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Cad. Saúde Pública vol.25 número5

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(5):1185-1187, mai, 2009

sobre o trabalho, para dar ao leitor a oportunidade de fazer seu próprio percurso” (p. 11).

É um livro para todas as pessoas que desejam uma sociedade melhor e, em especial, aquelas que preten-dem ser pais.

Glória Inês Beal Gotardo

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

[email protected]

REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA: CONTRI-BUIÇÃO PARA A COMPREENSÃO E CRÍTICA. Paim JS. Salvador: EDUFBA/Rio de Janeiro: Edi-tora Fiocruz; 2008. 356 pp.

ISBN: 978-85-232-0529-4

A modéstia, acuidade e lucidez empregadas no árduo e complexo empreendimento teórico de análise da Reforma Sanitária Brasileira, condensados no recente livro de Jairnilson S. Paim, alçam a literatura da saúde coletiva no Brasil para um patamar mais elevado. Além de relevante e oportuno, o alentado estudo de Paim rompe com a tendência de excessiva valorização dos trabalhos pontuais e empiricistas da atual safra de pu-blicações da área, devolvendo à saúde coletiva a capa-cidade e a coragem de buscar nos elementos cognitivos da ciência chaves de explicação da nossa realidade. Esses predicados, raramente reunidos em só texto, tor-nam a Reforma Sanitária Brasileira: Contribuição para a Compreensão e Crítica uma referência obrigatória pa-ra os estudiosos de diversas áreas de conhecimento.

Nesses tempos de transformações vertiginosas, de transições paradigmáticas, de reconhecimento da complexidade envolvida com as questões situadas na fronteira do biológico e do social, Paim conduz sua in-vestigação por meio de uma pergunta simples: a pro-messa da Reforma Sanitária Brasileira foi cumprida? Para respondê-la, como interrogação intelectual, esta-belece uma interlocução com teorias de mudança so-cial. Tendo em vista que parte considerável dos estudos sobre a Reforma Sanitária Brasileira evita encará-la co-mo integrante de uma reforma social, de uma reforma democrática do Estado, enfatizando apenas seus aspec-tos setoriais, Paim reconvoca as teorias sobre mudança social, em especial aquelas que ambicionam conectar os conflitos entre classes sociais com as mudanças his-tóricas e recusam simultaneamente os reducionismos derivados da negação da totalidade e a vigência de uma globalização homogênea.

Desde a perspectiva de interpelar a “idéia, propos-ta, projeto, movimento, processo” da Reforma Sanitá-ria com conceitos e sentidos do vasto acervo da teoSanitá-ria marxista, em especial dos achados interpretativos de Gramsci sobre as relações entre economia e política, reforma e revolução, Paim disseca meticulosamente as bases materiais e as idéias que fundamentaram a Reforma Sanitária Brasileira e sua trajetória. Como as

estruturas sociais se interpretam melhor como produ-tos de agentes humanos, do que como produtoras de identidades fragmentadas, o autor, diferenciando-se de estudiosos que descartam o marxismo, sob o pretexto de captar subjetividades, mobiliza os sujeitos sociais para analisar a morfologia do poder envolvida com os rumos da Reforma Sanitária no Brasil contemporâneo.

A natureza antológica de Reforma Sanitária Bra-sileira: Contribuição para a Compreensão e Crítica de-sautoriza comentários destacados de seus capítulos ou mesmo sobre as respostas judiciosamente elencadas pelo autor. Mesmo os leitores habituados com os pri-morosos trabalhos de Paim se surpreenderão com sua capacidade de renovação, de elaboração de um pensa-mento singular. Basta dizer que as reflexões derivadas do raciocínio cansativo e rigoroso de Paim desvelam e atualizam o contexto de reinscrição dos conflitos dis-tributivos e suas repercussões sobre os limites e possi-bilidades de radicalização das reformas no Brasil. Para além da problematização da construção da Reforma Sanitária em meio ao desenvolvimento da formação social brasileira, o autor nos contempla com análises aprofundadas de distintas conjunturas, desde a “tran-sição democrática”, na qual a idéia e a proposta da Re-forma Sanitária foram gestadas, até o “período Lula”. Todos esses méritos dotam o trabalho de Paim de forte potencial explicativo. Sob luzes abrangentes e perme-áveis à identificação de contradições, inclusive os en-claves estritamente setoriais e mesmo os embates de natureza administrativa, adquirem novos significados.

Por reunir em um só texto um conjunto imenso e articulado de acuradas análises, claras e bem redigi-das, o livro Reforma Sanitária Brasileira: Contribuição para a Compreensão e Crítica incita uma primeira lei-tura sôfrega. Afinal de contas, quem não se apressaria para sorver rapidamente as conclusões de um criador sobre os destinos de sua criatura? Mas, quando depa-ramos com o drama que se desenrola diante do olhar modesto e atento de um dos criadores de uma criatura majestosa, porém sistematicamente confinada, que até agora exibiu apenas uma parte institucional de sua fi-gura, a necessidade de reler, de rever outros trabalhos de autor, de guardar o livro na estante no espaço reser-vado para obras de referência se afirma.

Trata-se de uma obra que admite admiração (apreensão) por múltiplos prismas. Nela encontra-se o reconhecimento do caráter de “reforma parcial”, de carência do “elemento jacobino” nas conjunturas pós-Constituinte, do “transformismo” travestido de única alternativa de “direção política”, do consenso confundi-do com resignação, que reduziram o escopo confundi-do projeto da Reforma Sanitária ao de uma reforma setorial. Para-doxalmente, a constatação das fraquezas, das debilida-des do processo da Reforma Sanitária Brasileira revela a força da disposição de enfrentar dilemas de parte de quem assume que é preciso um conhecimento eman-cipatório para orientar uma autêntica transformação política.

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(5):1185-1187, mai, 2009 Para aqueles que julgam que a mera idéia de

revo-lução, reforma democrática ou transformação política está totalmente fora de questão, as primeiras páginas do livro poderão parecer uma declaração de fé, uma demonstração de aferramento nostálgico e neurótico ao passado. De fato, vivemos numa época em que não conseguimos desafiar com sucesso o capitalismo e se-ria uma desonestidade não explicitar que as perspecti-vas de mudanças efetivamente socialistas, nesse mo-mento, são remotas. Nessas margens estreitas à pas-sagem de uma ciência objetiva, apoiada em objetivos explícitos e não numa falsa neutralidade, Paim prova a importância de examinar a realidade sem sectaris-mos ou dogmatissectaris-mos. A qualidade da revisão biblio-gráfica e a extensa pesquisa documental que subsidia o livro abrem a inteligibilidade sobre o tema e eviden-ciam que a Reforma Sanitária ainda não cumpriu suas promessas.

Contudo, Paim demonstrou sobejamente que so-mos capazes de atualizar o conhecimento para avançar mudanças, para detectar alternativas emergentes, para interceptar as armadilhas que cerceiam a produção e

difusão do pensamento crítico. É exatamente quando o ceticismo empurra parte das análises sociais para os espaços reduzidos da mera accountability que, em sentido diverso, essas mesmas circunstâncias inspiram a formulação de uma narrativa da Reforma Sanitária Brasileira, pautada pelo enfrentamento do dissídio en-tre a memória e seus resultados atuais.

No Brasil, tanto na área da saúde, quanto em outros setores, os processos de modernização foram acompa-nhados pela preservação/adaptação de traços nefas-tos, como os relacionados com as pseudovirtudes da separação entre pensar e agir. Portanto, há problemas que não poderão ser resolvidos se não nos tornarmos intelectuais dotados de razões suficientemente fortes para, tal como Paim, situar e questionar nossa exis-tência no interior das estruturas e processos políticos, entre os quais aqueles atinentes à produção de conhe-cimentos da área de saúde coletiva.

Ligia Bahia

Instituto de Estudos de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

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