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São Paulo, 08 de julho de 2009

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Rosoléa Miranda Folgosi

Tel (11) 3147 7738 [email protected]

Fabio Teixeira Ozi

Tel (11) 3147 7679 [email protected]

Jaqueline Rodrigues Mello

Tel (11) 3147 7647 [email protected]

São Paulo, 08 de julho de 2009 À

ABAC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ADMINISTRADORAS DE CONSÓRCIO

Rua Avanhandava, 126, 5º andar 01306-901 – Bela Vista

São Paulo/SP

A/c: Rodrigo de Freitas

Marília de Castro Valente

Ref.: Análise da aplicabilidade das normas gerais sobre o Serviço de Atendimento ao

Consumidor – SAC, introduzidas pelo Decreto Presidencial n.º 6.523/2008, às administradoras de consórcio

Prezados Senhores,

Em atendimento ao questionamento da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcio (“ABAC”) sobre a aplicabilidade do Decreto nº 6.523/2008 às relações entre as administradoras de consórcio e seus consorciados, analisamos (i) a legislação brasileira que rege a atividade de consórcio; (ii) as normas do Banco Central do Brasil (“BACEN”) atinentes à regulamentação desta atividade, bem como sua competência regulamentar; (iii) a aplicabilidade dos dispositivos do CDC à atividade de consórcio; (iv) a jurisprudência existente sobre a aplicabilidade do Decreto nº 6.253/2008, e temos as seguintes considerações:

O Decreto Presidencial nº 6.523, de 31 de julho de 2008, regulamenta o Código de Defesa

do Consumidor (“CDC”) essencialmente no que tange ao atendimento telefônico do consumidor, visando à observância de seus direitos básicos de obter informações adequadas e

claras sobre os serviços que contratar, bem como de manter-se protegido contra práticas abusivas ou ilegais impostas no fornecimento desses serviços.

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De acordo com o artigo 1º de mencionado Decreto, este se aplica às empresas

fornecedoras de serviços regulados pelo Poder Público Federal como, por exemplo,

bancos, operadoras de telefona celular e fixa, empresas de transportes, energia elétrica, saneamento básico entre outros.

Nesta qualificação também se enquadram as administradoras de consórcio que,

embora não sejam instituições financeiras, são reguladas e fiscalizadas pelo BACEN, que é

Autarquia Federal e, portanto, integra o Poder Público Federal.

Tal competência decorre da atribuição exclusiva dada pela Constituição Federal de 1988

à União para legislar sobre sistemas de consórcio1, e foi positivada pela Lei nº 8.177/91,

que dentre diversos assuntos, dispõe em seu artigo 33 que “a partir de 1° de maio de 1991,

são transferidas ao Banco Central do Brasil as atribuições previstas nos arts. 7° e 8° da Lei n° 5.768, de 20 de dezembro de 1971, no que se refere às operações conhecidas como consórcio (...)".

Mais recentemente, a competência foi mais bem delimitada por meio da Lei n º 11.795/082, que trata exclusivamente do Sistema de Consórcio.

1 Artigo 22, inciso XX da Constituição Federal que atribui privativamente à União legislar sobre sistemas de consórcio. 2 “Art. 6o A normatização, coordenação, supervisão, fiscalização e controle das atividades do sistema de

consórcios serão realizados pelo Banco Central do Brasil.”

“Art. 7o Compete ao Banco Central do Brasil:

I – conceder autorização para funcionamento, transferência do controle societário e reorganização da sociedade e cancelar a autorização para funcionar das administradoras de consórcio, segundo abrangência e condições que fixar; II – aprovar atos administrativos ou societários das administradoras de consórcio, segundo abrangência e condições que fixar;

III – baixar normas disciplinando as operações de consórcio, inclusive no que refere à supervisão

prudencial, à contabilização, ao oferecimento de garantias, à aplicação financeira dos recursos dos grupos de consórcio, às condições mínimas que devem constar do contrato de participação em grupo de consórcio, por adesão, à prestação de contas e ao encerramento do grupo de consórcio;

IV – fixar condições para aplicação das penalidades em face da gravidade da infração praticada e da culpa ou dolo verificados, inclusive no que se refere à gradação das multas previstas nos incisos V e VI do art. 42;

V – fiscalizar as operações de consórcio, as administradoras de consórcio e os atos dos respectivos administradores e aplicar as sanções;

VI – estabelecer os procedimentos relativos ao processo administrativo e o julgamento das infrações a esta Lei, às normas infralegais e aos termos dos contratos de participação em grupo de consórcio, por adesão, formalizados;

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Assim, ainda que inexista uma Circular ou qualquer outra espécie de normativo editado especificamente pelo BACEN determinando que as administradoras de consórcio observem as disposições do Decreto n.º 6.523/2008 nas relações com seus consorciados, entendemos que a sua observância é de rigor, de acordo com o que estabelece o próprio artigo 1º de referido Decreto.

E mais, o próprio BACEN determina que as administradoras de consórcio observem as

disposições do CDC, em sua Circular nº 3.085, de 07.02.2002, que dispõe sobre os procedimentos a serem observados na contratação de operações e na prestação de serviços aos consorciados.

Tal observância é parágrafo introdutório da referida Circular. Confira-se:

“A Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil, em sessão realizada em 6 de fevereiro de 2002, com base no art. 33 da Lei8.177, de 1º de março de 1991, e tendo em vista as

disposições da Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990, DECIDIU:

Art. 1º Estabelecer que as administradoras de consórcio, na

contratação de operações e na prestação de serviços aos consorciados, sem prejuízo da observância das demais disposições legais e regulamentares vigentes aplicáveis, devem adotar medidas que objetivem assegurar:

I - transparência nas relações contratuais, preservando os

grupos e os consorciados de práticas não eqüitativas,

VII – intervir nas administradoras de consórcio e decretar sua liquidação extrajudicial na forma e condições previstas na legislação especial aplicável às instituições financeiras.”

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mediante prévio e integral conhecimento das cláusulas do contrato, evidenciando, em especial: (...)” (g. n.)

Tal Circular visa ressaltar às administradoras de consórcio a necessidade de observância as normas do CDC nas relações travadas com seus consorciados, especialmente no que tange os direitos básicos dos consorciados de transparência nas relações contratuais, preservando os grupos e os consorciados de práticas não eqüitativas.

Assim é que, se o Decreto n.º 6.523/2008 foi editado com vistas a disciplinar as normas do CDC, especificamente no que se refere ao atendimento telefônico das empresas fornecedoras de serviços regulados pelo Poder Público Federal, e as administradoras de consórcio são instituições que prestam serviços regulados pelo Poder Público Federal, não há como depreender que o cumprimento deste Decreto não seria aplicável a estas, ainda mais pelo fato de que o BACEN positiva, por meio de Circular, que as administradoras de consórcio devem observar as normas do CDC.

No âmbito prático, em razão do Decreto n.º 6.523/2008 ser recente, não há ampla gama de julgados que discutem sua aplicabilidade. No entanto, em pesquisa no site do Tribunal de Justiça de São Paulo, encontramos interessante julgado, datado de 10.03.2009, referente à apelação de instituição financeira contra sentença proferida em ação indenizatória por danos morais movida por pessoa física, em razão de tempo excessivo de espera no atendimento bancário.

Embora o referido julgado não centre o debate na questão da obediência das instituições financeiras – que assim como as administradoras de consórcio, são reguladas pelo BACEN – ao Decreto n.º 6.523/2008, este evidencia que estas estão sujeitas às regras instituídas pelo Decreto.

Nesse particular, confira-se o trecho da fundamentação do Desembargador Relator, que negou provimento ao recurso de apelação interposto pela instituição financeira:

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“(...) Por fim, não se olvida que, assim como na recente

regulamentação de atendimento (Decreto nº 6.523, de 31 de julho de 2008, que fixa normas gerais sobre o Serviço de Atendimento ao Consumidor – SAC), a deficiência do serviço bancário, em prejuízo à coletividade de usuários, comporta sanção administrativa, nos termos dos artigos 56, § único, e

57, do Código de Defesa do Consumidor. (...)”3 (g. n.)

Como se vê, o julgado acima demonstra o entendimento de que o Decreto n.º

6.523/2008 deve ser observado pelas instituições financeiras, assim como todas as demais empresas prestadoras de serviços regulados pelo Poder Público Federal,

como medida de preservar o interesse da coletividade.

Outrossim, o próprio Supremo Tribunal Federal já se manifestou expressamente sobre a sujeição ao Código de Defesa do Consumidor das entidades financeiras e creditícias, quando julgou a ação declaratória de inconstitucionalidade (ADI 2591/DF), proposta pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro, em que funcionaram como relatores os ministros Carlos Velloso e Eros Grau, com julgamento em 07.06.2006 (DJ 29-09-2006 pp-00031), assim decidindo:

CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. ART. 5o, XXXII, DA CB/88. ART. 170, V, DA CB/88. INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS.

SUJEIÇÃO DELAS AO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR,

EXCLUÍDAS DE SUA ABRANGÊNCIA A DEFINIÇÃO DO CUSTO DAS OPERAÇÕES ATIVAS E A REMUNERAÇÃO DAS OPERAÇÕES PASSIVAS PRATICADAS NA EXPLORAÇÃO DA INTERMEDIAÇÃO DE DINHEIRO NA ECONOMIA [ART. 3º, § 2º, DO CDC]. MOEDA E TAXA DE JUROS. DEVER-PODER DO BANCO CENTRAL DO BRASIL. SUJEIÇÃO AO CÓDIGO CIVIL. 1. As instituições financeiras estão, todas elas,

alcançadas pela incidência das normas veiculadas pelo Código de Defesa do Consumidor. 2. "Consumidor", para os

3

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efeitos do Código de Defesa do Consumidor, é toda pessoa física ou jurídica que utiliza, como destinatário final, atividade bancária, financeira e de crédito. (g. n.)

Assim, tendo em vista a legislação vigente, as normas atinentes ao sistema de consórcio, e a jurisprudência, entendemos que as administradoras de consórcio estão sujeitas ao cumprimento do Decreto n.º 6.523/2008.

Contudo, ressaltamos que a estrutura do Serviço de Atendimento ao Consumidor por telefone não deve ser grandiosa, mas apenas corresponder ao porte e número de consorciados da administradora, a fim de que seja suficiente para o cumprimento das disposições do Decreto n.º 6.523/2008.

Atenciosamente,

Rosoléa Miranda Folgosi

Fabio Teixeira Ozi

Referências

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