Características sintáticas do latim vulgar
8.3 A sintaxe do período
8.3.3 As subordinadas adverbiais
D uas tendências se a firm a m nas orações adverbiais do latim vulgar: a) perde terreno o subjuntivo, que funcionava em latim clás sico com o u m a espécie de m o d o da subordinação; b) generaliza-se o uso de q u o d /q u id com o conectivo de valor múltiplo em substitui
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ção aos conectivos específicos da língua clássica: o desenvolvimento, a partir desses, de locuções conjuntivas (para que, a tal p o n to que, ainda q ue etc.) é posterior.
De to dos os tipos de subordinada adverbial, as que sofreram as alterações mais p ro fu n d as foram as condicionais. C o m o se sabe, há fortes correlações de tem po e m o d o entre as condicionais e as orações que as regem, o que leva a falar em “ período hipotético ora, as m udanças que ocorreram no período hipotético em latim vulgar fizeram com que, ao invés da tríplice distinção que prevale cia em latim clássico (conform e a hipótese é en carada com o real, irreal ou potencial), prevalecesse um a distinção entre apenas duas situações: hipótese real e irreal.
P a ra a primeira situação, o verbo foi usado nos tempos do indicativo; para a segunda, foi em pregado o mais-que-perfeito do subjuntivo na principal, e o mais-que-perfeito do subjuntivo ou a perífrase com infinitivo + habebat ou habuit na subordinada.
tipo latim clássico latim vulgar e línguas românicas
real te m po do indicativo / t e m p o do indicativo si pugnavit, vicit te m p o d o indicativo / t e m p o do indicativo si pugnavit, vicit
potencial subj. pres. ou perf. / s u b j . pres. ou perf.
si pugnaverit, vicerit
subj. + que p e r f . / subj. + que perf. ou
habebat ou habuit +
infinitivo
si pugnavisset, vicisset
ou vincere habebat
irreal subj. imp. ou + q. perf. / s u b j . imp. ou + q . perf.
si pugnavisset, vicisset
A sintaxe da oração e do período, tais com o se apresentam hoje nas línguas rom ânicas, são bem mais complexas do que devem ter sido em latim vulgar. Essa complexidade foi construída ao longo dos séculos com o conseqüência natural do esforço das c o m u n id a des lingüísticas românicas em adaptarem seu discurso falado e escrito a necessidades culturais cada vez mais complexas. As estruturas g ra maticais que assim se in c o rp o ra ra m a cada u m a das línguas români-
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cas são às vezes autênticas criações; ou tras vezes, trata-se de recupe rações da sintaxe latina clássica (ver secção 10.5.3 sobre a influên cia exercida pelo latim culto).
Docum ento: O Testam entum porcelli
D atando possivelmente do IV século d .C ., o Testam ento do p o rq u in h o registra as últimas vontades do porquinho M. Grunnius Corocotta, ditadas ao cozinheiro e aos parentes pouco antes da morte.
Trata-se, obviamente, de u m a p aródia, e São Jerô n im o , em duas diferentes passagens de sua obra, alude ao fato de que era reci tad a nas escolas po r legiões de crianças, em meio a estrondosas g a r galhadas.
Texto de paródia, o Testam ento do porq u in h o com bina as fór mulas jurídicas que seriam esperadas num testamento sério com a rea lidade prosaica do porco, visto como um a suculenta iguaria. A lin guagem do texto revela o domínio completo da morfologia e da sin taxe do latim literário; mas algumas expressões e construções mais coloquiais aparecem aqui e acolá; entre aquelas que foram apontadas pelos comentadores com o interferências do latim vulgar, notem-se:
a) A fonética das palavras G runnius, esiciarius, cocus e cocina (as form as clássicas correspondentes seriam grundius, insiciarius, co q u u s e co quina ).
b) A freqüência dos diminutivos: vascella (diminutivo de vas, cp. port, baixela, fr. veisseau, it. vascello); auriculas (dim. de aures, cp. port, orelhas, esp. orejas etc.); ungulas (de unguis, cp. it. unghia, fr. ongle etc.).
c) O uso de parentes p a r a indicar qualquer tipo de parentesco e não apenas os pais (em lat. clássico pa ren tes = “ os pais” ); o uso de clam avit por “ c h a m o u ” (em latim clássico, clam are = “ lam en tar-se aos gritos, p ro c la m a r” ).
d) O uso de ub i (“ o n d e ” ) com o advérbio de tem po.
e) As incertezas no uso dos tem pos, que não obedecem tão rigorosamente à consecutio.
f) O traço sintático mais notável é o uso das preposições; em alguns casos as.preposições seriam p u r a e simplesmente dispensá veis pela n o rm a literária:
bene condiatis de bonis condim entis
em outros casos, o contexto sintático deixa entrever u m a am bigüi dade no sentido da preposição que atesta o aparecim ento de um
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uso novo; assim, além da interpretação clássica com de cocina, a d ju n to adverbial de a ffe r ( “ traz-da-cozinha u m a fa c a ” ), a frase
a ffer mihi de cocina cultrum
poderia receber outra interpretação em que de cocina é ad ju n to adnom inal de cultrum·, “ traz da-co zin h a-u m a-faca” . Entre essa última análise e a construção rom ânica em que de + subst. se pos- põe a qualquer nome funcionando com o ad ju n to adnom inal ( “ traz um a faca de co zin h a” ) a passagem é im ediata.
T e sta m e n tu m porcelli
1. Incipit te s ta m e n tu m porcelli.
M. G ru n n iu s C o r o c o tt a porcellus te s tam en tu m fecit. Q u o n iam m a n u m ea scribere no n potu i, scrib endum dictavi.
2. Mag iru s cocus dixit: “ veni huc, eversor dom i, solivertiator, fugi tive porcelle, et hodie tibi dirim o v it a m ” . C o r o c o tt a porcellus dixit: " si q ua feci, si q u a peccavi, si q u a vascella pedib us meis confregi, rogo, dom in e coce, vitam peto, concede ro g a n t i” . M agirus cocus dixit: “ transi, puer, affer mihi de cocina cultrum , ut hunc porcellum faciam c r u e n t u m ” . Porcellus co m p r e h e n d itu r a famulis, ductus sub die XVI Kal Lucern inas, ubi a b u n d a n t cymae, C lib a n a to et P ip erato consulibus. Et ut videt se m o r itu ru m esse, horie sp atiu m petiit et co cu m rogavit ut testa m entu m facere posset. C la m avit ad se suos parentes, ut de cibariis suis aliquid dimitter et eis. Qui ait:
3. Patri meio V errino Lardin o do lego dari glandis modios X X X , et matri mete Veturinae Scrofae do lego dari Laconicae siliginis modios XL, et sorori mea: Quirinae, in cuius votu m interesse no n potu i, do lego dari hordei modios X X X . Lt de meis visceribus d ab o d o n a b o sutoribus saetas, rixfat)oribus capitin as , surdis auricu las, causidicis et verbosis linguam, buculariis intestina, esiciariis fem ora , mulieribus lum bulo s, pueris vesicam, puellis c a u d a m , cinaedis musculos, cursori bus et venato rib us talos, latro nibus ungulas. Et nec m o m in a n d o coco legato dim itto p o p ia m et pistillum, quae mecum attu leram ; de The- veste usque ad Tergeste liget sibi collum de reste. Et volo fieri mihi m o n u m e m t u m ex litteris aureis scriptum: “ M. G R U N N I U S C O R O C O T T A P O R C E L L U S V IX I T A N N IS D C C C . X C. VIIII . S(EMIS). Q U O D SI SEMIS V IX ISSET M I L L E A N N O S I M P L E S S E T ” . Optimi am atores mei, vel consules vitae, ro go vos ut cum c o rp o r e meo bene faciatis, bene condia tis de bonis co ndim entis nuclei, piperis et mellis, ut nom en m eum in se m piternum n o m in e tu r . Mei dom ini vel c o n s o brini mei, qui te s ta m e n to meo interfuistis, iubete signari.
4. L ard io signavit. Ofellicus signavit. C ym inatu s signavit. Lucanicus signavit. Explicit te s ta m e n tu m porcelli sub die XVI Kal. Lucerninas C libanato et P ip e r a to consulibus feliciter
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O testa m ento do p o rq u in h o
1. C om eça o te stam ento do p o rq u i n h o . C o m o n ão p u d e escrever de próprio p u n h o , ditei p ara ser escrito.
2. Disse o cozinheiro Magiro: vem aqui, destru id or da casa, fos sador, p o rq u i n h o fugitivo, e hoje acabo c o m tu a vida. R espondeu o p o r q u i nh o C o ro co ta: “ se fiz algo, se cometi alg um a falta, se quebrei alg u mas vasilhas com os meus pés, ro go, senhor cozinheiro, peço a vida, p erdoa ao sup lican te” . Retruco u o cozinheiro M agiro: “ Apressa-te, me nino, traze-me a faca da cozin ha, a fim do que eu faça este p o r q uinho c r u e n t o " . O p o rq u i n h o é c a p tu r a d o pelos servos, conduzid o no dia dezesseis das Cale ndas Lucerninas, q u a n d o a b u n d a m as salsas, sendo cônsules C lib a n a to e P ip erato . E com o percebeu que iria m o r rer, pediu o te m p o de u m a h o ra, e rogou ao cozinheiro p ara que pudesse fazer um te s tam ento. C h a m o u a si seus p arentes, de m o d o que lhes legasse algo de seus alimentos. Ele disse:
3. A meu pai L ardino V errino dete rm ino sejam d a d o s trin ta módios de glandes, e à m in h a mãe V eturina Scrofa, dete rm ino sejam dados q u a re n ta módios de trigo da Laeônia , à m inha irm ã Quirina, em cujo casam ento n ão p u d e estar presente, dete rm ino sejam dados trin ta módios de cevada. E de m inhas vísceras legarei os pêlos aos sapateiros, as cerdas da cab eça aos briguen to s, aos surdos as orelhas, aos a d vogados e prolixos a língua, aos vaqueiros os intestinos, aos salsieheiros as coxas, às mulheres os lo m bos, aos m eninos a bexiga, às m eninas a c au d a, aos efem inados os músculos, aos corr edore s e aos caçad ores os calcanhare s, aos ladrões os cascos. E e m b o r a nem quisesse n om ear, ao cozinheiro designado, a c oncha e o pilão, que eu tr o u x e ra comigo; de Teveste a Tergeste ligue-se o pescoço com u m a cord a. E desejo que seja feito p a ra m im um m o n u m e n to escrito com letras d o u ra d a s : “ O P O R Q U I N H O M. G R U N I O C O R O C O T A VIVEU N O V E C E N T O S E N O V E N T A E NOV E A N O S E M E IO . O Q U A L SE TIV ESSE V IV ID O (mais) M E IO , T E R I A C O M P L E T A D O M IL A N O S ” . Meus caríssimos amigos, ou m elhor, conselhei ros da vida, rogo-vos que trateis bem do meu co rp o e o c o n d im e n teis bem de bons te m peros de a m ê n d o a , de pim enta e de sal, a fim de que meu nom e seja lem b rad o p a ra sempre. Meus senhores, ou m elhor, meus prim os, que assististes ao meu tes tam en to , permiti que ele seja assinado.
4. L á rd io assin ou, Ofélico ass in ou, C im in a to assin ou, Lucânic o assi n o u , Tergilo ass inou, Celsino assinou, Nupciálico ass inou. Comple- tou-se o tes tam en to do p o rq u i n h o no dia XVI das C ale ndas Lucerni nas, sendo cônsules, com sucesso, C lib a n a to e P iperato.
T ra d u ç ã o de Raul José Sozim transcrito da rev. Uniletras, 9 : 50-8.