A FUNCÁO SOCIAL DA PROSTITUTA
,zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAFrancisca Ilnar de Sousa"
Elaboro neste pequeno ensaio alguns
aspec-tos do imaginário semântico sobre a prostituição e
que acaba por se refletir no depoimento dos
infor-mantes que aqui foram registrados.
LANE, ao falar dos usos e abusos do
con-ceito de representação social, chama atenção para
as comparações que fez ao observar uma
considerá-vel inconsistência no que se referia ao conceito de
atitudes.vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A Repr esenta çã o Socia l, ou seja , a ver ba -tiza çã o da s concepções que o indivíduo tem do mundo que o cer ca , substituir ia , com va n-ta gens, esseconceito.Na s r epr esenn-ta
ções,pode-se detecta r os va lor es, a ideologia e a s
contr a dições, enfim, a spectos funda menta is pa r a a compr eensã o do compor ta mento soci-a l, sem soci-a necessidsoci-a de de infer ir pr edisposi-ções que pouco ga r a ntem uma r ela çã o ca usa l com compor ta mentosRQPONMLKJIHGFEDCBA(1 9 9 3 :5 9 ).
Nesse sentido, foi que privilegiei este
traba-lho partindo da compreensão das representações
so-bre os vários temas presentes nos depoimentos dos
entrevistados. Talvez, através dessas falas, possa-se
rceber o sentido da existência e da função que a
• rostituição tem exercido durante anos e, assim, apre-ntar-se como a mais "antiga das profissões".IHGFEDCBA
E fI N I N D O A P R O S T I T U lÇ A O
Uma das representações que suscitou uma
- cussão interessante foi a relativa à definição da
_rostituição. Essa se foi desenvolvendo baseada no
- curso do senso comum que nomeia inúmeros
e s t r c em sociologia pela Universidade Federal do Ceará
E d u c a ç ã o e m D e b a te -l1 lrta le z a -Aro 17/18 -0229-30-31 e 3 2 d e1995 -p. ~
comportamentos interpretados como prostituintcs.
Além
disso, a literatura especializada baseia-se,principalmente, na argumentação da
sobrevivên-cia da mulher prostituída para construir conceitos
definidores do ato prostituinte. Conforme os
de-poimentos obtidos através das entrevistas,
obser-vam-se várias formas de entendimento e definições
sobre prostituição, como a seguir:
Eu a cho que hoje é um meio de vida . Nã o é ma is pelo simples fa to de quer er ou de gosta r e ser , nã o. Eu a cho que é ma is um meio de vida . Antes eu a cha va que er a a s dua s coi-sa s. Hoje, a cho que é meta de uma e meta de
outr a (Funcionário Público, 02/1996).
Outros ainda, que vivenciaram a
prostitui-ção, perceberam um pouco mais do que a simples
sobrevivência, como se observa no depoimento
an-terior:
J á conheci pessoa s que se pr ostitui por que quer e por que gosta . Tem outr a s que já diz que tá a li é por necessida de por que nã o tem outr o ca mpo de tr a blho. As vezes eu a cho que é pouco de tudo. Agor a , a ma ior ia se pr ostituiée por que pr ecisa mesmo (F
uncio-ná r io P úblico, 12/1995).
Lúcia acha que é:
Ma is a ssim um meio de sobr evivência . Acho que é a fa lta de empr ego ou ipor que a gente ga nha um dinheir o ma is r á pido, ma s ta
m-bém ga sta ma is r á pido (P r ostituta , 02/
1996).
Sabrina afirma também a sobrevivência por
Nã o digo com or gulho, nã o. Eu digo é a ssim com fé por que pr a mim foi só fa lta de opçã o mesmo. P or isso é que eu tive na quela pr
os-tituiçã o ta ntos a noszyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA(Ex-prostituta, 05/
1996).
Em outro depoimento, há a seguinte
comprensão:
P r ostituiçã o é a mulher tr a nsa r por dinhei-r o.RQPONMLKJIHGFEDCBAÉ essa a minha definiçã o (. ..) A ga r ota de pr ogr a ma é uma pr ostituta ca mufla da ,
nã o a ssumida . Tem muita estuda nte que eu
conheço, inclusive a univer sitá r ia , que tr a nsa (. ..) Qua ndo nã o é por dinheir o, diga
-mos, ela sempr e pede a lguma coisa : um
pr esente, uma jóia , num sei o quê
(Admi-nistrador de Empresas, 01/1996).
O pensamento moralizador rígido e as regras
sociais e religiosas, que tem acompanhado a
forma-ção da família ocidental, atuou como fator
fundamen-tal na construção de um tipo de pensamento que
interpreta como ato prostituinte, ainda hoje, a
mu-lher solteira que tem vida sexual ativa e as separadas
ou viúvas. A simples observação da não-virgindade,
em mulheres solteiras, implica no imaginário de uma
relação impura, profana e desafiadora dos
manda-mentos de Deus, conforme a doutrina católica.
Essa forma de pensar está arraigada ao
princí-pio religioso que permite e reconhece como única
função sexual aquela que privilegia a reprodução.
Afora, isso, toda relacão sexual que visa ao prazer está,
portanto, mergulhada no pecado, na podridão, na lama,
ou seja, tem seu fundamento na prostituição.
O discurso religioso é propenso a aceitar o
depoimento de prostitutas que se dizem
arrepen-didas de estar "naquela vida" e que só "entraram"
por não ter outra forma de sobrevivência. Esse
dis-curso retira todo o erotismo da atividade prostituinte
dessexualizando as práticas consideradas licenciosas.
O Arcebispo da Paraíba, Dom PIRES,
fazen-do a apresentação do livro 'O grito de milhões de
escravas, apresenta a seguinte definição para
prosti-tuição:
a liá s, a pr ostituiçã o nã o é só a luga r o cor -po, o sexo pa r a sobr eviver ; há ta mbém o a lu-guei dos br a ços, da for ça de tr a ba lho a que é for ça do o oper á r io. E há a té o a luguel da pr ópr ia dignida de qua ndo a lguém é for ça
-do pela s cir cunstâ ncia s a a gir contr a a pr
ó-pr ia consciência (1983:15).UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
6 6 E d o c a ç ã o e m D e b a te · F o r ta le z a -Aro1 7 /1 8 ·n22 9 - 3 0 - 3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 - p.fl5 .8 3
Nessa definição percebe-se a ênfase na
so-brevivência, dessexualizando o ato sexual e
apresen-tando-o como um "sacrifício" realizado para
sobreviver. Alegar dificuldades financeiras pode
ate-nuar o peso do estigma e talvez mesmo criar uma
certa legitimidade para o fato de prostituir-se
(GASPAR, 1985:95). Além disso, o Arcebispo
pro-cura ampliar a definição quando a apresenta como o
aluguel dos braços da força de trabalho e a venda da
consciência. Essa comparação extrapola o discurso
religioso encontrando eco nos movimentos de
tra-balhadores (política salarial prostituída) e no
discur-so político de oposição (prostituição da política). A
comparabilidade, nesse sentido, refere-se às
sujei-ras, ao ato fisiológico do político ao vender-se ou
tro-car "favores" em seu benefício próprio e comprar as
consciências na barganha por votos.
Apesar de Sabrina haver afirmado que
este-ve na prostituição por falta de opção e necessidade
de sobrevivência, ela, que vivenciou esse mundo,
diz que não é só a necessidade financeira que leva
as mulheres à prostituição:
É por isso que eu digo: ninguém conhece a
pr ostituiçã o só por que chega m lá . Todo mun-do pensa que é só pr ecisã o. As pessoa s se
en-ga na m. Nã o é.É por tudo. A pr ostituiçã o
começa por tudo: por cur tiçã o, por fa lta de liber da de, por fa lta de opçã o, por fa lta de dinheir o. Entã o, se você fizer um 'chek-up', a í você va i ver o que é a pr ostituiçã o por que ninguém, ta lvez soube pa ssa r isso a inda . Eu sei por que eu vi e r evivi, vivi bem vivido por que eu pr estei a tençã o a ca da momento na pr ostituiçã o. Eu nã o 'dor mi' na pr
osti-tuiçã o (Ex-prostituta, 05/1996).
Ao fazer essa afirmação, Sabrina cita alguns
tipos de prostituta que ela conheceu durante os dez
anos em que viveu na prostituição:
Vocême per guntou se ha via pr ostituiçã o por quer er ou por pr ecisã o, por necessida de. Existe. Existe vá r ios tipos de pr ostituta s que eu a cho que ninguém disse isso pr a você. Existe a pr ostituta pr a se dr oga r , existe a que se dr oga pr a se pr ostituir , olha a s difer ença s, existe a pdifer ostituta podifer pdifer ecisã o, podifer
-que tem -que ter , existe a pr ostituta por
e existe a quela pr ostituta quejá foi pr ostitu-ta por um dia e que desa pr ovou toostitu-ta lmente e
que nunca ma is eu vizyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA(E x-prostituta, 05/
1996).
Nas leituras que a Igreja Católica faz sobre a
prostituição, o que se observa é a ênfase de um
paradigma de prostituta como 'tipo ideal' para
de-senvolver o raciocínio baseado no pecado, na
impu-reza, na devassidão, na podridão ... Esse tipo é o que
Sabrina chama de prostituta por precisão.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAÉ o que se
vê a seguir.
Na apresentação do livro O Grito de milhões
de escravas, ao falar da metodologia utilizada, o
Movimento de Libertação da Mulher, diz: Ta lvez o
leitor estr a nhe nã o encontr a r o testemunho de uma pr osti-tuta "feliz".RQPONMLKJIHGFEDCBAÉ simplesmente por que nã o a pa r eceu nenhum! Aliá s, isto se ver ifica na pr á tica : nã o existe uma pr osti-tuiçã o "lega l", a pesa r da s a pa r ência s. Só pa r a os
a pr ooeita dor esl (1983: 19).
O Bispo de Crateús, FRAGOSO, corrobora
esse pensamento quando afirma: A prostituição é um
pecado extremamente grave: bla sfêmia contr a o cor a
-çã o de Deus. Nenhum cr istã o, que quiser ser fiel a o seu Deus, pode a ceita r a pr ostituiçã o (Op. cit., 90).
A tônica que é desenvolvida nesse livro é a
da mulher prostituta arrependida. Logicamente, não
se poderá encontrar um discurso de ufanismo
relaci-onado à prostituição, principalmente quando a
ide-ologia predominante impede o aprofundamento da
questão. Mesmo observando-se esse possíveis e
"encontráveis'' discursos de felicidade na
prostitui-ção, eles serão considerados "anormais", minorias e,
quando muito, serão dignos de um estudo médico
que buscará evidências de doenças mentais ou
al-gum correlato.
GASPAR também encontrou prostitutas que
"curtiam" ser prostitutas. E não era apenas uma dúzia.
Muita s dela s consider a va m de fa to um
"enor me ba r a to", como Lutsa qua lifica va , fr eqüenta r a noite, os ba r es e boa tes, esta r
entr e indivíduos que podia m pr esenteá -Ia s (sic) e lhespossibilita r a entr a da em luga r es a ntes ina cessíveis (como o ba ile do Ha oa i num conhecido clube ca r ioca ). Segundo J a ne, "nã o é só dinheir o, é ta mbém o socia l da coisa . Ir a o Hipopota mus, a o Regine's,ja n-ta r em bons luga r es, conhecerpessoa s fa
mo-sa s. Todo esse mundo ma r a vilhoso
(1985:94).
E d u c a ç ã oe m D e b a te - F o r ta le z a - A n o 1 7 /1 8 - n 2 ~ 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 -p.6 5 - 8 3
Não é pretensão desse estudo querer fazer
apologia da prostituição ou dizer que todas estão
fe-lizes onde estão e nas condições em que se
encon-tram. Ou que poderam optar livremente pela vida
como prostitutas. No entanto, não se pode querer
abordar um estudo sobre prostituição desprezando
aspectos que podem parecer exóticos, pecaminosos
ou imorais, para uns, com base na defesa
intran-sigente da visão católica disseminada por toda a
so-ciedade. Bem assim, não é pretensão dar
prosseguimento ao discurso de que as pobres
Madalenas estão esperando que um "salvador as tire
da lama". GASPAR complementa seu pensamento,
nesse sentido:
Se existem a s 'vítima s', há ta mbém a s ga r o-ta s que r esolver a m, de for ma deliber a da , se dedica r àpr ostituiçã o por nã o esta r em sa -tisfeita s com o pa dr ã o de vida que poder i-a m ter i-a tr i-a vés di-a p ro fis s ã o que exer cia m. Devidos a os seus dotesfísicos, pr incipa l exi-gência na pr ostituiçã o, essa s mulher es podem obter r endimento muito super ior a o da a n-tiga ocupa çã o. Segundo Tâ nia , a opçã o de pr ostituir -se pode ter or igem no fa to de a mulher gosta r do tipo de vida que a a tivi-da de nã o só per mite ma s obr iga a leva r (Op. cit., 94).
A prostituição, diz ADLER, não é
pois um destino, a o contr á r io do que pen-sa m a lguns r oma ncista s. Ta mpouco consti-tui uma ta r a her editá r ia , como a fir ma m os cr iminologista s. Apa r ece menos a inda como um vício, uma doença mor ta l, confor me gos-ta r ia de fa zer cr er um bom númer o de mo-r a lista s. Ma s, nofundo, o queépr ostituiçã o?
A questã o étã o esP inhosa que a s tenta tiva s pa r a defini-Ia s ser ã o múltipla s e, a lguma s
vezes, contr a ditór ia s (1991: 13).
Portanto, a tese do "mal necessário' como
expediente para conter a libido e garantir a ordem
social não pode ser entendida apenas como uma
for-ma de satisfação das necessidades sexuais, tanto dos
clientes quanto das prostitutas; por outro lado, não
pode ser vista tão somente como uma questão de
sobrevivência ou de uma forma de se conseguir uma
rápida ascensão social das mulheres prostituídas. Há
uma conjunção de múltiplos fatores como a
irn-possível atrelar-se a um modelo rígido, estático e
a-histórico que se baseia nos moldes tradicionais de
definição da prostituição. ADLER consegue,
por-tanto, dar uma definição mais realista do que seja a
prostituta quando diz que:vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A pr ostituta é uma pessoa que, por obr iga -çã o ou por inclina -çã o, a ba ndona a s nor ma s e se ma r gina liza socia l,RQPONMLKJIHGFEDCBAa fe tio a e sexua lmen-te. Aba ndona o la r pa ter no por que foi
enco-r a ja da a isso ou por que a cr edita numa
liber da de ilusór ia . La r ga a oficina ou o tr a -ba lho doméstico e, fr ente à s necessida des,
deixa -se envolver por um vizinho, um
pa ssa nte, um ta ber neir o, um jovem esper to, um da nça r ino fa moso, uma a miga a lcoóla -tr a que a leva a um ca fé. Ta mbém existem
pa is ma l-intenciona dos, mã es que quer em
ga nha r dinheir o com a ca r ne de sua pr ópr ia ca r ne, a ma ntes a tr evidos e pouco ciumentos
que quer em ga r a ntir o seu fim de mês
(ADLER,1991:11).
Um exemplo da variedade de conceitos e
formas de se "estar" na prostituição, é o caso
notici-ado no jornal
°
Povo, e que traz como título'Re-cém-casado obrigava esposa a prostituir-se por U$
60,00', serve para ilustrar o fato que ADLER referiu
acima. Um egípcio recém-casado, em lua de mel em
Chipre, obrigou a esposa a receber em uma semana,
60 homens ganhando com isso, cerca de 3 mil
dóla-res. A jovem de 17 anos, fugiu do hotel de Nicósia,
onde seu marido a entregava a quem pagasse mais,
desde o dia em que chegaram à ilha (25.05.1996).
Há casos em que a esposa se prostitui e tem
total apoio do marido; outras têm o apoio da família;
outras, ainda, do namorado; algumas, a família, o
marido ou namorado não sabem de sua condição de
prostitutas, bastando para justificar a sua
remunera-ção, dizer que trabalha em uma loja,
estacionamen-to, cine ... De qualquer forma, basta que haja um
acordo, sutil, mas verdadeiro e hipócrita, que
esca-moteia a origem do dinheiro.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAÉ como CASTRO diz:
Um a cor do tea tr a l que impeça o r econheci-mento da s boa s e esfor ça da s mã es,
dignis-sima s esposa s a ssexua liza da s que do sexo
vêm a s benesses.O texto pa ssa a ser um "eu sei que sei, ma s finjo que nã o sei"e um "eu sei que você sa be, ma s finge que nã o sa be -finjo ta mbém que ta mbém eu nã o sei que você
sa be (1993:172).
6 8 E d u c a ç ã oe m D e b a te- F o r ta le z a- A n o 1 7 /1 8 - n22 9 -3 0 -3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 -p.6 5 -8 3
CASTRO, define a prostituta não como
uma mulher que exer ce sua a tivida de pa r a ma nter -se no limia r de sobr evivência mise-r á vel a que estã o sujeita s outmise-r a s mulhemise-r es do meio popula r ; se a ssim fosse ter ia per -ma necido em outr os empr egos ocupa dos a n-tes da pr ostituiçã o. E ta mpouco exer ce sua a tivida de exclusiva mente pa r a a pr ópr ia so-br evivência , ma s funda menta lmente pa r a a sobr evivência de todo o seu gr upo fa milia r , a mplia do, se compa r a do com a s ca r a cte-r ística s nuclea r es da fa milia ur ba na . (1993:171).
A partir dessas duas características -
supera-ção da condisupera-ção comum de miséria e o sustento do
grupo familial -, pode-se campreender que a
prosti-tuição não se opõe à estrutura familiar, pelo
contrá-rio, a mantém, conseguindo ainda fazer com que o
grupo familiar permaneça agregado não se
sujeitan-do à dispersão condicionada que o processo
urbano-industrial das sociedades contemporâneas impõe.
Essa agregação é sustentada pela
mulher-prostituta, conforme sugere CASTRO, como o
"chefe da casa", uma construção híbrida de
mater-nidade-paternidade, ocupando simultaneamente os
lugares masculino-feminino na estrutura familiar
(Op. cit., 171),.
Ao manter o grupo familiar coeso suprindo
as suas necessidades, a prostituta se permite realizar
muitos dos seus projetos que não poderia sequer
pensar, se se mantivesse nos empregos pelos quais
passou antes, ou não.
Aí nã o conseguifa zer sexo a na l, sem gosta r do homem. Aí pr onto, a pr imeir a exper iên-cia eu nã o gostei e nã o teve quem fizesse ma is eu fa zer isso pelo dinheir o. Aí pr onto, me viciei no ca ba r é. Aí chegueipr a minha mã e e disse a ssim: "Mã e, eu a r r a njei um empr ego no Centr o. Ma s é no esta ciona mento de bo-ta r ca r r o. J a ma is eu ia ter cor a gem de dizer pr a ela que eu ta oa n'um ca ba r é, né.? "Es-ta ciona mento de bo"Es-ta r ca r r o." Só a pa r te da ta r de. P or que a pa r te da ma nhã eu que-r ia fica que-r com o meu filho. Ai eque-r a só a pa que-r te da ta r de. Todo dia eu sa ía como sefosse pr a tr a ba lha r ; a i chega va a quele hor á r io, nã o
bebia (Ex-prostituta, 02/1996).
Lúcia foi prostituta durante mais de anos,
condi-ção, ou preferiram não saber ou fingir que não
sa-bem sob pena de terem que expulsar a filha de casa
e perder assim, a ajuda financeira que é essencial
para a sobrevivência dos pais já idosos. Esse é o tipo
de relação à qual CASTRO, se referiu, ou seja, eu
sei que sei, mas finjo que não sei e um eu sei que você sabe, mas finge que não sabe - finjo também
que também eu não sei que você sabe (1993: 172).
Outro exemplo é o de Marta, cujos pais
mo-ram no interior e desconfiavam da forma como ela
sobrevivia e mandava dinheiro para a família. No
entanto, o silêncio sobre o assunto ajudava-os a
vi-ver sem conflitos, principalmente ante as
dificulda-des financeiras que enfrentavam. Em entrevista a
ILNAR DE SOUSA, Marta disse que:vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Meus pa is desconfia va m, podia m a té sa ber ,
ma s nunca fa la r a m nesse a ssunto comigo
a ber ta mente e eu ta mbém nã o fa la va pois sa bia que er a uma coisa que choca r ia a eles. Eles sã o pessoa s do inter ior e nã o tinha m ca beça pa r a isso. No inter ior o pr econceito é a inda muito ma ior que na cida de e nã o
ti-nha como fa la r . Ma s eles sa bia m simRQPONMLKJIHGFEDCBA( O
POVO, 1996:6).
Mas, o que elas têm afinal? Perguntam-se
entre queixas e curiosidades. ADLER responde
Oque ela s têm a ma is do que nós? Têm
mui-to ma is que vocês, r espondem os homens. Têm a beleza pica nte, a a r te da r éplica per feita , o olha r per tur ôa dor ; o sentido da despesa , o gosto pela noite, a ca r ne pa lpita nte, o r iso fá cil, a ciência do a ba ndono (1 9 9 1 :3 0 ).
No âmbito simbólico e no imaginário social,
as prostitutas representam tudo o que uma esposa e
mãe não poderia eventualmente ser: sensual,
despudorada, misteriosa, sem dono, livre para o sexo.
Esses atributos seduzem e atraem os freqüentadores
de prostíbulos, principalmente por ocorrer uma
in-rersão no ato da sedução - as mulheres é que tomam
_ inicia tiva da a pr oxima çã o, da "pa quer a " e da
sedu-•- o. Há uma mudança, embora simbólica, dos
pa-.: -'; js e das deter mina ções socia is das ca tegor ia s
mem/mulher, que fascina e amedronta os
clien-- . ao mesmo tempo.
Além disso, elas atribuem a si mesmas uma
- ção peculiar, característica, aliás, que a maioria
mulheres esposas/mães perdem, no cotidiano da
ç ã o fa m iJ ia J : a m u lh e r q u e e s c u ta e n ã o r e p r im e ,
a não grita, não censura e não exige/cobra o papelUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
E d u c a ç ã o e m D e b a te - F o rta le z a-Aro1 7 /1 8 - n 2 2 9 -3 (}.3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 - p.6 5 -8 3
e o lugar social do homem, marido e pai. Conforme
elas mesmas nomearam, essa é a função de
"psicólo-gas do amor" (1996, Manchete).
É , ma s a s pessoa s me pr ocur a va m ma is a
s-sim por que, nor ma lmente, a s mulher es,
qua ndo os homens chega m nos pr ostíbulos, ela s já senta m, no má ximo toma m uma cer -veja e já quer ir logo pr a ca ma pr a ela po-der fa zer outr o ("pr ogr a ma ") entendeu? Entã o, eu fa zia o quê? Eu senta va , toma va
2 , 3 , 4 , 5pr a poder ir fa zer o meu "pr ogr a -ma ". Q uerdizer ; eu sa tisfa zia o meu cliente de a mbos os la dos: sexua lmente ené,conver -sa va um pa po e tudo ma is. Entã o, eles me pr ocur a va m justa mente por isso
(Ex-pros-tituta, 02/1996).
Sabrina confirma o que Carla, companheira
de "batalha", disse quando afirmou que os homens
não só buscavam sexo ou um sexo diferente do que
eles costumam ter com as esposas em casa.
(.. .) Muita s vezes eles vinha m a tr á s de mim e muitos deles sa bia m que eu nã o "esquenta -va " mesmo eles na ca ma por que eu er a sem-pr e a quela pessoa . Aí a s menina s: 'Ei, cobr ou o que édeles? ' P or que eu nã o podia , por que na ca ma eu er a uma 'gela deir a ', como eles
me cha ma va m. Cobr a r o dinheir o que eles
me da va m? Eu nã o. Ai muita s vezes eles
vã o pr a fica r , muita s vezes elesfica va m com a quela , ma s de outr a vez nã o fica va . Eu sei que dur a nte os dez a nos que pa ssei na pr os-tituiçã o, nã o é quer endo dizer a ssim: 'F ui uma mulher gostosa '. F ui nã o. P elo contr á -r io, eu fui muito desgostosa . Voei sa be a que-la ga linha a ssim de gr a nja cozinha da nosa l?
Eu fui uma , eu tenho cer teza . Eu nã o fui a quela mulher de "esquenta r ". Ia s eles con-tinua r a m os dez a nos, nã o todos eles, ma s muitos deles continua r a m os dez a nos
comi-go (Ex-prosriruta, 05/1996).
ADLER complementa os motivos pelos
quais os clientes de prostitutas procuram os bordéis:
Com ela s, os homens têm vonta de de pa ssa r a noite. Nã o a pena s pa r a fa zer a mor , ma s ta m-bém pa r a a pr oveita r a queles inter miná veis ja nta r es tã o a legr es, a quela s conver sa s desen-jiwd:zJ ; o O /m tl.r lffO O h · .e m - ~ I? ,piode a
Foram seis anos de prostituição quando Carla mais "curtiu" do que "fez comércio" com os homens
que vivem a noite dos prostíbulos. Sua irmã
perma-neceu menos tempo, quatro anos. Também
diver-tia-se, mas preocupava-se mais com a necessidade
financeira.vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Ma s eu er a a ssim mesmo. Eu gosto.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAOtempo
que eu pa ssei, de senta r e ba ter pa po er a o
meu 'hobby', er a o pr efer ido. Er a muito
melhor senta r e ba ter pa po. Agor a , por exem-plo, se eufizesse um pr ogr a ma hoje,já da va pr a supr ir a minha necessida de, a ma nhã eu já podia br inca r , já podia senta r , conver sa r
e esquecerRQPONMLKJIHGFEDCBA(0 2 /1 9 9 6 ).
Carla "construiu" fama. Era conhecida por
ser uma prostituta que não se preocupava se a noite
seria proveitosa no sentido financeiro. Era uma
mu-lher que curtia a noite com os amigos do prostíbulo.
Saíam para churrascarias e passavam a noite
beben-do e comenbeben-do. No dia seguinte estava sem dinheiro
mas satisfeita por se haver divertido, aproveitado a
noite passada.
A fama de ser prostituta por gostar e não
so-mente em decorrência da necessidade financeira, fez
com que essa diferenciação explícita, já na época,
incomodasse os que não admitiam, de forma
algu-ma, que uma mulher pudesse se prostituir por
pra-zer. É nesse sentido que LINS questiona:
É possível, entã o tr a ta r a Difer ença , tr a ta r o intr a tá vel.? P a r a a lguns, só existe um mé-todo: tr a ta r a Difer ença é compr eendê-Ia como Diver so, inser indo-a , fina lmente, na moder nida de, isenta ndo-a do ima giná r io da Difer ença pa r a encontr a r o diver so da pr ó-pr ia Difer ença (1 9 9 5 :1 3 ).
É preciso, pois, entender que o fenômeno
da prostituição não pode ser analisado de forma
ge-neralizada como se tratando de algo homogêneo e
claro aos olhos de quem quiser ver. Há prostitutas e
prostitutas. As nuanças existem, não de forma clara,
tangível, transparente. Mas, a convivência, o
traba-lho de campo e o posterior "estranhamento" e
afas-tamento do fenômeno da prostituição fez com que,
aos poucos, fossem desanuviando-se os meandros do
mundo da prostituição, ou seja, essa diversidade que
é a própria diferença no mundo da prostituta. Cada
prostituta é um caso diferente, uma vida e uma
his-tória com a alteridade, mais que guarda suas
singu-laridades. LINS, a esse respeito, diz que
7 0 E d u c a ç ã o e m D e b a te - F o rta le z a - A ro 1 7 /1 8 -n22 9 -J 0 .3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 -p.6 5 -8 3
Quer er r etir a r da mulher , em nome de sua 'fr a gilida de", de seu esta tuto de "explor a -da ", a possibili-da de de viver seus fa nta s-ma s efa nta sia s, o dir eito àper ver sã o, é uma ma neir a de fa zer dela uma 'difer ença ', exi-la ndo-a no espa ço da exclusã o. Constr uçã o ma sculina , por excelência , a domina çã o do homem sobr e a mulher , toma ta mbém a a pa -r ência de "p-r eocupa çã o socia !", ma nei-r a pa r a ele de coa bita r com sua consciência
in-feliz (O POVO, 02/1996).
LAURY, ex-prostituta francesa, fundadora do
"S.O.S: Prostitutas", em Paris, ao responder por que
os homens procuram prostitutas afirma o seguinte:
P or que uma mulher - a mulher deles - os ta cha r ia de loucos.É bem pr ová vel. Entr e-ta nto, no meio desseshomens, r a r os sã o a que-les cuja "per ver sida de" a tinge um gr a u de loucur a . Ma s a nossa socieda de está longe de se ver livr e de ta bus milena r es. Apr ende-mos que há "coisa s" que se devem fa zer e
outr a s nã o. É a ssim que muitos ca sa is se
sepa r a m, por que o homem e a mulher nã o ousa r ia m a ba ndona r -se numa tota l comu-nhã o ca r na l. A liber a liza çã o dos costumes só chegou a os seus pr imeir os ba lbucios. En-tr eta nto, qua ndo conseguir mos tir a r toda s a s inter dições que ma ntêm os ca sa is e os a pr i-siona m numa sexua lida de de "bom tom ", ma s medíocr e e insuficiente, cer tos homens, entã o, nã o pr ecisa r ã o ma is de "suplente" na pessoa da s pr ostituta s, e sua s mulher es nã o ser ã o ma is fr ustr a da s por esse desa br o-cha mento sexua l que ta mbém fa z pa r te da vida dela s (1 9 8 3 :1 3 5 ).
O entendimento de LAURY sobre o
fenô-meno da prostituição não é outro senão o que se
co-menta no patamar do senso comum, colocando mais
uma reponsabilidade/representação para a mulher
que é a de ser "boa de cama", como as prostitutas o
são, para prender seus homens! Às mulheres cabem
o poder e o dever de impedir o homem de tornar-se
um freguês de prostituta, conclui (Id. Ibid).
No discurso de LAURY não cabe o conceito
de fantasias sexuais. Na verdade, ele inexiste,
"reti-rando" da mulher a sexualidade, muito embora ela
defenda uma espécie de sexualidade que não seja
for ma que, cer tos homens, entã o, nã o pr ecisa r ã o ma is de "suplente" na pessoa da s pr ostituta s, e sua s mulher es nã o ser ã o ma is fr ustr a da s por esse desa br ocha mento sexua l
que ta mbém fa z pa r te da vida de/a s (Idem).zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
É importante esclarecer que não advogo a
entrada de mulheres na prostituição como forma de
satisfazer-se sexualmente. Pelo contrário, penso
es-tar esclarecendo que a análise da prostituição não
pode nem deve pautar-se básica e unicamente na
sobrevivência ou por falta de opção. Principalmente
quando faço referência a um tipo de prostituição: de
prostíbulos ou de bordei, enfim, onde a mulher vai
e prostituir no dia e hora em que lhe convier e se
e convier. Esse tipo de prostituição é uma opção,
entre outras, que se coloca. Se o caminho
escolhi-o fescolhi-oi escolhi-o de prescolhi-ostituir-se, a análise deve ser feita
le-varido em consideração inúmeros fatores e não
_penas o "ganho fácil e rápido". Não estariam aqui,
e forma escamoteada, o prazer e os fantasmas de
da indivíduo?
Nesse sentido, outras representações sobreRQPONMLKJIHGFEDCBA
s : prostituta vão-se delineando, pois uma das
fantasi-,- mais desejadas da mulher que vi vencia sua
sexu-, idade é ser considerada uma "mulher boa de cama".
- r 'boa de cama" significa "segurar um homem pela
a" e não mais somente - como na época de
nos-~ mães quando vivenciavam o auge do início de
us casamentos e suas primeiras relações sexuais -,
- gurar o homem pelo estômago", com suas
culi--" "asafrodisíacas pelo que esperavam satisfazer seus mens em casa e saciá-los a ponto de eles não ne-itarern "comer fora de casa" ou quererem
"vari-- prato", ou ainda, derrubar o dito segundo o qual
_ 'alo peado também come" e tantos outrosIHGFEDCBA
: . s m o s d a f e r t í l i m a i m a g i n a ç ã o p o p u l a r .
E, quando uma mulher se prostitui,
espera-ue ela seja "boa de cama"o suficiente para atrair
omens, além de se imaginar, também, que ela
~ uma mulher insaciável e, por isso mesmo,
ne--tar prostituir-se e aplacar sua sede.
Cada acoplou, à primeira fama, uma outra: a ser 'boa de cama". 'Ser boa de cama' é uma
carac-ica que certamente deveria acompanhar todas
orostirutas, vez que, se os homens as procuram é
. e elas, segundo o imaginário popular,
satisfa-suas necessidades sexuais e "fazem de tudo".
"Fazer de tudo" significa "topar" todas as
:::::::2Ç:õ-essexuais que os homens possam sugerir a
:nulher e, que segundo eles, as esposas/aman-UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
. - o : I , . • • • • • . • • . •oradas, supõe-se, não aceitariam fazer para
-~r as necessidades sexuais do seu homem.
5 :!!J ::a ç ã o e m D e b a te - F o rta le z a -A ro 1 7 /1 8 - 0 2 2 9 -3 0 -3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 - p. ~
"Satisfazer as necessidades sexuais" é uma
expressão arraigada de símbolos e representações.
As representações que permeiam as "necessidades
sexuais" são observadas no cotidiano,
exclusivamen-te do homem, quando se percebe urna grande gama
de justificativas para comportamentos considerados
exclusiva e originalmente concebidos para confirmar
a virilidade e o poder.
No entanto, sabe-se que há uma grande
di-ferença entre o "falar" e o "fazer", ou seja, entre o
expressar uma necessidade permanente por sexo e a
"real" necessidade que leva os homens a procurar
prostitutas. Essas imagens, construídas para reforçar
o 'mito da masculinidade', com o passar do tempo,
transformam-se em verdades do tipo "desde que o
mundo é mundo que as coisas são assim"!
LANE, ao referir-se ao conceito de represen-tação social, reafirma a relação de distância entre
ati-tude e verbalização, ou seja, esse conceito:
Tem a gr a nde va nta gem de definir um fa to empír ico inequívoco, que tr a z no seu bojo va lor es, a fetos e concepções, tor na ndo o con-ceito de a titude dispensá vel, pois este é sem-pr e uma infer ência a pa r tir de oer ba tisa ções,
de pr edisposições inter na s que ma ntêm r
ela ções tênues com compor ta mentos obser va
-dos. É um conceito que vem confir ma ndo o
fa la r e o fa zer como compor ta mentos muito difer entes (1993:63).
Não é gratuita a concepção segundo a qual
quem tem necessidades sexuais a satisfazer,
geral-mente, é o homem, já que a mulher é impensada
como ser desejante, mas apenas como reprodutor.
As mulheres que poderiam pensar e sentir prazer
sexual seriam classificadas como não pertencentes à
ordem natural de significação e de representação do
que venha a ser uma mulher de família e de
respei-to. CASTRO, percebeu, na singularidade do discurso
de seu entrevistado, a forma como é conscruído esse
paradigma:
Essencia lmente ma sculino, este discur so nã o se r estr inge a o século pa ssa do. Em uma pes-quisa r ea liza da no a no de 1987 junto a ho-mens entr e2 4e2 8a nos, de cla sse média a lta da zona do Sul do Rio de J a neir o, solteir os, sobr e a questã o da vir ginda de feminina :
Acho que afetaria, é lógico, se eu soubesse
que ela já tinha dado pra meio mundo, mas se ela
amor e não pelo simples desejo, aí eu não vejo mal algum (advogado, 25 anos) (1993:174).
Essa estrutura de pensamento é facilmente
encontrada não só no Sul e Sudeste e não somente
nessa faixa de idade, mas permeando uma cultura
que insiste em negar a sexualidade feminina. Nesse
sentido, constrói-se uma taxonomia, uma espécie de
moral quantificável, analisada em relação ao
núme-ro de homens que se teve, o número de filhos de
pais diferentes e o "grau de comercialização nas
re-lações sexuais"(GOLDWASSER; 1989:36).
Penso ser este um tema que tem sido
secu-larmente trabalhado mas que possui características
de modernidade. A esse respeito, afirma LINS:vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A entr a da na moder nida de supõe uma com-pr eensã o do homem como pur a consciência o que nos leva a pensa r - como Tour a ine - que a moder nida de se opõe a essa concepçã o a o a fir ma r simulta nea mente que "a na tur eza deve ser compr eendida sem r efer ência a o su-jeito, e que o sujeito nã o é na tur eza , ma s pur a mente consciência . Concr eta mente, essa
dua lida de funda menta l entr e a r a zã o e o sujeito implica sepa r a çã o da vida pública e
da vida pr iva da . Você vive num mundo
moder no qua ndo pa r a lela mente a o seu pa -pel socia l, você tem igua lmente o dir eito a o seu ima giná r io, a sua vida sexua l, à s sua s pr ópr ia s opiniões. Ninguém cha ma r á mo-der na uma socieda de ma oísta na qua l todos se mobiliza m numa única e mesma dir eçã o (1995:13).
Por mais que se fale da condição feminina e
de prostituição, sempre surgem assuntos a se
discu-tir, com novas ou velhas roupagens, recentes ou
an-tigos conceitos. Mas, imagino que sempre há algo
novo a ser acrescentado, mesmo que dito de formas
e em contextos distintos.
Essa também é a forma de pensar de
CHALEIL, que busca um l'étranger regard au regard
étranger:
La pr ostitueé est a u a eur de Ia sexua lité huma ine, à IaRQPONMLKJIHGFEDCBAfa ç o n d'u n unioer s pa r a site
ou dévia nt. P er sonna ge a u ca r r efour du
libidina l etd upa thologique, ma is a ussi du socia l et du politique, elle pr ocede detous les cha mps, de touts les cur iosités. Toutefois si, en ta nt qu 'êtr e socia l, Ia pr ostituee a ppa r tient
à I'Hista ir e et se confond a oec elle, il ne fa utUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
7 2 E d ll:a Ç á o e m D e b a te - F o rta le z a - A r o 1 7 /1 8 - n 2 2 9 - 3 0 - 3 1e 3 2 d e 1 9 9 5 -p. ~
pa s ima giner qu 'elle a toujour s existé ou
qu 'elle a existé telle que nous Ia conna issons a ujour d'hui. Mir oir de société, elle r epr oduit les oa leur s et les 'contr a dia ions" de /'époque
et du systême qui Ia sécr êtent. Si son
intinér a ir e, son évolution r enooient a us
sciences huma ines, Ia pr ostitueé, comme
individu - tout à Ia fois unique et a liéné,
c'est-à -dir e inter cha ngea ble, indéfinitement. (1971:16).
Foi nesse sentido que observei, dentro
des-sa vivência ímpar, o delineamento as funções da
pros-tituta em nossa sociedade, pois, a prostituta (e o seu
cliente), assim, é e está, ao mesmo tempo incluída e
excluída no corpo social, posto que presente, mas
oculta (CASTRO, 1993:185).
Essas funções, ditas socializadoras e exerci das
por prostitutas, são de fundamental importância já
no imaginário social, muitas vezes confundidas ao
se pensar que prostituta só "faz sexo". Creio que
esse aspecto da prostituição surge de maneira fluida
por todo este trabalho, principalmente ao afirmar que
a prostituição não é uma atividade exercida visando
única e basicamente à sobrevivência e à
complemen-tação salarial. LINS mencionando KRISTEVA,
acrescenta uma outra leitura a essa "verdade"
crista-lizada na necessidade sexual quando afirma que,
Mesmo se, como obser va Kr isteoa , nenhuma teor ia biológica moder na confir ma a exis-tência de "difer ença s pr ofunda s, química s, celula r es ou outr a s, entr e a s na ções e a s r a -ça s", uma questã o impor ta nte subsiste: "a a tr a çã o ou a r epulsã o que sã o na ver da de de or dem sexua l. Isso nã o quer dizer que "só
uma educa çã o sexua l sa lva r á o sujeito do
ódio" e da r ecusa da Difer ença . Toda via , conclui Kr isteoa , "se existe uma sa lva çã o, ela dever á ser pr ocur a da na noite obscur a dos pa r tica ia r ismos onde ca da um se defr on-ta , bem ou ma l; e isso, a ntes mesmo de en-contr a r seu "pr óximo ", com seus pr ópr ios demônios." - com seus "objetos pa r cia is", seus fetiches, sua s ná usea s, seus ideia is tir â -nicos ( 1 9 9 5 :1 5 ) .
Quando RAGO se refere às funções que as
prostitutas exerceram ou ainda exercem, chama
aten-ção para o aspecto positivo da prostituição que, na
maioria dos estudos, não é expresso, sob pena de
Condena da e a ceita a o mesmo tempo, a pr
os-tituiçã o cumpr ia difer entes funções
socia liza dor a s, que só podem ser a pr eendi-da s se esca pa r mos a os pa r â metr os conceitua is domina ntes e a pr eender mos sua positivida de. Ao a gr upa r os indivíduos a tr a vés de r edes subter r â nea s de convivência e solida r ieda -de, a pr esenta va -se como um ter r itór io que via biliza va a exper iência de r ela ciona
men-tos multija ceta dos e plur a is, num contexto
dedistensã oRQPONMLKJIHGFEDCBA( 1 9 9 1 :1 6 8 ) .zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Essa positividade da prostituição é representada
pelas:
P r á tica s licenciosa s que contr a r ia va m a ex-clusivida de sexua l imposta pela or dem, ta nto qua nto encontr os, br inca deir a s e jogos que ocor r ia m nos ca ba r és e "pensões a legr es" da cida de confir ma va m um espa ço impor ta nte de inter a ções socia is (Id. Ibid.).
Porque, muitas vezes, se esquece que tipos
e homens procuram essas mulheres e o que
que-rem delas.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAÉ bom lembrar que esses homens po-em ser nossos pais, irmãos, maridos, filhos, primos ...
ILNAR DE SOUSA, O POVO, 02/1996).
A positividade a que RAGO se refere, não
somente se arrima nos aspectos de sociabilidade do
indivíduo, mas também quando se passa a entender
prostíbulo não apenas como:
(. ..) luga r de "desca r ga libidina l" ou de a lí-vio da s tensões sexua is, como a fir ma va m os médicos do per iodo, isto é, segundo a "lógica do nega tivo", na expr essã o de Deleuze. Cer ta mente a r epr esenta çã o do desejo como ener
-gia ca ótica e em esta do br uto implica a
constr uçã o ima giná r ia do mundo do pr a zer como ca mpo notur no da desor dem da s pa ixões e da er upçã o de for ça s a nima is e sa tâ -nica s, contr á r ia s a o pr incípio da civiliza çã o (1991:168).
Assim, LINS contribui de maneira
signifi-tiva para o entendimento dessa relação do direito
ze viver à diferença.
Ma s, a o r enuncia r a o discur so do "Dir eito à
Difer ença ", a br e-se mã o, simulta nea mente, de um luga r que poder ia constituir , de fa to, um espa ço pr ivilegia do. Resta sa ber , com efeito, quem fa la ? De ondefa la ? P a r a quem se'fa la ? Quem é o difer ente de quem? - Nós, ou ela s,
E d u c a ç ã o e m D e b a te - F o rta le z a -A n o 1 7 /1 8 - n 2 2 9 -J 0 -3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 - p.fi5 .8 3
pr ostituta s? -Oculto exa cer ba do da Difer en-ça pode condena r o a tor à sua histór ia , le-va ndo-o a fa zer de sua Difer ença uma pr isã o, uma fa ta tida de, um destino ( 1 9 9 5 :1 3 ) .
É fundamental ter essa compreensão para
que se possa entender e abrir espaços para esse tipo
de leitura e de análise, não só da prostituição, mas
de qualquer outro fenômeno onde se pode
perce-ber o diverso que teima em afluir à superfície, mas
que encontra barreiras nas formas pré-concebidas e
pré-conceituosas de se ler o "real", pois é
importan-te salientar que o imaginário social, tal como o
en-tendemos, é mais real do que o "real" (Marx apud
CASTORIADIS, 1982:170).
Continuando, LINS chama atenção para o
fato de que,
a o "pr oteger " a Difer ença , ter mina -se - na melhor hipótese - por possuí-Ia e na pior por se deixa r possuir por ela numa identifica -çã o êâ r mica , fa ta lista :
"Nã o escolhi ser deficiente físico!"
"Ninguém na sce homossexua l por que quer "! "Deus me fez como sou: pobr e e negr o"! "F oi o destino quefez de mim o que eu sou!"
(Lampião) (1995:13).
Sabrina representa o exemplo da mulher que
quis se proteger dessa diferença. Quando criança,
abandonada pelo pai e tendo que sobreviver com
vários irmãos menores, sua mãe costurava para
pros-titutas, enquanto ela fazia a intermediação entre as
prostitutas com sua mãe, levando as roupas e indo
receber o pagamento nos prostíbulos. Em razão
des-sa proximidade, ainda criança, foi estigmatizada e
discriminada na cidade onde morava, Quixeramobim,
interior do Ceará, a ponto de precisar mudar-se para
outro lugar.
Ao se transferir, conheceu um rapaz que se
apaixonou por ela e quis casar. Ele passou a ajudar a
família de Sabrina e um dia ela se entregou , como
forma de agradecimento e pagamento por tudo o que
havia feito por ela e a família; em seguida fugiu por
achar que não iria fazer o rapaz feliz, pois ela não
havia sido preparada para o casamento já que sua
mãe não lhe ensinou a ser dona de casa e esposa. A
partir daí, passou a ter certeza de que um dia seria
prostituta: pela convivência, desde a infância, com
prostitutas e por ~ão mais ser "virgem".
- eu disse pr a ele - eu vou ser pr ostituta . " Ele disse: "P or quê? " Eu digo: "Eu nã o sei. Eu nã o seipor que eu penso a ssim. Nã o épor que eu a chei bonito lá em Quixer a mobim, nã o é isso. É por que eu a cho que eu vou viver . .. " Eu per guntei a ele se ele a cr edita va em desti-no, tá entendendo? Eu digo: "Eu a cho que é o destino me leva ndo, eu nã o sei." Ele disse: "Nã o, va i nã o. A gente va i ca sa r ." Ma s só comigo eu dizia a ssim, só lá dentr o de mim: "Se elesouber que é eu que nã o quer o ca sa r ? " A intençã o dele er a boa comigo, sa be, Ilna r ? Aí eu fugi de ma nhã , chega ndo a qui em F or
-ta leza "zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA(Ex-prostitura, 05.1996).
As funções que a prostituta passou a
desem-penhar foram surgindo mediante essas construções
de um lendário sexo em estado caótico e selvagem
que necessitava de um espaço para ser domesticado.
A partir daí, essas funções foram esboçando e
concre-tizando. Sabrina fala da importância da prostituição
tendo como referência 10 anos de experiência.
A pr ostituiçã o, a s vezes eu digo a ssim, se vem a pr ostituiçã o desde o começo do mundo ...Eu tô fa la ndo a gor a , no meu [ la do} espir itua l. Se nã o fosse a pr ostituiçã o o a umento do es-tupr o ser ia ma ior . Só que nós temos que ter a pr ostituiçã o cer ta . Nã o a poia r a pr tuiçã o de menor . P or exemplo, tem a pr
osti-tuiçã o pr a r eceber esse tipo de coisa , o
a leija do que eu r ecebi, o a leija do que nin-guém quer ia r eceber . Vocêtem que leva r uma coisa que seja a utêntica , por que tem muita gente que odeia a pr ostituiçã o e quem discr i-mina va i pa ssa r a dizer : 'Nã o, ela é sér ia ta mbém '. Olha , por que tem o pa r a lítico, tem o muito feio, tem o muito fedor ento, va i ter o muito ma u ta mbém que todo mundo va i cor -r e-r com medo. Ma s va i te-r semp-r e uma p-r a segur a r a s ponta s (E x-prostituta, 05/1996).
Nesse sentido, é que abordo a temática da
função social da prostituta, quando a partir das
his-tórias ocorridas nos prostíbulos e dos relatos se pode
perceber a existência de funções para o
atendimen-to de demandas que não se restringem unicamente
às fantasias sexuais, pois,
o contexto é um a specto funda menta l da
pes-quisa , seja por que a s r epr esenta ções sã o ca
m-pos estr utur a dos pelo ha bitus e pelosUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
7 4 E d u c a ç ã oe m D e b a te- F o r ta le z a- A r o17/18 -n2~1 e32d e1995 - p. 65-83
conteúdos histór icos que impr egna m o ima -giná r io socia l, seja por que sã o estr utur a s
estr utur a ntes desse contexto e, como ta l,
mo-tor es da muda nça socia l (SPINK, 1993:9).
A partir dessas vivências relatadas pode-se
perceber se delineando algumas das funções da
pros-tituta. Dessas funções, muitas persistem, outras
sur-gem, de acordo com as "leis da oferta do mercado",
ou seja, nascem novas prestações de serviços
confor-me a necessidade de demanda.
O importante a ressaltar nessas funções é a
perspetiva de perpetuação de um comportamento
social/sexual considerado como desviante, "anormal"
e portanto diferente. Esse fato fornece muitos
sub-sídios para 'pesquisadores' famintos por deslindar o
mistério da prostituição e por fim a um
comporta-mento considerado perigoso. LINS, chama a
aten-ção para os possíveis "tratamentos" ou metodologias
da Diferença, apontando a necessidade de um rigor
para evitar soluções caricaturais ou infundadas.
Nesse contexto, como nã o pensa r , uma vez ma is, em H a ssoun a o a fir ma r que a única metodologia possível pa r a tr a ta r a Difer ça ser ia "se cur a r da Difer ença ". A Difer en-ça enqua nto luga r de exclusã o e de nega çã o do Diver so, do noma dismo, poder á e tem leva do a lguns a pr opor a "cur a da Difer en-ça " a tr a vés de uma peda gogia , "do insulto ou da discr imina çã o, ou entã o pela metr a -lha dor a ou pela câ ma r a de gá s", conclui
H a ssoun (1995: 16).
As funções descritas a seguir foram obtidas
de autores que trabalharam com o tema, como
tam-bém observadas no cotidiano dos prostíbulos
visita-dos; outras foram detectadas através de entrevistas.
Mas o interessante é a modernidade dessas funções
que se podia imaginar, no atual contexto, não mais
existissem. Eis, então, a importância da prostituta
quando procurada para:
• Socializar adolescentes, que, sem a cooperação da
prostituta, teriam dificuldades para se iniciar nos
misteres sexuais.
Pelo perfil do cliente da prostituta,
esboça-do no capítulo Hl, percebe-se que a segunda maior
freqüência de homens/clientes se encontra na faixa
dos 18 aos 25 anos, ou seja, é um público
pratica-mente iniciante e jovem; outro detalhe é que dos 9
(nove) indivíduos entrevistados, 4 (quatro)
Portanto, essa ainda é uma prática em
vigor-alguns são levados a prostíbulos, outros são
"ataca-dos" na rua. Mas é importante registrar que essa não
é uma regra geral, ou seja, nem todo adolescente é
iniciado sexualmente por prostitutas.
• Aliviar as tensões sexuais dos solteiros,
adoles-centes, solteiros gamófobos, viúvos, desquitados,
evitando neuroses oriundas de uma sexualidade
re-primida - a presença dos viúvos e desquitados (4 e
5% - perfil do cliente) demonstra que eles também
reqüentam prostíbulos, com menor assiduidade
que outro tipo de cliente; além dos solteiros que
nunca casaram por vários motivos. Sabrina contou
sua experiência com o vovô Carlos que a procurava
ma vez por mês ao receber os proventos da
apo-sentadoria .
• Assistir sexualmente os impotentes, que
encon-am na prostituta uma profissional que pode
levá-o alevá-o levá-orgasmlevá-o, mesmlevá-o sem ereçãlevá-o, através de levá-outras excitações eróticas, como o sexo oral e brincadeiras
exuais.
Muitas prostitutas recebem clientes que,
_ or vários motivos, não mais têm ereção ou
neces-sitarn de muita paciência e estímulos que o levemRQPONMLKJIHGFEDCBA
s : obter uma; ou a prostituta o estimula somente
zrravés do sexo oral e/ou "brincadeiras".
Geral-ente, a esposa não é procurada ou não aceita
es-s "brincadeiraes-s sexuais", por uma série de
onvos.
Um exemplo ilustraria esse fato. Sabrina
re-beu um cliente que procurava uma prostituta "bemIHGFEDCBA
_ t a " 1 . .
Por ser um homem fiel à sua esposa, ele não
eria ter uma relação sexual considerada normal.
7cava apenas de cueca e pedia que sua
acornpa-te, nua, subisse em seus ombros e ele então
_ filava, marchando, pelo quarto e tocando o
"to-__~e de alvorada" que geralmente é utilizado nos
:!aItéis. Além disso, ele apenas abraçava e
cheira-. não podia beijar e nem "penetrar" uma outra
- ..:lher que não a sua esposa.
Um fato interessante é que ele somente
pro-va prostitutas porque sua esposa, segundo ele,
ava-se a pintar os cabelos de louro - porque isso
isa de quenga- -, só usava calças recusando-se a
puta" para esse cliente significava uma prostituta que se encai-no perfil que ele imaginava que elas deveriam ter. Ser loura, com roupas provocantes, calcinhas pequen'ssimas, meias trans-~ tes e ligas.
ga é o mesmo que puta, prostituta, "rapariga", "fuampa" e ou-designativos.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
E d u c a ç ã o e m D e b a te -F o rta le z a -Aro1 7 /1 8 - n 2 2 9 -3 0 -3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 - p . ~
usar calcinhas, não usava vestidos, somente calças e
bermudões jeans.
• Aliviar a monotonia conjugal, com variação da
estimulação erótica.
Conversei com alguns clientes os quais
fazi-am questão de registrar que amavam demais suas
esposas e que só estavam no prostíbulo naquela
noi-te para se 'divertir' um pouco; outros não queriam
dar entrevista ressaltando que também só andam
nesses ambientes para "observar e escutar essas
po-bres mulheres aconselhando-as a sair dessa vida";
outros ainda afirmavam ser a primeira vez que
en-travam nesses ambientes, pois eram casados e só
entraram para tomar uma cervejinha, e já estavam
indo embora - meia hora depois encontrava-os em
outros prostíbulos. Geralmente esses clientes
bus-cam um sexo diferente do que estão acostumados a
ter em casa.
• Substituir a esposa nas suas ausências e
impedi-mentos, ocasionados por doença, hospitalização,
vi-agem e outras situações. Muitas esposas reconhecem
essas escapadelas conjugais, puramente sexuais,
hedônicas, sem qualquer vínculo afetivo e,
portan-to, sem ameaça ao lar. Ou ainda, quando esposas
lou-cas ou neurótilou-cas, que se tornaram sexofóbicas, não
permitem qualquer relação.
Essa afirmação parece haver saído de algum livro de ficção científica. Mas, por várias razões,
en-contra-se esse tipo de aversão sexual, que não é raro
e traz implicações conjugais para a vida do casal.
• Assistir, não só sexualmente, os paralíticos,
hemiplégicos, paraplégicos ou tetraplégicos
soltei-ros, e ainda os casados cujas esposas não mais acei-tam o papel de "enfermeira sexual".
Sabrina falou de uma experiência tida com
um rapaz que se tornou paraplégico após um
aci-dente e cuja esposa, não o mais suponando
sepa-rou-se; e, também, de um rapaz tetraplégico que não
podia sequer se masturbar e que nem as prostitutas
aceitavam.
• Aliviar a "escravidão sexual" das esposas cujos
maridos têm manias hiper-sexuais, ou seja, que
que-rem relações sexuais todo dia, e as vezes, mais de
uma por dia.
Um exemplo relacionado a essa função pode
de prostíbulos, ao aposentar-se, passava o dia entran-do e sainentran-do entran-do quarto com prostitutas
• Atuar como fator anti-homossexual, nos
acampa-mentos e campanhas militares, garimpos ou onde
haja aglomeração de homens. Dos 9 (nove)
entrevis-tados, 2 (dois) mantiveram relações homossexuais,
um, ainda menino; o outro, já depois de adulto. Em
ambos os casos, os dois estavam plenamente
consci-entes do que faziam, porém, afirmam não mais
que-rer saber desse tipo de relacionamento. Esse dado é
importante, pois confirma a freqüência com que
ocor-rem relações homossexuais com homens que dizem
ter aversão a homossexuais. o entanto, quando
cri-anças ou em um passado mais recente, essa
experi-ência foi vivenciada e muitas vezes não dita.
• Aliviar os sexopatas de toda espécie, que não
con-seguem o desempenho sexual normal, e encontram
somente na meretriz, através de variada e intensa
estimulação erótica, que entra desde a fel ação até as
brincadeiras sexuais, uma possibilidade de chegar
ao orgasmo.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
É ilustrativo o caso de um rapaz que a mãe
enviava, com certa freqüência, a uma casa de
prosti-tuição. O motorista ficava à porta da casa
aguardan-do o seu retorno.
°
rapaz chegava, com luvas esegurando um envelope lacrado com o pagamento
para o grupo de prostitutas que iria "brincar" com
ele. A madame recebia a importância e
providencia-va álcool para que ele esterilizasse as mãos, pois o
cliente se sentia mal ao tocar em dinheiro. As
garo-tas, geralmente em número de três, iam para o
quar-to com ele somente de calcinha e soutien e ele, de
cueca. Iniciavam, então, brincadeiras de bandido e
mocinho, duas das garotas servindo de bandidos que
o amarravam com cordas na cama após muita
perse-guição por todo o quarto, aos gritos de "pega, pega!"
e "socorro, me ajudem!" Ele se contorcia todo, na
cama, gritando por ajuda, quando a porta é então
aberta abruptamente e entra o herói (a terceira
garo-ta) que vai salvá-Ia. Nesse momento ele ejacula.
• Acompanhar homens que se encontram de
passa-gem pela cidade, a negócios ou a passeios.
Nos tempos áureos de fama dos grandes
prostíbulos de Fortaleza, como a Leila, da Parangaba,
"705", "90" e tantos outros, empresários e várias
outras categorias, inclusive estrangeiros, "fechavam
a casa" para serem atendidos com exclusividade.
7 6IHGFEDCBAE d u :a ç á :le mlRbale . Fortaleza -A r o 17/18 - ~ 2S-3).31e32 de 1995 - p. 65-83
• Escutar queixas e desabafos de clientes sobre seus
problemas com a esposa, o trabalho e outras
dificul-dades, e aconselhá-los.
Muitas mulheres aceitam e são conhecidas
por darem atenção especial sem se preocupar com a
hora de "ir para o quarto".
Essas são apenas algumas funções que a
pros-tituta exerce para atender as necessidades sexuais
de seus clientes. No entanto, existem outras
varia-ções e demandas por "programas" que podem ser
combinados para realização em outros locais, com
pagamento extra.
Um exemplo ocorreu com uma ex-prostituta
que foi convidada para ir à residência de um casal,
primeiro para manter relações sexuais com a esposa,
e o marido observando; posteriormente com o
mari-do e a esposa ficava observanmari-do.
Ou ainda, no caso citado, que aconteceu com
Sabrina, do indivíduo que não podia trair a esposa
mas que procurava uma mulher "bem prostituta".
Houve momentos em que ele a convidou para sair à
noite. Os dois iam no carro dele para um local deserto e escuro, e dentro do carro, ele assumia a postura de' um namorado que havia brigado com a namorada, de braços cruzados, sem olhá-Ia, e ela, sem saber o que
estava acontecendo, ficava esperando o desfecho. De
repente ele abraçava-a freneticamente, empurrava-a
para fora do carro e continuava desesperadamente
abraçando-a.
Esses fatos reforçam o que foi salientado:
nem só de sexo vivem os prostíbulos ou cabarés. O
ambiente é um convite à festa, à bebedeira, às
con-versas intermináveis e brincadeiras com os amigos
de bar e as mulheres descomprometidas, à dança, às
novas amizades. É como diz RAGO,vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
No inter ior desse ca mpo de significa ções,RQPONMLKJIHGFEDCBAé
impossível a pr eender a s múltipla s funções desempenha da s pelo submundo da pr ostitui-çã o, a ssim como a dioer sida e da s pr á tica s socia is a i oioencia da s. No enta nto, difer en-tesfor ma s de la zer ; de diver sã o socia l, como o ba te-pa po, o conta r pia da s ou os concha vos políticos que se cr uza m na s noites boêmia s,
r omâ ntica s e a cir cula çã o dos a fetos confi-gur a va m a cida de do pr a zer e da festa . A cida de notur na vinga va se da cida de diur
-na do tr a ba lho e da discipli-na industr ia lzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
(1991:168).
Esse clima de festa e de prazer permanente,
de amizades fáceis é o que se percebe ainda hoje.
Os prostíbulos, mais do que nunca, recebem
visitações não só de clientes de prostitutas, mas
tam-bém de curiosos - homens e mulheres que nunca
entraram em ambientes de prostituição - que
bus-cam satisfazer suas curiosidades e fantasias. Nesse
clima de frenesi, os shows de sexo explícito,
streap-tease, teatralização, bingo de mulheres, são os meios
utilizados que visam a atrair não só os clientes, mas
todo um público, consumidor, que forma opinião e
divulga as ofertas da casa, além da prostituição. São muito comuns, hoje em dia, festas e "far-ras" de grupos de amigos de trabalho, de escolas, de
aculdades encerrarem ou festejarem alguma data
comemorativa em um ambiente diferente.
Sabedo-res dessa "nova onda", que não é tão recente, os
pro-prietários das casas investem para recebê-los e os
clientes habituais não mais estranham os grupos que
chegam em busca de novas emoções. Os locais mais procurados são os prostíbulos do centro, do Mucuripe e casas de shows da Praia de Iracema. Enfim, quase
rodos os bairros da Cidade, onde quer que se
insta-em, a garantia do público é certa.IHGFEDCBA
o
Q U E É U M A M U L H E RIIBOA
D E C A M A "As representações que as prostitutas têm de
si. de forma dicotomizada, como "mulheres de
res-o ito" e "mulheres sem respeito" é resultado dos
radigmas fortemente solidificados de controle
so-ial desenvolvido nas sociedades, principalmente as
identais.
CASTORIADIS, recuperando o conceito de
ificação, em MARX, trabalha com a noção de
irna-ário social, que esclarece melhor essa situação:
Seja a inda essefenômeno que M a r x cha mou
de r eifica çã o, ma is gener ica mente de
"desuma niza çã o" dos indivíduos da s ela s-ses explor a da s em cer ta s fa s-ses histór ica s: um escr a vo é visto como a nima l voca l, o oper á -r io comoRQPONMLKJIHGFEDCBA" p a r a fu s o de má quina " ou
sim-ples mer ca dor ia . P ouco impor ta , a qui, queUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
E d u c a ç ã o e m D e b a te - F o rta le z a - A r o 1 7 /1 8 -n22 9 -3 0 -3 1 e 3 2 d e 1 9 9 5 -p.6 5 -8 3
esta a ssimila çã o nã o chegueja ma is a se r ea li-za r tota lmente, que a r ea lida de huma na dos escr a vos e dos oper á r ios a questione, etc. Qua l é a na tur eza desta significa çã o -, a qua l, é
pr eciso lembr a r , longe de ser simplesmente con-ceito ou r epr esenta çã o, é uma significa çã o oper a nte, com pesa da s conseqüência s histór i-ca s e socia is? Um escr a vo nã o é um a nima l, um oper á r io nã oéuma coisa ; ma s a r efica çã o nã o é nem uma fa lsa per cepçã o do r ea l, nem um er r o lógico; e nã o podemos ta mbém fa zer dela um "momento dia lético" em uma histó-r ia tota liza da do a dvento da vehistó-r da de da
es-sência huma na , onde esta se nega r ia
r a dica lmente a ntes e a fim de poder r ea liza r -se positiva mente. A r eifica çã o é uma signifi-ca çã o ima giná r ia (inútil sa lienta r que o ima giná r io socia l, ta l como o entendemos, é ma is r ea l do que o "r ea i") (1982: 170).
Nesse sentido, são reforçadas algumas
repre-sentações sobre a prostituição, na maioria das vezes,
pela falta de informação e de esterótipos criados em
torno da imagem da prostituição.
Uma dessas representações refere-se ao fato
de se supor que, ao se pagar uma prostituta para se
ter sexo, ela fará aquilo que o cliente desejar.
Pri-meiro, pelo simples fato de ela ser prostituta e,
se-gundo, por estar sendo paga. No entanto, é
importante registrar que a grande maioria das
pros-titutas fazem o que geralmente a esposa faz em casa
com o marido - o conhecido "papai-mamãe", ou seja,
o sexo vaginal. No entanto, encontram-se
prostitu-tas que se especializam em outras práticas tais como
sexo oral, anal, grupal etc.
Outro dado que deve ser registrado como
representação diz respeito ao fato de que por ser
prostituta, ela tem por obrigação receber a todos sem
dintinção, principalmente porque vai ser paga. Esse
é um dado importante e que merece ser
desrnisti-ficado. A prostituta, feita "mercadoria à enda', só
se vende se houver interesse da parte dela. É
im-portante deixar claro a que tipo de prostituição me
refiro: àprostituição de bordei para onde as
mulhe-res vão no dia em que assim o desejam.
Outra representação incorporada à figura da
prostituta - mulher que lida diariamente com sexo e
todas as suas variações, conhece vários homens e suas
fantasias -, ser uma espécie de experta no assunto,
quer dizer, aquela que domina, que é sabedora em
conquistar os homens. E, o que se percebe, é que
há uma relação de informação equivocada ou
mes-mo de desinformação.
Não poderia deixar de falar também numa
representação muito comum criada em torno do
cli-ente, que é a do fingimento do prazer no ato sexual.
Este prazer que é uma simulação através de gestos
corporais, ampla e prontamente aceita pelo cliente,
mesmo sabendo que se trata de uma representação. O que o cliente não suporta sentir é a total
passivi-dade e/ou falta de interesse demonstrada pela
pros-tituta no ato sexual.
GOFFMAN, compara essa relação
prostitu-ta/cliente com a relação ator/platéia:vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
As pla téia s sã o motiva da s a a gir com jeito por uma identifica çã o imedia ta com os a to-r es pelo desejo de evita to-r uma cena ou pa to-r a gr a njea r o a gr a do dos a tor es com o pr opósi-to de explor a çã o. Ta lvez esta última seja a explica çã o pr efer ida . Alguma s munda na s de r ua bem sucedida s sã o, a o que pa r ece, a s que se dispõem a r epr esenta r uma viva a pr ova -çã o da enceçã o de seus clientes, demonstr a n-do deste mon-do o tr iste fa to dr a ma tür gico de que a s na mor a da s e a s esposa s nã o sã o a s única s pessoa s de seu sexo que têm de se em-penha r na s for ma s super ior es de pr ostitui-çã oRQPONMLKJIHGFEDCBA(1 9 8 8 :2 1 3 ).
Dessa forma, GOFFMAN explicita que as
prostitutas sabem, de certa forma, que reação o
cli-ente quer presenciar. Daí, para cada cliente uma
encenação particular que o satisfaça.
O papel que as prostitutas diariamente
re-presentam para os seus clientes, no quarto, é
repre-sentativo das fantasias que cada indivíduo espera
acontecer sempre, pelo menos naquele momento de
êxtase e delírio. O exemplo que GOFFMAN cita,
junta-se a tantos outros referidos neste ensaio e que
demonstra a busca incessante pela satisfação das
fan-tasias.
Ma r y Lee diz que nã o a tende melhor o Sr . Bla êesee do que seus outr os clientes r icos.
'F a ço o que eu sei que eles quer em, fingindo esta r louca por eles. Às vezes a gem como
meninos br inca ndo. O Sr . Bla éesee sempr e
fa z isso. Ele r epr esenta o homem da s ca ver na s. Chega a o meu a pa r ta mento e me a ga r -r a nos b-r a ços, segu-r a ndo-me a té a cha -r que
tir ou minha r espir a çã o. É uma coisa r idí-UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
7 8 E d u c a ç ã oe m D e b a te - F o r ta le z a - A n o17/18- n2~1 e 3 2 d e1995-p.65-83
cula . Depois que fa z a mor comigo, tenho de lhe dizer : "Quer ido, você me fez tã o feliz que tenho vonta de de chor a r ! Nã o se a cr edita r ia que um homem a dulto a pr ecia sse fa zer essa s br inca deir a s, ma s elegosta . Nã o somente ele. A ma ior pa r te dos r ica ços (Op. cit., 213).
A partir dessas representações, surgem
his-tórias nos prostíbulos, como a de Carla, considerada
uma mulher "boa de cama" e que enfrentou
momen-tos difícieis para garantir e reafirmar sua fama. É a
própria Carla que conta a história.
É isso a í. P or ca usa dessa questã o a í,
enten-deu, d'eu a ssistir melhor o cliente, d'eu me
senta r e conver sa r e ir pr a ca ma sem pr essa e nã o fa zer a quilo tudo sem sa tisfa zer . A questã o er a sa tisfa zer o cliente. Vocêdeixou o clientesa tisfeito, entã o pr a ele isso a í. ..( E x
-pr ostituta , 02/1996).
A representação que cada indivíduo tem
so-bre a prostituição depende, na maioria das vezes, das
próprias fantasias sobre como se pensa e se define a
prostituição. Da mesma forma, cada prostituta pensa
e exerce a prostituição de acordo com seus
"fantas-mas", ou seja, ela sabe quais são as regras do jogo, como cada uma deve agir; no entanto, ficam a critério
de cada uma as questões relativas a ser profissional
ou não. Dizendo de outra forma, uma prostituta pode
entender o que é ser profissional, baseando-se em
uma ou mais das atitudes seguintes:
• ir a um prostíbulo não para se divertir mas para
"batalhar" ;
• fazer os "programas" o mais rápido possível para
não perder tempo;
• procurar não se envolver com os clientes;
• permanecer lúcida para ser "racional";
• evitar conflitos com as amigas de profissão e clien-tes;
• tratar todos os clientes da mesma forma,
favore-cendo a quem pagar mais;
• preocupar-se com o "fazer" e não o "prazer", den-tro de um prostíbulo;
• ter cuidados com doenças sexuais e gravidez, den-tre outras.
Já, outras, podem, em um misto de rebeldia
e "necessidade", inverter a ordem das regras e