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Interface (Botucatu) vol.12 número27

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Academic year: 2018

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A área da educação em saúde, ao mesmo tempo em que articula historicamente diferentes disciplinas, evidencia os grandes desafios da criação de interfaces entre distintos saberes e poderes que se encontram e, por tantas vezes, tensionam o campo da saúde. Contudo, dependendo da perspectiva, tal construção de

interfaces, mais do que uma dificuldade em si, pode se caracterizar como uma excepcional oportunidade para o aprofundamento dos diálogos disciplinares, a criação de alternativas metodológicas e, sobretudo, a

renovação de conhecimentos e práticas na saúde. Focar nesta oportunidade e articular a capacidade crítica com a proposição de caminhos foi a grande realização de Simone Monteiro e Eliane Vargas, ao organizarem esta coletânea.

Tendo em vista a já tão consolidada crítica no campo da saúde sobre a insuficiência do modelo biomédico para dar conta das ações de educação em saúde, as autoras, enfrentam, então, com clareza, ousadia e coerência, a grande questão que consiste em redefinir, nesse campo, a relação entre modelos paradigmáticos e suas fontes teórico-conceituais. Assim, se

concordamos que o modelo biomédico é insuficiente, como então faremos

MONTEIRO, S.; VARGAS, E. (Orgs.).

Educação, comunicação

e tecnologia educacional

: interfaces com o campo da saúde.

Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006. 252p.

Willer Baumgarten Marcondes1

1 Cientista social.

Coordenação de Educação, Cultura e Saúde, Fiocruz Brasília. SEPN, 510, Unidade II, Ministério da Saúde - sala 402. Brasília, DF 70.750-520 [email protected]

v.12, n.27, p.927-9, out./dez. 2008 927

COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO para recolocá-lo em relação a novas perspectivas e outras abordagens? Como deslocá-lo de sua questionada posição hegemônica para um campo dialógico com outras falas disciplinares no processo saúde e doença?

Ao se voltarem para estas inquietações, que dizem respeito a todos os atores da saúde, as autoras reuniram, entre os capítulos desta publicação, contribuições de pensadoras engajadas com práticas, muitas vezes pioneiras, de pesquisa, atuação, desenvolvimento e avaliação de tecnologias educacionais no Brasil. O ponto de encontro, reiterado e enriquecido por diferentes perspectivas teórico-conceituais ao longo dos capítulos, converge na defesa da problematização e da contextualização como posturas a serem adotadas para a superação dos limites identificados na área da educação em saúde. O livro se situa na perspectiva das práticas educativas e comunicativas em saúde, bem como das tecnologias

educacionais, e o faz de modo bem consciente do polêmico debate no qual está entrando.

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transferência de informação para mudanças de hábitos e comportamentos (em geral de

abordagem individual e culpabilizante), as autoras contrapõem um rico panorama de construção compartilhada de conhecimentos e de sentidos sociais. Destacam, igualmente, um projeto político-pedagógico comprometido com a

autonomia dos sujeitos e a mudança de condições de vida que repercutem no processo saúde e doença.

Portanto, tecnologias e práticas educativas e comunicativas são problematizadas e

contextualizadas na dimensão social e humana em que são produzidas e postas em curso. As

interfaces da educação, comunicação e tecnologia educacional com o campo da saúde possuem aqui uma pertinente e tão necessária fundamentação, por meio dos campos da antropologia cultural, educação, comunicação e saúde coletiva, para subsidiar processos em que se busca conhecer melhor para intervir com melhores práticas na educação em saúde.

Dessa forma, o livro viabiliza o seu objetivo de estimular o conhecimento na área da educação em saúde, bem como divulgar a produção de tecnologias educacionais com ênfase no seu desenvolvimento e avaliação. Além do instigante prefácio de Maria Teresa Citeli e da apresentação, assinada pelas organizadoras, que mapeia a obra de forma exemplar, a publicação é composta de duas partes: a primeira reúne reflexões teórico-metodológicas; a segunda realiza descrição e análise do Banco de Materiais do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde (Leas/IOC/ Fiocruz). Conta com um total de sete artigos e uma seção de “Banco de Materiais”, que oferece uma interessante lista de referências, com os dados catalográficos de folders e folhetos, manuais e jogos organizados por título, editor, local, data, público-alvo, temas e fontes.

Logo no primeiro capítulo, intitulado “Desenvolvimento e Uso de Tecnologias Educacionais no Contexto da Aids e da Saúde Reprodutiva: Reflexões e Perspectivas”, assinado por Simone Monteiro, Eliane Vargas e Marly Cruz, as autoras problematizam os materiais educativos em termos conceituais. Para tanto, destacam a dimensão comunicativa das ações de educação em saúde, articulam, na teoria da comunicação, a questão da recepção como produção de sentido, e os limites de modelos educativos pautados pela abordagem comportamental. Alertam, sobretudo,

que, para além da visão de produtos meramente instrumentais, os materiais educativos possuem fundamentos educacionais e pressupostos teórico-conceituais que precisam ser explicitados e aprofundados. Afirmam isso porque identificaram lacunas na área com base em pesquisa original na qual empreenderam revisão bibliográfica e análise de trabalhos apresentados em anais de congressos - por sinal, uma promissora tendência

metodológica para estudos sobre campos científicos. Além disso, ao constatarem a disparidade entre o volume de produções desses materiais educativos e a pouca discussão sobre o seu emprego e repercussões, ressaltam novas pautas para a agenda de pesquisa e avaliação.

Estas preocupações permeiam toda a coletânea e são reafirmadas pela experiência pioneira de Inesita Araújo, autora do segundo capítulo, intitulado “Materiais Educativos e Produção de Sentidos na Intervenção Social”. Seu estudo sobre a recepção de materiais educativos no meio rural e as reflexões posteriores ilustram, por meio da sua busca de clarificação conceitual, a construção de um campo de estudos no final dos anos 80 no qual a autora articulou a abordagem teórica dos processos de recepção à da antropologia e da socioeconomia. A autora defende a importância da contextualização das ações mas, também, e o mais importante, propõe como realizá-la por intermédio do seu conceito de “lugar de

interlocução”. Explicita interessantes questões que prejudicam ou favorecem a necessária concretude dos textos e critérios a serem considerados ao se lidar com a produção de materiais educativos.

No terceiro capítulo, intitulado “Tecnologia Educacional na Área da Saúde: A Produção de Vídeos Educativos no NUTES/UFRJ”, Vera Helena Siqueira parte da memória do Núcleo de

Tecnologia Educacional para a Saúde para uma reflexão sobre a experiência brasileira com tecnologias educacionais, seus alcances e autocríticas na inter-relação entre paradigmas adotados e seus momentos políticos. Ao contextualizar os materiais educativos, discute a construção da “intenção pedagógica”, com base na interação de profissionais de diferentes áreas, e partilha a estratégia do Núcleo, sistematizada por meio de pesquisa, sobre produção coletiva de vídeos.

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COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO

livros

no quarto capítulo: “Experiências de Desenvolvimento e Avaliação de Materiais Educativos sobre Saúde: Abordagens Sócio-Históricas e Contribuições da Antropologia Visual”, assinado por Denise Pimenta, Anita Leandro e Virgínia Schall. Nesse texto, as autoras ilustram e apontam caminhos para o diálogo entre disciplinas para a superação dos limites de

abordagens simplistas da saúde; e propõem a articulação da antropologia visual como um novo arcabouço teórico-metodológico para novos conhecimentos e práticas de produção e avaliação de materiais educativos.

A antropologia visual também oferece critérios para análise de vídeos no quinto capítulo:

“Videoteca da Mulher. Mas Afinal, Vídeos para Quem?”, de Clarice Peixoto. Ao discutir a construção das imagens videográficas, destaca a contextualização dos materiais educativos como um imperativo para trabalhos mais coerentes com os objetivos e os sujeitos da recepção. Questão fundamental, uma vez que a preocupação com a decodificação da informação, bem como se o vídeo é atraente e prazeroso a quem é dirigido, significa buscar a construção de olhares em relação de reciprocidade, e não que se esteja subestimando a capacidade do receptor.

Ao discutirem as “Novas Tecnologias de Informação e Comunicação na Formação de Recursos Humanos em Saúde”, no sexto capítulo, Miriam Struchiner e Taís Giannella reafirmam a necessidade da problematização dos modelos que informam as ações, pois estas são imbuídas de projetos político-pedagógicos, e não apenas de tecnologias. Nesse sentido, as autoras abordam, como uma de suas principais questões, a mudança primordial de foco ocorrido nas novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC), a saber: do “processo de instrução” ao “processo de

aprendizagem”, este de perspectiva ampliada, no qual os sujeitos da aprendizagem estão no centro do processo educativo. Ademais, destacam

estratégias e perspectivas para trabalhos com as NTIC.

A segunda parte da coletânea é aberta com o texto “Banco de Materiais: Desenvolvimento e Estímulo a Novas Pesquisas”, no qual Eliane Vargas e Simone Monteiro apresentam e discutem a perspectiva da lista de referências de materiais educativos que consta do apêndice da publicação e se configura em fonte não só de consulta, mas também de novas pesquisas. Compartilham a experiência de sistematização desse banco e a organização do acervo situado no Leas (IOC/ Fiocruz) com impressionante capacidade dirigida pela abordagem de pesquisa em educação em saúde e de saúde reprodutiva e sexual, que supera os tradicionais limites da biblioteconomia. Apontam, com grande originalidade, a construção de categorias classificatórias, e como tal

conhecimento contribui para novas experiências com acervos, bem como a análise dos materiais educativos à luz de modelos e paradigmas educativos que os orientam.

Ao longo da obra, encontramos argumentos, reflexões e exemplos de como - se devidamente problematizadas e contextualizadas -, as práticas educativas e comunicacionais em saúde se contrapõem a ações espontaneístas, e, da mesma forma, as tecnologias educacionais aos

tecnicismos.

Nesta coletânea as autoras colaboram para elevar as discussões da área a um novo patamar, ao aliar a pertinência da crítica a uma

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