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Nietzsche - Aurora

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Academic year: 2021

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N

IETZSCHE

(3)

COLEÇÃO GRANDES OBRAS DO PENSAMENTO UNIVERSAL

1 Assim Falava Zaratustra Nietzsche

2 A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado Engels

3 Elogio da Loucura Erasmo de Rotterdam

4 A República (parte I) Platão

5 A República (parte II) Pla tã o

6 As Paixões da Alma Descartes

7 A Origem da Desigualdade entre os Homens Rousseau

8 A Arte da Guerra Maquiavel

9 Utopia Thomas More

10 Discurso do Método Descartes

11 Monarquia Dante Alighieri

12 O Príncipe Maquiavel

13 O Contrato Social Rousseau

14 Banquete Dante Alighieri

15 A Religião nos Limites da Simples Razão Kant

16 A Política Aristóteles

17 Cândido ou o Otimismo O Ingênuo Voltaire

18 Reorganizar a Sociedade Comte

19 A Perfeita Mulher Casada Luis de León

20 A Genealogia da Moral Nietzsche

21 Reflexões sobre a Vaidade dos Homens Mathias Aires

22 De Pueris A Civilidade Pueril Erasmo de Rotterdam

23 Caracteres La Bruyère

24 Tratado sobre a Tolerância Voltaire

25 Investigação sobre o Entendimento Humano David Hume

26 A Dignidade do Homem Pico della Miràndola

27 Os Sonhos Quevedo

28 Crepúsculo dos Ídolos Nietzsche

29 Zadig ou o Destino Voltaire

30 Discurso sobre o Espírito Positivo Comte

31 Além do Bem e do Mal Nietzsche

32 A Princesa de Babilônia Volta ire

33 A Origem das Espécies (Tomo 1) Darwin

34 A Origem das Espécies (Tomo II) Darwin

35 A Origem das Espécies (Tomo III) Darwin

36 Solilóquios Santo Agostinho

37 Livro do Amigo e do Amado Lúlio

38 Fábulas Fedro

39 A Sujeição das Mulheres Stuart Mill

40 O Sobrinho de Rameau Diderot

41 O Diabo Coxo Guevara

42 Humano, Demasiado Humano Nietzsche

43 A Vida Feliz Sêneca

44 Ensaio sobre a Liberdade Stuart Mill

45 A Gaia Ciência Nietzsche

46 Cartas Persas 1 Montesquieu

47 Cartas Persas II Montesquieu

48 Princípios do Conhecimento Humano Berkeley

49 O Ateu e o Sábio Volta ire

50 Livro das Bestas Lúlio

51 A Hora de Todos Quevedo

52 O Anticristo Nietzsche

53 A Tranqüilidade da Alma Sêneca

54 Paradoxo sobre o Comediante Diderot

55 O Conde Lucanor Juan Manuel

56 O Governo Representativo Stuart Mill

57 Ecce Homo Nietzsche

58 Cartas Filosóficas Voltaire

59 Carta sobre os Cegos Endereçada àqueles que Enxergam Diderot

60 A Amizade Cícero

61 Do Espírito Geométrico Pensamentos Pascal

62 Crítica da Razão Prática Kant

63 A Velhice Saudável Cícero

64 Dos Três Elementos López Medel

65 Tratado da Reforma do Entendimeno Spinoza

66 Aurora Nietzsche

(4)

F

RIEDRICH

N

IETZSCHE

A

URORA

TEXTO INTEGRAL

TRADUÇÃO

ANTONIO CARLOS BRAGA

(5)

Av. PROFª IDA KOLB, 551 CASA VERDE CEP 02518-000 SÃO PAULO SP

TEL.: (11) 3855-2100 FAX: (11) 3857-9643 INTERNET: www.escala.com.br E -MAIL: [email protected]

CAIXA POSTAL: 16.381

CEP 02599-970 SÃO PAULO SP

NIETZSCHE

AURORA

TÍTULO ORIGINAL ALEMÃO

MORGENRÖTHE

http://groups.google.com/group/digitalsource

DIAGRAMAÇÃO: CIBELE LOTITO LIMA REVISÃO: DENISE SILVA ROCHA COSTA E MARIA NAZARÉ DE SOUZA LIMA BARACHO

CAPA: CIBELE LOTITO LIMA

COLABORADOR: LUCIANO OLIVEIRA DIAS COORDENAÇÃO EDITORIAL: CIRO MIORANZA

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C

ONTRA

C

APA

Aurora, o d es p er t a r d e u m a n ova m or a lid a d e. E m a n cip a çã o d a

r a zã o d ia n t e d a m or a l. Um a vez qu e a m or a lid a d e n ã o é ou t r a cois a qu e a ob ed iên cia a os cos t u m es , d e qu a lqu er n a t u r eza qu e es t es s eja m , Aurora qu er r om p er es s a m a n eir a t r a d icion a l d e a gir e d e a va lia r . Por t a n t o, à m ed id a qu e o s en t id o d a ca u s a lid a d e aumenta, diminui a extensão do domínio da moralidade. De fato, a com p r een s ã o d a s liga ções efet iva s d a ca u s a lid a d e d es t r ói consid er á vel n ú m er o d e ca u s a lid a d es im a gin á r ia s qu e for a m s en d o ju lga d a s n o d ecu r s o d os t em p os com o fu n d a m en t os d a m or a l. O p od er lib er a d or d a r a zã o t em em s i a ca p a cid a d e d e d es m it ifica r s ign ifica d os s ocia is in s t it u íd os p ela t r a d içã o; o in d ivíd u o, em s u a a t ivid a d e r a cion a l, s e d es cob r e com o cr ia d or d e n ovos va lor es . O in d ivíd u o é ca p a z, p or t a n t o, d e r om p er o elo h is t ór ico qu e u n e t r a d içã o e m or a lid a d e, op on d o-lh e o binômio r a zã o e a fir m a çã o d e s i. Com es s a s p r in cip a is r efer ên cia s , em

Aurora, Niet zs ch e d is cu t e a h is t ór ia d os cos t u m es e d a m or a lid a d e, a h is t ór ia d o p en s a m en t o e d o con h ecim en t o, a lém d e ressa lt a r os p r econ ceit os cr is t ã os qu e va r a r a m a h is t ór ia d a h u m a n id a d e. A s egu ir , s e con cen t r a em a n a lis a r a n a t u r eza e a h is t ór ia d os s en t im en t os m or a is , d os p r econ ceit os filos óficos e d os p r econ ceit os d a m or a l a lt r u ís t a . Con t in u a d ep ois es t a b elecen d o o cont r a p on t o en t r e cu lt u r a e cu lt u r a s ou civiliza çã o e civiliza ções , p a r a r es s a lt a r a in t er ven çã o d o. E s t a d o, d a p olít ica e d os p ovos n a h is t ór ia . Fin a lm en t e, p a r ece d iver t ir -s e a o a p r es en t a r cois a s es s en cia lm en t e h u m a n a s e cor r iqu eir a s e p in t a r o u n iver s o d o p en s a d or . Com o a a u r or a a n u n cia u m n ovo d ia , Aurora, para Niet zs ch e, é t a m b ém u m n ovo d es p er t a r p a r a u m a ver d a d eir a vid a

(7)

Í

NDICE

APRESENTAÇÃO ... 8 VIDA E OBRAS DO AUTOR ... 11 PREFÁCIO ... 1 4 LIVRO PRIMEIRO ... 2 2 LIVRO SEGUNDO ... 9 5 LIVRO TERCEIRO ... 1 49 LIVRO QUARTO ... 202 LIVRO QUINTO ... 2 72

(8)

A

PRESENTAÇÃO

Aurora s ign ifica o d es p er t a r d e u m a n ova m or a lid a d e. É a

em a n cip a çã o d a r a zã o d ia n t e d a m or a l. Um a vez qu e a m or a lid a d e n ã o é ou t r a cois a qu e a ob ed iên cia a os cos t u m es , d e qu a lqu er n a t u r eza qu e es t es s eja m , Aurora qu er r om p er es s a m a n eir a t r a d icion a l d e a gir e d e a va lia r . Por t a n t o, à m ed id a qu e o s en t id o d a ca u s a lid a d e a u m en t a , d im in u i a ext en s ã o d o d om ín io d a m or a lid a d e. De fa t o, a com p r een s ã o d a s liga ções efet iva s d a ca u s a lid a d e d es t r ói con s id er á vel n ú m er o d e ca u s a lid a d es im a gin á r ia s qu e for a m s en d o ju lga d a s n o d ecu r s o d os t em p os com o fu n d a m en t os d a m or a l. O p od er lib er a d or d a r a zã o t em em si a capacidade de desmitificar significados sociais instituídos pela tradição; o in d ivíd u o, em s u a a t ivid a d e r a cion a l, s e d es cob r e com o cr ia d or d e n ovos va lor es . O in d ivíd u o é ca p a z, p or t a n t o, d e r om p er o elo h is t ór ico qu e u n e t r a d içã o e m or a lid a d e, op on d o-lh e o b in ôm io r a zã o e a fir m a çã o d e s i. O m u n d o d a t r a d içã o é es s en cia lm en t e a qu ele em qu e os va lor es d a a u t or id a d e s ã o in d is cu t íveis . Pa r a r ever t er es s a s it u a çã o, p a r a con fer ir à h u m a n id a d e u m r en ova d o s t a t u s d e in d ep en d ên cia e lib er d a d e, n a d a m a is d ecis ivo qu e a lou cu r a . Com efeit o, n u m m u n d o s u b m is s o à t r a d içã o, id éia s n ova s e d iver gen t es , a p r ecia ções e ju ízos d e va lor con t r á r io s ó p u d er a m s u r gir e s e en r a iza r apresentando-s e s ob a figu r a d a lou cu r a . Qu a s e em t od a p a r t e, é a lou cu r a qu e a p la in a o ca m in h o d a id éia n ova , qu e con d en a a im p os içã o d e u m cos t u m e, d e u m a s u p er s t içã o ven erada , com o

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diz o próprio Nietzsche.

Den t r o d es s a p er s p ect iva , Aurora s e con figu r a r ea lm en t e com o u m n ovo d ea lb a r , com o n ovos a lb or es n a h is t ór ia d a in d ivid u a lid a d e n u m con t ext o s ocia l. Um n ovo s er s e d es en h a . Um a n ova for m a d e p en s a r , d e a gir e d e s e com p or t a r . Um n ovo id ea l d e s i d ia n t e d o ou t r o, u m n ovo id ea l d e ca d a u m d ia n t e d a sociedade. Um novo tempo. Uma nova vida. É tudo o que o homem qu er . S er e s er ele p r óp r io. As s u m ir o p a s s a d o en qu a n t o p os s a r ep r es en t a r u m a r iqu eza p a r a o p r es en t e e u m a p r ojeçã o p a r a u m fu t u r o livr e, in d ep en d en t e e d es s a cr a liza d o d a s im p os ições , p r econ ceit os e s u p er s t ições d o p a s s a d o ca lca d o n a m or a lid a d e d os cos t u m es . Is s o s ign ifica t a m b ém d es m it ifica r a h is t ór ia , lib er t á -la d e s eu r om a n t is m o, d e s u a s ilu s ões , d e s u a s cr en ça s e d e s u a s u b m is s ã o a os id ea is im p os t os p ela fé cega e p ela r eligiã o. Is s o s ign ifica a in d a en t r a r em ou t r o ca m p o d a ét ica e d a es t ét ica , t er ou t r a vis ã o d o m u n d o e d e s u a s a n t iga s conquistas , com o qu e m er gu lh a r em n ova p er s p ect iva d o p os s ível r ea l, d o r a cional, d er r ot a n d o o ir r a cion a l, o ir r a zoá vel, t u d o o qu e foi im p os t o p ela d it a d u r a d o p en s a m en t o u lt r a p a s s a d o, d a id eologia p r econ ceit u os a , d a r eligiã o im p os t or a , n ova p er s p ect iva qu e d ever ia leva r a r ep en s a r a fin it u d e h u m a n a for a d e t od o en foqu e teológico e, p or con s egu in t e, leva r a lib er t a r t od a m or a lid a d e d a qu ilo qu e ela r ep r es en t a , ou s eja , o ôn u s d os cos t u m es , d e u m a tradição milenar, de uma religião sufocante.

Com es s a s p r in cip a is r efer ên cia s , e m Au rora , Nietzsche d is cu t e a h is t ór ia d os cos t u m es e d a m or a lid a d e, a h is t ór ia d o p en s a m en t o e d o con h ecim en t o, a lém d e r es s a lt a r os p r econ ceit os cr is t ã os qu e va r a r a m a h is t ór ia d a h u m a n id a d e. A s egu ir , s e con cen t r a em a n a lis a r a n a t u r eza e a h is t ór ia d os s en t im en t os m or a is , d os p r econ ceit os filos óficos e d os p r econ ceit os d a m or a l

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a lt r u ís t a . Con t in u a d ep ois es t a b elecen d o o con t r a p on t o en t r e cu lt u r a e cu lt u r a s ou civiliza çã o e civiliza ções , p a r a r es s a lt a r a in t er ven çã o d o E s t a d o, d a p olít ica e d os p ovos n a h is t ór ia . Fin a lm en t e, p a r ece d iver t ir -s e a o a p r es en t a r coisas es s en cia lm en t e h u m a n a s e cor r iqu eir a s e p in t a r o u n iver s o d o p en s a d or . Com o a a u r or a a n u n cia u m n ovo d ia , Aurora, para Niet zs ch e, é t a m b ém u m n ovo d es p er t a r p a r a u m a ver d a d eir a vid a

do homem e da humanidade inteira.

(11)

V

IDA E

O

BRAS DO

A

UTOR

Fr ied r ich Wilh elm Niet zs ch e n a s ceu em Röck en , Alem a n h a , n o d ia 1 5 d e ou t u b r o d e 1 8 4 4 . Ór fã o d e p a i a os 5 a n os d e id a d e, foi in s t r u íd o p ela m ã e n os r ígid os p r in cíp ios d a r eligiã o cr is t ã . Cu r s ou t eologia e filologia clá s s ica n a Un iver s id a d e d e Bon n . Lecion ou Filologia n a Un iver s id a d e d e Ba s iléia , n a S u íça , d e 1 8 6 8 a 1 8 7 9 , a n o em qu e d eixou a cá t ed r a p or d oen ça . Pa s s ou a r eceb er , a t ít u lo d e p en s ã o, 3 .0 0 0 fr a n cos s u íços qu e lh e p er m it ia m via ja r e fin a n cia r a p u b lica çã o d e s eu s livr os . Empreendeu muitas viagens pela Costa Azul francesa e pela Itália, d es fr u t a n d o d e s eu t em p o p a r a es cr ever e con viver com a m igos e in t elect u a is . Nã o con s egu in d o leva r a t er m o u m a gr a n d e a s p ir a çã o, a d e ca s a r -s e com Lou An d r ea s S a lom é, p or ca u s a d a s ífilis con t r a íd a em 1 8 6 6 , en tregou-s e à s olid ã o e a o s ofr im en t o, isolando-s e em s u a ca s a , n a com p a n h ia d e s u a m ã e e d e s u a ir m ã . At in gid o p or cr is es d e lou cu r a em 1 8 8 9 , p a s s ou os ú lt im os a n os d e s u a vid a r eclu s o, vin d o a fa lecer n o d ia 2 5 d e a gos t o d e 1 9 0 0 , em Weim a r . Niet zs ch e er a d ot a d o d e u m es p ír it o ir r equ iet o, p er qu ir id or , p r óp r io d e u m gr a n d e p en s a d or . De ín d ole r om â n t ica , p oet a p or n a t u r eza , leva d o p ela im a gin a çã o, Niet zs ch e er a o t ip o d e h om em qu e vivia r ecu r va d o s ob r e s i m es m o. E m ot ivo e fa s cin a d o p or t u d o o qu e r es p len d e vid a , er a a o m es m o t em p o s ed en t o p or lib er d a d e es p ir it u a l e in t elect u a l; leva d o p elo in s t in t o ao mundo irreal, ao mesmo tempo era apegado ao mundo concreto e r ea l; r eligios o p or n a t u r eza e p or for m a çã o, er a a o m es m o t em p o

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u m d em olid or d e r eligiões ; en t u s ia s t a d efen s or d a b eleza d a vid a , er a t a m b ém cr ít ico fer oz d e t od a fr a qu eza h u m a n a ; con h eced or d e s i m es m o, er a s eu p r óp r io a lgoz; s eu es p ír it o er a ca m p o a b er t o em qu e ir r om p er a m a s m a is va r ia d a s t en d ên cia s , s ob a in flu ên cia d e sua agitada consciência.

Espírito ir r equ iet o e in s a t is feit o, con s ciên cia er u p t iva e cr ít ica , vivia u m a vid a d e lu t a s con t r a s i m es m o, d e ch oqu es com a humanidade, de paradoxos sem limite. Assim era Nietzsche.

P

RINCIPAIS OBRAS

A gaia ciência (1882)

A genealogia da moral (1887) Além do bem e do mal (1886) A origem da tragédia (1872) Assim falava Zaratustra (1883) Aurora (1881)

Ecce Homo (1888)

Humano, demasiado humano (1878) O anticristo (1888)

O caso Wagner (1888)

Crepúsculo dos ídolos (1888)

Opiniões e sentenças misturadas (1879) O viajante e sua sombra (1879)

(13)

A

URORA

(14)

P

REFÁCIO

1

Nes t e livr o en con t r a -s e a gin d o u m s er subterrâneo que ca va , p er fu r a e cor r ói. Ver -se-á , d es d e qu e s e t en h a olh os p a r a t a l t r a b a lh o n a s p r ofu n d eza s , com o a va n ça len t a m en t e, com cir cu n s p ecçã o e com u m a s u a ve in flexib ilid a d e, s em qu e s e p er ceb a em d em a s ia a a n gú s t ia qu e a com p a n h a a p r iva çã o p r olon ga d a d e a r e d e lu z; p od er -se-ia a t é ju lgá -lo feliz p or r ea liza r es s e t r a b a lh o ob s cu r o. Nã o p a r ece qu e a lgu m a fé o gu ie, qu e a lgu m a con s ola çã o o com p en s e? Ta lvez qu eir a t er p a r a ele u m a lon ga ob s cu r id a d e, cois a s qu e lh e s eja m p r óp r ia s , cois a s in com p r een s íveis , s ecr et a s , en igm á t ica s , p or qu e s a b e o qu e t er á em t r oca : s u a m a n h ã s ó p a r a ele, s u a r ed en çã o, s u a a urora?... Certamente voltará: não lhe perguntem o que procura lá em baixo; ele m es m o o d ir á , es s e Tr ofôn io, es s e s er d e a p a r ên cia s u b t er r â n ea , u m a vez qu e d e n ovo s e t en h a t or n a d o h om em . Costuma-s e es qu ecer in t eir a m en t e o s ilên cio qu a n d o s e es t eve soterrado tanto tempo como ele, só tanto tempo como ele.

2

Com efeit o, m eu s p a cien t es a m igos , vou d izer -lh es o qu e p r ocu r ei lá em b a ixo, vou d izer -lh es n es t e p r efá cio t a r d io, qu e p od er ia t er -s e fa cilm en t e t or n a d o u m ú lt im o a d eu s , u m a or a çã o fú n eb r e, p ois volt ei e r e-em er gi. Nã o p en s em qu e p r et en d o

(15)

envolvê-los em s em elh a n t e em p r es a feliz ou m es m o s om en t e em s em elh a n t e s olid ã o! De fa t o, qu em p er cor r e t a is ca m in h os n ã o en con t r a n in gu ém : is s o é p ecu lia r a os ca m in h os p a r t icu la r es . Ninguém vem em s eu a u xílio; ele p r óp r io d eve livr a r -se, com p let a m en t e s ó, d e t od os os p er igos , d e t od os os a ca s os , d e t od a s a s m a ld a d es , d e t od a s a s t em p es t a d es qu e s ob r evêm . De fa t o, t em s eu ca m in h o qu e é p róp rio d e le e, em a cr és cim o, a a m a r gu r a , p or vezes o d es d ém , qu e lh e ca u s a m es s e próprio dele ; d eve-s e en u m er a r , en t r e es s es elem en t os d e a m a r gu r a e d e d es p r ezo, a in ca p a cid a d e, p or exem p lo, em qu e s e en con t r a m s eu s a m igos d e a d ivin h a r on d e ele es t á ou p a r a on d e va i, a p on t o d e p er gu n t a r em à s vezes : Com o? S er á qu e is s o é a va n ça r ? S er á qu e ainda tem um caminho?

Foi en t ã o qu e em p r een d i u m a cois a qu e n ã o p od ia s er p a r a t od os : d es ci p a r a a s p r ofu n d eza s ; p a s s ei a p er fu r a r o ch ã o, com ecei a exa m in a r e a m in a r u m a velh a confiança s ob r e a qu a l, h á a lgu n s m ilh a r es d e a n os , n ós , os filós ofos , t em os o cos t u m e d e con s t r u ir , com o s ob r e o t er r en o m a is fir m e e r econ s t r u ir s em p r e, em b or a a t é h oje t od a con s t r u çã o t en h a r u íd o: com ecei a m in a r n os s a con fia n ça n a m ora l. Ma s s er á qu e n ã o m e compreendem?

3

Foi s ob r e o b em e o m a l qu e a t é h oje r eflet im os m a is p ob r em en t e: es s e foi s em p r e u m t em a d em a s ia d o p er igos o. A con s ciên cia , a b oa r ep u t a çã o, o in fer n o, e à s vezes m es m o a p olícia , n ã o p er m it ia m n em p er m it em im p a r cia lid a d e; é qu e, p er a n t e a m or a l, com o p er a n t e qu a lqu er a u t or id a d e, n ã o é permitido r eflet ir e, m en os a in d a , fa la r : n es s e p on t o s e d eve

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s er t om a d a p or ob jet o d e cr ít ica ; e ch ega r a o p on t o d e cr it ica r a m or a l, a m or a l en qu a n t o p r ob lem a , t er a m or a l p or p r ob lem á t ica : com o? Is s o n ã o foi is s o n ã o é imoral? A m or a l, con t u d o, n ã o d is p õe s om en t e d e t od a es p écie d e m eios d e in t im id a çã o p a r a m a n t er à d is t â n cia a s in ves t iga ções e os in s t r u m en t os d e t or t u r a : s u a s egu r a n ça s e b a s eia a in d a m a is n u m a cer t a a r t e d e s ed u çã o qu e p os s u i ela s a b e entusiasmar . E la con s egu e m u it a s vezes com u m s im p les olh a r p a r a lis a r a von t a d e cr ít ica e a t é a t r a í-la p a r a s eu la d o, h a ven d o ca s os em qu e a la n ça m es m o con t r a s i p r óp r ia : d e m od o qu e, com o o es cor p iã o, cr a va o a gu ilh ã o em s eu p r óp r io cor p o. De fa t o, h á m u it o t em p o qu e a m or a l con h ece t od a es p écie d e lou cu r a s n a a r t e d e p er s u a d ir : a in d a h oje, n ã o h á or a d or qu e n ã o s e d ir ija a ela p a r a lh e p ed ir a ju d a (b a s t a , p or exem p lo, ou vir n os s os a n a r qu is t a s : com o fa la m m or a lm en t e p a r a con ven cer ! Ch ega m a t é a ch a m a r -s e a s i p r óp r ios os b on s e os justos ). É qu e a m or a l, d es d e s em p r e, d es d e qu e s e fa la e s e p er s u a d e s ob r e a t er r a , s e a fir m ou com o a m a ior m es t r a d a sedução e n o qu e d iz r es p eit o a n ós , filós ofos , com o a verdadeira Circe dos filósofos. Para que serve isso se, desde Platão, t od os os a r qu it et os filos óficos d a E u r op a con s t r u ír a m em vã o? S e t u d o a m ea ça r u ir ou já s e a ch a p er d id o n os es com b r os t u d o o qu e eles con s id er a va m lea l e s er ia m en t e com o a e re p e re n iu s1? Ai!

Com o é fa ls a a r es p os t a qu e a in d a s e d á h oje a s em elh a n t e pergunta: Por qu e t od os eles n egligen cia r a m a d m it ir a h ip ót es e, o exa m e d os fu n d a m en t os , u m a cr ít ica d e t od a a r a zã o . Aí es t á a n efa s t a r es p os t a d e Ka n t2 qu e r ea lm en t e n ã o n os jogou a n ós ,

filós ofos , n u m t er r en o m a is fir m e e m en os en ga n a d or ! ( e, d it o d e p a s s a gem , n ã o s er ia u m p ou co es t r a n h o exigir qu e u m in s t r u m en t o s e p u s es s e a cr it ica r s u a p r óp r ia p er feiçã o e s u a p r óp r ia com p et ên cia ? Qu e o p r óp r io in t elect o reconhecesse seu

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valor, sua força, seus limites? Não seria até um pouco absurdo? ). A ver d a d eir a r es p os t a t er ia s id o, a o con t r á r io, qu e t od os os filós ofos con s t r u ír a m s eu s ed ifícios s ob a s ed u çã o d a m or a l, in clu s ive Ka n t qu e a in t en çã o d eles s ó a p a r en t em en t e s e d ir igia à cer t eza , à verdade , m a s n a r ea lid a d e s e d ir igia a majestosos

e d ifícios m ora is : p a r a n os s er vir m os a in d a u m a vez d a in ocen t e

lin gu a gem d e Ka n t qu e con s id er a va com o s u a t a r efa e s eu t r a b a lh o, u m a t a r efa m en os b r ilh a n t e, m a s n ã o s em m ér it o ,

a p la n a r e con s olid a r o t er r en o on d e s er ia m con s t r u íd os es s es m a jes t os os ed ifícios m or a is (Crítica d a ra z ã o p u ra , II). In felizm en t e, n ã o con s egu iu , b em p elo con t r á r io é p r ecis o confessá-lo h oje. Com in t en ções t ã o exa lt a d a s , Ka n t er a o d ign o filh o d e s eu s écu lo qu e p od e s er ch a m a d o, m a is qu e qu a lqu er ou t r o, o s écu lo d o en t u s ia s m o: com o Ka n t a in d a o é, e is s o é b om , com r ela çã o a o a s p ect o m a is p r ecios o d e s eu s écu lo (p or exem p lo, p or es s e b om s en s u a lis m o qu e in t r od u ziu em s u a t eor ia d o con h ecim en t o). Foi a in d a m or d id o p or es s a t a r â n t u la m or a l, qu e er a Rou s s ea u3, e t a m b ém s en t ia p es a r em s u a a lm a o fa n a t is m o

m or a l, d o qu a l ou t r o d is cíp u lo d e Rou s s ea u s e s en t ia e s e p r ocla m a va s eu execu t or , refiro-m e a Rob es p ier r e4 qu e qu er ia

fu n d a r n a te rra o im p é rio d a s a b e d oria , d a ju s tiça e d a v irtu d e

(Dis cu r s o d e 7 d e ju lh o d e 1 7 9 4 ). Por ou t r o la d o, com u m t a l fa n a t is m o fr a n cês n o cor a çã o, n ã o er a p os s ível a gir d e m od o m en os fr a n cês , m a is p r ofu n d o, m a is s ólid o, m a is a lem ã o s e é qu e em n os s os d ia s a p a la vr a alemão a in d a é p er m it id a n es s e sentido com o o fez Ka n t : p a r a d a r lu ga r a s eu im p ér io m or a l , viu-s e ob r iga d o a a cr es cen t a r u m m u n d o in d em on s t r á vel, u m

para além lógico é por isso que teve necessidade de sua crítica d a r a zã o p u r a ! E m ou t r a s p a la vr a s : e le n ã o te ria tid o n e ce s s id a d e

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tudo t or n a r o m u n d o m or a l in a t a cá vel, m elh or a in d a , in a t in gível p a r a a r a zã o p ois ele s en t ia com ext r em a violên cia a vulnerabilidade de uma ordem moral perante a razão! Com relação à n a t u r eza e à h is t ór ia , com r ela çã o à in a t a imoralidade da n a t u r eza e d a h is t ór ia , Ka n t , com o t od o b om a lem ã o, d es d e a or igem , er a u m p es s im is t a ; a cr ed it a va n a m or a l, n ã o p or qu e fos s e d em on s t r a d a p ela n a t u r eza e p ela h is t ór ia , m a s a p es a r d e s er in ces s a n t em en t e con t r a d it a p ela n a t u r eza e p ela h is t ór ia . Pa ra com p r een d er es t e a p es a r d e , t a lvez s e p od er ia r ecor d a r qu a lqu er cois a s em elh a n t e em Lu t er o, es s e ou t r o gr a n d e p es s im is t a qu e, com t od a a in t r ep id ez lu t er a n a , qu is u m d ia t or n á -lo s en s ível a s eu s a m igos : S e s e p u d es s e com p r een d er p ela r a zã o com o o Deu s qu e m os t r a t a n t a cóler a e m a ld a d e p od e s er ju s t o e b om , p a r a qu e s er vir ia en t ã o a fé? De fa t o, d es d e s em p r e, n a d a im p r es s ion ou m a is p r ofu n d a m en t e a a lm a a lem ã , n a d a a tentou m a is qu e es t a d ed u çã o, a m a is p er igos a d e t od a s , u m a d ed u çã o qu e con s t it u i par a t od o ver d a d eir o la t in o u m p eca d o con t r a o es p ír it o: credo

qu ia a b s u rd u m e s t5. Com ele, a lógica a lem ã en t r a p ela p r im eir a

vez na história do dogma cristão; mas ainda hoje, mil anos depois, nós, alemães de hoje, alemães tardios sob todos os pontos de vista p r es s en t im os a lgo d a ver d a d e, u m a possibilidade d e ver d a d e, p or t r á s d o céleb r e p r in cíp io fu n d a m en t a l d a d ia lét ica , p elo qu a l Hegel6 a ju d ou r ecen t em en t e p a r a a vit ór ia d o es p ír it o a lem ã o

s ob r e a E u r op a a con t r a d içã o é o m ot or d o m u n d o, t od a s a s cois a s s e con t r a d izem a s i p r óp r ia s : p or qu e s om os , a t é em lógica, pessimistas.

4

Ma s os ju ízos lógicos n ã o s ã o os m a is p r ofu n d os e os m a is fu n d a m en t a is , p a r a os qu a is p os s a d es cer a cor a gem d e n os s a

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s u s p eit a : a con fia n ça n a r a zã o, qu e é in s ep a r á vel d a va lidade d es s es ju ízos , en qu a n t o con fia n ça é u m fen ôm en o moral... Terá t a lvez o p es s im is m o a lem ã o qu e d a r a in d a u m ú lt im o p a s s o? Ta lvez d ever á a in d a u m a vez con fr on t a r s eu credo e s eu

absurdum? E s e este livr o, a t é n a m or a l, a t é p a r a a lém d a

con fia n ça n a m or a l, é u m livr o p es s im is t a n ã o s er á p r ecis a m en t e n is s o u m livr o a lem ã o? De fa t o, ele r ep r es en t a efet iva m en t e u m a con t r a d içã o e n ã o t em e es s a con t r a d içã o: denuncia-s e a qu i a con fia n ça n a m or a l m a s p or qu ê? Por

moralidade! Ou com o d ever ía m os ch a m a r o qu e s e p a s s a n es t e

livr o, o qu e s e p a s s a e m n ós ? p ois , p a r a n os s o gos t o p r efer ir ía m os exp r es s ões m a is m od es t a s . Ma s n ã o h á n en h u m a d ú vid a , t a m b ém a n ós s e d ir ige u m t u d eves , t a m b ém n ós ob ed ecem os a u m a lei s ever a a cim a d e n ós e es s a é a ú lt im a m or a l qu e a in d a s e t or n a in t eligível p a r a n ós , a ú lt im a m or a l qu e, n ós t a m b ém , p od er ía m os a in d a viver, s e em a lgu m a cois a s om os ainda h om e n s d e con s ciê n cia , é p r ecis a m en t e n is s o: p ois , n ã o qu er em os volt a r a o qu e con s id er a m os com o u lt r a p a s s a d o e ca d u co, a a lgu m a cois a qu e n ã o con s id er a m os com o d ign o d e fé, qu a lqu er qu e s eja o n om e qu e lh e for con fer id o: Deu s , vir t u d e, ju s t iça , a m or a o p r óxim o; n ã o qu er em os es t a b elecer u m a p on t e m en t ir os a p a r a u m id ea l a n t igo; t em os u m a a ver s ã o p r ofu n d a con t r a t u d o o qu e em n ós qu is es s e r ea p r oxim a r e s e in t r om et er ; s om os os in im igos d e t od a es p écie d e fé e d e cr is t ia n is m o a t u a is ; inimigos das meias medidas de tudo o que é romantismo e de tudo o qu e é es p ír it o p a t r iot eir o; in im igos t a m b ém d o r efin a m en t o a r t ís t ico, d a fa lt a d e con s ciên cia a r t ís t ica qu e gos t a r ia d e n os p er s u a d ir a a d or a r a qu ilo em qu e já n ã o cr em os p ois s om os artistas; in im igos , n u m a p a la vr a , d e t od o feminismo europeu (ou idealismo, se houver preferência para que eu o diga assim) que

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eternamente a t r a i p a r a a s a lt u r a s e qu e, p or is s o m es m o, eternamente rebaixa . Or a , com o h om en s p os s u id or es d e s ta con s ciên cia , cr em os a in d a r em on t a r à r et id ã o e à p ied a d e a lem ã s m ilen a r es , em b or a s eja m os s eu s d es cen d en t es in cer t os e ú lt im os , n ós , im or a lis t a s e a t eu s d e h oje, n os con s id er a m os , em cer t o s en t id o, com o os h er d eir os d es s a r et id ã o e d es s a p ied a d e, com o os execu t or es d e s u a von t a d e in t er ior , d e u m a von t a d e pessimista, com o já in d iqu ei, qu e n ã o t em e em s e n ega r a s i m es m a , p or qu e nega com a le gria ! Em nós se cumpre no caso de desejarem uma fórmula a auto-ultrapassagem da moral.

5

No fin a l d a s con t a s , con t u d o: p or qu e d evem os p r ocla m a r em a lt a voz e com t a n t o a r d or o qu e s om os , o qu e qu er em os e o qu e n ã o qu er em os ? Con s id er em os is s o m a is fr ia m en t e e m a is s a b ia m en t e, d e m a is lon ge e d e m a is a lt o, va m os d izê-lo com o is s o p od e s er d it o en t r e n ós , com voz t ã o b a ixa qu e o m u n d o in t eir o n ã o o ou ça , qu e o m u n d o in t eir o n ã o nos ou ça ! An t es d e t u d o, va m os d izê-lo lentamente... E s t e p r efá cio ch ega t a r d e, m a is n ã o m u it o t a r d e; qu e im p or t a m , r ea lm en t e, cin co ou s eis a n os ? Um t a l livr o e u m t a l p r ob lem a n ã o t êm p r es s a ; e, a lém d is s o, s om os a m igos d o lento, eu b em com o m eu livr o. Nã o foi em vã o qu e fu i filólogo, e t a lvez a in d a o s eja . Filólogo qu er d izer p r ofes s or d e leit u r a len t a : a ca b a -s e p or es cr ever t a m b ém len t a m en t e. Agor a is s o n ã o s ó fa z p a r t e d e m eu s h á b it os , m a s a t é m eu gos t o s e a d a p t ou a is s o u m gos t o m a ld os o t a lvez? Nã o es cr ever n a d a que não deixe desesperada a espécie dos homens apressados . De fa t o, a filologia é es s a a r t e ven er á vel qu e exige d e s eu s a d m ir a d or es a n t es d e t u d o u m a cois a : m a n t er -s e a fa s t a d o, t om a r t em p o, t or n a r -s e s ilen cios o, t or n a r -s e len t o u m a a r t e d e

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ou r ives a r ia e u m d om ín io d e ou r ives a p lica d o à p a la v ra , u m a a r t e qu e r equ er u m t r a b a lh o s u t il e d elica d o e qu e n a d a r ea liza s e n ã o for a p lica d o com len t id ã o. Ma s é p r ecis a m en t e p or is s o qu e h oje é m a is n eces s á r io qu e n u n ca , ju s t a m en t e p or is s o qu e en ca n t a e s ed u z, m u it o m a is n u m a ép oca d e trabalho : qu er o d izer , d e p r ecip it a çã o, d e p r es s a in d ecen t e qu e s e a qu ece e qu er acabar t u d o b em d ep r es s a , m es m o qu e s e t r a t e d e u m livr o, a n t igo ou novo. E s s a p r óp r ia a r t e n ã o a ca b a fa cilm en t e com o qu e qu er qu e s eja , en s in a a ler bem, is t o é, len t a m en t e, com p r ofu n d id a d e, com p r u d ên cia e p r eca u çã o, com s egu n d a s in t en ções , portas a b er t a s , com d ed os e olh os d elica d os ... Am igos p a cien t es , es t e livr o n ã o d es eja p a r a ele s en ã o leit or es e filólogos p er feit os :

aprendam a me ler bem!

Ruta, perto de Gênova, outono do ano de 1886.

1 E xp r es s ã o la t in a e xt r a íd a d e Odes (III, 3 0 .1 ) d o p oet a Qu in t u s Hor a t iu s

Flaccus (65-8 a .C.) e qu e s ign ifica m a is p er en e qu e o b r on ze (NT).

2 Im m a n u el Ka n t (1 7 2 4 -1 8 0 4 ), filós ofo a lem ã o; en t r e s u a s ob r a s , A re ligiã o n os

lim ite s d a s im p le s ra z ã o e Crítica d a ra z ã o p rá tica já for a m p u b lica d a s n es t a

coleção da Editora Escala (NT).

3 Jean-J a cqu es Rou s s ea u (1 7 1 2 -1 7 7 8 ), filós ofo e es cr it or s u íço; en t r e s u a s

obras, O con tra to s ocia l e A orige m d a d e s igu a ld a d e e n tre os h om e n s já foram publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).

4 Ma xim ilien d e Rob es p ier r e (1758-1 7 9 4 ), a d voga d o e p olít ico fr a n cês , u m d os

principais líderes da Revolução Francesa de 1789 (NT).

5 Fr a s e la t in a d o es cr it or r om a n o e cr is t ã o Qu in t u s S ep t im iu s Flor en s

Tertulianus (155-2 2 0 ) e qu e s ign ifica cr eio p or qu e é a b s u r d o (NT).

6 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão (NT).

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1. RAZÃO ULTERIOR

Tod a s a s cois a s qu e d u r a m m u it o t em p o d e t a l m od o s e im p r egn a m a os p ou cos d e r a zã o qu e a or igem qu e t ir a m d a d es r a zã o s e t or n a in ver os s ím il. A h is t ór ia exa t a d e u m a origem n ã o é qu a s e s em p r e s en t id a com o p a r a d oxa l e s a cr ílega ? O b om h is t or ia d or n ã o es t á , n o fu n d o, in ces s a n t em en t e em contradição com seu meio?

2. PRECONCEITO DOS SÁBIOS

Os s á b ios t êm r a zã o qu a n d o p en s a m qu e os h om en s d e t od a s a s ép oca s im a gin a va m saber o qu e er a b om e m a u . Ma s é u m p r econ ceit o d os s á b ios a cr ed it a r qu e agora estamos m a is b e m informados a respeito do que em qualquer outra época.

3. TUDO TEM SEU TEMPO

Qu a n d o o h om em a t r ib u ía u m s exo a t od a s a s cois a s , n ã o via n is s o u m jogo, m a s a cr ed it a va a m p lia r s eu en t en d im en t o: s ó m u it o m a is t a r d e d es cob r iu , e n em m es m o in t eir a m en t e a in d a h oje, a en or m id a d e d es s e er r o. De igu a l m od o o h om em a t r ib u iu a t u d o o qu e exis t e u m a r ela çã o m or a l, joga n d o s ob r e os om b r os d o m u n d o o m a n t o d e u m a significação ética . Um d ia , t u d o is s o n ã o t er á n em m a is n em m en os va lor d o qu e p os s u i h oje a cr en ça n o sexo masculino ou feminino do sol.

4. CONTRA A PRETENSA FALTA DE HARMONIA DAS ESFERAS

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a b u n d â n cia d e fa ls a sublimidade, por qu e é con t r á r ia à ju s t iça qu e a s cois a s p od em r eivin d ica r ! Por con s egu in t e, é p r ecis o n ã o p r ocu r a r ver o m u n d o com m en os h a r m on ia d o qu e r ea lm en t e tem.

5. SEJAM RECONHECIDOS!

O gr a n d e r es u lt a d o qu e o h om em ob t eve a t é h oje é qu e n ã o t em os m a is n eces s id a d e d e viver n o t em or con t ín u o d os a n im a is selvagens, dos bárbaros, dos deuses e de nossos sonhos.

6. O PRESTIDIGITADOR E SEU CONTRÁRIO

O qu e es p a n t a n a ciên cia é o con t r á r io d o qu e es p a n t a n a a r t e d e p r es t id igit a d or . De fa t o, es t e qu er leva r -n os a ver u m a ca u s a lid a d e m u it o s im p les on d e, n a r ea lid a d e, u m a ca u s a lid a d e m u it o com p lica d a es t á em jogo. Pelo con t r á r io, a ciên cia n os ob r iga a a b a n d on a r a cr en ça n a ca u s a lid a d e s im p les , n os ca s os em qu e t u d o p a r ece ext r em a m en t e s im p les e em qu e n ã o p a s s a m os d e vít im a s d a a p a r ên cia . As cois a s m a is s im p les são muito complicadas n ã o p od em os es p a n t a r -n os s u ficien t em en t e com elas!

7. MODIFICAÇÃO DO SENTIMENTO DO ESPAÇO

S ã o a s cois a s ver d a d eir a s ou a s cois a s im a gin á r ia s qu e m a is con t r ib u ír a m p a r a a felicid a d e h u m a n a ? O qu e é cer t o é qu e a d is t â n cia exis t en t e en t r e a m a ior felicid a d e e a m a is p r ofu n d a infelicidade s om e n te a s s u m iu tod a a s u a a m p litu d e com o a u xílio d a s cois a s im a gin a d a s . Por con s egu in t e, esta es p écie d e sentimento do espaço, sob a influência da ciência, se torna sempre menor: da mesma maneira que a ciência nos ensinou e nos ensina a in d a a ver t er r a com o p equ en a e o t od o o s is t em a s ola r com o u m

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ponto.

8. TRANSFIGURAÇÃO

S ofr im en t o s em es p er a n ça , s on h os con fu s os , en con t r os supra-terrestres a í es t ã o os três ú n icos gra u s qu e Ra fa el es t a b elece p a r a d ivid ir a h u m a n id a d e. Nós n ã o olh a m os m a is o m u n d o d es t a m a n eir a e t a m b ém Ra fa el n ã o t er ia m a is o d ire ito d e vê-lo a s s im : com s eu s p r óp r ios olh os ver ia u m a n ova transfiguração.

9. CONCEITO DA MORALIDADE DOS COSTUMES

S e com p a r a r m os n os s a m a n eir a d e viver com a qu ela d a h u m a n id a d e d u r a n t e m ilh a r es d e a n os , con s t a t a r em os qu e n ós , h om en s d e h oje, vivem os n u m a ép oca m u it o im or a l: o p od er d os cos t u m es en fr a qu eceu d e u m a for m a s u r p r een d en t e e o s en t id o m or a l s u t ilizou e s e elevou d e t a l m od o qu e p od em os m u it o b em d izer qu e s e vola t ilizou . É p or is s o qu e n ós , h om en s t a r d ios , t ã o dificilmente penetramos nas idéias fundamentais que presidiram a for m a çã o d a m or a l e, s e ch ega r m os a d es cob r i-la s , r ejeit a m os a in d a em p u b licá -las, t a n t o n os p a r ecem gr os s eir a s ! Ta n t o a p a r en t a m ca lu n ia r a m or a lid a d e! Veja -s e, p or exem p lo, a

p rop os içã o p rin cip a l: a m or a lid a d e n ã o é ou t r a cois a (p or t a n t o,

a n t es d e t u d o, n a d a m a is ) s en ã o a ob ed iên cia a os cos t u m es , sejam eles quais forem; ora, os costumes são a maneira tradicional d e a gir e d e a va lia r . E m t od a p a r t e on d e os cos t u m es n ã o m a n d a m , n ã o h á m or a lid a d e; e qu a n t o m en os a vid a é d et er m in a d a p elos cos t u m es , m en or é o cer co d a m or a lid a d e. O homem livre é imoral, porque em todas as coisas quer depender de si mesmo e não de uma tradição estabelecida: em todos os estados p r im it ivos d a h u m a n id a d e, mal é s in ôn im o d e individual ,

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livre , arbitrário , inabitual , imprevisto , imprevisível . Nes s es m es m os es t a d os p r im it ivos , s em p r e s egu n d o a m es m a a va liação: s e u m a a çã o é execu t a d a , não p or qu e a t r a d içã o a s s im o exija , m a s p or ou t r os m ot ivos (p or exem p lo, p or ca u s a d e s u a u t ilid a d e in d ivid u a l) e m es m o p ela s r a zões qu e ou t r or a es t a b elecer a m o cos t u m e, a a çã o é cla s s ifica d a com o im or t a l e con s id er a d a com o t a l a t é m es m o p or a qu ele qu e a execu t a : p ois es t e n ã o s e in s p ir ou n a ob ed iên cia p a r a com a t r a d içã o. E o qu e é a t r a d içã o? Um a a u t or id a d e s u p er ior à qu a l s e ob ed ece, n ã o p or qu e or d en e o útil, m a s p or qu e ordena. E m qu e es s e s en t im en t o d a t r a d içã o s e dist in gu e d e u m s en t im en t o ger a l d o m ed o? É o t em or d e u m a in t eligên cia s u p er ior qu e or d en a , d e u m p od er in com p r een s ível e in d efin id o, d e a lgu m a cois a qu e é m a is qu e p es s oa l há

superstição n es s e t em or . Na or igem , t od a a ed u ca çã o e os cu id a d os d o cor p o, o ca s a m en t o, a m ed icin a , a a gr icu lt u r a , a gu er r a , a p a la vr a e o s ilên cio, a s r ela ções en t r e os h om en s e a s r ela ções com os d eu s es , p er t en cia m a o d om ín io d a m or a lid a d e: es t a exigia qu e p r es cr ições fos s em ob s er va d a s , sem pensar em s i

mesmo com o in d ivíd u o. Nos t em p os p r im it ivos , t u d o d ep en d ia ,

p or t a n t o, d o cos t u m e e a qu ele qu e qu is es s e s e eleva r a cim a d os cos t u m es d evia t or n a r -s e legis la d or , cu r a n d eir o e a lgo com o u m semi-d eu s : is t o é, d ever ia cria r cos tu m e s cois a es p a n t os a e m u it o p er igos a ! Qual é o h om em m a is m or a l? Em p rim e iro

lugar, a qu ele qu e cu m p r e a lei com m a is fr eqü ên cia : p or

con s egu in t e, a qu ele qu e, s em elh a n t e a o b r â m a n e, em t od a a p a r t e e em ca d a in s t a n t e con s er va a lei p r es en t e n o es p ír it o d e t a l m a n eir a qu e in ven t a con s t a n t em en t e oca s iões d e ob ed ecer a es s a lei. Em seguida, a qu ele qu e cu m p r e a lei t a m b ém n os ca s os m a is d ifíceis . O m a is m or a l é a qu ele qu e m a is sacrifica a os cos t u m es ; m a s qu a is s ã o os m a ior es s a cr ifícios ? Res p on d en d o a es t a

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pergunta, chega-se a desenvolver várias morais distintas; contudo, a d ifer en ça es s en cia l con t in u a s en d o a qu ela qu e s ep a r a a m or a lid a d e d o cu m p r im en t o m a is fre qü e n te d a m or a lid a d e do cumprimento m a is d ifícil. Nã o n os en ga n em os a cer ca d os m ot ivos d es s a m or a l qu e exige com o s in a l d e m or a lid a d e o cu m p r im en t o d e u m cost u m e n os ca s os m a is d ifíceis ! A vit ór ia s ob r e s i p r óp r io

não é exigid a p or ca u s a d a s con s eqü ên cia s ú t eis qu e t em p a r a o

in d ivíd u o, m a s p a r a qu e os cos t u m es , a t r a d içã o a p a r eça m com o d om in a n t es , a p es a r d e t od a s a s veleid a d es con t r á r ia s e t od a s a s vantagens in d ivid u a is : o in d ivíd u o d eve s e sacrificar a s s im o exige a m or a lid a d e d os cos t u m es . E m com p en s a çã o, esses m or a lis t a s qu e, s em elh a n t es a os s u ces s or es d e Sócrates,

recomendam a o in d ivíd u o o d om ín io d e s i e a s ob r ied a d e, com o suas v a n ta ge n s mais específicas , com o a ch a ve m a is p es s oa l d e s u a felicid a d e, es s es m or a lis t a s con s t it u em a exceção e s e vem os a s cois a s d e ou t r o m od o é p or qu e s im p les m en t e fom os cr ia d os s ob a in flu en cia d eles : t od os s egu em u m a via n ova qu e lh es va le a m a is s ever a r ep r ova çã o d os r ep r es en t a n t es d a m or a lid a d e d os cos t u m es eles s e exclu em d a com u n id a d e, u m a vez qu e s ã o im or a is , e s ã o, n a a cep çã o m a is p r ofu n d a d o t er m o, m a u s . Da m es m a for m a qu e u m r om a n o vir t u os o d e velh a es cola con s id er a va com o m a u todo cristão que a s p ir a va , a cim a d e tudo, à s u a p r óp r ia s a lva çã o . E m t od a a p a r t e on d e exis t e com u n id a d e e, p or con s egu in t e, m or a lid a d e d os cos t u m es , r ein a a id éia d e qu e a p u n içã o p ela viola çã o d os cos t u m es r eca i em p r im eir o lu ga r s ob r e a p r óp r ia com u n id a d e: es t a p en a é u m a p u n içã o s ob r en a t u r a l, cu ja m a n ifes t a çã o e lim it es s ã o t ã o d ifíceis d e ca p t a r p a r a o es p ír it o, qu e os a n a lis a com u m m ed o s u p er s t icios o. A com u n id a d e p od e ob r iga r o in d ivíd u o a r ep a r a r , em r ela çã o a ou t r o in d ivíd u o ou à p r óp r ia com u n id a d e, o d a n o

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im ed ia t o qu e é a con s eqü ên cia d e s eu a t o, p od e igu a lm en t e exer cer u m a es p écie d e vin ga n ça s ob r e o in d ivíd u o p or qu e, p or ca u s a d ele com o u m a p r et en s a con s eqü ên cia d e s eu a t o as n u ven s d ivin a s e a s exp los ões d a cóler a d ivin a s e a cu m u la r a m s ob r e a com u n id a d e m a s ela con s id er a , n o en t a n t o, a cim a d e t u d o, a cu lp a b ilid a d e d o in d ivíd u o com o cu lp a b ilid a d e p r óp r ia

dela e s u p or t a s u a p u n içã o com o s u a p róp ria punição: Os

cos t u m es es t ã o r ela xa d os , a s s im gem e a a lm a d e ca d a u m , uma vez qu e t a is a t os s e t or n a r a m p os s íveis . Tod a a çã o individual, t od a m a n eir a d e p en s a r in d ivid u a l fa zem t r em er ; é t ot a lm en t e im p os s ível d et er m in a r o qu e os es p ír it os r a r os , es colh id os , or igin a is t iver a m d e s ofr er n o cu r s o d os t em p os p or s er em a s s im s em p r e con s id er a d os com o m a u s e p er igos os , m a is a in d a , por se

te re m s e m p re e le s p róp rios con s id e ra d o a s s im . S ob o d om ín io d a

m or a lid a d e d os cos t u m es , t od a for m a d e or igin a lid a d e t in h a m á con s ciên cia ; o h or izon t e d os m elh or es t or n ou -s e a in d a m a is sombrio do que deveria ter sido.

10. MOVIMENTO RECÍPROCO ENTRE O SENTIDO DA MORALIDADE

E O SENTIDO DA CAUSALIDADE

À m ed id a qu e o s en t id o d a ca u s a lid a d e a u m en t a , d im in u i a ext en s ã o d o d om ín io d a m or a lid a d e: p ois , s em p r e qu e for a m com p r een d id os os efeit os n eces s á r ios , qu e s e ch ega a im a gin á -los is ola d os d e t od os os a ca s os , d e t od a s a s con s eqü ên cia s oca s ion a is

(p os t h oc), d e im ed ia t o foi d es t r u íd o u m n ú m er o en or m e d e

ca u s a lid a d es im a gin á r ia s , d es s a s ca u s a lid a d es qu e, a t é en t ã o, er a m con s id er a d a s com o os fu n d a m en t os d a m or a l o m u n d o r ea l é m u it o m en or qu e o m u n d o d a im a gin a ção a ca d a vez s e con s egu iu fa zer d es a p a r ecer d o m u n d o u m a p a r t e d o t em or e d a coa çã o, a ca d a vez t a m b ém u m a p a r t e d a ven er a çã o e d a autoridade de que gozavam os costumes: a moralidade sofreu uma

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p er d a em s eu con ju n t o. Aqu ele qu e, p elo con t r á r io, qu is er a u m en t a r a m or a lid a d e d eve s a b er evit a r qu e os r es u lt a d os possam tornar-se controláveis.

11. MORAL POPULAR E MEDICINA POPULAR

Desenvolve-s e, n a m or a l qu e r ein a n u m a com u n id a d e, u m t r a b a lh o con s t a n t e, a o qu a l ca d a u m p a r t icip a : a m a ior ia d a s pessoas quer acumular exemplos sobre exemplos que demonstrem

a p re te n s a re la çã o e n tre a ca u s a e o efe ito, o cr im e e a p u n içã o;

con t r ib u em a con fir m a r a s s im a lega lid a d e d es s a r ela çã o e a u m en t a m s eu cr éd it o: a lgu n s fa zem n ova s ob s er va ções s ob r e os a t os e a s con s eqü ên cia s d es s es a t os , t ir a m d eles con clu s ões e leis : uma minoria tropeça aqui e acolá e enfraquece a crença sobre este ou a qu ele p on t o. Ma s t od os s e r eú n em n a for m a gr os s eir a e anti-cien t ífica d e s u a a çã o; qu er s e t r a t e d e exem p los , d e ob s er va ções ou d e r et icên cia s , qu er s e t r a t e d a d em on s t r a çã o, d a a fir m a çã o, d a en u n cia çã o ou d a r efu t a çã o d e u m a lei, s ã o s em p r e m a t er ia is s em va lor , s ob u m a exp r es s ã o s em va lor , com o os m a t er ia is e a exp r es s ã o d e t od a m ed icin a p op u la r . Med icin a p op u la r e m or a l p op u la r vã o s em p r e ju n t a s e n ã o d ever ia m m a is , com o s em p r e s e fa z, s er a p r ecia d a s d e for m a t ã o d ifer en t e: a m b a s são ciências aparentes da mais perniciosa espécie.

12. A CONSEQÜENCIA COMO COADJUVANTE

Ou t r or a s e con s id er a va o s u ces s o d e u m a a çã o n ã o com o u m a con s eqü ên cia d es s a a çã o, m a s com o u m livr e coa d ju va n t e vin d o d e Deu s . Pod e-s e im a gin a r con fu s ã o m a is gr os s eir a ? E r a n eces s á r io es for ça r -s e d iver s a m en t e em vis t a d a a çã o e em vis t a do sucesso, com práticas e meios totalmente diferentes!

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13. PARA A EDUCAÇÃO NOVA DO GÊNERO HUMANO

Cola b or em n u m a ob r a , vocês qu e s ã o p r es t a t ivos e lib er a is : ajudem a eliminar do mundo a idéia de punição que em toda parte s e t or n ou in fes t a n t e! Nã o h á er va d a n in h a m a is p er igos a ! E s s a id éia foi in t r od u zid a n ã o s om en t e n a s con s eqü ên cia s d e n os s a maneira d e a gir e qu e p od er ia h a ver d e m a is n efa s t o e m a is ir r a zoá vel qu e in t er p r et a r a ca u s a e o efeit o com o ca u s a e com o punição! Ma s m u it o p ior qu e is s o foi feit o a in d a , os a con t ecim en t os p u r a m en t e for t u it os for a m p r iva d os d e s u a in ocên cia , s er vin d o-s e d es s a m a ld it a a r t e d e in t er p r et a çã o p or m eio d a id éia d e p u n içã o. A lou cu r a foi im p elid a a t é m es m o o p on t o d e leva r a ver n a p r óp r ia exis t ên cia u m a p u n içã o. Dir-se-ia qu e é a im a gin a çã o ext r a va ga n t e d e ca r cer eir os e d e ca r r a s cos que dirigiu até o presente a educação da humanidade!

14. SIGNIFICAÇÃO DA LOUCURA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

S e, a p es a r d es s e for m id á vel ju go d a m or a lid a d e d os costumes , s ob o qu a l viver a m t od a s a s s ocied a d es h u m a n a s , s e d u r a n t e m ilên ios a n t es d e n os s a er a e m es m o n o cu r s o d es t a a t é n os s os d ia s (n ós m es m os vivem os n u m p equ en o m u n d o d e exceçã o e, d e a lgu m m od o, n a zon a m á ) id éia s n ova s e d iver gen t es , a va lia ções e ju ízos d e va lor con t r á r ios n u n ca d eixa r a m d e s u r gir , is s o s ó ocor r eu p or qu e es t a va m s ob a égid e d e u m s a lvo-con d u t o t er r ível: qu a s e em t od a p a r t e, é a lou cu r a qu e a p la n a o ca m in h o d a id éia n ova , qu e leva n t a a p r oib içã o d e u m cos t u m e, d e u m a s u p er s t içã o ven er a d a . Com p r een d em p or qu e foi n eces s á r ia a a s s is t ên cia d a lou cu r a ? De qu a lqu er cois a qu e fos s e t ã o t er r ifica n t e e t ã o in ca lcu lá vel, n a voz e n os ges t os , com o os ca p r ich os d em on ía cos d a t em p es t a d e e d o m a r e, p or con s egu in t e, t ã o d ign os com o eles d o t em or e d o r es p eit o? De qu a lqu er cois a

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qu e leva s s e, com o a s con vu ls ões e a b a b a d o ep ilép t ico, o s in a l vis ível d e u m a m a n ifes t a çã o a b s olu t a m en t e in volu n t á r ia ? De qu a lqu er cois a qu e p a r eces s e im p r im ir a o a lien a d o o s in a l d e a lgu m a d ivin d a d e, d a qu a l ele p a r eces s e s er com o a m á s ca r a e o porta-voz? De qu a lqu er cois a qu e in s p ir a s s e, m es m o a o p r om ot or d e u m a id éia n ova , a ven er a çã o e o t em or d ele p r óp r io e n ã o já r em or s os , e qu e o im p elis s e a s er o p r ofet a e o m á r t ir d es s a id éia ? E n qu a n t o em n os s os d ia s n os d ã o s em ces s a r a en t en d er qu e o gên io p os s u i, em lu ga r d e u m gr ã o d e b om s en s o, u m gr ã o d e lou cu r a , os h om en s d e ou t r or a es t a va m m u it o m a is p er t o d a id éia d e qu e lá on d e h ou ver lou cu r a , h á t a m b ém u m p ou co d e gên io e de sabedoria qualquer coisa de divino , como se murmurava ao ou vid o. Ou m elh or , a fir m a va -s e m a is cla r a m en t e: Por m eio d a lou cu r a , os m a ior es b en efícios for a m d er r a m a d os s ob r e a Gr écia , dizia Platão1 com toda a humanidade antiga. Avancemos ainda um

p a s s o: a t od os es s es h om en s s u p er ior es , im p elid os ir r es is t ivelm en t e a r om p er o ju go d e u m a m or a lid a d e qu a lqu er e a p r ocla m a r leis n ova s , n ã o t iver a m ou t r a s olu çã o, s e n ã o eram

re a lm e n te lou cos , qu e s e t or n a r em lou cos ou s im u la r a lou cu r a .

Is s o va le p a r a t od os os in ova d or es em t od os os d om ín ios e n ã o s om en t e n a qu eles d a s in s t it u ições s a cer d ot a is e p olít ica s : até m es m o o in ven t or d a m ét r ica p oét ica t eve d e s e im p or p or m eio d a loucura2. (At é ép oca s b em m a is t r a n qü ila s , a lou cu r a p er m a n eceu

com o u m a es p écie d e con ven çã o en t r e os p oet a s : S ólon r ecor r eu a ela qu a n d o in fla m ou os a t en ien s es p a r a r econ qu is t a r S a la m in a3).

Como alguém se torna louco quando não o é e quando não tem a cor a gem d e fin gir qu e o é? Qu a s e t od os os h om en s em in en t es d a s a n t iga s civiliza ções s e en t r ega r a m a es s e es p a n t os o r a ciocín io; u m a d ou t r in a s ecr et a , feit a d e a r t ifícios e d e in d ica ções d iet ét ica s , s e con s er vou a es s e r es p eit o, a com p a n h a d a d o s en t im en t o d a

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in ocên cia e m es m o d a s a n t id a d e d e t a l in t en çã o e d e t a l s on h o. As fór m u la s p a r a s e t or n a r homem-medicina en t r e os ín d ios , s a n t o en t r e os cr is t ã os d a Id a d e Méd ia , anguécoque en t r e os groenlandeses, pajé en t r e os b r a s ileir os s ã o, em s u a s lin h a s ger a is , a s m es m a s ; o jeju m a lém d os lim it es , a p r olon ga d a a b s t in ên cia s exu a l, o r et ir o n o d es er t o ou n o cim o d e u m a m on t a n h a ou a in d a n o a lt o d e u m a colu n a ou t a m b ém a p er m a n ên cia n u m s a lgu eir o velh o à m a r gem d e u m la go e a or d em d e n ã o p en s a r em ou t r a cois a s en ã o n a qu ilo qu e p od e d es en ca d ea r o êxt a s e e a d es or d em d o es p ír it o. Qu em ou s a r ia , p or t a n t o, la n ça r u m olh a r n o in fer n o d a s a n gú s t ia s m or a is , a s m a is a m a r ga s e a s m a is in ú t eis , on d e p r ova velm en t e d efin h a r a m os h om en s m a is fecu n d os d e t od os os t em p os ! Qu em ou s a r ia es cu t a r os s u s p ir os d os s olit á r ios e d os t r a n s via d os : Ah ! Dêem -m e a o -m en os a lou cu r a , p od er es d ivin os ! A lou cu r a p a r a qu e t er m in e fin a lm en t e p or a cr ed it a r em m im m es m o! Dêem -me d elír ios e con vu ls ões , h or a s d e cla r id a d e e d e t r eva s r ep en t in a s , aterrorizem-m e com a r r ep ios e a r d or es qu e ja m a is m or t a l a lgu m exp er im en t ou , cer qu em -m e d e r u íd os e d e fa n t a s m a s ! Deixem -me u iva r , gem er e r a s t eja r com o u m a n im a l: con t a n t o qu e a d qu ir a a fé em m im m es m o! A d ú vid a m e d evor a , m a t ei a lei e t en h o p or lei o h or r or d os vivos p or u m ca d á ver ; s e n ã o s ou m a is d o qu e a lei, s ou o ú lt im o d os r ép r ob os . De on d e vem o es p ír it o n ovo qu e es t á em m im , s e n ã o vem d e vocês ? Pr ovem -m e, p or t a n t o, qu e eu lh es pertenço! S ó a lou cu r a a m im o d em on s t r a . E m u it a s vezes es s e fer vor a t in gia s eu ob jet ivo: n a ép oca em qu e o cr is t ia n is m o d a va a m p la m en t e p r ova d e s u a fecu n d id a d e, m u lt ip lica n d o os s a n t os e os a n a cor et a s , im a gin a n d o a s s im qu e s e a fir m a va a s i m es m o, h a via em J er u s a lém gr a n d es es t a b elecim en t os d e a lien a d os p a r a os s a n t os n a u fr a ga d os , p a r a a qu eles qu e h a via m

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sacrificado seu último grão de razão.

15. OS MAIS ANTIGOS MEIOS DE CONSOLAÇÃO

Pr im eir a et a p a : o h om em vê em t od o m a l-es t a r , em t od o r evés d a s or t e, a lgu m a cois a p ela qu a l d eve fa zer s ofr er qu a lqu er ou t r o, n ã o im p or t a quem é a s s im qu e s e d á con t a d o p od er qu e a in d a lh e r es t a e is s o o con s ola . S egu n d a et a p a : o h om em vê em t od o m a l-es t a r e em t od o r evés d a s or t e u m a p u n içã o, is t o é, a exp ia çã o d a fa lt a e o m eio d e escapar a o feit iço m a léfico d e u m a p a r cia lid a d e r ea l ou im a gin á r ia d o d es t in o. S e p er ceb e es s a

v a n ta ge m qu e con s igo t r a z a in felicid a d e, d eixa d e a cr ed it a r n a

n eces s id a d e d e fa zer s ofr er ou t r o qu a lqu er p or es s a in felicid a d e vai renunciar a esse tipo de satisfação porque agora tem outro.

16. PRIMEIRO PRINCÍPIO DA CIVILIZAÇÃO

Nos p ovos s elva gen s h á u m a ca t egor ia d e cos t u m es qu e p a r ece vis a r a t or n a r -s e u m cos t u m e ger a l: s ã o r egu la m en t a ções p en os a s e, n o fu n d o, s u p ér flu a s (p or exem p lo, o cos t u m e d ifu n d id o en t r e os Ka m t ch a d a les d e ja m a is r a s p a r com u m a fa ca a n eve gr u d a d a n os ca lça d os , d e ja m a is u s a r u m a fa ca p a r a a jeit a r a s b r a s a s d o fogo, d e n u n ca p ôr u m fer r o n o fogo e a m or t e a t in ge a qu ele qu e in fr in gir es s es cos t u m es !) m a s es s a s r egu la m en t a ções m a n t êm p er m a n en t em en t e n a con s ciên cia a id éia d o cos t u m e, a ob r iga çã o in in t er r u p t a d e ob ed ecer a ele, com o ob jet ivo d e r efor ça r o gr a n d e p r in cíp io p elo qu a l a civiliza çã o começa: todo costume vale mais do que a ausência de costumes.

17. A NATUREZA BOA E MÁ

Os h om en s com eça r a m p or s u b s t it u ir a n a t u r eza p or s u a própr ia p es s oa : eles s e via m em t od a a p a r t e a s i m es m os , a s eu s

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semelhantes, isto é, viam seu caráter mau e caprichoso, escondido d e a lgu m a for m a p or t r á s d a s n u ven s , d a s t em p es t a d es , d os a n im a is fer ozes , d a s á r vor es e d a s p la n t a s : foi en t ã o qu e inventaram a n a t u r eza m á . Dep ois d is s o veio ou t r a ép oca em qu e qu is er a m s e d ifer en cia r d a n a t u r eza , a ép oca d e Rou s s ea u4:

es t a va m t ã o ca n s a d os u n s d os ou t r os qu e qu is er a m a b s olu t a m en t e p os s u ir u m r eca n t o d o m u n d o em qu e o h om em n ã o p u d es s e s e in com od a r com s u a m is ér ia : in ven t ou -s e a

natureza boa .

18. A MORAL DO SOFRIMENTO INVOLUNTÁRIO

Qu a l é a a legr ia m a is eleva d a p a r a os h om en s em gu er r a nessa pequena comunidade constantemente em perigo, onde reina a m or a lid a d e m a is r igor os a ? Qu er o d izer , p a r a a s a lm a s vigor os a s , vin ga t iva s , od ios a s , p ér fid a s , d es con fia d a s , p r ep a r a d a s p a r a o p ior , en d u r ecid a s p ela s p r iva ções e p ela m or a l? A a legr ia d a

crueldade. De igu a l m od o, em s em elh a n t es a lm a s , em t a is

cir cu n s t â n cia s , é u m a virtude s er in ven t ivo e in s a ciá vel n a cr u eld a d e. A com u n id a d e s e d iver t e com a s a ções d o h om em cr u el, es qu ece n ele, d e vez, a a u s t er id a d e d o t em or e d a s con t ín u a s p r eca u ções . A cr u eld a d e é u m a d a s m a is a n t iga s a legr ia s d a h u m a n id a d e. J u lga -s e, p or con s egu in t e, qu e t a m b ém os p r óp r ios d eu s es s e r econ for t a m e s e d iver t em qu a n d o lh es é ofer ecid o o es p et á cu lo d a cr u eld a d e d e t a l m od o qu e a id éia d o s en t id o e d o va lor s u p er ior qu e h á n o s ofrim e n to v olu n tá rio e n o m a r t ír io es colh id o livr em en t e é in t r od u zid a n o m u n d o. Pou co a p ou co o cos t u m e es t a b elece n a com u n id a d e u m a p r á t ica con for m e a es s a id éia : d or a va n t e s e d es con fia d e t od o b em -es t a r exu b er a n t e e s e r ecob r a con fia n ça ca d a vez qu e s e es t á n u m es t a d o d e gr a n d e d or ; en t ã o s e d iz qu e os d eu s es p od er ia m s er d es fa vor á veis p or

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ca u s a d a felicid a d e e fa vor á veis p or ca u s a d a in felicid a d e d es fa vor á veis e d e m od o a lgu m , com p a s s ivos ! De fa t o, a com p a ixã o é con s id er a d a d es p r ezível e in d ign a d e u m a a lm a for t e e t em ível; m a s os d eu s es s ã o fa vor á veis p or qu e o es p et á cu lo d a s m is ér ia s os d iver t e e os d eixa d e b om h u m or : p ois , a cr u eld a d e p r od u z s em p r e o m a is volu p t u os o s en t im en t o d e p od er . Foi a s s im qu e s e in t r od u ziu n a n oçã o d o homem moral , t a l com o exis t e n a com u n id a d e, a vir t u d e d o s ofr im en t o fr eqü en t e, d a p r iva çã o, d a vid a d ifícil, d a m or t ifica çã o cr u el não, p a r a r ep

eti-lo ainda, como meio de disciplina, de domínio de si, de aspiração à felicid a d e p es s oa l m a s com o u m a vir t u d e qu e d is p õe fa vor a velm en t e p a r a a com u n id a d e os d eu s es m a u s , p or qu e ela eleva in ces s a n t em en t e a eles a fu m a ça d e u m s a cr ifício exp ia t ór io. Todos os ch efes es p ir it u a is d os p ovos qu e s e m os t r a r a m ca p a zes d e p ôr em m ovim en t o o lod o p r egu iços o e t er r ível d os cos t u m es t iver a m n eces s id a d e, a lém d a lou cu r a , d o m a r t ír io volu n t á r io p a r a ter crédito e, com o s em p r e, a n t es e a cim a d e t u d o, cr éd it o n eles mes m os ! Qu a n t o m a is s eu es p ír it o s egu ia n ovos ca m in h os , s en d o con s eqü en t em en t e a t or m en t a d o p or r em or s os e t em or , m a is eles lu t a va m cr u elm en t e con t r a s u a p r óp r ia ca r n e, con t r a s eu s p r óp r ios d es ejos e s u a p r óp r ia s a ú d e com o p a r a ofer ecer à d ivin d a d e u m a com p en s a çã o em a legr ia s , p a r a o ca s o d e ela s e ir r it a r p or ver os cos t u m es n egligen cia d os e com b a t id os em fa vor d e ob jet ivos n ovos . Nã o s e d eve im a gin a r , con t u d o, com d em a s ia d a com p la cên cia , qu e h oje es t a m os in t eir a m en t e d es em b a r a ça d os d e s em elh a n t e lógica d o s en t im en t o! Qu e a s a lm a s m a is h er óica s s e in t er r ogu em a r es p eit o em s eu for o ín t im o! O m en or p a s s o à fr en t e n o d om ín io d o livr e p en s a m en t o e d a vid a in d ivid u a l foi con qu is t a d o, em t od a s a s ép oca s , com t or t u r a s in t elect u a is e fís ica s : e n ã o a p en a s a m a r ch a p a r a a fr en t e, n ã o!

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Tod a es p écie d e m a r ch a , d e m ovim en t o, d e m u d a n ça n eces s it ou d e in u m er á veis m á r t ir es a o lon go d es s es m ilên ios qu e p r ocu r a va m s eu s ca m in h os e qu e ed ifica va m b a s es , n os qu a is , é cla r o, n ã o s e p en s a qu a n d o s e fa la d es s e es p a ço r id icu la m en t e d im in u t o n a exis t ên cia d a h u m a n id a d e e qu e é ch a m a d o h is t ór ia u n iver s a l ; e m es m o n o d om ín io d es s a h is t ór ia u n iver s a l qu e n ã o é, n o fu n d o, s en ã o o b a r u lh o qu e s e fa z em t or n o d a s ú lt im a s n ovid a d es , n ã o exis t e t em a m a is es s en cia l e m a is im p or t a n t e qu e a a ntiga t r a géd ia d os m á r t ir es qu e qu er ia m p ôr o lod o e m m ov im e n to. Nada foi p a go m a is ca r o qu e es s a p equ en a p a r cela d e r a zã o h u m a n a e d e s en t im en t o d e lib er d a d e qu e con s t it u i h oje n os s o or gu lh o. Ma s é p or ca u s a d es t e or gu lh o qu e n os é p r a t ica m en t e im p os s ível hoje t er o s en s o d es s e en or m e la p s o d e t em p o em qu e r em a va a

m or a lid a d e d os cos t u m es e qu e p r eced e a h is t ór ia u n iver s a l ,

é p oca re a l e d e cis iv a , d e p rim ord ia l im p ortâ n cia h is tórica , qu e fix ou o ca rá te r d a h u m a n id a d e , ép oca em qu e o s ofr im en t o er a u m a

vir t u d e, a cr u eld a d e u m a vir t u d e, a vin ga n ça u m a vir t u d e, a n ega çã o d a r a zã o u m a vir t u d e, em qu e, p elo con t r á r io, o b em -estar era um perigo, a sede de saber um perigo, a paz um perigo, a com p a ixã o u m p er igo, a in cit a çã o à p ied a d e er a u m a ver gon h a , o trabalho u m a ver gon h a , a lou cu r a a lgo d e d ivin o, a m u d a n ça a lgo d e im or a l, p r en h e d e p er igo! Pen s a is qu e t u d o is s o s e m od ificou e qu e, p or con s egu in t e, a h u m a n id a d e m u d ou d e ca r á t er ? Oh ! con h eced or es d o cor a çã o h u m a n o, a p r en d a m a con h ecer -se melhor!

19. MORALIDADE E EMBRUTECIMENTO

Os cos t u m es r ep r es en t a m a s exp er iên cia s d os h om en s anteriores acerca do que consideravam útil ou prejudicial mas o

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exp er iên cia s , m a s à a n t igu id a d e, à s a n t id a d e, à indiscutibilidade d os cos t u m es . Aí es t á p or qu e es s e s en t im en t o s e op õe a qu e s e fa ça m n ova s exp er iên cia s e s e cor r ija m os cos t u m es : o qu e qu er d izer qu e a m or a lid a d e s e op õe à for m a çã o d e cos t u m es n ovos e melhores: ela embrutece.

20. LIVRES ATORES E LIVRES PENSADORES

Os livr es a t or es es t ã o em d es va n t a gem em r ela çã o a os livr es p en s a d or es , p ois os h om en s s ofr em d e m a n eir a m a is vis ível con s eqü ên cia s d os a t os d o qu e con s eqü ên cia s d os p en s a m en t os . Mas se considerarmos que uns e outros procuram sua satisfação e qu e os livr es p en s a d or es já a en con t r a m n o fa t o d e r eflet ir n a s cois a s p r oib id a s e exp r im i-la s , ver ifica m os qu e, qu a n t o a os motivos, eles são perfeitamente idênticos; e quanto aos resultados, os livr es a t or es ven cer ã o os livr es p en s a d or es , p a r t in d o d o p r in cip io qu e n ã o ju lga m os d e a cor d o com a vis ib ilid a d e m a is próxima e mais grosseira isto é, como todo o mundo. Há sempre lu ga r p a r a r ever a s ca lú n ia s qu e op r im ir a m a qu eles qu e p or s eu s a t os qu eb r a r a m a a u t or id a d e d e u m cos t u m e geralmente ch a m a m os es t es d e cr im in os os . Tod os a qu eles qu e s u b ver t er a m a lei m or a l es t a b elecid a s em p r e for a m con s id er a d os em p r im eir o lu ga r com o h om e n s m a u s : m a s qu a n d o já n ã o er a p os s ível r es t a b elecer es s a lei e qu a n d o a m u d a n ça s e t or n ou u m h á b it o, o a t r ib u t o s e t r a n s for m a va p ou co a p ou co; a h is t ór ia t r a t a qu a s e exclu s iva m en t e d es s es h om e n s m a u s qu e, m a is t a r d e, for a m declarados bons.

21. CUMPRIMENTO DA LEI

Qu a n d o a ob s er vâ n cia d e u m p r eceit o m or a l a t in ge u m r es u lt a d o d ifer en t e d a qu ele qu e s e h a via p r om et id o e es p er a d o e

Referências

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