )” que afirma ser professor no Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia, Berkeley. A polícia diz ter recebido protestos de gerentes de cassino locais que vêem esse tal Goffman como um “elemento perturbador” em seus estabelecimentos.

Por anos, Goffman freqüentou regularmente cassinos em Reno e Las Vegas. No começo, vai acompanhado por sua esposa, em seu automóvel M organ e, uma vez lá dentro, eles fazem a contagem das cartas. Os dois sabi­ am como tabular os números rapidamente e ganhar no “vinte-e-um ”.

No final dos anos 60, Goffman fazia estas expedições sozinho. Vesti­ do para a ocasião, sempre com calças com bolsos extra-longos, chegou até mesmo a freqüentar uma escola de treinamento para crupiês, não jogando somente pela “diversão”, mas também por razões etnográficas, pois queria fazer um livro e vários artigos a partir desse trabalho de campo. Goffman produziu

Where the Action Is,

em 1967 (como segunda parte de

Interaction Ritu­

al),

mas o livro prometido jamais se materializou. Em algum lugar, deve ha­ ver um manuscrito...

Instantâneo 14

Walnut Street, Filadélfia, no final dos anos 70. Erving Goffman visita a loja de antigüidades do Sr. Mead. Os dois sabem muito quando o assunto é mobília de carvalho inglesa, ambos são profissionais; às vezes, se encontram em leilões restritos. Goffman adora pessoas como o Sr. M ead, que são de

(22)

verdade, não como muitos acadêmicos superficiais que não conseguem re- dargüir, que não conseguem aproveitar a vida, uma boa refeição, uma bela garrafa de vinho.

Instantâneo 15

Maio de 1982, em Lyon, França. Goffman fala a sociólogos franceses sobre o tópico “Microssociologia e História” . Não preparara um artigo devi­ do, segundo ele, “a um evento independente de minha vontade — o nascimen­ to de minha filha”. A medida que fala, vou traduzindo sua palestra para o francês, uma operação de risco, mas tudo vai bem. Conversamos brevemente após o término da sessão, e ele diz: “muito bem, m eu chapa, nos encontramos em Florença” . Nunca terei a chance de ir àquela conferência em Florença. Nunca terei a chance de ver Goffman novamente.

* # sf: 3j< ífc

24 Erving Goffman — desbravador do cotidiano

Do roteiro à prancheta

A apresentação destas “cenas” poderia continuar por um bom tempo. Muitas biografias são feitas desta maneira, mesmo as assim chamadas biogra­ fias “intelectuais” ou academ icam ente legítimas. As biografias intelectuais pretendem iluminar o trabalho literário de um autor para descrever um perío­ do específico da história, o qual foi vivido, se não configurado, pelo persona­ gem em estudo, ou explicar o desenvolvimento de uma ciência através de um a invenção ou descoberta feita por ele. São “intelectuais” porque se con­ centram nas contribuições literárias, políticas ou científicas que o biografado deixou para sua sociedade. Mas tais biografias parecem sugerir que as pessoas viveram apenas para escrever livros, fazer história ou criar disciplinas. Em outras palavras, as biografias intelectuais costumam ser ingênuas e acríticas; falta-lhes a capacidade de auto-reflexão que se exige como premissa básica do fazer acadêmico.

Estas considerações me levaram a repensar meu projeto e esclarecer alguns dos pressupostos que o guiaram até aqui. Entendi que era essencial tornar explícito o caráter de construção desta biografia intelectual: que tanto

o

opus operaUm

quanto o

modus operandi

deveriam ser apresentados abertamen­

te ao leitor.

Em primeiro lugar, retornemos aos instantâneos. A gi como se toda a vida de Goffman tivesse possuído um único propósito, que era produzir li­ vros e artigos acadêmicos. Selecionei eventos que podem ter tido um valor explicativo com relação a seu trabalho intelectual, ou, pelo menos, servir

(23)

como uma fonte de esclarecimento a esse respeito. O resto foi descartado, não tanto por fazer parte de sua vida privada, mas porque não ajudava — ou eu não consegui ver como poderia ter ajudado — o leitor a desenvolver um conhecimento mais profundo sobre seu trabalho intelectual. Foi definitiva­ mente uma perspectiva distorcida e tendenciosa sobre a vida de alguém, em­ bora tenha um certo fascínio modernista. Do ponto de vista de um cientista social, oferecer este tipo de biografia de Goffman é uma falsa ingenuidade, porque as “cenas” escolhidas como componentes da narrativa são amostra­ gens muito seletivas e cada uma é, ela mesma, composta de elementos alta­ mente seletos. Embora possam ser apresentadas como “histórias”, elas impli­ citamente aludem a momentos críticos ou fundamentais na vida do “herói”, sugerindo relações de causa e efeito, como imagens escolhidas para ilustrar o efeito de Kuleshov.

De uma perspectiva teórica, os nexos causais sugeridos precisam ser cuidadosamente analisados, do menos ao mais satisfatório. Utilizei cinco es­ tratégias para mostrar de que modo a vida de Goffman “explica” sua obra. Segue uma revisão crítica destas estratégias.

1. “Influências”

O primeiro tipo de “nexo” é muito comum e se costuma considerá-lo como dado, tendo a ver com “influências” de natureza pessoal e/ou intelec­ tual. As biografias tradicionais e a crítica literária “externa” baseiam-se muito nessas “causas” vagas, muitas vezes tendendo a um viés psicológico, quando não psicanalítico. Nunca há uma maneira de confirmar ou contradizer defini­ tivamente tais “influências”, o que provavelmente explica porque é tão difícil evitá-las; elas retornam repetidas vezes ao modo de pensar do biógrafo, e são descartadas porque não podem ser confirmadas - e então recuperadas e reco­ locadas porque não podem ser refutadas.

De minha experiência pessoal, devo admitir ter usado vários tipos de “influências”, o que provavelmente é feito por todos os biógrafos. Na verda­ de, os críticos literários ganham a vida com esta atividade, usando inform a­ ções baseadas na descoberta de uma influência oculta, na negação de uma influência bem documentada e assim por diante. Entretanto, uma ampla dis­ cussão das influências não é muito útil, de meu ponto de vista, mas deve-se confrontá-las, nem que seja para exorcizá-las. Assim, aqui está uma tabela de “possíveis influências” na vida e obra de Goffman, onde as influências de indivíduos são opostas a influências de “meios”. Os impactos são categoriza­ dos em três níveis: pessoal, intelectual e pessoal/intelectual. Uma divisão temporal foi feita em 1953, antes e depois de seu PhD. Para ilustrar este ponto, Dennis Wróng, o amigo canadense de Goffman, pode ser visto como

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uma influência pessoal no curso de sua vida, pois parece ter sugerido que ele viesse à Universidade de Toronto em 1944 (Wrong, 1990: 9). Mesmo não tendo tido um impacto intelectual direto, pode ser considerado como uma “influência” em uma biografia intelectual porque, em última análise, desem­ penhou um papel na configuração do trabalho posterior de Goffman. Ao con­ trário, Freud, Durkheim, Sartre ou Proust podem ser considerados como in­ fluências “intelectuais” embora Goffman jamais os tivesse encontrado, é cla­ ro.3 Mas ele conheceu pessoalmente, e foi encorajado, por intelectuais como C. W. M. Hart e Ray Birdwhistell, que podemos considerar como “influências pessoais e/ou intelectuais”. A mesma linha de raciocínio pode ser tomada para influências coletivas ou “do meio”. (Veja tabela abaixo.)

26 Hrving Goffman — desbravador do cotidiano

Possíveis influências A n o s iniciais (até o P hD , 1953) Ú ltim os anos (após o PhD )

w

Nível pessoal E. Bott, A. “Sky” Choate, E Goffman, D. Wrong

H. Glassic, 11. Jcffrey 0

3 Nível intelectual K. Burke, C. I-I. Coolcy, Ji. Durkheim, R. Barker, A. Schuta,

TJ

I

TJ

3

S. Ercud, G. Ichhciscr, G. PI. Mcad, T. Parsons, M. Proust, G. Simmcl, etc.

W James, etc.

Nível pessoal lt. Birdwhistell, C.W M. Hart, G. Bateson, 1-I.S. Beckcr, n

0

fc

e intelectual E. C. Hughes, W L. Warner, etc. H. Garfinkel, D. Hymes, W 1 „abov, E. Lcmert, S. Messinger, H. Sacks, G. Sankoff, T. Schelling,

J. Scherzcr, ÍI. Wilensky, etc. Nível Pessoal Dauphin, como pequena comunidade

rural, predominantemente não-judia.

Meio dos antiquários da Filadélfia.

0 Nível intelectual Espírito “Hip”, no final dos Movimento “Crack

in

the •H

tu anos 50, início dos 60 na costa Mirror” nas artes c ciências

t

oeste americana. sociais dos anos 70.

0 Nível pessoal NEB cm Ottawa, 1944-5 St. Elinabcths Hospital H

ü e intelectual Universidade de Chicago no Cassinos em llcno, Las Vegas

Ph final dos anos 40 c Atlantic City

Ccntcr for Urban Ethnography, na Universidade da Pensilvânia 3 Em uma entrevista com a biógrafa francesa de Sartre, Annie Cohen-Solal, Goffman confirmou que

nunca o conheceu (Cohen-Solal, 1987: 276-7). Surpreendentemente, a influência do existencialismo sartreano na obra de Goffman é um dos tópicos mais discutidos na crítica literária sobre o autor.

(25)

Como a tabela mostra bem, essas “possíveis influências” são precisas demais ou vagas demais. Não importa quanto tempo e atenção eu dedique a reconfigurá-las, elas continuarão inconclusivas e frustrantes, pois só podem se apoiar em um modelo impreciso de “estímulo-resposta” . As “influências” são necessariamente constituídas desta maneira. O melhor modo de lidar com elas é estabelecê-las e, em seguida, deixá-las ali, como estiverem. Como, en­ tão, poderiamos conceituar a relação entre vida e obra de uma maneira mais adequada do ponto de vista teórico? Eu sugeriria que se pode avançar em um a conceituação mais adequada aplicando de forma criativa algumas das idéias de Pierre Bourdieu.

2. “Habitus”

Quando “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” (Goffman, 1959)

e

Kelations in Public

(Goffman, 1971) foram ambos traduzidos para o francês,

em 1973, sob o título

La Mise en Scène de la Vie Quotidienne,

o sociólogo parisi­ ense Luc Boltanski escreveu um ensaio introdutório chamado

“Erving Goff­

man et le temps du soupçotP

(Boltanski, 1973). Empregando diretamente o es­

quema conceituai de Bourdieu, ele sugere a seguinte hipótese:

De modo a entender a idéia fundamental que subja

^

à obra de Goffman e que

define sua percepção específica do mundo social, de acordo com a qual as relações

individuais são sempre (como nas relações entre Estados-nação) relações de poder

baseadas em simulações, deve-se recuar na gênese da obra, além do momento

arbitrário quando a obra é objetificada no código escrito, e mesmo além do período

em que, através de um treinamento profissional racional, o autor adquire o

habitus

científico para alcançar as experiências sociais antecedentes que constituem

o

habitus

de classe: um

habitus

científico nunca ê totalmente independente do

habitus

de classe pré-existente sobre o qual é construído, de modo que qualquer

trabalho científico sempre sintetiza, como qualquer obra literária, a trilha da

trajetória social de seu produtor.

(Boltanski, 1973: 128)

O próprio Boltanski não busca as “experiências sociais antecedentes” que formaram o

habitus

de classe de Goffman, e apenas faz alusões à forma­ ção de seu

habitus

científico. Assim, tomei a decisão de responder a seu con­ vite de forma empírica.

Valéria a pena traçar as origens do conceito de

habitus,

conforme uti­ lizado por Bourdieu em muitos textos. O sociólogo francês começou a usar esse termo latino medieval após traduzir

Gothic A.rchitecture and Scholasticisms,

de Panofsky (1957) para o francês, em 1967. Panofsky tomou o termo em­ prestado de S. Tomás de Aquino (1225-74), que o usou para definir as virtu­ des.

ELabitus

é a forma supina de

habere,

que significa tanto “ter” quanto “ser”. U m homem virtuoso o é porque incorpora completamente certos modos de

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ser e, faça o que fizer, será virtuoso; a virtude tornou-se o seu modo de ser. O mesmo processo fica evidente quando um arquiteto gótico que aprendeu por meio de categorias escolásticas as reproduz espacialmente no projeto de suas igrejas. Tais

principies ad actum

não são idiossincráticos, eles pertencem a um dado grupo ou classe social e, portanto, contribuem para a manutenção da ordem social. Essa foi a nova contribuição do pensamento de Bourdieu, que definiu

habitus

de várias maneiras, mas tendo como termo-chave a “disposi­ ção” , uma inclinação ou propensão para alguma coisa.

Habitus

é um

modus

operandi,

um “princípio gerativo solidamente instalado de improvisações re­

guladas” (Bourdieu, 1977: 78).

Como, então, poderiamos reconstituir o

habitus

de Goffman? E fácil localizar sua aquisição de um “

habitus

científico” — ou seja, sua formação explícita — na Universidade de Chicago, no final dos anos 40. Eu diria que o essencial para compreender o “habitus científico” de Goffman não é tanto dominar autores como George Herbert Mead ou Georg Simmel, nem m era­ m ente uma questão de adquirir competência em métodos etnográficos de coleta de dados. Assim como todo o grupo de sociólogos de Chicago que obtiveram seu PhD na virada da metade do século, Goffman desenvolveu de fato uma certa disposição para com o mundo, que guiou suas percepções, apreciações e ações ao longo de suas carreiras dali em diante, à qual se pode chamar de

“habitus

de Chicago”, constituído de três “princípios gerativos”.

O primeiro princípio dos “chicagoanos” é que eles precisam ver para crer. O mundo “lá fora” é real, e isso tem precedência sobre os conceitos e teorias utilizados em sua apreensão sociológica. Joseph Gusfield recorda uma piada que seus pares costumavam contar, mais ou menos assim: uma tese sobre a sociologia da bebida alcoólica em Harvard se chamaria: “Modos de alívio cultural em sistemas sociais ocidentais”; em Columbia: “Funções la­ tentes do uso de álcool em uma amostra nacional”; e em Chicago: “Interação social no Jimmyh: um bar na rua 55” (Gusfield, 1982). A despeito do fato de Goffman jamais ter publicado relatos etnográficos completos de suas experi­ ências em trabalho de campo, sua atitude básica era orientada pelos dados. Lembremo-nos de seu apelo por “teorias de alcance menor” (Goffman, 1981b), ou da frase muito citada de

Manicômios, Prisões e Conventos

: “melhor, talvez, diferentes casacos para agasalhar bem as crianças do que uma única e esplên­ dida tenda, na qual todas tremam de frio” (Goffman, 1961a: xiv).

Em segundo lugar, como a história de Gusfield ilustra, há sempre uma ponta de ironia no “modo Chicago” de ver o mundo. Este humor torto está muito presente nos escritos de Hughes e aparece constantemente nos de Goff­ man, é claro. Os sociólogos de Chicago daquele período parecem dizer ao gru­ po estudado: “teorias não vão me comprar, e tampouco vocês me comprarão,

(27)

não importa o quão profundamente eu os respeite.” Como Hans Mauksch for­ mulou certa vez: “não importa o quanto você se importe, o quão a sério se leve, nunca estará totalmente entregue, nunca será totalmente cooptado” (McCart- ney, 1983: 457). Além do mais, este aspecto do “

habitus

de Chicago” não é apenas uma questão de acuidade crítica, é uma postura epistemológica, uma maneira de “quebrar o espelho da ilusão”,

co tã o

diria Bachelard, e serve como fonte de resistência à simples incorporação das definições dos atores sobre seus papéis e visões de mundo ao trabalho sociológico. Tampouco é apenas uma questão de cinismo, o que nos leva ao terceiro princípio gerativo desse tipo de sociólogo de Chicago. Ele não é “benfeitor”, nem assistente social — mas sabe de que lado está (para citar um famoso artigo de Howard S. Becker). Sua postu­ ra é

“cooP.

Dos choferes de táxi de Davis aos alcoolistas de Gusfield, dos músi­ cos de jazz de Becker aos pacientes mentais de Goffman, há uma continuidade de atitude. Ela é swiftiana na inspiração - mas certamente não é desiludida.

Já se pode dizer que temos uma primeira idéia da matriz intelectual de Goffman, compartilhada por seu grupo de Chicago, mas podemos acrescen­ tar que sua possível formação cinemática no

National Film Board

é um ele­ mento ímpar em sua formação intelectual inicial. Ele deve ter aprendido em Ottawa o que significava produzir um documentário — e se pode dizer que produziu documentários a sua vida inteira, de forma escrita. Pode-se mesmo afirm ar que desenvolveu uma teoria da produção de filmes “de verdade”:

Frame Analjsis

(1974). Então se pode sugerir que a experiência no NFB pro­

porcionou-lhe uma primeira “força formadora de hábito”, como Panofsky costumava dizer. E claro que grande parte disso é inteiramente hipotética, mas muitos elementos da vida de Goffman tendem a sustentar essa interpre­ tação. Um exemplo citado por um de meus informantes é de que Goffman só se sentia confortável lecionando quando tinha slides para mostrar. Aqui nós vemos algumas técnicas analíticas tipicamente goffmanianas: a apresentação de recortes da vida, montados à vontade com o controle correspondente so­ bre a observação e a interpretação (ver também Watson, neste volume).

Boltanski (1973:128) sugeriu que fôssemos além desse

habitus

cientí­ fico para “alcançar as experiências sociais anteriores, que constituem o

habi­

tus

de classe”. Levar esta recomendação a sério é arriscado. Em Berkeley, em 1987, enquanto estava tentando encontrar algum padrão na m assa de dados que havia acumulado, descobri o livro de John Cuddihy

The Ordeal o f Civilitj:

Freud, Marx and Uvi-Strauss and the Jemsh Struggk mth Modernity

(1975). Em­

bora Cuddihy cite Goffman muito, não usa sua vida e sua obra como estudo de caso. O que me chocou foram os paralelos entre as trajetórias de Freud e de Goffman. Nos dois casos, a vida parece ter informado a obra e vice-versa, como se a obra houvesse programado a vida. Este é o terceiro “nexo” que

(28)

quero fazer entre a vida de Goffman e sua produção intelectual, melhor con­ cebido como um círculo do que como uma seta.

3. A obra como autobiografia

Freud era filho de um comerciante que carregava suas mercadorias èm uma carroça, por toda a Morávia. O próprio Freud ascendeu lentamente através da alta burguesia vienense. Cuddihy (1975) vê a elaboração da psica­ nálise como um mecanismo utilizado por ele para controlar os últimos vestí­ gios de seu passado, aparentemente usando seu trabalho para conduzir sua vida, e as lutas sociais de sua vida para produzir seu trabalho.

No caso de Goffman, o processo de ascensão social parece depender mais ainda da obra em processo. E como se o trabalho lhe fornecesse as cha­ ves que ele necessitava para progredir socialmente. O que descreve para ou­ tros, ele prescreve para si mesmo, de

Symbols o f class status

(1951) para

On face

work

(1955),

The nature o f deference and demeanor

(1956a) ou

Embarrassment and

social organi^ation

(1956b). O que é ainda mais intrigante no trabalho inicial de

Go f f ma n é o

diálogo constante, embora velado, com a psicanálise. O título

“A Representação do Eu na Vida Cotidiana” imediatamente ecoa “A Psicopa- tologia da Vida Cotidiana”, de Freud. Quando este fala de “sintomas”, aquele fala de “sinais”, como se estivesse desmedicalizando e ressocializando os in­ dícios cuidadosamente enterrados de Freud. Onde Freud “povoou o palco m ental com atores cujos personagens eram tirados da vida real”, como Ly- man e Scott colocaram (1989: 61), Goffman “moveu o teatro performático para fora da cabeça e para dentro dos lugares públicos” (Lyman e Scott, 1989: 65). Assim , há paralelos entre Freud e Goffman tanto no nível individual quanto no intelectual.

Este duplo paralelismo, desenvolvido aqui com fins heurísticos, gera uma m elhor apreciação da idéia de Boltanski (1973) sobre a síntese da traje­ tória social de Goffman em seu trabalho científico. De acordo com essa idéia, tudo aconteceu como se seus antecedentes provincianos o tivessem posto em um a trajetória ascendente, com o mal-estar e a ambivalência inevitáveis que tal trajetória produz. Durante os anos 50, Goffman desenvolveu trabalhos analíticos que o ajudaram a dominar as suas ansiedades de ator social em trânsito, acalmando-se gradualmente até acabar por escrever

Forms o f Talk

(Goffman, 1981a), um livro bastante técnico sobre a linguagem.

Ora, há uma falha grave na análise de

habitus

anterior: um a vez que o

habitus

de classe consiste em padrões cognitivos compartilhados socialmente,

porque existe apenas um Erving Goffman? Afinal de contas, muitos sociólo­ gos se formaram na Universidade de Chicago no início dos anos 50. Dizer que ele apresenta uma combinação singular de fatores não é suficiente; preci­

(29)

samos dar um passo à frente e localizar sua trajetória no campo de possibili­ dades oferecido a ele e a outros indivíduos com a mesma disposição (

habitus

) e mesma posição social, ao mesmo tempo. Este é o quarto nível de “explica­ ção”, que abre um método novo e extremamente trabalhoso de construção de biografias nas ciências sociais.

4. Do “habitus” ao “campo”

Quando Bourdieu comentou o manuscrito da versão francesa de mi­ nha biografia [de Goffman] em setembro de 1987, ele disse que eu havia me concentrado muito no

habitus

e não havia trabalhado suficientemente no “cam­ po”. Em um artigo de 1986, chamado

The biographical illusion

(publicado em inglês em 1987), Bourdieu fez uma crítica afiada à abordagem de “história de vida” que havia sido revitalizada na França por Daniel Bertaux e outros, ao mesmo tempo em que apresentava grandes desafios para qualquer biógrafo que quisesse operar como cientista social, e não como um cronista pronta­ mente satisfeito com noções fáceis de “influência”:

Tentar entender uma vida como uma série única e auto-suficiente de eventos

sucessivos (suficientes em si mesmos), e sem outros laços além da assoãação a um

“sujeito” cuja constância é, provavelmente, apenas a de um nome próprio, é

quase tão absurdo quanto tentar compreender o trajeto de um metrô sem levar em

conta a estrutura da rede, a matriz das relações objetivas entre as diferentes

estações... Em outras palavras, só se pode entender uma trajetória (isto é, o

social que é independente da idade biológica, embora a acompanhe inevitavelmentej

sob a condição de se terem constnádo antes os sucessivos estados do campo através

do qual a trajetória progrediu.

(Bourdieu, 1987: 8)

E verdade que, até aqui, m eu trabalho deixou Goffman quieto. Ele ainda é um indivíduo, não um “agente social” com uma determinada disposi­ ção (ou

habitus

) em uma dada posição no espaço social. Um agente “investe” e então “se move”, como Bourdieu sugere no mesmo artigo, com base em um campo de possibilidades.

Esta pèrspectiva requer não apenas uma enorme quantidade de da­ dos sobre os diferentes estados das ciências sociais dos anos 40 aos 80 (por exemplo, o número de estudantes de graduação e pós-graduação em sociolo­ gia, ao todo e em várias universidades, o número de professores e assim por diante) de modo a construir o “mapa do metrô”. Isso requer também a cons­ trução paralela de diversas biografias, de modo a ver como a trajetória de Goffman difere ou se assemelha aos caminhos tomados por seus companhei­ ros de Chicago. Já coletei uma certa quantidade de dados a esse respeito mas, à medida que avanço, algo estranho acontece. Embora eu reconheça que o procedimento é bastante pertinente do ponto de vista teórico, também é ex­

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