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ILARI, Rodolfo - Linguística Românica

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RODOLFO ILARI

Do D epartam ento de L ing üística da Unicamp

Lingüística

Romanica

com um ensaio de A taliba T. de Castilho sobre “ O Português do B ra sil”

3.a edição

e a

editor« átira

(4)

Editor

Nelson dos Reis

Edição e preparação de texto

Ivany Picasso B atista

Edição de arte (m iolo)

M ilto n Takeda Divina Rocha Corte

C om posição/P aginação em video

Fernando Peres dos Santos Neide H irom i Toyota

Capa

Paulo César Pereira

ISBN 85 08 04250 7

1999

Todos os direitos reservados pela Editora Ática Rua Barão de Iguape, 110 - CEP 01507-900

Caixa Postal 2937 - CEP 01065-970 São Paulo - SP

Tel.: (011) 3346-3000 - Fax: (011) 277-4146 Internet: http://w ww.atica.com .br

(5)

Ao

(6)

Nota da Editora

Por encontrar-se em fase fina l de edição, este livro não incorpora as a tu a li­ zações necessárias no que tange às transfo rm a çõe s p o lítica s que estão ocorrendo na ex-União S oviética e na Iugoslávia, im p lica n d o a redivisão de territórios. O le ito r perceberá isso nas referências a essas áreas geográ­ fica s que se fazem princip alm ente nas páginas 195, 197 (mapa 26) e 226.

(7)

Sumário

R e l a ç ã o d o s m a p a s e c r é d i t o s __________________ 9 S í m b o l o s f o n é t i c o s ________________________________10 A b r e v i a t u r a s u t i l i z a d a s n o t e x t o ________________12 N o t a p r é v i a _________________________________________13

Primeira Parte:

História e métodos da Lingüística Românica

1. A s o r i g e n s d a L i n g ü í s t i c a R o m â n i c a ;

o m é t o d o h i s t ó r i c o - c o m p a r a t i v o _____________ 17 1.1 Diez e os primeiros c o m p a r a t i s t a s __________________ 17 1.2 Os n e o g r a m á t i c o s __________________________________18 1.3 O m étodo c o m p a r a t i v o ____________________________ 20 Docum ento: Da co m p a ra ç ão à r e c o n s t i t u i ç ã o ____________ 22

2. O i m p a c t o d a g e o g r a f i a l i n g ü í s t i c a e d a s p e s q u i s a s d e c a m p o ___________________________25

2.1 G il l i é r o n __________________________________________ 25

2.2 O m ovim ento “ palavras e coisas” __________________ 31

2.3 O Idealismo L i n g ü ís tic o ____________________________ 31

2.4 O E s t r u t u r a l i s m o __________________________________ 32 2.5 A G ram ática G e r a t i v a _____________________________ 35 Docum ento: Os principais atlas lingüísticos e de palavras e c o i s a s _______________________________________________ 35

(8)

Segunda Parte:

A romanização

3.

R o m â n i a , r o m a n o e r o m a n c e _________________ 41

3.1 A expansão territorial do Estado r o m a n o __________ 41 3.2 Decadência do Império e perdas t e r r i t o r i a i s _________ 46 3.3 A difusão do latim e a r o m a n i z a ç ã o _______________ 48 3.4 O te rm o R o m a n ia e seus c o g n a t o s _________________ 49 3.5 A R om ânia a t u a l __________________ ________ 51

Terceira Parte:

O latim vulgar

4 . O l a t i m v u l g a r e o l a t i m l i t e r á r i o n o p r i m e i r o m i l ê n i o _____________________________________________ 57

4.1 Sociolingüística do latim vulgar ____________________ 57

4.2 Latim vulgar e latim literário na Alta Idade M é d i a ___ 61 4.3 Variedades de latim e línguas r o m â n i c a s ____________ 64

5 . A s p r e c á r i a s f o n t e s e s c r i t a s d o

p r o t o - r o m a n c e _______ ________________ 65

5.1 Textos que opõem intencionalm ente duas formas de l a t i m ______________________________________________ 66 5.2 Obras em que o latim vulgar penetra p a rc ia lm e n te ____ 66

5.3 In s c riç õ e s_________________________________________ 68

5.4 Termos latinos vulgares transm itidos por empréstimo às línguas não-rom ânicas v i z i n h a s __________________ 69 Documento: As primeiras 50 glosas do A p p e n d ix P r o b i ____ 71

6 . C a r a c t e r í s t i c a s f o n o l ó g i c a s d o l a t i m

v u l g a r ________________________________________________

12

6.1 Acentuação e v o c a l i s m o ___________________________ 72

6.2 As consoantes do latim v u l g a r _____________________ 77

Docum ento: Os sistemas fonêmicos em algumas línguas

r o m â n i c a s ______________________________________________ 85

7 . C a r a c t e r í s t i c a s m o r f o l ó g i c a s d o l a t i m

v u l g a r ________________________________________________ 88

7.1 A m orfologia dos n o m e s ___________________________ 88

(9)

7.3 A m orfologia do verbo ______ ________ 96

7.4 As palavras invariáveis _ _ _ ____ __________ 102

Docum ento: A conjugação em latim clássico e vulgar 103

8. C a r a c t e r í s t i c a s s i n t á t i c a s d o l a t i m v u l g a r 105 8.1 Alguns fatos a lem brar na construção sintática

vulgar de algumas formas _ _ 105

8.2 A sintaxe da oração ________ ____ 108

8.3 A sintaxe do p e r í o d o ____________ _________ 111

D ocumento: O T estam entum porcelli ___ * 115

9. O l é x i c o e m l a t i m v u l g a r 118

9.1 Processos de form ação de palavras _ 119

9.2 Tendências gerais na m u d an ça de significado 124

9.3 Preferências e diferenças regionais 131

Documento: Notas sobre o léxico ibérico 132

Quarta Parte:

A formação das línguas romãnicas

10.

F a t o r e s d e d i a l e t a ç ã o d o l a t i m v u l g a r 135

10.1 M udanças fônicas determ inadas por pressões

paradigmáticas _________________________ 136

10.2 M udanças fônicas devidas ao entorno 137

10.3 Os substratos _ 139

10.4 Os superstratos __ __ ____________ 143

10.5 Os adstratos ... 149

11.

A f o r m a ç ã o d e d o m í n i o s d i a l e t a i s

n a R o m â n i a ________ ___ ______________ 157 11.1 A fragm entação lingüística da R om ânia no final do

prim eiro m i l ê n i o __________________________ 159

11.2 R om ânia Oriental e R om ânia Ocidental _ 164

11.3 Recapitulação _____ __ _________ _ __ 166

12.

O s d o m í n i o s d i a l e t a i s n a R o m â n i a

d o s é c u l o X X __________ I68

12.1 Península Ibérica .... ______________ 168

(10)

12.3 Os dialetos d a Itália e da Suíça M e r i d i o n a l _______185

12.4 Os dialetos do r o m e n o _______________ ____________195

13.

O a c e s s o d o s r o m a n c e s à e s c r i t a :

o s p r i m e i r o s d o c u m e n t o s e m r o m a n c e 198

13.1 Condições de acesso dos romances à e s c r i t a _______ 198

13.2 Os primeiros docum entos em r o m a n c e ____________ 199

Documento: O laboratório das línguas r o m â n i c a s ______ 211

14.

A c o n s t i t u i ç ã o d a s l í n g u a s n a c i o n a i s _____213 14.1 Critérios para o reconhecim ento das línguas

n a c i o n a i s _______ _______ ________________________213

14.2 O despontar das línguas nacionais r o m â n i c a s _____216

14.3 Algumas linhas com uns na história das línguas r o m â n i c a s _________ ______ ____________________ 226 D ocum ento: M om entos da constituição do português

literário _______________________________________ __ 233

Apêndice:

O P o r t u g u ê s d o B r a s i l ____________________________237

R e f e r ê n c i a s b i b l i o g r á f i c a s _______________________270 1. Bibliografia g e r a l ___________________________________ 270 2. C om plem entação b ib lio g r á f ic a ______________________273 3. Bibliografia do A p ê n d i c e ___________________________ 277

(11)

R ela ç ã o d o s m a p a s e créd ito s

M apa 1 Distribuição das denominações do galo no sudoeste

da França (Miazzi) ... 27

M ap a 2 — Distribuição das denom inações da abelha no terri­ tório francês (Miazzi) ... 30

M apa 3 — Os nomes da galinha nos dialetos italianos (Magno) 37 M apa 4 — Os nomes da galinha nos dialetos portugueses (Magno) ... 38

M apa 5 — As regiões da Itália Antiga (A tlas o f A n cien t and Classical G eography, Dent & Sons) ... 43

M apa 6 — Form ação do Império R om ano (Operti-Alasia) 45 M apa 7 — Divisão administrativa do Império sob Dioeleciano (Enciclopédia M ira d o r) ... 47

M apa 8 — As línguas românicas no m undo (Renzi) ... 53

M apa 9 — Form ação dos reinos rom ano-barbáricos no final do século (F. Schrader, A tla s de Géogra-p h ie H islo riq u e) ... 145

M apa 10 — As principais isoglossas da Rom ânia no fim do primeiro milênio, segundo Agard ... 162

M apa 11 — Algumas isoglossas na Rom ânia do século IX, segundo Robert Hall ... 164

M apa 12 — Os sistemas dialetais na R om ânia A ntiga (Taglia-vini) ... 169

M apa 13 — As regiões da Hispania ro m a n a (A tla s o f A n c ien t a nd Classical G eography, Dent & Sons) ... 175

M apa 14 — Línguas da Península Ibérica por volta de 930 (Lapesa) ... 175

M apa 15 — As inovações fonéticas que definem o castelhano, na época da Reconquista (Lapesa) ... 176

M apa 16 — Línguas da Península Ibérica por volta de 1072 (Lapesa) ... 176

M apa 17 — Línguas da Península Ibérica por volta de 1200 (Lapesa) ... 177

M apa 18 — Línguas da Península Ibérica por volta de 1300 (Lapesa) ... 177

M apa 19 — Línguas da Península Ibérica na atualidade (Lapesa) 178 M apa 20 — Os dialetos galo-românicos antes da absorção pelo francês ... 183

M apa 21 — Algumas aloglossas no domínio galo-românico (Tagliavini) ... 184

M apa 22 — Os dialetos occitanos (Tagliavini) ... 185

M a p a 23 — Línguas e dialetos na Itália do século XX (Taglia­ vini) ... 186

M apa 24 — Dialetos da Sardenha (Tagliavini) ... 188

M apa 25 — Dialetos réticos (Tagliavini) ... 191

(12)

O s sí m b o lo s fo n é ti c o s u ti li z a d o s sã o os da ta b el a ab aix o , ti rad os , co m p o u c a s e x c eç õ e s, do A lf a b e to Fo nético In te rn a c io n a l (I PA ).

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uv u la re s OC CtZ X v e la re s OÜ c? X ' ζ a n te rio re s c e n tr a is po sterior es d o ο σ α> 8 ο <υ palat ais 'C ■< 3 -pal ato -alv eolares fO T 3 t o de nt ai s e alveolares Ό c ts d z - - -N «Ο <=£> la b io de n ta ls -o hil ab ia is X> o . B e o . = r 3 ^ ^ 3 s P i 3 S C O N S O A N T E S o c lu s iv a s n a sa is a fr ic a d a s o fr ic a ti v a s la te ra is v ib r a n te s m o n o v ib r a n te s fr ic a ti v a s c o n n u a s o fr ic a ti v a s e se m i v o g a is C/) < Ο Ο > fe c h a d a s s e m if e c h a d a s s e m i-a b e r ta s a b e r ta s

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(13)

E x e m p lo s i O o o o 0 , 0 . 0 . D , c. > o c3 -C) O O O O'-^ 2 ç> *5: ^ o O Clc O O. o O. '-'Í3 -5: s: *3 Ci. Ss -5: -a o Ci. 0<-T~~. , ^~· ;·*■' ^ *0^ ^ Ο Ό T^1 Τ ο »0Γ ΰ ' CT3 O O CL «sa' $3 &0 s. O 1» > o ÇSto d o" R o o 5s o ·,— -<e: .© a ç o , O p p '5S o' c3 S cj ma is λ q u i o --· Ql» 0/}-ò O_o sU o dt/5i—O O OCl d "5 a> ^ es p. p o r p o r p o r o O O d<✓1>) Π 03 o po rt fr . / <4-. po rt p o rt c£ n: — — iü íH .rlü L .‘Λ .N. ?—>rp x X $ r r ” ^ ^ ζ3 a o Ο Ϊ3 O O ο α o s: §■§ 5 "§ ζ3 p O o O- o. o C3ζ3 a ■§ I 'çT rC S-§ O O D, D.O O O O 00 ^ -S cr ^ 8> 2 S. Sj . ~~ Ό —, Ci k? b0 ^ ■- -ti <5, ο o tf Ν’ Si ,ç$ o S d .d .d IS)<υ §i o' 2> S .5 α o oD- Çj. C.O " - σ ^ o/) b

(14)

A b reviatu ras u tiliza d a s no tex to

adj. adn. — ad ju n to adnom inal

adj. adv. — ad ju n to adverbial alv. — alveolar arc. — arcaico bil. — bilabial cat. — catalão cláss. — clássico cp. — com para dat. — dativo dent. — dental d e n t.a. — dental-alveolar eng. — engadino esp. — espanhol t'em. — feminino fr. — francês fric. — fricat iva gen. — genitivo germ. — germânico gr. — grego ingl. — inglês it. — italiano lat. — latim .pl.dent. — labiodental lg. — língua masc. — masculino med. — medieval MT — m odo-tem po neut. — neutro nom. — nom inativo N P — número-pessoa obl. — oblíquo oclus. — oclusiva OD — objeto direto OI — objeto indireto opos. — oposição p. — pessoa pal.a. — palatal-alveolar plur. — plural port. — português prep. — preposição pron. — pronúncia, p ronunciado prov. — provençal rom. — rom eno sing. — singular

SN — sintagm a nominal SP — sintagma pronom inal suj. — sujeito SV — sujeito-verbo v. — verbo vel. — velar VS — verbo-sujeito vulg. — vulgar

(15)

Nota prévia

Algumas décadas atrás, a Lingüística (ou “ Filologia” ) R o m a ­ nica ocupava, na fo rm ação do professor de Português, um lugar privilegiado, com outras disciplinas referentes à história da língua. M uito secundarista iniciou-se nos mistérios da língua por essa pers­ pectiva, e aprendeu assim a valorizá-la como um a sempre presente instituição social.

Mais recentemente, o ensino tem to m a d o por base teorias que encaram a língua por um ângulo sincrônico, valorizando seu c a rá ­ ter sistemático ou p ro cu ran d o expressar com rigor m atem ático suas regularidades.

Mas a história das línguas românicas continua a ter um forte interesse form ativo para todas as pessoas interessadas nas origens de nosso idioma.

O livro foi escrito antes de mais n a d a para esse tipo de leitor, e visa a d a r um a visão equilibrada, não técnica, do c o n ju n to de p r o ­ blemas que se costum a reunir sob o rótulo “ Lingüística R o m â n i­ c a ” ; mas deveria servir tam bém ao estudante de Letras, como estí­ mulo e orientação na busca de leituras mais especializadas. P or isso, a bibliografia consultada na elaboração do livro foi organizada por grandes temas na “ C om plem entaçào bibliográfica” da p. 273.

Neste mesmo volume, o professor Ataliba T. de Castilho dá- me a hon ra de publicar o ensaio “ O P ortuguês do Brasil” , onde

(16)

14 I I NCi l 'I STI CA R O M Â N I C A

expõe as vicissitudes da língua portuguesa no continente am ericano e situa com meridiana clareza os problem as encontrados por quem se dedica ao seu estudo. É o trabalho de um dos principais especia­ listas no estudo da língua portuguesa, p r o p o n d o um a visão de c o n ­ ju n to num tema onde a principal dificuldade é separar as questões dando-lhes o realce adeq u ad o .

Sem demérito p ara outras obras congêneres (Sílvio Elia, N as­ centes...), pensamos que os dois textos p oderão ser úteis ao profes­ sor universitário de Lingüística Românica e de História da Língua Portuguesa, facilitando-lhes a tarefa de organizar um a bibliografia extrem am ente am pla num caso e extrem am ente dispersa no outro.

Lsperamos tam bém ter d ad o pontos de referência mais exatos a todos aqueles que, sem com prom issos profissionais, se interessam em recuperar a memória de nossa língua.

D epartam ento de Lingüística da Universidade Estadual de Cam pinas

(17)

Primeira Parte:

História e métodos da

Lingüística Românica

(18)
(19)

1

As origens da Lingüística

Românica; o método

histórico-comparativo

1.1 l)iez e os primeiros comparatistas

A Lingüística R om ânica é um a disciplina de orientação histó­ rica, que se constituiu na segunda m etade do século X IX , com o nom e de Filologia R om ânica, graças aos trabalhos de Friedrich Diez, cujos textos fundam entais (G ram ática cias línguas rom ânicas, de 1836, e D icionário etim ológico das línguas rom ânicas, de 1853) deram um exemplo m arcante de rigor e método no tratam en to histó­ rico das línguas românicas, m o stran d o a possibilidade de tratar “ cientificam ente” de um a série de temas que haviam preocupado os intelectuais durante séculos, mas que haviam sempre sido a b o r d a ­ dos com certa dose de impressionismo e assistematicidade.

O nome “ Filologia R o m â n ic a ” , com que a disciplina surgiu, é significativo do contexto intelectual em que se deu seu apareci­ mento. Desde o período do H u m a n ism o (o m ovim ento intelectual que precede e prepara a Renascença), muitos estudiosos vinham-se dedicando ao trabalho de estudar textos da antiguidade clássica, um a tarefa que exigia, além de conhecimentos técnicos (por exemplo, de edótica e diplomática) indispensáveis para restabelecer o texto em sua form a original, a capacidade de m anipular informações extre­ mamente variadas sobre a época a que se referiam os documentos e um domínio m uito grande das línguas antigas. A esse interesse no

(20)

18 L I NG ÜÍ STI CA R O M ÂN I CA

d esvendam ento das literaturas antigas chamou-se Filologia Clássica respeitando de algum m o d o a etimologia de filo lo g ia , “ a m o r pela expressão” ; mas, d a d a a im portância dos conhecim entos lingüísti­ cos que se exigiam p ara que o estudo literário se tornasse viável, a expressão Filologia Clássica designou desde sempre o estudo erudito daquelas línguas.

Esse estudo, que por razões óbvias só podia ser histórico, ganhou um caráter com paratista no início do século X IX , quan d o Franz Bopp, com o livro Sobre o sistem a cie conjugação da lingua sânscrita, em c o n fro n to com o das línguas grega, latina, persa e germ ânica, estabeleceu que as semelhanças existentes entre as lín­ guas clássicas (em particular as semelhanças referentes ao dom ínio da gramática) só poderiam ser explicadas pela origem com um . O projeto de Bopp, que foi logo retom ado por o u tro erudito da época, Jacob Grim m , deu ao estudo das línguas antigas um caráter gené­ tico e fez aparecer a p reocupação de reconstituir, pela co m paração, o indo-europeu, considerado como a origem co m u m das línguas das principais culturas clássicas.

Diez confirm ou que havia entre o latim e as principais línguas românicas um a relação genética semelhante à do indo-europeu com o latim, o grego e o sânscrito; aplicando o m éto d o com parativo dos indo-europeístas chegou a algumas teses que são hoje postula­ dos da Lingüística Rom ânica: um a dessas teses é que as línguas românicas não se originam do latim clássico, mas de um a outra variedade de latim, conhecida com o “ latim vulgar” ; outra é que não tem qualquer fu n d am en to a hipótese (defendida pelo francês Raynoudard) segundo a qual todas as línguas rom ânicas teriam com o ascendente mais próxim o o provençal. Diez se interessou ta m ­ bém pelo estudo de narrativas em espanhol arcaico; assim, seu t r a ­ balho, que tinha orientação paralela ao da Filologia Clássica, criou espaço para um a Filologia R om ânica, com o duplo aspccto de estudo textual (justificado pelas dificuldades que apresenta(va) a lei­ tu ra dos docum entos rom ânicos escritos antes da invenção da im prensa e da definitiva consolidação das línguas românicas) e de investigação genética das línguas derivadas do latim.

1.2 Os neogramáticos

A geração de Diez, fu n d a d o r da Lingüística R om ânica, esteve sob influência direta da filosofia espiritualista dos rom ânticos,

(21)

AS O R I G E N S DA LI NGUI STI C A R O M A N R A ; () M i- T O I X ) HI STORI C ( ) - t Ό Μ Ι 1 AKA 11 VO I1)

im pregnada de historicismo; a próxim a escola lingüística com influência m arcante p a ra a romanística esteve ao contrário sob um a forte influência das ciências naturais (que faziam então enormes progressos) e do darwinismo. Essa escola se constituiu na Universi­ dade de Leipzig, onde atuou nas últimas três décadas do século XIX; seus nomes mais representativos são os de Brugm ann, Leskien e O sth o ff, mas é com um referir-se a ela com o um g rupo, utilizando o nome de neogram áticos (J u n g g ra m m a tiker), que lhe foi dado de início por troça, mas que acabou tornando-se respeitado, à medida que ela passou a representar a posição “ oficial” em m atéria de his­ tó ria das línguas.

Os neogramáticos g an h aram espaço no universo acadêmico da época p ro p u g n a n d o um pro g ram a que a fro n ta v a ostensivamente as orientações com paratistas vigentes. Fizeram troça do propósito que havia a n im ad o seus predecessores no dom ínio da Lingüística Indo-européia — encontrar pela com paração a protolíngua, que esta­ ria na origem das línguas modernas; recom endaram ao contrário que a atenção dos pesquisadores se voltasse para as línguas vivas, onde os processos de evolução lingüística poderiam ser vistos em ação, e onde poderia ser cap tad o o papel das forças psicológicas que estão na base do funcionam ento e da evolução das línguas.

Na prática, o trab alh o dos neogramáticos se caracterizou por u m a exigência de extremo rigor, que se traduziu na crença de que as “ leis" da evolução fonética agem de maneira absolutam ente regu­ lar, adm itindo exceções apenas q u a n d o sua ação é c ontrariada pela ação da força psicológica da analogia. Exemplos simples de como a analogia a tu a no funcionam ento das línguas podem ser e n c o n tra ­ dos na fala das crianças, em erros com o fa z i ou trazi por fiz ou trouxe·, na expressão de Saussure, que retom a o conceito de a n a lo ­ gia dos neogramáticos, operaria aí u m a espécie de regra de três: se viver, correr etc. fazem o perfeito em -i pode-se esperar que fa z e r e trazer tam b ém o façam . Um exemplo muito simples de com o a analogia afeta a evolução das línguas é o verbo português render, e seus correspondentes rom ânicos rendre, rendere etc.: essas form as não poderiam provir do verbo que significa render em latim clás­ sico, ou seja, reddere: n e n h u m a lei fonética conhecida justificaria o aparecim ento de um -n- fechando a prim eira sílaba: as formas românicas derivam verossimilmente de *rendere, construído por analogia com o verbo que significa “ t o m a r ” , isto é, prendere (clás­ sico prehendere).

Pela m aneira mecanicista com o representaram o fu n cio n a­ m ento das leis da evolução fonética, os neogram áticos atraíram as

(22)

20 1 I N G Ü IS r iC A R O M Â N IC A

críticas de autores que, ou po r razões teóricas (como o lingüista ale­ mão Hugo Schuchardt) ou po r estarem em contacto direto com a realidade m ultiform e dos dialetos (como o dialetólogo italiano Gra- ziadio Ascoli) não estavam dispostos a aceitar a tese de que as leis fonéticas operam de m aneira cega. Tiveram c ontudo um a influência determ inante, para a lingüística e p ara a romanística. Ferdinand de Saussure, em quem se costum a reconhecer o f u n d a d o r da Lin­ güística M oderna, era neogramático de fo rm ação, tendo estudado com Brugm ann na Universidade de Leipzig; com o se sabe, Saussure teve entre seus alunos alguns lingüistas de grande porte, como Bally, Sechehaye e Meillet, e seu ensinam ento deu origem à lingüística estrutural; tam bém teve form ação neogram ática o mais im portante rom anista depois de Diez, M eyer-Lübke, cujas obras Gram ática das línguas rom ânicas e D icionário etim ológico rom ânico (este geralmente conhecido pela sigla REW, fo rm a d a pelas três primeiras letras do título original) são ainda hoje fundam entais. Os trabalhos dos neogramáticos em geral, e de M eyer-Lübke em particular, refi­ naram o m étodo de Diez, isto é, o m éto d o histórico-comparativo, que é fundam ental nos estudos de lingüística histórica em geral, e nos estudos rom ânicos em particular.

1.3 O método comparativo

C o m p a ra r é um a tendência natural e um a im portante fonte de intuições e de descobertas em to dos os cam pos do conhecim ento. Na análise das línguas, a c o m p aração e o co n fro n to levam às vezes ao estabelecimento de tipologias (como a que distinguia, tradicio­ nalmente, entre línguas monossilábicas, aglutinantes e flexivas), o utras vezes à busca de características supostam ente inerentes a t o d a língua h u m a n a (como nos levantamentos acerca dos “ univer­ sais da linguagem ” realizados pela lingüística estrutural americana nas décadas de 1950 e 1960). Nesses casos, a c o m p aração n ada tem a ver com genealogia.

E m Lingüística R om ânica, porém , o m étodo com parativo assume tipicamente propósitos genéticos, de reconstituição. Entende- se, em outras palavras, que a semelhança co n statad a entre expres­ sões pertencentes às diferentes línguas românicas p rova que elas se originam de u m a m esm a palavra latina; e que a fo rm a que essas palavras assumem nas línguas rom ânicas é indício da fo rm a que deve ter tido a expressão originária.

(23)

AS O R I G E N S DA 1 I NG Ü I S T I C A R O M A N I C A ; O M l 1 0 1 ) 0 H I S T O R I C O - C O M P A R A T I V O 21

Q u a n d o se c o m p a ra m , por exemplo, port, e esp. saber, fr. savoir, it. sapere fica legitimada a conjectura de que tenham um a origem latina com um , n u m a palavra (i) cuja prim eira sílaba começa por sibilante e (ii) cuja segunda sílaba é tônica e c o m p o rta um a c o n ­ soante bilabial ou labiodental (p , b ou v). C onstatando-se além disso que na evolução do latim p ara o espanhol e o português é regular a passagem do p intervocálico a b\ que o p intervocálico do latim passa regularmente a f r e e m seguida a v em francês; que, ainda em francês, o e longo das sílabas tônicas não travadas passa a ei, depois oi, oé, ué e wá (a grafia aco m p a n h o u esta evolução apenas até a fo rm a oi), torna-se legítimo supor que a fo rm a originária co m u m fosse *sapére, paroxítona. A identificação de *sapére com o a fo rm a de que se originaram saber e seus correspondentes români- cos não deixa de ser surpreendente q u a n d o referida ao vocabulário conhecido do latim clássico: o latim clássico tinha um verbo sápere, conjugado com o cápere, que significava entre outras coisas “ sa b o ­ rear, provar um a comida para sentir-lhe o s a b o r” . Este verbo sápere deve ter sido c onjugado em latim vulgar com o um verbo da 2 a co n ­ ju gação; por o u tro lado deve ter sofrido um a alteração de sentido, ou seja, a habilidade em não c o nfundir o gosto dos alimentos deve ter sido to m a d a com o representação m etafórica da esperteza e inte­ ligência (quem é esperto e vivido “ n ã o come gato por lebre” ). A form a e o sentido distinto que o verbo sápere assume em latim vul­ gar não são fatos isolados: a c o m p aração de outras form as r o m â n i­ cas a p o n ta p ara conclusões semelhantes. Assim, port .fa z e r , caber, esp. haeer, caber m ostram que o latim vulgar deve ter tido fa cére capére, ao invés das form as clássicas fá ce re e cápere-, e o uso de m etáforas físicas p ara representar operações do pensam ento é com u m , mesmo em latim clássico (por exemplo, o nosso pensar e o mais erudito p onderar provêm de verbos que significam “ p esar” , “ colocar pesos na b ala n ç a ” etc.).

C onform e ficou exemplificado no parágrafo anterior, o método histórico-comparativo permite que os rom anistas façam conjecturas bastante exatas sobre as form as rom ânicas originárias. É até certo pon to casual que essas form as resultantes de conjecturas baseadas na c o m p aração sejam efetivamente encontradas nos textos latinos que sobreviveram até nós, ou seja, que sua existência passada possa ser c o n firm ad a mediante provas docum entais. Às vezes, a prova docum ental é possível. P or exemplo, as form as port, velho, esp. viejo, fr. v/e//, it. vecchio, rom . vechi levam a u m a fo rm a veclus (que se explica a partir de veculus e vetulus, esta última diminutivo

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22 I I NG U Í S T I C A R O M Â N I C A

da form a clássica vetu s, “ velho” ). Veclus é atestada no A p p e n d ix P ro b i, um glossário que pode rem ontar aos séculos III ou IV d.C ., e que a p o n ta u m a série de formas correntes na época, que as pes­ soas cultas deveriam evitar po r não serem as form as próprias do latim literário. O utras vezes ainda, form as que haviam sido p ro p o s ­ tas com o hipótese de trabalho a partir da c o m p aração das línguas românicas acab aram por ser encontradas em textos. É o caso da form a anxia, da qual derivam port, ânsia e seus cognatos. Muitas vezes, por fim, as formas resultantes de reconstituição permanecem não atestadas; neste último caso, os rom anistas, à imitação do que faziam os indo-europeístas, antepõem à palavra um asterisco. I· im portante perceber que as formas com asterisco (que, segundo u m a estimativa reproduzida em Vidos — 1956 — não passam de 10% do total de materiais com que têm tra b a lh a d o os romanistas) não são menos im portantes ou menos seguras do que as form as ates­ tadas: as línguas românicas tom adas em seu co n ju n to n u m a visão com parativa são a m elhor fonte para o conhecim ento de sua p r ó ­ pria origem, um fato que ressalta q u a n d o se leva em c o n ta a preca­ riedade das fontes escritas do latim não literário.

As conclusões que se tiram da c o m p aração das línguas r o m â ­ nicas são tan to mais seguras q u a n to m aior for o n úm ero de línguas românicas que ap o n ta m para elas e q u a n to mais afastadas no espaço forem esSas línguas. O Sardo e o R om eno, que se situam hoje nos limites da R om ânia, e se desenvolveram por assim dizer à parte, sem comunicação com as outras línguas românicas, constituem um a espé­ cie de teste da antiguidade e do caráter pan-rom ânico das regulari- dades a p o n ta d a s pela co m paração.

O cam po em que o m étodo com parativo deu os resultados mais sistemáticos é o da fonética; em m orfologia e em sintaxe, sua aplicação exige a m anipulação de dados mais complexos, e seus resultados foram menos espetaculares.

Docum ento: Da comparação à reconstituição

P a ra ilustrar o funcionam ento do m étodo histórico-compara- tivo, considerem-se as palavras do q u a d ro a seguir. Ele co m p o rta cinco colunas, sendo que a prim eira é f o rm a d a por palavras do latim clássico e as outras contêm palavras portuguesas, espanholas, f ra n ­ cesas e italianas. O q u ad ro permite dois tipos de com paração: (i) entre formas românicas; (ii) entre estas e o latim clássico. Estes

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AS O R I G F N S DA I INGL' ISTIC A ROMANI C A; o Ml I O D O HI S ] OR I CO- CO M P AR A I [VO l i

dois tipos de c o m p aração são os que um a pessoa culta faria mais espontaneam ente; e foram , historicamente, os que o cuparam as atenções dos primeiros romanistas.

latim português espanhol francês italiano

( 1 ) novu novo nuevo neuf nuovo

movet move mueve meut muove

mordit mor de muerde niord mor de

p orta porta pu erta porte p o rta

populu povo pueblo peuple popolo

(2) flõre- flor flor fleur fiore

hora hora hora heure hora

solu só(ant.

soo)

solo seul solo

famosu fa m oso fam oso fameux famoso

eo(ho)rte corte corte cour corte

prorsa prosa prosa prose prosa

(3) gula gola gola gueule gola

juvene jovem joven jeune giovane

ulmu olm o olmo orme olmo

unda onda onda onde onda

bucca boca boca bouche bocca

furnu for no horno four for no

musca mosca mosca mouche mosca

(4) luna lua luna lune luna

virtute virtude virtud vertu virtú

mutare m udar m u d a r muer mutare

O q uadro foi dividido em quatro grandes blocos, conform e as palavras latinas compreendem (1) um o breve (e acentuado), (2) um o longo, (3) um u breve ou (4) um u longo. Dito isto, é possível veri­ ficar no q uadro acima (que é apenas u m a pequena am ostra das com ­ parações possíveis no terreno das vogais) um a série de correspondên­ cias, que registramos a seguir, sem a preocupação de ser totalmente exatos e exaustivos:

Bloco 1: onde o latim tinha um o aberto e acentuado, o espa­ nhol tem, sempre, o ditongo ue; o francês tem [0], [oe] grafados eu e o italiano tem o ditongo uo desde que na palavra latina a mesma sílaba fosse aberta, isto é, sem consoante depois da vogal; o p o r tu ­ guês tem o.

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24 LI NGÜÍ STI CA R O M Â N I C A

Bloco 2: onde o latim tinha um o fechado, as línguas ro m ân i­ cas do quadro apresentam um o, exceto o francês; esta língua tem eu (pron. [</>], [oe]) quando a sílaba latina era aberta, e tem o ou ou (pron. [u]) quan d o a sílaba latina era fechada.

Bloco 4: onde aparecia o u longo latino, todas as línguas do q u ad ro têm u (em francês, aparece u na grafia, correspondendo à pronúncia [y]).

Exam inando o bloco 3, que propositalmente foi deixado para o final destes comentários, constata-se que valem p ara ele, exata­ mente, as mesmas observações que foram feitas para o bloco 2. Esta constatação é importantíssima pois leva à conclusão de que na origem das línguas românicas está u m a variedade de latim com um quadro vocálico no interior do qual o o longo e o u breve do latim clássico se confundiam num a única vogal. De certo m odo, então, a com p ara­ ção das línguas românicas permite o por ao q uadro vocálico bem conhecido do latim clássico um outro q uadro mais simples, no qual a série posterior se reduz a três vogais distintas entre si não pela d u r a ­ ção, mas pelo timbre:

lat. cláss. it longo u breve o longo o breve ete.

: L J í

lg. rom. u o teehado o aberto

A medida que se acumulam observações deste tipo configura- se um a variedade de latim que se pode estudar em c o nfronto com o latim clássico, mas que não se confunde com ele: é a essa variedade de latim, cuja existência histórica é com provada pela com paração das línguas românicas, que se cham ou de latim vulgar ou proto- romance. Evidentemente, as semelhanças das línguas românicas com o latim vulgar são mais diretas: po r exemplo, o q uadro acima pode­ ria ser reduzido a três blocos, sendo as regularidades que ele exempli­ fica retomadas como segue:

latim vulgar português espanhol francês italiano

o aberto síl. aberta o ue eu uo

si% fechada o ue 0 o

o fechado síl. aberta 0 0 eu o

síl. fechada 0 0 o, ou o

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2

O impacto da geografia

lingüística e das pesquisas

de campo

No final do século X IX e nas primeiras décadas do século X X, várias tendências reagem contra o m étodo histórico-com para- tivo e contra a m aneira com o ele levava a representar a form ação das línguas românicas: algumas dessas orientações “ n o v a s ” resul­ ta m de um a reflexão filosófica ou teórica sobre linguagem, como é o caso do c h a m a d o “ idealismo lingüístico” ou da escola lingüís­ tica de Saussure; outras surgem no próprio cam po de estudo das lín­ guas rom ânicas, com o resultado de um contacto mais direto com os dialetos neolatinos. Estão neste último caso as orientações que se costum a reunir sob o título genérico de “ geografia lingüística” .

C o m o orientações da “ geografia lingüística” , serão m enciona­ dos aqui (i) as investigações sobre os dialetos galo-rom ânicos de Jules Gilliéron; (ii) o m ovim ento “ W õrter und S achen” de Schu- chardt; e (iii) a proliferação, in spirada pelas duas orientações ante- c riores, de atlas lingüísticos p a ra regiões do território rom ânico.

2.1 Gilliéron

Entre 1897 e 1901, um professor de dialetologia da École P r a ­ tique de H autes Etudes dirigiu u m a alentada pesquisa de cam po que consistiu em aplicar um questionário de 1 920 perguntas em 639

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26 L I N G ÜÍ S T I C A R O M A N I C A

pontos do território dos dialetos galo-românicos. A aplicação do questionário, que com preendia perguntas destinadas a levantar dados não só sobre fonética, mas tam bém sobre m orfologia e sin­ taxe, foi feita por um auxiliar (E dm ond Edm ont), ao passo que o próprio Gilliéron se dedicou principalmente à triagem e interpreta­ ção dos dados e à sua apresentação na form a de atlas. Resultou dessas pesquisas de cam po o A tla s linguistique de la France (ALF) (publicado entre 1902 e 1912).

() trab alh o de Gilliéron é inovador, e historicamente im p o r­ tante, antes de mais nada, por sua m etodologia: ao passo que os com paratistas utilizavam principalm ente fontes escritas (docum en­ tos antigos, glossários e dicionários dos dialetos, textos dialetais etc.), Gilliéron dá prioridade aos dados que resultam de um a pes­ quisa de cam po. Com isso, cria-se, no dom ínio dos estudos români- cos, uma consciência autenticam ente geográfica, graças a um a deli­ mitação relativamente exata das áreas em que vigoram determ in a­ das realidades lingüísticas; além disso, o próprio m étodo prestava- se a provocar o aparecim ento de um a quantidade de dados antes não catalogados.

Mas os estudos de Gilliéron foram sobretudo im portantes pelas descobertas a que levaram, que obrigaram de certo m o d o a a b a n d o ­ nar definitivamente a concepção com paratista segundo a qual a dia- letaçào do latim teria resultado sem outras complicações de um t r a ­ tam ento fonético diferenciado que as expressões do latim vulgar teriam recebido em cada região. Gilliéron m ostrou que essa perspec­ tiva era infu n d ad a, e que além da evolução fonética operou crucial­ mente na form ação dos dialetos rom ânicos a criatividade dos falan ­ tes, particularm ente ativa to d a vez que se to rn av a necessário d esfa­ zer colisões hom oním icas e salvar palavras foneticamente pouco consistentes, ou to d a vez que a etimologia popular alterou a form a de um a palavra p ara relacioná-la a algum paradigm a conhecido.

Um bom exemplo de com o a criatividade verbal dos falantes »

interfere na evolução fonética p ara desfazer colisões hom oním icas são as denominações do galo nos dialetos do sul da França. Essas denominações incluem não só os derivados das palavras latinas gal­ lus ( = “ g alo ” ) e p u llu s (por gallus p u llu s = “ galo filhote” ), mas ainda formas semelhantes ao francês vicaire e fa isa n (respectiva­ mente: “ vig ário ” e “ fa is ã o ” ). Segundo Gilliéron, houve um m om ento em certos dialetos do sul da França em que, por efeito da evolução fonética, gallu e cattu se c onfundiram n u m a única pala­ vra gat, com o inconveniente de tornar homônimas as denominações

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O I MP A CT O DA G E O G R A F I A LI NG ÜÍ STI CA E DAS PES QUI SAS DE C A M P O 27

para dois animais domésticos bastante comuns. P ara desfazer a homo- nímia, os dialetos em questão recorreram ao nome do vigário, que compartilha com o galo a tarefa de acordar os paroquianos pela m anhã, e veste um barrete que lembra u m a crista; outros dialetos recorreram ao nome de um o u tro galináceo, o faisão.

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28 L I NG Ü Í S T I C A R O M Â N I C A

Um exemplo célebre de como a etimologia po p u lar interfere na evolução fonética segundo Gilliéron é a história da palavra f ra n ­ cesa fu m ie r , “ m o n t u r o ” : o latim tinha p ara “ esterco” a palavra fim u s ,' i, sobre a qual deve ter sido fo rm a d a *fim arium , “ lugar onde se ju n ta esterco” ; entretanto para chegar-se à fo rm a francesa, é preciso passar por fu m a r iu m . P a ra Gilliéron esta form a deve ter sido criada, efetivamente, po r influência do verbo fu m a re : o m o n ­ tu ro deve ter sido representado em algum m o m en to com o um lugar de onde se exalam fumaças, provavelm ente a partir do hábito e u ro ­ peu de queim ar neles d u ran te o o u to n o as soqueiras dos cereais colhidos no verão. A palavra fu m ie r , em suma, teria ganho sua fo rm a atual ao ser in co rp o rad a por u m a família de palavras com a qual não tinha de início n enhum a relação.

Mas Gilliéron dá um a dem onstração ainda mais im pressio­ nante de como se podem interpretar os dados do A L F ao com entar o m ap a que representa as denom inações da abelha. Nesse m apa, cabe observar antes de mais n ada a grande variedade de d en o m in a ­ ções — m o u ch e à m iei, m o u c h e tte , avette, essette, aveille etc. — , o que já é, por si só, um fato digno de nota. C h a m a a atenção por o u tro lado o fato de ter sido a d o ta d a pelo dialeto de Paris a d e n o ­ m inação típica do provençal (abeille, do lat. apic(u)la, não é p a la ­ vra francesa pois nos dialetos que fo rm am a base do francês sta n ­ dard, o p intervocálico passa a J e e m seguida a v; cp. trapalium > travail). P ara justificar esse empréstimo provençal, Gilliéron reconstitui com o segue a história dos nomes da abelha nos dialetos do norte da França:

1 etapa: de ape a és

1. o latim ape passa a (’/ ( s i n g u l a r ) , és (plural);

2. sobre o plur. és forma-se um sing, é (por u m a reinterpretaçào

da fo r m a que lem bra a “ derivação regressiva” );

3. p ara reforç ar fonetic am ente o sing, é, usa-se em seu lugar o p lu ­

r a l pelo singular; chega-se assim a u m a fase em que abelha se diz

in distin tam ente és, é ou éf, prevalecendo a primeira. 2 a etapa: de és a ep

4. nos dialetos d o norte da F ra n ç a altern am , em contextos fo n éti­ cos relevantes p ara o caso, as p ronúncias [é] e [wé]; por co nse ­ guinte, as frases [v 1 d ezes] e [v 1 dez es] to rnam -se h o m ô n im as , significando “ vôo de p á s s a ro s ” ou “ vôo das a b e lh a s ” ; p a ra des­ fazer a colisão, a língua substitui os dois te rm os em conflito: de

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Ο I M P A C I O Ι)Α CI FOCi RAI IA I I NG U I S T I C A Ε DAS PESCJUISAS DE C A M P O 2')

um la do, tom a-se essaim (do lat. examen, “ e n x a m e ” ) c o m o cole­ ti v o /p l u ra l de abelh a, o que leva p or sua vez a buscar novos te r­ mos p ara “ e n x a m e ” ; de o u tr o substitui-se o te rm o p a ra “ p áss a­ r o " (ézé, wezé) por moineau, oiselet etc.;

5. a m esm a flutu ação de p ro n ú n c ia co n fu n d e os nom es da abelh a e da vespa: (w)és ( < lat. ape) = wés ( < lat. vispa); desfaz-se mais esta colisão t o m a n d o do dialeto da lie de France a fo r m a ep. 3? etapa: de ep a m o u ch ette

6. fonetic am ente fr aco, ep reforça-se em é-ep, és-ep e mouche-ep·,

7. as duas últim as form as são re construídas nas fo r m a s assonan tes

essette e mouchette.

4 “ etapa: de m o u ch ette a m o u ch e à m iei

8. mouche à miei substitui mouchette. em conflito com o diminu-

tivo de mouche',

9. mouche à miei opòe-se a mouche guêpe, nome da vespa.

5 “ etapa: de m o u ch e à m iei a abeille

10. no dialeto de Paris, toma-se em presta da a fo rm a provençal abeille,

criando o par opositivo mouche abeiüe (a ssonante com mouche à miei) / mouche guêpe;

11. perm anece abeille, nom e atual d a abelh a em francês standard. Na análise de Gilliéron, o fato de o francês sta n d a rd ter a d o ­ tad o p ara designar a abelha um te rm o provençal aparece com o o últim o episódio de um a longa história na qual a evolução fonética é apenas um dos aspectos relevantes. O exemplo da palavra abeille m ostra que a evolução fonética intervém na história da língua sobre­ tu d o como um fator de desestabilização, ao provocar o enfraqueci­ mento das form as e ao criar “ colisões h o m o n ím icas” . As soluções a essas instabilidades não poderiam ser fonéticas no sentido estrito das “ leis fonéticas” ; para superá-las, aceitam-se empréstimos de dialetos vizinhos, e recorre-se a form as com postas, duplicadas ou assonantes; freqüentem ente, essas form as revelam u m a análise que coloca a palavra em contraste com outras palavras de um mesmo cam p o nocional.

C om isso, Gilliéron não apenas m ostra que na história da lín­ gua intervém um trab alh o de reflexão dos falantes (um trabalho epilingüístico, se diria provavelm ente hoje), mas ainda desloca a análise do terreno da fonética (para os com paratistas, o caso de abeille seria um problem a fonético, e um a exceção) p ara o terreno da lexicologia.

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30 I I N G U I S TI C A R O M A N I C A

Mapa 2: D istrib u iç ã o das denom inações da abelha no te rritó rio francês

lim i t e s d o s d e p a r t a m e n t o s a t u a is

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O I M P \ ( T O Ι ) Λ Cii I X . R A H \ L I NC . L I S I U Λ I I) \ S P I - S Q L I S A S Ρ Γ C Λ Μ Ρ Ο 31

2.2 O m ovimento “ palavras e coisas”

A revista IVòrter u n d Sachen, fu n d a d a cm 1909 por Meringer e Schuchardt dá o nome a um outro m ovim ento que encara a pes­ quisa de cam po como prioritária em oposição ao estudo de d o c u ­ mentos escritos. A tese que distingue este movimento é que, freqüen­ temente, a verdadeira etimologia de u m a palavra só é explicada por um estudo a curado da realidade que ela designa e dos conhecim en­ tos que a cercam: recomenda-se, então, que os estudiosos da língua considerem com mais interesse as “ coisas” , em oposição a uma t r a ­ dição que se preocupou quase que exclusivamente com as “ palavras” . O exemplo sempre lem brado p ara ilustrar este enfoque é a his­ tória da palavra fíg a d o e de seus cognatos românicos (esp. h íg a d o , fr. f o i e , it. fe g a to , cat. e prov. fe tg e , eng. fiv a t, rom. fic á t). E m b o ra estas palavras sejam a trad u ção exata do latim iecur, não é possível, evidentemente, traçar entre esta e aquelas um a derivação fonética regular. Entre iecur e as form as *ficatu, *fícatu que resul­ tam da c o m p aração das línguas rom ânicas encontra-se c ontudo um elo q u a n d o se considera mais de perto a “ coisa” , no caso o inte­ resse gastronôm ico que os antigos tinham no fígado das aves e a técnica de sua produção. O fígado era um prato altamente apreciado, e para obter fígados maiores e mais saborosos, era hábito alim en­ tar os gansos com grandes quantidades de figos. Da expressão iecur fic a tu , que indica o fígado eng o rd ad o com figos, sobrevive fic a tu , que tem inicialmente o mesm o sentido, e que se substitui depois a iecur com o significado genérico de “ fíg ad o ” . (Por um a derivação análoga, pêssego se origina de mcilum p ersicu m , significando “ maçã pérsica” , isto é, “ m açã da P érsia” .)

U m a orientação afim ao estudo das palavras e coisas é a da onom asiologia, que consiste no levantam ento de todas as expres­ sões que designam um mesmo objeto ou conceito. Este estudo leva naturalm ente a representar o vocabulário com o um co n ju n to de “ cam pos sem ânticos” estruturados po r relações de sinonímia e o p o ­ sição.

2.3 O Idealismo Lingüístico

Desde sua origem, os estudos de lingüística rom ânica consti­ tuem um terreno privilegiado para a aplicação de hipóteses filosófi­ cas sobre a natureza das línguas e os mecanismos de sua evolução.

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32 L I N G Ü Í S T I C A R O M Â N I C A

Assim, não adm ira que nas primeiras décadas deste século a filoso­ fia espiritualista de Bergman e Croce tenha repercutido nos estudos rom ânicos, d a n d o origem a movim entos que valorizavam a criativ i­ dade individual dos falantes como um aspecto central da língua e a intuição como faculdade mestra do lingüista. Esses movim entos são geralmente conhecidos como “ Idealismo Lingüístico’’; seu repre­ sentante mais célebre é o lingüista alemão Karl Vossler que, num livro significativamente intitulado L íngua e cultura d e França, a n a ­ lisa as grandes tendências da cultura francesa ao longo dos séculos e busca na língua, particularmente a língua literária, um a c o n tr a p a r ­ tida para as mesmas.

O Idealismo Lingüístico constituiu um a poderosa reação à orientação dos neogramáticos, então dom inante; contra a m eto d o lo ­ gia atomística e positivista destes (coleta dos materiais, rigor nas tarefas de docum entação, form ulação indutiva de regras) preconi- zou um a m etodologia intuitiva e sintética, voltada p ara fo rm u la ­ ções globais que em geral resultam em apresentar os fatos lingüísti­ cos (isto é, as inovações registradas num d eterm inado período da história de um a língua) com o a expressão do espírito de um a deter­ m inada época, grupo ou nação.

As explicações propostas pelos idealistas são freqüentemente discutíveis q u a n d o não francam ente inverossímeis. P o r exemplo, Vossler explica o aparecim ento dos artigos partitivos em francês com o m anifestação de um a m entalidade interesseira e comercial que teria to m a d o conta da Fran ça no fim da Idade Média, uma explicação que é no mínim o forçada. Assim, o grande mérito dos idealistas não reside nas suas explicações, mas no fato de terem c h a ­ m ado a atenção p ara um aspecto que as pesquisas anteriores e as orientações então dom inantes colocavam à margem: a im portância da expressividade e criatividade individual com o fator de evolução da língua.

Por esse enfoque, o Idealismo Lingüístico, cuja influência se prolongou por várias décadas, prep aro u o terreno p a ra um m ovi­ mento de crítica literária de inspiração filológica, que teve forte repercussão nos países de língua espanhola: a Estilística.

2.4 O Kstruturalismo

Bem mais m arcante foi p ara a Lingüística R om ânica a influên­ cia exercida pelo E struturalism o, nome que cobre u m a vasta gam a

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Ο I M P A C T O DA G E O G R A F I A I I NG UI ST1 CA [ DAS P E S Q UI S A S DE C A M P O .1.1

de orientações cujo traço co m u m é a crença de que a língua se c arac­ teriza, no dizer de A n d ré M artinet, “ po r um tipo de organização su i generis que transcende as semelhanças acidentais entre as realiza­ ções de unidades isoladas” .

O Estruturalism o lingüístico re m o n ta às idéias do suíço Ferdi­ nand de Saussure, em particular à sua concepção da língua com o um sistema onde as unidades contam principalmente pelas relações que entre elas se estabelecem.

O caráter sistemático da língua, segundo Saussure, aparece principalmente q u a n d o se considera um a língua ou dialeto não ao longo do tem po ( “ d ia c ro n ia ” ), mas n u m a perspectiva que procura a branger todas as unidades e suas respectivas relações num mesmo m om ento ( “ sincronia” ). Assim, Saussure lançou o p ro g ram a da lin­ güística dita “ sincrônica” , que rom pia com mais de um século de tradição historicista e que orientou desde então as investigações lin­ güísticas de vanguarda.

Aplicadas aos sons da língua, as idéias de Saussure levaram a desenvolver, em paralelo aos tratam en to s tradicionais de cunho fonético, um tra ta m e n to voltado p ara o estudo dos sons e nquanto unidades distintivas, o que resultou no desenvolvim ento de um a nova disciplina, a Fonologia. A perspectiva do fonólogo é, por defi­ nição, sistemática: um fonem a só existe com o tal na medida em que se opõe a todos os demais fonem as do mesmo sistema; a fo n o ­ logia ilustra de maneira cabal a tese estruturalista de que o sistema precede logicamente as unidades de que se compõe.

A principal influência que o Estruturalismo exerceu sobre o estudo evolutivo das línguas românicas prende-se a essa perspectiva sistemática: no Estruturalismo, as m udanças fônicas deixam de ser encaradas com o fatos isolados, ou como fatos que ocorrem em deter­ minadas condições sintagmáticas (por exemplo, os neogramáticos tinham insistido na im portância da assimilação de sons aos sons vizi­ nhos na cadeia falada com o um fator de evolução) e passam a ser encarados com o soluções que a língua a d o ta para corrigir desequilí­ brios no seu próprio sistema fonológico; ao aceitar essa tese, o lin­ güista é levado a reconhecer que certas mudanças fônicas alteram o sistema fonológico da língua como um todo; essas mudanças são q u a ­ litativamente diferentes daquelas que resultam em mudanças de p r o ­ núncia, sem repercussões no sistema. Eis alguns exemplos:

a) Desfonologização

A duração das vogais era um traço distintivo no latim arcaico, e manteve-se com o tal no latim clássico; sabe-se entretan to que o traço distintivo da duração desapareceu no latim vulgar, e não é

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34 L I N G Ü Í S T I C A R O M A N I C A

fonologicam ente pertinente nas línguas românicas: desde o latim vulgar, as variações no p a râm etro de duração produzem variantes livres ou estilísticas, mas não bastam p ara distinguir palavras com significações diferentes. Podem os dizer nesse caso que houve desfo- nologização da q u a n tid a d e vocálica.

b) Fonologização 1

Em com pensação, em latim vulgar e na m aioria das línguas rom ânicas há palavras que se distinguem unicam ente pelas vogais / e / , / ε / e / o / , / n / . C o m o essas diferenças não existiam no período de form ação do latim vulgar, a a b e rtu ra , en q u a n to traço fonoló- gico, passou de três a q u a tro graus, con fo rm e se indica no esquema a seguir:

latim arcaico latim vulgar

anteriores posteriores an teriores posteriores

graus 1 / u 1 i u

2 e o 2 e o

3 α 3 S 3

4 α

Podem os dizer nesse caso que houve fonologização de um q u arto grau de abertura.

c) Fonologização 2

Os fonem as latinos vulgares / k / , / g / , /1 /, / n / , / s / seguidos de vogal anterior ou de “ i” semivogal recebiam um a p ro n ú n c ia f o r ­ temente palatalizada. C om o tem po, esses sons palatalizados p assa­ ram a opor-se aos demais fonem as da língua, distinguindo palavras com sentido diferente (exemplos: port, m ala-m alha, so n o -so n h o , assar-achar; it. chiglia-ciglia)', essas realizações palatalizadas se tra n s­ form aram assim em verdadeiros fonemas; em outras palavras, houve fonologização do traço de palatalidade.

d) Transfonologização

O traço de sonoridade era conhecido do latim vulgar, cf. / p / - / b / , / c / - / g / , / t / - / d / . O português e outras línguas românicas estenderam -no a / s / e / f/ , do n d e os fonem as / z / e / v / . Pelo p r o ­ cesso de transfonologização, um traço pertinente estende sua esfera de atuação, criando novos fonem as que preencherão assim “ casas vazias” do sistema.

(37)

O I M P A C T O DA G t O G R A H A 1 [ M i l '1ST 1C A Γ DAS P E S Q UI S A S DE C A M P O .15

C o m o o E struturalism o alcançou seus primeiros sucessos im portantes no dom ínio da fonologia, era natural esperar que os primeiros êxitos dos estruturalistas no estudo evolutivo das línguas românicas se fizessem sentir no cam p o da fonologia; mas as idéias estruturalistas alim entaram desde cedo a reflexão dos romanistas tam bém em outras áreas; no tocante ao léxico, por exemplo, re fo r­ çaram a idéia de que o aparecim ento de um a nova palavra, ou a alteração do sentido de um a palavra já existente repercutem sobre o sentido de outras palavras “ p róxim as” no sistema. Assim, q u a n d o a palavra trabalho perdeu o sentido de “ suplício” ( “ t r a b a lh o ” sig­ nificou na origem “ três p a u s ” , o suplício dos três paus), e passou a significar mais n eutram ente “ prestação de serviços em troca de iem uneração , deslocou dessa posição “ n e u tr a ” outras expressões com o obrar, lavrar e m a n o b ra r etc. que assum iram valores específi­ cos (“ tra b a lh a r os c a m p o s ” , “ tra b a lh a r com as m ã o s ” etc.). Q u a n d o a evolução fonética do francês a proxim ou a form a do a d je ­ tivo ouvrab/e (ligado historicam ente a ouvrier, “ o p e r á r io ” e azuvre, “ o b r a ” ) do verbo ouvrir ( “ a b r ir ” ) a expressão jo i/r ouvrable p a s ­ sou a ser interpretada com o significando “ dia em que o comércio a b r e ” e não “ dia de tr a b a l h o ” .

2.5 A Gramática Gerativa

É difícil, po r falta de perspectiva histórica, avaliar as contri­ buições que a romanística vem recebendo da G ram ática Gerativa indiscutivelmente a orientação mais prestigiada da lingüística atual. Lim item o-nos a observar que os últimos desenvolvimentos da gram ática chom skiana têm dado u m a atenção especial às línguas românicas, apresentando-as com o surpreendentemente distantes entre si quan d o julgadas po r alguns dos principais parâm etros chomskia- nos. A g ramática chomskiana realça assim algumas diferenças f u n d a ­ mentais entre as estruturas sintáticas das línguas românicas, que teríamos tendência a minimizar, por razões culturais e históricas.

Docum ento: Os principais atlas lingüísticos e de palavras e coisas Registram-se aqui, em ordem cronológica, alguns im portantes trabalhos de geografia lingüística elaborados no dom ínio rom ânico:

1881- — P etit A tla s P h o n étiq u e du Valais R o m a in (Jules Gillié­ ron)

(38)

,16 L I N G Ü Í S T I C A R O M A N I C A 1902- 1909- 1914-1923 1925 1928 1931 1935 1938 1957 1958 1963 1977 1980 1987

1912 — A lla s Linguistique de la France (J. Gilliéron e E. E dm ont) (baseado num questionário de 1 920 p ergun­ tas, aplicado em 639 localidades do território galo- românico).

— Linguistischer A tla s des dakorum anischen Sprach- gebietes de Weigand.

1915 — A tla s L inguistique de la Corse (J. Gilliéron e E. E d m o n t) (publicação in te rro m p id a pela P rim eira G uerra Mundial).

1939 — A tla s L inguistic de C atalunya (Mons. A ntoni Griera) (os cinco volumes publicados totalizam 858 cartas das 3 500 previstas; foram pesquisadas 250 localidades, com um questionário de 2 866 perguntas).

... — A tla s L ingüístico de la Península Ibérica (N avarro

T om ás, A. M. Espinosa e Rodrigues Castellano; Moll e Sanchis G u arn er, O thero G u sm ão e Lindley Cintra).

1940 — Sprach u n d Sachatlas It aliens u n d der Sudschw eiz (“ Atlas lingüístico e de coisas da Itália e Suíça do Sul” ) (Karl Jaberg e J a k o b Jud)

(1 705 m apas para 405 localidades da Itália, inclusive Sicilia e Sardenha, e do sui da Suíça).

... — Atlante Lingüístico Italiano (M. Bartoli e Ugo Pellis;

B. Terracini a partir de 1947).

1942 — A tlante Lingüístico Etn ográfico Italiano delia Corsica (Gino Bottiglioni).

... — A tla su l L inguistic R o m a n (S. Puscariu, S. P o p e E. Petrovici) (598 cartas nos primeiros três volumes que saem até 1942. A publicação é interrom pida pela guerra, e reto m ad a a partir de 1956).

... — P rojeto d e A tla s Lingüístico E tn o g rá fico d e P ortugal e Galiza (Paiva Boléo, J. G. C. H erculano de C a rv a ­ lho e F. Lindley Cintra).

... — Bases para o A tla s Lingüístico do Brasil (Antenor

Nascentes).

— A tla s Prévio d o s Falares B ahianos (Nélson Rossi) (154 mapas).

— E sboço de um A tla s Lingüístico de M inas Gerais (José Ribeiro, M. Zaggari e colaboradores).

1985 — A tla s L ingüístico da Paraíba (M aria do Socorro Silva de A ragão e Cleusa P. B. de Meneses).

— A tla s L ingüístico de Sergipe (C arlota da Silveira Fer­ reira e colaboradores).

(39)

O IMI»Α Π Ο [)Α ( , ί ( Κ , Κ Λ Μ Λ L I N G Ü Í S T I C A Ε DAS P E S Q UI S A S DE C A M P O 37

(40)

J* L I N G Ü Í S T I C A ROMANI C A

Mapa 4: Os nomes da g a lin ha nos d ia le to s portugueses

□ i. .1 i J

E J

U

ÉiiÜ g a lin h a fra n g a c ó -c ó c h o u c h a p e n o s a m o n d ic e p u la o u tro s : xixa tic a p ic h a c h o rre s c a c h u rra e s g a rb e ta d e ira

(41)

Segunda Parte:

A romanização

(42)
(43)

3

/

România, romano e romance

3.1 A expansão territorial do Estado romano

O E stad o ro m a n o teve origem no século VIII ou IX a .C . (a tradição fixa em 753 a .C . a fu n d ação de Rom a, sua capital), e engrandeceu-se progressivamente até constituir em sua fase de maior esplendor, no primeiro século de nossa era, um dos mais vastos impé­ rios de to dos os tem pos.

O b ra de séculos, a constituição do Império R o m an o foi um processo político de grande com plexidade, cuja descrição detalh ad a cabe, obviam ente, à H istória das Civilizações.

L im itando a exposição ao essencial, lem brarem os que a histó­ ria ro m a n a se divide em três fases, correspondentes às três form as de governo: da Realeza (das origens a 509 a .C .), d a R epública (de 509 a.C . a 27 a .C .)le do Im p ério (de 27 a.C . a 476 d.C .); e m b o ra não te n h a m m uito ã ver com a história do latim e das línguas r o m â ­ nicas, essas três datas são, tam bém p a r a os rom anistas, pontos de referência obrigatórios.

U m aspecto notável da história do Estado ro m a n o é a d e m o ­ cratização progressiva do poder: ao lado das instituições políticas baseadas nos patrícios, a classe fechada e conservadora que gover­ nou a Urbe nos prim eiros tempos, surgiram e g a n h a ra m espaço cada vez m aior instituições representativas das classes adventicia

Referências

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