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VIOLAO

+

Luizinho

7 Cordas

Ano 2 - Número 14 - Outubro 2016 www.violaomais.com.br

Simpatia,

competência e

personalidade

Henrique Pinto O mundo do violão homenageia o mestre

E mais:

Os destaques da Expomusic 2016

O amigo cavaquinho

Jam Origin Midi: tecnologia para cordas

Mutirão de viola

Movimentos básicos do Flamenco

“Tocando em Frente” e “Naquele Tempo”

(2)

editorial

Editor-técnico Luis Stelzer

[email protected] Colaboraram nesta edição Eduardo Padovan, Fabio Miranda,

Felipe Coelho, Luisa Fernanda Hinojosa Streber, Marcia Braga, Reinaldo Garrido Russo, Ricardo Luccas,

Rosimary Parra, Samuca Muniz, Saulo Van der Ley, Valéria Diniz e Thales Maestre

Os artigos e materiais assinados são de responsabilidade de seus autores. É permitida a reprodução dos conteúdos publicados aqui desde que fonte e autores sejam citados e o material seja enviado para nossos arquivos. A revista não se responsabiliza pelo conteúdo

dos anúncios publicados.

Ano 2 - N° 14 - Outubro 2016

VIOLAO

+

Neste mais de um ano de caminhada, construímos uma história muito bonita. Na busca pelo melhor conteúdo, vamos nos esmerando, acertando, errando... Mas, sempre fazendo! Aqui, não se peca por omissão. A busca pela melhor matéria, pela coluna que mais atenda à sua necessidade, pela entrevista que lhe traga o novo ou que resgate o que não deveria estar esquecido, tudo isso é feito, vivido, todos os dias. Nesta edição,

trazemos o grande Luizinho 7 Cordas, considerado por muitos o melhor do Brasil (não

gosto deste tipo de ranking, mas muita gente gosta!), que está completando 70 anos de idade, com grande vitalidade, tocando, dando aulas, gravando, levando seu alto astral a

todos que convivem com ele. Na seção Retrato, um resgate importante: Geraldo Ribeiro

- grande violonista baiano responsável, ele sim, pelo resgate das obras de Garoto e Armandinho Neves, entre outros - em entrevista de nossa colaboradora Marcia Braga. Trazemos, também, uma homenagem mais do que merecida: há seis anos, perdíamos

Henrique Pinto, o homem que revolucionou o ensino de violão no Brasil e formou

gerações seguidas de violonistas, com sua didática que pude experimentar por três anos como aluno e o resto da vida, na amizade

e em conselhos vitais. Nas colunas

técnicas, duas estreias: Saulo Van der

Ley e Felipe Coelho. Um, sempre metido

em novidades tecnológicas, vai nos trazer este assunto aplicado ao violão. No outro, vi, pela qualidade do trabalho, a medida certa para trazer o Flamenco de volta às nossas páginas. Também falamos sobre a ExpoMusic 2016, e quais foram as

nossas impressões. Se você foi, compare com as suas! Esperamos ter acertado mais do que errado, que a revista esteja sendo útil e importante para você o mesmo tanto que é para nós.

Luis Stelzer Editor-técnico

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índice

Foto de capa Stela Handa Publicidade/anúncios [email protected] Contato [email protected] Publisher e jornalista responsável

Nilton Corazza (MTb 43.958) [email protected]

Gerente Financeiro Regina Sobral

[email protected]

Diagramação Rua Nossa Senhora da Saúde, 287/34Jardim Previdência - São Paulo - SP

54

Sete Cordas

48

Expomusic

40

Mundo

4

Você na V+

6

Em Pauta

10

Retrato

16

Henrique

Pinto

26

Luizinho 7 Cordas

44

História

68

Tecnologia

66

Iniciantes

78

De Ouvido

58

Em Grupo

82

Flamenco

64

Siderurgia

84

Coda

75

Viola

Caipira

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4 • VIOLÃO+

Mostre todo seu talento!

Os violonistas do Brasil têm espaço garantido em nossa revista.

Como participar:

1. Grave um vídeo de sua performance.

2. Faça o upload desse vídeo para um canal no Youtube ou para um servidor de transferência de arquivos como Sendspace.com, WeTransfer.com ou WeSend.pt. 3. Envie o link, acompanhado de release e foto para o endereço [email protected]

4. A cada edição, escolheremos um artista para figurar nas páginas de Violão+, com

direito a entrevista e publicação de release e contato.

Violão+ quer conhecer melhor você, saber sua

opinião e manter comunicação constante, trocando experiências e informações. E suas mensagens podem ser publicadas aqui! Para isso, acesse,

curta, compartilhe e siga nossas páginas nas redes sociais clicando nos ícones acima. Se preferir, envie críticas, comentários e sugestões para o e-mail [email protected]

você na violão+

Edição 13

Mais um número da pesada! (Conrado

Paulino, em nossa página no Facebook)

Encordoamento

Gostaria de saber se em todas as edições da revista há alguma matéria específica sobre Encordoamento. Tenho pesquisado a respeito de encordoamento de Titânio e Carbono e os melhores fabricantes para corda de nylon. Agradeço e fico no aguardo. (Samuel Maia, por e-mail)

R.:Caro Samuel, esse é um dos temas que, frequentemente, abordamos em nossas entrevistas. Temos a certeza de que muitas informações importantes podem ser obtidas nas diversas edições. Mas a sugestão é ótima e vamos abordar esse assunto em breve.

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você na violão+

Não é segredo que comando uma Or-questra de Violões em São Paulo, já há muitos anos (27, para ser exato). Então, tenho alguma experiência no assunto e conheço muitas orquestras de violões pelo Brasil afora. Fiquei muito feliz ao

receber o contato da Orquestra de

Vio-lões de Brasília, que acaba de

comple-tar 25 anos de existência. Além de dar os parabéns aos fundadores, violonistas, e àqueles que já passaram ou que estão no grupo, não tenho como deixar de co-mentar sobre a qualidade e a competên-cia de todos. Ouvi, depois ouvi de novo, e adorei! Qualidade nos arranjos, equilí-brio nas sonoridades, delicadeza e

agres-vIDA LONGA

sividade bem combinadas. É um trabalho maduro. Que dure muitos e muitos anos. Para exemplificar, escolhi, entre diversas faixas,”Loro”, de Egberto Gismonti, meu compositor favorito. Ela está no segundo CD do grupo, À Moda Brasileira, exclu-sivamente dedicado à música brasileira, com arranjos próprios, em uma nova via-gem pela diversidade sonora dos violões. A direção esteve sob batuta dos violoni-stas Jaime Ernest Dias e Paulo André Tavares, a quem foi dedicado o disco. A Produção Executiva é de outra integran-te da Orquestra, Simone Lacorintegran-te. A apre-sentação do CD, inserida no encarte, é assinada pelo violonista carioca Guinga.

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6 • VIOLÃO+

EM PAUTA

ENTRECUERDAS

O músico catarinense Ricardo Pauletti se apresentou na 17ª edição do Festival

Internacional de Violão Entrecuerdas, no Chile, considerado um dos maiores

festivais do instrumento das Américas. Pauletti foi o representante do violão brasileiro e do choro, fazendo cinco apresentações em diferentes cidades daquele País. O violonista, compositor e arranjador estudou violão erudito no Brasil e na Espanha e, após receber orientação de Luiz Otávio Braga e Maurício Carrilho, passou a se dedicar ao choro e ao violão de 7 cordas. Com dois álbuns (Variações Brasileiras e Choro de Faia) e um DVD (Ricardo Pauletti

Trio) lançados, o músico desenvolve também carreira acadêmica atuando

como professor de violão, arranjo, prática de choro e prática de conjunto no Conservatório de Música Popular de Itajaí, desde 2009. Como produtor cultural é um dos idealizadores do Seminário de Violão de Itajaí, que já contou com a participação de alguns dos principais nomes no Brasil como Yamandu Costa, Marco Pereira, Paulo Belinatti, Duo Siqueira Lima, Marcus Tardelli, Daniel Wolff, Conrado Paulino, Paulo Porto Alegre, Alessandro Penezzi, Henrique Pinto, Marcus Llerena e Glauber Rocha, dentre outros.

(7)

EM PAUTA

No dia 31 de outubro, o mestre Luizinho 7 Cordas (veja matéria nesta

edição) comemora 70 anos de idade, e o Espaço Uirapuru - centro de ensino

musical onde Luizinho leciona e está à frente em parceria com os músicos Euclides Marques e Zé Garcez - celebra a data com atrações musicais que fazem jus à grandeza do mestre. Entre as apresentações, o consagrado duo Euclides Marques & Luizinho 7 Cordas - bastante elogiado pela crítica musical, relembrando o trabalho do CD Remexendo - e o Quarteto Roda de Choro, do qual Luizinho faz parte há nove anos.

LUIZINHO 70

INDICADOS

Almir Sater e Renato Teixeira foram indicados ao Grammy Latino em duas categorias: Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras por Ar, e Melhor Canção em Língua Portuguesa, por “D de Destino”. A cerimônia de premiação será realizada em Las Vegas, no dia 17 de novembro.

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8 • VIOLÃO+

EM PAUTA

ESTREIA

Formado por Everton Gloeden, Tadeu do Amaral, Luiz Mantovani e Gustavo

Costa, o Quarteto Brasileiro de Violões faz, no mês de outubro, sua estreia

na Sala São Paulo, com a OSESP, sob a regência de Marin Alsop, e também toca no MASP – Museu de Arte de São Paulo. Vencedor do Grammy Latino de 2011 na categoria Melhor Álbum De Música Clássica, o Quarteto Brasileiro de Violões consolidou-se como um dos principais conjuntos violonísticos no cenário internacional. Aclamado pelo jornal Washington Post por seu “gusto virtuosístico” e “beleza sedutora”, o grupo se diferencia pela presença dos violões de oito cordas de tessitura estendida que, aliados aos instrumentos tradicionais de seis cordas, permite a exploração de um repertório inédito e inusitado dentro do universo das cordas. Em seus mais de dez anos de existência, o Quarteto já realizou mais de 250 concertos nas Américas, Europa, Ásia e Oceania, frequentemente conquistando reações arrebatadoras das plateias, críticas entusiasmadas da

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CONCURSO

Dias 12 e 13 de novembro de 2016, a Faculdade e Conservatório Souza Lima irá realizar seu já tradicional Concurso de Violão, agora em sua edição de número 27. Com Coordenação Artística de Sidney Molina, o concurso será franqueado a violonistas de ambos os sexos, de quaisquer nacionalidades e tem entre as premiações três violões Samuel Carvalho. As inscrições deverão ser feitas até o dia 4 de novembro de 2016 impreterivelmente, no site da instituição, onde podem ser encontradas todas as informações: http://souzalima.com.br.

O violonista e compositor porto-alegrense Marcos Davi está lançando

Sete, seu novo CD, gravado entre

Brasil e França, que deriva de vários trabalhos, pois, por critérios diversos, algumas faixas deixaram de entrar em outros projetos. “Eleanor Rigby”, gravada com Ulisses Rocha, por exemplo, era parte de um DVD. Apesar de ser um trabalho essencialmente instrumental, o álbum traz uma música cantada pela cantora francesa Lucie Etienne (“Prá Dizer Adeus”, de Edu Lobo e Torquato Neto).

(10)

10 • VIOLÃO+

RETRATO

Por Marcia Braga

Uma grande

história

Violonista, compositor e arranjador, Geraldo Ribeiro

é um dos mais destacados violonistas do país.

Compôs cerca de 300 obras para violão solo e

diferentes formações – violão e orquestra, duos

e quartetos - e destaca-se por seu pioneirismo

no resgate de obras de importantes violonistas e

compositores e por performances memoráveis que

marcaram a história do País

Baiano de Mundo Novo, Geraldo Ribeiro interessou-se pelo violão desde pequeno, quando ouvia os violonistas da região. Ainda na infância, ganhou um disco do mineiro Mozart Bicalho e, ao ouvi-lo, seu interesse pelo instrumento se consolidou. Em São Paulo, teve seu primeiro contato pedagógico com o violão por meio de método prático do célebre violonista Américo Jacomino (Canhoto). Autodidata, passou a conhecer as obras de outros nomes importantes como Dilermando Reis, Aníbal Augusto Sardinha (Garoto) e Abel Fleury. Ao receber aulas do professor Oscar Magalhães Guerra, o mesmo lhe apresentou a obra de Francisco Tárrega, entre outros importantes compositores. Geraldo Ribeiro faz parte do seletíssimo grupo de violonistas que tocou no Teatro Municipal de São Paulo, onde apresentou

o célebre “Moto Perpétuo”, de Paganini, em transcrição para violão de sua autoria (em primeira audição mundial). Suas gravações são referência para quem é concertista. Como professor, lecionou na Universidade Nacional de Brasília (UNB) - tendo sido o primeiro violonista brasileiro a lecionar em uma universidade – e no Conservatório de Tatuí (de 1983 a 2008).

Mesmo assim, quando se fala de Geraldo Ribeiro, muita gente não o conhece. Seu olhar pioneiro sobre obras de Garoto, Armando Neves e outros, inspira os que o seguem, mas pouco se diz. Nas homenagens a Garoto, recentemente, por ocasião do seu centenário de nascimento, um documentário lançado e...nenhuma citação. VIOLÃO+ quer ajudar a mudar essa história, que não merece o esquecimento.

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RETRATO

Geraldo Ribeiro

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12 • VIOLÃO+

RETRATO

Violão+: Como teve contato com a

obra do Garoto?

Geraldo Ribeiro - Meu pai comprou

um radinho e eu ficava fuçando até que consegui pegar. Primeiro, um violonista com uns sons bonitos: era o Dilermando Reis. Me parece que ele tinha um programa na Rádio Clube do Brasil, quintas-feiras à noite, às 21h. Uma vez por semana e ao vivo. Só depois encontrei Garoto, que tinha um programa na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Era uma hora por semana, se me lembro bem, todas as segundas-feiras às 13h.

Então, você começou ouvindo Dilermando...

Acontece que, nessa época, o mais famoso era Dilermando. Era assim o prefixo do Garoto: ele tocando as cordas soltas do violão, da sexta a primeira e vice-versa, em um acelerando. Finalizava com a canção, “A Voz do Violão”, de Francisco Alves. Os programas eram ao vivo e Garoto tocava não só composições próprias, como outras de célebrescomo Tárrega. Garoto estudou com Atílio Bernardini.

E qual foi a trajetória até a gravação do disco? Como conseguiu os originais? Tirou de ouvido?

Somente depois de muitos anos (pois naquela época eu nem sabia escrever música, devia ter uns 12 ou13 anos),

(13)

Sem contar com as gravações que você está fazendo agora, o disco do garoto foi que número?

Foi o sétimo que gravei, lembrando que o “Noite de Gala” era um álbum duplo e foi gravado ao vivo na apresentação que fiz no Teatro Municipal de São Paulo.

Você chegou a dar concertos tocando Garoto?

Somente Garoto, não. Eu sempre colocava algumas músicas conforme o concerto.

No último concerto que fez na cidade do Rio de Janeiro, você se lembra qual composição de Garoto você apresentou?

Acho que a “Debussyana”. Quem promoveu essa apresentação foi meu amigo Sérgio de Pina, violonista querido, já falecido.

RETRATO

quando já estava em São Paulo, lá por volta do finalzinho dos anos 70, que transcrevi umas 15 composições do Garoto, muitas dadas diretamente pelo Ronoel Simões, que pagou para um profissional em gravações gravar o próprio Garoto. Depois de transcrevê-las, em uma conversa com Olavo Rodrigues Nunes - um escritor que depois se tornou advogado - fiquei incentivado a gravar um LP somente com músicas de Garoto. Isso aconteceu em 1980, ou seja, 25 anos após a morte do compositor.

Qual foi para você a grande contribuição do Garoto compositor?

Foi ter modernizado a música popular brasileira, utilizando um material harmônico novo, baseado em acordes dissonantes, extraídos do jazz. Acho que ele vislumbrou não só a bossa nova, pois ela é bem mais fraca do que suas composições (risos).

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14 • VIOLÃO+

Você fez uma citação no início desse nosso bate-papo das palavras de Jesus: “Batei e abrir-se-vos-á”. O que você quis dizer com tão sublimes palavras? Como foi a história da sua passagem pelos Estados Unidos? (Geraldo deu a entender que suas portas não foram nada fáceis de abrir quando estava em sua plenitude. Que, mesmo assim, ele voltou-se totalmente para o violão e as foi abrindo sozinho, até que aos 40 anos de idade, tentou abrir uma grande porta, indo residir na América do Norte, no bairro de Queens, em Nova Iorque, onde lá viveu por quase dois anos, morando primeiro na casa de um casal de portugueses e logo depois na casa de um casal americano).

A minha finalidade em Nova Iorque

era fazer um teste para a RCA Victor, mas enquanto estive morando com os portugueses, não me era me permitido estudar. Já na casa dos americanos, fiquei por pouco tempo, pois logo fui morar no Hotel Savoy. Depois de uma temporada que fiquei por lá, tive de voltar ao Brasil para resolver problemas com minha casa, que eu havia vendido e a pessoa não me enviava o dinheiro como o combinado. Devia ter ouvido o conselho de deixar essa casa para lá e ter continuado com meus propósitos de realizar minhas gravações. Tive assim de voltar ao Brasil e, em 1982, fui convidado a dar aulas no Festival de Inverno em Campos do Jordão. No ano seguinte, fui novamente convidado a dar aulas também em Tatuí, onde permaneço até hoje.

(15)

RETRATO

Você saberia dar sua interpretação do fato de, apesar de toda a sua vontade, de todo seu talento e de toda sua competência como músico violonista e compositor, tão poucas pessoas saberem quem é Geraldo Ribeiro?

Não culpo ninguém e não é uma questão de injustiça. Aí é o seguinte: se nem meus próprios parentes me valorizaram, o que dirão os que estão fora? É uma arte difícil, a música erudita. A popular tem mais abertura, mas eu não estou tão isolado. Os meus discos estão aí, e uma hora dessas alguém pode estar ouvindo algum deles. Se não me convidam para tocar é porque não querem, mas eles sabem da minha existência. E tenho de respeitar isso. É um direito que eles têm e o meu é prosseguir como sou e como sinto as coisas.

E como é isso?

Devo continuar estudando e tocando como sinto. É como Jesus disse: “Ninguém pode esconder um alqueire debaixo de uma mesa”. Se a pessoa tiver valor, ele vai aparecer, quer queira, quer não. Eu acredito nessa possibilidade. Por isso, insisto e continuo tocando. Quando uma pessoa desiste do que quer é porque não crê em si mesma. Eu sempre procuro acreditar naquilo que faço, sem medir as dificuldades que normalmente surgem no decorrer da vida.

O que você mais deseja que se realize?

O que sempre foram os meus propósitos: aquilo que fiz desejo continuar fazendo e, espero, todos os dias fazer o melhor possível.

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16 • VIOLÃO+

ESPECIAL henrique pinto

Por Luis Stelzer

O mestre

dos mestres

Ao relembrar seis anos do falecimento

de Henrique Pinto,

Violão+

convidou

violonistas, professores e luthiers para

falar sobre sua importância para o

desenvolvimento do violão brasileiro

“Que Henrique Pinto foi um grande professor, músico, trabalhador incansável, todo mundo sabe. Tive o privilégio de ser seu aluno desde o segundo ano da Faculdade de Música na Universidade São Judas Tadeu, em 1986. Me formei no ano seguinte e fiz aulas com ele até 1989. Nesse meio tempo, participei do Violão Câmara Trio, ao lado de Henrique e Giacomo Bartoloni, meus dois mestres. Essa convivência me deu oportunidade de conhecer outros aspectos de sua personalidade: seu bom humor, seu vício em salgadinhos (pastéis e coxinhas eram os preferidos), sua risada, sua belíssima caligrafia. Quis o destino que eu não me tornasse um grande violonista, mas valeu a pena ter conhecido Henrique e aprender com ele o valor do esforço, da perseverança. Já são seis anos sem ele, e ainda sou capaz de detectar seus traços nos gestos e falas de seus ex-alunos com que ainda convivo. Valeu, Henrique.”

Paulo de Tarso Salles – compositor, arranjador, violonista, professor

“Henrique Pinto para mim, foi um enorme norte, mesmo não tendo sido aluno direto dele - fui aluno de alunos dele como Isidoro Cordeiro e Angela Muner, por exemplo. Violões que tive de alguma forma passaram pelo olhar crítico dele, como meus C3 e C7 da Giannini e até o Sergio Abreu. Foi além de grande violonista e didata do violão, alguém que unia, em São Paulo, os violonistas em torno da cultura do instrumento. Participei desde adolescente, no início da década de 1980, dos Seminários e Concursos de Violão promovidos por ele e era uma grande oportunidade de troca de conhecimento e experiências, encontros estes que deixam saudade, pois, lá vimos aparecer grande parte dos nomes ligado ao violão até os dias de hoje, desde professores, luthiers e concertistas até amantes do instrumento - papel que ninguém ainda conseguiu assumir e que faz falta ainda em nosso meio.”

Ricardo Luccas – violonista, professor e pedagogo

(17)

ESPECIAL henrique pinto

“A amizade começa com amor ao primeiro encontro. Era professor de música na Faculdade São Judas Tadeu onde Henrique dirigia o curso de violão. Na primeira reunião, percebi o porte e a envergadura de quem conhecia pelos livros e métodos. De primeira, ficamos amigos, pois o mesmo pensamento musical nos aproximava e os objetivos eram afins, afora a impressão que tive quanto à personalidade forte e bondosa. Bem, tratava-se de um titã. Ele, como toda pessoa intuitiva que era, observou em mim muitos aspectos que eu mesmo não havia detectado e convidou-me a participar, como jurado, dos concursos que promovia, e também como professor dos cursos de nível nacional que produzia e dirigia. Henrique, Ângela Muner e eu formamos um grupo para estudar com o professor Ricardo Risek, o que nos aproximou ainda mais. Não é necessário dizer sobre a gratidão que tenho em ter trabalhado e ter sido amigo do maior e melhor professor do instrumento que tanto amo. Aprendi com o mestre por seis meses que valeram para a vida toda. Henrique tinha visão global e era um produtor. O dom de ver economia e progresso financeiro era enorme nele e isso teve um impacto muito grande em muitos discípulos e eu não estava fora dessa turma. Infelizmente, conheci ingratos, hoje doutores, que negligenciam o nome do mestre em seus currículos, pelo simples fato de Henrique Pinto não ter feito o mestrado. Precisava de um mestrado, de um doutorado? Hoje mesmo, assistindo no Youtube alguém falar sobre gratidão, e com o impulso do espírito, repliquei a postagem escrevendo o nome do mestre Henrique Pinto, pois a saudade é a palavra de efeito maior em meu coração.”

Reinaldo Garrido Russo, violonista, professor, maestro, regente de coral, compositor e arranjador.

“Henrique Pinto foi um dos mais importantes professores de violão da história. Figura de carisma ímpar, centrou seus ensinamentos e obras didáticas na escola de Abel Carlevaro, formando várias gerações de violonistas profissionais no Brasil. Conheci o Henrique por meio da excelente violonista Ana Bedaque, no início dos anos 80. Generoso, ele imediatamente se prontificou a me orientar e nunca me cobrou um centavo pelas aulas que me deu. Sua influência na minha vida pessoal - e musical - é sem precedentes. Creio que suas principais características como professor eram: desenvolver no aluno uma sonoridade limpa e bela, um senso estético musical sempre centrado na ideia do compositor, e o pleno conhecimento das possibilidades técnicas do instrumento. Entusiasta do violão, ele criava oportunidades profissionais para seus alunos por meio de séries de concertos e festivais. Henrique era uma figura muito humana e carinhosa e, literalmente, adotava seus alunos. Aqueles que tiveram a sorte de fazer parte desta família, certamente sentem sua ausência com pesar e saudades.”

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18 • VIOLÃO+

ESPECIAL henrique pinto

“Conheci o Henrique em 1996, em Varginha, Minas Gerais, no Conservatório Estadual Marciliano Braga, onde eu estudava na época. Foi um momento incrível. Eu iria fazer meu primeiro recital de violão, e na plateia, estava ninguém menos que Henrique Pinto. Depois disso, voltaria a reencontrá-lo no X Concurso Nacional de Violão Souza Lima em 1999 e daí em diante me tornaria seu aluno, pimeiramente com aulas particulares e, depois, na Faculdade de Artes Alcântara Machado. Nos anos seguintes eu começaria minha carreira profissional e, além de um professor dedicado, Henrique me deu total apoio e incentivo, emprestando-me um de seus emprestando-melhores violões (um Sergio Abreu, de 1987, que mais tarde eu compraria e que está comigo até hoje). Sob sua orientação, formei com Cecilia Siqueira o duo Siqueira Lima, trabalho que ele acompanhou de perto, nos aconselhando tanto tecnicamente como na escolha do repertório. Também nos abriu os primeiros espaços para recitais nos inúmeros eventos que organizava. Entre tudo que aprendi com o mestre, creio que o

“Henrique Pinto é meu avô musical, foi professor do meu pai e mestre Giacomo Bartoloni por mais de dez anos. Também fui aluno dele por um período relativamente curto, de 18 meses, entre 1998 e 2000. Aprendi muito mas, mais do que isso, sem o Henrique minha vida seria completamente diferente. Na verdade, minha existência está relacionada ao fato do meu pai ter se tornado violonista e todo o direcionamento que o Henrique ajudou a dar em sua vida. De qualquer maneira, com o Henrique eu aperfeiçoei minha sonoridade, e aprendi a ser um professor melhor tendo ele como modelo. Mais que isso, eu devo minha vida a ele.”

Fábio Bartoloni – violonista, professor, mestre em música.

que mais me influenciou foi a busca pelo perfeccionismo e pela sonoridade ideal. Ele dizia que “música é som” e, portanto, a sonoridade deveria ser nossa principal preocupação. Em resumo, Henrique fez parte de todos os passos importantes de minha vida musical e se tornou um amigo para todos os momentos. Foi, inclusive, padrinho de casamento. Atualmente, ocupando seu lugar na Faculdade Cantareira - cargo que me transferiu pouco tempo antes de sua morte - me sinto com uma responsabilidade imensa por estar dando continuidade nesta pequena parte de seu trabalho pedagógico. Seu legado seguirá por muitas gerações por meio de seus inúmeros alunos espalhado por todo mundo. Portanto, só temos a dizer: obrigado, Henrique!”

Fernando de Lima – violonista, concertista, arranjador – Duo Siqueira-Lima

(19)

ESPECIAL henrique pinto

“Henrique Pinto se preparou muito bem para ser o melhor professor de violão de seu tempo. Em primeiro lugar, porque ele, de fato, estudou com Abel Carlevaro tempo suficiente para absorver consistentemente os princípios de sua técnica, que era, então, revolucionária; em segundo lugar, porque não ficou restrito a ela: em uma época em que havia surgido também o Duo Abreu - com quem ele conviveu e a quem observou com olhar de especialista, principalmente no que se refere à mão direita e sonoridade - chegou a uma abordagem que acabaria por se tornar a marca registrada do violão clássico brasileiro, uma contribuição sua que certamente ajudou no destaque de um grande número de concertistas e grupos de câmara brasileiros que começaram a ter uma inédita projeção internacional a partir dos anos 1990 a 2000. Exemplos são Fabio Zanon, Angela Muner, membros do Quaternaglia e do Brazilian Guitar Quartet, Paulo Martelli, Brasil Guitar Duo e Duo Siqueira Lima, entre muitos outros. Em terceiro lugar - e isso é o mais decisivo - porque Henrique não focou a sua atividade pedagógica apenas em formar concertistas, já que trabalhava com adolescentes, jovens e diletantes com a mesma paixão. Ainda assim, foi um dos pioneiros do ensino universitário do instrumento: como professor do FIAM FAAM desde 1974 - o mais antigo curso superior de bacharelado em violão de São Paulo ainda em atividade - preparou o terreno para a (tardia) incorporação do violão

nas universidades públicas do Estado. Paralelamente, sabia que os alunos precisavam de espaços e situações para tocar, e por isso criou seminários, cursos e concursos. Se for para citar uma única qualidade de sua didática, diria que ele tinha uma leitura profunda e direta das características mecânico-musicais de seus alunos, o que lhe permitia escolher, sempre, o melhor conjunto de peças para eles. Simplesmente os seus alunos evoluíam mais do que os outros, a prática funcionava, gerava motivação para o estudo. Henrique Pinto foi o melhor professor de violão de sua geração.”

Sidney Molina - violonista do Quaternaglia, professor do FIAM FAAM em São Paulo, do Instituto Carlos Gomes em Belém (PA) e crítico de música da Folha de S. Paulo. É coordenador do Concurso de Violão Souza Lima.

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20 • VIOLÃO+

ESPECIAL henrique pinto

“Me lembro bem da primeira vez que me encontrei com o Henrique Pinto. Sim, por um motivo simples: esse encontro mudou definitivamente a minha vida, tendo sido importante por vários motivos. Foi por uma jogada da sorte. O ano era 1988, e eu estava entrando na Estação Vergueiro do Metrô (São Paulo), quando recebi e comecei a ler o jornal Metro News. Na seção de anúncios, estava a informação de um curso gratuito de violão clássico a ser realizado na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no Centro da capital, sob direção do Henrique Pinto. Eu, obviamente, já o conhecia pelos seus métodos (que nunca utilizei, já que passei minha infância estudando os métodos de Isaías Sávio, mestre de Henrique Pinto, aliás), e essa era a oportunidade de ver como ele era como professor, e como eram seus alunos enquanto concertistas. O curso estava lotado. A Biblioteca respirava violão, e todos os participantes estavam eufóricos. Entre as atrações estavam alunos de destaque, como Paulo Pedrassoli Jr (ele ainda assinava o “Jr.”), Breno Chaves (que naqueles mesmos dias concorreria pelo Prêmio Eldorado, o mais importante do Brasil naquela época) e o aluno que eu mais gostei, Paulo de Tarso Salles, que além de excepcional violonista era (ainda é) também excepcional compositor. A grande atração foi a apresentação do Violão Câmara Trio, que faria sua última performance tendo como integrante Giácomo Bartoloni. Por ter acabado de assumir a vaga de

professor na UNESP, com dedicação exclusiva, ele teria que deixar o grupo e seguir essencialmente uma carreira acadêmica (ou pelo menos com menor quantidade de recitais). A aula didática (masterclass) de Henrique Pinto foi inesquecível. Ele passava a impressão de saber tudo relacionado ao instrumento - técnica, interpretação, história, o diabo. E também conduzia a Mostra com total propriedade, do primeiro ao último dia. Esse evento foi também importante por eu conhecer meu primeiro amigo-violonista que se tornou profissional: Flávio Apro, que, na época, era mais um talentoso discípulo de Henrique Pinto. Eu viria a assistir vários outros eventos organizados pelo célebre didata, tanto no Brasil quanto no exterior. Sua participação no Festival Agustin Barrios de 1994 (cinquentenário do violonista paraguaio) em Assunção, Paraguai, deixou uma excelente impressão em todos os participantes, especialmente nos violonistas estrangeiros. E eu pude também ver o nascimento e amadurecimento tanto do Concurso Souza Lima quanto do Seminário de mesmo nome, no início da década de 1990. Uma das grandes honras da minha vida,

(21)

ESPECIAL henrique pinto

sem dúvida, foi ter sido jurado ao lado de Henrique Pinto em uma das edições do FENAVIP (Festival Nacional de Violão do Piauí). Nessa mesma edição, todos os participantes (eu, Ana Vidovic, Henrique Pinto, João Carlos Victor, Nonato Luiz, Erisvaldo Borges e Sebastião Tapajós) tocaram no encerramento uma música em conjunto, tendo como maestro – quem mais? – o próprio Henrique. Daí, pude observar, também, toda a sua lendária tensão e nervosismo para se apresentar. Mas mesmo assim ele foi fantástico, e sua presença deu um ar ainda mais digno à apresentação. Nos eventos que ele organizou (Violão no MASP, Seminário Souza Lima etc) era folclórica, também, a maneira que ele nos convidava para tocar: geralmente, ele telefonava por volta das 06:00 horas da manhã, pedindo resposta urgente se aceitaríamos ou não tocar em seus eventos. Então, tínhamos que enviar por fax (quando ainda não existia internet) o programa e o currículo, naquele mesmo dia, sem falta. Ele acordava cedo para aproveitar bem o dia, mas também para dar conta das dezenas de aulas diárias, tanto particulares quanto nas escolas públicas e universidades particulares que ele lecionou (FAAM, Universidade São Judas Tadeu etc). Quando criei o Concurso Nacional Musicalis, em 1997, a primeira atitude que tomei foi telefonar para o Henrique Pinto, com o intuito de pedir suas dicas para fazer dar certo o evento, mas, no fundo, para pedir sua benção em relação àquele concurso. Ele foi extremamente generoso, e já na primeira edição marcou presença na etapa final do certame, sendo sua

presença aplaudida pela plateia. A benção estava dada. Henrique Pinto foi importante em todos os aspectos em que atuou, seja na área didática, na interpretação, na organização de eventos e até mesmo na ampliação do repertório camerístico brasileiro para violão, especialmente nas obras para Trio de Violões (pelo Violão Câmara Trio) e nas de Flauta e Violão (por seu duo com o flautista Jean Noel Saghaard). No final de sua vida, Henrique também foi um exemplo de comprometimento com o violão por ser presença constante nos recitais do instrumento, numa época em que as salas de concerto estavam cada vez menos frequentadas, talvez por causa do Youtube. Henrique assistia a essencialmente todos os recitais que podia, seja na capital, seja no interior. Henrique Pinto faz falta. Mesmo que discípulos e amigos continuem seu legado na organização de eventos, nos recitais camerísticos ou nas universidades, sua maestria em ensinar pessoas de todas as idades a tirarem uma sonoridade expressiva e possante do violão não tem paralelo na história da didática nacional, mesmo com os vários e excelentes professores brasileiros. O trabalho de base da técnica tinha em Henrique Pinto um mestre insuperável. Tenho orgulho de ter sido contemporâneo, amigo e companheiro de profissão de Henrique Pinto. Onde quer que esteja, receba meu forte abraço, e minhas saudades.”

Gilson Antunes - violonista, concertista, doutor em música, professor da Universidade Federal da Paraíba.

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ESPECIAL henrique pinto

“Não sei como nem em que ano o Henrique apareceu em casa... Naquele tempo, meu pai era relativamente moço e era o professor da moda, pois eu já tinha começado a dar concertos e me tornava muito conhecida. Talvez final dos anos 50, começo dos anos 60. A minha impressão era que o Henrique fosse uma criança, pois, além de pequeno, era extremamente magro, impressão essa que se revelou falsa, pois ele era mais velho que eu! Meu pai começou as aulas e logo se entusiasmou com o talento, a facilidade e a “paixão” que o novo aluno demonstrava. Assim se passaram os anos: o Henrique progredindo a largos passos, tanto na técnica como na musicalidade, e meu pai dando as aulas gratuitamente (pois havia dificuldades financeiras) para o aluno querido. O Henrique era muito meu amigo. Depois da aula, minha mãe sempre preparava algo para ele comer. Ele ficava lá em casa, como um filho do “violão”. Quando comecei minhas viagens para a Europa, era o Henrique quem me “substituia”, tanto em casa, como também ficava com meus “aluninhos”. Não sei em que ano o Henrique desapareceu de casa, nem qual foi o motivo do desaparecimento.... Meu pai ficou muito triste, mas como era pessoa que vivia com certa filosofia, continuou seu imenso trabalho com outros alunos talentosos. Algum tempo depois soubemos que foi ser discípulo de meu tio Savio. Em 2009, quando decidi fazer uma homenagem aos 100 anos de meu pai, entrei em

contato novamente com o Henrique. Ele tinha se transformado no professor de quase todos violonistas de São Paulo. Nos vimos na noite do célebre “apagão”. Após tantos anos (quarenta!), o menino franzino da minha infância tinha se transfigurado em um homem encorpado, cabelos brancos, mas com o mesmo brilho no olhar da juventude. Preparamos um concerto no MASP e nos lançamos na última “aventura violonística”. Preparei um recital solo e alguns duetos, algumas vezes ele parava e dizia que não estava mais em forma, mas, mesmo assim, a boa escola São Marcos estava intacta, posição da mão direita - tão importante para a sonoridade - e esquerda, no que diz respeito à segurança das mudanças de trastes. Lá estava o velho São Marcos! Para mim, foi uma verdadeira revelação constatar como o começo da aprendizagem de um instrumento é tão importante. Pouco tempo depois, um ano exatamente, partia meu amigo Henrique. Quem sabe foi encontrar meu pai e Savio em outro plano para continuar a falar de violão! Onde você estiver Henrique, seremos sempre amigos.”

Maria Lívia São Marcos - violonista, concertista internacional

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ESPECIAL henrique pinto

“Fui convidada a falar sobre Henrique Pinto e a primeira coisa que me vem à mente é ‘Professor: aquele que professa uma crença...’ (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). Tive aulas com ele, assim como com muitos outros, de muitas matérias e em vários lugares. Aprendi muita coisa com muitos deles. Mas é o Henrique, ao meu entender, que detém e personifica o que é um professor. A música, um instrumento, o violão, no caso, é algo que ainda hoje vejo com espanto e encantamento. É sempre uma surpresa, uma descoberta, uma magia. O professor é aquele que, além da técnica, crê nisso e em cada aula abre uma janela para esse universo: tocar não é só mexer os dedos com precisão, realizar bem uma melodia/harmonia, mas, também, a generosidade de encantar e principalmente encantar-se com o outro, de pensar no outro, abrir caminhos de ajuda, de convivência, de empatia. Ele realmente acreditava nisso e eu também acredito. Acho que alguma coisa aprendi. Poderia falar muito mais sobre ele, tudo que fez, cursos, concursos, edições, os grandes alunos que teve e todo o vazio e saudade que deixou. Mas prefiro dedicar meu pensamento ao que o fez um grande e inesquecível professor: ensinar o que acreditava.”

Norma Nacsa – violonista, guitarrista, professora

“Conheci o Henrique na década de 1970. Ao ouvir uma apresentação de seus alunos na ProArte, em São Paulo, em 1975, me tornei seu aluno por 5 anos. Além de professor, Henrique foi um grande amigo, conselheiro e incentivador. Foi meu padrinho de casamento, em 1980, e de lá até seu falecimento foi uma pessoa imprescindível, sempre me apoiando em todas as minhas mudanças de caminho, Henrique foi uma personalidade marcante em minha vida. Devo muito a ele: o ensino, a

entrada no mundo artístico, o conceito pedagógico e a importância da proximidade entre artista/público para a plena transmissão da mensagem artística. Mestre inesquecível! A lacuna que Henrique deixou com sua morte, ainda que sendo substituído parcialmente por vários de seus alunos, ainda não foi preenchida. Henrique tinha uma capacidade de trabalho impressionante. Seja como professor, editor, produtor, intérprete ou agitador cultural, poucas pessoas tiveram o espectro abrangente deste que foi o “mestre dos mestres”, como diz o título do disco lançado em sua homenagem.” Paulo Porto Alegre, violonista, compositor, arranjador e produtor.

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ESPECIAL henrique pinto

“Ahh! Como o tempo passa.... Já se foram 30 anos de carreira. Será que estou ficando velho? Quantos anos eu teria se não soubesse quantos anos tenho? Pronto, me sinto com 25 anos! Mas, e meu amigo Henrique Pinto? Já se foram 6 anos que ele passou para a próxima dimensão. Sinto saudades. Lá estava eu com mais ou menos 10 anos, quando o Henrique apareceu em casa para uma visita a meu irmão Luiz Carlos, aluno do mestre no Conservatório Guiomar Novaes, na Vila Carrão, bairro vizinho ao nosso, Vila Matilde, em São Paulo. Bons tempos, mas o melhor estava por vir! Enquanto uns estudavam música, fui estudar desenho artístico, já que tinha queda pra habilidade manual, controle fácil das mãos, pelo menos a direita (risos) e, quando criança, gostava de desenhar e fazer esculturas em metal e madeira: destruí várias moedas de Réis esculpindo passarinhos, corações, chaves - para abrir o cadeado do portão e escapar para a rua (risos). Depois, fui estudar desenho publicitário com o grande mestre Otsu, na escola Cândido Portinari, no centro de São Paulo. Trabalhei em muitas agências de propaganda, por anos. Mas, o violão em casa era um show à parte: a música reinava. Meu pai, Angelo, e meu irmão faziam a festa. O mestre Henrique era, realmente, O Mestre. O desenvolvimento era vertiginoso. Claro, o aluno Luiz se dedicou bastante também. O tempo foi passando e comecei a perceber que o violão não parava de me olhar. Eu passava pela casa e ele lá, me olhando, parecia dizer ‘ô’, com aquela boca redonda, enorme. Um dia, peguei o bichinho, olhei, examinei por dentro, por fora, olhos de desenhista, trastes, cordas, tarraxas, verniz... “Sei não, estou vendo alguns defeitos aqui, acho que posso melhorar isso...” Falei com o Luiz, que falou com o Henrique, que falou com o Laurentino Pollis, e lá vou eu pra Carapicuiba, todo sábado, 41 kms e 43 semáforos! Era fevereiro de 1986. Essa chance parecia um presente de aniversário: eu completava 26 anos nesse mês. O grande Henrique deu a maior força e o Laurentino deu o maior apoio - grandes corações, sou muito grato. Amei a arte da lutheria, comecei a mostrar os primeiros instrumentos ao Henrique em menos de um ano, na verdade, em seis meses. Ele adorou o resultado, mas disse “dá para melhorar”. Então, depois que parei com o Laurentino, ele me apresentou o Sérgio Abreu, outro grande coração. Comecei a me encontrar com ele no Hotel em São Paulo, quando vinha para a Gianinni trabalhar nos violões C7 Modelo Abreu. Também fiquei um tempo no Rio de Janeiro, em seu atelier. Ah, que empolgante foi essa época, mas chega uma hora em que os amigos começam a mudar de planeta. Nada contra! Tudo tem uma ordem maior no controle, tudo retorna à Fonte, e seguimos em frente, por enquanto. Me lembro bem dos inúmeros encontros com o Henrique, tanto no seu estúdio como na minha casa em São Paulo e, depois, em Cerquilho, onde ele gostava muito de vir passear com sua esposa. Sempre trazia alguns violões para eu regular, e, às vezes, levava alguns meus para seus alunos. Nesses saudosos encontros eu percebia a disposição enorme em trabalhar que ele tinha: muita energia, muita determinação, viagens, seminários, concursos... Enfim, usou muito bem seu tempo de vida em divulgar o violão, o nosso querido violão.”

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ESPECIAL henrique pinto

A coisa principal do Henrique é que a influência dele ainda se fará sentir por décadas. Todos os violonistas que tiveram contato com ele, quando se encontram em algum concerto ou festival, se entreolham com cara de “que será que o Henrique acharia disso?”. Ele parece um “espírito-santo” do violão brasileiro. A influência benevolente dele não diminui, mesmo já tendo passado algum tempo desde que morreu. Nunca um professor foi tão fã de seus alunos; ele não faltava nunca nos momentos mais importantes. O curioso é que só fui aluno dele por um ano, mas foi um ano em que resolvi tantas coisas de minha maneira de abordar o violão, que parece que ainda sou aluno dele. Tinha uma mística ao redor do fato de se tocar para o cara que tinha escrito Iniciação ao Violão, o método pelo qual todo mundo aprendeu a tocar. A gente se sentia na obrigação de se preparar melhor para tocar para o Henrique; em troca, ele nos brindava com uma vontade incontrolável de estudar; dava vontade de abrir o estojo ali na calçada mesmo para manter o pique da aula. Ele sempre casou uma honestidade total de julgamento com um desejo igualmente honesto de ajudar, de dizer algo que nos levasse a melhorar. Com o Henrique, a gente não tinha a sensação de que existia um teto para o desenvolvimento: ele nos tratava como se fôssemos um Segovia em potencial. Isso tirava muitas das inseguranças e incertezas que tanto prejudicam o desenvolvimento de quem está na

boca do gol. Devo também dizer que meu primeiro professor “ formal”, tirando meu pai, o Antonio Guedes, andava afastado do violão e, por influência do Henrique, voltou a tocar, dar concertos etc. E foi justamente nessa época que o conheci. A influência dessas três pessoas na minha decisão de me tornar violonista foi avassaladora. Ainda precisamos estudar mais a fundo a didática do Henrique. Todo mundo lembra dos muitos alunos dele que chegaram ao topo da profissão e, hoje, não só têm carreiras internacionais como também ocupam as principais posições de ensino do país. Mas a gente se esquecede que ele tinha uma taxa de desistência baixíssima entre iniciantes também; muitos de seus alunos que não tinham facilidade tão grande, ou que não tinham como se dedicar muito, ou que preferiram outra área musical, ainda assim conseguiram melhorar e hoje trabalham profissionalmente com música. Isso é uma coisa crucial no violão, e tem de ser estudado para que quem queira trabalhar com ensino no futuro possa fazer melhor.

Fabio Zanon - violonista, concertista internacional

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matéria de capa

Onde me

chamam,

eu vou!

Luizinho 7 Cordas é uma figura! Gosta de

uma prosa, sempre de bom humor. Concebido

em Alagoas, nascido em Marília e criado em

Santos, quase virou jogador de futebol. Desde

pequeno envolvido com a música, conquista

a todos pela extrema simpatia, mas muito

mais pela competência de quem tem uma vida

inteira dedicada ao 7 cordas. Suas histórias

são deliciosas. Mas, por trás do bonachão, há

muita personalidade. Personalidade para se

impor em rodas difíceis como as dos músicos

de choro do Rio de Janeiro. Personalidade

para arranjar entre o tradicional e o moderno.

Personalidade para tocar seu violão lendo

partituras, que produz com extremo capricho,

manualmente. Venha conhecer Luizinho 7

Cordas, que já extrapolou as fronteiras do

Brasil com seus arranjos.

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Por Luis Stelzer

Onde me

chamam,

eu vou!

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Violão+: Você é um cara que veio do interior de São Paulo, de Marília, depois morou em Santos...

Luizinho 7 Cordas: Nasci em Marília,

mas na terceira mamada, já estava em Santos (risos). Não sei o que sou, veja bem: meus pais vieram de Alagoas. Meu pai se envolveu com política lá, e - até hoje é meio assim - quem ganha mata quem perde, quem perde quer matar quem ganhou, sei lá o que aconteceu. Minha mãe estava grávida de oito meses, e ele recebeu um aviso: ou sai, ou morre. Foram para Marília. Não sei se ele tinha um parente por lá, parece que foi isso. Trabalhou, plantou um pouco, daí foram pra Santos, onde havia

mais três irmãos dele. Aí, arrumaram para trabalhar no cais. Então, minha mãe veio grávida de Alagoas, nasci em Marília, depois de três meses fui para Santos, morei lá um monte de anos e agora estou aqui em São Paulo... No fundo, no fundo, o que eu sei é que sou brasileiro. Posso dizer que sou mais santista, morei lá por 50 anos.

E time de futebol, também é Santos?

Olha, treinei no dente de leite do Santos, joguei até na inauguração do Morumbi, foi um Santos x São Paulo. Naquela época, tinha o dente de leite, pessoal de doze anos. O Santos já tinha o Pelé, então a gente ia jogar. Enfim, teve a inauguração

Luizinho 7 Cordas

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do Morumbi, eu joguei! Não parece, mas joguei futebol, e até que era bom! Com tudo isso, sou corinthiano! É engraçado: morei esse tempo todo em Santos, que tinha o Pelé, tinha um timaço, mas aquela coisa de pai, de avô (se bem que eu nem me lembro se meu avô era corinthiano), tanta coisa para ser Santista, joguei no Santos, mas sou corinthiano. Quase virei profissional no Corinthians. Mas, na época, a gente pagava para jogar, praticamente. Hoje, é muito diferente. Se eu tivesse sido jogador de futebol, não estaria com nada hoje. Então, passei para a música. Os caras do Corinthians vieram me buscar, eu me escondi e não vim. Pensei: meu negócio é música, vou ficar lá em São Paulo, sem conhecer ninguém, no meio daqueles pernas-de-pau. Vou mais é ficar por aqui mesmo!

Essa história eu nunca tinha ouvido...

Acho que nunca tinha contado pra ninguém, mesmo.

Luizinho 7 Cordas

E que posição você era?

Bom, eu sou destro, mas jogava de lateral esquerdo e meia esquerda. Eu driblava para dentro e ficava bom para chutar! Como lateral, eu não era lá essas coisas, mas o cara vinha, driblava a primeira vez, na segunda eu já dizia: olha, você vai parar lá no meio do mato (risos). E levava muita porrada também, mas aguentava bem, era forte. No fundo, eu não era lá essas coisas, mas era calmo, o que me ajudava a fazer as jogadas tranquilamente. Gol, só de bola colocada, tinha habilidade.

Voltando à música, você ficou em Santos, e aí?

Bem antes disso, aos cinco anos, meu pai tinha um conjunto chamado Estrela de Ouro. Tinha uns dez caras no conjunto. Meu pai tocava cavaquinho. Tinha de tudo: clarinete, banjo, acordeom, pandeiro, timba, o cantor, um monte de gente. E eles ensaiavam duas vezes por

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30 • VIOLÃO+

semana lá em casa, uma casa grandona. Ninguém ganhava dinheiro com esse grupo, todos trabalhavam em outras coisas. Ensaiavam para tocar na casa de amigo, no aniversário de filho de fulano... E eu adorava, ficava assistindo o ensaio, que acabava de madrugada, minha mãe ficava falando: “vai dormir, menino!”. E meu pai falava: “deixa o menino aí!”. Um dia, meu pai perguntou: “você quer aprender cavaquinho?”. Eu disse: “quero!”. Aí ele me arrumou um que tinha lá, e me ensinou duas posições. Eu, molequinho, gostava dos violões. O grupo tinha dois violonistas (de seis cordas), que tocavam muito bem os choros. Tinha também os duetos que

eles faziam. Eu falava: “pai, que bonito, esses violões...”. Aí meu pai me deu um, me ensinou umas valsas, depois falou: “agora você vai tocar por aí, vai tocar com os seus amigos”. E eu fui. Fui para o Morro de São Bento. Lá, encontrei o Jacozinho do Bandolim, um bocado de gente boa junto, eles tocando aqueles chorinhos cheio de baixos, e eu ficava no 3/4 que meu pai tinha ensinado, nada a ver com o 2/4 do choro. Eu ouvia o que eles estavam tocando e achava que eu estava tocando certo. Aí, o Jacozinho virou para mim - eu tinha um sete anos, oito no máximo - e falou: “fala para o teu pai te por numa escola, para você estudar música, você leva jeito”. Eu fui

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pra casa todo triste. Meu pai falou: “ué, já veio?”. Respondi: “o Jacozinho falou para o senhor me por numa escola, mas eu já não sei tocar, pai?. Ele me acalmou: “não filho, para tocar como eles tocam, tem que aprender, mesmo”. Então, ele me levou para o Conservatório, estudar com o maestro Inácio, da Orquestra Carlos Gomes, tudo lá em Santos. Estudei até aprender. Fiquei uns três anos sem aparecer na roda de choro. Meu pai disse: “vai lá na roda de choro, mas não toca, presta atenção”. Conheci o Maurício, que tocava 7 cordas. Não tinha ainda em Santos, mas já tinha em São Pauloa. O Maurício me levou num lugar para adaptar um violão para 7 cordas. Estudamos, estudamos... Fui lá no mesmo morro onde tinha ouvido que tinha que estudar. Eu já tinha uns doze anos, então. O pessoal me reconheceu, perguntaram porque eu sumi. Desconversei, disse que estava ajudando o meu pai. Eles falaram: “toca um pouco aí”. Quando eu tirei o violão da capa, eles não acreditaram: violão de 7 cordas, como é que é isso? Eles não sabiam o quanto que eu tinha estudado. Já peguei o violão e toquei uns graves, eles adoraram. Daqui a pouco, já corrigia algum deles: olha, esse acorde não tá certo, é assim...

Você já se impôs ali...

Falaram: “que moleque danado!”. (risos)

Conquistou o seu espaço!

Pois é... Aí fui tocando, virei adulto, com vinte e poucos anos, sempre estudando. Fui tocar com o regional do Dadinho, em Santos, mesmo. Um regional refinado. Tudo soava muito bem, parecia o pessoal

do choro carioca, do Dino 7 Cordas. Meira, Canhoto... Foi quando houve os festivais da Bandeirantes, de 1977 e 1978. Eu já conhecia o Dino, ele estava sempre em Santos. O Arthur Moreira Lima comandava o festival, recebia fitas de gravações de todo o Brasil, para concorrer. Quando ele via que era de Santos, o regional era sempre o que eu tocava, o regional do Dadinho. O Arthur chamou o Dino e falou: “tem esse pessoal de Santos que é muito bom, esse violão...”. O Dino respondeu: “conheço ele, ele estudou e está estudando”. O Arthur e o Marcus Pereira (que tinha uma gravadora simplesmente fantástica) pegaram o telefone e ligaram para mim: “Alô, é o Luizinho? Aqui é o Arthur Moreira Lima. Eu e o Marcus Pereira vamos até aí em Santos conversar com vocês. Tem um projeto lá no Rio, eu quero fazer piano e regional”. Foi a primeira vez que se tocou piano com regional. No verso da capa do disco, ele cita isso tudo. Mas foi engraçado. Falei pro Dadinho da ligação, ele achou que os caras nunca viriam. Passou um tempo e ele foi lá! Chegaram os dois. Levamos eles

Luizinho com Baden Powell

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32 • VIOLÃO+

para casa de um amigo que tinha piano. Tocamos. O festival ia começar em outubro. Fomos para o Rio em setembro. Tocamos Nazareth, Pixinguinha, Jacó, tocamos tudo. Quando teve o festival, no intervalo, quem tocou no show? Eu e o Arthur Moreira Lima. Depois do festival, minha carreira decolou em São Paulo. Eu ia tocar no Rio, mas o Evandro me convidou, sabia que eu era apegado à minha mãe, me convenceu dizendo que se tocasse com ele, não precisaria se mudar, pois Santos é pertinho de São Paulo. Então, fiquei com o Evandro. Toquei com ele até a sua morte, em 1994. Entrei em 1980. Fiquei 14 anos com ele, tocamos duas vezes no Japão. Mas não fiquei só na música: trabalhei de contador uns bons anos. Quando vim pra são Paulo, falei: “aqui, tenho que dar

certo! Se saí de Santos, é para viver de música. Ela tem que pagar o sustento meu e da minha família!”, porque a essa altura, eu já estava casado, só que ainda sem filhos. No começo, vim sozinho , depois deu para trazer a família. Já são mais de vinte anos aqui!

Como é seu dia a dia? Como faz para se manter? Tem muitos convites de trabalho?

Sim, até hoje! Nesta tarde, por exemplo, ensaiei com o Germano Mathias. Na próxima quinta-feira temos um show no Itaú Cultural, na Paulista.

Fica mais por aqui ou viaja muito?

Já toquei em muitos países, com a Beth Carvalho. Há um grupo chamado Quarteto Roda de Choro, com grandes músicos, CDs gravados, que tem o Alexandre Ribeiro, clarinetista, Miltinho Mori no cavaquinho e bandolim, o Léo Rodrigues no pandeiro e eu. E juntamos aqui. Toco no conjunto Uirapuru... Onde me chamam, eu vou! São setenta anos bem vividos. Sou muito feliz com a música.

Você toca muito, é muito requisitado...

Não é que eu seja bom músico, é o meu jeito. Para mim tudo está bom!

Não vem com essa (risos). O cara tem que se apresentar legal, ter ótimo ouvido, dominar o repertório, se virar em várias situações, mas, ao mesmo tempo, você é muito diferente de outros músicos de choro que conheço...

Você quer dizer que eu sou mais bonito do que eles (risos)!

Luizinho com Euclides Marques

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Você alia essa versatilidade do ter que se virar com o que todo mundo está tocando ali e agora, com a qualidade do cara que caneta, do cara que arranja, que escreve, que lê. Isso é uma coisa mais rara no meio, ou é impressão minha?

Atualmente, estão aparecendo, alguns deles alunos meus, que estão escrevendo, fazendo arranjos. Quando vim tocar com o Evandro, nos anos 1980, lembro que só o Isaías e o Israel, que eram irmãos, escreviam. Mas tocavam sem escrever também. Eu tinha um repertório bom de choro em Santos, mas tinha um outro repertório que a gente não tocava lá. Aí, tinha que tocar tal choro, e eu não conhecia. Pegava o disco, tirava, escrevia. Ia tocar com o papel. Quase fui crucificado. Os caras

duvidavam que aquilo pudesse ajudar. Como o Dino (7 Cordas) estava sempre em Santos, o pessoal achava que eu era sobrinho dele. Falavam que eu era sobrinho dele, que aparecia na roda de choro com partitura, só queria aparecer. Fiquei sabendo dessa crítica. A gente se encontrava muito na Del Vecchio, na loja antiga. Lá, me falaram: “choro não se toca lendo!”. Eu respondi: “não sei onde você viu isso!”. Falei pra eles que, no Rio, o pessoal gravava os choros lendo. Era muito melhor, muito mais rápido. Que Dino, Orlando Silveira, Canhoto, tocam com A, B, C, D e Z todo dia. Gravam coisas que eles nunca ouviram. E como é que eles fazem para gravar tudo isso, tão rápido? Porque eles estão lendo partitura. O pessoal: “é?”. Continuei: “Se eles tem um show pra tocar, por exemplo,

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Luizinho no Demônios da Garoa, com Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho

com o Nelson Gonçalves, eles não vão ficar dias e dias ensaiando: o maestro dá as partituras, eles leem e pronto”.

A resistência é muito grande, mesmo...

O Evandro queria uma vez tocar a música “Modulando”, que, como o próprio nome já diz, seria difícil de se tirar sem ler. O Dino, o Meira e o Canhoto estavam em São Paulo para gravar com o Benito de Paula, mas o piano do estúdio estava desafinado. Então, estavam lá sem poder trabalhar. Eles desceram para Santos... acho que o Altamiro Carrilho estava junto. Falei para eles do meu problema: não conhecia a música, nem quem tinha gravado. Eles falaram:

“fomos nós”. Pegaram um papel e me escreveram a partitura na hora! Para me mostrar, tocaram em Ré, que era mais fácil. Lindo. Para escrever, o Meira falou: vou te escrever em Fá, porque na flauta é melhor que seja em Fá. Peguei esse manuscrito, com a assinatura de todo mundo, guardei como uma relíquia. Passei para um outro papel e trouxe para o Evandro. O pessoal duvidou, mas eu cheguei tocando. Se não tivesse a partitura, não ia chegar nem na segunda parte, não ia lembrar.

Mas esse tipo de estudo não é uma tradição no meio do choro...

Às vezes, o cara não tem onde estudar.

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Mas tem que perder esse preconceito. Hoje já tem escola ensinando choro por partitura, mas na minha época não tinha. Fiz quatro anos de violão clássico, por isso aprendi a ler. Hoje, todo mundo gosta das minhas partituras, mas, na época, só não me crucificaram porque não acharam os pregos (risos). Já vi gente tocando com minha partituras em Portugal, na Espanha, no Japão. Nem me apresentava como o Luizinho 7 Cordas para não atrapalhar esses ensaios que assisti.

Você usa cordas de aço?

Sim. Tem uma corda que uso agora, extraflexível. Antigamente, você usava um jogo normal de seis cordas e comprava uma sétima. Depois, o Dino começou a usar um jogo com as duas primas de nylon e o resto do jogo em aço e, na sétima, uma quarta corda de violoncelo. E a gente ia atrás, o Dino era a referência. Mas hoje, uso as duas primeiras de

nylon, para não desequilibrar. As outras, uso desse jogo que te falei. O violão fica equilibrado, o timbre fica bonito.

Mas você tem que fazer o jogo, comprando individualmente, ou já vem o jogo certo?

Hoje, dá para encontrar desse jeito. O jogo fica bom de tocar, desenvolvido especialmente para o 7 cordas.

E em relação às gravações? O que você tem feito ultimamente?

Eu não posso me queixar. Tempos atrás, havia as gravadoras, então era mais fácil, se você já estivesse no meio. Hoje, está tudo independente, fora os cobrões, Chico Buarque, Beth Carvalho. Andei gravando no Rio, com o Sombrinha, com o Arlindo Cruz. O pessoal do Rio prefere trabalhar com o pessoal do Rio, eu entendo. Tem muito músico e menos trabalho nos dias de hoje. Mas furei esse bloqueio. Acabei ficando amigo de todos.

Luizinho 7 Cordas

Luisinho deixou dois presentes para você, leitor de Violão+: o primeiro é uma partitura, um arranjo de acompanhamento para 7 cordas da música “Assanhado”, de Jacó do Bandolim. Mesmo que você não leia partituras ou não toque o instrumento, vale a pena ver o capricho da sua escrita! O segundo é um vídeo, onde ele toca em uma aula com seu aluno Lucas. Vale a pena ver!

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E esse negócio de você ler rápido vira um diferencial em estúdios?

Claro! O pessoal me procura porque vou lá e dou conta. Já gravei até para o Emicida, e achei ótimo! Era uma coisa simples, uma sequência simples. O arranjador me chamou para gravar, fui lá e fiz. Me pagaram direitinho. Teve gente que reclamou, perguntaram se eu estava precisando de dinheiro. Para mim, não tem frescura: precisou, eu topo! Só não me ofereça pouco dinheiro. Vivo disso: seja justo com o meu ganha-pão. Prefiro que seja de graça, não me venha com cem reais para uma gravação, muito menos para um show. Porque você acaba virando

Luizinho 7 Cordas

refém do seu contratante. O cara passa a escolher a sua hora, o seu tempo. Então, tem que valer a pena do ponto de vista financeiro. Se não tiver dinheiro, se for meu amigo e se eu achar o trabalho legal, mas não tem dinheiro, posso até fazer de graça. Mas aí, quem faz o horário sou eu, só apareço no estúdio na hora que quiser.

E o trabalho no Espaço Uirapuru, como está?

Muito bem! O Euclides Marques é superlegal, a gente tem tocado junto já há um bom tempo. Ele é ótimo, como todo o pessoal da escola. E a procura de alunos está muito boa.

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O cavaquinho foi introduzido pelos portugueses continentais nas mais remotas paragens, que vão desde Ilha de Madeira, Cabo Verde e Moçambique ao Brasil e até mesmo Havaí e Filipinas

Era uma tarde esplêndida em Lisboa, ar fresco da primavera envolvido por uma luminosidade clara de sol risonho. Meus passos rápidos se confundiam com as vozes e a algazarra das pessoas entrando e saindo de compras na bela Alfama, onde qualquer um se transporta no tempo.

Ao fim, às quatro e quarenta e cinco,

O Cavaquinho

cheguei à loja de instrumentos que procurava, que fechava as cinco. Tinha só quinze minutos para concretizar um sonho que tinha havia mais de 12 anos: adquirir uma guitarra portuguesa. Mas, entrando na loja, meu ser inteiro ficou em estado de embelezamento atemporal ante a visão de vários cavaquinhos pendurados em uma parede. Se fez um

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silêncio em que, lentamente, escutava-se apenas as ondas do mar e as notas musicais vindas dos instrumentos.

Meu coração começou a bater rápido e isso me trouxe de volta à realidade. Percebi a beleza dos cavaquinhos, pois nenhum era igual ao outro: o tampo quase sempre de duas cores, as bocas todas diferentes, em formato de coração, de lua ou qualquer outra forma caprichosa com delicado acabamento. Ao ver meu assombro, o senhor do balcão perguntou se estava à procura de um cavaquinho, e falei que queria uma guitarra, porém um cavaquinho poderia ir comigo nessa tarde. Ali começou uma bela confusão entre uma mexicana e cinco portugueses.

Um dos balconistas baixou o mais lindo dos cavaquinhos. Mas estava fora de meu orçamento. Outro trouxe umas três guitarras para eu escolher, além de estojo, cordas e palhetas, enchendo o balcão de coisas maravilhosas. Fui ao caixa pagar a guitarra, enquanto a empacotavam em uma grande sacola. Cinco da tarde mais um minuto, e eu estava de volta à rua.

Ao chegar ao hotel, abri o meu tesouro e descobri que o cavaquinho veio junto! Ele me escolheu e não se separou de mim nunca mais, assim como tomou carona nos navios portugueses para ficar nos mais recônditos lugares, onde marinheiros acompanhavam suas travessias com ele e suas notas.

Um pouco de história

Se fala que o cavaquinho tem origem em Minho, ao norte de Portugal, chegando a seu esplendor na cidade de Braga, na corte dos Biscainhos,

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mas se tem conhecimento de que ele tem precedentes em alguns outros instrumentos, como ressalta Gonçalo Sampaio, estudioso de música popular e folclore.

Assim, se fala que tem origem nos modos helênicos na música minhota com influência grega, porém também se fala que tem influência do requinto espanhol. O etnólogo português Jorge Dias expressa que o cavaquinho devia ter vindo de Espanha, pois sua morfologia é idêntica à da guitarra, do guitarron, do guitarrico ou do chitarrino italiano. E o cavaquinho encontrou, em Minho, um próspero campo, pois acompanha rítmica e harmonicamente muitas danças populares, como viras, chulas, malhões, canas verdes e verdegares.

O cavaquinho foi introduzido pelos portugueses continentais nas mais

remotas paragens, que vão desde Ilha de Madeira, Cabo Verde e Moçambique ao Brasil e até mesmo Havaí e Filipinas. No Brasil, o cavaquinho figura em todos os conjuntos regionais de choros, emboladas, bailes pastoris, sambas, ranchos, chulas, bumba-meu-boi, cateretês e outros, ao lado de viola, violão, bandolim, clarinete, pandeiro, rabecas, guitarras, flautas e outros, com caráter popular mas urbano. Mais ele está presente desde a gênese do Lundu.

Com o surgimento do samba, na década de 1910, o cavaquinho passou a ser indispensável nos desfiles das escolas de samba, sendo a marca principal entre pagodeiros e sambistas. Entre alguns dos cavaquinhistas brasileiros que fizeram história, podemos destacar Waldir Azevedo e Canhoto do Cavaco, entre outros grandes nomes.

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Curiosidades

Afinação e tipos

O cavaquinho original tem quatro cordas, de aço ou tripa, braço raso como o tampo e dez trastes, afinado do grave ao agudo em Ré-Lá-Dó#-Mi).

Já na Cidade de Braga, sua forma comum passa a ter 12 trastes e uma afinação em Ré-Lá-Si-Mi. Posteriormente, em Coimbra, continua do mesmo jeito,

sendo tipicamente popular e tocado para acompanhamento. Já os instrumentos citadinos ou burgueses como em Lisboa, Madeira, Algarve, se tocam ponteados. Há também outras afinações em Ré-Si-Sol-Sol, Mi-Dó#-Lá-Lá, Mi-Ré-Si-Sol. No Brasil, é afinado em Ré-Si-Sol-Ré ou, copiando as quatro primeiras cordas do violão, em Mi-Si-Sol-Ré.

• O cavaquinho chegou ao Havaí no século 19, com os madeirenses que foram trabalhar no cultivo da cana-de-açúcar, tomando o nome de

Ukulele, que quer dizer “pulga saltitante”.

• Atualmente, tem quatro

tamanhos: soprano, concert, tenor e barítono. Existem também os menos comuns, como o sopranino, com uma escala mais curta do que a do

soprano, e os ukuleles baixo, nos extremos do espectro. O soprano, com escala de 33 cm - também chamado de standard - é o original e também mais tradicional. O concert, com escala de 38 cm, foi criado na década de 1920, como uma modificação do soprano, com um braço mais longo. O tenor, que tem a escala com comprimento de 43 cm, foi desenvolvido logo em seguida. O barítono, que tem a escala de 48 cm foi o último a ser inventado, na década de 1940.

• Em 1998, por ocasião da Exposição Mundial de Lisboa, organizou-se pela primeira vez em cem anos um espetáculo com músicos do Havaí e da Ilha da Madeira, no projeto Father and Son, apresentado nos palcos da EXPO’98 e organizado pela editora madeirense Almasud.

• O músico havaiano Israel Kamakawiwo’ole também ajudou a popularizar o instrumento, especialmente com seu pot-pourri de “Over the Rainbow” e “What a Wonderful World”.

Referências

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