Animais
OS
HOMENS
QUE
QUEREM
LIBERTAR
OS
ANIMAIS
Em
vez de
se
ir
para a
internet
debitar
opiniões
iradas
sobre
os
direitos
dos
animais,
que tal
ler
alguns
livros
de gente que
estudou
e
sabe
do
assunto?
Uma
visita
aos
livros
de
pensadores
da ética Peter
Acabado
de almoçar umas beringelas
recheadas com uma abundante carne dentro, abri olivro Libertação Animal,
do filósofo daética Peter Singer, elevei a
bofetada daprimeira frase: "Este livro é sobre atirania dos animais humanos
sobre osnão humanos." Pousei aobra
emcima da mesa, junto à chávena de
café, e pensei: a almoçarada serviu para matar a
fome
-
ea gula-
deste animal humano tiranete que vos escreve.Um
bicho autocrata, sim, quequer melhorar, mas que
já
fez ascontas àvida e sabe que será tão fácil converter-se aovegetarianismo como opartido Vox organizar
uma festa reaggae.
Masestou aqui paraaprender. Epor isso visito
esta obra polémica e clássica, publicada em 1975.
Eoutras. Einteressante verificar que, logo no início dolivro, Singer faça questão deafirmar que não é,
digamos, grande fã de animais. Ede sublinhar,
com frases fortes, oque não ointeressa defender:
"Este livro não fazapelos sentimentais à simpatia
por animais 'fofinhos'." Noseu projeto, herdeiro dos movimentos de libertação dos anos 60,um
gato siamês doméstico que foi ao cabeleireiro vale
tanto como uma ratazana despenteada. Olivro é
destinado àspessoas quebatalham pelo fim da
opressão eda exploração "epretendem queo
prin-cípio moral básico da igual consideração de
inte-resses não serestrinja arbitrariamente à nossa
própria espécie". Estamos entendidos.
Singer coloca aluta contra o sexismo eoracismo
aolado do combate aoque designa como
especis-mo, preconceito contra osinteresses dos
mem-bros deoutras espécies. O seuponto é aigualdade
entre animais humanos enão humanos,
defendi-da há muito tempo pelo pensador inglês Jeremy
Bentham. Édaautoria deste habitante domundo
entre os longínquos anos de 1748 e1832a senten-ça inequívoca: "Poderá existir um dia emqueo
res-to da criação animal adquirirá aqueles direitos que
nunca lhe poderiam tersido retirados senão pela
mão datirania." Efoi elequeapontou a
capacida-dedesofrimento dos animais, reconhecível, como
nota Singer, pelo conjunto desinais exteriores e
por sesaber que animais como mamíferos e aves
têm sistemas nervosos muito semelhantes ao
nos-so.
Acompletar esta ideia está aapresentadapor Pedro Galvão, professor deÉtica, Filosofia Moder-naePensamento Crítico naFaculdade deLetras
daUniversidade de Lisboa, noutro livro que tenho
aqui em cima da mesa para amansar acrueldade
e,claro, fazer nascer aculpa: Ética com Razões,
edi-çãoda Fundação Francisco Manuel dos Santos,
datada de2015.
Conta Galvão que no dia7dejulho de 2012um
grupo decientistas das áreas dasneurociências apresentou publicamente a"Declaração de
Cam-bridge sobre aConsciência". Eoque diz a Declara-ção? Que existem várias provas aindicar que os
animais nãohumanos têm
-
por favor não dur-mam-"os substratos neuroanatómicos, neuro-químicos eneurofisiológicos deestadosconscien-tes", bem como a capacidade de apresentar
com-portamentos intencionais. Traduzindo aqui para o
Carlos Mário, meuparceiro antigo decafé: a bicha-rada também tem consciência.
Voltemos aSinger. Adado passo
-
página 160-,
osacerdote ético (não éuma crítica) ,volta a darum
murro amável no leitor-pecador :"Comprem um
bom livro decozinha vegetariana everificarão que
servegetariano não é sacrifício." Eoescriba volta a
lembrar a carne dentro da beringela. Epassa-lhe
pela cabeça a ideia de aproveitar ossaldos pré-na-talícios de algumas livrarias para trocar aElena Ferrante pelo receituário vegetal.
Umas páginas à frente, lança opânico entre os
comensais clássicos: opeixinho, porque sofre eé
emmuitos casos raro, também édeevitar eos
crustáceos, com células nervosas muito seme-lhantes àsnossas, devem ser deixados sossegados.
Acerteza do sofrimento dos peixes perante as for-mas como são capturados seráreforçada no livro Ética noMundo Real, de2016,onde sepode en-contrar uma reflexão, diremos, mais moderada:
"Precisamos de aprender acapturar ematar peixe demaneirahumanitária."
Alguns dos capítulos deste Ética noMundoßeal, que reforçam demodo atualizado as teses de
"li-bertação Animal", têm títulos curiosos: "Os ovos
éti-cosdaEuropa", "Se ospeixes pudessem gritar" e"Os
chimpanzés também são pessoas". Esteúltimo
ca-pítulo defende, apartir do caso deum chimpanzé denome Tony, aideia deque"pessoa" nãoserefere apenas aosseres humanos. Oschimpanzés, alega,
sofrem quando perdem entes queridos emuitos
têmcapacidade de previsão eantecipação. Para alémdisso, asmelhores agências de investigação médica jánão usam chimpanzés nos testes e expe-riências. Pedro Galvão exprime asuaideia desta
forma: "Se entendermos que aconsciência desi éa capacidade distintiva daspessoas, poderemos ter
dedizer, então, queos chimpanzés eosgolfinhos
são pessoas. Pessoas não humanas, mas pessoas."
Refira- seque opensamento de Pedro Galvão é
atrativo para quem considera que adúvida ea nuancesão necessárias para sechegar a
conclu-sões sobre problemas complexos. Ocapítulo "Além davidahumana" cria boaimpressão por
apresentar umpensamento menos linear do que
oadotado pelo militante Singer. Naintrodução ao livro, Galvão revela um desejo: "Espero que (...)
estelivro iniba aarrogância." Soberba dequem é
demasiado afetivo para serrazoável no que defen-de. "É queesta atinge mais facilmente quem ainda
não compreendeu como, emmuitas questões
éti-cas, édifícil descobrir onde paraaverdade." Defende: Por causa dasuavida mental, uma
grande parte dos animais teminteresses fortes.
Um
dele éo"interesse emnão sofrer". Segundo a tese deGalvão, há, no entanto, diferenças entre amorte deum animal humano eum animal não
humano. Osprimeiros perdem mais quando
mor-rem. Dois motivos. Aesperança devida dos
ani-mais costuma sersubstancialmente inferior à hu-mana. A morte deum animal nãoopriva de
"aper-feiçoamento moral, íMeteestético ebusca da compreensão darealidade".
Outra reflexão que fica deste livro aconselhável a
quem quer pensar estas questões com serenidade
éesta: noque toca aoconsumo de produtos
obti-dos pela criação intensiva deavesemamíferos há
quepesar entre o interesse dos humanos e o
inte-resse dos animais. É possível, diz, satisfazer
neces-sidades humanas dealimento, vestuário ecalçado sem recorrer a produtos de criação intensiva. Eé,
sublinha otambém organizador daantologia 05 Animais TêmDireitos?, porque há quem façao
es-forço deresistir àfacilidade de comprar oque está
mais àmão ouapreço mais baixo que"o mercado
oferece mais emelhores opções a queira comer,
vestir-se ecalçar-se recusando uma prática em queosanimais são muito maltratados sem verda-deiranecessidade".
Porfim, oscódigos easleis nesta matéria. No
queseprende com a legislação, Peter Singer faz
um balanço positivo. Alei, nota, está a começar a
mostrar sinais demudança. ASuíça, no ano de
1992,tornou-se oprimeiro país aincluir nasua
constituição uma declaração aproteger a digni-dade dos animais
-
eaAlemanha fez omesmo dezanos depois. AUnião Europeia, em2009, mudou
oseutratado fundamental, passando aincluir a declaração de que, sendo osanimais seres
mem-bros, "ao formularem políticas para agricultura,
pescas, investigação evárias outras áreas, têm de
'terdecididamente em conta asexigências de
bem- estar dos animais". Aposição de Singer, Pe-dro Galvão acrescenta, noseulivro publicado há
três anos,
oque sepassa emPortugal nomesmo domínio.
Oânimo émenor, considerando-se que opaís não éexemplo algum. "Os avanços significativos
neste domínio, como a proibição recente da
ven-dadecosméticos testados emanimais, têm che-gado ao nosso país apenas por iniciativa daUnião
Europeia." Aleinãofavorece, mas ocidadão é
li-vre de ser consciencioso
-
e,sim, ético. "Mas, como éevidente, aleiportuguesa não proíbenin-guém de levar asério osinteresses dos animais."