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11-09-2016
A guerra interminável
começou
a 11 de Setembro
A resolução aprovada pelo Congresso americano poucos dias depois dos atentados
é usada por Obama. No mês passado, por exemplo, serviu-lhe para lançar ataques
na Líbia. No horizonte da Síria, dos EUA e do mundo há mais confl itos, não menos
BULENT KILIC/AFP
EUA
Sofia Lorena
Há 15 anos, começou a guerra infi ni-ta. Foi a 11 de Setembro, podia não ter sido. Aconteceu assim. As torres foram derrubadas e estava no poder quem estava. Com outros líderes po-deria ter sido tudo diferente. Ou tal-vez tivesse acontecido exactamente da mesma maneira. Certo é que qua-se 3000 pessoas morreram. O chão saiu debaixo dos pés dos que vivem em Nova Iorque e Washington. Para quem vive no Iraque, Afeganistão, Iémen ou Síria, o mundo também começou a mudar, mesmo que ainda não fosse possível saber ou imaginar como.
No dia 14 vão completar-se 15 anos da aprovação, no Congresso dos Es-tados Unidos, de uma resolução conhecida como Autorização para o Uso da Força Militar (AUMF, em inglês), que dá ao Presidente que estiver sentado na Casa Branca au-toridade para “usar toda a força ne-cessária e apropriada contra as na-ções, organizações ou pessoas que determinar terem planeado, autori-zado, cometido ou auxiliado ataques
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11-09-2016
terroristas”, assim como contra os que “abrigaram estas organizações ou pessoas”.
Sim, a AUMF ainda está em vigor e continuará a ser legal quando o sucessor de Barack Obama for elei-to. Se o Presidente George W. Bush usou a resolução para bombardear o Afeganistão, declarar “guerra ao ter-rorismo” e ao “eixo do mal”, invadir o Iraque (houve debate e uma vota-ção específi ca a autorizar a invasão, mas a AUMF — e a “guerra preventi-va” — como única forma de derrotar quem conspira contra os EUA antes de o país sofrer novos ataques, es-teve entre as justifi cações) e lançar
drones no Iémen; Obama ainda hoje
a usa para bombardear alvos na Síria, Iraque, Líbia, Somália, Afeganistão, Paquistão, Iémen, ou para mobilizar forças especiais em qualquer país.
A Administração em funções des-creveu a AUMF como desactualiza-da e a candidesactualiza-data democrata Hillary Clinton “gostaria de a ver revista”, apesar de concordar que autoriza o uso da força contra o autoproclama-do Estaautoproclama-do Islâmico, ou Daesh. A ver-dade é que ninguém se esforçou por substituir esta resolução nos últimos anos e muitos peritos acreditam que melhor do que uma pequena altera-ção cosmética seria a defi nialtera-ção de uma nova doutrina.
Para já, é o que temos. Defenden-do que “a interpretação forçada que a Administração Obama faz da AUMF de 2001 contraria totalmente os princípios dos legisladores e dos fundadores [que deram ao execu-tivo poder para usar força defensi-va quando as ameaças à nação são tão iminentes que o Congresso não tem tempo de agir]”, o professor de Direito e Diplomacia Michael J. Glennon cita o senador Tim Kaine para sublinhar os riscos da situação. Numa entrevista na semana passada ao think tank Council on Foreign Re-lations, o académico recorda o que o agora candidato a vice de Clinton disse em Maio: “Não é difícil imagi-nar que um futuro Presidente possa usar este exemplo para justifi car ini-ciar uma guerra sem a autorização do Congresso.”
Este exemplo é o uso por parte de Obama da resolução pensada para atacar os autores dos atentados, a Al-Qaeda e os taliban, contra o Da-esh, um grupo que nasceu no Iraque pós-invasão e que combate a Al-Qa-eda na Síria (mesmo se no Iémen, por exemplo, já acontece unir-se à mesma a Al-Qaeda, contra o inimigo comum, os rebeldes xiitas houthis). Sim, o Daesh pode ser analisado co-mo um descendente directo do gru-po fundado gru-por Osama bin Laden, mas... e se outro Presidente encon-trar outra análise para sustentar uma guerra com outro alvo qualquer? Independentemente de quem for eleito em Novembro, os últimos 15 anos foram partilhados por duas pre-sidências que não podiam ser mais diferentes e que, no entanto, cada uma à sua maneira, usaram a AUMF
para “abrir uma era de guerra inde-fi nida”, escreve, no mesmo Council on Foreign Relations, Samuel Moyn, professor de Direito e História em Harvard. E se é a Bush que os EUA devem quase todos os 7000 militares mortos em combate desde 2001 (pa-ra além de 50 mil feridos), é Obama, a quem devemos a pragmática máxi-ma “não fazer coisas estúpidas”, que “deixa como um dos seus principais legados a reinterpretação da AUMF como aparentemente sem limites”, diz Moyn (citando outros dois pro-fessores de Direito, Curtis Bradley e Jack Goldsmith).
Limpa e “humana”
A resolução de Setembro de 2001 “provou ser mais elástica do que anteriores autorizações do poder da guerra, porque o inimigo é mui-to mais fungível e não tem fronteiras geográfi cas claras”, escreve Moyn. “Mas, mais importante, enquanto as atrocidades no Vietname acabaram por tornar essa guerra impopular, ajudando a pôr-lhe fi m, o Presidente Obama percebeu que se a guerra se tornar limpa e ‘humana’, pode ser in-terminável. Ataques com drones, en-tre outras práticas, valeram críticas a esta guerra para sempre, mas nunca as sufi cientes para que diminua de intensidade, talvez porque os drones representam um confl ito mais livre de danos colaterais do que qualquer outra contra-insurreição na História.” Estes 15 anos de guerra não se fi -zeram só de drones, nem apenas de ataques aéreos. A verdade é que nun-ca saberemos ao certo quantos civis morreram em guerras iniciadas por autoridade total ou parcial da reso-lução aprovada pelos congressistas nesse dia 14 de Setembro e assinada por Bush a 18. Se pensarmos apenas no Iraque, são centenas de milhares de pessoas.
Durante vários anos, o Pentágo-no viu-se sem tropas sufi cientes para satisfazer o belicismo de uma Admi-nistração que quis mudar o Grande Médio Oriente e acreditou que isso se fazia a partir de Bagdad. A resposta fez-se com custos dramáticos para as Forças Armadas, como a
multipli-se ataca. Do Paquistão à Líbia, foram sete os países onde os EUA estiveram ou estão (com tropas ou apenas For-ça Aérea) nestes 15 anos.
Hoje, num dia normal, para além de eventuais ataques com drones, a Força Aérea dos EUA bombardeia alvos na Síria, Iraque e Afeganistão. E depois das guerras dos milhões de milhões de dólares e das centenas de milhares de soldados, Washington faz isto com menos de dez mil mili-tares no Afeganistão, 5000 no Iraque e umas centenas na Síria.
A curto prazo, tudo isto está a fun-cionar e os objectivos americanos parecem muito mais próximos de atingir do que há dois anos, quando os radicais extremistas que substituí-ram Bin Laden e o ultrapassasubstituí-ram no fundamentalismo e no horror entra-vam pelo Iraque e declaraentra-vam um ca-lifado. Até no Afeganistão, de onde a retirada dos EUA foi sucessivamente adiada, são as forças de segurança lo-cais que fazem agora grande parte do esforço de combate contra os taliban. Na Síria, para além do acordo al-cançado com a Rússia para comba-ter o Daesh, e independentemente da sua viabilidade, a verdade é que já estava em marcha um plano para atacar Raqqa (possivelmente com os turcos) e no Iraque se espera poder atacar Mossul o mais tardar no início de 2017. Quer isto dizer que a guerra infi nita e total (onde uma nova frente pode começar sem pré-aviso e não passar de um raide ou arrastar-se sem data) está a dar frutos e pode condu-zir, em breve, à sua própria extinção? Nada disso. Antes pelo contrá-rio. “Como a guerra às drogas ou a guerra à pobreza, a guerra pelo Grande Médio Oriente tornou-se um elemento permanente na vida americana e é aceite como tal”, es-creve Andrew Bacevich, coronel na reforma e professor na Universi-dade de Boston. Os EUA, continua Bacevich no livro America’s War
for the Greater Middle East (editado
em Abril), “não escolheram conter nem esmagar, em vez disso traçam um voo a meio caminho; na verda-de, escolheram o agravamento”. Isto por terem o instrumento
per-feito para esta opção: os drones. Tanto Hillary Clinton como Donald Trump (o candidato republicano à presidência) já deixaram claro que as guerras actuais são para continuar e podem ser até para intensifi car, pro-metendo mão dura contra os radicais do Daesh. No acordo anunciado on-tem de madrugada pelo secretário de Estado John Kerry e pelo minis-tro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, junta-se a ex-Frente al-Nusra ao rol de inimigos a atacar. Na prática, Washington (tal como Moscovo, apesar das diferenças) não distingue com precisão esses inimi-gos e é natural que não o faça.
“Tornou-se cada vez mais difícil de-fi nir os nossos inimigos”, escreve no seu novo livro Rosa Brooks, professo-ra em Georgetown que já tprofesso-rabalhou no Pentágono. “Quando travamos guerra contra um inimigo sem forma, sem nome e sem Estado — um inimi-go com objectivos e métodos igual-mente incertos —, é complicado ante-cipar como é que essa guerra alguma vez pode acabar”, resume em How
Everything Became War and the Mili-tary Became Everything, de Agosto.
Num exercício que é assustador sem deixar de ser simples e bastante directo, Liz Sly, correspondente do jornal The Washington Post em Bei-rute, concluiu que “à medida que os bastiões do Daesh vão caindo” a guerra liderada pelos EUA começa a chegar a um ponto onde deve ser pensado o que se segue. A resposta não podia ser mais clara: “Para já, a resposta parece ser algo como mais guerra”, escreve Sly.
A jornalista enumera dez confl itos que podem começar na ordem pós-Daesh, da já iniciada guerra entre curdos e Turquia, passando por uma que oponha o regime sírio aos curdos da Síria, outra em que seria Bagdad a combater com os curdos iraquianos até chegar a um confl ito em que os restos do Daesh combatem contra todos os outros actores em jogo.
Outro dado fundamental: nos úl-timos anos, tudo se acelerou nesta guerra permanente, em particular o número de atentados na Europa lan-çados ou inspirados nos radicais com capitais na Síria e no Iraque. O que sírios e iraquianos já sabem é tam-bém que, à medida que estes perdem território, deixam de se preocupar tanto em mantê-lo e concentram-se mais em conseguir lançar ataques mortíferos contra alvos simbólicos, como Bagdad (ou Nice). É inevitá-vel que os atentados nestes países continuem e o mesmo acontece nas cidades europeias, para onde já re-gressaram centenas de recrutas que passaram por campos de treino sí-rios e iraquianos.
Isto com novos políticos no lugar de Obama, mas também possivel-mente de François Hollande (Fran-ça), Angela Merkel (Alemanha) ou Theresa May (Reino Unido). O que estas mudanças de liderança podem signifi car para esta “era de guerra in-defi nida” está por saber.
DON BARTLETTI Ataques com drones limitaram os danos colaterais
Como a guerra às
drogas ou a guerra
à pobreza, a guerra
pelo Grande Médio
Oriente tornou-se
um elemento
permanente na
vida americana
e é aceite como
tal, escreve
Andrew Bacevich
cação de comissões de serviço cada vez mais longas; e com custos dra-máticos para todos, das populações locais às ONG, com a subcontrata-ção da guerra. Há 15 anos alguém usava com normalidade a palavra
contractor? A subcontratação não
se fez só a empresas, fez-se a países aliados ou a milícias, criadas para o efeito como os Filhos do Iraque, ou já existentes como, agora mesmo, se faz com os curdos na Síria ou no mesmo Iraque.
Se foi Bush que abriu Guantánamo (que Obama não vai conseguir en-cerrar) e invadiu o Iraque — no que Obama descreveu como “uma guer-ra estúpida”, a tal que não se devia fazer —, distraindo-se do Afeganistão e de Bin Laden, foi com Obama que os drones se tornaram a escolha por excelência de uma “guerra ao terro-rismo” nunca terminada, onde os al-vos mudam e pouco importa onde
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11-09-2016
Uma guerra cada vez mais complexa
REGIME
Bashar al-Assad controla perto de 35% do território, incluindo Damasco, a costa mediterrânica, partes de Alepo, Homs e Hama. Internamente, é apoiado por grande parte dos alauitas (minoria xiita a que pertence); conta com as milícias xiitas estrangeiras apoiadas e financiadas pelo Irão e pelo Hebzollah xiita libanês, para além do apoio da Rússia e do próprio Irão. No território que mantém vive 60% da população síria. No terreno, conta com: O Exército sírio: uns 200 mil membros, devastados por anos de conflito e deserções;
Forças de Defesa Nacionais: organização paramilitar com uma série de brigadas estabelecida com a ajuda iraniana; Guarda Revolucionária do Irão e milícias xiitas (Hezbollah, grupos iraquianos).
DAESH
Em perda acelerada de território, ainda controla quase 35% da Síria, grande parte regiões desabitadas. Raqqa é a capital designada do grupo desde que proclamou o seu califado e Estado Islâmico. Financia-se, principalmente, através da cobrança de impostos, resgate de raptos e venda de petróleo. O seu número de combatentes é difícil de calcular actualmente, mas entre estes estão milhares de muçulmanos recrutados no mundo árabe (do Golfo ao Magrebe), Europa e Ásia.
EUA
Há dois anos que os EUA dirigem a coligação que bombardeia o Daesh na Síria e no Iraque e têm forças especiais no terreno (ao lado das FDS e dos curdos). Começaram por apoiar com armas, treino e dinheiro os grupos de rebeldes que consideram moderados.
RÚSSIA
País aliado da Síria, o seu envolvi-mento na guerra auenvolvi-mentou muito no último ano, quando a juntar às armas e pessoal para treinar sírios e reparar o seu arsenal, começou a bombardear a oposição.
IRÃO
Tropas, apoio técnico, dinheiro, tudo os iranianos foram enviando a Assad, à medida das suas necessidades.
TURQUIA
Depois de apoiar desde sempre vários grupos rebeldes, dando mesmo campos militares a uns e organizando reuniões da oposição política aos líderes no exílio, a Turquia começou a trabalhar mais activamente para travar os avanços dos curdos das YPG ao longo de 2015. Na semana passada entrou de forma aberta na guerra, lançando uma operação em apoio às unidades do Exército Livre, que diz já ter conseguido expulsar as forças do Daesh de toda a linha de fronteira (reconquistando-lhes Jarablus).
JORDÂNIA
Fonte: Reuters; Institute for the Study of War; ACNUR; Council on Foreign Relations; Chatham House; Al-Jazira
LÍBANO ISRAEL Montes Golã
SÍRIA
Latakia Madaya Kafr Batma Muadhamiya Palmira Alepo Idlib Jarablus Karkamis Azaz Kilis Kobani Raqqa Tal Abyad b b b b aS
yy miy fr Ba fr B aaa Kaaaaa u a Ka u Mu DamascoEXÉRCITO SÍRIO DAESH OPOSIÇÃO MISTO CURDOS
Mar Mediterrâneo Homs Hama
TURQUIA
Afrin Kilis Al Bab Manbij Jarablus Azaz Al Rai KarkamisSÍRIA
O puzzle de forças e facções:
Alepo é agora a batalha principal entre regime e oposição
A Turquia foi o último país a entrar de forma directa no conflito sírio, no fim d
com mais em jogo e que de forma mais frontal exigem a saída de Bashar al-A
para combater os radicais do Daesh iniciou as suas operações há exactamen
e Moscovo anunciaram, este combate passará a ser coordenado entre americ
Acordo
de
cessar--fogo num
país com
muitas
guerras
dentro
Trata-se da 18.ª iniciativa de paz e o texto
que permanecerá secreto foi assinado
após 13 horas de reuniões entre Kerry
e Lavrov. Os sírios gostavam de acreditar
Síria
Sofia Lorena
Passaram poucos dias desde que a Turquia se lançou numa incursão mi-litar repentina que complicou ainda mais o caos sírio e tornou claro que no confl ito do país onde ainda man-da Bashar al-Assad caman-da um dos in-tervenientes combate a sua própria guerra.
Apesar disso, este sábado come-çou com os Estados Unidos e a Rússia a anunciarem um acordo de
cessar-fogo — uma trégua de sete dias que deve começar na noite de segunda-feira e, a confi rmar-se, abrir caminho à criação de uma célula comum para coordenar os ataques contra o Da-esh e a Frente al-Nusra (que mudou de nome depois de anunciar o corte com a Al-Qaeda).
Trata-se da 18ª grande iniciativa de paz e o texto que permanecerá secreto (para impedir esforços para o sabotar) foi assinado após 13 ho-ras de reuniões entre o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro dos Negócios Estrangeiros
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11-09-2016
CURDOS
São parte da oposição mas têm uma agenda própria, o que dita as suas alianças e inimizades; a principal milícia são as Unidades de Defesa Popular (YPG), braço armado do PYD (Partido da União Democrática) e uma das organizações mais importantes das Forças Democráti-cas Sírias; controlam 18% do território e 400km da fronteira, o que a Turquia considera inaceitável tendo em conta a sua ligação umbilical ao PKK turco, que americanos e turcos consideram terrorista".
PÚBLICO IRAQUE TURQUIA Deir Ezzor Al Hawl Qamishli 50 km Kobani OPOSIÇÃO
Conjunto de grupos rebeldes que se constituiu com base no Exército Livre da Síria (desertores e civis), logo em 2011, e que mantém o controlo de uns 12% do país. Destes grupos fazem parte combatentes árabes sunitas (a maioria da população), cristãos, druzos, curdos. Contam com apoios externos distintos, alguns coincidentes, outros contra-ditórios. O maior bastião que continuam a governar é a província de Idlib. Os principais grupos são: Ex-Frente Nusra: mudou de nome no fim de Julho, quando anunciou ter cortado com a Al-Qaeda; agora chama-se Jabhat Fatah al-Sham (Frente para a Conquista da Síria), mas continua a ser considerada uma "organização terrorista" pelos EUA e pela ONU; encabeçou a ofensiva para romper os ataques e o cerco do regime a Alepo e combate ao lado do Exército Livre, sabendo-se que recebe apoios do Golfo Pérsico.
Ahrar al-Sham: salafistas radicais que trabalham de perto com a Nusra/Fatah al-Sham e com o Exército Livre; entre os aliados contam-se a Turquia e o Qatar; Jaish al-Islam: milícia salafista conservadora apoiada pela Turquia e pela Arábia Saudita.
Frente Sul: coligação de grupos rebeldes que opera no Sul, inclui o Exército Livre e é apoiada pelos EUA, Reino Unido, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Forças Democráticas Sírias (FDS); aliança formada com o apoio dos EUA que junta forças árabes e curdas sírias para combater o Daesh.
O Governo turco assegura que os ataques das suas forças em apoio aos grupos de rebeldes árabes sírios conseguiram expulsar os radicais de toda a sua linha de fronteira. Ancara diz agora que está pronta a juntar-se aos EUA para derrotar o Daesh de Raqqa
13,5 milhões
de sírios precisam de assistência humanitária dentro do país6,6 milhões
são deslocados internos na Síria600 mil
estão em cidades e vilas cercadas
4,8 milhões
de sírios são refugiados fora do país
2,7 milhões
estão na Turquia, país que mais refugiados sírios recebe De uma população de23 milhões
400 mil terão morridode Agosto, mas desde o início que é um dos países
Assad. A coligação internacional liderada pelos EUA
te dois anos. De acordo com o que Washington
canos e russos
russo, Sergei Lavrov. A Rússia, garan-te Lavrov, já conseguiu de Damasco o “sim” fundamental.
A principal novidade nesta inicia-tiva (para além da decisão de Wa-shington e Moscovo de combaterem fi nalmente juntos os radicais) é que o regime deixará de poder voar nas zonas sob controlo da oposição — os ataques aéreos sírios (e, muitas vezes, russos) contra estes alvos são a principal fonte de mortes entre a população síria, numa guerra que já fez mais de 400 mil mortos.
“Ninguém está a construir isto a partir da confi ança”, disse Kerry, quase uma semana depois de Bara-ck Obama ter justifi cado com a “des-confi ança” existente entre as duas potências a impossibilidade de anun-ciar alguma novidade sobre a Síria na reunião do G20 onde esteve com Vla-dimir Putin. “Isto baseia-se em vigi-lância, cumprimento e interesse mú-tuo”, completou Kerry. “Esta é uma oportunidade e, até se tornar reali-dade, não vai ser mais do que isso.” Os observadores não reagiram com grande optimismo. Os sírios, então, já nem sabem como reagir a mais um anúncio de Kerry e Lavrov. Para a oposição e os activistas (mas também para os rebeldes e os civis dentro da Síria), os russos não são simplesmente confi áveis. Ao mesmo tempo, já deixaram de esperar que a solução para os seus pesadelos parta dos Estados Unidos ou da Adminis-tração Obama.
Se os rebeldes no terreno aceita-rem este acordo, e é muito provável que assim seja, será por não terem alternativa — aliás, a Rússia só voltou a conversar com Washington depois de a oposição ter posto em causa a estabilização da frente de batalha em Alepo, a grande e agora destruí-da cidestruí-dade do Norte destruí-da Síria, o maior prémio desta guerra se a pensarmos apenas entre regime e rebeldes opo-sitores. Agora que as forças do dita-dor, apoiadas por bombardeamentos russos, voltaram a dar a volta ao con-fl ito já Moscovo (e Damasco, claro) admitiu voltar a negociar.
A primeira prova será, como sem-pre, o cessar-fogo, depois do de Fe-vereiro, que permitiu uma ilusão de normalidade a milhares de sírios que há anos não saíam de casa sem ouvi-rem bombas mas que nunca chegou a ser realmente cumprido. A data de início foi acordada para ser simbólica e coincide com o Eid al-Adha, a festa muçulmana do sacrifício que assinala o fi m da grande peregrinação a Meca, o lugar mais sagrado do islão.
Se for cumprido logo de início, o Exército sírio deve aligeirar o cerco nas áreas controladas por rebeldes em Alelo e permitir que a muito ne-cessitada ajuda humanitária comece a chegar às partes da cidade onde se passa fome. Ao mesmo tempo, os rebeldes deixarão de combater em redor das zonas detidas pelas forças leais a Assad.
O enviado da ONU para a Síria, Ste-ff an de Mistura, estava com Kerry e
Lavrov em Genebra e anunciou que fará tudo para pôr este envio da aju-da em marcha, ao mesmo tempo que disse que se prepara para pedir ao Conselho de Segurança autorização para reiniciar as negociações de paz entre o Governo e a oposição.
Se tudo correr como previsto no melhor dos cenários, uma semana depois, os militares russos e ameri-canos vão começar a planear ope-rações conjuntas contra os radicais. O que Washington cedeu aqui, mes-mo se não o admite, é ter colocado no mesmo saco o Daesh e a Nusra (agora, Frente para a Conquista da Síria).
Para que isto seja possível, os americanos fi caram de convencer os diferentes grupos rebeldes que apoiam a separar-se da Nusra on-de têm combatido o regime jun-tos. Ora, isto é difícil de dizer mas quase impossível de fazer, tendo em conta a complexidade e fl exi-bilidade de alianças no terreno. Na prática, este desafi o é de longe o maior para manter o cessar-fogo.
Em troca, mais uma vez, a Força Aérea Síria (muito mais poderosa, neste momento, que o seu delapida-do Exército) deixará de actuar nas zonas que EUA e Rússia tomarem por alvo, permitindo assim menos confusão na gestão do dia-a-dia.
“Hoje, os Estados Unidos e a Rús-sia estão a anunciar um plano que esperamos reduza a violência, redu-za o sofrimento e permita o reinício do caminho em direcção a uma paz negociada e a uma transição na Sí-ria... que, se for seguida, pode ofe-recer ao confl ito um momento de viragem, um momento de mudan-ça”, disse Kerry, com todo o
opti-mismo que conseguiu imprimir às suas declarações.
Não há optimismo que resista a mais de cinco anos de uma guerra cada vez mais complexa, ao ponto de ser quase impossível de descrever. Com a entrada na Turquia o que pas-sou a acontecer no Norte da Síria é que os EUA viram como as forças re-beldes sírias apoiadas pela Turquia, aliado fundamental de Washington, se envolviam em confrontos com as milícias curdas, o maior aliado dos americanos no combate ao Daesh. Sim, os EUA estão a combater entre si no Norte do país e isto é literal, apesar de ser através de aliados e não com tropas americanas direc-tamente.
Esta é a 18ª grande iniciativa de paz, num processo capaz de matar qualquer ingenuidade iniciado pe-lo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan em 2012, quando era ele o enviado da ONU e da Liga Árabe pa-ra o confl ito. Mistupa-ra já é o terceiro representante internacional para a Síria; Obama ainda é Presidente mas por pouco tempo. Só Assad continua no mesmo palácio presidencial de Damasco, apesar de tantos presi-dentes terem dito que a sua saída era obrigatória e urgente ao longo dos últimos anos.
O Norte do país
A Turquia entrou na guerra sem avi-so, mas disse que os EUA estavam há muito avisados. Ou seja, para Anca-ra, é impensável que os curdos sírios tenham continuidade territorial en-tre as duas regiões (ou cantões) que controlam no país. Já terá mesmo assegurado que conta com o apoio dos líderes curdos iraquianos neste seu combate. Pelo meio, tornou-se mais disponível para combater o Da-esh, depois de anos a ser acusada de permitir que os seus combatentes en-trassem e saíssem do país usando a sua fronteira e os seus aeroportos.
O que tudo isto signifi ca é que não param de começar novas guerras num país onde já há forças iranianas, russas, americanas, turcas, para além de milícias iraquianas, libanesas... E a oposição síria e os combatentes do Daesh. E há grupos apoiados pelos sauditas ou qataris. Não é só que cada actor tenha os seus objectivos e combata, por isso mesmo, a sua guerra; é que há mesmo várias guer-ras a acontecerem em simultâneo. Pelo meio, morrem sírios.
O acordo deste sábado pode salvar vidas e isso, nesta guerra, é mesmo quase tudo. Se vai contribuir para uma solução de futuro é uma con-versa muito diferente. E mesmo que pareça contrariar a ideia que cada um combate a sua própria guerra na Síria, ao colocar americanos e rus-sos potencialmente lado a lado na luta contra os terroristas, a verdade é muito mais complexa. Não é por se unirem contra o Daesh por interesse comum que Moscovo e Washington deixaram de ter a sua agenda e de travar na sua própria guerra.
O secretário de
Estado John Kerry
espera que o plano
‘reduza a violência
e o sofrimento’
e possa ser
o momento
de viragem
e mudança
no conflito,
em direcção à paz
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