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Dalton trevisan
Mirinha
– M
inha mulher não me compreende. Mais nada entre nós. Fez da minha vida um inferno. Só de pena dos filhos não me separo.O primeiro beijo roubado.
– Tão carente de amor. Estou perdido por você. Teu futuro é ao meu lado. Aqui na firma. Não atrás de um balcão.
No segundo beijo com a mão direita no pequeno seio. De tanta pena – não sofre demais com a mulher? – a menina começa a gostar de João.
– Ninguém pode saber. Tudo será dife-rente. Um segredo de nós dois.
Daí ela chora muito. João tem mulher – ai, que antipática! – e quatro filhos, de um a sete anos.
– Você é a moça que eu quero. Amanhã vamos à praia. Leve o maiô.
*
Saem bem cedo. Em duas horas chegam ao hotel. Ele entra de carro pelos fundos. Sobem direto para o quarto.
João vai ao banheiro. Abre a ducha, volta com a toalha na cintura. Peludo que dá medo. Sentadinha na cama, a sacola com o maiô.
– E você? Ainda de roupa? Sem graça:
– Pois é.
Ele deita-se. A vez de Mirinha ir para o chu veiro. Toda vestida de novo.
– Ué, não tem mais toalha?
Blusa branca de renda e saia azul, esten-de-se ao lado dele. Olha-a na penumbra e sorri. Afaga o longo cabelo dourado. Desabotoa a blusa. Tira o sutiã – sabe o que é um peitinho de quinze anos?
*
Ela um passarinho morto. Mas o coração aos pulos. O que é que ele quer? Cada vez mais perto.
– Nunca teve namorado? – Credo, João.
Beijo molhado de língua. “Como foi a toa-lha parar no chão? De mim o que fazendo?” Ele abre o fecho da saia. Só de calcinha. Toda fria, pesada, mole. O peitinho, como bate. E começa a chorar.
– Quero ir embora. – Seja bobinha. Já passa.
Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.
Chorando, suando, tremendo – o cora-ção tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé – mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbi-guinho.
Deita-se sobre ela – e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso quei-mando em carne viva.
– Para. Ai, ai. Que você me mata! Mas você para? Nem ele.
Até que suspira fundo e todo se espicha. A pobre chora, gostoso. Ele senta-se, vê o san-gue, bota a mão na cabeça.
– Não me diga. Virgem?! – Decerto.
– Por que não avisou?
– O que você fez? Parecia louco.
Mais que se lave e se vista ainda sangra. So luçando, joelho bem apertado:
– O que será de mim? É só minha mãe olhar. Ele faz perguntas, aflito pelo quarto: – Meu Deus, você está grávida. – Ai, me acuda. Não pode ser. Tudo ele explica.
– Puxa, como é burrinha.
Na calcinha rasgada ela dá nó. Desce a escada com miúdo passo de gueixa, apoiada no corrimão. Faminta, não aceita o sanduíche – os dois ele come sozinho. Sem falar durante a volta. Choran do arrependida.
– Não chore, meu bem. Cuido de você. Só peço paciência. Que tenho família grande.
Basta a mãe olhar: – O que você tem?
Vontade de falar, obriga-se a ficar quieta. Não come nem dorme. Quinze dias depois:
– Não veio, João.
Pronto, as mãos na cabeça: – Por que a mim? Só a mim?
Bate o longo cílio no olho negro, sempre a ruga na testa.
– Certeza que fui eu?
– E você, João? Será que duvida?
Ele mesmo aplica a injeção – é tarde. Miri-nha faz o teste do sapo. A consulta para as seis da manhã. Tem de enfrentar sozinha, João não pode ser visto.
– É menina corajosa. *
Disse para a mãe que, tanto serviço, não vai al moçar. Na salinha veste a camisola, nem sequer limpa. A enfermeira resmunga:
– Cedo começa, hein, menina? Não adianta chorar.
Com a injeção debatese e foge, os pés en -ter rados na areia movediça.
– Meu Deus, me ajude. Que eu não morra.
O médico diz bom dia. Ela nem pode res-ponder. Acorda às cinco da tarde no sofá vis-coso. Dói muito, sente-se imunda, entupida de algodão e gaze.
João à espera na porta: – Nossa, como está pálida.
Leva-a para o escritório, afundada no velho sofá de couro.
– Não vá morrer, menina.
Ele traz franguinho e cerveja preta – come tudo sozinho.
– Graças a Deus, livres. *
Dez da noite, deixa-a na esquina. Arras-ta-se até o portão, de costas na parede. O grito da mãe:
– O que você tem? – Só meio fraca.
A pobre aviva as brasas e benze com galhi-nho de arruda: