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Cad. Saúde Pública vol.25 número5

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(5):950-951, mai, 2009

Nos últimos anos, o Brasil experimentou um dos mais impressionantes declínios da desnu-trição infantil já registrados em todo o mundo em desenvolvimento. A comparação de es-timativas de inquéritos do programa Demographic Health Surveys realizados em amostras probabilísticas da população brasileira de menores de cinco anos em 1996 e em 2006/2007 mostra que formas graves de desnutrição, indicadas pela desproporção acentuada entre peso e altura, foram virtualmente eliminadas de todo o país, incluindo a Região Nordeste, onde estas formas de desnutrição ainda eram relevantes. No mesmo período, a prevalên-cia nacional de déficits de altura para idade, indicador sensível da presença persistente de más condições de alimentação e de saúde, foi reduzida de 13,5% para 6,8%. No Nordeste, o retardo de crescimento declinou de 22,2% para 5,9%, eliminando totalmente a tradicio-nal desvantagem desta região com as do centro-sul do país. A intensa queda no retardo de crescimento entre o quinto das crianças com menor renda e a modesta redução observada no quinto com maior renda eliminou três quartas partes da disparidade absoluta existente entre a extrema pobreza e a extrema riqueza (de 24,6 para 6,2 pontos percentuais).

Modelagens estatísticas aplicadas ao conjunto de informações dos dois inquéritos in-dicam que a evolução favorável de quatro determinantes da nutrição infantil justificaria dois terços do declínio observado na desnutrição [Monteiro et al. Rev Saúde Pública 2009; 43(1):35-43]. A melhoria na escolaridade materna, particularmente a duplicação da pro-porção de mães que cursaram o primeiro grau completo, explicaria 25,7% do declínio na prevalência do retardo de crescimento na infância. Outros 21,7% poderiam ser atribuídos ao aumento do poder aquisitivo das famílias brasileiras mais pobres, refletido na substan-cial migração da classe E para as classes D e C de consumo. Adicionais 11,6% do declínio seriam atribuídos à expansão de cuidados básicos de saúde a mães e crianças, e outros 4,3% ao crescimento da cobertura dos serviços de saneamento. Em suma, as causas subja-centes ao notável declínio da desnutrição infantil no Brasil parecem residir em melhorias na cobertura de serviços públicos essenciais e em aumentos da renda familiar, ambos fa-vorecendo especialmente os mais pobres.

Cumpre reconhecer que a melhoria no perfil de escolaridade das mães responde à ex-pansão do acesso de jovens ao Ensino Fundamental ocorrida há 10 ou 20 anos. Já as me-lhorias na assistência à saúde materno-infantil e no saneamento representam ampliações contínuas do acesso a estes serviços havidas ao longo do período 1996-2007. Por outro la-do, o aumento expressivo do poder aquisitivo dos mais pobres é de ocorrência mais re-cente, decorrendo do reaquecimento da economia nacional, da redução do desemprego e de políticas dirigidas para o aumento da renda dos mais pobres, em particular a elevação do salário mínimo e a expansão e intensificação dos programas de transferência de renda [Neri MC, coord. Miséria, Desigualdade e Políticas de Renda: O Real do Lula. Rio de Janeiro: FGV/IBRE/CPS; 2007].

De qualquer sorte, e mais importante: a superação definitiva do flagelo da desnutrição infantil, vislumbrada no último decênio, dependerá tanto da manutenção do crescimen-to econômico e das políticas de redistribuição de renda quancrescimen-to de investimencrescimen-tos na uni-versalização, ainda não completada, do acesso de todas as famílias brasileiras à educação, saúde e saneamento.

A experiência brasileira na última década demonstra o enorme impacto que políticas de redistribuição de renda e de acesso universal à educação, saúde e saneamento podem ter sobre a desnutrição infantil. Tais políticas deveriam estar no topo da agenda de priori-dades de qualquer governo comprometido com a melhoria da qualidade de vida das futu-ras gerações.

A queda da desnutrição infantil no Brasil

EDITORIAL

Carlos Augusto Monteiro

Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

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