SIMULADO 2
(NÍVEL MÉDIO)
Maratona
SOBRE EDUCAÇÃO E ESCOVAS DE DENTES
O que você acha certo: escovar os dentes todos os dias ou só escovar de vez em quando ou mesmo nunca? Aposto que sua resposta será: “É óbvio que todos os dias!”. No entanto, muitas pessoas, por razões socioeconômicas, não podem escovar os dentes todos os dias – algumas não podem nunca e há ainda aquelas que nem dentes têm para escovar.
Não disponho de dados estatísticos sobre essa questão, mas penso que, mesmo que o contingente de pessoas que só escovam os dentes às vezes ou nunca seja maioria em nossa população, esse comportamento sempre será tido como exceção e não como regra. Dito de outro modo, o “normal” é que as pessoas façam seu asseio bucal diariamente. Nessa mesma linha de raciocínio, por mais que haja
miséria no mundo, a escassez de bens materiais e de comida nunca deverá ser vista como normal e sim como uma anomalia a ser sanada.
Por que estou falando sobre isso? Porque há na Academia uma certa corrente de pensamento que defende que todas as chamadas variantes linguísticas,
especialmente as sociais, são legítimas – e, de fato, o são –, e que, por consequência, nenhuma delas deveria ser considerada errada ou estigmatizada.
O fato é que muitas pessoas, inclusive alunos de escolas públicas, sobretudo as de periferia, dizem “nós foi, nós vai, a gente somos”. E, segundo esses estudiosos, tais variantes sociais, os chamados socioletos, não deveriam ser corrigidas ou reprimidas em sala de aula; quando muito, devem ser apontadas como inadequadas a
situações formais, como a redação ou apresentação oral de um trabalho escolar ou situações de trabalho intelectual (e não braçal, evidentemente).
Eu me pergunto: faz sentido alguém empregar “nós fomos” na escola ou no
trabalho e dizer “nós foi” em casa, mesmo que seus familiares sejam iletrados? Se o propósito do ensino de língua portuguesa na escola é justamente tornar o aluno proficiente na chamada norma-padrão e assim permitir-lhe ter acesso aos estudos superiores e poder exercer profissões intelectuais e não braçais, faz sentido o
professor não corrigir seu aluno quando ele diz ou escreve “nós foi”? Dito de outro modo, faz sentido afirmar que não existe “erro de português” quando exatamente o uso inadequado de certas construções no discurso formal constitui o “erro”?
Se um personal trainer corrige a postura que você traz de casa e procura coibi-la para que você se acostume à posição correta do corpo, ele está sendo repressivo ou pedagógico? O professor que corrige seu aluno é autoritário ou generoso? A atitude de não corrigir a fala ou escrita do aluno revela um falso progressismo, que finge praticar a inclusão social quando, na verdade, exclui esse estudante da possibilidade de um futuro melhor, com estudos superiores e um bom emprego.
Voltando à escova de dentes, dizer “a gente somos” é como escovar os dentes só de vez em quando – quando se têm dentes para escovar, evidentemente. Pode ser muito comum, pode até ser prática majoritária em nossa população, mas é algo que a educação deve legitimamente combater.
Em termos práticos, há três níveis de linguagem, padrões ou registros possíveis do ponto de vista do ambiente social: o padrão formal, usado por pessoas de alta escolarização em situações de trabalho, especialmente em sua forma escrita; o padrão informal, usado pelas mesmas pessoas de alta escolaridade em situações informais, como num bate-papo entre amigos, e sobretudo na modalidade oral; e, finalmente, o vulgar, de uso exclusivo dos falantes (quase nunca escreventes) de baixo ou nenhum letramento (os falantes/escreventes letrados só usam esse padrão em tom de brincadeira). Este último padrão pode até mesmo ser considerado uma espécie de dialeto em relação ao idioma oficial. Vejamos os exemplos a seguir. • Padrão formal: “Ontem, havíamos passado numa lanchonete antes de irmos ao jogo Flamengo e Corinthians.”
• Padrão informal: “Ontem, a gente passou numa lanchonete antes de ir no jogo Flamengo e Corinthians.”
• Padrão vulgar: “Onte, nós passô numa lanchonete antes de nós i no jogo Framengo e Coríntia.”
Portanto, o papel da escola básica é ensinar a usar corretamente o registro formal, que será exigido mais adiante na vida acadêmica e profissional do aluno, bem como mostrar que, se esse aluno quer ascender socialmente (e ele deveria querer), deve abandonar definitivamente o padrão vulgar – o padrão informal ele pode e deve usar, mas sempre em situações informais.
Se esses padrões fossem roupas, eu diria que o formal é o terno e gravata, o informal é a roupa casual, e o vulgar são os andrajos dos mendigos. Todo
profissional que está obrigado a usar terno e gravata também usa roupas casuais quando está em casa ou sai a passeio, mas só miseráveis vestem farrapos.
É claro que há muita miséria e analfabetismo em nosso país, mas, em condições normais (isto é, aquelas de países com alto IDH, ou seja, Índice de Desenvolvimento Humano), não deveria haver. De igual maneira, há muita linguagem esfarrapada nas bocas dos que não puderam estudar. Mas não deveríamos achar isso normal porque isso não é normal. Como não é normal ser banguela. E a função da
educação é justamente tirar-nos da anormalidade terceiro-mundista e livrar as crianças e jovens de um futuro sombrio, de pobreza, exploração, exclusão social e trabalho braçal.
1. Pode-se inferir do texto que o autor
(A) não considera correto o uso de expressões que refletem a norma-padrão. (B) critica a não correção do aluno, que deve aprender a norma-padrão.
(C) acredita que a função da educação é impedir que os alunos ignorem seus falares. (D) impõe o ensino da norma-padrão como garantia de ascensão social por meio dela. (E) desautoriza discursos antipedagógicos que desprezam as variantes linguísticas.
2. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
O que você acha certo: escovar os dentes todos os dias ou só escovar de vez em quando ou mesmo nunca?
(A) As palavras “você” e “só” recebem acento gráfico pela mesma regra, uma vez que ambos são vocábulos oxítonos.
(B) Em “O que você acha certo”, há 17 letras, 15 fonemas, 2 dígrafos e 1 encontro consonantal.
(C) O adjetivo “certo” está empregado como advérbio na frase, pois ele não modifica nenhum substantivo.
(D) O artigo “os” na expressão “todos os dias” pode ser suprimido sem incorreção gramatical.
(E) Por ser adjetivo, o vocábulo “só” pode ser substituído por “apenas” ou “somente”.
3. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
Não disponho de dados estatísticos sobre essa questão, mas penso que, mesmo que o contingente de pessoas que só escovam os dentes às vezes ou nunca seja maioria em nossa população, esse comportamento sempre será tido como exceção e não como regra.
(A) O “se” seria partícula de indeterminação do sujeito se a primeira oração fosse reescrita assim: “Não se dispõe de dados estatísticos sobre essa questão”.
(B) A segunda vírgula poderia ser suprimida sem prejuízo às regras de pontuação. (C) Por concordar com “pessoas”, a forma verbal “seja” deveria estar no plural (sejam), assim como a forma verbal “escovam”.
(D) O acento grave em “às vezes” é obrigatório por causa da regência do verbo escovar: escovar dentes a + as vezes = às vezes.
(E) A palavra “exceção” está escrita corretamente, mas, por ter dupla grafia, poderia ser também escrita assim: excessão.
4. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
Por que estou falando sobre isso? Porque há na Academia uma certa corrente de pensamento que defende que todas as chamadas variantes linguísticas,
especialmente as sociais, são legítimas – e, de fato, o são –, e que, por consequência, nenhuma delas deveria ser considerada errada ou estigmatizada.
(A) A regência culta do verbo “falar” foi ignorada, pois se deveria usar “de”, e não “sobre”.
(B) O vocábulo “que”, em suas três ocorrências, pertence à mesma classe gramatical. (C) A segunda vírgula está incorreta, pois separa sujeito de predicado.
(D) O trecho “nenhuma delas deveria ser considerada errada ou estigmatizada” também estaria gramaticalmente correto, em obediência às regras de concordância verbal assim: nenhuma delas deveriam ser consideradas erradas ou estigmatizadas. (E) O uso dos porquês está gramaticalmente correto.
5. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
O fato é que muitas pessoas, inclusive alunos de escolas públicas, sobretudo as de periferia, dizem “nós foi, nós vai, a gente somos”.
(A) O termo entre as duas primeiras vírgulas restringe o sentido de “muitas pessoas”. (B) O termo “de escolas públicas” não tem o mesmo valor semântico em relação ao substantivo “alunos” que o termo “de periferia” em relação ao “as”.
(C) A oração iniciada pelo “que” funciona como núcleo do predicado nominal.
(D) O segmento “as de periferia” está empregado de modo inadequado, pois deveria estar pareado com “alunos de escolas públicas”, de modo que a redação correta seria esta: inclusive alunos de escolas públicas, sobretudo os (alunos) de periferia.
(E) O vocábulo “as”, em “as de periferia”, é contextualmente um substantivo, pois vem seguido por um termo modificador de sentido, a saber: “de periferia”.
6. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
Se o propósito do ensino de língua portuguesa na escola é justamente tornar o aluno proficiente na chamada norma-padrão e assim permitir-lhe ter acesso aos estudos superiores e poder exercer profissões intelectuais e não braçais, faz sentido o professor não corrigir seu aluno quando ele diz ou escreve “nós foi”?
(A) O uso de “justamente” realça o verbo “tornar”, fazendo com que este tenha um sentido diferente do usual.
(B) O termo “na escola” exerce função sintática de adjunto adverbial.
(C) O pronome “lhe” deveria estar proclítico ao verbo “permitir” porque, antes dele, há uma palavra atrativa (assim).
(D) O vocábulo “Se”, que inicia o período, é uma conjunção subordinativa que tem valor semântico puramente condicional.
(E) Toda a argumentação anterior à vírgula fortalece a linha de raciocínio do autor, para direcionar o pensamento do leitor à compreensão de que a pergunta após a vírgula é retórica.
7. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
A atitude de não corrigir a fala ou escrita do aluno revela um falso progressismo, que finge praticar a inclusão social quando, na verdade, exclui esse estudante da possibilidade de um futuro melhor, com estudos superiores e um bom emprego.
(A) Os vocábulos “fala” e “escrita” são formas verbais flexionadas a partir dos verbos falar e escrever, respectivamente.
(B) O sufixo “ismo” na palavra “progressismo” tem o mesmo valor semântico encontrado em “brasileirismo”.
(C) O adjetivo “falso” indica um juízo de valor coletivo, que não reflete o ponto de vista do autor.
(D) O conectivo “quando” poderia ser substituído por “enquanto” sem alterar o sentido original.
(E) A expressão “na verdade” tem um valor de adversidade no contexto.
8. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
Voltando à escova de dentes, dizer “a gente somos” é como escovar os dentes só de vez em quando – quando se têm dentes para escovar, evidentemente.
(A) O acento em “têm” se justifica não por causa da concordância desse verbo com o núcleo do sujeito “dentes”.
(B) As aspas foram usadas não para indicar a fala de alguém.
(C) O segmento “de vez em quando” é um adjunto adverbial indicador de dúvida, incerteza.
(D) A palavra “dentes” aparece três vezes; numa delas, não se classifica como substantivo.
(E) A crase é obrigatória por causa da regência do verbo “voltar” e por causa da admissão de artigo definido antes de “escova de dentes”.
9. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única incorreta.
Em termos práticos, há três níveis de linguagem, padrões ou registros possíveis do ponto de vista do ambiente social: o padrão formal, usado por pessoas de alta escolarização em situações de trabalho, especialmente em sua forma escrita; o padrão informal, usado pelas mesmas pessoas de alta escolaridade em situações informais, como num bate-papo entre amigos, e sobretudo na modalidade oral; e, finalmente, o vulgar, de uso exclusivo dos falantes (quase nunca escreventes) de baixo ou nenhum letramento (os falantes/escreventes letrados só usam esse padrão em tom de brincadeira).
(A) Os dois-pontos poderiam ser substituídos por um travessão.
(B) Se a forma verbal “há” fosse substituída por “existem”, a correção gramatical se manteria.
(C) O termo “por pessoas de alta escolarização em situações de trabalho” tem valor semântico de agente.
(D) O substantivo “bate-papo”, por ser formado por verbo + substantivo, é pluralizado da seguinte forma: bates-papos.
(E) A expressão “esse padrão” retoma “o (padrão) vulgar”.
10. Sobre as afirmações presentes acerca do trecho retirado do texto, marque a única correta.
E a função da educação é justamente tirar-nos da anormalidade terceiro-mundista e livrar as crianças e jovens de um futuro sombrio, de pobreza, exploração, exclusão social e trabalho braçal.
(A) A palavra “anormalidade” é formada por derivação parassintética.
(B) O pronome “nos” faz referência aos alunos que fazem parte do cenário “terceiro-mundista”.
(C) O segmento “livrar as crianças e jovens de um futuro sombrio” poderia ser reescrito sem desvio gramatical assim: as crianças e jovens serem livradas de um futuro
sombrio.
(D) O sujeito de “tirar” e “livrar” têm o mesmo referente: a função da educação.
(E) Os termos separados por vírgula têm o mesmo peso argumentativo que conduz a uma visão menos pessimista da realidade.
GABARITO!!! 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10 B B A E C E D E D D