Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 204.246 - MG (1999/0014944-0)
RELATOR : MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA
RECORRENTE : LUCIANO DINIZ IMÓVEIS LTDA
ADVOGADO : LILIANE NETO BARROSO E OUTROS
RECORRIDO : ROBERTO CARLOS DE OLIVEIRA
ADVOGADO : JOSÉ CARLOS LOPES MOTTA
EMENTA
DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. COMPROMISSO DE COMPRA E
VENDA. AÇÃO DE 'RESCISÃO' CONTRATUAL CUMULADA COM
REINTEGRAÇÃO NA POSSE. LIMINAR. DESCABIMENTO. CLÁUSULA
RESOLUTÓRIA EXPRESSA. IRRELEVÂNCIA. CASO CONCRETO.
NECESSIDADE DE DECLARAÇÃO JUDICIAL. PRECEDENTE. RECURSO DESACOLHIDO.
I - A cláusula de resolução expressa, por inadimplemento, não afasta a necessidade da manifestação judicial para verificação dos pressupostos que justificam a resolução do contrato de promessa de compra e venda de imóvel. II - A ação possessória não se presta à recuperação da posse, sem que antes tenha havido a 'rescisão' (rectius , resolução) do contrato. Destarte, inadmissível a concessão de liminar reintegratória em ação de 'rescisão' de contrato de compra e venda de imóvel.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, não conhecer do recurso. Votaram com o Relator os Ministros Cesar Asfor Rocha, Ruy Rosado de Aguiar e Aldir Passarinho Junior. Ausente, ocasionalmente, o Ministro Barros Monteiro. Presidiu o julgamento o Ministro Cesar Asfor Rocha.
Brasília, 10 de dezembro de 2002(data do julgamento)
MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA
Relator
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RECURSO ESPECIAL Nº 204.246 - MG (1999/0014944-0)
EXPOSIÇÃO
O SR. MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA:
Nos autos de ação de "rescisão" contratual de compromisso de compra e venda cumulada com reintegração na posse, o Tribunal de Alçada de Minas Gerais indeferiu a liminar, em acórdão com a seguinte ementa:
"Processo Civil - Agravo - Ação rescisória contratual - Reintegração de posse - Cumulatividade - Liminar initio
littis - Obstáculo processual.
Não se compatibilizam a ação rescisória contratual com a especial de reintegração de posse, daí o obstáculo processual para se conceder reintegração de posse liminar
initio littis".
Em sede de recurso especial, alega a recorrente violação dos arts. 926 e 927 do Código Civil, além de dissenso pretoriano, sustentando, em linhas gerais, a possibilidade de cumulação de pedidos de rescisão contratual e de reintegração na posse, inclusive com deferimento liminar.
Contra-arrazoado, foi o recurso admitido. É o relatório.
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VOTO
O SR. MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA:
1. Discute-se nos autos se possível a concessão de liminar de reintegração na posse em ação de "rescisão" contratual de promessa de compra e venda de bem imóvel.
Segundo consta dos autos, as partes firmaram contrato particular de promessa de compra e venda em 10.4.1996, financiado em 54 (cinqüenta e quatro) parcelas mensais, tendo sido transferida a posse do imóvel objeto do contrato no dia 18.4.1996.
Diante da recusa do pagamento pelo promitente comprador, e possuindo o contrato cláusula resolutiva expressa, o promitente vendedor promoveu a interpelação extrajudicial do devedor, a fim de constituí-lo em mora. Não ocorrendo o adimplemento, e com fundamento na cláusula de resolução, ajuizou o credor a ação de que ora se cuida.
2. Já se manifestou este Tribunal que "a resolução do contrato por inadimplemento do devedor, no sistema brasileiro, depende de manifestação judicial (art. 1.092, parágrafo único do CCivil)" (REsp n. 139.305-RS, DJ
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16.3.1998). Certo é, no entanto, que em determinados contratos a cláusula resolutória expressa opera-se de plano, a partir do momento do inadimplemento, como nos contratos de leasing .
Na espécie, trata-se de compra e venda de imóvel, caso em que se tem por indispensável a manifestação judicial, como assentou o Ministro Ruy
Rosado de Aguiar, no REsp n. 237.539-SP (DJ 8.4.2000), nestes termos:
"Logo, o litígio há de ser solucionado em Juízo, e no processo será apreciada não apenas a existência da cláusula, mas também a verificação das circunstâncias que justifiquem a resolução do contrato, pois bem pode acontecer que o inadimplemento não tenha a gravidade suficiente para extinguir o contrato. Com isso quero dizer que a cláusula de resolução expressa não afasta, em
princípio, a necessidade da manifestação judicial, para
verificação dos pressupostos que justificam a cláusula de resolução. A própria lei já tratou de flexibilizar o sistema do Código ao exigir a notificação prévia (art. 1º do DL 745/69), a mostrar que as relações envolvendo a compra e venda de imóveis, especialmente em situação como a dos autos, de conjunto habitacional para população de baixa renda, exigem tratamento diferenciado, com notificação prévia e apreciação em concreto das circunstâncias que justificam a extinção do contrato, atendendo ao seu fim social.
No sistema brasileiro, a regra é que a resolução ocorra em juízo, uma vez que somente ali poderá ser examinada a defesa do promissário, fundada, entre outras causas, em fato superveniente e no adimplemento substancial, as quais, se presentes, impediriam a extinção do contrato."
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resolutiva expressa e ter ocorrido a interpelação do promissário-comprador para a sua constituição em mora, nos termos do art. 1º do Decreto-Lei n. 754/69 e do enunciado sumular n. 76/STJ, a resolução do compromisso ainda não se consumou, uma vez ausente declaração judicial a respeito.
Assim sendo, e sabido que a ação possessória não se presta à recuperação da posse sem que antes tenha havido a resolução do contrato, resta incabível a concessão de liminar reintegratória. Apenas quando resolvido o compromisso, a posse passa a ser injusta, e a sua manutenção caracteriza o esbulho autorizador da reintegração liminar. No tema, o Ministro Franciulli
Netto, no REsp n. 64.170-SP(DJ 5/3/2001), embora vencido, assentou:
"A ação possessória não se presta à recuperação da posse, sem que antes ou concomitantemente se rescinda (resolva) o negócio jurídico que embasou a posse.
A razão jurídica desse modo de pensar está lastreada exatamente nisto: a posse perdura enquanto perdurar o contrato que a instituiu.
Então o contrato tem de ser rescindido com amplo debate. No lugar de rescisão, melhor é dizer resolução, em sentido estrito (efeito ex tunc).
Nem há invocar a cláusula resolutiva expressa. Como ensina o saudoso Pontes de Miranda, 'não se opera, automaticamente, a resolução. Tem de haver decisão judicial' (cf. Tratado de Direito Privado, Ed. Borsoi, 1971, tomo XXV, § 3.091, item n. 3, p. 331)".
No caso, pretende o autor o deferimento da reintegração na posse do imóvel financiado in limine litis, antecedendo qualquer manifestação
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meritória da ação de resolução contratual, o que se mostra incabível, como se viu.
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CERTIDÃO DE JULGAMENTOQUARTA TURMA
Número Registro: 1999/0014944-0 RESP 204246 / MG
Números Origem: 2561508 25615098 9800146112
PAUTA: 10/12/2002 JULGADO: 10/12/2002
Relator
Exmo. Sr. Ministro SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro CESAR ASFOR ROCHA Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. CLÁUDIA SAMPAIO MARQUES Secretária
Bela. CLAUDIA AUSTREGÉSILO DE ATHAYDE BECK AUTUAÇÃO
RECORRENTE : LUCIANO DINIZ IMÓVEIS LTDA
ADVOGADO : LILIANE NETO BARROSO E OUTROS
RECORRIDO : ROBERTO CARLOS DE OLIVEIRA
ADVOGADO : JOSÉ CARLOS LOPES MOTTA
ASSUNTO: Civil - Contratos - Compra e Venda
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUARTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Turma, por unanimidade, não conheceu do recurso.
Os Srs. Ministros Cesar Asfor Rocha, Ruy Rosado de Aguiar e Aldir Passarinho Junior votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, ocasionalmente, o Sr. Ministro Barros Monteiro. O referido é verdade. Dou fé.
Brasília, 10 de dezembro de 2002
CLAUDIA AUSTREGÉSILO DE ATHAYDE BECK Secretária