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A concepção de criança a partir do olhar infantil

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Academic year: 2018

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A C O N C E P Ç Ã O

D E C R IA N Ç A

A P A R T IR

D O

O L H A R

IN F A N T IL

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Cristiane Amorim MartinswvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA1

R e s u m o

[a C H -U F C ]

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

O s e s t u d o s e m Q u e a c r i a n ç a g a n h a v o z a i n d a s e c o n s t i t u e m e r c e ç õ e s n o p a n o r a m a d e p e s o o t s s . o Q u e fa z c o m Q u e o c o n h e c i m e n t o Q u e s e t e m s o b r e e l a l i m i t e s e a u m a r e p r e s e n

-t a ç ã o a d u l -t a d a c r i a n ç a . P a r -t i n d o d e s s a r e fl e r ã o . b u s c o u - s e

c o n h e c e r oc o n c e i t o d e c r i a n ç a d a p r ó p r i a c r i a n ç a . A s t e o r i a s d e P i a g e t . I j ' g o t s - 9 t e W a l l o n o fe r e c e r a m d i r e t r i ze s p a r a a

d e fi n i ç ã o d a m e t o d o l o g i a e p a r a a a n á l i s e d o s d a d o s c o t c t s d o s . F o r a m i n v e s t i g a d o s d o i s g r u p o s d e c r i a n ç a s d a c l a s s e d e a l fa

-b e t i za ç ã o d e c l a s s e s s o c i a i s d i s t i n t a s . O s g r u p o s u s a r a m p r a

-t i c a m e n -t e a s m e s m a s c a t e g o r i a s a o c o n c e i t u a r a c r i a n ç a .

d e s c r i t a a p a r t i r d a s d i fe r e n ç a s p e r c e b i d a s e n t r e e l a e oa d u l -t o . P o r é m . o s d o i s g r u p o s a t r i b u í r a m c o m p e t ê n c i a s d i s t i n t a sEDCBA

à c r i a n ç a . L o n g e d e c o n s t i t u i r - s e u m a m e r a r e p r o d u ç ã o d o s

c o n c e i t o s d o s a d u l t o s . a c o n s t r u ç ã o d o c o n c e i t o d e c r i a n ç a

e x i g e u m a g r a n d e e l a b o r a ç ã o p o r p a r t e d a s c r i a n ç a s .

Palavras-chave: Conceitos infantis - escola - alfabetização

A b s tra c t: U n d e rs ta n d in g th e c h ild fro m a c h ild 's

p e rs p e c tiv e

S t u d i e s i n w h i c h t h e c h i l d ' s v o i c e i s h e a r d a r e s t i l l c x c e p t i o n s t o

t h e r u l e o fr e s e a r c h . w h i c h m a k e s t h e k n o w l e d g e a v a i l a b l e a b o u t

t h e m l i m i t e d t o a n a d u l t r e p r e s e n t a t i o n o f c h i l d h o o d 8 a s e d 0 1 7

t h i s r d l e a i o n , a n s t t e m p t w a s m a d e t o i d e n t i ( y t h e c h i l d ' s c o n c e p t o f c h i l d h o o d T h e t h e o r i e s o f P i a g e t . l j ~ o t s - 9 t a n d

W a l l o n p r o v i d e g u i d e / i n e s fo r t h e d e fi n i t i o n o f a m e t h o d o l o g y

a n d fo r a n a n á j y s i s o ft h e d a t a c o l l e c t e d T w og r o u p s o f c h i l d r e n l e a r n i n g t o r e a d a n d w r i t c . t a k e n fr o m t w o d i s t i n c t s o c i o

-e c o n o m i c g r o u p s . w -e r -e i n v -e s t i g a t -e d T h e g r o u p s u s e d p r a c t i c a l j y t h e s a m e c a t e g o r i e s t o u n d e r s t a n d c h i l d h o o d . u s i n g d e s c r i p t i o n s

b a s e d o n t h e d i ffe r e n c e s p e r c e i v e d b e t w e e n c h i l d s n d a d u l t .

H o w e v e r . t h e t w o g r o u p s s t t r i b u t c d d i ffe r e n t c o n c e p t s t o

c h i l d r e n . F a r fr o m c o n s t i t u t i n g a m e r e r e p r o d u c t i o n o f a d u l t

c o n c e p t s . t h e c h i l d r e n ' s c o n s t r u a i o n o ft h e c o n c e p t o f c h i l d h o o d

d e m a n d s g r e a t e r p r o c e s s i n g b y l h e c h i l d r e n .

K ey-w ords: C hildren's concepts - school-literacy

IPsicóloga formada e mestra em Educação pela Universidade

Fede-ral do Ceará. Professora de Psicologia da Universidade de Fortaleza

(UNIFOR). E-mail: [email protected]

36 EDUCAÇÃO EM DEBATE FORTALEZA ANO 24 V2

In tro d u ç ã o

Apesar de representar o maior contingente de alunos dos sistemas escolares. a criança está longe de representar um ponto de partida para a pedagogia

afirma Bernard Charlot (1983). A noção de infância

segundo ele. não é uma noção pedagógica primeira mas uma noção derivada: não se constrói uma escola a partir da criança. mas tenta-se construir a criança a partir de uma concepção de educação. A teoria da

educação não é fundamentalmente uma teoria da

in-fância. é essencialmente uma teoria da cultura e de suas relações com a natureza humana.

Dessa forma. a compreensão Que grande par-te dos profissionais da educação têm de infância nã costuma ir muito além do senso comum. A infância e

caracterizada sobretudo enouanto "período do

de-senvolvimento Quev a i do nascimento à

adolescên-cia". o Que reduz a existência da infância e coloca o tempo como sua dimensão específica. A criança é futuro homem. o futuro cidadão. A infância tem im-portância enouanto passagem. preparação para algo

av id a adulta. esta sim. importante. A diferença entre

a criança e o adulto é transformada em

desigualda-de. e esta em inferioridadesigualda-de.

Mesmo os interessados nas teorias do

de-senvolvimento costumam cair nas armadilhas da

ideologia Que justifica e mantém a relação de

do-minação adulto-criança. Chaim Samuel Katz nos

diz: "Fazer da criança um pré-adulto. uma

destinação à inscrição social normativa. eis o Que

não apenas av id a social em geral e a do Ocidente

em especial. bem como as grandes teorias. tentarr

nos impor" (1996: 91). Como na dialética do

se-nhor e do e s c r a v o (onde o senhor revela-se nas

suas ordens. enquanto o e s c r a v o . no seu silêncio

forçado. mantêm-se um desconhecido para o se

senhor). nós falamos muito. mas. apesar de

ter-mos acumulado conhecimentos v a lio s o s sobre

desenvolvimento infantil. pouco sabemos sobre o

significado da experiência de ser criança para a

criança. Um estudo crítico sobre a criança exige

portanto. a participação dela própria.

(2)

h~':;.,~r-~Jtt ~~~iZk~>-~~'t~:.t~"-'Z--,-·'ít-·~~~~"'~-~lkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E m grande parte das escolas. especialm ente

nas Q ue têm um a postura tradicional. o autoritarism o

m arca a relação adulto-criança. E sse autoritarism o

com prom ete. m uitas vezes. a oualidade da

aprendi-zagem e a harm onia das relações no am biente

esco-lar. prejudicando o desenvolvim ento da autonom ia

das crianças.

A cuern se propõe estudar a criança de form a

crítica. não basta. portanto. conhecer o processo de

desenvolvim ento hum ano. U m estudo crítico sobre a

infância exige o reconhecim ento da desigualdade de

direitos Q ue m arca a relação adulto-criança. e ainda

m ais. extge um a m ouíetação. um certo m al estar

di-ante dessa desigualdade. A opressão exercida pelo

adulto sobre a criança é facilm ente justificada com

discursos Q !.Jesupervalorizarn o saber adulto. M as

Q uem se propõe a ouvir um a criança tem grandes

chances de se surpreender e. desde Q ue não se deixe

guiar por preconceitos. terá m uito a aprender.

Foi priorizando a perspectiva infantil e

acredi-tando Q ue a m esm a possa nos dar contribuições

va-liosas no estudo da infância. Q ue busoueí. nesta

pesouísa. ouvir a criança. A idéia de ouvir a criança no processo de pesouísa surge da necessidade de

superar o conhecim ento da criança pela perspectiva

do adulto. tentando construir um significado de "ser

criança" a partir da própria criança.

o

referencial

teórico

1 )0 se n tim e n to d e in fâ n cia a tra vé s d o s

te m p o s

P ara com preender m elhor a dim ensão histórica. social e cultural da infância. recorri à obra do historiador

francês P hilippe

Aríês.

S eu livro l'E nfant et Ia V ie fam iliale

sous Il\ncien R égim e. publicado pela prim eira vez na

Françaem 1960 teve. em 1978. tradução brasileira fei-ta a partir de sua terceira edição. e represenfei-ta um m arco

:10estudo da criança e da fam ília.

Investigando o sentim ento de infância ao

lon-o dlon-os sécullon-os. através da iclon-onlon-ografia. A riês

con-c1uiu Q ue a descoberta da infância iniciou-se no

sé-culo X III e Q ue sua evolução pode ser acom panhada ao longo da história da arte dos séculos X V e X V I.

sendo Q ue os sinais m ais significativos dessa

evolu-ção encontram -se no fim do século X V I e durante o

século X V II.

A deform ação da criança sob a form a de

pe-oueno adulto. presente na m aioria das civilizações

arcaicas. não decorria de oualouer inabilidade por

parte do artista. m as sim do fato de Q !.Jeos hom ens não se detinham diante da im agem da infância. pois.

na realidade. a criança não Ihes

despertava

oualouer .

interesse.

Aríês

tenta entender esse fato levantando

a hipótese de Q ue não havia espaço para a infância

naouele m undo. N as obras de arte dos séculos X .

X I. X II e X III exam inadas por ele. a criança surgiu na

form a de um "peoueno adulto". verdadeira m

iniatu-ra do corpo e das feições adultas.

P or volta dos séculos X II e X III. através do culto a M aria e a sua m aternidade. surgiu o ancestral de todas as crianças peouenas na história da arte: o m enino Iesus. N o início. lesus era. com o as outras

crianças. um a redução do adulto. depois passou a

ser retratado de um a form a condizente com as

ca-racterísticas infantis. O tem a da infância sagrada

am pliou-se e diversificou-se até ultrapassar os m

u-ros da iconografia religiosa e tornou-se cada vez m ais profano. m ostrando cenas da vida cotidiana.

N o fim do século X V I. alguns educadores católi-cos e protestantes da França e da Inglaterra consegui-ram im por o respeito à infância. assim com o o escrúpulo diante de atitudes desrespeitosas às crianças. com uns até então. E sses educadores preocuparam -se em sele-cionar os livros adeouados aos peouenos. o Q ue

signifi-cou um a grande evolução na história da pedagogia. "É

dessa época realm ente Q ue podem os datar o respeito

pela infância"(A ries. 198: p.135).

ro ce sso d e fo rm a çã o d e co n ce ito s

P artindo de um a com preensão da criança com o sujeito histórico e social. Q ue se constitui com o pes-soa na relação com seus sem elhantes. essa pesouísa

(3)

encontrou nas teorias psicogenéticas de Piaget.

Vygotsky e Wallon. consideradas as de maior desta-Que na área do desenvolvimento infantil. um suporte

teórico de grande coerência. Esses teóricos apresen-taram importantes contribuições para a

compreen-são do processo de formação de conceitos.

Piaget considera os conceitos iniciais e

primi-tivos ...construídos durante o estágio pré-operacional. como pré-conceitos (FLAVELL. 1988). De acordo com as características do pensamento nesse estágio.

os pré-conceitos tendem a ser dominados pela ação.

Compostos por imagens em vez dewvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAesouem átlcos. e concretos em vez de abstratos. os pré-conceitos não

se referem a objetos QUe possuem uma identidade

estável através do tempo. nem a classes ou grupos de objetos semelhantes.

Piaget chama deEDCBAt r a n s d u c t iv o o tipo de racio-cínio pelosouals a criança pré-escolar liga vários

con-ceitos. Passando do particular para o particular. ela

centra-se em um aspecto atraente do acontecimento e. em seguida. elege outro aspecto atraente. Com tudo pode estar relacionado "casualmente" com ou-tras coisas dentro de um todo sincrético. a criança

tende a encontrar razão para tudo.

A existência desses pré-conceitos decorre do fato de QUea capacidade de formar conceitos

pres-supõe o acesso às operações de c o n s e r v a ç ã o .fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAd s s

-s if lc a ç ã o es e r ia ç ã o . Por não dispor da conservação é Que o bebê ou a criança peouena não percebem QUe

os objetos. mesmo de alguma forma modificados. conservam suã identidade. Apenas a partir do

está-gio pré-operatório. Quando domina essas operações. é Que a criança começa a dominar conceitos.

A formação de conceitos recebe especial

des-taoue na obra rygotskiana e nos remete a Questões

sobre a relação pensamento - linguagem. mediação cultural no processo de construção de significados.

processo de internalização e o papel da escola na produção de conhecimentos.

De acordo com Vygotsky o percurso do pen-samento conceitual engloba três grandes estágios subdivididos em várias fases. No primeiro estágio.

chamado de agregação desorganizada ou

amontoa-38 EDUCAÇÃO EM DEBATE

do. a criança. com o pensamento marcado pel "slncretismo", faz agregações com base em nexos

vagos. subjetivos. baseados em fatores perceptuais Esses nexos são instáveis e não têm relação com os

atributos relevantes dos objetos.

O segundo estágio é marcado por variações

do pensamento por complexos. Quando os objetos isolados associam-se na mente da criança não ape-nas devido às impressões subjetivas. mas tarnbérr

devido às relações concretas Que de fato existem

en-tre esses objetos. No entanto. devido ao sincretism do pensamento. essas relações baseiam - se em

cri-térios Que mudam aoualouer momento. pois o pen-samento por complexos não reflete as relações objetivas do mesmo modo Que o pensament

conceitual propriamente dito. características do ter-ceiro e último estágio.

Entre o pensamento por complexo e o pensa-mento por conceitos. existe ainda uma construçã

Que funciona como um elo entre as duas fases

Vygotsky (I 993: 57). chama essa construção d pseudoconceito poroue "a generalização formada nz mente da criança. embora fenotipicamente semelhante

do conceito dos adultos. é psicologicamente muit diferente do conceito propriamente dito: em sua

es-sência. é ainda um complexo".

Vygotsky distingue os conceitos espontâneos

aoueles Que são construídos na experiência pessoa

concreta e cotidiana das crianças. dos conceitos

ci-entíficos. Que são aoueles elaborados por meio d ensino sistemático. geralmente no ambiente escolar

Na formação de conceitos existe um movimen

do pensamento dentro da pirâmide de conceitos

oscilando entre duas direções: do particular para geral (ascendente). no caso dos conceitos

espontâ-neos. e do geral para o particular. para um nível ma' elementar e concreto (descendente). no caso dos conceitos científicos.

Vygotsky. através dos seus experimentos.

ob-servou Que a criança. e em parte o adolescente. re-solvem com relativo sucesso problemas Que envolve conceitos. porém. ambos descem a um nível

ma-primitivo do pensamento ao dar as definições verba

(4)

ponde Q ue "ela vai pra escola

porcue

é criança-I e a ellsão (a fala da criança om ite dados e por isso apre-senta - se confusa. por exem plo. diante de um a fala de um a m enina com um bebê no colo. ela deduz Q ue essa m enina cuida do bebê. e. considerando esse fato. afirm a Q ue a m enina "fica segurando o filho nos bra-ços". Q uando. na realidade deveria dizer: "a m enina segura do bebê com o um a m ãe").

P ara W allon (D A N T A S . 1990) as tarefas

es-senciais do conheclrnento ' consistem em definir e explicar. ou seja. identificar os objetos.

individualizá-Ias. distingüi-Ios dos dem ais e estabelecer relações

nítidas entre eles. P or ligar tudo a tudo. devido a seu pensam ento sincrético. é Q ue a criança não dom ina

conceitos. m as prim órdios de conceitos. em Q ue o

critério classificador sofre flutuações. E ssas

constru-ções tam bém foram observadas por

Píaget,

Q ue

cha-m ou-as de "pré-conceitos". e por V ygotsky. Q U efalou

em "am ontoados" e "com plexos".

O pensam ento está sem pre am eaçado de dis-persão (D antas. 1990). pelas analogias entre os ob-jetos e pelas divagações oriundas da atividade pessoal Q ue agrupa as m udanças Q ue ela própria causa (um m enino de cinco anos identifica o anão com o pessoa

peouena

m as o diferencia da criança

poroue

ele tem

dinheiro. E m seguida identifica a si próprio com o al-guém Q ue tam bém tem dinheiro. já Q ue seu pai lhe deu dez reais sua m ãe lhe deu cinco reais. O u seja.

ele identifica a criança com o sem elhante ao anão.

reunindo-os na classe das pessoas

peouenas.

dife-rencia-os lem brando Q ue só o anão tem dinheiro. e em seguida. identifica-se com o um a criança Q ue tem dinheiro. reunindo novam ente criança e anão num a m esm a classe. a das pessoas Q ue têm dinheiro). A

l-terna-se. no pensam ento sincrético. a tendência de

reunir e identificar e a tendência de diversificar e di-ferenciar. C om a distinção entre sujeito e objeto pen-sado e entre a Q ualidade e a coisa. torna-se possível a diferenciação dos objetos entre si.

P or volta dos seis anos. idade das crianças Q ue

com põem a m ostra desta

pesouisa.

o pensam ento

dos conceitos. E sse fenôm eno nos m ostra Q ue o

enun-ciado verbal de um conceito. m uitas vezes. não

cor responde ao conhecim ento Q ue se tem sobre o

m esm o conceito na realidade prática. O s experim en-tos tam bém concluíram Q ue. Q uanto m ais jovem for a

criança. m aior dificuldade ela dem onstrará no m

o-m ento de definir verbalo-m ente uo-m conceito.

P iaget. V ygotsky e W allon parecem concordar com o fato de Q ue o pensam ento sincrético é o m aior

responsável pela caracterização "confusa" dos

con-ceitos prim itivos. pois ele perm ite Q U ea criança ligue

tudo a tudo. P ara W allon (1989). as representações

da criança

peouena

não têm um interesse ou um a

necessidade im ediata e ocorrem com o sim ples

apro-xim ações. em Q ue. freoüenternente. um novo com

-plexo se sobrepõe ao anterior.2

S egundo W allon (1989: 30). o pensam ento

infantil se faz. basicam ente. por pares de idéias. pois.

"todo term o identificável no pensam ento.

pensável.

exige um term o com plem entar. com relação ao Q ual

possa ser oposto". P orém . nos pares. as idéias. em

vez de se associarem . são m isturadas. am algam adas. de form a Q U e não existe um a separação clara entre cada unidade do par. D e acordo com ele. o par. "m o-lécula do pensam ento". dará origem . após um longo trabalho de diferenciação. ao conceito.

S ão com uns ao pensam ento sincrético alguns

fenôm enos com o a

fabulação

(no Q ual criança cria

explicações originais Q ue. pelo seu caráter alegórico. se assem elham às fábulas). a contradição. a tautologia (em Q ue a criança define um term o pela repetição do m esm o. por exem plo. Q uando lhe perguntam "o Q ue é um a criança?". ela responde "um a criança é um a criança Q U e brinca. vai pra escola"). as explicações

circulares (à pergunta "o Q ue é um a criança?". ela

responde Q ue é "um a pessoa Q U evai escola" e Q uan-do indagada por Q U e a criança vai à escola. ela

res-2

o

relato a seguir exem pliflca esse fenôm eno: diante de um a foto de um a m enina de dez anos com um bebê nos braços. losé (S anos) contou a estória de um a m enina Q ue gostava de segurar o irm ãozinho no colo. e Q ue dispensava a ele outros cuidados. A o atribuir à m eni-na o papel de m ãe. losé afirm ou Q ue se tratava de um a pessoa adulta (o novo com plexo "cuidar de bebê - m ãe - pessoa adulta" se sobre-pôs ao anterior "peouenaestatura - irm ã - criança").

3E ssas tarefas se assem elham às atribuídas por P iaget à inteligência: com preender e estruturar o real (1 9 7 6 ).

(5)

passa por um período de significativas transforma-ções. Éo início do estágio categoria!. marcado pelo amadurecimento da discriminação e a inibição. fun-ções Que desempenham um importante papel na re-dução do sincretisrno." O pensamento categorial.

condição primeira para a elaboração de conceitos. está em formação. Mas sua conoulsta dura todo o

estágio categorial e somente por volta dos onze anos de idade será plenamente atingido. Vygotsky e Wallon

parecem. então. compartilhar da idéia de Que os

con-ceitos propriamente ditos são uma construção do adolescente e do adulto.

O desenvolvimento dessas funções não

depen-dem apenas do amadurecimento biológico. mas

tam-bém de fatores sociais. A consolidação da função categorial depende. em parte. do meio cultural: ten-do acesso ao conhecimento formal. às

discrimina-ções já feitas pela cultura. a criança terá melhores condições de realizar as suas próprias diferenciações.

melhorando sua compreensão objetiva da realidade. Para os três teóricos em Questão. o pensamento

sincrético parece ser o maior responsável pelo as-pecto conflítuoso das construções QUe dão origem

aos conceitos. Quanto ao momento em Que surgem os primeiros conceitos a concordância não é

com-pleta. Para Vygotsky. como para Wallon. a sensibili-dade à contradição. longe de ser inata. é bastante tardia. e por isso a capacidade de elaborar conceitos

propriamente ditos é uma característica do adulto e do adolescente. já para Piaget. os conceitos são uma

construção comum ao estágio operaclonal. pois. nesse

período. as crianças já dispõem das operações de

conservação, classificação e seriação. indispensáveiswvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

à formação de conceitos. Para ele então. a partir dos sete ou oito anos. a criança já é capaz de elaborar conceitos verdadeiros.

Os estudos desses teóricos sobre o processo

de formação de conceitos ofereceram importantes dados para a definição de diretrizes para a pesouísa. sobretudo no Que se refere à metodologia adotada.

4Segundo Wallon (GALVÃO, 1995). o sincrctismo retrai-se, paula-ttnarnente. dos cinco aos dez anos de idade, mais ou menos.

40

EDUCAÇÃO E~I DEBATE FORTALEZA ANO 24EDCBAV . 2

A

pesquisa

I) Procedimentos

A partir do reconhecimento da multiplicidade

da infância. a presente pesouísa realizou um estudo comparati o em duas realidades socioeconômicas

dis-tintas. O objeti 'o era obser 'ar como o contexto socioeconômico e c I ral em QUeas crianças vivem in er ere na cons ção o seu conceito de criança.

as d as escolas. sendo uma

3 ic lar escola A e escola B,

3S 03 Cdade de Fortaleza. A

es 0 3 • a associação de católicos

franceses. ate bres. cujas mães

tra-balha ora. e nas pro imidades do

La amar. área co s as fa 'elas. onde a população 'i e ' sl as co díções. A escola B. particular. é fre r crianças das classes

média e média - ai a. resí n es o bairro da Aldeota

e adjacências. região no re.

Além da situação sóc0- conômica da

clien-tela. existem duas ou ras i ria es diferenças

en-tre as instituições. As cria ças da escola A permanecem o dia in eiro a escola. e na escola B.

onde o sistema integral é o cio ai odas as crian-ças Que participaram da es lsa Ireoüentam a es-cola apenas no turno da an ã. a escola A. a

abordagem parece ser a tradicional' e a escola B demonstra. claramente. er o ado or uma

pro-posta construüvísta." 'ão podemos ianorar o fato

de Que. por trás dessas duas pos uras pedagógicas estão dois conceitos distintos de criança.

5Nessa abordagem de ensino - aprendiz:J 'e o <.itoé considera-do um homem acabaconsidera-do e a criança um - o e miniatura", Que

precisa ser atualizado. Sendo assim, acrtm ça, como aluno, deve apcnas executar as tarefas, seguindo os passos determinados pelo

professor, detentor do saber (Mizukarru, 19 6).

6Essa abordagem. predominantemente interacionista. tem na teoria

piagelianJ os seus pressupostos teóricos. Se undo Piaget. no seu

desenvolvimento a criança reinventa todo o processo racional da

humanidade. e na medida em Que ela rcinvcnta o mundo. desenvolve

- se sua inteligência. Nessa abordagem o ensino baseia - se no

en-saio e erro. na pcsouisa. naInvesügaçâo. na soluções de problemas por parte do aluno e não em aprendizagem de fórmulas.

nomencla-turas e definições (idem. ibidem).

(6)

A am ostra é com posta de dois grupos, um de

cada escola. C ada grupo é form ado por seis

crian-ças: três m eninas e três m eninos (escolha por

sor-teio). freoüentadoras da classe de alfabetização. A

escolha dessa classe parte do pressuposto de Q ue,

ouanto

m ais nova, m ais espontânea a criança se m

a-nifesta. A o m esm o tem po, na faixa dos seis anos, ela

já dispõe de um a certa desenvoltura da expressão

verbal, o Q !.Jefacilita o diálogo com o

pesquisador.

E ssas considerações encontram suporte em W allon

(D antas, 1990), para Q uem as crianças m enores de

cinco anos não possibilitam um a "conversa seguida"

e as m aiores de nove já têm obscurecidos os m

eca-nism os m ais espontâneos.

11)

Instrum entos

A s contribuições de P iaget. V ygotsky e W allon

sobre as características do pensam ento e da

lingua-gem na faixa etária

pesoutsada

e os seus estudos

so-bre o processo de form ação de conceitos foram de

extrem a im portância na construção dos instrum

en-tos utilizados na

pesouísa

de cam po.

B uscando captar o olhar infantil sobre a

crian-ça, procurei construir instrum entos Q ue estim

ulas-sem a expressão verbal das crianças, para Q ue fosse

possível registrar seus discursos. C om o as crianças

tinham , em m édia, seis anos, apelei para técnicas Q ue

respeitam as características da inteligência prática e

do pensam ento concreto, com uns a essa faixa etária. lá Q ue os conceitos espontâneos, categoria na

Q ual se

enouadra

o conceito de "criança", com eçam

sendo incorporados

à

vida prática e só depois passam

a ser expressados verbalm ente, a

pesouisa

optou por

instrum entos não convencionais, de caráter projetivo.

dando

à

entrevista um papel apenas com plem entar.

D urante o processo de construção dos instru-m entos, foi realizado uinstru-m projeto piloto coinstru-m o obje-tivo de testar os instrum entos e fazer as m odificações

necessárias diante das dificuldades surgidas na sua

aplicação. A cada instrum ento experim entalm ente

aplicado, surgiram categorias a partir das

cuaís

as

crianças definiam o Q ue é um a criança. A lgum as

ca-~ -ca-~ ;g ;x :'ca-~ "ca-~ ca-~

tegorias se repetiram com freoüêncía: a neccssids.

de cuidados

e a dependência

dos pais

(W é

bebêzinho Q ue a m ãe bota no braço, dá banho, pas-sa pas-sabonete, enxuga", "o m enino não pas-sabe escorre-gar só, aí o papai fica segurando ele", "o nenen pode cair"),

a estatura física

C 'm enor Q ue o pai", "é um a

criança

peouena".

"é um a pessoa

peouena ").

o

uso

do tempo

("vai pra escola", "gosta é de brincar")

o

crescimento

(T e m Q ue alm oçar pra ficar forte").

as

idades da infância

("tem criança Q ue é bebê, m as a

gente era bebê, agora estuda "). o

corpo

("tem

cabe-ça, tem olho, tem boca, tem b a rrig a "). o

nível de

conhecimento

(alguém Q ue "não sabe" ou "sabe

pou-co"),

o papel dentro da estrutura familiar (

"é a neta

da avó", "é a irm ã do irm ão").

o gênero

("é m enina,

é m enino", "as m enina têm brinco, os m enino não")

e

a origem

("nasce da barriga").

A pós o projeto piloto, os instrum entos a

se-rem usados com as crianças tiveram seus últim os

contornos definidos.

A entrevista com os pais, com o a entrevista

com a criança, foi definida anteriorm ente ao projeto

piloto. A ntes de iniciar a entrevista era dada um a breve

explicação a respeito da

pesouisa.

E ssa entrevista

vi-sava conhecer um pouco da história de vida da

crian-ça e as condições de existência de sua fam ília,

inform ações essenciais num a

pesquisa

sobre criança.

A través da entrevista foram levantados dados sobre

a condição socioeconôm ica da fam ília, a dinâm ica do

grupo fam iliar, seus valores, sua cultura e o Q ue

re-presenta cada criança para a sua fam ília. B U S Q uei

tam bém obter inform ações sobre a rotina das crianças, seus hábitos, suas preferências. P edi tam bém Q ue os entrevistados definissem o seu conceito de "criança", pois o conceito de criança dos pais é de grande im -portância, já Q ue é, em parte, com base na represen-tação Q ue os pais têm de criança Q ue eles definem as

diretrizes da educação dos seus filhos. A lém disso,

os pais desem penham im portante funçãocom o m

edia-dores das crianças no seu conhecim ento do m undo.

A entrevista com a criança não teve apenas o

objetivo de coletar dados. A través dela

busquei.

tam

-bém , estabelecer um vínculo pessoal positivo com

(7)

cada criança, informando-as, dentro do possível,

so-bre o objetivo da pesoulsa. Sua meta principal foi, porém, conhecer, sob a perspectiva da criança, o seu contexto familiar, a sua rotina e suas preferências. O momento da entrevista foi usado ainda para sondar o

conceito de criança das crianças na forma verbal,

atra-vés da pergunta, sem nenhuma introdução ao tema, "o Que é uma criança?". Nesse sentido, a entrevista

teve função apenas complementar, pois nessa idade a criança apresenta dificuldades de expressar

concei-tos na forma de enunciados verbais.

Os outros instrumentos aplicados às crianças

tiveram como objetivo específico a investigação do conceito de criança. Eles têm, como característica, a

capacidade de inserir a criança em situações concre-tas, Que lembram o seu dia-a-dia, facilitando a

ex-pressão de idéias, já Que ela ainda não dispõe de um nível mais complexo de abstração.

AwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAestória para com pletar, instrumento criado

com base no "M éthode des Histoires à Cornpleter ".

elaborado pela francesa Madaleine Backes Thomas, introduz a criança na fantasia da história narrada e estimula a sua participação. Aplicado ao grupo de

alunos de cada instituição, esse instrumento favore-ceu um debate descontraído entre as crianças. A

observação desse debate possibilitou, por sua vez, o

acompanhamento do percurso do pensamento das crianças na tentativa de encontrar critérios Que pos-sibilitassem a definição do conceito de criança. A

his-tória criada para a pesouisa. fala de um país fictício onde só existem adultos. O grupo de crianças é

con-vidado a entrar na trama da estória para ajudar João, um menino do nosso país, a explicar a uma mulher

do país fictício, pelo telefone, o Que é uma criança. Esse instrumento mostrou-se bastante eficaz. Desde o início de sua aplicação, envolveu as crianças, Que.

imersas na fantasia da estória e estimuladas pelo de-safio. ao mesmo tempo, simples e complexo de

conceituar a criança, participaram com entusiasmo.

É importante ressaltar. porém, Que as crianças do grupo B. especificamente. revelaram-se mais

ouestíonadoras: discutiram a possibilidade de

exis-tência de um país sem crianças. argumentaram QUe

42 EDUCAÇÃO EM DEBATE

Dona Maria "já foi criança um dia". perguntaram

ela tinha "nascido adulta" e se ela era "gigante". O desenho-estória é um instrumento construí a partir de uma adaptação do Procedimento de

De-senhos-Estória. criado pelo psicólogo Walter Trin no início da década de 70. Essa técnica,

originamente voltada para a investigação clínica da person -lídade. reouer Que o sujeito realize uma série

desenhos livres. sendo cada Qual um estímulo pa QUeele conte uma história. associada livremente, 100

após a realização de cada desenho (TRINCA. 1976

Para a presente pesouisa as instruções do

Proced-mento de Desenho-Estórias também foram modi -cadas: em vez de pedir para a criança fazer "o desen

Que Quiser. como Quiser". pedi Que ela fizesse desenho de uma criança, como Quiser".

O objetivo dessa técnica. na presente pesQl.-sa. não é a produção de desenhos para posterior

are-lise. O desenho é usado aQui como estímulo pa

Que a criança expresse suas idéias verbalmente. po motivada a falar sobre o seu desenho (algo concr -to). a criança revela a sua compreensão (algo abstra-to) sobre aouilo QUe desenhou. É sabido també Que as crianças costumam demonstrar especial int

resse pela expressão artística. o Que deve ser con -derado pelospesouisadores da infância, na elabora

-dos seus instrumentos de pesouisa.

A estória com base em fotografia: esse instr; mento foi criado especialmente para a presente p

-ouísa. É possível Que outros pesouísadores

tenha-feito uso do recurso da fotografia para estimular

expressão verbal dos sujeitos investigados. pore-nenhum trabalho anterior foi adotado como referenc

na definição desse instrumento. A idéia de usar fo grafias considera as características do pensamen

ainda marcadamente concreto na faixa etária das cri ças da amostra.

A partir das categorias utilizadas pelas criar

ças do projeto piloto para definir a criança. fora escolhidas as fotos a serem usadas nesse

instrume=-to. As fotografias seleciona das apresentam cenas c

muns à rotina das crianças das duas realidades soe:

Que compõem a amostra. Cada foto contempla

(8)

1zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAse s duas daouelas categorias. As fotos

selecio-JaS são do Museu da Imagem e do Som de

Forta-de catálogos do UNICEF e Forta-de arouívo pessoal. iído

De-nca

nal-

siderações

Finais

ma-de Através do processo de análise dos dados da

nte pesoulsa. foi possível observar Que a

for-- o de um conceito na criança está longe de ser

simples reprodução do significado do mesmo eito para os adultos. Pode-se observar, na fala

crianças, um grande esforço do pensamento na

ração de idéias e, em alguns momentos, a ten-fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

â de superar contradições surgidas entre uma idéia

.rra.

Para elaborar o conceito de criança, a criança

-sc. predominantemente, na sua percepção

sen-I("a criança é peouena, o adulto é grande") e

periências vivênciadas no seu ambiente social. - meio das ouaís ela tem acesso a conceitos

ruídos pelo seu grupo social. Porém, a criança

- se constitui um mero reprodutor de conceitos já

rados pela cultura. Como pude perceber,

so-e.udo nos debates ocorridos durante a aplicação

-istrumento estória para completar, as crianças eendem grande esforço na tentativa de explicar "'enças e semelhanças existentes entre "crianças"

ão-crianças". caindo, muitasv e ze s , em

contradi-Que para nós, adultos, parecem absurdas. Durante o projeto piloto foram percebidos al-critérios adorados pelas crianças na tarefa de

ir uma criança. Esses critérios foram organiza-em categorias: a e s t r u t u r a c o r p o r a l . a e s t a t u r a

a n e c e s s i d a d e d e c u i d a d o s e d e p e n d ê n c i a d o s

oc r e s c i m e n t o , a s i d a d e s d a i n fâ n c i a , on í v e l d e

c c i m e n t o , op a p e l d e n t r o d a e s t r u t u r a fa m i l i a r , o

' [ O , o u s o d o t e m p o e d a s c o i s a s e a o r i g e m .

Os dados colhidos na pesouisa mostram QUe

lanças investigadas também fizeram uso dessas

orlas. Surgiram, porém, n o v a s categorias: a s

t e r í s t i c a s p e s s o a i s , a s c a r a c t e r í s t i c a s d c c o r r c n -a c fa t o r e s e c o n ô m i c o s ea b r i n c a d e i r a . Quanto às )ara

ogo 76).

edi- difi-:nho

"o

Qui-

aná-para

iois.

icre- stra-iérn.

inte-

rnsl-ação

stru- pes-iharn

lar a

xém

:ncial

foto-ento,

.rian- :rian-oram

rnen-IS

co-xíaís

pelo

EDUCAÇÃO EM DEBATE

c a r a c t e r í s t i c a s p e s s o a i s , essas crianças abordaram o fato de as crianças serem diferentes umas das outras,

atribuindo essas diferenças não apenas à idade (uma criança de um ano é diferente de uma de seis anos, por exemplo), mas também a diversas

peculiarida-des: existem crianças preguiçosas, estudiosas, boazi-nhas, desobedientes, Quietas, danadas, gordinhas,

magrinhas. Trataram também das d i fe r e n ç a s d e c o r

-r e n t e s d e a s p e c t o s e c o n ô m i c o s . existem crianças

ri-cas e crianças pobres, crianças Que freqüentam a

escola e crianças Que não frecüentarn a escola,

crian-ças QUe trabalham e criancrian-ças oue.não trabalham. A

b r i n c a d e i r a , a Que as crianças deram grande ênfase como a atividade mais peculiar à criança, foi uma categoria usada com frcoüência para descrever a

cri-ança: ela brinca de boneca, de pipa, de bola.

É importante observar a forma como essas categorias foram abordadas por cada grupo. A e s t a

-t u r a fí s i c a foi uma categoria a Que todas as crianças, sem distinção entre os grupos, se referiram. Ela apa-receu na composição de pares ("criança-adulto" e

"peouena-grande"). estrutura Que caracteriza o pen-samento dacriança." Éválido ressaltar Que o adulto constitui-se o principal referencial comparativo na

definição do conceito de criança, partindo a

defini-ção do Que é uma criança das diferenças percebidas entre a criança e o adulto.

O c r e s c i m e n t o foi outra categoria bastante

utilizada pelos dois grupos. Quando tratavam do tema, as crianças descreviam, também, as diferen-tes i d a d e s d a i n fâ n c i a . Foi observada, porém, uma

diferença Quanto a forma de cada grupo abordar o

crescimento. Enquanto as crianças da escola A detiveram-se no crescimento da criança e nas con-seqüências desse crescimento (conslderararn. por

exemplo, Que, Quando crescem, os bebês

apren-dem a andar e comer sozinhos), as crianças da escola B não falaram apenas do crescimento e

de-7Segundo Wallon (1989: 30). "O pensamento existe apenas pelas

estruturas Q.ue introduz nas coisas. Inicialmente, há estruturas muito

elementares. O Q.ueépossível constatar. desde o início. éa existência de elementos oue estão sempre aos pares. O elemento do pensamento

éessa estrutura binária. não os elementos Q.ue a constituem".

(9)

senvolvimento da criança, mas do

desenvolvimen-to humano de uma forma geral, abordando as

di-versas fases desse processo e fazendo referência, inclusive,wvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAà morte como o término de um ciclo Que começa com o nascimento. Há indícios de Que o

meio cultural onde as crianças desse grupo vivem favoreceu o seu acesso ao conhecimento das

dife-rentes fases do desenvolvimento humano. Apre-endendo essas diferenciações, a criança parece

compreender melhor a diferença entre criança e "não-crianças", o Que pode facilitar a construção

do conceito de criança. Não ficou claro, porém, se as informações sobre o desenvolvimento

huma-no foram adquiridas na escola. É provável Que a família também tenha importante papel como me-diadora desse conhecimento.

Já a categoriafedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAn e c e s s i d a d e d e c u i d s d o s e d e

-p e n d ê n c i a d o s p a i s foi usada de forma mais ou menos semelhante pelos dois grupos para descrever,

princi-palmente, os bebês. Ao descrever as crianças maiores, porém, os grupos revelaram peculiaridades. As crian-ças da escola A atribuíram à criança a capacidade de

realizar tarefasoue são mais comumente atribuídas aos adultos: ela cozinha, varre a casa, lava a louça, limpa

os móveis, lava banheiros, faz o caminho de volta da

escola para casa sozinho, faz compras. Já as crianças da escola B, apesar de reconhecerem Que,à medida em oue cresce, a criança se torna menos dependente dos pais, não reconheceram as atividades acima

cita-das como habilidades da criança. Para elas, a criança

não sabecozinhar e não sai sozinha poroue "não sabe o caminho de casa". Éimportante lembrar, porém, Que mesmo atribuindo tantas capacidades àcriança, os me-ninos e meninas da escola A abordaram, de diversas formas, a necessidade de cuidados das crianças e a

função dos pais de cuidar, alimentar e proteger os filhos. Quanto ao n í v e l d e c o n h e c i m e n t o , esses

me-ninos e meninas, em geral, consideram Que a criança

vive, sob vários aspectos, um processo de aprendi-zagem. Enquanto a criança é um aprendiz, o adulto é alguém Que sabe e Ihes ensina. Nas falas da maioria

dessas crianças a escola tem destaoue como um

es-paço onde se dá a aprendizagem.

44 EDUCAÇÃO EM DEBATE

o

g ê n e r o foi outra categoria utilizada pelas

crianças no seu processo de definição da criança. Err

ambos os grupos foi possível perceber Que as criar-ças estão apreendendo modelos femininos e mascu-linos de comportamento. Não Que esse tema tenh:: recebido destaoue especial nos discursos das

criar-ças, mas à medida Que falaram de suas preferênci ao brincar e das atividades desenvolvidas por se pais, demonstraram Que já interiorizaram modelos

condutas ainda considerados especificamente mas-culinos e femininos pelo seu grupo social.

Além da estatura. ou s o d o t e m p o e d a sEDCBAc o is

foi a categoria mais explorada pelas crianças no pro-cesso de definir a criança. À medida Que tratava

dessa categoria, as crianças destacaram uma outra:

b r i n c a d e i r a .Com freoüência. elas apresentaram aidéi

de Que a brincadeira é uma atividade própria da cri-ança e o trabalho uma atividade específica do adulto

A e s t r u t u r a c o r p o r a l . categoria usada co maior freqüência pelas crianças da escola A. surgL

predominantemente nas situações em Que não ha .-uma representação concreta de criança, ou seja, entrevista e na estória para completar. Nos

rnorner-tos em Que dispunham dos desenhos ou das fornorner-tos

esse recurso praticamente não foi usado. É impor-tante lembrar oue. devido a insuficiente capacidad

de abstração das crianças dessa faixa etária, a apre-ensão e compreapre-ensão do real dá-se, basicamente, pc meio da percepção. Não havendo a imagem

concre-ta de um objeto, as crianças sentem necessidade

evocar, através da descrição de aspectos concretos o objeto ausente. Buscando, então, definir a criança

as crianças afirmaram Que ela é alguém Que "te corpo, tem braço, tem pelo ... é um menino Que te

braço, tem perna, tem cabeça ... tem olho, te nariz ... tem cabelo de pipoca ... tem um corpo, u cabelo, toma banho, se penteia". É válido ressaltar porém, Que o uso dessa categoria deuse, sobret -do, na estória para completar, Que teve aplícaçã

grupal. Deve-se considerar Que, tendo a primeira

cr-ança usado esse tipo de descrição, é possível Que outras também tenham se sentido impulsionadas

fazê -10, fenômeno a Que Wallon (1989) chamou

(10)

pelas .a. Em ,

crian-

iascu-tenha crian-ências

. seuswvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

elos e

contaminação de motivos ou temas". As crianças

a escola B, por outro lado, não usaram, de forma

solada. esse recurso. A descrição física dava-se as-sooada a outros aspectos: idade da criança, seus

tra-ços de personalidade, suas preferências.

A categoria Q!.Iediz respeito aofedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAp a p e l d a c r i

-...7 ç a n o s e u n ú c l e o fã m i l i a r , da mesma forma Que a estrutura corporal. foi usada por apenas duas

crian-;:15 da escola A (a criança é "o filho da mãe", ou, plesmente, o "filho").

A presente pesouísa, ao tentar investigar o

con-ceito de criança na perspectiva da criança, permitiu o

~esso a outras informações interessantes, sobre como _ criança percebe outras Questões Que compõem a - ...•ssa realidade. Tentando estruturar o real. buscando

a ordem para as coisas Q!.Iepercebem. esses

meni-5e meninas abordaram vários aspectos da

socieda--- contemporânea. Ao mesmo tempo Que descreveram _ realidade na sua ótica, falaram também do universo

ulto. dos nossos valores, dos medos e ansiedades

e vivemos na atualidade.

Algumas Questões abordadas pelas crianças. zorno relações de gênero, a brincadeira.

desenvolvi-r.ento humano e dependência do adulto já foram

enatízadas. Outras Questões sob asouaís as

crian-Ç lS também se posicionaram. como o i d e a l d e c r i a n -d o s a d u l t o s , o t r a b a l h o , a v i o l ê n c i a e a e s c o l a .

_:-ecisam ser discutidas .

Algumas crianças, dos dois grupos

indistinta-+ente. definiram a criança com características Que

5 remetem à idéia de criança ideal: "criança é um

m aluno, obedece à mãe, gosta de estudar", "fica

amor, não bate nos outros", "é bonitinha e

le-z- : " . "é gentil", "gosta de tomar banho". "faz a

tare--':! poroue a mãe pediu", "não gosta de se atrasar pra ola". Essas definições, Que parecem revelar uma -pia de criança ideal segundo a perspectiva do

adul-nos mostram Que a criança é bastante competen-ara perceber o Que desejam dela. Podemos supor,

bérn. Que ela deve ter igual competência para r Quando não corresponde às expectativas,

mui-'ezes excessivas, dos seus pais e professores.

Faz-onecessário Que se pondere essas expectativas, pois

mas-.o l s s s I

pro-avam tra:EDCBAa

idéia

a

cri-lulto. com urgiu

havia

a. na

nen-atos.

ipor-dade

Ipre-. por

icre-e dicre-e -tos.

nça.

'tem

tem tem

um

Itar.

etu-ção

cri-e as

IS a

Ide

---. .~- ...- -= - , t ~ = : t r " - · _ · " ~ " '~ " '· ; ; ; ; · · : r ~ : ; . : ;

muitas vezes elas negligenciam as características das

crianças e dificultam o processo de construção de uma boa auto-estima. Como nos lembra Dantas (1990). a teoria walloniana afirma Que durante o

cuar-to. Quinto e sexto ano de vida. o eu. ainda frágil.

necessita da admiração alheia para completar a sua

construção.

Ao falar do adulto e abordar o t r a b a l h o como

a atividade Que o caracteriza. essas crianças revela-ram a compreensão do trabalho enouanto fonte de renda. principalmente: os adultos "trabalham pra

ganhar dinheiro e comprar de novo as coisas Que Quebraram". a mãe trabalha "poroue ela não tem

dinheiro ... passou o dia com fome". Crianças e adul-tos são bem diferentes. pois enouanto o Que a cri-ança mais gosta de fazer é "correr. brincar". os

adultos preferem "dormir e ganhar dinheiro".

Ape-sar do trabalho não ser uma atividade característica da criança, o trabalho infantil, em geral. não é visto

de forma negativa por essas crianças. Que o perce-bem não como um problema. mas como a solução de um problema: "é uma coisa boa trabalhar. ..ganha

dinheiro. pode comprar o Que Quiser". "a criança acha bom trabalhar poroue ela ganha dinheiro". "a

menina vende fruta poroue a mãe dela mandou ... senão elas vão ficar pobre e sem dinheiro ... ela acha

ótimo vender fruta".

Nas falas de algumas crianças ficou clara a per-cepção da v i o l ê n c i a como uma ameaçafreoüente. As

crianças da escola A falaram de seus medos diante

da possibilidade de serem assaltadas. atropeladas. assassinadas ou violentadas pelo adulto (existem

adul-tos "Que batem em meninos Que ficam na rua"). Jáas crianças da escola B falaram do risco de atropela-mento esecüestros. Essa crianças sofrem as

conse-oüênoas da desigualdade social. Expedito. da escola

B. abordou a situação de pobres e ricos na nossa sociedade. Segundo ele. as crianças pobres se revol-tam diante da fome: "às vezes eles ficam com tanta

fome. chega eles ficam com ódio de Deus. aí eles ficam roubando comida. se matando". Afirmou

ain-da Q!.Ie as crianças ricas vivem amedrontaain-das pela possibilidade de serem seoüestradas: "elas são

(11)

••• *zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

.

gre. mas Quando saem na rua com o dinheiro todo. podem até ser seoüestrado".

Por fim. os depoimentos dessas crianças nos

oferecem pistas sobre como as crianças percebem afedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

e s c o l a . Elas disseram Q!.1evão para a escola para "ficar inteligente". "aprender". "crescer" e. principalmente.

"aprender a ler e escrever". competência bastante va-\miz.ada e Qlle se constitui uma das diferenças entre o

(\'\\~\\\:)It (\wvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA\.:< \(\\\~ (\.~ \...\.\ô.\\~ô.<;,<ias <ia\s ~u\las

at~i\:m-íram à escola função semelhante: ensinar às crianças coisas Q!.1eelas não sabem e precisam saber. sobretu-do os mecanismos da leitura e da escrita. Associaram

a escola às tarefas. Que algumas disseram executar com

prazer e outras afirmaram tratar- se de uma obrigação

Que costuma ser cobrada. não só pelas professoras. mas também pelos pais. Porém. enquanto as crianças da escola A descreveram a escola apenas como um

local onde se estuda. as crianças da escola B a descre-veram também. como um lugar em Que se aprende

"muitas coisas". se encontra amigos e onde é possível pintar "ouadrinhos". Há indícios de Que as crianças da escola B acreditam Que a instituição escolar

desenvol-ve o intelecto das pessoas e. de alguma forma. as Q!.1a-lifica para o trabalho (na escola a criança "fica mais

inteligente" e "aprende coisas pra depois ter um bom

emprego e ganhar dinheiro").

É interessante observar Q!.1e.para as crianças da escola A. o objetivo dos estudos parece ser

corresponder às expectativas da professora. Elas dis-seram estudar "pra ler Quando a tia mandar e não

errar a palavra" e "pra ir pro outro colégio". o Que

significa ser aprovado no final do ano. já Que a alfa-betização é a última série oferecida por essa escola. Pode-se supor. Que o processo da leitura e da escrita não foi apresentado a essas crianças como um

ins-trumento na solução de problemas da vida concreta

de cada um. Elas não pareciam relacionar a capaci-dade de ler e escrever à possibilicapaci-dade de decifrar ró-tulos de produtos na mercearia. ler uma revistinha ou

mesmo uma placa na rua. As crianças dessa escola parecem fazer as tarefas com um mesmo objetivo:

serem aprovados. Ainda assim. três das seis crianças

desse grupo disseram Que gostam de estudar ou. ao

46 EDUCAÇÃO EM DEBATE

tentar definir a criança. descreveram crianças Que gostavam de estudar.

lá para as crianças da escola B. não parece ha-ver nem a preocupação exagerada de corresponder às

expectativas da professora. nem a preocupação com a aprovação para a primeira série. Épossível Que essas diferenças tenham origem na forma como cada escola

desenvolve seu processo de ensino aprendizagem e

reauza a avaliação. Na esco\a em Qllestão. â?enâSEDCBAN \ â ~ â

fez menção a reclamações da professora e. amõa

as-sim. não devido a erros cometidos. mas a tarefas não realizadas: "o menino faz a tarefa poroue ele tem es-cola e tem Que entregar pra professora ...se ela não ver

nada na tarefa ela briga com ele". Algumas das

crian-ças desse grupo afirmaram. inclusive. Q!.1ese aprende a ler "lendo". "tentando ler a palavra". o Q!.1e.na

prá-tica. significa Q!.1e.de certa forma. se aprende por ten-tativa e erro. sem Q!.1eo erro represente uma ameaça.

É válido ressaltar ainda. Que nenhum dos gru-pos descreveu a escola como um espaço onde se

brin-ca. Porém. as repercussões desse fato são diferentes para cada grupo. pois. enouanto as crianças da escola B permanecem na escola apenas o turno da manhã. as

crianças da escola A passam o dia inteiro na escola.

Ou seja. no período da tarde. as crianças da escola B brincam em casa. enouanto as crianças da escola A.

sob o controle da professora. estudam e fazem tarefas. Conforme as observações feitas durante a

pes-Quisade campo. pode-se supor Q!.1ea escola B concede

maior oportunidade para a brincadeira. pois. enouantc não foram vistos brinouedos nas dependências da

esco-la A. na escoesco-la B observou-se. além do pátio com

brin-ouedos e areia de praia. jogos e brínouedos diversos

nas salas de aula. Quando deixaram de mencionar Que brincavam na escola. é possível Que as crianças tenha

considerado irrelevante citar a brincadeira entre as ati

i-dades desenvolvidas na escola. por não considerar a brincadeira uma atividade característica do ambiente escolar e não associar escola com brincadeira.

Partindose de uma idéia de criança como s -jeito histórico e social. Q!.1etem suas características

construídas nas suas relações com o seu grupo soei-al. buscou-se conhecer o conceito de criança em

(12)

anças com características socioeconômicas distintas.

O Que encontrou-se não é, na realidade, um produto o "universo infantil", mas uma construção da

crian-ça na sua relação com o mundo, do Qual fazem par-'e, também, os adultos.

Ao tentar delinear o conceito de criança de

cada grupo, foi possível observar como a criança é ecida" no seu contexto de vida e como ela

partici-a, de forma ativpartici-a, do seu processo de construção. Os conceitos de criança presentes nos dois gru-s apregru-sentaram algumagru-s gru-semelhançagru-s: a criança é

11guém Que gosta de brincar, Q!.Jetem estatura física

enor Que o adulto, Que precisa de cuidados e

prote-ção,

Que

freqüenta

a escola, Que cresce e se

desenvol-.e

física e intelectualmente, Que tem características dividuais, Que vive e sobrevive em diversas

realída-es. As diferenças entre os conceitos de criança dos

is grupos, dizem respeito às competências atribuí-à criança. As crianças da escola A revelaram uma éiade criança mais competente sob alguns aspectos:

•• I-> faz sozinha o caminho da escola para casa, faz,

tarnbérn sozinha, compras para o lar e,

príncípalmen-"e, executa diversas tarefas domésticas (Q!.Jenão são, oor essas crianças, vistas como "trabalho"). Essaatlvl-dades foram consideradas, pelas crianças da escola B,

...omo específicas do adulto. Por outro lado, as crian-ças da escola B revelaram, com maior

freoüêncía.

a

oercepção

de Q!.Jea criança, além de brincar e estudar,

em situações adversas também mendiga e trabalha

(ven-ae

frutas e jornais nos sinais, por exemplo). Em

sínte-, ela ésínte-, tambémsínte-, alguém competente na geração de

-ecursos para a sua sobrevivência.

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Referências

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