A tecnologia chegou primeiro aos teclados, mas não tardou a alcançar as cordas, com foco direto nos instrumentos com trastes. Sequenciar, hoje, pode ser uma tarefa tão simples para violonistas – e até para quem toca outros instrumentos de cordas – quanto foi para os tecladistas décadas atrás. Isso nos leva diretamente para os programas de edição de partituras, que hoje dão a devida atenção aos que usam instrumentos de cordas para fazer a entrada de notas e acordes.
Há algum tempo, os programas de computador com finalidades musicais se dividiam em três espécies: os sequenciadores MIDI, os gravadores de áudio e os editores de partitura. Essa divisão continua, em termos, porque já temos Digital Audio Workstations (DAWs) que executam a contento as três tarefas. Mas, para sofisticação, acabamos preferindo programas específicos para cada função. Não são raros os músicos que preferem sequenciar em editores de partitura, fazendo a entrada de notas em tempo real.
Dentro desse tema começo esta seção, procurando fornecer aos instrumentistas de cordas as funcionalidades, novidades e características de softwares especializados. A cada edição vou abordar um produto, posto que as informações são muitas para generalizar procedimentos. Começaremos por um pequeno aplicativo que está revolucionando a entrada de notas no computador, pela competência e pelo custo-benefício, que mexe até com os fabricantes de hardware semelhante.
Pequeno, versátil e fácil de usar
Vem da Dinamarca o Jam Origin MIDI Guitar - ainda com a patente pendente - que permite ao instrumentista transformar a saída de áudio comum de uma guitarra,
Saulo Van der Ley
tecnologia
violão com captador ou até mesmo microfone em uma saída MIDI. Isso significa poder usar timbres de vários outros programas e transformar o áudio em MIDI, para tocar e escrever simultaneamente em software editor de partituras, por, no máximo, 100 dólares. E até sem interface MIDI, plugando direto no computador.
O aplicativo é disponível para as plataformas Windows, Macintosh e iOS. Foi desenvolvido a partir da linguagem de programação Lua, uma criação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) usada, entre outros casos, no famoso Photoshop. Funciona melhor, como a maioria dos aplicativos de música, nos Macs. Tanto que uma versão para o GarageBand é gratuita e basta instalar o Jam Origin em um Mac, abrir o GarageBand ou o Logic Pro X e uma mensagem surge imediatamente dizendo que mais uma porta MIDI foi aberta (figura 1).
Existem versões para guitarra, baixo e violino, que funcionam da mesma forma se usarmos um microfone para cantar e fazer a entrada de notas. Basicamente, tem como estrutura um banco de notas MIDI, associando a cada frequência uma altura cromática, mas capaz de reproduzir bending, com ajustes para ganho, sensibilidade e alguns timbres para quem não tem nenhum disponível para usar o programa. Até há alguns anos, isso só era possível via hardware e com custo muito maior.
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ainda em desenvolvimento de um aplicativo. Pode ser baixado diretamente do site da Jam Origin (www.
jamorigin.com). Em sua forma “demo”, funciona com
algumas interrupções, mas pode ser avaliado. No próprio site existe uma seção de tutoriais (www.jamorigin.com/
docs/daw) para usá-lo em conjunto com outras DAWs
tanto em modo standalone como via plug-in VST ou AU. A versão para desktop custa 100 dólares; para iOS, 20 dólares; e é gratuita para GarageBand.
O modo standalone - sem outros programas
Sua tela é simples (figura 2), começando por um ajuste de entradas e saídas de áudio e canais MIDI, controladores extras, sample rate e roteamento de saída MIDI no alto à esquerda. Ali você pode fazer seus ajustes se estiver usando uma interface. Se não estiver, nem precisa configurar nada além da saída MIDI “Virtual MIDI Output” em um Mac. No Windows, vai precisar de um outro app auxiliar, gratuito, configurado como saída MIDI, o loopMIDI (que pode ser baixado em http://www.
tobias-erichsen.de/software/loopmidi.html).
Abaixo de “Settings”, à esquerda, há uma janela que pode exibir a forma de onda do áudio, uma interessante “Chord Whell” com o círculo de quintas ou um afinador
esperto. Na coluna do meio da tela principal, começamos com alguns timbres do próprio app, que são Bass
Strings, Default, Double Lead, Power Hi-Gain, Rhodes, Strum, I’ll Sig For You, Test Piano e Velocity Backing.
Uma janela permite mudar a afinação da guitarra (ou violão com captador).
Descendo mais, ainda na coluna do meio, ajustes de
Velocity MIDI com Gain, Tone e Curve. Depois vêm os
ajustes de Pitch Bend, After Touch e pedal de sustain, terminando com um lugar para configurar MIDI Machines. Estas são configurações que o usuário pode criar usando os controles MIDI. No app, há exemplos prontos, como arpejador, vibrato, harmonizer, microtonal e scale filter, entre outros. Se você é leigo em MIDI, experimente essas máquinas MIDI no modo standalone.
Na coluna da direita, há um pequeno editor que começa com alguns efeitos FX. Logo abaixo, a opção para amplificador direto e até um Tube Amp. Continue descendo e escolha entre seis tipos de gabinete de falantes, reverb e todos esses ajustes com opção de ganho. Uma pequena janelinha de CPU Usage fica no topo desse editor ao lado dos comandos Edit, Save,
Control e Share – este último, um script para compartilhar
suas edições com outros usuários. Completam o topo da coluna da direita um botão de Help e outro de Check
For Update.
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Usando o Jam Origin com uma DAW
Como vimos, o Jam Origin pode ser usado sozinho, sem nenhum outro programa – modo Standalone – ou como plug-in na sua DAW. Entretanto, basta abrir o app com o GarageBand, por exemplo, criar uma pista MIDI com qualquer timbre e pronto: você estará entrando notas para gravar. No caso do Logic Pro X, o mesmo procedimento: crie uma pista MIDI, arme para gravar e as suas notas estarão sendo escritas no editor de partitura e piano roll instantaneamente, o que não acontece se o Jam Origin for usado como plug-in AU, note bem.
Aí vem a pergunta: e a latência? Como argumentou um colega de computer music, latência “zero” não existe, pois seria ouvir uma nota antes de ser produzida. O Jam Origin tem latência muito aceitável, principalmente se usado com uma interface de boa qualidade. Basta ajustar o Sample Rate experimentando vários valores. O Jam Origin exibe um triângulo amarelo de advertência se o ajuste estiver comprometendo o seu desempenho, em vários parâmetros de configuração. As doze versões Beta do Jam Origin 2 garantem o aperfeiçoamento de oito anos do aplicativo.
Entrada de notas em editores de partitura
O Jam Origin é compatível com as DAWs Live, GarageBand, Logic, Pro Tools, Sonar, Reaper, Cubase, Fruit Loops, Digital Performer, Samplitude, Reason,
Studio One e Usine (figura 3). Pode ainda ser facilmente configurado como MIDI Input de dentro do Sibelius (7.5 em diante): clique na aba “dispositivos de entrada” (primeira à esquerda no Sibelius) e depois no botão “encontrar novos dispositivos de entrada” com o Jam Origin também aberto. Procedimentos semelhantes podem ser feitos em outros editores de partitura.
No Notion 6, por exemplo (figura 4), clique no menu superior em “Notion”, depois em “Preferences” e escolha
“MIDI IO” na aba da janela. Pronto: ali está o “MIDI
Guitar out” esperando, desde que o Jam Origin esteja também aberto, é claro. Como podem perceber, o Jam Origin MIDI Guitar é uma ferramenta poderosa e serve para muita coisa no dia a dia do violonista/guitarrista por um custo-benefício ínfimo.
Um de seus desenvolvedores – Ole Juul Kristensen – se tornou parceiro e tenho feito alguns workshops sobre o aplicativo, que tem um pezinho brasileiro com a linguagem Lua de programação (https://www.lua.
org/portugues.html). O Jam Origin pode ser a entrada
de notas ideal para quem usa violão, guitarra, baixo, violino ou outros instrumentos de corda com captador de áudio comum. Na próxima edição, vamos entrar nos programas de notação propriamente ditos.
Glossário
Sequenciar: termo usado para designar sucessão de notas
e acordes em pistas de gravação digital em programas ou aparelhos.
DAW: estações de trabalho de áudio digital, programas
de computador complexos e de custo significativo.
MIDI: interface digital para instrumentos musicais,
protocolo criado pelos fabricantes na década de 1980, que envolve linguagem de computador e aparelhos físicos.
Windows: sistema operacional usado nos produtos da
Microsoft.
Macintosh: termo genérico para o sistema operacional
denominado OS X, usado em produtos da Apple.
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iOS: sistema operacional para tablets e smartphones da Apple. Linguagem de programação: sistema usado para criar
programas pelos desenvolvedores.
Beta: quando um programa ainda está em
desenvolvimento, suas versões 1, 2, 3 e assim por diante são numeradas, além da versão principal. Exemplo: o Jam Origin está na versão 2, Beta 12, isto é, não é mais a versão principal 1, mas a versão 2 na sua fase Beta 12.
Sample rate: taxa de amostragem digital
Velocity MIDI: indica a intensidade musical (piano, forte
etc.). Não confundir com andamento musical.
After Touch: capacidade de variar a dinâmica ou outros
parâmetros de um toque de nota mesmo depois que ela é acionada, aumentando-se a pressão no dispositivo que a produz. Essencial no caso de cordas.
Arpejador: dispositivo que cria arpejos a partir de notas
com diversos parâmetros, como quantidade de oitavas, durações diferentes etc.
Harmonizer: dispositivo que cria acordes a partir de notas,
geralmente com opções de dissonâncias, inversões etc.
Scale Filter: limitação de um sequenciamento a um tipo
de escala, muito usado por principiantes para não tocar notas “na trave”…
Standalone: modo de funcionamento de um programa
sem interação com outros.
MIDI I/O: o “I” indica IN e o “O” indica OUT, termo que
indica a rota que percorre um sinal MIDI entre entradas e saídas, também conhecido como roteamento MIDI. Pode ser usado também para rotear sinais de áudio.