ALTERAÇÕES NA DINÂMICA FLUVIAL DECORRENTE
DO USO DA TERRA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A
PLANÍCIE COSTEIRA DA ALTA BACIA DO RIO ITANHAÉM
Ana Cecília Pereira Machado – Licenciada em Geografia – Discente do curso de Bacharelado em Geografia - Bolsista CNPq – PIBIC - UNESP Rio Claro/SP. e-mail:
Cenira Maria Lupinacci da Cunha - Professora Doutora – Dep. de Planejamento Territorial e Geoprocessamento – Laboratório de Geomorfologia - UNESP Rio
Claro/SP. e-mail: [email protected]
Resumo
O homem, por intermédio do uso da terra, apropria-se do relevo muitas vezes desconsiderando as suscetibilidades intrínsecas a alguns ambientes. Como consequência, tem-se a alteração na dinâmica da natureza; no caso da geomorfologia, o homem pode alterar a forma do relevo bem como os processos que ocorrem sobre este. Neste contexto, compreender as formas de uso da terra auxilia na análise geomorfológica, visto que permite identificar as influências destas no relevo, subsidiando o planejamento e gestão ambiental. Assim, o objetivo desta pesquisa é analisar as condições de uso da terra de cenários distintos (1962 e 2000), avaliando os níveis de uso, apresentando a quantificação das áreas ocupadas por estes, bem como as modificações provocadas à dinâmica fluvial da Planície Costeira da alta bacia do Rio Itanhaém. A análise das cartas de uso da terra permitem concluir que ocorreram severas modificações tanto nas formas dos cursos d´água quanto na dinâmica fluvial deste setor. As principais modificações consistem no aumento do potencial erosivo das águas oriundas das vertentes e consequentemente o aumento na remobilização de sedimentos decorrentes da atividade mineraria; a modificação do padrão de drenagem de alguns setores; a diminuição das áreas ocupadas pelos cursos fluviais. O cenário de 2000 revela, ainda, que a atuação antrópica na planície aumentou em níveis consideráveis, implicando em desrespeito às leis ambientais, haja vista tratar-se de uma área de preservação permanente.
Introdução
A gestão ambiental revela-se como um dos maiores desafios na atualidade. Constata-se a necessidade de um planejamento prévio pautado no uso da terra, com a finalidade de delimitar estratégias para as formas de uso dos recursos naturais bem como para minimizar os impactos antrópicos sobre o sistema ambiental.
Compreende-se como uso da terra a atividade antrópica que está diretamente relacionada com a terra (CLAWSON, STEWART, 1971, citado por ANDERSON et al, 1979), caracterizada pela função socioeconômica, tais como agricultura, mineração, habitação, etc (HEYMANN, 1994 citado por IBGE, 2006).
Assim, por intermédio do uso da terra, o homem apropria-se do relevo alterando tanto a morfografia e a morfodinâmica quanto a morfogênese (SIMON, 2007). Desta maneira, entende-se que a espacialização das formas de uso auxilia na análise geomorfológica, visto que permite identificar a influência destes usos no sistema relevo,
gerando dados que permitem direcionar tanto a gestão ambiental, quanto possíveis medidas paliativas para problemas já existentes.
Atrelado às questões acima expostas, o Brasil, em virtude de suas características físico-ambientais, apresenta diversos setores caracterizados por uma suscetibilidade natural intrínseca, oriundos de relações sistêmicas complexas, vinculadas a ambientes únicos. Dentre tais setores, destaca-se o litoral brasileiro, rico em biodiversidade, porém apresentando consideráveis impactos ambientais frutos da intervenção antrópica.
Neste contexto, insere-se a alta bacia do Rio Itanhaém, localizada na área norte do município homônimo, na Baixada Santista, entre as coordenadas 23º56´31´´, e 24º03´30´´ S e 46º46´42´´ e 46º52´31´´W, compreendendo uma área total de 112.784 Km2. Esta destaca-se por apresentar três compartimentos geomorfológicos distintos: Planalto Atlântico, Serra do Mar e Planície Costeira. A análise do presente estudo refere-se a este último compartimento (Figura 1), o qual, segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas - IPT (1981), apresenta uma morfologia plana, com tendências deposicionais, caracterizada pela suavidade do relevo, onde os terrenos são preenchidos por sedimentos arenosos de origem litorâneae fluvial, altamente permeáveis. Assim, os sistemas resultantes são, em certos casos, produtos mistos destes agentes. As Planícies Costeiras, “desenvolvem-se de modo descontínuo, subordinadas às reentrâncias do fronte serrano” (IPT, 1981, p. 47).
Figura 1 – Posicionamento da área de estudo: no quadrante vermelho observa-se a Planície Costeira.
Fonte: Adaptado de Emplasa, 2002; IGG-SP, 1970. Elaborado e organizado pela autora. A área de estudo constitui-se numa APP (Área de Preservação Permanente), regulamentada pelo Código Florestal Lei 4771 de 15 de Setembro de 1965, alterada pela Lei 7803 de 18 de Julho de 1989 (Figura 2). Apresenta-se encaixada nos sopés das escarpas da Serra do Mar, ou seja, próxima ao PESM (Parque Estadual da Serra do Mar), regulamentado pelo Decreto 10.251 de 30 de Agosto de 1977, posteriormente alterado pelo Decreto Estadual n. 13.313 de 6 de Março de 1979 e 19.448 de 18 de Julho de 1989 para mais acréscimo dos limites. (NOGUEIRA, 2001, p 89; SÃO PAULO, 2006).
Figura 2: Unidades de Conservação da alta bacia do Rio Itanhaém: no quadrante vermelho a Planície Costeira.
Fonte: São Paulo (2006); São Paulo – Condephaat, 1985; Brasil, 1965; 1989.
Para o presente estudo, foram elaboradas cartas de uso da terra referentes a dois cenários distintos: 1962 e 2000. Assim, foram reconstituídos cenários ambientais diferenciados, capazes de subsidiar a avaliação dos níveis de uso da terra antes de serem implementadas as unidades de conservação (1962) e depois de sua regulamentação (2000).
Neste viés, o objetivo desta pesquisa é analisar as condições de uso da terra de cenários distintos (1962 e 2000), avaliando os níveis de uso, apresentando a quantificação das áreas ocupadas por estes, bem como as modificações inferidas à dinâmica fluvial da Planície Costeira, subsidiando, deste modo, o planejamento bem como a gestão da área de estudo.
Para que esses objetivos possam ser atingidos, optou-se pela metodologia e técnicas abaixo expostas.
Metodologia e Procedimentos Técnicos
O método a ser utilizado nesta pesquisa refere-se à Teoria Geral dos Sistemas, pois esta possibilita a análise de elementos os quais possuem determinados atributos e
se interrelacionam pela entrada e saída de matéria (material que será mobilizado) e energia (força inicial que leva ao funcionamento do sistema).
Os sistemas podem ser, de acordo com Christofoletti (1979), classificados de acordo com vários critérios. Nesta pesquisa optou-se pela utilização da concepção de sistemas controlados. Esses, segundo Christofoletti (1979), são caracterizados pela ação humana associada aos sistemas de processos-respostas, ou seja, são formados pela combinação de sistemas morfológicos e sistemas em sequência, associados à ação antrópica. Os sistemas em sequência indicam o processo, enquanto o morfológico representa a forma, a resposta a determinado estímulo.
Desta forma, compreende-se o relevo como um elemento do sistema, cujas interrelações se dão pela entrada e saída de energia, controlado por processos-respostas associados à ação antrópica, enfatizada nesta pesquisa pelo uso da terra.
Os dados que compõem as cartas de uso da terra foram extraídos a partir da interpretação de pares estereoscópicos de fotografias aéreas do ano de 1962 e mosaico de fotografias aéreas de 2000, na escala 1:25.000. Posteriormente, estes dados foram convertidos para a carta topográfica previamente digitalizada, na escala 1:50.000.
A interpretação das fotografias aéreas baseou-se no Sistema de Classificação do Uso da Terra e do Revestimento do Solo elaborado pelo U. S. Geological Survey (Anderson et al.,1979) adaptando-se as propostas de categorias mapeáveis para a realidade da área de estudo, ou seja, para o cenário brasileiro.
Além disso, adotou-se, ainda, a proposta de Ceron e Diniz (1966). Desta forma, são utilizadas chaves de identificação a partir de parâmetros tais como: coloração, textura, forma da parcela, altura, espaçamento, dimensão e arranjo espacial. Tais chaves de identificação norteiam a coleta de dados a partir das fotografias aéreas. Neste contexto, foram identificados e espacializados no setor de Planície Costeira os seguintes usos da terra:
Áreas ocupadas pela vegetação Floresta Ombrófila: esta vegetação integra o Bioma Mata Atlântica. Possui característica ombrotérmica (IBGE, 1992), vinculada aos fatores climáticos tropicais de elevada temperatura e de alta precipitação. Caracteriza-se por vegetação de grande porte, de caráter florestal.
Áreas ocupadas por Floresta de Galeria: este termo, segundo Mantovani (1989), é amplamente usado como sinônimo de Mata Ciliar. Para Aciesp (1987 CITADO POR MATOVANI, 1989), a floresta ciliar é uma estreita faixa de vegetação à margens dos rios. A Floresta de Galeria pode abranger todo o fundo aluvial de vales. Na
área de estudo, concentra-se na Planície Costeira, próximas do curso fluvial principal. Caracteriza-se pelo porte arbóreo.
Áreas ocupadas por Vegetação Rasteira: vegetação caracterizada pela presença predominante de gramíneas e em menor quantidade de pequenos arbustos. Acredita-se que seja vegetação secundária, visto que ocupam o espaço geográfico pertinente às Florestas Galerias, na Planície Costeira.
Áreas com ocorrência de Solo Exposto: correspondem às áreas desprovidas de vegetação, porém não foi identificado nenhum outro uso específico, como agricultura e mineração. A exposição destes solos aos processos geomórficos pode ocorrer em função de processos naturais (como erosão, escorregamento, sedimentação fluvial recente, etc) ou ter como causa a influência do uso antrópico, visto que este interfere e altera o sistema ambiental.
Áreas usadas para Mineração: correspondem às áreas de extração mineral. No setor de Planície Costeira, provavelmente refere-se à extração de areia. Neste setor, observou-se que a extração abrange períodos de tempo distintos, em função da observação de modesta vegetação recobrindo as extrações mais antigas. Assim, optou-se por distingui-las, visto que as cavas e dejetos oriundos das extrações recentes apresentam-se desprovidos de vegetação.
Atividades Agrícolas: insere-se nesta classe áreas que apresentam uso de agricultura e pecuária, incluindo sítios e fazendas. Tal generalização se deve ao fato da escala da carta ser de 1:50.000.
Corpos d´água: insere-se nesta classe os cursos d´água, os canais fluviais e os lagos artificiais.
Estradas sem pavimentação: no setor de Planície Costeira, caracteriza-se por estradas construídas sob aterro.
Tais procedimentos técnicos propiciaram os resultados a seguir discutidos.
Resultados e Discussões
As cartas de uso da terra dos cenários de 1962 e de 2000 (Figura 3) permitiram observar as alterações oriundas da atuação antrópica no relevo da Planície Costeira bem como a avaliação da evolução dos níveis de uso ao longo destes anos.
Figura 3 – Cartas de Uso da Terra – setor de Planície Costeira.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
No que se refere à avaliação do uso da terra na Planície Costeira, no cenário de 1962 (Figura 4) predominava, cobrindo o relevo deste setor, a vegetação rasteira, com destaque para as gramíneas. Nas proximidades da planície fluvial, há a presença da floresta de galeria. A vegetação protege a cobertura pedológica dos processos erosivos acelerados, amenizando o impacto da gota da chuva sobre o solo. A identificação de estradas desprovidas de pavimentação indica a presença antrópica neste setor, ainda modesta, quando comparada ao cenário de 2000.
Figura 4 – Cartas de Uso da Terra do setor da Planície Costeira - imagens ampliadas.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
No cenário de 2000, apesar de tratar-se de Área de Preservação Permanente (APP), observa-se o uso antrópico intenso, bem como os impactos oriundos desta atuação. Atividades agrícolas foram identificadas neste setor, com destaque à bananicultura. Foram identificados setores com solo exposto aos processos erosivos, ainda que em pouca quantidade por km2. O solo desprovido de vegetação apresenta-se mais susceptível aos processos erosivos. Neste viés, a evolução da área impactada a partir de tais processos ocorre rapidamente, aumentando sua área de ocorrência e a dificuldade de contenção. Assim, os solos expostos inferem um problema que deve ser sanado através da re-vegetação.
Outro problema detectado refere-se à identificação de setores de mineração, provavelmente utilizados para a extração de areia, causando impactos ambientais severos, comandando modificações nas formas do relevo bem como nos processos que atuam sobre este. Estas cavas alteram a direção do escoamento das águas superficiais, “promovendo uma modificação no comportamento de determinados setores do relevo que podem apresentar domínio da ação erosiva ao invés da ação de deposição e vice-versa” (PASCHOAL, 2010, p. 59).
Uma questão vinculada à aceleração dos processos erosivos refere-se ao setor circundante da Planície Costeira, ou seja, à Serra do Mar. O relevo escarpado da Serra do Mar, apresentando declives superiores à 30%, aumentam a energia do escoamento da água. Neste contexto, quando essas águas atingem a planície desprovida de vegetação, com solos arenosos e susceptíveis à remobilização, potencializam a ação erosiva sobre este setor.
Neste contexto, o impacto da água das chuvas é maior nos setores desprovidos de vegetação, aumentando a carga de material transportado, aumentando também o potencial morfogenético dos rios, bem como sua capacidade de transporte. A figura 5 mostra que houve uma dinamização dos processos naturais em canais meandrantes (de deposição na margem convexa e erosão na margem côncava). Assim, tem-se o setor meandrante no cenário de 1962, enquanto que, no cenário de 2000, observa-se o processo de retilinização deste trecho do canal, onde a seta branca evidencia parte do meandro abandonado. Deste modo, houve, neste setor, uma mudança no padrão de drenagem.
Figura 5 – Aceleração dos processos morfogenéticos e retilinização do curso fluvial.
A figura 6 evidencia a grande quantidade de material transportado pelo leito fluvial. No cenário de 1962 observa-se a ausência de ilha fluvial neste setor, evidenciada no cenário de 2000. A coloração amarela foi utilizada para representar os solos expostos e esta área obteve esta classificação em virtude da ausência de cobertura vegetal, evidenciando um material recentemente transportado. Assim, observa-se a grande mobilização do material, dinamizando os processos de sedimentação da planície.
Figura 6 – Aumento da dinâmica de sedimentação recente.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
Cabe observar os diversos lagos artificiais (Figura 7) oriundos da mineração, tendo em vista que o lençol freático na planície é muito próximo da superfície, sobretudo na área de estudo, onde a ação pluvial é intensa, decorrente das chuvas orográficas. Conforme Paschoal (2010), as áreas mineradas que atingem e ultrapassam o nível do lençol freático apresentam a formação de lagos após a fase de desativação.
Pode-se observar, ainda, na figura 7 um afluente da margem esquerda teve o trecho que perpassa pela planície completamente assoreado em decorrência da atividade mineraria. Observa-se que no cenário de 2000 as nascentes localizadas na Serra do Mar alimentam os lagos artificiais.
Figura 7 – Assoreamento do afluente da margem esquerda.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
A figura 8 apresenta um tributário do rio principal que sofreu processo de assoreamento, ou seja, foi atulhado por sedimentos. No cenário de 1962, este tributário possui ligação direta com o curso principal. No cenário de 2000, essa ligação está descaracterizada.
Figura 8 – Assoreamento de tributário.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
A figura 9 evidencia o assoreamento de um trecho do curso principal. Acerca desta evidência existem duas hipóteses: a primeira hipótese é a de que houve uma atividade mineraria em alguns trechos deste setor durante o período de tempo
intermediário desta pesquisa. Apresenta-se à favor desta hipótese a presença dos lagos artificiais (que também podem ser observados na figura 10). Esta hipótese não pode ser aqui confirmada pela observação da Floresta de Galeria presente, no cenário de 2000, no mesmo espaço em que se encontrava o rio, no cenário de 1962. Deste modo, a vegetação de porte florestal mascara o uso anterior do terreno. A segunda hipótese é a de que o assoreamento do rio tenha ocorrido em função da agricultura no seu entorno, durante a preparação do solo para o arado. Para que tais hipóteses sejam comprovadas há a necessidade de mais estudo na área.
Figura 9 – Setor do curso fluvial que foi assoreado.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
Outra evidência que apresenta a influência antrópica sobre os processos morfogenéticos oriundos da ação das águas refere-se à erosão de ilhas fluviais (Figura 10) neste curto período de tempo.
Além disso, os espaços ocupados pelas estradas de terra mudaram e aumentaram ao longo do tempo histórico, mostrando a intensidade da atuação antrópica ao longo dos anos, bem como a alta capacidade de transformação das formas do relevo e, consequentemente, dos processos que atuam sobre este.
Figura 10 – Ilha fluvial existente no cenário de 1962 e ausente no cenário de 2000.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora.
Os impactos detectados que foram acima expostas, refletem as mudanças, conforme pode ser observado, tanto nas formas, quanto nos processos que ocorrem na planície, revelando a alta suscetibilidade deste setor às atuações antrópicas, cuja vulnerabilidade decorre de suas características físicas bem como do seu alto potencial morfogenético. A alta suscetibilidade do material, bem como a proximidade com o lençol freático, a alta pluviosidade e a energia da água oriundo das escarpas da Serra do Mar, corroboram para uma dinâmica fluvial complexa neste ambiente suscetível. Vinculadas a estas características naturais, tem-se a atuação antrópica que, cabe ressaltar, desrespeita a legislação ambiental (Código Florestal Lei 4771 de 15 de Setembro de 1965, alterada pela Lei 7803 de 18 de Julho de 1989) causando alterações severas, conforme já discutido.
Outra observação relevante é o aumento da Floresta de Galeria no cenário de 2000, na área de estudo. Este aumento considerável pode ter ocorrido pelo aumento de áreas alagadiças decorrentes das alterações antrópicas, propiciando a proliferação deste tipo de vegetação. Tal hipótese precisa ser comprovada, demandando, portanto, mais estudos neste viés. Contudo, este aumento é relevante, visto que esta vegetação contribui para infiltração das águas das chuvas, para a contenção de sedimentos que chegam aos cursos fluviais, para a diminuição da erosão nas margens fluviais, bem como para a amenização da força das águas que chega a esses cursos.
No viés quantitativo (Gráfico 1), pode-se dizer que a evolução do uso da terra ao longo dos trinta e oito anos foi intensa. A vegetação de várzea ocupava um total de apenas 4% da área de estudo no cenário de 1962, elevando-se para 28% no cenário de 2000, ou seja, esta vegetação obteve um aumento de 24% ao longo de trinta e oito anos, ao contrário de muitos ambientes, onde esta vegetação tem sua área suprimida.
Gráfico 1 – Evolução do Uso da Terra da Área de Estudo (Cenários de 1962 e 2000). Dados expressos em porcentagem de área.
Fonte: Elaborado e organizado pela autora. Área total considerada: 13,82 km2.
A vegetação rasteira, ao contrário do que ocorreu com a vegetação de várzea, abarcava 73,4% da área de estudo no cenário de 1962. Contudo, ocupou no cenário de 2000 apenas 19% da área de estudo, tendo mais de 50% de sua área suprimida.
As mudanças impostas aos cursos fluviais da planície ficam evidenciadas pelos dados apresentados no gráfico 1. Em 1962, a hidrografia ocupava uma área de 22,6%, sofrendo redução e apresentando apenas 9,9% de área ocupada no ano de 2000. Assim, tais mudanças acarretaram na diminuição em termos de área de cerca de 12,6 %, o que é significativo.
No cenário de 1962 não constavam as classes de uso tais como lagos, atividades agrícolas, mineração (antiga e recente) e solo exposto. Estas classes surgiram ao longo dos anos, em detrimento da vegetação rasteira e dos cursos fluviais. Assim, no cenário
de 2000, identificou-se que 1,5% da área é ocupada por lagos; 21% da área é ocupada por atividades agrícolas; 12,7% é ocupada por extração antiga; 7,2% da área de estudo são áreas de extração recente (ou seja, estavam ativas no cenário de 2000); 0,5% da área de estudo apresentava setores de solo exposto. Neste contexto, 19,9% da área de estudo apresentava-se alterada pela mineração.
Considerando as exposições acerca desta análise, pode-se afirmar que o setor da Planície Costeira apresenta susceptibilidade natural ao desencadeamento dos processos morfogenéticos, conforme explicitados por Machado e Cunha (2010). Neste viés, as atuações antrópicas aceleraram os processos a partir da ação das águas, desencadeando uma série de eventos oriundos da dinâmica fluvial e pluvial. Trata-se de um ambiente altamente suscetível à remobilização de sedimentos pela natureza do material arenoso e inconsolidado e, portanto, sob forte influencia da morfodinâmica.
Considerações Finais
A análise das cartas de uso da terra do setor da Planície Costeira referente aos cenários de 1962 e 2000 permite concluir que ocorreram severas modificações tanto nas formas dos cursos d´água quanto na dinâmica fluvial deste setor. As principais modificações referentes à dinâmica fluvial em função do uso antrópico consistem no aumento do potencial erosivo, na mudança do padrão de drenagem de alguns setores e também no assoreamento de alguns de seus afluentes, próximos à área de mineração. As principais modificações nas formas dos cursos d´água referem-se ao desaparecimento de algumas ilhas fluviais, bem como a formação de diversos lagos artificiais decorrentes da mineração.
No que se refere aos níveis de uso, no cenário de 1962 a atuação antrópica apresentava-se modesta, marcada pela presença de estradas de terra. O cenário de 2000 revela que esta atuação aumentou em níveis consideráveis, implicando em desrespeito às leis ambientais referentes às áreas de preservação permanente. Assim, foram identificados e espacializados setores de atividades agrícolas, de mineração, setores apresentando solos expostos. Em consequência, surgiram os lagos artificiais e a supressão da hidrografia como impactos negativos. Como impactos positivos pode-se destacar o aumento das áreas que ocupam a vegetação de várzea.
No viés quantitativo, destacam-se: Impacto Positivo:
o aumento de 24% da área de vegetação de várzea; Impactos Negativos:
diminuição da área ocupada pelos cursos fluviais de 12,6% do curso principal da planície;
19,9 % da área apresenta-se, no cenário de 2000, alterada pela mineração. Segundo Christofoletti (1981, p. 107), os canais fluviais são os agentes morfogenéticos mais ativos na esculturação do relevo, apresentando uma dinâmica natural de erosão e deposição. Os cursos fluviais próximos às áreas de mineração sofrem intensas modificações que causam a desestabilização dos processos naturais. Na planície, os impactos oriundos do uso antrópico foram severos, tendo em vista sua suscetibilidade natural à remobilização de sedimentos. Assim, observa-se que a área de estudo apresenta limitações ao uso antrópico justificando, portanto, sua proteção pela legislação.
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