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Experiência e lógicas de ação no serviço social

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Universidade Católica Portuguesa

EXPERIÊNCIA E LÓGICAS DE AÇÃO NO SERVIÇO SOCIAL

………

Tese apresentada à Universidade Católica Portuguesa para obtenção do grau de Doutor em Serviço

Social, por Paula Manuela Rodrigues de Sousa

Faculdade de Ciências Humanas

Novembro de 2013

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2

Universidade Católica Portuguesa

Experiência e Lógicas de Ação no Serviço Social

Tese apresentada à Universidade Católica Portuguesa para obtenção do grau de

Doutor em Serviço Social

Por Paula Manuela Rodrigues de Sousa

Sob orientação da Doutora Fernanda Rodrigues

Faculdade de Ciências Humanas

Novembro de 2013

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3

Agradecimentos,

À Doutora Fernanda Rodrigues, pela argúcia analítica e estimada liberdade; em particular, um prezado reconhecimento e gratidão pelas várias leituras atentas e comentários que contribuíram para a melhoria e o resultado final desta dissertação;

Aos participantes diretos desta pesquisa, pela sua disponibilidade e cooperação; especialmente, pelos momentos de franco diálogo que contribuíram para alargar os conhecimentos, incitar a reflexão e atiçar algumas “verdades e certezas” instaladas; Aos participantes indiretos, a(o)s muitos assistentes sociais com quem me cruzo ou relaciono e me transmitem as suas vivências e saberes de ação;

Aos meus alunos, estagiários de Serviço Social, pela partilha das suas experiências e pelas prodigiosas narrativas das realidades onde mora o Serviço Social.

Por último, aos muitos autores e escritores com quem partilhei pensamentos e me abriram as fronteiras do conhecimento.

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4

INDICE

Resumo

Introdução

Capitulo 1

Justificação e Fundamentos da Investigação

1. Objeto Empírico: Experiência profissional dos assistentes sociais 15

1.1 Porquê a experiência profissional 15

1.2 Interesse, alcance e validade da pesquisa 17

2. Objeto de estudo 18

2.1 Conceitos sensibilizadores ou genéricos 19

2.2 Objetivos da investigação na textura do Serviço Social 20

3. Posicionamento epistemológico:

Construcionismo social; interpretativismo e hermenêutica

21

4. Bússola metodológica – Justificação 28

4.1 Estratégia de investigação: Abdutiva 29

4.2 Método de abordagem: Teoria enraizada 31

4.3 Ferramentas de análise e teorização 36

4.4 Recolha de dados:

Entrevista semiestruturada e focalizada

43

4.5 Seleção dos entrevistados:

Amostragem por casos múltiplos e teórica

49

5. Ordenamento do processo de análise e teorização 53

6. Considerações Éticas 57

Capitulo 2

Fio Condutor da História – teorização em ação

Preâmbulo

1. A experiência social como produto de diferentes lógicas de ação 59

(5)

5

Secção 1 - Lógica da Integração

65

1.1 Noção de papel:

Pertinência no entendimento da multiplicidade de papéis do assistente social

66

1.2 Papel de manutenção 70

1.2.1 Relação com o paradigma da regulação 75

1.2.2 Relação com uma agenda conservadora 78

1.2.3 Abordagens ‘orientadas para o futuro’ 80

Abordagens focadas na solução 81

Serviço Social baseado nas forças 86

Serviço Social construtivo 88

1.3 Papel executivo 91

1.3.1 Figuras do papel executivo 98

1.3.2 Papel holístico 115

1.4 Contributos e Discussão 119

Secção 2 - Lógica da Estratégia

121

2.1 Noção de jurisdição do campo profissional:

Pertinência para a discussão em torno da profissão de assistente social

122

2.1.1 Disputa pela jurisdição por via da clarificação de papéis 129

2.1.2 Disputa pela jurisdição por via do domínio técnico 131

2.1.3 Disputa pela jurisdição por via da validação académica 134

2.2 Noção de profissionalização:

Pertinência na análise da profissionalização do Serviço Social

138

2.2.1 Entraves à afirmação profissional e profissionalização do Serviço Social 141

2.2.2 O lugar do conhecimento no acesso à profissionalização 147

2.3 (Des) Regulação do Serviço Social no campo das profissões sociais 164 2.3.1 Papel do Estado na regulação do campo das profissões sociais 166

2.3.2 Constituição de uma Ordem Profissional 167

(6)

6

2.4.1 Autonomia mitigada 177

2.4.2 Incremento do gerencialismo 179

2.4.3 Precarização e flexibilização do emprego 182

2.5 Profissionalização e profissionalismo 186

2.6 Contributos e Discussão 189

Secção 3 - Lógica da Subjetivação

191

3.1 Noção de representação cultural do sujeito:

Pertinência para a análise da atividade crítica e uma prática emancipatória no Serviço Social

193

3.1.1 Atitude crítico-reflexiva e prática emancipatória 196

3.1.2 Dualidade entre ação conformista e ação rebelde 208

3.2 Noção de multiculturalismo:

Pertinência para se abordar a diversidade, dignidade e valor da pessoa

219

3.2.1 Sensibilidade ao Preconceito 230

3.2.2 Sensibilidade à Justiça Social 234

3.3 Sensibilidade cultural no Serviço Social 237

3.3.1 Implicações e contributos para a prática do Serviço Social 240

3.3.2 Relativismo cultural versus universalismo – de que lado está o Serviço Social? 247

3.4 Contributos e Discussão 253

Conclusão

256

(7)

7

FIGURAS E QUADROS

Figura 1 Ilustração do processo analítico 54

Figura 2 Ilustração do processo analítico-interpretativo dos dados 66

Figura 3 Papéis do assistente social 67

Figura 4 Papéis desempenhados pelos assistentes sociais 92

Figura 5 Ilustração do processo analítico-interpretativo dos dados 122 Figura 6 Agenda Global para o Serviço Social e o Desenvolvimento Social 188 Figura 7 Ilustração do processo analítico-interpretativo dos dados 193

Figura 8 Desenvolvimento da sensibilidade cultural 239

Quadro 1 As lógicas de ação 63

SIGLAS

APSS Associação de Profissionais de Serviço Social (Portugal)

A3ES Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (Portugal)

CEDAW Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women CFESS Conselho Federal de Serviço Social (Brasil)

COFI Comissão de Fiscalização do CFESS (Brasil) EASSS European Association of Schools of Social Work FCT Fundação para a Ciência e Tecnologia (Portugal) HCPC Health and Care Professions Council (Inglaterra) IASSW International Association of Schools of Social Work IFSW International Federation of Social Work

IGFSS Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (Portugal) IPSS Instituições Particulares de Solidariedade Social (Portugal)

NASW National Association of Social Workers (Estados Unidos da América) PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

QAA Quality Assurance Agency (Inglaterra) SGQ Sistema de Gestão da Qualidade (Portugal)

(8)

8

Resumo

A presente dissertação discorre sobre o Serviço Social, tendo como objetivo pensar e refletir sobre as práticas e a profissão de Serviço Social, analisando a experiência profissional de assistentes sociais à luz dos seguintes conceitos sensibilizadores: lógica da integração; lógica da estratégia e lógica da subjetivação.

Guiou-se pela abordagem metodológica da teoria enraizada (gounded theory), a qual decorre da opção por uma estratégia de investigação abdutiva.

Procurou-se argumentar de que modo essas diferentes lógicas de ação se encontram presentes no quotidiano e se revelam, através dos discursos recolhidos, nas perceções e convicções pessoais assim como nas justificações das ações e modos de trabalho.

Esta dissertação é composta por três secções nucleares, autónomas entre si, cada uma correspondendo a uma distinta lógica de ação.

Os principais propósitos consistem em contribuir para colmatar a “falta de clareza e sistematicidade no pensamento sobre a profissão” em Portugal (Amaro, 2009b: 36), e assim, romper com a “excessiva individualidade dos percursos intelectuais no Serviço Social português e a insipiência teórico-cientifica deste campo” (Ibid. 36).

As conclusões repartem-se pelas três secçõess constituintes da tese, que são, em síntese: A lógica da integração permitiu constatar que na prática profissional quotidiana do Serviço Social persiste uma abordagem de manutenção e uma prática orientada pelos papéis executivos.

A lógica da estratégia permitiu apurar que a disputa pela jurisdição no campo profissional das profissões sociais está condicionada à capacidade do Serviço Social superar as suas debilidades e demarcar a sua posição por via da profissionalização.

A lógica da subjetivação permitiu evidenciar que é necessário, ao Serviço Social, um maior investimento numa atividade crítica, se se almeja um Serviço Social baseado em valores, uma prática de Serviço Social emancipatória e assistentes sociais comprometidos com a justiça social e a defesa do sujeito. Permitiu, ainda, mostrar que urge um maior conhecimento e reconhecimento da importância do designado Serviço Social culturalmente sensível.

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9

Abstract

This dissertation discusses Social Work, with the overall objective of thinking and reflect on the practice and profession of Social Work, analyzing the experience of social workers in the light of the following sensitizing concepts: logic of integration, logic of strategy and logic of subjectivation.

This study was guided by the methodological approach of grounded theory, which arises from the choice of an abductive research strategy.

We tried to argue how these different logics of action are present in everyday life and reveal, through the speeches collected, the perceptions and convictions as the explanations of actions and ways of work

The dissertation is composed of three nuclear parts, independent from each other, representing a distinct logic of action.

The main purposes has contributed to bridging the "lack of clarity and systematicity in thought about the profession" in Portugal (Amaro, 2009b: 36), and thus breaking the "excessive individuality of intellectual paths in Portuguese Social Work and foolishness this theoretical scientific field” (Ibid. 36).

The findings are divided by three constituent parts of the thesis, which are, in summary: The logic of integration, have revealed that in the everyday practice of social work remains a maintenance approach and a practice oriented by executives roles.

The logic of the strategy revealed that the dispute over jurisdiction in the professional field of social professions is subject to the ability of Social Work overcome their weaknesses and demarcate his position throug professionalization.

The logic of subjectivation has highlighted the need of Social Work to increased investment in critical activity, if one aims a Social Work based on values, an emancipatory social work practice and social workers committed to social justice and advocacy. Also allowed us to show that urges greater awareness and recognition of the importance of culturally sensitive social work.

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INTRODUÇÃO

Esta dissertação resulta de um percurso, cuja trajetória foi delineada pelos ‘conceitos sensibilizadores’ de partida (Blumer, in Bowen, 2006), na convicção de que estes apenas sugerem direções nas quais se pode olhar. Os ‘conceitos sensibilizadores’ funcionaram assim como dispositivos interpretativos e como um ponto de partida (Glaser, 1978; Padgett, 2004; Patton, 2002) (ibid).

Estes ‘conceitos sensibilizadores’ foram colhidos do livro Sociologia de Experiência, de François Dubet (1994) e usados como dispositivos interpretativos na abordagem que se fez à experiência profissional no âmbito do Serviço Social. Assim, alicerçado em Dubet (1994), foi definido como objeto de estudo a experiência profissional no domínio do Serviço Social como resultado da articulação de três ‘lógicas da ação’: a integração, a estratégia e a subjetivação. Estas três ‘lógicas de ação’ formaram, então, os ‘conceitos sensibilizadores’ desta dissertação.

Estrutura da tese

A dissertação está dividida em dois capítulos, estando o segundo dividido em três secções primordiais.

O Primeiro Capitulo apresenta a lógica da investigação subjacente ao estudo. Foi prestada uma especial atenção aos fundamentos epistémico-metodológicos uma vez que se considera fulcral um aprofundamento dos mesmos, acompanhado por uma reflexividade e questionamento em torno de posições e procedimentos, frequentemente, tidos como verdadeiros e garantidos. Advoga-se, portanto, uma visão anti-essencialista da realidade e do conhecimento, onde não há lugar para ‘verdades’ fechadas.

Esta investigação encontra-se epistemologicamente alicerçada no construcionismo

social, e nos paradigmas de investigação do interpretativismo e da hermenêutica contemporânea. Este estudo, ao posicionar-se numa linha epistemológica interpretativista,

assume a subjetividade da investigadora como intrínseca ao ato de interpretar e, como tal, houve uma concordância implícita quanto à estratégia de investigação adotada: estratégia

abdutiva.

A estratégia abdutiva é encarada como um método apropriado na construção de teoria nas ciências sociais de cariz interpretativo. Esta estratégia de investigação implica a construção de teorias a partir da linguagem, significados e apreciações dos atores sociais, no contexto das

(11)

11 suas atividades diárias (cf. Blakie, 2008: 89). A estratégia de investigação abdutiva atribui

valor epistemológico aos significados e interpretações, aos motivos e intenções, que as pessoas comuns atribuem às suas ações quotidianas e como tal ajustou-se aos propósitos deste estudo, cujo ‘objeto’ consistia em analisar as ‘lógicas da ação’ presentes no quotidiano das assistentes sociais.

A abordagem prevista para abordar o objeto de estudo apoiou-se na ‘teoria enraizada’ (grounded theory), um método elaborado por Glaser e Strauss, no seu clássico Discovery of

grounded theory (1967). Esta abordagem metodológica decorre da opção por uma ‘estratégia

de investigação abdutiva’.

O Segundo Capitulo apresenta o ‘fio condutor da história’1 (Corbin & Strauss, 2008) e a teorização (Charmaz, 2009) elaborada ao longo das três secções constituintes. Discorre sucintamente sobre a experiência social como produto de diferentes ´lógicas de ação’ (Dubet, 1994) e a passagem da noção de experiência social para a experiência profissional. É composto por três partes, cada uma respeitante às ‘três lógicas de ação’, aqui entendidas enquanto ‘conceitos sensibilizadores’.

Seguindo as orientações fornecidas pela ‘teoria enraizada’, quanto à codificação dos dados, apresenta-se, no início da cada secção, um diagrama do processo analítico com respetiva apresentação das categorias centrais e conceptuais (a figura 1, p. ilustra este processo analítico).

Na Secção I surge a ‘lógica de integração’, destacando-se como categoria central o ‘papel do assistente social’ e como categorias conceptuais o ‘papel de manutenção’ e o ‘papel executivo’. Declara-se que entender o papel do assistente social é crucial no próprio entendimento da profissão e da atividade profissional, uma vez que o Serviço Social caracteriza-se por uma pluralidade de papéis, que gera frequentemente ambiguidades e até incertezas identitárias profissionais, tal como foi interpretado dos discursos proferidos pelos assistentes sociais entrevistados. Da interpretação dos discursos resultou ainda a constatação de que continua atual o ‘papel de manutenção’ do assistente social, em que a principal preocupação é assegurar a “estabilização” de pessoas e condições de modo a que consigam lidar de forma adequada com as suas dificuldades e o resto da sociedade. A intervenção é mais ‘casuística’, normalmente fornecendo informações acerca de recursos e oportunidades,

1 The Story Line

(12)

12 encaminhando e/ou fazendo o acompanhando.

O ‘papel executivo’ destacou-se igualmente como categoria conceptual, dizendo respeito aos assistentes sociais cuja preocupação fundamental é fazer as coisas acontecer num sentido prático. O ímpeto com a ação e resolução liga-se com a vontade de colocar em ordem, pôr em funcionamento, manter estável e sob controlo pessoas, acontecimentos e instituições.

A secção I, à semelhança das seguintes, termina com uma breve reflexão, salientando-se os principais contributos ao tema tratado e discussão das ideias essenciais.

Na Secção II, apresenta-se a ‘lógica estratégica’ destacando-se como categorias centrais a ‘jurisdição do campo profissional’ e a ‘profissionalização’.

Na ‘jurisdição do campo profissional’ aborda-se a questão da reclamação e disputa pela jurisdição, por parte do Serviço Social, relativamente ao campo das profissões sociais, no qual atuam variados grupos ocupacionais, disputando com o Serviço Social funções, papéis e reconhecimento social. Na ‘jurisdição do campo profissional’ emergiu como categorias

conceptuais a ‘clarificação de papeis’, o ‘domínio técnico’ e a ‘validação académica’. Estas

três categorias sobressaíram da análise e codificação dos discursos e revelam que a fixação da jurisdição no campo das profissões sociais, por parte do Serviço Social, demanda: um esclarecimento dos papéis assumidos pelo assistente social, com devida nomenclatura; um reconhecido saber técnico, especializado, conquanto permeado por uma reflexividade; um maior investimento na componente educativa e na pesquisa, legitimando as pretensões à fixação da jurisdição no campo das profissões sociais.

Na ‘profissionalização’ aborda-se os modelos de profissionalização mais próximos do Serviço Social, bem como as ameaças à consolidação da profissionalização no Serviço Social em Portugal, refletindo particularmente na questão da (im)prescindibilidade de um ‘corpo de conhecimentos próprio’ do Serviço Social. Na ‘profissionalização’ emergiu como categorias

conceptuais as ‘debilidades que enfraquecem as pretensões de profissionalização’ e a ‘(des)

regulação do Serviço Social e do campo das profissões sociais’. Alega-se que as aludidas debilidades a um desígnio de profissionalização, por parte do Serviço Social em Portugal, residem fundamentalmente na sua relação com o conhecimento. Efetivamente, da análise aos discursos, retirou-se a ideia de que continua muito presente, entre os assistentes sociais, um modo de trabalho que se alicerça e constrói através de um certo ‘empirismo natural’; de um ‘modelo de socialização profissional’ e por uma ‘racionalidade técnica e ausência de uma prática reflexiva’. O conhecimento adquirido baseia-se sobretudo na experiência sensorial, na

(13)

13 opinião dos pares mais experientes, na autoridade estatutária e no predomínio de uma

‘racionalidade técnica’ que encara a prática como uma aplicação quase direta do conhecimento e da teoria formal, denotando assim uma refreada reflexividade.

A secção II, à semelhança da anterior, termina com uma breve reflexão, salientando-se os principais contributos ao tema tratado e discussão das ideias essenciais.

Na Secção III apresenta-se a ‘logica da subjetivação’, destacando-se como categorias

centrais a ‘representação cultural do sujeito’ e o ‘multiculturalismo’.

Na ‘representação cultural do sujeito’ aborda-se a existência ou ausência de uma atividade crítica nos assistentes sociais e de que modo se exprime no quotidiano de trabalho. Na ‘representação cultural do sujeito’ emergiu como categorias conceptuais a ‘atitude crítico-reflexiva e ideal de emancipação’ e a ‘dualidade entre ação conformista e ação rebelde’. Estas duas categorias sobressaíram da análise e codificação dos discursos e mostram que uma ‘representação cultural do sujeito’ exige aos assistentes sociais um distanciamento em relação à própria ação, que configure uma atividade crítica e uma atitude reflexiva. Subsistiu a perceção de uma mitigada atividade crítica e um certo entorpecimento do ideal e ação emancipatória no Serviço Social, que se liga a uma ação conformista.

No ‘multiculturalismo’ pretendeu-se abordar a diferença e diversidade cultural como modelo cultural que constrói uma representação do sujeito plural, assente na dignidade e valor da pessoa. No ‘multiculturalismo’ emergiu como categorias conceptuais o ‘preconceito’ e a ‘justiça social’. Estas duas categorias sobressaíram da análise e codificação dos discursos, que aponta o ‘preconceito’ como um atributo presente no assistente social, enquanto sujeito social, que poderá desvirtuar a sua ação ou ser prejudicial para o próprio utente dos serviços, pelo que se reclama uma educação para a ‘sensibilidade e competência cultural’ dos profissionais. Aliada a esta questão, emergiu a ‘justiça social’ como um valor em descrédito e que não faz parte da linguagem corrente dos profissionais, apontando-se como possível justificação a ausência, em Portugal, de uma agenda ou um projeto profissional para se criar uma sociedade justa.

Conclui-se que, quer a questão do preconceito quer a de justiça social exige que se fomente e desenvolva a sensibilidade cultural como competência essencial do assistente social. De facto, chegou-se à conclusão de que vocábulos e designações como ‘Culturally

Competente Social Work Practice’2

acham-se ausentes do discurso corrente dos assistentes

(14)

14 sociais, em Portugal. Assim, e em consonância com este percurso analítico e reflexivo,

termina-se abordando os fundamentos teórico-práticos e éticos do designado Serviço Social culturalmente sensível.

A secção III, à semelhança das anteriores, termina com uma breve reflexão, salientando-se os principais contributos ao tema tratado e discussão das ideias essalientando-senciais.

Como conclusão, sobressai a ideia de ‘ponto de chegada’ de uma jornada, cujo ponto de

partida começa com a definição do objeto de estudo.

A síntese reflexiva de cada uma das três secções que compõem esta dissertação é realizada no final de cada uma, com a designação de ‘contributos e discussão’.

A conclusão final está estruturada do seguinte modo: No início apresenta-se uma reflexão sobre os imprevistos do estudo, no quadro do desenho de investigação adotado, seguida de uma súmula dos resultados obtidos em cada uma das lógicas de ação. No seguimento, faz-se uma apreciação aos objetivos delineados no início do estudo e, por fim, apresentam-se algumas recomendações para investigações futuras.

(15)

15 CAPITULO – 1

Justificação e Fundamentação da Investigação

1. Objeto Empírico: A Experiência Profissional dos Assistentes Sociais

1.1 Porquê a Experiência Profissional?

O carácter autobiográfico e auto-referenciável da ciência são apontados como um dos pilares de construção do conhecimento no paradigma emergente de ciência. “Parafraseando Causewitz, podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios” (in Santos, 1987: 52), e foi algo semelhante que aconteceu quando a investigadora deste estudo optou por abordar a ‘experiência profissional’ no Serviço Social.

Decorrente da própria experiência profissional, como docente supervisora de estágios académicos em Serviço Social3, surge frequentemente a oportunidade de dialogar com as assistentes sociais ao serviço das instituições acolhedoras dos estágios e, com bastante regularidade, escuta-se um discurso de enaltecimento das suas experiências práticas associado à perceção de que o “verdadeiro” saber e perícia profissional se adquire na prática, pela experiência.

Portanto, a ‘experiência’ surge, inicialmente, como uma noção forte mas vaga e muito permeada pelo senso comum pois trata-se de um termo amplamente utilizado na linguagem profissional quotidiana.

Este enaltecimento da ‘experiência’ levou a uma reflexão e questionamento que aguçaram o interesse da pesquisa sobre a mesma. Face a este foco de interesse houve a necessidade de “limpar” a noção e por inerência recorrer a literatura científica sobre a mesma. Da pesquisa e revisão da literatura sobre a noção (experiência), emergiu uma obra que acabou por se tornar a referência base no delineamento do percurso: Sociologia da

Experiência (Dubet, 1994)4. 3

Funções exercidas durante onze anos lectivos, tendo supervisionado o trabalho de estágio em 52 instituições/contextos de estágios curriculares (Escolas, IPSS - Lares, Centros de dia, apoio domiciliário; Cerci’s; Projectos comunitários; Reinserção eToxicodependência; Segurança Social- RSI; CPCJ; Centros de acolhimento de crianças e jovens institucionalizados; Centros de Saúde, Hospitais, etc).

4

DUBET, François (1994), Sociologia da Experiência. Lisboa: Instituto Piaget. Uma obra imprescindível para uma compreensão em profundidade da ação social num mundo cada vez mais complexo e em constante mudança, o que dificulta o seu entendimento. Este livro “dedica-se, em especial, às teorias sociológicas da ação e às combinatórias que formam a experiência social.” (Dubet, 1994: 19). Importante salientar que não se

(16)

16 A leitura desta obra foi marcante e decisiva para a própria reconfiguração do objeto

de estudo5, formando-se desde logo uma convicção: o interesse de pesquisa não recaía tanto numa descrição das experiências profissionais, no sentido de uma descrição das ações6, mas sobretudo imergir nas suas ‘lógicas de ação’ e assim alcançar um maior entendimento do próprio Serviço Social7.

Resultante da leitura da obra «Sociologia da Experiência», parte-se para o estudo com alguns pressupostos de natureza teórica, que enformam o próprio objecto de investigação, a saber:

A ação dos sujeitos não é mecânica (recusa do objetivismo8 segundo o qual a ação seria o resultado de papeis previamente prescritos) nem estritamente racional (recusa de um subjectivismo absoluto que deposita no sujeito uma autonomia incondicional), admitindo-se, portanto, que toda a prática social, como realização de uma construção, é ao mesmo tempo resultado da combinação de várias lógicas de ação (Dubet, 1996), aceitando-se de igual modo que a prática profissional asaceitando-senta nos mesmos mecanismos.

Num conjunto social que já não pode ser definido pela sua homogeneidade cultural e funcional, (…) os atores e as instituições deixaram de ser redutíveis a uma lógica única, a um papel e a uma programação cultural das condutas (Dubet, 1996: 15).

É esta própria heterogeneidade de lógicas que convida a uma ruptura com a “representação clássica da acção que identifica totalmente o ator com o sistema” (Dubet, 1994: 14).

Dubet define assim a experiência social como objeto sociológico,

limita a uma explanação teórico-argumentativa mas cujos esboços teóricos são ilustrados, na maior parte das vezes, pelas pesquisas empíricas que o autor orientou ou nas quais participou.

5 A revisão bibliográfica contribuiu para a construção do objecto de estudo sem contudo se cair numa

pesquisa bibliográfica revisada e exaustiva que “aprisionasse” a investigadora em quadros conceptuais mas procurou-se ter presente o conselho de um veterano da pesquisa qualitativa: “Utilizem a revisão bibliográfica, mas não se tornem dependentes dela” (Becker, in Deslauriers & Kérisit, 2008: 135).

6 Uma descrição da acção das assistentes socais pode ser encontrada na investigação / tese de Doutoramento

de Berta Granja (2008). Assistente Social: Identidade e Saber, Universidade do Porto. A autora cria uma tabela que denomina de «Reportórios de praticas e rotinas» e que, segundo a mesma, “São estes reportórios de práticas e rotinas mais comuns e mais gerais que identificam e dão segurança ontológica na relação com a profissão e que se constituem como matriz de possibilidades de fazer, não sendo por isso uma norma profissional sujeita a sanções explícitas” (2008: 285).

7

O conceito de ‘lógicas de acção’ foi recentemente usado no âmbito de uma pesquisa do Doutoramento em Serviço Social (Joaquim, 2012) mas numa diferente abordagem e com conclusões distintas, em que se conclui da importância da lógica de dom e da necessidade de se clarificar a noção “caridade”, à qual são atribuídos diferentes significados que influenciam diferentes lógicas de acção que podem expressar-se: na gratuidade do dom e na importância de dar-se; no compromisso entre a compaixão e a estratégia que se expressa no “profissionalismo do coração”; numa “caridade laicizada”.

8 Que se inscreve numa concepção clássica da acção, a qual identifica totalmente o actor com o sistema,

(17)

17

A sociologia da experiência social visa definir a experiência como uma combinatória de lógicas de ação que vinculam o actor a cada uma das dimensões de um sistema. O actor deve articular estas lógicas de ação diferentes e a dinâmica que resulta desta atividade constitui a subjectividade do ator e a sua reflexividade (1994:105).

A experiência social surge assim como o conjunto resultante da combinação dessa diversidade de lógicas, sendo a experiência profissional apenas uma dimensão da imensa vastidão que é a experiência social, pelo que o estudo particulariza apenas uma parcela da experiência social.

À semelhança da noção de experiência social, poder-se-á dizer que a experiência profissional, enquanto conjunto de acções heterogéneas e complexas, é resultado da combinação de várias lógicas de acção a que este estudo pretende dar visibilidade através de processos formais de organização e interpretação dessa emaranhada realidade empírica que constitui a experiência profissional.

1.2 Interesse, Alcance e Validade da Pesquisa

O interesse e validade da pesquisa, no entender de Pires (2008; 58), devem ser considerados como um critério legítimo e fundamental para avaliar qualquer teoria ou trabalho de pesquisa

Uma pesquisa deve também prosseguir interesses para além dos do próprio investigador, nomeadamente deve contribuir para um «uso» pragmático no sentido em que os seus «contributos teóricos» possam ser disseminados no seio da academia e, sobretudo, gerar algum impacto e debate no seio da própria profissão. Assim sendo, o interesse pela ‘área do Serviço Social’ é uma forma de poder contribuir para contrariar a “baixa densidade da produção de um saber disciplinar em Serviço Social”9 (Branco, 2008: 55).

Com este estudo pretende-se alcançar as seguintes metas:

 Produzir pensamento sobre o Serviço Social, focalizando-se na realidade portuguesa, mas sem a ela se restringir;

9 Numa “análse aos trabalhos de investigação realizados no âmbito dos programas de pós-graduação em

Serviço Social no universo temporal que medeia desde a sua criação até ao ano de 2003, revela que os eixos temáticos dos projectos de investigação se podem agrupar em torno de duas grandes linhas de concentração, a área das Políticas Sociais e a área do Serviço Social propriamente dita. No universo abrangido, 42 (63,6 %) projectos privilegiam temáticas no âmbito das políticas sociais, enquanto que 24 (36,4 %) adoptaram como campo de investigação temáticas relativas ao Serviço Social enquanto disciplina e profissão.” (Branco, 2008: 55)

(18)

18  Contribuir para a análise, reflexão e debate em torno da profissão de

Serviço Social,

 Prover o domínio científico do Serviço Social com mais contributos teóricos;

 Dotar a academia e a profissão com mais investigação específica em Serviço Social;

 Inspirar e impulsionar ‘linhas de investigação’ próprias ao Serviço Social (desligando-se das de ‘empréstimo’).

Estas metas são, também, manifestações de anseios individuais, assentes na biografia pessoal e que aqui encontram lugar para se desenvolverem.

Como refere Sousa Santos,

(…) hoje sabemos ou suspeitamos que as nossas trajectórias de vida pessoais e colectivas (enquanto comunidades cientificas) e os valores, as crenças e os juízos que transportam são a prova íntima do nosso conhecimento, sem o qual (…) os nossos trabalhos de campo constituiriam um emaranhado de diligências absurdas sem fio nem pavio. No entanto, este saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje subterraneamente, clandestinamente, nos não-ditos dos nossos trabalhos científicos (1987: 53).

2. Objeto de Estudo10

A experiência profissional no domínio do Serviço Social como resultado da articulação de três lógicas da ação: a integração, a estratégia e a subjetivação.

Um Objeto Construído11

É hoje vulgarmente aceite que o objecto de estudo não representa uma dada realidade mas resulta de operações metodológicas.

A noção de objecto construído designa também o procedimento metodológico do pesquisador. Efectivamente, queira-se ou não, o pesquisador selecciona factos,

escolhe ou define conceitos, interpreta seus resultados, etc.; em suma, ele constrói de

10 Marca o ‘ponto de partida’ deste estudo, cuja trajectória assume contornos não previstos e, portanto, difere

no ‘ponto de chegada’ (cf. conclusão), plenamente plausível na orientação epistemológica adoptada (à frente explanada). O ‘ponto de partida’ foi mantido inalterado, como forma de dar conta da dinâmica e não lineariedade do processo de pesquisa.

O ‘ponto de chegada’ acontece após o percurso da pesquisa empírica, interpretação dos discursos e análises teóricas, ou seja, resulta da “trajectória de vida” deste estudo, entendido como um documento vivo: com um nascimento, um desenvolvimento dinâmico, aberto ao imprevisto e em permanente construção.

11 Sobre a noção de ‘objecto construído’, encontram-se maiores desenvolvimentos na abordagem entitulada

«Bússola metodológica», focalizando-se sobretudo no debate epistemológico sobre a ideia/noção de ‘correspondência’.

(19)

19

sua parte, seu objeto tecnicamente e teoricamente (Pires, 2008: 60). [itálico adicionado]

2.1 Conceitos Sensibilizadores ou Genéricos12

Embora este estudo se perfile na ‘teoria enraizada’, não recolhe desta a sua versão mais ortodoxa, aquela que advoga uma abordagem indutiva pura, sem recurso a matrizes conceptuais prévias.

Efetivamente, para Corbin e Strauss, fundadores ou pioneiros desta abordagem, os ‘conceitos’ constituem as unidades de base da análise (1960: 6-12). Na sua explanação sobre a ‘grounded theory’, Pires refere que,

(…) a sensibilidade teórica do pesquisador desempenha um papel crucial no desenvolvimento de suas análises. Este conceito, tão bem explorado por Glaser (1978), é tomado principalmente, da noção de conceitos “sensibilizadores” ou “genéricos” (sensitizing/generic concepts), definida por Blumer (1969). (2008: 361-362).

Na realidade, Blumer (1954) usou esta noção para distinguir ‘conceitos definitivos’ de ‘conceitos sensibilizadores’, referindo que, “enquanto os conceitos definitivos fornecem prescrições acerca do que ver, os conceitos sensitivos apenas sugerem direcções nas quais se pode olhar” (in Bowen, 2006: 2).

Os investigadores sociais, atualmente, tendem a ver os conceitos de sensibilização como dispositivos interpretativos e como um ponto de partida para os estudos qualitativos (Glaser, 1978; Padgett, 2004; Patton, 2002) (ibid). Charmaz (2003), uma teórica de referência e expoente da teoria enraizada, referiu-se aos conceitos sensitivos como

(…) aquelas ideias de fundo que informam a totalidade do problema da pesquisa” e acrescenta ainda que os “conceitos de sensibilização fornecem modos de ver, organizar e compreender a experiencia; eles estão entranhados em nossas ênfases disciplinares e tendências perspectivadas. Embora os conceitos sensitivos possam enviesar a percepção, eles fornecem pontos de partida para a construção da análise, não pontos de chegada para se evadir à mesma. Nós podemos usar os conceitos de sensibilização apenas como pontos de partida para estudar os dados (in Bowen, 2006: 3).

Por seu turno, Blaikie (2000) argumentou que a pesquisa que se preocupa com a geração de teoria pode requerer conceitos de sensibilização mas não como hipóteses. De facto, a pesquisa qualitativa, incluindo a pesquisa enraizada na teoria, não começa com hipóteses ou noções preconcebidas. Pelo contrário, de acordo com a sua natureza indutiva,

12

(20)

20 implica as tentativas do investigador em descobrir, compreender e interpretar aquilo que

vai acontecendo no contexto da pesquisa.

Os conceitos de sensibilização podem ser testados, melhorados, e refinados (Blumer, in Bowen, 2006: 4). Contudo, os investigadores que adoptam a via da teoria enraizada não procuram necessariamente testar, melhorar, ou refinar tal conceito. Eles podem usar os conceitos de sensibilização simplesmente para constituir uma fundamentação para a análise dos dados da pesquisa, como é aliás o caso desta investigação. Em todo caso, “a sobrevivência final de um conceito de sensibilização depende de onde os dados nos conduzem; conceitos emergentes podem suplementá-los ou suprimi-los completamente” (Padgett, in Bowen, 2006: 4).

Posto isto, nesta investigação em concreto, utilizar-se-ão os conceitos sensibilizadores como dispositivos interpretativos e como um ponto de partida da pesquisa. É nesta base que o conceito de ‘lógicas de ação’ surge como um conceito sensibilizador na configuração do objecto de estudo. Aliás, este conceito sensibilizador, como categoria conceptual, foi objecto de um maior refinamento teórico que permitiu desdobrá-lo em três subcategorias, de acordo com Dubet (1994): lógica da integração; lógica estratégia e lógica da subjetivação.

Estas três lógicas de ação constituirão, por assim dizer, os conceitos sensibilizadores de abordagem aos dados empíricos.

2.2 Objetivos da Investigação na Textura do Serviço Social13

De modo a tornar claro as pretensões deste estudo, foram definidos com precisão, os seguintes objetivos:

1. Analisar a experiência profissional de assistentes sociais à luz dos seguintes conceitos sensibilizadores: lógica da integração; lógica da estratégia e lógica da subjetivação (Dubet, 1994).

2. Compreender de que modo essas diferentes lógicas estão presentes e se articulam com as perceções pessoais e nas justificações da atividade profissional;

3. Usar as referidas lógicas de ação num sentido exploratório, (re)visitando perspectivas e modalidades de Serviço Social, antigas e atuais, bem como

13 Cabe esclarecer que os objectivos dizem directamente respeito ao objecto de estudo enquanto que as metas,

(21)

21 destacar os mais recentes aportes teóricos e modos de ação no domínio do Serviço Social.

4. Pensar a profissão de Serviço Social à luz das lógicas de ação social.

3. Posicionamento Epistemológico:

Construcionismo social; interpretativismo e hermenêutica

A epistemologia é uma teoria do conhecimento, “uma teoria ou ciência do método ou fundamentos do conhecimento” (Blaikie, 2007: 18). É uma teoria de como os seres humanos obtêm conhecimento acerca do mundo que os rodeia (de como este é olhado), e de como nós sabemos aquilo que sabemos.

Nas ciências sociais, a epistemologia oferece respostas à questão: ‘Como pode ser conhecida a realidade social?’. A resposta a esta questão não tem sido consensual e tem-se alterado ao longo dos tempos. Todavia, pode-se apontar três grandes tipos de epistemologias: empirismo, racionalismo e construcionismo.

Sem pretender alongar muito, do empirismo pode-se dizer que se baseia no pressuposto de que o conhecimento é produzido pelo uso da razão humana, de que o conhecimento provém da ‘observação’ do mundo que nos rodeia. Assume-se que, através da observação externa do mundo de forma objectiva, é possível representá-lo correctamente em teorias e conceitos científicos. Daí que esta epistemologia seja também vista como representacionista ou fundacionista14.

Do racionalismo, retira-se a ideia central de uma estrutura ‘mental’ comum a todos os seres humanos, pressupondo que as ideias acerca dos objectos do mundo empírico nada mais são que reflexos de uma realidade ‘pensada’ (ideal). Portanto, concluem que “o estudo direto do pensamento é a única via para conhecer o mundo real” (Johnson et al. 1984, in Blaikie, 2007: 20).

O construcionismo, por sua vez, pretende constituir uma alternativa ao empirismo e racionalismo, reclamando que o conhecimento não é descoberto a partir de uma realidade exterior independente, nem tampouco produzido pela razão independentemente de tal realidade. É resultado da atribuição de sentido pelas pessoas na sua interacção com o mundo físico e com outras pessoas.

14 O «fundacionismo» consiste numa perspectiva epistemológica segundo a qual as nossas crenças se apoiam

num número reduzido de crenças mais básicas que servem de fundamento a todo o conhecimento. É de salientar que as crenças fundamentais exigidas pelo fundacionalista tanto podem ser de natureza empírica, apelando assim para um tipo de evidência sensível (empirismo), como de carácter racional, apelando para uma evidência de tipo racional (racionalismo). Assim, o fundacionalismo constitui uma perspectiva acerca do modo como se estrutura a justificação do nosso conhecimento.

(22)

22 Aqui, focalizamo-nos no construcionismo social15, baseado na ideia central de que

toda a acção humana se estrutura através da atribuição de sentido, num conhecimento intersubjectivamente partilhado.

A noção de construcionismo aplica-se tanto aos actores sociais como aos cientistas sociais. Os actores sociais constroem a sua realidade. Eles conceptualizam e interpretam as suas próprias ações e experiências, as ações dos outros e as situações sociais. A partir desta mesma perspectiva, os cientistas sociais constroem socialmente o seu conhecimento acerca da realidade dos actores sociais, as suas concepções e interpretações das acções dos actores sociais e das situações sociais16.

Esta investigação encontra-se epistemologicamente alicerçada no construcionismo social, e nos paradigmas de investigação do interpretativismo e da hermenêutica contemporânea17.

Construcionismo Social

O construcionismo social18 apresenta-se como uma alternativa ao empiricísmo e ao racionalismo ao defender que o conhecimento não é descoberto a partir de uma realidade externa, nem produzido pela razão independentemente da realidade. Assume-se que o ser humano constrói o conhecimento através das suas interacções sociais19, especialmente com recurso à linguagem e que esta se constitui na realidade em si para o sujeito. Não existe realidade além da linguagem construída pelo sujeito através de suas interacções sociais (anti-realismo), e mesmo que ela exista, é inacessível.

De facto, tanto o construcionismo social como a hermenêutica partilham da ideia segundo a qual a linguagem não é considerada como uma ferramenta para a aquisição de conhecimento acerca do mundo enquanto processo objetivo, nem “como um instrumento por meio do qual ordenamos as coisas em nosso mundo, mas como o que nos permite termos o mundo que temos. A linguagem possibilita a revelação do mundo humano” [Taylor, 1995: ix] (in Schwandt, 2006: 200).

15 O construcionismo tem duas correntes: construtivismo (enfoque mais no indivíduo) e construcionismo

social (enfoque mais no social).

16 A Estratégia de Investigação Abdutiva interessa-se pela relação entre estes dois níveis de construção.

Importa referir que esta será a estratégia de investigação eleita neste estudo.

17 Esta divisão e arrumação apoia-se em Blaikie (2007:27) que coloca o construcionismo social no quadro

das correntes epistemológicas e o interpretativismo e a hermenêutica no quadro dos ‘paradigmas de investigação’.

18

De salientar que esta abordagem construcionista entronca na estratégia de investigação abdutiva, proposta para esta investigação.

19 Como diz Gergen “O Construcionismo Social concebe o discurso sobre o mundo, não como um reflexo ou

(23)

23 Dentro do Construcionismo Social, encontramos duas posições diferentes, o que

Schwandt (2006) classifica de construcionismo “fraco” e “forte”. Na versão mais “forte” desse movimento epistemológico, encontram-se alguns autores que partem da premissa de que a linguagem está implantada em práticas sociais ou formas de vida e que portanto tudo o que encontramos é uma interpretação em termos de nossos próprios valores20 subjetivos e perspetivas (ou dos valores e perspetivas do nosso grupo, da nossa comunidade, cultura, etc.).

Para os obstrucionistas sociais radicais tudo o que sabemos sobre a realidade depende de nosso esquema conceptual particular pelo que as alegações de verdade são fundamentalmente expressões desse processo. Aqui, não se adere a um anti-realismo ontológico estrito, mas a um relativismo epistemológico21.

Como é referido por Denzin & Lincoln [2000:872], “toda a pesquisa social reflecte o ponto de vista do investigador, e toda a observação é carregada de teoria, pelo que é impossível produzir conhecimento independente da teoria” (in Baikie, 2008: 23).

Consequentemente o construcionismo é anti-fundacionalista na medida em que argumenta não existirem critérios invariáveis permanentes que permitam definir se o conhecimento pode ser visto como verdadeiro e que não existem tampouco verdades absolutas. Os únicos critérios disponíveis são aqueles que possam resultar de acordos partilhados através de negociação e argumentação, por uma comunidade científica, num determinado tempo e lugar e sob determinadas condições (cf. Blaikie, 2008: 23).

Interpretativismo e Hermenêutica

Do interpretativismo retira-se a ideia da acção (social) humana como inerentemente significativa, cabendo ao investigador compreender o significado que constitui essa acção, sendo para tal necessário que se interprete de um modo específico as acções dos actores. Esse processo de interpretação e de compreensão conduz à noção de ‘compreensão interpretativa’ (de se alcançar o Verstehn), e que compõe o património da tradição do

20 Uma vez que o conhecimento é uma construção humana, então valores e interesses são componentes

intrínsecos à constituição, e a distinção entre valores e factos perde a sua validade, pelo que a almejada neutralidade para um entendimento objectivo da realidade é vista não só como um mito como também inútil.

21 Relativismo epistemológico assenta na seguinte premissa: Todo o conhecimento é interpretação; as

interpretações estão sempre carregadas de valores; os valores são manifestações subjectivas das nossas circunstâncias; logo, o conhecimento é sempre relativo.

Para Gergen [1994a] “o conhecimento é produto dos processos sociais, e que todas as declarações de verdade, do racional e do bem, são o produto de diversas comunidades particulares de intérpretes, devendo, por isso, ser considerados com desconfiança” (in Schwandt, 2006: 204).

(24)

24 interpretativismo. De forma concisa, “os interpretativistas afirmam que é possível compreender o significado subjetivo da ação (entender as crenças do actor, seus desejos, etc.), porém, de uma maneira objetiva” (Schwandt, 2006: 197). Ou seja, o intérprete não é afectado pelo processo interpretativo, podendo assim manter uma postura externa ao mesmo22. Neste aspeto, assume-se um distanciamento deste posicionamento e perfilha-se dos pressupostos epistemológicos enraizados na hermenêutica filosófica23.

A postura de não envolvimento no processo interpretativo é contrariada pela hermenêutica filosófica, que desafia essa visão algo cartesiana da tarefa do intérprete e do tipo de compreensão que este “produz”. No ato de interpretar, todo o sujeito é influenciável pelas suas tradições socioculturais e portanto tendencioso e não isento de valores, o que, para a hermenêutica, “não são considerados uma característica ou um atributo do qual um interprete deva esforçar-se para se livrar, ou o qual ele deva empenhar-se para controlar a fim de chegar a uma compreensão «clara» ” (Schwandt, 2006: 198-199). De facto, chegar a uma ‘verdadeira’ compreensão não implica controlar ou colocar de lado as nossas tradições, valores e quadros de leitura da realidade, até porque segundo Gallagher [1992], a tradição “é uma força viva que penetra toda a compreensão”(…) e “a tentativa de nos afastarmos do processo da tradição seria comparável a tentarmos nos afastar de nossa própria pele” (in Schwandt, 2006: 199).

A ideia não é entregar-nos ao preconceito e tendenciosidade mas exercer uma reflexão que possibilite um questionamento dos mesmos e, inclusive, procurar mudar aqueles que amputam as nossas tentativas de compreender os outros, e a nós próprios.

Só através do encontro dialógico com o ‘estranho’ poderemos confrontar os nossos próprios preconceitos e convicções instauradas ao longo do processo de socialização. Somente assim nos tornamos aptos para a compreensão do outro, posto que esta emerge da interação dialógica. De facto, para Bernstein [1983], Grondin,[1994] e Taylor [1991], a compreensão “mantem sempre uma estreita ligação com a linguagem, sendo conquistada somente através de uma lógica de pergunta e resposta” (in Schwandt, 2006: 199).

A centralidade do diálogo prende-se com o pressuposto de que a compreensão é algo produzido durante o diálogo e não algo reproduzido por um intérprete através de uma análise do diálogo á posteriori numa tentativa de compreender os significados aí presentes.

22 Concepção objectivista do significado, segundo a qual o significado pré-existe ao acto interpretativo. 23 Focalizando no pensamento de Gadamer e Ricoeur (Blaikie, 2008).

(25)

25 É aqui que a hermenêutica se afasta da concepção interpretativista do significado24, ao

defender uma visão não-objectivista do significado assente no pressuposto de que o significado é negociado mutuamente no ato da interpretação e, portanto, não é algo simplesmente descoberto.

Gadamer vê a formação do significado como um processo progressivo, aberto e preventivo, sintetizado por Bernstein [1983: 139] do seguinte modo:

Estamos sempre compreendendo e interpretando à luz de nossos pré-julgamentos e preconceitos preventivos, os quais também vêm sofrendo mudanças no curso da história. É por isso que Gadamer nos diz que compreender é sempre compreender de uma maneira diferente. Mas isso não significa que nossas interpretações sejam arbitrárias e deturpantes. Devemos sempre visar a uma compreensão correcta do que dizem as “coisas em si mesmas” [os objectos de nossa interpretação]. Porém, o que as “coisas em si mesmas” dizem será diferente à luz de nossos horizontes mutáveis e das diferentes perguntas que aprendemos a fazer. Uma análise desse tipo de carácter contínuo e aberto de toda compreensão e interpretação pode ser interpretada como deturpante apenas se admitirmos que um texto possui algum significado em si mesmo que possa ser isolado de nossos pré-julgamentos (in Schwandt, 2006: 199-200).

Para Gadamer (1981) a compreensão é em si mesma uma forma de experiência prática “no” e “sobre” o mundo que nos configura enquanto sujeitos e como tal acarreta sempre um risco que não é possível de eliminar através da aplicação de um eventual código de regras quanto ao modo “correcto” de compreensão de um enunciado.

A hermenêutica não pretende constituir-se como uma metodologia para ‘resolução de problemas’ relacionados com os mal-entendidos ocorridos no processo de compreensão. Para Gadamer [1975: 263], a sua tarefa

(…) não é desenvolver um procedimento de compreensão, mas esclarecer as condições nas quais ocorre a compreensão. Porém, essas não são condições da natureza de um “procedimento” ou de um método que o intérprete deva por si mesmo aplicar no texto (in Schwandt, 2006: 200).

A hermenêutica tem antecedentes no movimento de distanciamento das epistemologias representacionista25, as quais postulavam uma visão realista ingénua da representação do mundo empírico. De facto, foi essa viragem que conduziu ao desenvolvimento das epistemologias construcionistas sociais. Estas, como já foi referido, de um modo geral são cépticas quanto ao mundo “real” por não acreditarem que o conhecimento seja um espelho ou representação real desse mundo. Embora o

24 Para a tradição interpretativista, a acção humana possui um significado intrínseco, cabendo ao intérprete

descobrir esse significado.

25 Também denominadas de epistemologias fundacionalistas, assentes nas filosofias do positivismo lógico e

do empirismo lógico, segundo as quais o conhecimento é concebido como uma “representação” fiel de uma realidade independente. O anti-fundacionismo parte da crença de que os conteúdos do conhecimento são meras construções sociais, e nada mais, assim também são nossas normas epistémicas (Gergen, 1989). Deste modo, nós não temos uma fundação epistemológica segura sobre a qual possamos construir o conhecimento.

(26)

26 construcionismo social não constitua, de forma alguma, uma doutrina ontológica26, está

associado sobretudo com a ontologia idealista27.

Concluindo esta ronda pelos fundamentos epistemológicos, pode dizer-se que, quer o construcionismo social, o interpretativismo, e a hermenêutica concordam num aspecto: todas declinam a ideia da existência de qualquer realidade fundacionalista, de livre pensamento e permanentemente fixa que pudesse ser compreendida sem a mediação da estrutura humana, pelo que a compreensão é um mergulho profundo na interpretação.

Afirmar a validade de nossas interpretações é uma tarefa eminentemente argumentativa, segundo os seguidores de um holismo forte28, pelo que a questão da avaliação e validação de uma dada interpretação não reside na normatividade de critérios universais fundacionalistas mas num pluralismo não-critico de opiniões que aceita a diversidade de olhares e num trabalho de retórica que consiga persuadir e convencer.

Decorrente deste posicionamento epistemológico, o próprio conceito de «cientificidade» é entendido numa dimensão mais pluralista (não sectária), que procura conciliar o rigor na produção de conhecimento sobre a realidade empírica com a complexidade da mesma, num processo interactivo que não consegue escapar à conflitualidade inerente a este confronto. Como refere Correia,

(…) a cientificidade em torno da qual se procura definir a “cientificidade” já não se define exclusivamente pela conformidade a modelos pré-estabelecidos, ela também já não é exclusivamente instrumental, portanto, já não se define exclusivamente por critérios de eficiência técnica, mas tende a ser comunicacional, estruturando-se em torno de acordos inter-subjectivos que já não são apenas internos à comunidade cientifica, como era postulado por Bachelard, mas se estruturam no dialogo conflitual que se estabelece entre ciência, técnica e acção social, como é sugerido por Habermas. Um diálogo estruturante de um campo “movediço, instável e trabalhado pelos actores que participam na sua definição” e que segundo Isabel Stengers é gerador de uma conflitualidade a propósito da própria definição de ciência (Correia, 1992: 5).

26 Ontologia é uma doutrina da filosofia que se preocupa com a natureza daquilo que existe. Nas ciências

sociais, a ontologia procura responder à seguinte questão: ‘Qual é a natureza da realidade social?’. Tradicionalmente as teorias acerca da natureza da realidade social têm se reduzido a duas visões opostas: a

idealista e a realista.

27 As teorias idealistas assumem que o que percebemos como o mundo externo são apenas aparências e não

têm qualquer existência independente dos nossos pensamentos (Blaikie, 2008: 13). Na ideologia ontologista, o mundo externo consiste em representações que são criações de mentes individuais. “O que quer que seja visto como sendo real é real apenas porque nós pensamos que é real; (…) A realidade é o que os seres humanos fazem ou constroem” (Ibid: 16).

28

Holismo provem do grego holos (todo) e expressa a ideia de que as propriedades de um sistema (sociedade) não podem ser explicadas pela soma de seus componentes. Numa perspectiva interpretativista-construcionista, o conhecimento é sempre perspectivo e contextual, visto como um todo irredutível à soma das partes.

(27)

27 A ciência é concebida, deste modo, sobretudo como actividade dialogante com outras

actividades e saberes, geradora de conflitos mas na convicção que desses confrontos emergem consensos, ainda que por vezes incertos, quanto a formas de pensar e agir.

Advoga-se, portanto, uma visão anti-essencialista da realidade e do conhecimento, onde não há lugar para «verdades» fechadas e que portanto devemos efectuar uma

(…) mudança ontológica de uma visão essencialista de uma determinada realidade – tendo a razão como principio que rege o universo – para uma visão anti-essencialista em que as construções da realidade parecem resistir ao fechamento e em que as múltiplas e díspares pretensões de verdade formam parte de uma luta agonística permanente ou contestada” (Paulston, 2001: 206).

Neste estudo, não se toma a realidade e as ações dos agentes como dados adquiridos e unívocos mas procurar-se-á interpretá-los à luz de diferentes códigos de leitura que possibilite ter uma interpretação o mais rigorosa possível, ao mesmo tempo que se procurará compreender a diversidade de entendimentos e assim construir-se um conhecimento que resulte de acordos inter-subjectivos.

Esta investigação, ao posicionar-se numa linha epistemológica interpretativista, assume a subjectividade da investigadora como intrínseca ao acto de interpretar pela simples razão de que a sua implicação no mundo social, não a isenta dessa subjetividade, pois,

(…) é porque estamos implicados no mundo que há implícito no que pensamos e dizemos a seu propósito. Para disso libertarmos o pensamento, não podemos contentar-nos com esse regresso a si próprio do pensamento pensante que comummente se associa à ideia de reflexividade; e só a ilusão da omnipotência do

pensamento pode fazer crer que a dúvida mais radical é capaz de suspender os pressupostos, ligados às nossas diferentes filiações, pertenças, implicações, com que cometemos os nossos pensamentos (Bourdieu, 1997: 9). [itálico adicionado]

Deste modo, assume-se que se trata, de certa forma, de uma produção biográfica, cuja construção e leitura não estará isenta da pessoa que a elabora, o que não invalida um investimento numa postura epistémica de permanente dúvida, pois como referem os construcionistas, o conhecimento é mediado pela nossa imersão no mundo. Tal consciência deverá guiar-nos ao longo do percurso devendo assim ter sempre presente um pensamento critico-reflexivo que coloque em causa as próprias operações e instrumentos de pensamento, começando desde logo por “romper com o senso comum, quer dizer, com representações partilhadas por todos, quer se trate dos simples lugares-comuns da existência vulgar, quer se trate das representações oficiais, frequentemente inscritas nas instituições” (cf. Bourdieu,1989:34).

(28)

28 Para que tal suceda, deve-se igualmente procurar ter uma vigilância crítica sobre o

acto interpretativo no sentido de evitar cair num certo “etnocentrismo conceptual” científico, pois como refere Bourdieu, “o cume da arte, em ciências sociais, está sem dúvida em ser-se capaz de pôr em jogo «coisas teóricas» muito importantes a respeito de objectos ditos «empíricos» muito precisos” (Ibid.:1989: 20).

Esta postura epistemológica poderá ambicionar ir mais além, um pouco na linha de pensamento daqueles que situam o ‘projeto interpretativo’ dentro de uma agenda emancipatória29 (in Schwandt, 2006: 207), advogando-se como compromisso desta investigação contribuir para o incremento e consolidação da disciplina e profissão de Serviço Social no campo30 das ‘profissões sociais’31.

4. Bússola Metodológica - Justificação

Considerações Teóricas e Metodológicas a Propósito do Objeto de Estudo

Não caindo num fundamentalismo que diviniza o papel da teoria nem tão-pouco pretender remeter o investigador para uma “mera atenção passiva, um mero estudo receptivo” da realidade empírica (Fourez, in Pires, 2008:61), pode-se, hoje, sustentar que o objecto de toda pesquisa é um objecto construído.

De facto, a observação e questionamentos da realidade são mais “maculadas de teoria”, do que aquilo que suspeitamos serem. “É a ‘teoria’ (mesmo tratando-se de uma teoria vaga, elementar e inconsciente) que organiza nossa visão e que nos “ajuda” a observar; isto é, que nos leva a fixar o nosso olhar sobre determinadas coisas e a excluir outras” (Pires, 2008: 61).

29 Esta agenda emancipatória poderá ser integrada pela própria agenda do Serviço Social enquanto projecto

profissionalizante.

30 Conceptualiza-se o campo das ‘profissões sociais’ à luz do conceito de campo formulado por Pierre

Bourdieu segundo o qual os campos são "espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas propriedades dependem das posições nestes espaços" (2004: 89), ou seja, a noção de campo representa um espaço social em que se estruturam relações de poder e dominação, segundo uma lógica de interesses e consoante o capital social e simbólico dos agentes envolvidos. De referir ainda que este conceito foi também mobilizado por Marília Andrade (2001), aplicando-o estritamente ao Serviço Social.

31 A designação de ‘profissões sociais’ e seu significado foi trabalhada por Francisco Branco (2008:3), que

adopta “uma visão próxima do conceito, de origem anglo-saxónica, de care professions, no qual se tendem a incluir o serviço social, a enfermagem e profissões da área educativa (cf. Bessin, 2005: 161). Trata-se assim de uma conceptualização descoincidente e mais abrangente que, quer a designação de «trabalho social» ou trabalhadores sociais, de extracção francófona, e relativa designadamente a assistentes sociais, educadores sociais e animadores, quer a de «intervenção social», que na proposta adoptada por Chopart, se reporta a um campo aberto de profissões certificadas e ocupações que realizam “uma acção com pessoas ou grupos num objectivo de ajuda, de desenvolvimento e de reforço dos laços sociais” (2003: 37).

(29)

29 A construção do objeto é, sem dúvida, a operação mais importante, e, no entanto,

muitas vezes a mais ignorada, sobretudo na tradição dominante, organizada em torno da oposição entre a «teoria» e a «metodologia», onde a primeira assume a função de comando, fundamentando-se numa ordenação acumulativa de ‘teorias’ científicas que legitimam a análise do objecto empírico, constituindo, por vezes, uma espécie de ‘melting pot’ teórico. Por sua vez, a metodologia aparece ainda, muitas vezes, como “catálogo de preceitos que não têm que ver nem com a epistemologia, como reflexão que tem em vista trazer à luz os esquemas da prática científica apreendida tanto nos seus erros como nos seus êxitos, nem com a teoria científica” (Bourdieu, 1989:24).

4.1 Estratégia de Investigação: Abdutiva

A estratégia abdutiva é encarada como um método apropriado na construção de teoria nas ciências sociais de cariz interpretativo. Esta estratégia de investigação implica a construção de teorias a partir da linguagem, significados e apreciações dos actores sociais, no contexto das suas atividades diárias (cf. Blaikie, 2008: 89).

A estratégia de investigação abdutiva atribui valor epistemológico aos significados e interpretações, aos motivos e intenções, que as pessoas comuns atribuem às suas acções quotidianas. Como tal, o mundo social é o mundo percebido e experienciado pelos seus membros, a partir de ‘dentro’. Baseia-se, assim, numa ontologia idealista32

e na epistemologia do construcionismo33.

A tarefa do investigador consiste, deste modo, em descobrir e descrever esta visão ‘interior’, e não em impor uma visão ‘exterior’ dos acontecimentos. Assim, para a estratégia de investigação abdutiva,

O acesso primário a qualquer mundo social faz-se através das apreciações que as pessoas fornecem acerca das suas próprias acções e das acções dos outros. Estas apreciações encerram os conceitos que os participantes usam para estruturarem o seu mundo e as ‘teorias’ que utilizam para apreciar aquilo que se passa (Blaikie, 2008: 90).

Acontece que estes ‘conceitos e significados quotidianos’ não são linearmente extraídos dos discursos dos actores, uma vez que estes os mobilizam, “naturalmente”, sem

32

Na ontologia idealista, o mundo exterior consiste em representações que são criações de mentes individuais. A realidade é o que os seres humanos fazem ou constroem. (Blakie, 2008: 16-17).

33 O construcionismo está relacionado com a ontologia idealista. Defende que o conhecimento não é

descoberto a partir de uma realidade externa nem produzido pela razão de forma independente dessa realidade. A noção de construcionismo tanto pode ser aplicada aos actores sociais como aos próprios investigadores. A ideia base é de que os actores sociais constroem socialmente a sua realidade. Eles conceptualizam e interpretam as próprias acções e experiências, as acções de outros e demais situações sociais. (Blakie, 2008: 22-23).

Imagem

Figura 1 – Ilustração do Processo Analítico
Figura 5 – Ilustração do processo analítico-interpretativo dos dados

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