Anais
São Luís - Maranhão
2014
Anais
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esta publicação compreende os Anais do IX ConnepI - Congresso norte nordeste de pesquisa e Inovação. o material aqui reunido é composto por resumos expandidos de trabalhos apresentados por pesquisadores de todo o Brasil no evento realizado em são Luís-MA, entre os dias 3 e 6 de novembro de 2014, sob organização do Instituto Federal do Maranhão.
os resumos expandidos desta edição do ConnepI são produções científicas de alta qualidade e apresentam as pesquisas em quaisquer das fases em desenvolvimento. os trabalhos publicados nestes Anais são disponibilizados a fim de promover a circulação da informação e constituir um objeto de consulta para nortear o desenvolvimento futuro de novas produções.
É com este propósito que trazemos ao público uma publicação científica e pluralista que, seguramente, contribuirá para que os cientistas de todo o Brasil reflitam e aprimorem suas práticas de pesquisa.
HIDRÓLISE DE ÓLEOS DE COZINHA RESIDUAIS UTILIZANDO ÁGUA SUBCRÍTICA PARA PRODUÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS LIVRES: PRÉ‐TRATAMENTO E CARACTERIZAÇÃO DO OGR
L. P. Toralles (PQ)¹ ; C. T. Alves (PQ)1,2; E. A. Torres (PQ)1; S. A. B. Vieira de Melo (PQ)1
1 Universidade Federal da Bahia (UFBA). Escola Politécnica. Programa de Pós‐graduação em Engenharia
Industrial‐, 2 Instituto Federal da Bahia (IFBA) e‐mail: [email protected]
(PQ) Pesquisador
RESUMO
Este trabalho teve o objetivo de analisar os óleos e gorduras residuais (OGR) para o uso na hidrólise imediata com água subcrítica para geração de ácidos graxos livres destinados a produção de biodiesel. Foi investigado o pré‐tratamento do OGR para redução de materiais particulados e compostos saponificáveis presentes nessa matéria‐prima. Após o pré‐tratamento, o OGR apresentou uma redução superior a 90% do seu índice de acidez em todas amostras testadas. O OGR também foi caracterizado quanto a sua viscosidade cinemática, composição de ácidos graxos e Ressonância Magnética
Nuclear Protônica (RMN+), que identificaram grandes
semelhanças entre o OGR e o óleo de soja refinado. Foi verificado que o ácido linoléico representa o principal componente (%), em ambos os óleos testados e através da análise de composição do OGR foi calculada uma massa molecular de 873 g/mol. Portanto, devido aos resultados obtidos, a reação de hidrólise imediata com água subcrítica será a próxima etapa deste trabalho onde se espera obter uma contribuição efetiva em uma nova rota de produção de alquil ésteres, através da reação de esterificação dos ácidos graxos livres. PALAVRAS‐CHAVE: óleos de cozinha residuais, hidrólise, água subcrítica, ácidos graxos livres, biodiesel. HYDROLYSIS OF WASTE FRYING OILS IN SUBCRITICAL WATER FOR FREE FATTY ACIDS PRODUCTION: PRETREATMENT AND CHARACTERIZATION OF WFO ABSTRACT
This study analysed the waste frying oils (WFO) for its use in hydrolysis with subcritical water to generate free fatty acids for biodiesel production. Pre‐treatment of WFO for reducing particulate material and saponified compounds, present in this raw material, were investigated. After the pre‐treatment, the WFO showed a reduction of more than 90% of its acid number in all samples tested. The WFO was also analysed by its kinematic viscosity, fatty acid composition and proton Nuclear Magnetic Resonance (NMR +), which identified strong similarities
between WFO and refined soybean oil. It was found that linoleic acid is the main component (%), in both tested oils, and through the fatty acid composition analysis of WFO a molecular weight of 873 g/mol was calculated. Therefore, due to the results obtained, the immediate reaction of hydrolysis with subcritical water will be the next step of this work where it is expected to obtain an effective contribution in a new production route of alkyl esters by esterification of free fatty acids.
HIDRÓLISE DE ÓLEOS DE COZINHA RESIDUAIS UTILIZANDO ÁGUA SUBCRÍTICA PARA PRODUÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS LIVRES: PRÉ‐TRATAMENTO E CARACTERIZAÇÃO DO OGR 1. INTRODUÇÃO
O crescimento das emissões de gases de efeito estufa, em especial CO2, enxofre e hidrocarbonetos aromáticos se deve principalmente ao considerável aumento do consumo de combustíveis fósseis nos últimos anos. Com o objetivo de reduzir a quantidade dessas emissões e amenizar futuros impactos ambientais, a busca por combustíveis renováveis se tornou mais forte e desenvolvida em muitos países (De Jong, 2013). Entre os combustíveis alternativos, o biodiesel se destaca como uma forma promissora para diminuir determinadas emissões atmosféricas (Janaun e Eliis 2010), bem como reduzir a dependência de importação de derivados de petróleo pelo Brasil.
O estimulo à produção de biocombustíveis em larga escala no Brasil representa uma grande expansão do desenvolvimento e aperfeiçoamento de rotas de produção de biodiesel. Dentre as vantagens deste biocombustível se destaca suas características de não‐toxico, biodegradável e proveniente de óleos vegetais renováveis, sendo, portanto, considerado ambientalmente sustentável. Atualmente, a norma ASTM D 6751 da American Society for Testing and Materials define a especificação do biodiesel quanto à sua acidez e composição.
Existem diversos procedimento para atingir a qualidade requerida do biodiesel. Geralmente, este biocombustível é produzido através da transesterificação de triglicerídeos com o uso de metanol, ou pela reação de esterificação dos ácidos graxos livres, obtidos através de uma hidrólise prévia. (Saka et al., 2006). Dentro destas duas metodologias, o biodiesel pode ser produzido a partir de reações não catalíticas ou catalíticas, com processos homogêneos e heterogêneos (Hassan e Kalam, 2013). Além disso, em estudos recentes, experimentos realizados em condições sub e/ou supercríticas, resultaram em uma boa performance na geração deste biocombustível (Ju et al. 2013, Alves et al. 2013, Sawangkeaw et al. 2011, Maçaira et al. 2011). A utilização de água com temperaturas mantidas dentro do intervalo do seu ponto de ebulição (100oC) e seu ponto crítico (374oC) conservada no estado líquido, caracteriza o estado subcrítico da água. Para a hidrólise do óleo, a água subcrítica oferece uma maior solubilidade no óleo devido à modificação de suas propriedades, como a redução da sua constante dielétrica com o aumento da temperatura (Carr et al., 2011). Dessa forma, a água em condições subcríticas na hidrólise atua tanto como reagente, e como solvente da reação (Pinto e Lancas, 2006, King et al.1999). Nesse contexto, também vale ressaltar que de acordo com os estudos de Alenezi et al. (2010) e Milliren et al. (2013), a medida que os ácidos graxos livres são formados na reação de hidrólise de óleos vegetais, eles agem como catalisadores ácidos, capazes de acelerar sua própria reação. O presente trabalho teve o objetivo de investigar a viabilidade da utilização de óleos de cozinha residuais na obtenção de ácidos graxos livres para produção de biodiesel, através da reação de hidrólise com água em estado subcrítico. O uso do OGR foi explorado quanto ao seu pré‐ tratamento e caracterização. Na reação de hidrólise será investigado a influência dos parâmetros operacionais no rendimento da reação, através da análise dos produtos obtidos pelas técnicas de
caracterização e utilização do OGR, este trabalho visa contribuir no desenvolvimento de uma nova rota de produção de biodiesel inteiramente benigna ao meio ambiente.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
O OGR recebido como doações de estabelecimentos das regiões metropolitanas de Salvador no Laboratório de Energia e Gás da Universidade Federal da Bahia foi pré‐tratado e caracterizado antes da reação de hidrólise. Foi utilizada água destilada e deionizada nas etapas de pré‐ tratamento e será utilizada na próxima etapa do presente trabalho, a hidrólise do óleo. Na etapa de caracterização e pré‐tratamento do OGR também foram utilizados hidróxido de potássio (85%) e hidróxido de sódio (97%) fornecidos pela Fmaia, assim como solução de éter etílico e álcool etílico, ambos P.A. do mesmo fornecedor. As reações de hidrólise serão futuramente conduzidas no reator Parr com capacidade de 1 L. Este reator possui controladores de pressão, temperatura e velocidade de agitação
2.1. Pré‐tratamento do OGR
Para a remoção de compostos que podem interferir na reação de hidrólise e subsequente produção de biodiesel, o pré‐tratamento do óleo foi constituído por duas etapas: filtração e neutralização. Com o intuito de eliminar materiais sólidos, diferentes amostras do óleo foram filtradas. Após a filtração, foi realizada a etapa de neutralização para a redução de ácidos graxos livres e materiais saponificáveis. Nesta última etapa, o OGR foi neutralizado pela adição de hidróxido de sódio, seguido por lavagens com água destilada para remoção de impurezas. A etapa de lavagem do óleo após sua neutralização está ilustrada na Figura 1.
2.2. Caracterização do OGR
Na caracterização do óleo foi feita a análise de índice de acidez (I.A.) antes e após o pré‐ tratamento. O I.A. foi obtido através da adição controlada de hidróxido de potássio até a completa neutralização do óleo, relatada a partir da adição de um indicador de pH. O SCHOTT CT 52 foi utilizado para medir a viscosidade cinemática do óleo através do tempo de escoamento do óleo dentro do capilar de no 200. As análises elementares de ácidos graxos (CHNOS) e ressonância magnética nuclear protônica (RMN+) também foram realizadas no intuito de definir os principais componentes do OGR e calcular a sua massa molecular. Para realizar uma análise comparativa dos resultados obtidos na caracterização do OGR, foram feitas análises do óleo de soja refinado Sinhá, adquirido pelo Laboratório de Energia e Gás da UFBA.
2.3. Hidrólise do OGR e caracterização dos produtos
A próxima etapa do processo são as reações de hidrólise do OGR que serão conduzidas no reator Parr em diferentes condições. Os experimentos serão realizados com temperaturas de 200 até 350oC. Será utilizado um excesso de água para favorecer a reação, sendo aplicada uma proporção experimental entre água e óleo de 4:1 e 6:1 (v/v). O tempo de residência da reação irá variar entre 20 e 40 minutos com análise de amostras a cada 10 minutos. Enquanto isso, a pressão será mantida constante (18 MPa) em todos os experimentos, com uma velocidade de agitação fixa em 700 rpm. Para a reação de hidrólise, o óleo e a água serão inseridos no reator e mantidos em descanso até que o reator atinja a temperatura e pressão requeridas. Após agitação dos reagentes, durante o tempo de reação previamente determinado, se espera a produção de glicerol e ácidos graxos livres. A água, contendo glicerol, será separada da fase oleosa, que contém ácidos graxos livres, através de decantação, permitindo a caracterização dos produtos obtidos. Na caracterização dos produtos, será investigado o rendimento da reação de hidrólise através das análises de cromatografia gasosa (CG Varian 3800A), juntamente com a análise elementar e RMN+ para definir as composições e respectivas modificações nos ácidos graxos livres obtidos. Similarmente, também será feita a avalição do rendimento do glicerol nessa reação de hidrólise. O fluxograma esquemático do processo está representado pela Figura 2.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1. Hidrólise do OGR e caracterização dos produtos Antes do seu pré‐tratamento, o OGR derivado de estabelecimentos das regiões metropolitanas de Salvador‐Ba exibiu um I.A. médio de 7,9 mg KOH/g de óleo. No intuito de ser submetido a reação de hidrólise sem as interferências conhecidas, o óleo foi filtrado e neutralizado, resultando em uma perda de aproximadamente 15% da matéria‐prima. Depois do pré‐tratamento o índice de acidez do OGR foi testado novamente e comparado ao índice de acidez do óleo de soja refinado, Sinhá. A Tabela 1 apresenta os resultados obtidos nas análises de I.A., onde é observado que o pré‐ tratamento alcançou uma redução superior a 90% dos materiais saponificáveis presentes na amostra.
Tabela 1 – Resultados de Índice deacidez (I.A.)
Experimento OGR bruto OGR tratado Óleo de Soja refinado
1 7.61 0.62 0.84 2 8.18 0.56 0.70 3 7.85 0.59 0.65 Média do I.A. (mg KOH/g óleo) 7,9 0,6 0,7 A análise de viscosidade cinemática do OGR e do óleo refinado foram realizadas no SCHOTT CT 52 à 40oC. A viscosidade cinemática, calculada a partir do tempo de escoamento do óleo, foi de 34,6cSt para o OGR, valor relativamente próximo ao valor do óleo de soja testado que foi de 39,4cSt. Para avaliar a composição do OGR e calcular sua massa molecular, a análise elementar dos ácidos graxos também foi realizada. Os resultados da composição de ácidos graxos do OGR são mostrados na Tabela 2, onde se verifica que os maiores representantes do OGR são o ácido linoléico, o ácido oléico e o ácido palmítico. A partir deste resultado obtido foi calculada uma massa molecular de 873 g/mol do OGR.
Tabela 2 – Análise da Composição dos Ácidos Graxos do OGR
Ácidos Graxos Nomenclatura Amostra 01 (%) Amostra 02 (%) Óleo de Soja (%)
C16:0 Ácido Palmítico 11,33 11,48 12,50 C18:0 Ácido Esteárico 3,53 3,53 0,65 C18:1ω9 cis Ácido Oleíco 22,71 21,73 27,81 C18:1ω9 trans Ácido Eláidico 1,49 1,43 ‐ C18:2ω6 cis Ácido Linoléico 54,82 55,67 54,19 C18:2ω6 trans Ácido Linolelaídico 0,18 0,16 ‐ C18:3ω3 Ácido Linolênico 5.62 6 4,67 C20:0 Ácido Eicosanóico 0,32 0 ‐
Conforme estudos publicados anteriormente, a análise de RMN+ do OGR apresentou resultados similares ao espectro obtido por outros autores (Geris et al., 2007, Candeia, 2008). Deste modo, a presença de grupos característicos da molécula do óleo de soja foi confirmada a partir da análise de RMN+. Os picos detectados na Figura 3 por essa análise foram identificados através dos seus conjuntos de sinais, apresentados na Figura 4. Figura 3 – Análise de RMN+ do OGR Figura 4 – Identificação dos picos detectados na análise de RMN+ do OGR (Adaptado de Candeia, 2008)
Após a reação de hidrólise, a análise elementar e a análise de RMN+ do OGR serão comparadas a do óleo hidrolisado. A partir dessa comparação serão avaliadas as modificações na molécula do óleo e a geração de ácidos graxos livres.
4. CONCLUSÃO
No presente trabalho os experimentos de pré‐tratamento do OGR e suas respectivas caracterizações de índices de acidez do OGR bruto e tratado foram realizados. Também Foram feitas as análises de viscosidade cinemática, análises elementares de ácidos graxos (CHNOS) e ressonância magnética nuclear protônica (RMN+). Os resultados obtidos do OGR exibiram características similares a de estudos anteriores, a viscosidade cinemática e o índice de acidez obtidos após seu pré‐tratamento foram próximos ao do óleo de soja refinado.
5. REFERÊNCIAS
ALENEZI, R.; BAIG, M.; WANG, J.; SANTOS, R.C.D.; LEEKE, G. Continuous Flow Hydrolysis of Sunflower Oil for Biodiesel. Energy Sources Part A Recovery Utilization and Environmental Effects. v.32, p. 460‐468, 2010.
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DE JONG, Pieter. Economic, technical and environmental analysis of renewable and non‐
renewable electricity generation technologies in Brazil. Dissertação (Mestrado em Engenharia
Industrial). Escola Politécnica, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2013.
GERIS, R.; dos SANTOS, N.A.C.; AMARAL, B.A.; MAIA, I.S.; CASTRO, V.D.; CARVALHO, J.R.M. Biodiesel from soybean oil ‐ experimental procedure of transesterification for organic chemistry laboratories. Química Nova, v. 30, n. 5, p. 1369‐1373, 2007. HASSAN, M., KALAM, M. An Overview of Biofuel as a Renewable Energy Source: Development and Challenges. Procedia Engineering. v. 56. p. 39‐53, 2013. JANAUN, J. e ELLIS, N. Perspectives on biodiesel as a sustainable fuel. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 14, n. 4, p. 1312‐1320, 2010. JU,Y.; HUYNH, L. H.; TSIGIE, Y.A.; HO, Q. Synthesis of biodiesel in subcritical water and methanol. Fuel, v.105, p.266‐271, 2013.
KING, J.W., HOLLIDAY, R.L. and LIST, G.R. Hydrolysis of soybean oil in a subcritical water flow reactor. Green Chemisttry, v.1. p. 261‐264, 1999.
MAÇAIRA, J.; SANTANA, A.; RECASENS, F.; LARRAYOZ, M.A. Biodiesel production using supercritical methanol/carbon dioxide ixtures in a continuous reactor. Fuel, v. 90. n. 6. p. 2280‐2288, 2011. MILLIREN, A.L., WISSINGER, J.C., GOTTUMUKALA, V. SCHALL, C.A. Kinetics of soybean oil hydrolysis in subcritical water. Fuel, v. 108. p. 277‐281, 2013. PINTO, J.S.S. e LANCAS, F.M. Hydrolysis of corn oil using subcritical water. J Brazil Chem Soc, v. 17.p.85‐89, 2006.
SAKA, S., KUSDIANA, D. MINAMI, E. Non‐catalytic biodiesel fuel production with supercritical methanol technologies. J. of Scientific & Ind. Research. v. 65. p. 420‐425, 2006.
SAWANGKEAW, R.; TEERAVITUD, S.; BUNYAKIAT, K.; NGAMPRASERTSITH, S. Biofuel production from palm oil with supercritical alcohols: Effects of the alcohol to oil molar ratios on the biofuel chemical composition and properties. Bioresource Technology, v.102. n. 22. p. 10704‐10710 .2011.
ANÁLISE FÍSICO‐QUÍMICA DA QUALIDADE DA GASOLINA NO ESTADO DA PARAÍBA
I. S. Antunes1; M. M. Silva (PQ)2 ; C. O. Rocha (PQ)3
1,2,3 Instituto Federal da Paraíba (IFPB) – Departamento de Petróleo e Gás ‐ Campus Campina Grande e‐mail: [email protected] (PQ) Pesquisador RESUMO
A gasolina, derivado do petróleo, é um dos mais consumidos combustíveis no Brasil. Esse combustível é composto por alguns contaminantes, como enxofre, que polui o ar atmosférico junto com outros elementos, como o nitrogênio, entre outros compostos, que causam corrosão e alguns casos a diminuição na vida útil do motor. A gasolina tende a ser adulterada devido à falta de inspeção periódica, nos postos de combustíveis, o que permite que o ato de adulteração cresça ultrapassando, assim, os limites permitidos pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Com isso, este trabalho tem como objetivo analisar físico‐quimicamente a gasolina em alguns postos do estado da Paraíba, visando a detectar
qualquer tipo de adulteração ou irregularidade nesse combustível. De um modo geral, as análises foram: os testes de destilação, análise do teor de enxofre, massa específica, teste da proveta, aspecto e cor. Os resultados das amostras de gasolina coletadas em diferentes localizações do estado e analisadas apresentaram com índices consideráveis de conformidade. Para o teor de álcool na gasolina, apenas uma amostra houve uma porcentagem além do limite permissível pela ANP. Quanto à destilação, todas as amostras apresentaram resultados dentro do especificado pelas normas e pela ANP, assim como os demais ensaios. PALAVRAS‐CHAVE: Gasolina, Adulteração, Físico‐Química, Álcool. PHYSICAL‐CHEMICAL ANALYSIS OF GASOLINE QUALITY FROM THE STATE OF PARAÍBA ABSTRACT
Gasoline is one of the fuels consumed in Brazil. This fuel is composed of a few contaminants such as sulfur that pollute atmospheric air along with other elements such as nitrogen and other compounds which cause corrosion and in some cases the decrease in useful life of engines.. Gasoline tends to be adulterated due to lack of periodic inspection, at gas stations, which allows the act of tampering grow, thus exceeding the limits allowed by the National Agency of Petroleum, Natural Gas and Biofuels (ANP)). Thus, this work aims to analyze physical‐ chemically the gasoline from some petrol stations in the state of Paraiba to detect any adulteration or
irregularities in the fuel. In general, the analyses were distillation tests, sulfur content, density, test tube, appearance and color. The results showed that gasoline collected and analyzed at different locations of the state, indicated considerable levels of compliance. For the alcohol content in gasoline, only one sample had a percentage beyond the allowable limit permitted by ANP. For distillation, as well as other tests, all samples presented results within the specified rules from the ANP.
ANÁLISE FÍSICO‐QUÍMICA DA QUALIDADE DA GASOLINA NO ESTADO DA PARAÍBA
INTRODUÇÃO
A gasolina é um derivado do petróleo que constitui uma composição bastante complexa, composta basicamente por hidrocarbonetos saturados, olefinas e aromáticos e, em menor quantidade, por substâncias cuja formula contém átomos de enxofre, nitrogênio, oxigênio e metais que conferem certo grau de instabilidade ao produto.
O Brasil é autossuficiente em petróleo, porém possui um dos preços mais elevados da gasolina. Alguns especialistas no assunto revelam que quase 60% do preço da gasolina correspondem a impostos, podendo variar em função de múltiplos fatores como: cargas tributárias, concorrência com outros postos na mesma região e a estrutura de custos de cada posto. Em virtude de toda problemática envolvida no contexto da taxa a ser paga pela gasolina, o histórico de adulteração da gasolina começou a crescer exponencialmente, ultrapassando os limites permitidos pela Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Desde 2013, a gasolina vem sendo vendida nos postos com a adição de 25% de álcool, antes esse valor era de 20%, esse percentual foi criado para a diminuição de poluentes e também para melhorar a limpeza do motor. Sem a confiança dos 100% de gasolina pura, os donos dos postos podem a vir adulterá‐la o mesmo, com a adição de qualquer produto que modifique e/ou transforme suas características originais.
Desse modo, torna‐se um caso de extrema relevância e de grande ocorrência em todo o âmbito nacional, levando assim órgãos responsáveis em fiscalizar com maior intensidade e coibir esse fato. Dentre os solventes mais usados na adulteração da gasolina estão o óleo diesel, querosene e refinados petroquímicos (TEIXEIRA et al., 2001), além do solvente de borracha (DAGOSTIN, 2003) e o excesso de álcool anidro (OLIVEIRA et al., 2004).
Os combustíveis adulterados podem gerar ações sobre os automóveis e consequentemente sobre o meio ambiente, tendo em vista que a combustão – que liberam compostos do tipo NOx e SOx – é causador de um grande impacto ambiental, ou seja, o efeito estufa. As principais consequências dessa adulteração são de intervenção direta nos veículos, sendo inicialmente observados pelos consumidores os danos provocados no próprio veículo.
Segundo TAKESHITA (2006), uma gasolina com excesso de álcool anidro provoca a desregulagem do motor e elevação do índice do consumo de combustível. Além disso, o álcool, com o tempo e através do contato com as partes metálicas, provoca corrosão que entra em contato com o combustível, consequentemente faz‐se necessária a abertura do motor para manutenção, limpeza e até mesmo substituição de peças danificadas. No caso da adição de solventes, como o tolueno, ela provoca a deterioração de tubos e mangueiras de borracha, cujos resíduos tendem a depositar‐se no diafragma da bomba da gasolina. Um diafragma sujo tem seu poder de sucção diminuído, o que será sentido pelo veículo caso este necessite vencer obstáculos como rampas e ladeiras.
A portaria nº 309, de 27/12/2001, da ANP, estabelece as especificações para a comercialização de gasolinas automotivas em todo o território nacional e define obrigações dos agentes econômicos sobre o controle de qualidade do produto. O Regulamento Técnico nº 5 de
dos ensaios da gasolina. Em vista disso, a finalidade dessa portaria é identificar e localizar produtos que não atendam às especificações técnicas (composições físico‐químicas) determinadas por essa agência.
De um modo geral, os limites estabelecidos para os testes de destilação, análise do teor de enxofre, massa específica, teste da proveta, aspecto e cor são elevados para permitir a identificação da adulteração da gasolina, obedecendo a uma série de intervalos que caracterizam a qualidade do combustível. Segundo a portaria nº 309 da ANP, as análises são feitas para especificar a qualidade do produto, tendo em vista que todas as análises obedecem a um padrão/norma adotado pela ANP, para especificar produtos de qualidades que permitam um bom desempenho nos motores.
Com base nos limites estabelecidos por essa Portaria, propôs‐se aqui realizar um estudo da eficácia destas análises de qualidade de combustíveis, detectar qualquer tipo de adulteração ou irregularidade no combustível, bem como auxiliar o controle e identificação das amostras incompatíveis. Assim, o principal objetivo é o de investigar experimentalmente em escala de laboratório, parâmetros físico‐químicos que monitorem a qualidade da gasolina automotiva. PARTE EXPERIMENTAL Amostras de gasolina
Esta pesquisa, realizada no Laboratório de Combustíveis e Materiais (LACOM), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), tem como materiais a serem analisados os combustíveis adquiridos em postos de gasolina. Esses, escolhidos aleatoriamente, estão situados nas cidades de Campina Grande, Sousa e João Pessoa, caracterizando regiões desde o litoral até o sertão, do estado da Paraíba. O material a ser observado compõe 3 (três) amostras. Após a coleta, elas, que se encontravam em temperatura ambiente, foram armazenadas em recipientes de vidro na cor âmbar, transferidas para caixas térmicas e transportadas para o LACOM.
As amostras de gasolina foram submetidas a ensaio de aspecto e cor, teor de enxofre, destilação, determinação da massa específica a 20 °C e determinação do teor de álcool etílico. Os valores da massa específica, do teor de álcool, das temperaturas da primeira gota e dos 10, 50 e 90% evaporados, do ponto final e o teor de resíduo foram tabelados e analisados de acordo com as normas estabelecidas pela Portaria nº 309, de 27 de dezembro de 2001, da Agência Nacional de Petróleo. Ensaio de destilação da gasolina
O ensaio de destilação da gasolina foi realizado de acordo com a norma da ABNT NBR 9619/2009. Esse ensaio teve como objetivo principal avaliar as características de volatilidade e desempenho da gasolina, bem como verificar possíveis adulterações fraudulentas. O método estabelece as temperaturas máximas admissíveis para os volumes evaporados (10, 50 e 90%), bem como o ponto final de ebulição e o resíduo, de acordo a portaria supracitada.
Massa específica A determinação da massa específica da gasolina foi realizada de acordo com a norma ABNT NBR 14065/2006, respeitando a temperatura exigida pela portaria de 20°C. Teor de Etanol A determinação do teor de álcool na gasolina foi realizada de acordo com a norma ABNT NBR 13992/2009, atentado para os intervalos máximos permitidos de etanol na gasolina. Teor de enxofre A determinação do teor de enxofre na gasolina foi realizada de acordo com a norma ASTM D7039‐13, respeitando os limites dos intervalos correspondentes a gasolina. Aspecto e cor A determinação do aspecto e da cor na gasolina foi realizada de acordo com a norma ABNT NBR ‐14954 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados obtidos físico‐quimicamente estão representados nas tabelas de 1 a 4. Na Tabela 1, pode‐se verificar os resultados do PIE (Ponto Inicial de Ebulição), 10% volume evaporado, 50% volume do evaporado, 90% volume evaporado, PFE (Ponto Final de Ebulição), o resíduo e a perda do volume da amostra. Esse ensaio da destilação é realizado para ser a verificação da qualidade da gasolina e mede as características da volatilidade. As amostras A, B, C estão todas dentro dos padrões da destilação, entre os valores permissíveis para cada fração que a ANP determina, ou seja, a combustão dessas gasolinas estão sendo eficientes e o motor terá, assim, um bom desempenho. Tabela 1 – Resultados obtidos no processo de Destilação
Amostra A Amostra B Amostra C LIMITES
PIE 35,4 °C 37,5 °C 40,7 °C Anotar 10% v/v 53,4 °C 51,2 °C 53,7 °C 65,0 máx 50% v/v 71,5 °C 71,0 °C 71,8 °C 80 máx 90% v/v 162,7 °C 160,8 °C 156,4 °C 145,0 – 190,0 PFE 201,4 °C 191,6 °C 207,9 °C 220,0 máx Resíduo 1,4 mL 1,6 mL 1,1 mL 2,0 máx Perda 1,3 mL 1,9 mL 1,0 mL Anotar
Tabela 2 – Resultados obtidos para a Massa Específica (M.E.) A 20°C
Amostras M.E observada (g/cm³) M. E corrigida (kg/m³)
A 0,74704 747,0
B 0,74711 747,0
C 0,74519 745,2
Na tabela 2, são apresentadas os valores da massa específica da gasolina a 20°C, mostrando que todas as amostras analisadas estão especificadas dentro os padrões de conformidade quando se situam normalmente entre 0,73000 e 0,77000 g/cm³. De acordo com a análise das amostras, todas estão dentro dos limites estabelecidos, conferindo conformidade na massa específica, já que valores maiores indicam possíveis adulterações.
Tabela 3 – Resultados obtidos para Aspecto e Cor
Amostras Aspecto Cor
A Límpido e Isento de impurezas Amarela
B Límpido e Isento de impurezas Amarela
C Límpido e Isento de impurezas Verde
A tabela 3 representa os resultados no teste de aspecto e na cor das gasolinas. Todas as amostras conferem o aspecto límpido e isento de impurezas e tem a cor variando de amarela (gasolina C) ou verde, quando aditivada. Para determinação do aspecto seguiu‐se a orientação da norma ABNT NBR ‐14954, em vigor no período de realização deste trabalho, segundo a qual a gasolina deve apresentar‐se "límpida e isenta de impurezas".
Lembrando que essas amostras de gasolinas não contêm contaminantes e não ocorreu o processo de corrosão, não reduzindo, assim, a vida útil dos filtros de combustíveis, que danificam o funcionamento do motor. Os teores de enxofre nas gasolinas podem ser verificados na Tabela 4: Tabela 4 – Resultados obtidos para o Teor de Enxofre (S‐50)
Amostras Teor (ppm) Limites (ppm)
A 44 ≤50
B 36 ≤50
C 40 ≤50
A partir dessa tabela, pode‐se observar que os teores ficaram dentro dos limites permissíveis, que são abaixo ou igual a 50 ppm. A amostra que teve uma maior concentração de enxofre foi a do tipo A, com 44 ppm.
Segundo Trindade (2013), esta diminuição vem sendo gradativa, em 2009 o índice era de 500 mg/kg e em 2013 era de 200 mg/kg. Em função do processo de refino adotado, a nova
gasolina poderá apresentar coloração mais clara e odor diferenciado. Com essa medida estima‐se que haverá redução da emissão de enxofre na atmosfera em 94% e a emissão de poluentes, em até 59%, no médio e longo prazo, nos veículos mais modernos. Além de prejudicial à saúde e ao meio ambiente, o enxofre em concentrações elevadas pode danificar o motor do automóvel, além de reduzir a eficiência dos catalisadores nos mesmos.
Tabela 5 – Resultados obtidos para o Teor EHC (Etanol Hidratado Combustível)
Amostras Vlido (mL) Teor AHC (%)
A 62,5 25
B 62,5 26
C 64,0 28
Segundo a ANP, a porcentagem obrigatória de etanol anidro combustível que deve ser adicionado na gasolina é de 25%, sendo que a margem de erro é de 1% para mais ou para menos. Com esses dados, observa‐se que os valores das amostras A e B ficaram dentro dos limites permissíveis. A amostra C se diferencia e teve uma maior concentração de etanol com 28 % de álcool hidratado no combustível (AHC), alterando a octanagem da gasolina e as emissões dos poluentes. Devido a esse fato, a amostra passou por três repetições para obter uma média total das análises, mantendo o mesmo teor, conforme a tabela abaixo.
Tabela 6 – Repetições para Amostra C (não‐conforme)
Repetições Vlido (mL) AHC (%)
1 64,5 28 2 64,5 28 3 64,5 28 Portanto, a amostra C contínua fora da especificação, que seria de 25%, sendo considerado um combustível adulterado. CONCLUSÕES Destarte, das três amostras de gasolina coletadas em diferentes localizações do estado da Paraíba e analisadas, através dos ensaios de aspecto, massa específica, teor de etanol, destilação, os resultados obtidos apresentaram com índices consideráveis de conformidade. Para o teor de álcool na gasolina, apenas uma amostra obteve uma porcentagem além do limite permissível pela ANP, a Quanto à destilação, todas as amostras apresentaram resultados dentro do especificado pelas normas e pela ANP, assim como os demais ensaios.
Dessa forma, conclui‐se que as gasolinas analisadas estão adequadas para o consumo, nos automóveis, sem grande risco de perda na eficiência e eficácia do motor, bem como poluem menos devido ao baixo teor de enxofre, e, também, comprovou‐se a não adulteração das mesmas.
REFERÊNCIAS
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ESTUDOS DE VIABILIDADE DE TRATAMENTO & REAPROVEITAMENTO DE RESÍDUOS/BORRAS DE FILTRAÇÃO DOS ÓLEOS & GORDURAS RESIDUAIS (OGRS) NA CADEIA PRODUTIVA DO BIODIESEL
L. Kan (PQ)¹ ; M. F. C. Santos (TC)1
1 Departamento de Engenharia Química, Instituto Federal da Bahia, IFBA - Campus de Salvador
E‐mail: [email protected] (IT) Iniciação Científica (PQ) Pesquisador RESUMO
O beneficiamento de óleos e gorduras residuais consiste basicamente em operações de peneiramento e decantação. O material sólido retido no peneiramento é denominado borra, sendo geralmente descartado em aterros sanitários. O projeto realizado buscou inicialmente a caracterização da borra e a análise do processo de reciclagem de OGR’s realizado pela Camapet. Os primeiros resultados apontaram a existência de quantidades significativas de material
graxo na borra, a posterior análise do processo de reciclagem permitiu sugerir modificações nas etapas do beneficiamento, que permitem a redução da quantidade de borra gerada e o aumento na qualidade do produto final. A destinação final mais adequada para as borras é a compostagem, quando esta não for possível o descarte controlado em aterro sanitário deverá ser realizado, para evitar o armazenamento de grandes quantidades deste material em local inadequado. PALAVRAS‐CHAVE: resíduos sólidos, borras, beneficiamento de OGR’s, cooperativas. FEASIBILITY STUDIES OF TREATMENT & REUSE WASTE/FILTRATION OF LEES RESIDUAL FATS & OILS (OGRS) IN THE PRODUCTION CHAIN OF BIODIESEL ABSTRACT
The processing of waste oils and fats consists primarily in screening operations and decanting. The solid material trapped in the sieving is named lees, being generally disposed in landfills. The project sought initially to characterization of lees and the analysis of the recycling process of OGR's conducted by Camapet. The first results showed the existence of significant amounts of fatty material in the lees, the
further analysis of the recycling process allowed to suggest modifications in the stages of processing, that allow reducing the amount of waste generated and the increase in the quality of the final product. The final destination best suited to the lees is composting, when this isn’t possible in controlled landfill disposal should be carried out, to prevent the storage of large quantities of this material in place inadequate. KEY‐WORDS: solid waste, lees, recycling process of OGR's, cooperative.
ESTUDOS DE VIABILIDADE DE TRATAMENTO & REAPROVEITAMENTO DE RESÍDUOS/BORRAS DE FILTRAÇÃO DOS ÓLEOS & GORDURAS RESIDUAIS (OGRS) NA CADEIA PRODUTIVA DO BIODIESEL INTRODUÇÃO
Milhares de pesquisadores vêm estudando a cadeia produtiva do biodiesel a partir das mais variadas fontes de matéria‐prima, desde sementes de oleaginosas até tutano de boi e resíduos de peixe. Óleos e Gorduras Residuais (OGR) são os resíduos do processo de fritura dos alimentos, inadequados ao consumo humano. Ciente que esse material quando disposto de maneira incorreta causa problemas severos nas tubulações, nas estações de tratamento de água (ETA’s) e no meio ambiente, uma das alternativas mais populares para o reaproveitamento do mesmo tem sido a produção de sabão artesanal nos programas de educação ambiental no mundo inteiro. Contudo, esse sabão é normalmente de baixa qualidade e de pouca preferência pelos consumidores. O estabelecimento do PNPB (Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel) criou uma solução ambiental, econômica e social para a destinação dos OGR’s.
Hoje quase todas cooperativas de catadores de materiais recicláveis coletam OGR’s a fim de complementar as suas receitas. O aumento de interesse pelos OGR’s está refletido nas grandes quantidades de TCC, teses de pós‐graduação nesse assunto e no aparecimento de atravessadores (empresas particulares) competindo com as cooperativas e associações de catadores na compra e revenda de OGR’s. Para estimular a coleta e o aproveitamento dos OGR’s, o governo, através da Petrobrás, criou uma divisão específica que sinergicamente serve tanto para apoiar a ação social de combate à pobreza, e a ação ambiental de proteção ao meio ambiente, quanto aos interesses econômicos do país.
Após a coleta dos OGR’s, o óleo é normalmente filtrado e decantado durante 24 horas num barril de plástico de 55 galões, adaptado com uma válvula de drenagem no fundo do barril‐ tanque, a fim de promover a formação da densa fase aquosa e da fase orgânica. Através da válvula, o tanque é drenado. A densa fase aquosa é drenada usando baldes de 18~20 litros. Com base na aparência visual (cor e viscosidade), a fase orgânica é drenada em seguida, armazenada num tanque de 1000 litros e vendida à Petrobrás. Os resíduos gerados nesse processo pré‐ tratamento são: os materiais grossos retidos nas peneiras e no fundo do barril, e a fase aquosa. Os resíduos sólidos do pré‐tratamento são armazenados em baldes de 18~20 litros. Os mesmos são tampados, empilhados e estão aguardando uma solução ambientalmente adequada.
As cooperativas e as associações da Rede de OGR da Bahia têm solicitado o apoio das instituições de ensino superior para solucionar o problema dos resíduos de pré‐tratamento. A análise visual preliminar indica que esse resíduo (Figura 1) nas condições normais de armazenamento tem alta taxa de conteúdo sólido. A coloração varia de amarela, marrom e preta. A consistência é de uma pasta. O odor pungente (ovo podre) característico dos resíduos é consistente com a alta taxa fermentação ou a decomposição anaeróbica das matérias orgânicas presente no resíduo.
Figura 1 – Borras residuais. (Acervo próprio). MATERIAIS E MÉTODOS
Na execução do projeto proposto foi realizada a aquisição de dados nas cooperativas, pesquisa e análise técnica detalhadas de informações apresentadas em títulos específicos da área de gestão de resíduos e pré‐tratamento de OGR’s, em revistas especializadas, em publicações com relatos de outras cooperativas de beneficiamento de OGR’s, bem como em artigos científicos e trabalhos acadêmicos publicados para a comunidade científica.
Em seguida, foram realizadas análises com o intuito de caracterizar a borra. A amostragem foi realizada na Cooperativa, de dois baldes tomou‐se amostras do óleo sobrenadante (O01 e O02) e da borra decantada (A01 e A02), e de um terceiro balde (A03) tomou‐se uma amostra homogeneizada. Não havia nenhuma informação sobre o tempo de armazenamento do material contido em cada balde.
A primeira análise consistiu em determinar a redução da massa da borra mediante aquecimento de aproximadamente 10g da mesma até temperatura indicada na literatura (60°C) seguida por filtração gravitacional. Desta forma buscou‐se reproduzir o que pode ser feito na Cooperativa em termos de processo de beneficiamento, para que os resultados do laboratório indicassem o quanto significativo seria o impacto das mudanças do processo operacional.
Também realizou‐se ensaios para determinação de água, a metodologia seguida é a utilizada pelo Instituto Adolfo Lutz (IAL) para análise de óleos e gorduras, que consiste na secagem direta em estufa a 105ºC (Método 012/IV) até peso constante, permitindo a determinação da umidade e de voláteis.
Foram realizadas visitas à Camapet com o intuito de acompanhar o beneficiamento do OGR e avaliar a possibilidade de implementação das modificações propostas ao processo.
RESULTADOS E DISCUSSÕES O sistema de peneiramento utilizado na Cooperativa é constituído por duas peneiras em série, a primeira é uma peneira de construção civil, seguida por uma peneira de uso doméstico. O beneficiamento do óleo é realizado a temperatura ambiente, o material sólido é retido nas duas peneiras, sendo que na última peneira ocorre o entupimento da malha diversas vezes durante o processo. Neste momento, a adição de OGR ao tambor de decantação é interrompida, e o material retido na peneira é colocado nos baldes de armazenamento.
Durante a realização do procedimento de amostragem da borra residual na Camapet notou‐se que em todos os baldes que continham os resíduos havia quantidades significativas de óleo sobrenadante. O que é condizente com a operação do processo, uma vez que quando ocorre o entupimento da peneira, a borra retida contém quantidades significativas de óleo, que acaba tendo o mesmo destino da borra. Além disto, foi possível notar a presença de material sólido similar à gordura, abaixo da camada de óleo sobrenadante.
A primeira etapa do estudo visou minimizar a quantidade de borra produzida no processo. O aquecimento da parte sólida da borra até 60°C seguida de filtração permitiu uma redução da massa de resíduo sólido, para duas borras analisadas este valor foi de 8,9% (Amostra A01) e 64,7% (Amostra 02). A gordura animal em temperatura ambiente está na forma sólida, deste modo no beneficiamento realizado nesta temperatura, a maior parte desta gordura animal é retida nas peneiras e tratada como resíduo. Desta forma, o simples aquecimento da carga de OGR implica na redução da quantidade de borra produzida, e no aumento da quantidade de gordura animal separada ao fim do beneficiamento. O calor adicionado também facilita o processo de separação da água na decantação, uma vez que favorece a quebra de emulsão e reduz a viscosidade do óleo.
Figura 2 – Gordura retida na peneira (Acervo próprio).
A Figura 2 mostra material sólido de textura semelhante a gordura retida na peneira doméstica utilizada no beneficiamento.
Neste ponto foi sugerido à Cooperativa a realização de aquecimento da carga de OGR até 60°C e a substituição da segunda peneira por um filtro de náilon mais fino. Uma alternativa de baixo custo para a Cooperativa é o uso de meias longas de náilon, neste caso o entupimento dos
poros não causaria a interrupção do processo, uma vez que ainda haveria poros desobstruídos na área do filtro logo acima do local onde a borra está. Neste caso, os problemas de operação seriam minimizados e o teor de óleo na borra seria reduzido. Além de reduzir a quantidade de sólidos finos no barril de decantação.
A segunda parte do projeto visou determinar a melhor de dispor as borras armazenadas e as que ainda serão geradas, cuja diferença é o teor de óleo e de gordura. Por ser um resíduo constituído basicamente por restos de alimentos, óleo e gordura animal, duas alternativas possíveis são a compostagem do material para geração de adubo orgânico e a biodigestão para produção de biogás, que pode ser utilizado para aquecer o OGR, e de biofertilizante. Para as soluções propostas é essencial avaliar o teor de carbono orgânico e de nitrogênio orgânico, sem deixar de lado a aplicabilidade da proposta à realidade da Cooperativa.
Os resultados dos ensaios de umidade e voláteis foram de 16,83% para A01, 27,67% para A02 e de 37,25% para A03. As amostras A01 e A02 consistem na borra decantada presente em dois baldes diferentes, e A03 que corresponde à homogeneização da borra e do óleo sobrenadante no terceiro balde. Os resultados dos dois ensaios realizados confirmam que as borras assim como os OGR’s apresentam constituições diversas que dependem certamente da composição da carga do OGR da qual foram originadas, isto está ilustrado nas Figuras 3 e 4. Figura 3 – Borra gerada de OGR com baixo teor de gordura (Acervo próprio). Figura 4 – Borra gerada de OGR com elevado teor de gordura (Acervo próprio). As borras antigas apresentam borbulhamento, o que evidencia a ocorrência de processo de decomposição anaeróbica do resíduo. A decomposição anaeróbica da borra causa a elevação do índice de acidez do material graxo passível de separação mediante aquecimento, impossibilitando a utilização deste para síntese de biodiesel. Deste modo, a separação e posterior reaproveitamento do material graxo presente nas borras armazenadas, não são viáveis para a
Após uma pesquisa mais detalhada sobre os processos de compostagem (aeróbico) e biodigestão (anaeróbico), notou‐se que o fato das borras apresentarem baixa quantidade de microorganismos em relação aos materiais normalmente utilizados para estes fins. Sendo necessária a adição de um agente inoculante, justamente para aumentar a quantidade de microorganismos na matriz possibilitando uma maior velocidade do processo de decomposição, e a adição de matéria vegetal que atua como fonte de energia para os microorganismos. Na literatura encontraram‐se relatos de estudo dos teores ótimos de agente inoculante e matéria vegetal para uma compostagem rápida e eficiente da borra residual seca, nestes estudos o agente inoculante utilizado foi esterco bovino, e a matéria vegetal foi capim napier.
A compostagem do resíduo do ponto de vista da aplicabilidade é complicada, pois a ausência de uma estrutura física adequada para tratar todo o resíduo armazenado e a natureza do mesmo contribuiriam para a ploriferação de pragas urbanas (ratos, baratas). O tempo compostagem da borra seca é de 90 dias, para borras com elevados teores de material graxo o tempo necessário é ainda maior devido à impermeabilização das pilhas de compostagem causada pela gordura e pelo óleo presentes.
A melhor solução para a Cooperativa é buscar parcerias com empresas especializadas em compostagem orgânica, ou em última hipótese para evitar o armazenamento de grandes quantidades de borra, o que também pode causar ploriferação de pragas urbanas, é o descarte controlado em aterro sanitário, tendo em vista a origem do material.
A proposta de aquecimento da carga de OGR não foi autorizada devido à grande quantidade de materiais recicláveis (papel e plástico) armazenadas na Cooperativa. Além disto, o empreendimento solidário alterou a metodologia do processo visando reduzir o tempo do tratamento do OGR. A única diferença entre o novo processo e o antigo foi a eliminação da peneira de malha maior e a utilização de um tanque para decantação maior, porém mais alto o que dificulta a adição da carga após passar pela peneira. Os problemas operacionais continuam, devido ao uso da peneira doméstica, pequenas quantidades de óleo caem no chão, como pode ser visto nas figuras 5 e 6, tornando o local escorregadio. Foi possível evidenciar que o tamanho das aberturas da peneira doméstica é suficiente para reter a maior parte dos sólidos presentes no OGR, a pequena fração que passa acaba decantando no tanque. Figura 5 – Chão escorregadio (Acervo próprio).
Figura 6 – Uso de folhas de papelão no chão (Acervo próprio). Pequenas quantidades do óleo caem no chão durante a etapa inicial do beneficiamento, nas Figuras 7 e 8, um membro da cooperativa com o auxílio de um balde pequeno retira o óleo de um recipiente de 100L, despejando sobre a peneira e coletando o óleo em um balde de 20L. Figura 7 – Pequena quantidade de óleo escorre do balde menor e cai no chão. (Acervo próprio).
Figura 8 – Óleo escorre de balde e cai no chão (Acervo próprio).
Para minimizar o problema foram colocadas folhas de papelão no chão, uma solução provisória, até que metodologias adequadas sejam implementadas, por exemplo, a substituição da peneira doméstica por uma peneira maior. Esta peneira deveria ser colocada na entrada do tanque de decantação, ao invés de colocar o óleo tratado em um balde de 20L e depois carregar este até o tanque de decantação, que no momento é inadequado por ser alto demais.
Figura 10 – Degrau improvisado devido à altura do tanque (Acervo próprio).
O óleo permanece no tanque de decantação até que este esteja completamente cheio, o que leva aproximadamente um mês. A cooperativa entra em contato com o comprador, que retira o óleo sobrenadante por bombeamento. A gordura permanece no tanque juntamente com os resíduos sólidos mais finos e com a água decantada. Na Figura 11 estão ilustradas as três fases presentes no OGR decantado, a primeira é óleo vegetal, seguido por uma camada de gordura e a borra no fundo. Figura 11 – OGR decantado (Acervo próprio).
O acompanhamento constante do beneficiamento de OGR’s realizado na Camapet revelou a grande dificuldade dos empreendimentos de economia solidária (EES) em gerenciar os resíduos produzidos no referido processo por falta de apoio logístico e tecnológico. Foi constatado que a gordura obtida ao fim do processo de decantação também é tratada como resíduo sólido, tendo, portanto o mesmo destino da borra. Isto representa uma perda de receita, pois a gordura decantada pode ser utilizada para a fabricação de sabão ou até mesmo uma graxa de uso geral, o que configuraria uma nova tecnologia social. Figura 12 – Material inerte encontrado no óleo doado (Acervo próprio).
Os membros do empreendimento econômico solidário responsáveis pelo beneficiamento do OGR encontram diversos materiais inertes no óleo doado. A Figura 12 mostra pedaços de material esponjoso encontrado no óleo doado, o que reflete a necessidade de informar aos doadores uma metodologia mais adequada para a coleta e armazenagem do óleo, o que poderia ser feito através de pequenos folhetos informativos. Outra medida que pode ser feita para o fortalecimento da ligação entre os doadores e a cooperativa aumentando a quantidade de óleo doado é a implementação de política de troca, na qual o doador recebe produtos em troca do óleo, entretanto a falta de investimentos em políticas para fortalecimento da atividade impedem a sua implementação.
CONCLUSÃO
As sugestões de modificação do processo foram apresentadas à Cooperativa, para que fossem avaliadas, devido à grande quantidade de material reciclável armazenada na cooperativa, a realização de aquecimento através da queima de GLP não foi autorizada. O aquecimento da carga com o uso de energia elétrica seria inviável, o aumento do custo de operação não seria compensado pelas melhoras do processo. Quanto ao sistema de filtração, constata‐se que ele consegue reter a maior parte dos sólidos presentes no OGR, sendo a pequena fração de finos, que não foram retidos, sedimentados no tanque de decantação.
O acompanhamento das atividades desenvolvidas revelou que a gordura decantada também era tratada como resíduo, ao invés de ser reaproveitada. Notou‐se a presença de materiais inertes em alguns OGR’s doados, o que reflete a necessidade de maior divulgação sobre metodologias adequadas de coleta e armazenagem do óleo usado pelo doador. A melhor forma para divulgação é a distribuição de folhetos informativos.
A melhor destinação final para a borra residual do beneficiamento de OGR’s é a compostagem, entretanto a ausência de estrutura física adequada e os elevados índices de gordura no material inviabilizam a realização deste processo. Deste modo, a busca por parcerias com empresas de compostagem orgânica seria a melhor alternativa. Enquanto isto não for possível, a borra deve ser descartada em aterro sanitário, tendo em vista os diversos problemas associados ao armazenamento inadequado da mesma. AGRADECIMENTOS Agradecemos ao CNPq pela bolsa de Iniciação Tecnológica e ao Curso de Engenharia Química do IFBA por permitir o uso dos laboratórios.
REFERÊNCIAS
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