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AS CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO PUNK BRASILEIRO

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CAPÍTULO 2. NUM PAÍS TROPICAL

2.6 PUNK À PAULISTA

2.6.1 AS CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO PUNK BRASILEIRO

As bandas surgiram para trazer nas músicas, a realidade que cercava seus integrantes. Essas bandas foram essenciais para que os Punks começassem a se constituir enquanto Movimento em São Paulo. Nas palavras da professora Cicília Maria Krohling Peruzzo (2013),

[...] Movimentos sociais são articulações da sociedade civil constituídas por segmentos da população que se reconhecem como portadores de direitos e que se organizam para reivindicá-los. (PERUZZO, 2013, p. 75).

E, Peruzzo (2013) ainda complementa:

[...] Um movimento social pressupõe a existência de um processo de organização coletiva e se caracteriza pela consistência dos laços, identidades compartilhadas, certa durabilidade e clareza não só no uso de táticas (mobilizadoras, comunicativas, civil judiciais, etc.), mas também nas estratégias, como aqueles envolvendo um projeto amplo de sociedade, ou pelo menos, propostas de programas para determinados setores. (PERUZZO, 2013, p. 76).

Percebendo que necessitavam de maior apoio, os punks começaram a organizar eventos e festivais e a produzir o próprio material. Por estarem excluídos e marginalizados, não tinham como anunciar suas perspectivas e posições frente à realidade da sociedade; daí porque eram vistos somente como um bando de adolescentes rebeldes.

Por meio da ruptura de paradigmas sonoros, políticos, estéticos e visuais, o movimento punk trouxe a agressividade de uma juventude que se sentia sem voz. Contra tudo e contra todos, chocando visualmente, eles conseguiam chamar a atenção para o som, e por consequência, para suas letras de protesto. A pobreza ditou o corpo que constituía o imagético dos punks brasileiros, o dinheiro do qual dispunham era pouco, portanto compravam as roupas que podiam, jaquetas, camisetas listradas ou lisas, tênis bamba22, coturnos23 e calças jeans. A coincidência

é que eram as mesmas roupas dos Ramones, mas logo, os brasileiros misturaram alguns elementos dos Sex Pistols, o que os levou a colocar taxas e rebites nas

22 Marca de fantasia de tênis produzido no Brasil, com preços mais acessíveis e que lembrava o

modelo da marca All star americana.

jaquetas, pintar as próprias camisetas e personalizar as roupas. Ao melhor estilo faça você mesmo, adaptaram sua imagem à sua realidade. Clemente, da banda Inocentes conforme citado em documentário produzido por Gastão Moreira (2006), afirmou que: "Se o Punk não tivesse sido inventado em Nova Iorque, a gente ia inventar aqui." A estética punk brasileira foi em parte importada e, em parte, criada.

No cotidiano, esse grupo de jovens não tinha oportunidade de se expressar, de comunicar suas ideias à sociedade, pois qualquer aglomeração vista pela polícia era interpretada como afronta e, por isso, eram parados e vistoriados, mesmo tratando-se de um grupo com apenas três ou quatro jovens. Daí porque os "uniformes punks" constituíram-se aos adeptos desse movimento, uma forma de expressão e de comunicação de suas convicções. Assim, suas roupas eram transformadas em outdoors ideológicos.

Os símbolos de anarquia costurados e pintados nas jaquetas surradas e nas calças rasgadas, tornaram-se elementos constitutivos de sua identidade, já que a moda (roupas) e a postura comportamental eram integrantes importantes na identidade punk. Logo, passaram a ser reconhecidos pela sociedade, enquanto movimento, por meio de suas vestimentas, sobretudo em estado deplorável, já que não era comum, o uso de calças rasgadas. A utilização de coturnos representava para o grupo uma forma de protesto contra o aparato militar, indicando que os jovens também estavam prontos para uma guerra, e que para andar pelas “trincheiras paulistanas” precisavam estar preparados. As camisetas pintadas demonstravam o grau de insatisfação com a indústria, uma vez que se sentiam obrigados a dela fazerem parte. Isso, sem contar as capas de discos que traziam a arte punk da forma mais crua possível. O prejuízo era certo quando eram revistados, perdiam seus cintos de rebite, os coturnos, as jaquetas e os braceletes.

Se em Nova Iorque existia o CBGB, na zona norte de São Paulo existia o Construção - localizado no distrito do Tucuruvi, mais precisamente, na Vila Mazzei. O Construção não era um local especificamente punk, mas virou porque os punks começaram a frequentá-lo. Era um salão de festas da Sociedade Amigos do Bairro da Vila Mazzei. No Construção aconteceram os primeiros shows de punks. Também

eram habituais os shows de fita, nos quais os punks levavam fitas cassete (K7)24

gravadas, geralmente com as músicas que o Kid Vinil havia tocado no programa. Os punks pogeavam, bebiam, tomavam Artane e curtiam a noite. Além do Construção, também existiam as lojas de discos: Wop Bop e Punk Rock Discos, primeira loja especializada no estilo: "A Punk Rock Discos foi a catalisadora de todo o Movimento punk de São Paulo." (BARBIERI, [s.d.]).

O que era incipiente movimento passou a ganhar visibilidade. A mídia foi atrás dos punks para saber quem eram, o que queriam, quais eram os ideais desse movimento, entre outras informações. Algumas matérias começaram a ser publicadas, mas muitas delas com informações distorcidas e uma visão deturpada, como a matéria A Geração Abandonada, escrita por Luiz Fernando Emediato, para o Jornal O Estado de São Paulo, conforme trecho transcrito do documentário de Moreira (2006).

[...] Discípulos de Satã, o ídolo que veneram, eles não veem muita diferença entre Deus e o Diabo, entre Marx, Kennedy ou Hitler, entre Bem e Mal. Eles gostam de bater, só isso. Alguns, mais cruéis, roubam e espancam velhinhas - e acham muita graça nisso. Os punkers não frequentam o Jolly's e nenhum outro bar parecido, como o Lights do pessoalzinho "mais burguês", ou a Lanchonete do Dim, em Santana. Os punkers odeiam álcool e drogas, embora gostem de sexo. Eles preferem beber leite com limão - e muitas vezes, depois que bebem esta mistura, provocam vômitos em si mesmo e vomitam o leite coagulado na cara de suas vítimas. Eles odeiam os frequentadores de bares, principalmente de bares como o Jolly's, onde ninguém gosta de violência. A maioria dos frequentadores do Jolly's ainda está naquela de flower-power: "Paz e amor, cara". (BOTINADA, 2006).

Os punks responderam a essa publicação, por intermédio de Clemente Tadeu Nascimento - da banda Inocentes - via carta-resposta ao Jornal O Estado de São Paulo, com o mesmo título da matéria. Para tanto, segue a íntegra da carta publicada.

Sr. os meios de comunicação que até hoje divulgaram o movimento Punk Rock no Brasil, em vez de se encontrarem com bandas punks e procurarem saber qual a proposta ideológica do movimento, se preocupam apenas em fantasiar e sensacionalizar pequenos atos de

24 Abreviado como fita k7 - uma mídia antiga de fita magnética para gravação de áudio. Nelas podia-

se gravar um disco inteiro, ou diversas músicas e fazer uma fita única, conforme o que se desejava, com músicas só de rock, ou só de MPB, ou forró, etc.

vandalismo que, feitos por uma pequena minoria, acabam por comprometer todo o movimento punk no Brasil.

O punk é um movimento sociocultural, ele é a revolta de jovens da classe menos privilegiada, transportada por meio da música. Esses jovens já organizaram vários shows pela periferia de São Paulo, com bandas como Inocentes, Desequilíbrio, Fogo Cruzado, Lixomania, Juízo Final, Guerrilha Urbana, Suburbanos, Olho Seco, Cólera, Setembro Negro, Mack, Estado de Coma, e muitas outras. Três destas bandas estão gravadas em um mesmo disco, chamado “Grito Suburbano”. As bandas são “Olho Seco”, “Inocentes” e “Cólera”. Portanto, os punks não são "gangs" de blusões de couro que vivem a assaltar velhinhas em estações de metrô e, sim, um movimento social que realmente não sabe a diferença entre Deus e o Diabo, porque nunca foram à Igreja, mas que sabem muito bem a diferença entre Marx, Kennedy e Hitler, e que acham que quem tem o costume de beber leite com limão, realmente tem um gosto muito requintado, para poder dispensar uma cerveja gelada.

E, aproveito o momento propício para lhes dizer que não estamos atrasados e que surgimos quase ao mesmo tempo em que surgiu o movimento punk na Inglaterra e que este ainda não morreu e sim cresceu tanto e que mantemos correspondência, não só com Punks da Inglaterra, como também com punks de muitos lugares da Europa, como Finlândia, Itália, Suécia, Alemanha, Espanha, Portugal e até com os Estados Unidos, e o que morreu, realmente, foi a tentativa de transformar o punk em mais uma moda passageira. E, como todo bom amigo, deixo um conselho: antes de falar sobre alguma coisa, seria melhor se aprofundar mais, conhecer mais sobre o assunto, para que este país não continue atrasado como sempre. Punk's de SP. Clemente Tadeu Nascimento, vocalista do grupo Inocentes. (matéria publicada no Jornal O Estado de São Paulo).25 Quando a carta-resposta foi publicada, o movimento ganhou notoriedade. Em curto espaço de tempo, Fernando Meirelles produziu um documentário sobre os punks. O jornalista Antonio Bivar fez uma matéria para o Gallery26, assim como,

foram elaboradas outras matérias para a televisão.

Como disse Clemente, já havia um disco gravado em 1982 - o long-play (LP) Grito Suburbano e um split envolvendo três bandas, com doze músicas (quatro de cada uma). O disco foi produzido de forma totalmente independente, custeado pelas próprias bandas e gravado ao vivo. Esse álbum foi o primeiro registro do punk nacional e, atualmente, representa um dos discos mais importantes do punk

25 Transcrição da matéria publicada no Jornal O Estado de São Paulo (s.d.), em Teixeira (2007, p.74). 26 Uma das boates mais chiques de São Paulo no período. Geralmente frequentada por ricos e

mundial. Além do Grito Suburbano, os punks paulistanos gravaram mais dois discos significativos para sua história: o primeiro deles, O Começo do fim do mundo27, gravado ao vivo em um festival punk, no SESC Fábrica, show que terminou em uma pancadaria generalizada. As imagens das brigas foram gravadas, mas foram usadas pela Rede Globo de Televisão, em 1985. A repórter Silvia Poppovic produziu uma matéria para o programa Fantástico e, para tanto, foi à Punk Rock Discos para coletar mais informes sobre o movimento. Pagaram cervejas para os mais cachaceiros que não sabiam muito bem o que era o movimento e resultou que editaram as imagens, as entrevistas, e fizeram uma matéria sensacionalista que foi ao ar no domingo à noite. (CRUCIFICADOS, 2014).

Na segunda feira, após a transmissão do programa do domingo, vários punks foram demitidos e expulsos de casa. Foi quando o movimento sofreu um colapso, afinal toda sociedade acreditava naquilo que havia visto no Fantástico. Muitos deixaram de ser punks. A Rede Globo vetou e veta até hoje, toda e qualquer tentativa de acesso à matéria. Além do Começo do fim, os punks gravaram ainda, a coletânea SUB. Outros compactos também surgiram como: Violência e Sobrevivência, do conjunto Lixomania; Botas, fuzis e capacetes, do grupo Olho Seco; e Miséria e Fome dos Inocentes; além dos discos cheios: Crucificados Pelo Sistema, da banda Ratos de Porão e Tente Mudar o Amanhã, do grupo Cólera.

Também o punk rock brasileiro passou a flertar com o Hard Core, ou seja, a incorporar outros ritmos (mais pesados e com variação no tempo musical para mais rápido28). Deste período em diante, outros movimentos culturais se desenvolveram

no Brasil, como o Hip Hop e o Funk que também foram (e, ainda são) “contra tudo e contra todos”. Destaca-se, que no período da ditadura no Brasil, sobretudo, após o período dos festivais, o punk foi o primeiro dos movimentos a considerar um contingente populacional peculiar. Decorre daí a importância do movimento punk por dar voz aos garotos da periferia, assim como de permitir a que seus adeptos fossem desafiadores, do sistema e de uma ordem imposta. Comunicavam também o rompimento com uma estética visual, sonora e comportamental dominantes.

27 No quarto capítulo deste estudo, esta produção e sua história é considerada com mais detalhes. 28 Vertente do Punk Rock, oriunda do Punk, só que mais rápido e mais pesado.

Para concluir esse histórico do movimento punk no Brasil recorre-se à Maria da Glória Gohn (1995), no sentido de esclarecer, mesmo que sucintamente, a situação do país nos anos 70 e 80, e a importância dos movimentos sociais. Afirma Gohn (1995):

Podemos dizer que as ações coletivas nos anos 70 e 80 [do século passado], no Brasil, foram impulsionadas pelos anseios da redemocratização dos órgãos, das coisas e das causas públicas, pela vontade de se construir algo a partir de ações que envolviam os interesses imediatos dos indivíduos e grupos. Os movimentos sociais, populares, ou não, expressaram a construção de um novo paradigma de ação social, fundado no desejo de ter uma sociedade diferente, sem discriminações, exclusões ou segmentações. (GOHN, 1995, p. 203).

Capítulo 3. MOVIMENTO PUNK E O FAÇA VOCÊ MESMO

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