• Nenhum resultado encontrado

Dalton Trevisan. Mirinha. L&PM POCKET

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Dalton Trevisan. Mirinha. L&PM POCKET"

Copied!
7
0
0

Texto

(1)

www.lpm.com.br

L&PM POCKET

Dalton trevisan

Mirinha

(2)

– M

inha mulher não me compreende. Mais nada entre nós. Fez da minha vida um inferno. Só de pena dos filhos não me separo.

O primeiro beijo roubado.

– Tão carente de amor. Estou perdido por você. Teu futuro é ao meu lado. Aqui na firma. Não atrás de um balcão.

No segundo beijo com a mão direita no pequeno seio. De tanta pena – não sofre demais com a mulher? – a menina começa a gostar de João.

– Ninguém pode saber. Tudo será dife-rente. Um segredo de nós dois.

Daí ela chora muito. João tem mulher – ai, que antipática! – e quatro filhos, de um a sete anos.

– Você é a moça que eu quero. Amanhã vamos à praia. Leve o maiô.

(3)

*

Saem bem cedo. Em duas horas chegam ao hotel. Ele entra de carro pelos fundos. Sobem direto para o quarto.

João vai ao banheiro. Abre a ducha, volta com a toalha na cintura. Peludo que dá medo. Sentadinha na cama, a sacola com o maiô.

– E você? Ainda de roupa? Sem graça:

– Pois é.

Ele deita-se. A vez de Mirinha ir para o chu veiro. Toda vestida de novo.

– Ué, não tem mais toalha?

Blusa branca de renda e saia azul, esten-de-se ao lado dele. Olha-a na penumbra e sorri. Afaga o longo cabelo dourado. Desabotoa a blusa. Tira o sutiã – sabe o que é um peitinho de quinze anos?

*

Ela um passarinho morto. Mas o coração aos pulos. O que é que ele quer? Cada vez mais perto.

(4)

– Nunca teve namorado? – Credo, João.

Beijo molhado de língua. “Como foi a toa-lha parar no chão? De mim o que fazendo?” Ele abre o fecho da saia. Só de calcinha. Toda fria, pesada, mole. O peitinho, como bate. E começa a chorar.

– Quero ir embora. – Seja bobinha. Já passa.

Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo – o cora-ção tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé – mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbi-guinho.

Deita-se sobre ela – e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso quei-mando em carne viva.

– Para. Ai, ai. Que você me mata! Mas você para? Nem ele.

(5)

Até que suspira fundo e todo se espicha. A pobre chora, gostoso. Ele senta-se, vê o san-gue, bota a mão na cabeça.

– Não me diga. Virgem?! – Decerto.

– Por que não avisou?

– O que você fez? Parecia louco.

Mais que se lave e se vista ainda sangra. So luçando, joelho bem apertado:

– O que será de mim? É só minha mãe olhar. Ele faz perguntas, aflito pelo quarto: – Meu Deus, você está grávida. – Ai, me acuda. Não pode ser. Tudo ele explica.

– Puxa, como é burrinha.

Na calcinha rasgada ela dá nó. Desce a escada com miúdo passo de gueixa, apoiada no corrimão. Faminta, não aceita o sanduíche – os dois ele come sozinho. Sem falar durante a volta. Choran do arrependida.

– Não chore, meu bem. Cuido de você. Só peço paciência. Que tenho família grande.

(6)

Basta a mãe olhar: – O que você tem?

Vontade de falar, obriga-se a ficar quieta. Não come nem dorme. Quinze dias depois:

– Não veio, João.

Pronto, as mãos na cabeça: – Por que a mim? Só a mim?

Bate o longo cílio no olho negro, sempre a ruga na testa.

– Certeza que fui eu?

– E você, João? Será que duvida?

Ele mesmo aplica a injeção – é tarde. Miri-nha faz o teste do sapo. A consulta para as seis da manhã. Tem de enfrentar sozinha, João não pode ser visto.

– É menina corajosa. *

Disse para a mãe que, tanto serviço, não vai al moçar. Na salinha veste a camisola, nem sequer limpa. A enfermeira resmunga:

– Cedo começa, hein, menina? Não adianta chorar.

Com a injeção debatese e foge, os pés en -ter rados na areia movediça.

(7)

– Meu Deus, me ajude. Que eu não morra.

O médico diz bom dia. Ela nem pode res-ponder. Acorda às cinco da tarde no sofá vis-coso. Dói muito, sente-se imunda, entupida de algodão e gaze.

João à espera na porta: – Nossa, como está pálida.

Leva-a para o escritório, afundada no velho sofá de couro.

– Não vá morrer, menina.

Ele traz franguinho e cerveja preta – come tudo sozinho.

– Graças a Deus, livres. *

Dez da noite, deixa-a na esquina. Arras-ta-se até o portão, de costas na parede. O grito da mãe:

– O que você tem? – Só meio fraca.

A pobre aviva as brasas e benze com galhi-nho de arruda:

Referências

Documentos relacionados

Sva pravna i fizička lica koja predaju na prijevoz ili prijevoze opasne materije, odnosno pojedinci (vozači, skladišno osoblje, utovarno ili istovarno osoblje i

Contessa’s smart operation concept enables adjustments to be easily made while the user is seated, encouraging accurate positioning and continuous movement... DESIGNED FOR

Este trabalho tem por objetivo a avaliação das áreas para ocupação urbana no perímetro urbano do município de João Pessoa/PB a partir da elaboração e análise de

Temos observações e sugestões para aperfeiçoar esse item, em relação à conceituação de campo de experiência, sua relação com direitos e objetivos de aprendizagem e quanto

Vajda počinje ponovo da režira veoma značajne filmove poput filma pod naslovom *Pejzaž* koji predstavlja jednu upečatljivu rekonstrukciju vremena

A apuração do valor dos ativos financeiros do FUNDO, para efeito de cálculo do valor da cota utilizada nas aplicações e resgates no FUNDO, será feita diariamente pelo ADMINISTRADOR,

Os Estudantes-Monitores exercerão suas atividades sem qualquer vínculo empregatício com o IFCE e em regime de 20 (vinte) horas semanais de atividades acadêmicas, das quais

A sensibilidade, especificidade, valor de previ- são positivo e valor de previsão negativo da lesão do tronco da artéria coronária esquerda para a ocorrên- cia de óbitos e para