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Os subcentros. Capítulo 11

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Capítulo

11

Os

subcentros

A expressão subcentro será por nós utilizada, como já destacamos, para de­ signar aglomerações diversificadas e equilibradas de comércio e serviços, que não o centro principal. Na página 13 do trabalho "A área central do Rio de Janeiro” (IBGE- CNG, 1967, 13), os geógrafos cariocas afirmam que “há cerca de uns vinte anos para cá, em certos pontos da metrópole — nos bairros — que se caracterizavam, de modo predominante, pela função residencial, desenvolveram-se também, com intensida­ de e complexidade, muitos daqueles serviços até então só encontrados na área cen­ tral. Assim, atualmente, em Copacabana, no Méier, em Madureira, na Tijuca, em outros bairros, proliferam lojas comerciais, consultórios, bancos, cinemas, escolas, restaurantes, bares, para atender à população residente no local, ou nas suas proxi­ midades. (...) Esses bairros, dispondo dos serviços assinalados, representam um pa­ pel complementar, de centro de atividades, sendo, portanto, denominados subcentros”. Na verdade, como veremos, na Praça Saens Pena já se havia formado um subcentro na década de 1930.

O subcentro consiste, portanto, numa réplica em tamanho menor do centro principal, com o qual concorre em parte sem, entretanto, a ele se igualar. Atende aos mesmos requisitos de otimização de acesso apresentados anteriormente para o cen­ tro principal. A diferença é que o subcentro apresenta tais requisitos apenas para uma parte da cidade, e o centro principal cumpre-os para toda a cidade.

A questão da diversidade e dosagem equilibrada de comércio e serviços é importante, pois há centros especializados (a rua da Consolação, em São Paulo, é especializadas em lustres; a Santa Efigênia, em material elétrico e eletrônico; a ave­ nida Duque de Caxias, em autopeças, etc.). Tais centros, é válido destacar, freqüentemente atendem a toda a área metropolitana, ou a maior parte dela, como o faz o centro principal. Porém, precisamente por sua especialização, são utilizados

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com menor freqüência ou por um menor número de usuários — embora espalha­ dos por toda a região metropolitana —, enquanto o centro principal exerce uma atração, ou polarização, mais constante sobre um número maior de pessoas.

A

evolução

dos

subcentros

A investigação da história dos subcentros é importante para que seja possível interpretá-los e entender seu papel no espaço metropolitano.

O primeiro subcentro a surgir no Brasil foi o Brás, em São Paulo, na década de 1910; logo em seguida, surgiu o subcentro da Tijuca, na Praça Saens Pena, no Rio. Na década de 1930, Copacabana era um bairro quase exclusivamente residencial. De um guia especialmente concebido para turistas estrangeiros foram coligidos os dados no Quadro 41 sobre a localização de alguns estabelecimentos comerciais no Rio de Janeiro em 1940.1

Esse quadro mostra que, na década de 1930, não havia sequer um embrião de núcleo comercial voltado para o atendimento das necessidades de compras e servi­ ços excepcionais dos moradores de Copacabana, pois ali não havia nenhuma loja digna de nota. Os únicos estabelecimentos de uso mais excepcional eram os cine­ mas. Os estabelecimentos registrados em maior número — hotéis e restaurantes — destinavam-se em grande parte a pessoas que não moravam na cidade. É importan­ te ter em mente que a fonte utilizada — um guia turístico para estrangeiros — não menciona, evidentemente, os estabelecimentos que existiam, porventura, em bair­ ros populares. Na última coluna, sob a rubrica de "Outros locais”, não se deve espe­ rar encontrar estabelecimentos comerciais localizados no Méier ou em Madureira, sequer na Tijuca. É válido acreditar que nesse guia tenham sido incluídos apenas estabelecimentos que atendiam à elite carioca e que, assim, pudessem também aten­ der aos turistas estrangeiros. No entanto, havia naqueles bairros, na década de 1940, núcleos comerciais razoavelmente desenvolvidos, enquanto Copacabana atendia apenas aos turistas.

A análise histórica apresentada a seguir não se baseia, evidentemente, em estatísticas, já que elas inexistem. Entretanto, as descrições que obtivemos foram suficientes para reconstituir de maneira aceitável a história dos subcentros de algu­ mas de nossas metrópoles.

Rio de Janeiro

Constituiu o objetivo principal identificar a época em que os centros de bair­ ro atingiram a categoria de subcentro, ou seja, quando começaram a apresentar es­ tabelecimentos de comércio e serviços, então só ocorrentes no centro principal, em quantidade, porte e variedade significativos. Tem-se então a necessidade de identi­ ficar o que seria entendido por "significativo” nas décadas de 1920 ou 1930. O con­ ceito de subcentro é empírico, mas tem havido certo consenso quanto a alguns es­ tabelecimentos, como lojas de departamento, filiais de lojas do centro, profissionais liberais, cinemas e restaurantes. Tais estabelecimentos, entretanto, devem ser

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ricamente situados. Antes de 1930, a quase-totalidade das lojas de departamento limitava-se a vender apenas peças de vestuário e artigos têxteis. Raras eram as lojas como o Mappin, por exemplo, que já na década de 1920 possuía, além desses arti­ gos, uma seção de utensílios domésticos que anunciava "caçarolas, balanças e gela­ deiras a gelo e elétricas". Sobre o assunto, veja-se como se manifestava o já mencio­ nado guia do Rio de Janeiro: "Rio de Janeiro does not possess the large department Stores usually found in the larger capitais, but there are many especially Stores provided with update foreign novelties” (sic; p. 205). Portanto, seria descabido espe­ rar, nas décadas de 1920 ou 1930, a presença de lojas de departamento como requi­ sito para a classificação de uma aglomeração comercial como subcentro.

Levando em conta essas circunstâncias históricas, é válido concluir que a Praça Saens Pena atingiu a categoria de subcentro na década de 1930, antes do Méier, de Madureira e Copacabana, bairros que atingiram essa condição somente na década de 1940. Só no início dessa década surgiram no Meyer lojas que, para os padrões da época, poderíam ser consideradas representativas de um subcentro — é o caso de uma filial das Lojas Americanas. A Vieira de Castro Comércio e Indústria S.A., exis­ tente no Méier na década de 1970, abriu em 1932 uma perfumaria, mas somente por volta de 1940 o estabelecimento passou a incluir várias seções como a de calça­ dos, camisaria, chapelaria e perfumaria.2

Nessa época, o Méier já contava com várias lojas de calçados e tecidos — lo­ jas não comuns nos bairros. Segundo pesquisa realizada em 1976 (Villaça, 1978), alguns comerciantes antigos do Méier eram de opinião de que esse bairro já teria sido superado por Madureira na década de 1940. Mesmo que isso não seja exata­ mente verdadeiro, é válido admitir que ambos os núcleos naquela época eram se­ melhantes em porte e realmente tinham atingido a categoria de subcentro. De acor­ do com Soares (1968,371), "o Méier é chamado ainda a capital dos subúrbios, pois é, sem dúvida, depois de Copacabana, o maior subcentro da cidade”. Botelho e Cardo­ so (1965-1966,31-48) declaram que por volta de 1960 a liderança do Méier começou a ser abalada. Têm-se no Quadro 42 os números médios de pessoas presentes nas três administrações regionais nos dias úteis, por atividade, segundo os Estudos Ca­ riocas (estado da Guanabara, 1965).

ATijuca—Praça Saens Pena —, entretanto, já era um subcentro antes de 1940. Talvez a primeira filial aberta por uma loja do centro do Rio no centro de um bairro tenha sido a tradicional Casa Granado, perfumaria instalada à rua Direita (Primeiro de Março), em 1870. Tal filial, inaugurada em 1928, situava-se na rua Conde do Bonfim, no mesmo local onde ainda se encontrava em 1994.3 Nessa época, as perfu­ marias eram lojas importantes e essa filial era um indício significativo da importân­ cia do centro daTijuca. Na década de 1930 existia também na Praça Saens Pena uma filial da conceituada loja Formosinho, que vendia artigos de vestuário e que contava com dois estabelecimentos no centro principal. Havia ainda naTijuca uma loja Drago, que vendia móveis; o Jarro de Cristal, que vendia louças e cristais; a ConfeitariaTijuca; a Ferreira, que vendia ferragens, além de várias lojas de calçados e tecidos. Na déca­ da em foco, o bairro contava com nada menos que quatro cinemas: o Olinda, o ■

i

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Quadro 42 — Cidade do Rio de Janeiro — pessoas presentes segundo administra­ ções regionais por tipo de atividade (1965)

Atividade Copacabana Méier Madureira

1.Emtrabalho,estudo,

comprasediversões 220928 135683 154599

2.Emoutrasatividades 271 485 307 105 354984

3.Total(incluisem

declaração) 493634 443850 511 922 i.

Fonte:EstudosCariocas,1965.

Tijuquinha, o América e o Carioca. Recorde-se que em 1940, segundo o guia citado, Copacabana tinha apenas três cinemas.'* Nessa mesma década — a dos anos 40 —, a Tijuca tinha até uma loja que vendia automóveis, a Importadora Tijuca.5

Dessas informações podemos tirar pelo menos uma conclusão segura: a Pra­ ça Saens Pena foi o primeiro subcentro a surgir no Rio de Janeiro, precedendo Copacabana, e o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares.

São Paulo

0_ Brás podia ser considerado um subcentro já na década de 192oj Nos anos 40, as lojas, cinemas e restaurantes desse bairro se incluíam dentre os maiores da cidade. Nos anos 50, as lojas do Brás abriram filiais no centro de São Paulo.

Principal bairro de italianos que surgiu em São Paulo no final do século XIX, formou-se no Brás um grupo estrangeiro que, inicialmente, viveu bastante isolado, segregado do restante da cidade^Sua população não tinha acesso econômico e so­ cial ao centro, e essas condições contribuíram para que o Brás — e os demais bairros populares que em torno dele se formaram, como a Moóca, o Belenzinho e outros — desenvolvesse intensa vida própria.^

IQ isolamento de grupos étnicos é freqüentemente uma forma de autodefesa numa sociedade estranha, nova e até hostijjEm São Paulo houve alguns conflitos entre italianos e brasileiros no final do século passado. Segundo Morse (1970, 240), em 1897, na capital, os italianos superavam os brasileiros na proporção de dois para um, e a assimilação de imigrantes italianos em São Paulo foi relativamente pacífica. “Houve uma perturbação de menos importância, por exemplo, quando, nos primei­ ros anos da imigração italiana, um empresário italiano destituído de espírito gentil­ mente dedicou uma representação teatral fà colônia brasileira’. Mais séria foi a ques­ tão dos Protocolos. (...) Quatro anos de recriminações culminaram em 1896 quando

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o cônsul da Itália em São Paulo, em atitude de ópera bufa, marchou pelas ruas da cidade à frente de 200 compatriotas aos gritos de ‘Viva a Itália’ e 'Morra o Brasil’, o que teve como resultado tiroteios e incidentes (página 333).” Em nota de rodapé à página 265, esse autor fala de “diversos conflitos envolvendo italianos e negros” e, à página 273, cita o seguinte diálogo de uma obra de Oswald de Andrade (A revolu­ ção melancólica, Marco Zero), que mostra como o Brás era um mundo hostilizado à parte:

— E o Carnaval? O Senhor gosta, seu Xavier? — Gostei... do antigo.

Depois de um silêncio disse:

— O pessoal do Braz tomou conta e estragou tudo. Outro silêncio

— As famílias não podem se divertir. Não há respeito.

O mundo para Xavier dividia-se perfeitamente em duas metades. As famílias e o pessoal do Braz.

Paulo Sérgio Pinheiro (1977, tomo III, v. 2, p. 139) cita o censo da cidade de São Paulo de 1893, segundo o qual“os estrangeiros contavam 71 468 numa popula­ ção de 130 468 habitantes”.

(Asegregação inicial e a impossibilidade de se servirem do centro principal fize­ ram com que se criasse, no próprio bairro, uma grande demanda para comércio e serviçosJ^té o início dos anos 40, toda a zona Leste já era polarizada pelo comércio do Brás; essa região constituía quase uma cidade à parte dentro de São Paulo] O grande desenvolvimento do centro do Brás é uma clara manifestação de seu isolamento ini­ cial, que o levou a reforçar-se e ao mesmo tempo beneficiar-se dele.

Em 1908, o Brás inaugurou seu próprio teatro de ópera, o Colombo, onde se apresentavam companhias e cantores italianos, paralelamente às temporadas dos teatros do centro, o São José e depois o Municipal, inaugurado em 1911. Embora sem se comparar em termos artísticos às temporadas dos grandes teatros da bur­ guesia, as temporadas do Colombo não deixavam a desejar. Pela imprensa da época, pode-se verificar, por exemplo, que a temporada de janeiro de 1913 contou com “cenários e guarda-roupas da acreditada Casa Aligiani de Buenos Aires" e ainda com os serviços do cabeleireiro Marloni, também daquela cidade. A temporada estava a cargo da Grande Companhia Lyrica Italiana, e o repertório incluía Carmen, II Barbeuro di Seviglia, I Pagliacci, Aida, La Traviata, II Guarany, Ernani, La Gioconda e Tosca, numa única temporada. Fanfulla, o grande jornal italiano de São Paulo, pu­ blicou em 1928 noticiário e propaganda da Grande Compagnia Italiana di Operette de Clara Weiss que, depois de uma temporada no Cassino Antártica, no centro, exi­ biu-se no Olympia, à avenida Rangel Pestana n. 1533. Conforme o jornal de janeiro de 1928: “La Casa delle Tre Ragazze richiamó ieri sera tanto publico da riempire il

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vasto teatro dei Brás". Além do Colombo, o jâ mencionado Olympia e o Mafalda anrP

sentavam programações semelhantes às do centro. 1

(fl Brás tinha seu próprio carnaval e seu corso tornou-se famoso preceden do o das elites, que mais tarde passou a ser feito na avenida Paulistanos anos 20 o Colombo tornou-se cine-teatro e já não apresentava mais óperas; apenas dra’ mas e teatro de revista, além, evidentemente, de cinema. A propaganda dos espe- táculos do Colombo — como também do Mafalda e do Olympia — aparecia nos jornais de São Paulo ao lado da dos cinemas e teatros do centro principal, freqüentemente ocupando mais espaço que os anúncios das casas de diversão dá burguesia, como o Teatro Santana (na rua 24 de Maio) e o Cassino Antártica. No final dos anos 20, cinco cinemas do Brás anunciavam nos jornais de São Paulo, além do Colombo. Na década seguinte, esse número mais que dobraria com a aber­ tura dos gigantescos cinemas Brás Politeama, Oberdan, Roxi, Universo, Babilônia entre outros. Na década de 1920, abriram-se várias lojas que viriam a ser grandes , na década seguinte e enormes — as maiores de São Paulo — nos anos 40 e 50: as lojas de Móveis Pascoal Bianco, as lojas de Móveis Brasil, aTeperman e aquela que foi, provavelmente, a maior loja do país, as lojas Pirani — A Gigante do Brás. Esta, já nos anos 20, era uma loja de departamentos para os padrões da época, pois vendia móveis, tapetes, louças e cristais. Ainda consultando a imprensa, verifica­ mos que, nessa década, várias lojas do centro tinham filiais no Brás. As tradicio­ nais lojas Clark, de calçados, tinham três filiais no Brás, a última inaugurada em 1928. A Casa Lisboa era também uma loja de departamentos para os padrões da década de 1920, visto que anunciava seções de fazendas, modas, mercearia, camisaria, lingerie, artigos para crianças e perfumaria; a matriz era no centro e a filial, à avenida Rangel Pestana n. 358. A Casa Almeida Irmãos, com matriz no lar­ go da Liberdade, tinha uma filial no Brás (na avenida Rangel Pestana n. 201) já em 1917. Nos anos 20 havia no Brás várias lojas de automóveis.

Nessa década, além de várias lojas, o Brás tinha inúmeros restaurantes e cantinas e também suas próprias diversões — o jogo de"frontão ou pelota basca , posteriormente proibidos. Na década de 1930 o bairro passou a ter lojas raras como as de armas e artigos de caça e pesca; duas lojas vendiam discos e gramofones, instrumentos e partituras musicais. Nessa época já era grande o numero de profis­ sionais liberais no bairro, a ponto de, em 1941, ser construído o edifícioTeperman, com seis pavimentos exclusivamente para escritórios, principalmente consultóri­ os médicos. Nos anos 40, várias lojas do Brás começaram a abrir filiais no próprio bairro e, na década seguinte, no centro principal da cidade. Dentre elas, a Pirani, a Teperman e as lojas Ricó, de móveis para escritório. Mais tarde, a Eletroradiobrás — fundada no bairro em 1948 como loja de rádios — abriu filiais por toda a cidade e tornou-se uma das maiores cadeias de lojas e supermercados do país. Na década de 1940, até mesmo tradicionais lojas de outras cidades abriram filial no Brás. As lojas Renner, de Porto Alegre, tinham duas filiais em São Paulo: uma no centro e outra no Brás. Considerando apenas as lojas e serviços que tinham telefone e que apareciam na primeira Lista Telefônica de páginas amarelas, publicada em 1947,

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eram os seguintes os estabelecimentos existentes no Brás na primeira metade dos anos 40:

• Calçados

(inclusive cinco filiais de lojas do centro) • Vestuário feminino, chapéus e bolsas • Vestuário masculino

• Móveis, cortinas e tapetes • Lojas de departamento • Hotéis • Jóias e relógios • Consultórios médicos • Cinemas 32 5 20 51 2 3 12 55 8

A absoluta maioria dos médicos tinha consultório separado da residência, como revelam os endereços, com número do pavimento e da sala. Somente o já mencionado edifícioTeperman, na avenida Rangel Pestana n. 2251, possuía dezessete consultórios médicos, ou seja, quase três por andar. Dentre eles havia o de um mé­ dico que mencionava o endereço de sua residência à rua Itápolis, no aristocrático Pacaembu, e anunciava que operava no Hospital Oswaldo Cruz e na Pró-Matre, ambos na região da avenida Paulista. Vários médicos tinham dois consultórios, um no Brás e outro no centro principal, atendendo três dias por semana em um e três em outro.

Lo^Brás aparece, assim, como o primeiro subcentro do país. 'Pelo recensea- mento estadual de 1934, o então município de São Paulo — excluindo o então mu­ nicípio de Santo Amaro — tinha uma população de 1 033 202 habitantes e a zona de influência do Brás (subdistritos de Belenzinho, Moóca, Pari, Penha, Tatuapé, Vila Matilde, Itaquera e Lageado, atual Guaianazes) tinha 350 515 habitantes, ou seja, um terço da população da capital.

l^s enormes dimensões do centro do Brás e o fato de nele haver muitas filiais de lojas do centro e consultórios de médicos que tinham também consultório no centro mostram não só uma grande divisão da cidade, mas também a enorme classe média que havia na zona de influência do Bras, isto é, a zona LestejFoi a localização dessa enorme classe média que a segregação subseqüente revolucionou, com pro­ fundas implicações na cidade e na zona Leste, como já vimos no capítulo 5 e conti­ nuaremos a ver adiante.

Os demais subcentros de São Paulo, inclusive alguns poucos centros princi­ pais de municípios da região metropolitana, como Santo André e São Caetano, to­ dos populares, começaram a se desenvolver na década de 1940, quando passaram a abrigar generalizadamente filiais de bancos e lojas do centro.

Porto Alegre e Belo Horizonte

A Área Metropolitana de Porto Alegre tinha, na década de 1970, a terceira maior rede de subcentros do país. Seu desenvolvimento data dos anos 30 e chega a

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No início da década de 1930, Porto Alegre já contava com três subcentros conforme mostra o Quadro 43, que mclui somente estabelecimentos que pelos na drões dessa década, eram típicos de um centro principal * H Quadro. 43 - Cidade de Porto Alegre: número de estabelecimentos selecionados nos principais subcentros (1932)

Estabelecimentos Navegantes Azenha Floresta Cinemas

Chapelarias, tecidos, confecções Calçados

Joalheriaserelojoarias Restauranteseconfeitarias Móveis,fogõesoupianos Perfumarias Bancos Floricultura Dentistas Médicos Livrariase papelarias Louçasecristais 2 1 2 13 8 11 7 2 1 3* 0 1 5 7 8 2 2 1 1 0 0 2 0 0 1 1 2 4 9 8 0 0 1 0 0 2 1 0 1

(*)Inclusiveumafilialdelojadocentro,aCasaMasson.

Fonte:GuiaPúblicodePortoAlegre,HugoMuller(org.),PortoAlegre,1932.0

Além dos subcentros do município da capital, a Área Metropolitana de Porto Alegre apresenta vários subcentros de porte que são os centros principais de alguns de seus municípios. Pesquisa realizada em 1976 (Villaça, 1978,328), contando e pon­ derando distintos estabelecimentos de comércio e serviços, conferiu à Azenha, com 115 pontos, o primeiro lugar e dentre os vários subcentros da Área Metropolitana de Porto Alegre e ao centro da cidade de Guaíba, com 48 pontos, o décimo primei­ ro lugar. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, essa mesma pesquisa não re­ gistrou nenhum subcentro com 48 pontos. O maior deles, o Barreiro, teve apenas 44 pontos. O Quadro 44 mostra as pontuações dos centros principais e dos principais subcentros das áreas metropolitanas de Porto Alegre e Belo Horizonte naquele ano.*

*Apesquisacontoutodososcinemas,bancoselojas—classificadasemlojasdedepartamento,lojas médiascgrandes—,ponderandoessesestabelecimentosdeum(lojasmédias)atrêspontos(lojasde departamentoecinemas).

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A história dos subcentros da região metropolitana de Porto Alegre indica que pelo menos um deles — Navegantes — se já não era um subcentro na década de 1930, certamente já o era na década de 40.

A década de 1970 marcou o apogeu relativo dos subcentros que, com suas lojas de departamentos e em especial com seus enormes cinemas, polarizavam for­ temente grandes zonas de influência. Em termos absolutos, eles continuam cres­ cendo e muitos novos subcentros têm surgido. Mais recentemente, shopping centers com perfil nitidamente popular vêm sendo instalados em centros populares, inclu­ sive em pleno centro principal, como em Salvador. No Rio (Madureira) ou em São Paulo (Penha), eles reforçam subcentros tradicionais. Os shoppings populares ain­ da representam uma parcela pequena no comércio varejista das camadas popula­ res; entretanto, é inegável que, cada vez mais, embora lentamente, os subcentros tradicionais deverão ou concorrer com esses shoppings, ou incorporá-los. Apesar de pouco diversificados, ainda, pois os serviços neles estão sub-representados (pro­ fissionais liberais, serviços públicos, ensino, saúde, etc.), e os shopping centers lo­ calizados fora dos subcentros populares estão cada vez mais concorrendo com o comércio tradicional.

Quadro 44 — Porto Alegre e Belo Horizonte

Pontuações dos centros principais e subcentros (1975)

PortoAlegre BeloHorizonte

1.CentroPrincipal 2.Azenha

3.AssisBrasil(P.daAreia) 4.NovoHamburgo 5.Canoas 6.SãoLeopoldo 7.Navegantes 8.Esteio

9.AssisBrasil(S.João) 10.Partenon

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728 1.CentroPrincipal 570 2.Barreiro 3. Floresta 4. Lagoinha 5.Savassi 115 44 42 112 28 88 87 25 i- 8257 1 51 51 49

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Fonte: Villaça, 1978. i

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shopping

center

O primeiro shopping center brasileiro — o Iguatemi — surgiu pioneiramente em São Paulo em 1966. O segundo — o Continental, na divisa entre São Paulo e Osasco — foi um fracasso, visto ter sido uma temeridade, naquela época (início da década de 1970) localizar um shopping num subúrbio de classe média e média bai­ xa. A partir de meados da década de 1970, os shoppings começaram a se vulgarizar em todas as metrópoles brasileiras. Embora predominando na região de alta

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centração das camadas de alta renda, começaram, no final dos anos 80, construídos também em regiões populares.

O shopping center é o sucessor da loja de departamentos, que por sua vez é a sucessora da loja geral, de meados do século XIX. Têm em comum o fato de basear- se na economia de aglomeração e na variedade de produtos que se complementam (em oposição à especialização). Isso, aliás, todos esses tipos de estabelecimentos têm em comum com as áreas comerciais diversificadas tradicionais — os subcentros.

Cabe aqui analisar o significado dessa complementaridade, uma vez que ela está muito ligada ao poder estruturador de um centro terciário, seja ele shopping center, seja subcentro tradicional. O poder polarizador— portanto estruturador — de um centro terciário (de comércio e serviços) é função dessa complementaridade, ou seja, da variedade equilibrada que apresenta de comércio e serviços. Nos centros tradicionais (principais ou subcentros), essa variedade equilibrada é alcançada pe­ las forças do mercado. O centro ou o subcentro, sob a influência dessas forças, aca­ ba não tendo nem lojas de calçados demais, nem lojas de informática de menos; nem dentistas demais, nem escolas de inglês de menos. É o conhecido mix a que almejam os shopping centers. Qual o significado dessa“variedade equilibrada"? Sig­ nifica reduzir ao mínimo o número de deslocamentos dos clientes. Quanto maior a variedade de comércio e serviços existentes num centro, menor o número de via­ gens que um consumidor precisa fazer para ter todas suas necessidades atendidas. Surge aqui, novamente, o poder estruturador dos deslocamentos de pessoas. Os gran­ des subcentros “têm de tudo”, inclusive no tocante aos serviços, públicos e privados, e nisso se opõem aos centros especializados. Nesses, o cliente faz uma única viagem para atender a uma única necessidade. Por isso, sua zona de influência abrange ou toda uma área metropolitana, ou grande parte dela — uma zona de influência bem maior que a de um subcentro tradicional ou um shopping center. Em compensação, a população dessa grande zona de influência vai mais raramente a um centro espe­ cializado e com maior freqüência ao centro diversificado; daí o frágil poder estruturador dos subcentros especializados. O subcentro diversificado atende às necessidades mais freqüentes, de maior número de pessoas, porém de uma zona de influência menor. Seu maior poder estruturador decorre do fato de eles apresenta­ rem uma variedade equilibrada de comércio e serviços, ou seja, serem o oposto do centro especializado. Então, o mix, que nos centros tradicionais é definido pelo mercado, no shopping center é fruto de várias pesquisas e imposto pelos promoto­ res do empreendimento (capital imobiliário e financeiro) aos comerciantes (capital mercantil).

a ser

Há, entretanto, uma diferença fundamental entre, de um lado, o shopping center e, de outro, a loja de departamentos e as lojas dos subcentros tradicionais. Nestes últimos, o comerciante é quem toma várias decisões importantes a respeito de seu empreendimento, a começar pela localização do estabelecimento; no shopping, é o promotor imobiliário quem define não só a localização, mas uma série de normas ao comerciante, como horário de funcionamento, aspectos de

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comunicação visual, normas de segurança, etc. Ao controlar e impor o mix, tam­ bém há um domínio do capital imobiliário sobre o mercantil. O shopping repre­ senta pois a penetração do capital imobiliário na esfera do capital mercantil e a sujeição do comércio varejista e dos serviços ao capital imobiliário e — através deste — ao financeiro.

Como vimos, a tendência inexorável do capitalismo em transformar em mer­ cadoria todos os produtos do trabalho encontra na mercantilização do "ponto” uma barreira séria. Trata-se de uma das mais árduas batalhas travadas pelo capital no sentido de conseguir produzir algo que, em última instância, não lhe é possível pro­ duzir; é impossível transformar os “pontos” em mercadoria. Já mencionamos que não há, em teoria, dois “pontos” iguais; é impossível reproduzir a esquina da aveni­ da São João com a avenida Ipiranga, embora elas sejam produto do trabalho. A ten­ tativa do capital de produzir "pontos” sob forma de mercadoria consiste na produ­ ção de aglomerações imobiliárias — pacotes imobiliários — cada vez maiores e complexas, pois só elas produzem os “pontos”. Nos Estados Unidos, há muito tempo a promoção imobiliária procura produzir não simples loteamentos ou conjuntos residenciais, por maiores que sejam, mas cidades novas inteiras, com infra-estrutu­ ra, edificações residenciais e comerciais, e até mesmo industriais. Entre nós, os Alphavilles, em São Paulo, já estão se aproximando disso. Na França ou na Inglater­ ra, as políticas públicas de construção de cidades novas representam as mais avan­ çadas tentativas do capital imobiliário no sentido de produzir“pontos”/mercadori- as por meio da produção de aglomerações inteiras.

Através do shopping center, o promotor imobiliário produz e põe â venda, em poucos anos, “pontos” que o comércio tradicional levaria décadas para produzir com as aglomerações tradicionais de comércio e serviços. É claro que o próprio shopping center depende, para seu sucesso, de um bom “ponto”, de uma boa locali­ zação. Nos Estados Unidos, a crescente homogeneização do espaço urbano, propi­ ciada por uma grande classe média, pela difusão do automóvel e pelas vastas redes de vias expressas, amplia as opções de localização dos shopping centers, dificultan­ do a escolha do "ponto”. Quanto mais homogêneo o espaço, como nas metrópoles médias americanas, mais difícil a escolha do "ponto” para um shopping. Quanto mais desiguais o espaço urbano e a distribuição territorial da renda, como nas me­ trópoles brasileiras, menos difícil a escolha dos “pontos". O espaço urbano desigual leva então a uma desigual distribuição dos shoppings (como aliás, do comércio e serviços em geral), que apresentam alta incidência nas Áreas de Grande Concentra­ ção das Camadas de Alta Renda (AGCCAR). A concentração dos shoppings em tais áreas é vista nas figuras 44,45 e 46. Em janeiro de 1997, existiam vinte e seis shoppings na Área Metropolitana de São Paulo. Desse total, quinze (57,7%) se localizavam no setor Sudoeste (setoresV eVI; Figura 18), onde, em 1991, residiam 24,89% da popu­ lação (veja Quadro 11), e onze (42,31%) se localizavam dentro da Área de Grande Concentração das Camadas de Alta Renda, onde residiam apenas 13,72% da popu­ lação da área metropolitana. No Rio, em janeiro de 1997, na Área de Grande

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Figura44—ÁreaMetropolitanadeSãoPaulo:localizaçãodeshoppingcenters

Figura45—ÁreaMetropolitanadoRiodeJaneiro:localizaçãodeshoppingcenters

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Figura46—ÁreaMetropolitanadeBeloHorizonte:localizaçãodeshoppingcenters

centração das Camadas de Alta Renda, que abrigava apenas 9,40% da população metropolitana, estavam nove dos dezessete shoppings da área metropolitana, ou seja 52,9% deles. Em Belo Horizonte, seis dos nove shoppings estavam localizados naquela área. Se considerarmos a Área Bruta Locável (ABL), em São Paulo 65,43% da ABL se localizava dentro da AGCCAR e, no Rio, 49,38%.7

Os shopping, como os supermercados e os hipermercados, representam uma grande força de concentração e de rentabilidade espacial. Um supermercado tem um volume de vendas equivalente a muitas quitandas, padarias, açougues e empó­ rios ou vendas (hoje praticamente extintas), perfumarias e peixarias, os quais ele fez desaparecer ou reduzir muito. Evidentemente, o número desses estabelecimentos seria muito maior do que é se não existissem os supermercados, e isso é extensivo ao hipermercado e ao shopping. A alta rentabilidade espacial desses estabelecimen­ tos é representada por seu elevado volume de vendas por unidade de área. Sem con­ siderar o estacionamento — que os centros tradicionais quase não oferecem —, o volume de vendas de um hipermercado ou shopping center por unidade de área (bruta locável ou de terreno) é maior do que o de um agrupamento de lojas tradicio­ nais com o mesmo volume bruto de vendas. Ao eliminar (substituindo e concen­ trando) dezenas de perfumarias, quitandas, vendas, açougues, peixarias, etc. e lojas diversas, o supermercado, o hipermercado e o shopping center tendem a produzir espaços urbanos com menor diversidade de uso, ou seja, mais "puros” no sentido de

i

1

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u

qv,e neles há menos usos comerciais espalhados pelos bairros do que haverh cnso se mantivesse o comércio tradicional. De um lado, áreas mais puramente

de outro, mais puramente comerciais. O fato dei suas vizinhanças não deve levar à ilusão de que eles

residenciais; o shopping atrair comércio para aumentam as áreas comerciais Uma característica marcante desses estabelecimentos altamente

dos são os problemas de tráfego que podem acarretar. Desde sua difusão eles vêm preocupando muitas prefeituras municipais que não dispõem de instrumentos le­ gais para enfrentar o impacto por eles provocados. Por que o mesmo não ocorre com os subcentros tradicionais? O comércio espalhado e difuso provoca, proporci­ onalmente, tráfego igualmente difuso. Se os subcentros tradicionais hoje provocam congestionamento de tráfego, é porque eles se localizam em áreas antigas, com sis­ tema viário antiquado e porque são enormes. Nessa comparação entre os centros tradicionais e os concentrados, o volume de pessoas atraídas por um subcentro gran­ de ou médio (Méier, Madureira, Pinheiros e Lapa, por exemplo) é bem maior do que aquele atraído por um grande shopping. Na verdade, a "novidade" ou o problema novo que esses estabelecimentos trazem não é propriamente o vulto de seus impac­ tos, mas o fato de eles ocorrerem quase instantaneamente. Um subcentro tradicio­ nal leva décadas para se constituir e seu impacto se produz lentamente, sendo ab­ sorvido lentamente pela vizinhança, que aos poucos também se transforma. O shopping center, ao contrário, é produzido instantaneamente, sem dar tempo à vi­ zinhança de a ele se adaptar. A instantaneidade — mais que a dimensão — dos empreendimentos imobiliários característicos dessa nova era de alta concentra­ ção de capital imobiliário (produção de pacotes imobiliários) é que está provo­ cando uma revolução nas áreas nobres de nossas cidades e em nosso urbanismo. Nossas cidades grandes — não tanto as médias — têm ainda um espaço do passa­ do, leis de zoneamento e exigências urbanísticas do passado, inadequadas a macroempreendimentos. Daí os apelos dos urbanistas municipais para a elabora­ ção de leis "mais flexíveis” e o surgimento de novos mecanismos urbanísticos,

Estudos de Impacto Ambiental. Daí, também, a dificuldade de enquadrar como os

esses macroempreendimentos em leis urbanísticas genéricas, como as tradicio­ nais, e o advento das análises caso a caso por parte dos urbanistas municipais.

Os shoppings e os hipermercados — como os novos condomínios fechados — são manifestação da alta concentração de capital no setor imobiliário. Outrora, o centro comercial tradicional era produzido lentamente por dezenas de comercian­ tes, quase sempre sem uma produção imobiliária proporcional, já que muitos esta­ belecimentos se instalavam em edifícios preexistentes que eram adaptados. Hoje, o shopping e o hipermercado constituem um único e enorme empreendimento que, em dois anos, cria, num local restrito, um grande foco de empregos e de geração de viagens. Por maior que tenha sido o desenvolvimento dos shopping centers e hipermercados, eles não tiveram ainda um impacto significativo sobre nossas es­ truturas metropolitanas, em face da hegemonia dos subcentros tradicionais. Os shoppings vêm apresentando, entretanto, uma participação significativa no

prosse-1

(16)

guimento do esvaziamento dos centros principais de nossas metrópoles, embora o declínio desses centros tenha se iniciado antes da vulgarização dos shoppings. Como os centros principais tradicionais atraíam clientela de alta renda e os shoppings tam­ bém, os últimos têm contribuído mais para o prosseguimento do esvaziamento dos centros principais do que dos subcentros. Por outro lado, o reforço de subcentros populares por shoppings (Madureira, no Rio, ou Penha, em São Paulo) ainda é pe­ queno, mas representa uma tendência salutar de contenção de uma eventual ten­ dência à suburbanização e dependência do automóvel. O mesmo pode ser dito com relação à construção de shoppings nos centros principais, como vem ocorrendo em Salvador.

Notas

1. Guias do Brasil Ltda. Rio de Janeiro and its environs, 2"d edition, Rio de Janeiro, 1940. 2. As informações sobre o comércio do Méier no passado foram obtidas através de entrevistas

feitas, em 1976, com comerciantes antigos, a saber: senhor Artur F. Brunocilla, da loja A Cidade do Meyer, eVítor Manuel Vieira de Castro, um dos sócios da fírmaVieira de Castro Comércio e Indústria S.A., e outros comerciantes do bairro.

3. Informação prestada em entrevista realizada em 11 de setembro de 1976 com o senhor José Joaquim da Cunha, gerente da Filial daTijuca da Casa Granado.

4. Segundo o guia citado na nota 1, as lojas Formosinho do centro localizavam-se uma à avenida Rio Branco n. 171, e outra à rua do Ouvidor n. 136. As atividades sobre o comércio daTijuca foram obtidas em 1976 através de entrevista com o senhor Eriderson da Rocha Coelho, um dos sócios da Casa Itamar, loja de tecidos aberta em 1942 à Praça Saens Pena, e outros comerciantes do bairro.

5. Localizava-se no atual número 426 da rua Conde do Bonfim, onde, na década de 1970, estava a Casa Khalil M. Gebara.

6. Foram considerados, na pesquisa realizada em 1976, os estabelecimentos localizados na então avenida Eduardo (hoje Presidente Roosevelt) e na rua (hoje avenida) São Pedro e ainda da avenida Brasil. Azenha incluiu os estabelecimentos localizados na rua da Azenha, até aproximadamente o número 1600, e na avenida João Pessoa, aproximadamente, entre a rua Venâncio Aires e a avenida Ipiranga. A Floresta incluiu apenas a rua Cristóvão Colombo, entre as ruas Pelotas e Almirante Barroso. Todos os três são hoje subcentros populares. 7. Foram computados todos os shoppings com cinema, segundo anúncio da Folha deS. Paulo,

O Estado de S. Paulo, o Jornal do Brasil em janeiro de 1997 e O Estado de Minas em dezembro de 1996.

Quanto à ABL, os dados são os seguintes:

:

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•!Í QuadroA—Shoppingcenters—distribuiçãoporABL(1997)

SÃOPAULO RIODEJANEIRO

DentrodaAGCCAR ABLemm2 DentrodaAGCCAR ABLemm2 Continental D&DShopping Morumbi Butantã Iguatemi 28632 11 854 46082 7055 33529 8769 16060 61015 51 773 58963 17516 15002 29000 22180 22089 39870 Barrashopping Casashopping Recreio

RioDesignCenter RioOffPrice RioSul

SáoConradoFashion ViaParque 74600 18501 16962 5180 7206 48107 12500 39700 : : 1 Sul D Eldorado Ibirapuera Interlagos JardimSul OffPriceRaposo Tamboré Matarazzo Paulista WestPlaza 8shoppings 222756 49.38% 16shoppings 469389 65,43% FORADAAGCCAR . FORADAAGCCAR ! ‘ 15974 13150 19980 25000 65 103 21000 30000 24699 1415 12000 3155 5000 35809 20778 11 861 19473 3473 9665 64000 17495 41000 16256 Dutra 1 IguaçuTop Ilha Plaza Madureira Norteshopping NovaAméricaOutlet PlazaNiterói Iguatemi PaçodoOuvidor West

Americanas(Osasco) DiretãoS.MiguelPaulista LarCenter Mogishopping Osasco Plaza ABC ChieTatuapé Lapa Norte Penha Aricanduva Metrópole ' 228321 50,62% 10shoppings t 247965 34,57% 12shoppings 451077 Total 717354

AGCCAR-ÁreadeGrandeConcentraçãodasCamadasdeAltaRenda.

Fontes:AssociaçãoBrasileiradeShoppingCenters,excetopara0Paulistae0WestPlaza, cujasinformaçõesforamcedidaspelaPlazaPaulistaAdministraçãodeShoppingCentersS/C. Nota:inclui,segundoaABRASCE,shoppingsasereminauguradoscm1997.

309

(18)
(19)

Capítulo

12

do

espaço

intra-urbano

As análises anteriores revelaram que, desde meados do século XIX — mais cedo em algumas metrópoles, mais tarde em outras —, as classes acima da média vêm tendendo a se segregar crescentemente em uma única região geral da metró­ pole: a zona Sul, no Rio e Belo Horizonte, no quadrante sudoeste em São Paulo, no Nordeste, em Salvador, no Oeste e depois Sul no Recife, e no Leste em Porto Alegre.

Em seu deslocamento espacial, essas classes, por meio do mercado imobiliá­ rio, tendem a fazer com que o centro principal cresça — contínua ou descontinuamente — na sua mesma direção. As metrópoles analisadas revelaram uma tendência a desenvolver o que popularmente se chama de um "centro novo”, localizado na região geral de concentração das camadas de mais alta renda. O cen­ tro tradicional, abandonado pelas burguesias, vem sendo tomado pelas camadas populares.

Torna-se cada vez mais acentuada a divisão de nossas metrópoles em duas cidades divorciadas uma da outra — a dos mais ricos e a dos mais pobres e excluí­ dos. Essas duas cidades estão produzindo, inclusive, dois centros distintos: o que chamam de "centro velho", que é o centro tradicional, outrora dos mais ricos, mas hoje tomado pelas camadas populares; e o “centro novo”, dos mais ricos.

Há evidência suficiente para acreditarmos que em todas as metrópoles anali­ sadas é crescente a tendência à segregação das camadas de mais alta renda. Infeliz- mente, os dados de renda dos censos de 1980 e 1991 não são comparáveis. Além disso, a transformação que estamos analisando — a segregação — é por demais len­ ta para ser captada por um período de apenas dez anos. Trata-se de tendência histó­ rica que se desenvolve a mais longo prazo. As evidências, entretanto, são inúmeras. Vamos aproveitar esta oportunidade de relatar as evidências de tendência crescente à segregação para mostrar também uma análise das transformações na estrutura do

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r

:

espaço intra-urbano, ou seja, uma análise na qual se articulam diferentes elemen­ tos dessa estrutura, de maneira que a transformação de um elemento acarreta tam­ bém transformação em outros.

Vejamos, em São Paulo, o exemplo dado pelo bairro do Bixiga, como bairro de cantinas italianas e pela decadência do Brás. Até por volta de 1950, não havia canti­ nas italianas no Bixiga. Era no Brás a única concentração das cantinas italianas da capital paulista. Para as enormes e excelentes cantinas do Brás se deslocavam, do quadrante sudoeste para a zona Leste, as famílias das burguesias paulistanas quan­ do queriam comer boa comida italiana. A segregação era menor que hoje, tanto que era grande — maior que hoje — a classe média localizada na zona Leste e que sus­ tentava o subcentro do Brás. A partir da década de 1970, progressivamente, os res­ taurantes do Brás voltados para as classes média e acima da média foram fechando suas portas. Alguns poucos transferiram-se para o quadrante sudoeste {La Coruna, Giggio). Desde então, as novas cantinas que foram abertas na cidade passaram a se localizar no Bixiga. Hoje, o bairro de maior concentração de restaurantes italianos é o Bixiga. Por quê? O que provocou essa transformação? Até por volta da década de 1950, como vimos, o Brás polarizava uma zona Leste onde havia grandes contingen­ tes de classe média. O Brás era seu grande pólo comercial e de serviços. A população da zona de influência do Brás tinha então um nível socioeconômico que, se não era suficiente para equipará-la ao quadrante sudoeste, o era para transformar o Brás no primeiro subcentro do Brasil e no maior da capital paulista. O porte do subcentro do Brás refletia o nível socioeconômico das famílias de sua zona de influência. A partir de meados do século, dois processos simultâneos de empobrecimento se aba­ teram sobre a população da zona de influência do centro do Brás. O primeiro é ge­ ral, não específico da zona Leste: o empobrecimento geral das classes média e abai­ xo da média do Brasil. O segundo não; é um processo socioespacial específico do Brás. Como vimos, o Brás e toda a zona Leste começaram a ficar “fora de mão" para as famílias de classe média para cima (veja no capítulo 5, seções “São Paulo"e “Belo Horizonte", e o Quadro 19). Quanto mais as burguesias se concentravam no quadrante sudoeste, mais a zona Leste ficava “longe" para as famílias dessa classe que ali moravam. Desde meados do século, as burguesias vêm abandonando a zona Leste. Se hoje há bairros de classe média nessa região (Alto da Moóca, Jardim Anália Franco eTatuapé), a Figura 29 mostra que, em 1957, eles já existiam. O Alto da Moóca, Belenzinho e Parque São Jorge aparecem como “ilhas de classe média” na zona Les­ te. Lá, o crescimento das classes média e média alta, nos últimos quarenta anos, mesmo com a inclusão doTatuapé, foi muito menor que o crescimento demográfico da zona Leste como um todo. O número de bairros de alta classe média na zona Leste não aumenta. A fuga da pequena e média burguesias de região em questão provocou decadência (leia-se popularização) do centro do Brás. Os médicos das bur­ guesias que antes tinham dois consultórios, um no centro e outro no Brás, desapa­ receram. Na década de 1960 eles se situam apenas no centro principal e a partir da década de 1970 só na região entre a avenida Paulista e o rio Pinheiros. As cantinas também não se reproduzem mais no Brás e começam a aparecer no Bixiga, que está

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no quadrante sudoeste. As burguesias paulistanas não precisam mais se deslocar até a zona Leste para comer boa comida italiana. Por mais que haja classe média alta no Tatuapé, seu comércio para essa classe, hoje, está longe de ser comparável ao que o Brás era em 1940. Isso reflete o declínio relativo (por mais que haja crescimen­ to absoluto) da classe média alta na zona Leste. Outros exemplos de crescente se­ gregação são, como já mostrado, a fuga da aristocracia carioca que morava naTijuca — hoje reduzido a um bairro de classe média — e o declínio da zona Oeste do Recife como região de concentração das burguesias.

Os capítulos anteriores mostraram ainda como nossas metrópoles foram se estruturando sob o impacto da força mais poderosa (mas não única) atuante sobre a estrutura urbana: o domínio, pelas burguesias, das condições de deslocamento es­ pacial do ser humano enquanto consumidor. Como parte de um movimento que é fruto da interação de forças, o centro principal se deslocou e se transformou, os subcentros se formaram em função da inacessibilidade socioeconômica das cama­ das populares ao centro principal; certas regiões das metrópoles se tornaram ma­ ciçamente populares, o centro principal "decaiu”; o sistema viário se aprimorou em determinada região... Enfim, foi-se formando e transformando o sistema de locali­ zações que define o que é “bom ponto” e o que é "fora de mão” (o sítio social de que fala Milton Santos (1993, 96)) para todos no espaço urbano.

Inicialmente a proximidade ao centro, combinada com atrativos do sítio natu­ ral, foi a causa determinante da definição das direções de expansão das burguesias. Depois, à medida que a metrópole se estruturava e a estrutura se ossificava, definiam- se as áreas "convenientes” e "inconvenientes" para as burguesias. Tornava-se então para essas camadas cada vez mais difícil abandonar sua direção de crescimento. Em todas as metrópoles, sem exceção, as burguesias apresentaram a tendência a se segre­ gar numa única região geral e a manter a mesma direção em seu deslocamento territorial, mesmo quando — como ocorreu em São Paulo, no Jardim América — de­ sapareceram os atrativos do sítio natural. O que pode diferir—e de fato difere — entre as metrópoles é o estágio no qual elas se encontram nessa tendência.

Neste capítulo vamos prosseguir nossa exposição sobre o modo com que as burguesias segregadas controlam a produção do espaço urbano dominando equi­ pamentos centrais e não-centrais atraindo-os para sua direção de deslocamento. Esse domínio — espacial, social e econômico — das áreas centrais pelas burguesias levou as classes populares — que a elas não tinham acesso — a produzir seus pró­ prios subcentros em áreas estratégicas, atendendo a grandes regiões populares. As burguesias produziram espaços diferenciados que não se limitam — como pensam muitos — ao contraste centro x periferia.

O Quadro 45 mostra um panorama quantificado da segregação nas metró­ poles brasileiras. Para as áreas de maior concentração das camadas de alta renda (veja as figuras 30 a 35), mostra-se a porcentagem de pessoas de dez anos ou mais ou de chefes de domicílios (para 1991) sobre os totais das áreas metropolitanas e também a porcentagem de pessoas de dez anos e mais, ou de chefes de domicílios que percebiam mais de vinte salários-mínimos mensais. Em São Paulo, em 1987,

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segundo Pesquisa OD do Metrô, numa área que abrangia quarenta e três zonas OD contíguas (veja Figura 30), viviam 21,2% da população da área metropolitana e 52,6% das pessoas que tinham renda média familiar mensal superior a trinta salá-rios-mínimos.

Quadro 45 — Segregação espacial na metrópole brasileira

Áreametropolitana Áreadegrandeconcentração

dascamadasdealtarenda Porcentagem

sobre totaldaárea metropolitana*

Pessoascomdezanosou mais(1980)ouchefesde domicílio(1991)ganhan­ domaisque20

salários-mínimosmensais(%) Porcentagem sobreárea urbanizadadaárea metropolitana 1.SãoPaulo 1980**(1) 1991 (2) 2.RiodeJaneiro(3) 1980** 17,36 13,72 62,42 54,03 9,68 9,56 56,08 54,28 1991 9,40 7,12 3.BeloHorizonte 1991 (4) 4.Salvador(5) 1980** 52,21 8,49 8,35 j ; 75,09 67,89 18,90 16,59 1991 8,47 5.Recife—1980** SetorOeste(6) SetorSul(7) 28,52 41,29 69,81 8,12 24,13 32,25 Total Recife—1991 í • • SetorOeste(6) SetorSul(7) 25,74 42,62 68,36 35,96 4,37 7,47 12,90 17,26 10,19 6,69 Total 6. PortoAlegre—1986(8) 14,16 3,81

Fontes:Todososdadosreferentesa1980e1991:FIBGE,Censos. ParaPortoAlegre,1986,afonteéaPesquisaODdaMETROPLAN. Notas:

*Essaporcentagemésobreototaldepessoasdedezanosoumais(para1980),oudechefesdedomicílios (para1991).

**Em1980,osdadosdoCenso—FIBGE—referem-sea"Pessoasdedezanosemaiscomrendimentos mensaismaioresquevintesalários-mínimos”.Para1991,"Chefesdedomicíliocomrendimentosmensais maioresquevintesalários-mínimos”.

**•Nasmediçõesdeáreasurbanizadas,porvariaçõesembasescartográficasediferençasdemetodologia dedistintospesquisadores,deveseradmitidaumavariaçãodaordemde5%paramaisouparamenos.A áreaedificadadoRiofoimedidapeloautorsobreimagemdesatélite.AdeSãoPaulofoifornecidapela EMPLASAerefere-sea1987.AdePortoAlegrefoimedidapeloautorsobreperímetrofornecidopela METROPLAN.AsdeSalvador,RecifeeBeloHorizonteforammedidassobreperímetrosesquemáticos,eas cifrasresultantesdevemserconsideradasordensdegrandeza.ParaSalvador,aáreaurbanizadaéde1989.

: íl : 314 •i

3

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t

ParaRecife,de1987.

Áreasdegrandeconcentraçãodecamadasdealtarenda.Vejafiguras30a35.

(1)Correspondeadezessetesubdislritoscontíguosdoquadrantesudoeste,inclusiveSaúdecIpirangac exclusiveSantoAmaro.

(2)Correspondeavintecumdistritoscontíguos,todosdoquadrantesudoeste(vejaaFigura30). (3)Tantopara1980comopara1991,englobaasregiõesadministrativasdeBotafogo,Copacabana,Lagoac BarradaTijuca.

(4)SomenteodistritoCcntro-Sul.

(5)ApenasosdistritosdeAmaralinaeVitóriaemambososanos.

(6)Em1980,incluíaosdistritosdeBoaVista,Encruzilhada,GraçascMadalena.Em1991,vejaQuadro26. (7)Em1980,incluíaodistritodeBoaViagemeomunicípiodeJaboatãodosGuararapes.Em1991,veja Quadro26.

(8)IncluivinteeduaszonasdetráfegocontíguasnosetorLeste.

Para melhor exprimir a segregação espacial, mostra-se ainda a área de con­ centração das camadas de mais alta renda como porcentagem da área urbanizada total da metrópole. Para Salvador, pesquisa do CONDER (Sistema de Informações Metropolitanas, 1980) permitiu reunir dezoito zonas de informação contíguas, ocu­ pando o Corredor da Vitória, Campo Grande, Barra, Graça e ainda a orla entre a Barra e Pituba, aí, pelo interior, alcançando até Brotas. Essa área reunia 15,36% da população da área metropolitana e 73,6% das famílias com renda média mensal supe­ rior a trinta salários-mínimos. Pelo Censo do IBGE de 1980, os distritos de Amaralina e Vitória tinham, em 1980, 18,90% da população da área metropolitana e 75,095 das pessoas de dez anos e mais que percebiam mais que vinte salários-mínimos men­ sais. Em 1991, esses mesmos distritos reuniam 16,59% da população e 67,89% dos chefes de domicílio que ganhavam mais que vinte salários-mínimos.

Nem sempre é possível fazer comparações entre as metrópoles acima men­ cionadas, mas, pelo menos, algumas aproximações são possíveis. São Paulo, Rio e Belo Horizonte apresentam padrões de segregação razoavelmente semelhantes; nas duas últimas, numa área que congrega de 8 a 9% da população e 7 a 8% da área urbanizada metropolitana, estão de 52 a 56% dos ricos. Em São Paulo, numa área ligeiramente maior (em termos percentuais) está uma proporção bem maior da po­ pulação total e uma proporção ligeiramente maior (54 a 62%) de ricos. O fato de o Recife apresentar duas áreas de alta concentração das camadas de alta renda não diminui sua segregação. As duas áreas reúnem 68,365% dos ricos da área metropoli­ tana e apenas 17,27% da população. O setor Sul, Boa Viagem, detém 42,62% dos ricos, contra apenas 25,74 % do setor Oeste. Isso confirma a tendência de maior crescimento do primeiro, uma vez que, trinta ou quarenta anos atrás, ali residia uma parcela muito pequena dos ricos.

Evidentemente a distribuição espacial das classes determina a distribuição espacial dos serviços tanto privados como (veremos no capítulo seguinte) públicos. Já vimos a desigual distribuição espacial dos shopping centers. O Quadro 46 mostra a distribuição espacial dos médicos e dentistas na Área Metropolitana de São Paulo, segundo os médicos credenciados na AMIL.

315

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>

Quadro46—Distribuiçãoespacialdosmédicosedentistas

ÁreaMetropolitanadeSãoPaulo(1996)

Médicos(%) Dentistas(%) MUNICÍPIODESÃOPAULO

ZonadeAGCCAR* ZonaLeste ZonaNorte Centro Outros 50,10 11,98 56,40 8,09 7,50 7,57 0,89 4,96 2,62 4,96 SantoAndré 7,98 4,44 SãoBernardo 8,40 3,13

SãoCaetanodoSul 5,02 3,39

Diadema 1,31 1,57

Osasco 2,55 1,57

Guarulhos 1,65 3,92

Total 100,00 100,00

*DentrodaÁreadeGrandeConcentraçãodasCamadasdeAltaRenda(AGCCAR). Fonte:CatálogoAmil.Apesquisarefere-seapenasaprofissionaiscredenciadosnaAmil.

Oquadromostraqueaáreadegrandeconcentraçãodascamadasaltarenda,

emSãoPaulo, detém13,72%dapopulação daáreametropolitanaetem50% dos

médicose56%dosdentistas.

Emgeral,nossasmetrópolesapresentamumasegundaáreadeconcentração

daaltarenda,alémdaprincipal.Taisáreas,entretanto,congregamumaparcelamuito

reduzidadasburguesias metropolitanaseocupamumlongínquo segundo lugar.

EmSãoPaulo,elassituam-seprincipalmentenazonaNortee, depois,numtrecho

dazonaLeste,especialmenteTatuapéeAltodaMoóca.NoRio,estãoemNiteróiena

Tijuca.Aseguir,temosumalistagemdealgunsbairrosdeSãoPaulo,comarespecti­

vaproporçãoentreonúmero demoradoresdessesbairrosque, em 1987,tinham

rendaindividual familiarsuperioratrintasalários-mínimos, sobreototaldessas

pessoasemtodaaáreametropolitana.Esteseramosbairros(zonasOD)demaior

porcentagemdericoslocalizadosforadoquadrantesudoeste.

(25)

ZonaLeste ZonaNorte Santana Mandaqui ÁguaFria 0,66% 1,75% 0,29% AltodaMoóca Tatuapé 0,79%0,47%

Fonte:Metrô,PesquisaOD,segundoPMSP-Scmpla,BDP/92,Tabela4l/a --- ~

O Mandaqui tinha 1,35% da população metropolitana e a Agua Fria tinha 0,66% (porcentagem igual à das famílias de alta renda). No Rio de Janeiro, segundo os censos, a RA daTijuca reunia, em 1980, 10,07% da população da área metropoli­ tana e apenas 2,5% das pessoas de dez anos ou mais que percebiam mais de vinte salários-mínimos. Em 1991, a mesma RA detinha 7,7% da população metropolitana e 2,3% dos chefes de domicílio que percebiam mais que vinte salários-mínimos.

Os processos de segregação descritos neste capítulo e no capítulo anterior (capítulo 8) parecem não ser exclusivos de nossas metrópoles. Há registro de que, pelo menos há algumas décadas, os mesmos processos ocorriam nas metrópoles dos Estados Unidos. Aparentemente eles tendem a ser tão mais acentuados, óbvios e visíveis, quanto mais profunda a desigualdade social na metrópole. A desigual­ dade na sociedade se manifesta assim numa desigualdade do espaço que vai além da oposição centro x periferia.

As investigações de Homer Hoyt (1959,503-6) chegaram a conclusões surpre­ endentemente semelhantes às nossas, embora esse pesquisador não tenha apre­ sentado explicações para elas. Depois de ressaltar que os bairros residenciais das camadas de alta renda, "em seu movimento, não pululam ao acaso, mas (...) seguem um caminhamento definido em um ou mais setores da cidade”, Hoyt chegou às se­ guintes conclusões quanto àqueles bairros nas cidades americanas: "Em todas as cidades estudadas, as áreas residenciais das camadas de alta renda tiveram seu pon­ to de origem próximo ao centro varejista e de escritórios. É ali que os grupos de mais alta renda trabalham e esse ponto é o mais afastado daquela parte da cidade onde estão as indústrias e os armazéns. Em cada cidade a direção e o padrão de futuro crescimento tendem então a ser governados por alguma combinação das seguintes considerações:

As áreas residenciais das camadas de alta renda tendem (...):

a prosseguir a partir de um dado ponto de origem ao longo de determina­ das vias, ou em direção a outro núcleo existente de edificações, ou centros comerciais.

a progredir em direção a terrenos altos, livres de riscos de inundações espalhar ao longo das bordas dos lagos, baías, rios ou oceanos, nos locais onde tais bordas não são ocupadas por indústrias.

a crescer em direção às áreas que apresentam uma região rural livre e aber­ ta, afastando-se dos ‘becos sem saída’ bloqueados por barreiras naturais ou artificiais. 1. e a se 2. 3. ! ! ! 317 ii i : 1 '

st

I

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4. a crescer na direção dos líderes da comunidade.

As tendências de movimento de escritórios, bancos e lojas puxam os bairros residenciais mais caros na mesma direção geral da cidade,

a crescer ao longo das linhas mais rápidas de transportes.

O crescimento das áreas residenciais de alta renda permanece numa mesma direção, por um longo período de tempo.

As áreas de apartamentos de luxo tendem a se estabelecer próximo ao centro, em antigas áreas residenciais.

Promotores imobiliários podem desviar a direção de crescimento das áreas residenciais de alta renda”. *

5. 6. 7. 8.

9.

Várias das considerações acima — especificamente as de número 2, 7 e 8 — se aplicam às metrópoles aqui analisadas.

Como nas cidades americanas a rede de rodovias é muito mais rica que nas cidades brasileiras, e como a taxa de motorização das camadas de alta renda já era alta nas décadas de 1930 e 1940, essas camadas optavam pelas vizinhanças aprazíveis servidas por boas rodovias e que não tinham indústrias. Essas condi­ ções só começaram a aparecer entre nós no final da década de 1970, numa parte de São Paulo (na rodovia Castelo Branco e Alphaville e Tamboré). A pobreza do sistema rodoviário dentro do espaço urbano das nossas metrópoles e o enorme desequilíbrio de poder político entre as classes sociais no Brasil fizeram com que nossas burguesias mantivessem posições centrais e se apegassem mais a vias intra- urbanas do que a rodovias. Assim, elas controlam o Estado para melhorar o siste­ ma viário intra-urbano. Isso fez com que as burguesias "puxassem” as melhorias viárias (vias intra-urbanas, note-se) na direção de seus bairros, ao contrário de “tomar carona” nas rodovias regionais.

Como mostramos, no Brasil, as melhorias viárias surgiram depois de desper­ tado o interesse imobiliário das camadas de mais alta renda por determinada região e direção de crescimento da metrópole. O sistema viário urbano que atende a essa região e direção começa a passar por sucessivas melhorias que se articulam, em bola de neve, com a concentração de tais camadas. No Rio, foram as elites que leva­ ram o bonde para a Copacabana, Gávea e Alto da Boa Vista, e não o contrário; foram as elites que levaram o plano inclinado para Santa Teresa, e não o contrário; foram as elites, interessadas na Barra daTijuca, que provocaram a construção do Elevado do Joá e do Túnel Dois Irmãos, e não o contrário. Como vimos, foi a ocupação da zona Sul carioca pelas elites, iniciada no final do século XIX, que provocou a abertu­ ra das avenidas Rio Branco e Beira-Mar, assim como do túnel para Copacabana e, a partir daí, uma enorme sucessão de gigantescas e custosas obras viárias, como os aterros de Botafogo, Flamengo e de Copacabana, além de túneis, elevados, etc. Em

*TheslriictureandgrowthofresidentialneighborhoodsinAmericancities,de1939,obranãolocalizadaem

SãoPaulo.Essetrechoacha-sereproduzidoemMAYEReKOHN,1959,499-510.

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Sào Paulo, não foi a avenida Nove de Julho

para o Jardim América (que já estava loteado e em iníckTd^Ue *GVaram tes da abertura da avenida e do túnel), mas o contrário

Eventualmente, as camadas de mais alta renda podem ficar "indecisas” suas opções de direções predominantes de crescimento quando

zões aqui analisadas — mudam.

a burguesia ocupação dez anos

an-em estas — pelas ra-Em décadas recentes, nos casos em que se esboçaram duas direções distin- e às vezes opostas de crescimento, uma tende a predominar. É o caso do Recife onde até meados deste século aquelas camadas desprezaram a orla marítima e cresce­ ram na direção oeste. Tal direção permaneceu durante cerca de um século sem ser ameaçada. Entretanto, a partir de meados do século XX começou a se definir uma nova direção desse crescimento: Boa Viagem (veja, no capítulo 8, a seção "Recife"). Pela enorme inércia que desenvolveu durante um século, a primeira direção (oeste) vem oferecendo resistência à mudança de direção para a orla marítima. A predomi­ nância desta última, entretanto, está ficando clara.

tas,

Casos houve em que "núcleos de resistência”, inclusive com significativa pre­ sença da classe alta, se desenvolveram em direção diferente da predominante, como aTijuca no Rio. Em outros casos, o mercado imobiliário pretendeu reverter a dire­ ção predominante de crescimento e não foi bem-sucedido, como em Pampulha, em Belo Horizonte. Finalmente, pequenos núcleos de renda média ou média alta (mas nunca de alta renda) se desenvolveram fora da direção predominante — foi o que aconteceu noTatuapé, Jardim Anália Franco, na região doTremembé e Cantareira e mesmo no ABC, em São Paulo. Nesses casos, ou há um claro abandono do bairro pela alta renda (como no caso daTijuca, no Rio), ou desenvolve-se uma segunda ou terceira região de concentração de camadas médias — mas nunca de alta renda.

A conclusão 5 de Hoyt — se for realmente correta para os Estados Unidos — suscita a seguinte indagação: o que teria levado bancos, escritórios e lojas a se des­ locar na mesma direção das áreas residenciais, porém à frente delas, a ponto de “puxá-las”? Sim, porque estas últimas crescem sempre na mesma direção. Por que os escritórios e lojas também cresceram nessa mesma direção, mas com antecedên­ cia? Nossa conclusão mostra o contrário. São os escritórios e lojas depois os shopping centers — que crescem na direção dos bairros residenciais de mais alta renda, e não o contrário.

A respeito da conclusão 4, cabe indagar: o que faz com que os líderes da co­ munidade escolham um determinado local para suas casas, e não outros? É preciso esclarecer a explicação. É preciso explicar por que os líderes da comunidade esco­ lhem certas localizações, e não outras. Exemplos aqui mencionados são os de Antô­ nio Elias, dom João VI e o Paço de São Cristóvão, ou a princesa Isabel, mudando-se para as Laranjeiras. Embora não tenha sido feita nenhuma pesquisa específica so­ bre localizações dos líderes da comunidade, parece que nossas lideranças (pelo menos no século XIX nossa burguesia era líder) e seus líderes seguem sempre a mes­ ma direção, sem que estes precedam aquelas. Também com relação à conclusão 9, caberia indagar: o que faz com que os promotores imobiliários optem por uma

re-319

5 .

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r-gião da cidade e não por outra? Aqui também é preciso esclarecer a explicação. As conclusões das análises de cento e cinqüenta anos contidas neste trabalho mos­ tram que são as burguesias que escolhem a localização e direção de crescimento de seus bairros. Os promotores são os agentes das opções dessas classes. As classes de mais alta renda escolhem a direção de crescimento, em função dos atrativos do sítio natural — como também concluiu Hoyt — e também, e principalmente, em função da simbiose, da "amarração" que desenvolvem com suas áreas de comércio, servi­ ços e emprego, ou seja, em virtude da sua inserção na estrutura urbana que elas próprias produzem. Essa estruturação se deu pelo controle que tais classes exercem sobre o mercado imobiliário e sobre o Estado, que para elas abriu, por exemplo, o melhor sistema viário das cidades, construiu seus locais mais aprazíveis, mais ajardinados e arborizados e controlou a ocupação do solo pela aplicação de uma legislação urbanística menos ineficaz. Quanto à ressalva que se faz na conclusão 2 — "onde tais bordas não são ocupadas por indústrias” —, cabe perguntar: por que algumas bordas (na baía da Guanabara, tanto no lado do Rio como no de Niterói, ou na de Todos os Santos) são ocupadas por indústrias, e outras não?

Os exemplos analisados mostram que as camadas de mais alta renda se ape­ gam a uma região geral da cidade e nela se concentram, não pelo status que possam apresentar. O status não existia antes de essas regiões serem ocupadas por tais clas­ ses; não existia quando essas regiões eram vagas. É efeito, e não causa, da preferên­ cia das classes de mais alta renda.

Já foi examinada a relação entre a tendência à crescente concentração das camadas de alta renda e a estruturação do espaço intra-urbano no tocante ao cen­ tro principal, aos subcentros e aos shopping centers. Prossigamos analisando essa relação com o comércio, os serviços e o lazer não necessariamente centrais.

No século XIX, tiveram início as primeiras manifestações do processo de cres­ cente concentração espacial das camadas de mais alta renda em nossas metrópoles. Esse processo se deu como parte integrante da formação da estrutura interna que elas hoje apresentam. Começaram a formar-se, simultaneamente, seus centros, seus bairros e também sua segregação. Logo em seguida, surgiram as zonas industriais, as quais, entretanto, durante muito tempo, só foram significativas em São Paulo e no Rio. Nas demais metrópoles não havia inicialmente zonas industriais, embora houvesse várias indústrias.

Se, no início do século XIX para o Rio e em meados deste século para São Paulo, Porto Alegre e Salvador, nossas elites moravam no centro, em sobrados, ou na sua imediata vizinhança, sua segregação crescente deu-se simultaneamente com a segregação que também ocorria com o comércio e serviços no centro principal e pelo mesmo processo segregavam-se as classes populares. Logo em seguida, tam­ bém as indústrias começaram a se concentrar ao longo de algumas importantes vias de transporte.

A formação de zonas industriais, como vimos, é determinada por forças es­ paciais extra-urbanas. Assim, se admitirmos que, do ponto de vista intra-urbano, a localização das grandes zonas industriais — como também os portos — é "dada',

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