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Comunicação, audiovisual e educação: narrativas de pesquisa

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Academic year: 2021

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Comunicação,

audiovisual e educação

narrativas de pesquisa

Adriana Hoffmann

Rosane Tesch

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Adriana Hoffmann Fernandes

Pós-doutora em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutora e mestre em Educação e Mídia, respectivamente pelo PROPED da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela PUC-Rio. Professora da Escola de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Membro da Rede Internacional de Educação, Artes e Humanidades (Redarth) que integra Brasil, Portugal e Uruguai e da Rede de Formação Docente (Formad) em diálogo com toda a América Latina. Líder do grupo de pesquisa Comunicação, Audiovisual, Cultura e Educação (CACE) da Unirio/CNPq.

Rosane Tesch

Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO); mestre em Educação e Licenciada em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); especializada em Arte e Cultura (UCAM). Atuou como professora convidada no Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Educação (ISEAC/FAAC). Professora e gestora na

SME/RJ e integrante do Grupo de Pesquisa Comunicação, Audiovisual, Cultura e Educação (CACE/UNIRIO) com pesquisa em cultura visual, redes cotidianas digitais e práticas docentes.

Vanessa Gnisci

Doutoranda em Educação na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e integrante do grupo de pesquisa Comunicação, Audiovisual, Cultura e Educação (CACE/UNIRIO) com pesquisa voltada à literatura e booktubers nas redes digitais. Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em Literatura Infantojuvenil pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professora adjunta do Colégio Pedro II e leciona as disciplinas Linguística Aplicada e Alfabetização e Letramento na

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Comunicação,

audiovisual e educação:

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universidade federal da bahia reitor João Carlos Salles Pires da Silva vice-reitor Paulo César Miguez de Oliveira assessor do reitor Paulo Costa Lima

editora da universidade federal da bahia diretora Flávia Goulart Mota Garcia Rosa

conselho editorial Alberto Brum Novaes Angelo Szaniecki Perret Serpa Caiuby Alves da Costa Charbel Niño El Hani Cleise Furtado Mendes Evelina de Carvalho Sá Hoisel Maria do Carmo Soares de Freitas Maria Vidal de Negreiros Camargo

grupo de estudos e pesquisa comunicação, audiovisual, cultura e educação

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Comunicação,

audiovisual e educação:

narrativas de pesquisa

Adriana Hoffmann

Rosane Tesch

Vanessa Gnisci

Organizadoras

Salvador EDUFBA 2020

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2020, Autores.

Direitos para esta edição cedidos à Edufba. Feito o depósito legal.

Grafia atualizada conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009.

projeto gráfico Gabriela Nascimento normalização

Bianca Rodrigues de Oliveira revisão

Cristovão Mascarenhas ilustração capa

Semente de ecrã 1, Ludmila Duarte

Sistema de Bibliotecas – SIBI/UFBA

Comunicação, audiovisual e educação : narrativas de pesquisa / Adriana Hoffmann, Rosane Tesch, Vanessa Gnisci, organizadoras. – Salvador : EDUFBA, 2020.

233 p.

Contém biografia ISBN: 978-65-5630-046-7

1. Recursos audiovisuais. 2. Cinema. 3. Cinema na educação. 4. Comunicação e cultura. 5. Ensino audiovisual. I. Hoffmann, Adriana. II. Tesch, Rosane. III. Gnisci, Vanessa.

CDD – 371.33

Elaborada por Jamilli Quaresma CRB-5: BA-001608/O

Editora filiada à:

EDUFBA

Rua Barão de Jeremoabo, s/n Campus de Ondina Salvador - Bahia CEP 40170-115 Tel.: (71) 3283-6164 www.edufba.ufba.br

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Sumário

prefácio … 7 apresentação … 13

Projeto “o cinema e a narrativa de crianças e jovens

em diferentes contextos educativos” (2010-2013)

1

cinema no ensino fundamental: a pesquisa com o projeto megacine pelas narrativas das crianças … 21

Adriana Hoffmann Érica Rivas Gatto Renata Costa Ferreira

2

narrativas de jovens do ensino médio sobre cinema dentro e fora da escola … 37

Kelly Maia Cordeiro

3

“cinema é um acontecimento”: investigando a prática cineclubista do cine cch na universidade … 55

Thamyres Dalethese Adriana Hoffmann

Projeto “o cinema e as narrativas na era da convergência: modos de

consumo, formação e produção de audiovisuais de crianças, jovens

e professores” (2013-2018)

4

jovens youtubers: novas aprendizagens … 75 Lucineia Batista

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5

pedagogias da animação: experiências de criação de filmes na escola … 89

Joana Sobral Milliet

6

uma pesquisa com filmes para jovens cegos: cultura do ouvir no contar filmes e/ou audiodescrever … 109

Margareth Olegário Adriana Hoffmann

7

juventude, desenhos animados e modos de viver o tempo … 125 Érika Lourenço de Menezes

8

“se inscreve no meu canal”: relações entre crianças e youtube … 145

Thamyres Dalethese

9

professores de artes: a experiência audiovisual como formação e prática … 161

Jamila Guimarães

10

cibercultura e redes sociais: refletindo sobre as práticas das juventudes … 179

Lucy Anna Diniz Adriana Hoffmann

11

a arte de criar tapetes de histórias: ensaiando um convite narrativo entre o artesanal e o tecnológico … 195 Daniela Fossaluza

12

agamben e a profanação da educação: as relações do cinema com a sala de aula e a formação de professores … 211

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Prefácio

UMA DÉCADA DE PESQUISAS QUE TRATAM DE TEMAS

URGENTES SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE CINEMA E

EDUCAÇÃO

O diretor de cinema português, Edgar Pêra, realizou, em 2016, o filme intitulado O espectador espantado. Trata-se de um documentário de longa-metragem, pou-co pou-convencional em seu formato. Nele, o diretor indaga o que define o cinema, ou a experiência com o cinema, século XXI adentro, quando os suportes e apa-ratos por meio dos quais os filmes são produzidos e veiculados sofrem transfor-mações cada vez mais velozes. A narrativa se concentra numa sala de cinema onde são projetados fragmentos dos próprios filmes de Edgar Pêra. Os relatos dos espectadores constituem os fios condutores. Dentre os espectadores, estão atrizes, diretores, críticos de cinema, além de cinéfilos e amantes do cinema em geral. Interessa a Edgar Pêra compreender o que acontece na relação entre o es-pectador e as imagens em movimento, sonorizadas, projetadas na grande tela. “Espanto” é a palavra por ele escolhida para adjetivar esse encontro.

Alinhada às inquietações desse cineasta, antes de prosseguir no texto, peço permissão à leitora, ao leitor, para perguntar: quais suas lembranças mais anti-gas com o cinema? Quais foram as circunstâncias? Teria sido numa sala de cine-ma? Caso não tenha sido numa sala de cinema, em que lugar? Lembram-se da história, ou de fragmentos, talvez alguma imagem ou impressão? Que sentimen-tos acompanham essas lembranças?

Sem quaisquer pretensões de produzir algum documentário ou outro gêne-ro fílmico, há algum tempo venho colecionando relatos de pessoas em diversas faixas etárias, sobre suas primeiras experiências com o cinema. Uma senhora, numa turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA), contou-me certa vez, en-tre muitos risos e brilhos nos olhos, uma aventura inesquecível. Determinada a

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assistir ao filme Nos tempos da Brilhantina, estrelado por Olivia Newton-John e John Travolta no final dos anos 1970, ela teria fugido da aula, no turno vesper-tino, pulando o muro dos fundos da escola que fazia fronteira com o terreno da sala de cinema. Sua fuga envolveu planejamento prévio, e contou com a cumpli-cidade das colegas de turma. Envolveu, ainda, uma clandestina troca de roupas – o uniforme escolar poderia denunciá-la –, e a companhia de um candidato a namorado, que a teria encorajado para o feito. Segundo ela, o namoro não deu certo, do mesmo modo que, pouco tempo depois, precisou abandonar a vida es-colar. Esta só foi retomada algumas décadas depois, entre adultos trabalhadores, quase todos já na meia idade. Mas aquela experiência permaneceu, indelével, entre suas lembranças mais vívidas.

Nesse relato, encontram-se alguns elementos bem frequentes no tocante às memórias pessoais com o mundo encantado das imagens animadas e sonoriza-das. A escola e o cinema muitas vezes se colocam em relação, não necessaria-mente de modo amigável, linear ou de complementaridade, mas quase sempre mediada pelos sentimentos de aventura, pelo desejo e, nesse caso, pelo romance. Geralmente, as lembranças mais antigas que as pessoas trazem, no tocante à ex-periência de assistir a um filme projetado no telão, numa sala escura, são carrega-das de magia, de afeto, de sustos. De espanto.

Afora as sessões de cinema compartilhadas coletivamente, as narrativas fíl-micas, atualmente, estendem-se para outros territórios e rituais, multiplicando-se em telas de diversas dimensões, que habitam nossos quotidianos, desde os apara-tos móveis a nos acompanhar, por onde possamos ir, aos aparelhos disposapara-tos em ambientes domésticos, de trabalho, instituições escolares, dentre quantos outros.

Tais experiências e as narrativas nelas testemunhadas integram memórias, constituindo identidades. Não foi ao acaso que o cineasta e escritor chileno Alberto Fuguet escreveu o romance Os filmes da minha vida,1 lançado, no Brasil,

em 2005. Nele, em vez de se debruçar sobre a linguagem cinematográfica pro-priamente dita, ou de analisar os filmes que compõem a lista, o autor constrói um livro sobre as memórias pessoais entrelaçadas ao cinema. Não estão ali os fil-mes preferidos do autor, ou do personagem que assume, em alguma medida, seu alter ego. Os filmes reportados a cada capítulo do livro são aqueles que, a partir de um e outro aspecto formal ou narrativo, ou de outras referências

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ciais, ficaram enganchados em alguma esquina ou cruzamento dos vários fios que tecem as histórias de vida. Podem ser fragmentos da narrativa, a roupa que um ator ou uma atriz usava, uma luz ou paisagem, ainda a imagem do cartaz, ou o ambiente de projeção: retalhos da experiência compondo os bordados imper-manentes da memória.

Nos projetos de pesquisa que tenho desenvolvido no campo do cinema, reiteradamente chama a atenção como os filmes evocam as circunstâncias nas quais são vistos. Essa constatação motivou-me, por exemplo, a, no início dos anos 2000, desenvolver um projeto com a programação de filmes cujas histórias versavam sobre temas da ficção cientifica. A audiência era formada por estudan-tes do ensino médio, e também por docenestudan-tes que atuavam nesse segmento da educação básica.

Os filmes escolhidos tinham sido, anteriormente, por mim analisados du-rante o doutoramento. No processo de análise, acabei por dar-me conta de que o estudo, a despeito de sua amplitude e complexidade, carecia de percepções que extrapolassem a minha própria. Que eventualmente até a ela pudessem se con-trapor. Ou seja, ainda que eu conseguisse promover discussões adensadas a partir dos filmes, elas estavam ancoradas tão somente em minhas percepções pessoais. Eu sentia falta de interlocutores para diversificar os pontos de vista, propiciando essa dimensão mais coletiva e dialogal do encontro com o cinema. Por isso, com-partilhar aqueles filmes com estudantes e docentes da educação básica propicia-va uma experiência de mão dupla: o projeto assegurapropicia-va àquele grupo que pudesse ampliar seus repertórios fílmicos, debatendo livremente sobre as narrativas mos-tradas, ao mesmo tempo que oportunizava, a mim, a ampliação na percepção dos filmes, sempre tão múltiplos, organizados em tantas camadas.

Quando uma pessoa se dispõe a assistir a um filme aberta à possibilidade da experiência, sem um roteiro prévio a ser observado, amplia-se a riqueza das aprendizagens propiciadas. Isso pode ainda ser potencializado, quando se asse-gura a partilha da experiência, na interlocução entre os pares. Um tal exercício resulta em produção de conhecimento, em descortinamento de paisagens, no redimensionamento do sensível.

Sim, a experiência com o cinema, instaurada há pouco mais de um sécu-lo, tem tomado parte ativa na formação e renovação de nossos imaginários, de nossas visões de mundo, e da percepção de nosso estar no mundo. A lingua-gem fílmica, em contínua transformação técnica, formal e narrativa, desde os

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primórdios, tem deflagrado aprendizagens múltiplas, que demandam inves-tigações com diferentes recortes. Particularmente, é necessário, no âmbito da educação, que se busquem estudos mais abertos à complexidade dessas relações entre a experiência com o cinema e as aprendizagens deflagradas, nos processos de escolarização, em diálogo com as demandas dos circuitos oficiais do cine-ma e do audiovisual. Reside exatamente nesse aspecto a importância e a urgên-cia do trabalho desenvolvido pelo grupo de estudos e pesquisa Comunicação, Audiovisual, Cultura e Educação (CACE), com investigações sistemáticas sobre essas relações entre as narrativas fílmicas, a cultura do cinema e as questões da educação, contando com a liderança sempre sensível e competente da professo-ra Adriana Hoffmann.

Criado em 2010, o CACE vincula-se ao Programa de Pós-Graduação e à Escola de Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Ao longo de uma década, já construiu uma bagagem importante que inclui pesquisas, publicações, participação em eventos, dentre tantas outras frentes de atuação. A professora Adriana Hoffmann teve reconhecida sua liderança e importância como pesquisadora na área, ao ser contemplada, pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado, da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), para o período de 2018 a 2020. Não por acaso, ela tem reunido, no CACE, pesquisadores em diversos níveis de formação, num painel amplo de interesses e discussões que têm, em comum, interesses relativos à educação, ao cinema e à cultura contemporânea.

Este livro coroa, assim, o percurso de uma década de trabalho. O conjunto de textos apresentados, com a cuidadosa organização assinada pelas pesquisadoras Adriana Hoffmann, Rosane Tesch e Vanessa Gnisci, abre-se para a atualidade das questões já apontadas. Ressalta-se, como eixo orientador aos trabalhos, a prioridade dada à educação, desde o ensino fundamental ao superior. Partilhada por todos, também, é a base formada pela pesquisa de campo, de natureza parti-cipativa. Assim, o trabalho de pesquisa se associa à docência, em processos que aliam a vivência à reflexão e produção de conhecimento.

As temáticas abordadas abrem um gradiente necessário, tendo em vista o cenário contemporâneo das questões da educação, do cinema e do audiovisual, da cultura digital, sem perder de vista ainda as questões relativas à inclusão e à acessibilidade. Ressaltam-se, inicialmente, os estudos sobre os modos como as pessoas vivenciam a experiência de assistir a filmes, como se apropriam dessas

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narrativas, trazendo-as para as narrativas de si mesmas. Em caráter complemen-tar a esse, estão as discussões sobre as possibilidades de produção de narrativas audiovisuais por parte de jovens, estudantes, em contextos de aula e em plata-formas digitais. A propósito, a temática da cultura digital também ganha prota-gonismo entre os assuntos abordados, em suas reverberações aos modos como os aparatos tecnológicos têm modificado tanto a recepção de filmes quanto a produção de vídeos e seu compartilhamento em rede. Mais que isso, como as plataformas digitais têm configurado novas dinâmicas de construção de apren-dizagens compartilhadas.

Tem destaque especial o trabalho em que se discutem as potencialidades do cinema junto a pessoas cegas ou com baixa visão. Os desafios trazidos por tal abordagem colocam em pauta reflexões importantíssimas sobre o ato de ver, bem como o papel das narrações na construção de referenciais sobre o estar e o ser no mundo, cada qual com suas singularidades.

O livro que temos em mãos propõe possibilidades do cinema no campo da educação que vão além, muito além do uso de filmes para ilustrar conteúdos cur-riculares, ou como mera distração, preenchimento de tempo ocioso. Ao mesmo tempo, sinaliza que trabalhos nessa direção não devem se subjugar aos interes-ses do mercado cinematográfico, enquanto indústria do entretenimento. Essa posição não se orienta por uma noção ingênua que possa supor possível deslocar essa experiência para fora do mercado cinematográfico e suas demandas políti-cas e econômipolíti-cas. Contudo, reivindica a atenção para o fato de que o encontro com o filme é impregnado de experiências culturais, pessoais, de memórias, re-pertórios e referências que vão além dos interesses de mercado, ou dos possíveis modismos.

Fica evidenciada, também, a necessidade de se aprofundarem investigações relativas ao potencial pedagógico do cinema, sem ter como única condição sua domesticação às delimitações da organização curricular da instituição escolar. É comum apontar-se, como uma dificuldade importante para a inserção das narrativas fílmicas no quotidiano escolar, a incompatibilidade entre os tem-pos de aula e a duração dos filmes. As soluções para impasses como esse, qua-se qua-sempre, buscam limitar os conteúdos dos filmes aos conteúdos curriculares. Um caminho possível está na organização de espaços, dentro e fora das escolas, ou extrapolando os horários regulares de aulas, nos quais se possam ver filmes, compartilhar relatos, falar sobre a experiência, produzir as próprias narrativas,

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construindo repertórios mais abertos, diversificados e complexos. É exatamen-te nessa direção que o CACE exatamen-tem encaminhado suas investigações, desaguando nesta coletânea indispensável para pesquisadores e professores já no exercício da profissão ou em formação.

Que os espaços de interlocução possam se multiplicar, desdobrando-se em novas experiências e projetos nos vários níveis da educação. E que a todos seja assegurado o direito ao espanto no encontro com filmes, projetados em salas de cinema, em salas de aula, em copas de árvores, nas laterais dos edifícios, em su-perfícies desde onde possam impregnar nossa imaginação com suas narrativas.

Alice Fátima Martins

Universidade Federal de Goiás (UFG)

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Apresentação

A proposta do presente livro é apresentar as pesquisas concluídas em dois projetos institucionais realizados dentro do grupo de pesquisa Comunicação, Audiovisual, Cultura e Educação (CACE), grupo registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sob orientação da profes-sora Adriana Hoffmann. Tais pesquisas giram em torno do audiovisual dentro dos espaços educacionais – escolas e universidade –, assim como em sua relação com a cibercultura, articulando diferentes sujeitos, tanto crianças como jovens e professores. Desse modo, ele será organizado em dois grandes eixos em que cada um deles terá o nome do projeto maior de pesquisa institucional dentro do qual as pesquisas foram finalizadas. Os dois projetos de pesquisa institucio-nais que nomeiam cada grupo de pesquisas aqui apresentadas foram financia-dos pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), assim como também a publicação desse livro. Nesse texto inicial, temos como objetivo apresentar o conjunto da produção e a construção de trajetória e reflexão que viemos construindo nas pesquisas realizadas pelo grupo. Mesmo tendo os dois projetos institucionais o viés apenas das áreas da educação e comunicação, inicialmente, no decorrer do percurso das produções, a questão da arte é trazida para o grupo, e começa a entrelaçar-se com a educa-ção e a comunicaeduca-ção. Portanto, o título final do livro tem a cara das produções desse grupo que está integrando cada vez mais essas áreas.

O livro marca em 2020 os dez anos de aniversário do grupo de pesquisa e foi organizado procurando colocar juntas todas as pesquisas de dois projetos insti-tucionais já finalizados, proporcionando ao leitor a reconstrução dessa trajetória de pesquisa construída no coletivo. Cada pesquisa trazida por cada pesquisador do grupo e suas parcerias integra as discussões do grupo como um todo e foi construída nesse diálogo do fazer da pesquisa individual no conjunto das trocas com o grupo e a orientação. Entendemos que o individual dialoga com o coletivo

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e o coletivo com o individual e, portanto, o conjunto de pesquisas de cada projeto aponta para o caminho que esse grupo como coletivo vem construindo. O livro é mais uma forma de visibilizarmos, para nós e para os que querem nos conhecer e dialogar conosco, esse percurso de ser e fazer-se pesquisador. Atualmente, es-tamos no terceiro projeto institucional financiado por órgãos de fomentos como a Faperj, mas o projeto atual ainda não tem pesquisas finalizadas para serem incluídas neste livro.

O primeiro projeto institucional, intitulado “O cinema e a narrativa de crian-ças e jovens em diferentes contextos educativos”, foi realizado entre os anos de 2010 e 2013, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), com apoio da Faperj. O projeto teve como objetivo perceber como crianças do ensi-no fundamental e jovens do ensiensi-no médio e superior constroem seus modos de relação com o cinema e que narrativas produzem a partir dessas experiências vividas em espaços de formação – escola e universidade – que proporcionam momentos de convívio com o assistir, pensar e produzir com a linguagem audio-visual. Considerando o referencial teórico dos estudos culturais latino-america-nos, o projeto de natureza qualitativa teve como estratégias metodológicas para o trabalho de campo a observação de momentos de exibição de filmes e debates nas instituições e a realização de entrevistas coletivas com as crianças e os jovens com posterior análise de suas produções narrativas.

No contexto desse projeto, foram realizadas três pesquisas que trabalharam na perspectiva do cinema como espaço de formação nas diferentes instituições. Nesse período, a pesquisa proposta realizou-se em parceria com o prof. Pedro Benjamin Garcia, da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), sendo um dos campos de pesquisa uma escola de ensino médio técnico em audiovisual na ci-dade de Petrópolis. Os demais campos de pesquisa foram uma escola de ensino fundamental, em que uma das pesquisadoras era docente, e a própria Unirio, através do projeto de extensão do cineclube Cine do Centro de Ciências Humanas (CCH), de 2010 a 2016, nas dependências da mesma universidade. Sendo assim, tivemos as mestrandas Erica Rivas pesquisando com as crianças do ensino fun-damental numa escola pública do município do Rio de Janeiro e Kelly Cordeiro pesquisando com os jovens do ensino médio dentro da parceria feita com a UCP numa escola pública do estado do Rio de Janeiro, na cidade de Petrópolis, e, no ensino superior, diferentes turmas e cursos que frequentaram nosso cineclube

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e a escrita de monografias de graduandas bolsistas de iniciação científica das quais o estudo de uma delas, Thamyres Dalethese, está presente nesse livro.

O capítulo de Erica Rivas, escrito em parceria com Adriana Hoffmann e Renata Ferreira, bolsista de Iniciação Científica (IC) da graduação, traz os resul-tados de uma pesquisa com crianças do ensino fundamental, cujas experiências vividas, coletivamente, na escola, com a criação do cineclube Megacine, fizeram emergir narrativas das crianças sobre si e suas relações com a cultura do cinema e a construção de sentidos a partir de cada filme exibido. O texto também mos-tra o envolvimento dessas crianças na pesquisa, que passam a atuar, inclusive, como mediadoras de sessões de cinema para outras crianças, estimulando os debates, em um desdobramento do Megacine.

Kelly Cordeiro apresenta a pesquisa realizada no ensino médio de um colégio estadual, em Petrópolis, com curso médio integrado de formação profissional em Áudio e Vídeo, durante os anos 2011 e 2012, em momentos de exibição e debate de filmes em parceria da escola com a Unirio e a UCP. A pesquisa apresenta como os jovens construíam suas relações com o cinema dentro da escola e que relações eram vividas por eles com o cinema fora da escola. Através das falas dos jovens entrevistados, a autora comenta alguns dos achados da pesquisa que evidenciam o modo como os jovens viviam essa experiência com o cinema na escola e ela co-meçava a fazer parte dos modos de consumo e leitura deles.

Thamyres Dalethese e Adriana Hoffmann trazem a prática do cineclube uni-versitário realizada junto ao projeto de extensão “Cine CCH: aprendizagens com o cinema” que existiu na na Unirio de 2010 a 2016 associado e coordenado pelo grupo CACE. Aqui, o cinema é pensado como espaço de ações pedagógicas e co-letivas que formam os participantes, social e culturalmente. No capítulo, as nar-rativas desses participantes, em sua maioria estudantes do curso de Pedagogia da Unirio, revelam como trajetórias de vida permeadas pelo cinema são recons-truídas, reconhecendo-se a relevância do papel do outro na formação de cada um de nós.

O segundo projeto institucional, intitulado “O cinema e as narrativas na era da convergência: modos de consumo, formação e produção de audiovisuais de crianças, jovens e professores”, foi realizado de 2013 a 2018 e também contou com financiamento da Faperj. Essa nova proposta de pesquisa teve como obje-tivo ampliar as demandas surgidas na pesquisa anterior. Dessa maneira, nessa nova proposta integraram-se professores como sujeitos da pesquisa e também

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se considerou a presença da internet nos consumos de cinema nos espaços de consumo para além unicamente do espaço escolar, elementos que apareceram, também, nas pesquisas do projeto anterior. Esse projeto institucional teve como objetivo olhar de forma mais ampliada para as relações formativas vividas com o cinema fora dos espaços institucionais visando à percepção dos processos de autoria no consumo e à produção de narrativas audiovisuais de crianças, jovens e professores e em sua atuação como cidadãos na sociedade. Nesse projeto, as estratégias metodológicas já começaram a se diversificar, o que será percebido nos capítulos referentes às pesquisas desse período.

No capítulo “Jovens youtubers: novas aprendizagens”, de Lucineia Batista, a autora reflete sobre os processos de autoria e as novas aprendizagens contem-porâneas de sete jovens, gamers e youtubers, estudantes do ensino fundamental ao superior, com um interesse em comum: o mundo dos jogos. A partir de entre-vistas e análise das produções compartilhadas no YouTube sobre cultura gamer, Batista aborda as relações virtuais, oportunidades educacionais e atuais desafios de jovens imersos em uma cultura de consumo e mediação tecnológica.

Animação é o tema do capítulo escrito por Joana Milliet. Parte de sua pes-quisa de mestrado, o texto mostra como foi a participação de quatro professoras da rede municipal de educação do Rio de Janeiro no projeto Anima Escola, em 2012 e 2013. Centrada na última etapa do projeto, quando as professoras são con-vidadas a propor um filme de animação com alunos nas escolas, a pesquisadora convida a pensar sobre uma possível “pedagogia da animação”, durante o pro-cesso de criação, defendendo que gestos poderiam ser considerados pedagógi-cos nesse processo.

O capítulo “Uma pesquisa com filmes para jovens cegos: cultura do ouvir no contar filmes e/ou audiodescrever”, de Margareth Olegário e Adriana Hoffmann, apresenta alguns dos achados da pesquisa de Olegário, realizada no Instituto Benjamin Constant (IBC), onde ela atua como professora de crianças e jovens cegos. A pesquisa teve como objetivo perceber o acesso desse público aos filmes para entender como cegos e pessoas com baixa visão se relacionavam com os filmes, buscando uma relação entre a experiência da pesquisadora e dos alunos, ambos cegos. Através da pesquisa, Margareth vai vivenciando, junto com eles, as tensões e aproximações entre a experiência deles de ouvirem/conhecerem os filmes pelo contar filmes ou pelo audiodescrever.

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Os desenhos animados, a juventude e o tempo se entrelaçam no capítulo de Érika Lourenço, que compartilha, a partir de uma pesquisa de mestrado, dados produzidos entre os anos de 2015 e 2017 com jovens do ensino médio de uma escola pública federal, no Rio de Janeiro. As narrativas dessa juventude nos aju-dam a refletir sobre as relações construídas em um tempo de canais exclusivos para desenhos e o aumento na produção dessas mídias para TV e cinema nos últimos anos. Em meio às próprias experiências com os desenhos animados, os jovens revelam seus olhares sobre o tempo e narram o que seriam, para eles, “tempo livre”, “falta de tempo”, “cursos da vida”, em dimensões diversas.

Thamyres Dalethese, no capítulo “‘Se inscreve no meu canal’: relações entre crianças e YouTube”, busca investigar as produções audiovisuais produzidas e consumidas por sete crianças, de 7 a 12 anos, na plataforma de vídeos YouTube e os sentidos culturais que se constroem a partir dessas interações no am-biente virtual. Através dos relatos das crianças em encontros on-line e off-line, Dalethese apresenta aspectos dos contextos de consumo, produção audiovisual e expressão das infâncias contemporâneas.

No capítulo “Professores de artes: a experiência audiovisual como forma-ção e prática”, Jamila Guimarães propõe investigar as relações de experiência e formação com o audiovisual de quatro docentes que atuam no ensino público com a disciplina de Artes. É a partir dos relatos autobiográficos desses professo-res que Guimarães reflete sobre suas trajetórias e aborda temas como formação de professores, relações de consumo de Arte, usos e produções audiovisuais em sala de aula.

Lucy Anna Diniz e Adriana Hoffmann, no capítulo “Cibercultura e redes so-ciais: refletindo sobre as práticas das juventudes”, problematizam as relações e acesso de jovens entre 11 e 15 anos na internet, apresentando dados produzidos em entrevistas e questionários de pesquisa desenvolvida numa universidade pública. Diniz e Hoffmann abordam questões relacionadas à cibercultura, aos processos de comunicação em rede e às mediações nas experiências juvenis com a tecnologia na atualidade.

No capítulo seguinte, a autora Fossaluza, artista contadora de histórias e professora, questiona acerca da possibilidade de alinhavar um fazer artesanal a um fazer tecnológico com as crianças. Através do artigo “A arte de criar tapetes de histórias: ensaiando um convite narrativo entre o artesanal e o tecnológico”, ela narra como realiza sua pesquisa numa instituição filantrópica que atende

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crianças em situação de risco social das comunidades do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, localizadas na zona sul da cidade do Rio de Janeiro e, através da me-todologia da pesquisa-atelier, percebe o despontar do eu-narrativo das crianças, percebendo indícios de relações entre o artesanal e o tecnológico nesse processo de contar das crianças.

Pedro Esteves, em seu capítulo “Agamben e a profanação da educação: as relações do cinema com a sala de aula e a formação de professores”, traz uma vertente de pesquisa relacionada a um olhar da arte que começa agregar valor às pesquisas do grupo. Em sua pesquisa, concluída em 2018, que teve como objeti-vo investigar a possibilidade ou não de profanar o processo educacional em uma sala de aula de formação de professores através dos saberes cinematográficos, ele concebeu as relações entre arte e cinema, a partir de leituras do filósofo ita-liano Giorgio Agamben (1942-) e realizou seu trabalho de campo numa turma de formação de professores em uma universidade pública. Através de propostas de ver, refletir e produzir com os jovens da pesquisa, o autor apresenta os indícios de profanação da educação através do cinema.

As três últimas pesquisas já vão apontando o vínculo que o grupo inicia com a arte, começando a mesclar pesquisas que trazem a arte para esse diálogo com a comunicação, agora articulada às discussões da cultura visual, num projeto em andamento que atualmente realizamos com outras novas pesquisas. Por esse motivo convidamos para ilustrar o livro, tanto na capa quanto nas entrada de cada projeto institucional, a artista Ludmila Duarte, agora também integrante do grupo que trouxe nos seus desenhos toda a sensibilidade dos debates que as pesquisas trazem à baila. Esperamos que o leitor ao conhecer as pesquisas con-cluídas possa promover diálogos com/sobre e a partir delas para construção de novos caminhos de pesquisa ainda não pensados e que esse livro possa ser fonte de inspiração para pesquisadores que se interessam pelos estudos da área.

A todos e todas, boas leituras com diálogos profícuos! Adriana Hoffmann, Rosane Tesch e Vanessa Gnisci

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O cinema e a

narrativa de crianças

e jovens em diferentes

contextos educativos

(2010-2013)

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1

Cinema no ensino fundamental:

a pesquisa com o projeto megacine pelas

narrativas das crianças

Adriana Hoffmann Érica Rivas Gatto Renata Costa Ferreira

INTRODUÇÃO

As reflexões trazidas neste texto foram realizadas no contexto do projeto de pes-quisa institucional explicitada em artigo (FERNANDES, 2010) que teve como interesse investigar as questões pertinentes à relação de crianças e jovens com o cinema na formação vivida dentro das diferentes instituições escolares par-ticipantes da pesquisa. A pesquisa abarcou os campos do ensino fundamental, médio e superior tendo em cada um deles uma instituição participante que fazia parte da investigação proposta.

Essa publicação apresenta um dos campos da pesquisa: o do ensino funda-mental. O estudo de mestrado em questão trabalhou na perspectiva da pesquisa intervenção e seu campo constituiu-se pela criação de um cineclube com cerca de 40 crianças na faixa etária de 10 a 12 anos do 5º ano do ensino fundamental de uma escola da rede municipal de ensino no bairro Oswaldo Cruz, zona norte do Rio de Janeiro, durante o ano de 2011. A investigação buscou o entendimento do modo como essas crianças estabelecem sua relação com o cinema e que ti-pos de narrativas produzem pela sua participação no cineclube criado na escola:

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o Megacine. Escolhemos o espaço escolar como campo de pesquisa, privilegian-do um olhar para o moprivilegian-do como as crianças desse campo estão se aproprianprivilegian-do privilegian-do cinema com o intuito de desmistificar a ideia corrente do cinema na escola como mera ferramenta para ilustrar ou aprofundar conteúdos. Ao observar as relações das crianças e suas narrativas diante dos filmes exibidos na escola pelos debates realizados livremente, ampliam-se as possibilidades de ver e pensar sobre filmes com o objetivo de formação estética, entendendo-se a criança, sujeito da pesqui-sa, como produtora de cultura em sua relação com as imagens cinematográficas. Ao falar de narrativa na pesquisa entendemos que ela nos constitui, pois, como reflete Benjamin (1994), nos formamos pelas narrativas a que temos aces-so, rememoradas pela coletividade. Por elas, criamos e damos sentido ao que vi-vemos no mundo. Essa nossa constituição narradora também ocorre, em nosso entender, na relação que as crianças estabelecem com o cinema. Nossa relação com o outro e com o mundo passa pela narrativa. É um modo de percebermos o mundo e sermos afetados por ele, pois nossa formação depende das histórias que contamos aos outros e das que contamos para nós mesmos, das construções narrativas nas quais cada um se constitui, simultaneamente, autor e narrador da sua própria existência.

Diante disso, questionamos: como as crianças se relacionam com as narra-tivas do cinema no cotidiano? Como narram-se na relação com o cinema? Que narrativas conhecem e escolhem para compartilhar com os colegas? Que relação estão construindo com o cinema dentro do cineclube criado? É com essas e ou-tras provocações que tentaremos refletir e dialogar neste texto.

Nessa perspectiva, a constituição do campo investigado ocorreu fundamen-tada na ótica da pesquisa-intervenção (CASTRO, 2008) como transformação da realidade dos sujeitos numa construção conjunta dos pesquisados com o pes-quisador. Segundo Sato (2008, p. 172), “[...] o processo de desenvolvimento da ‘pesquisa-intervenção’ é o resultado de um processo de negociação entre os en-volvidos e que depende das circunstâncias presentes”. Outro ponto que merece destaque e trouxe a singularidade do estudo, foi a relação entre a pesquisadora, autora da dissertação resultante desta pesquisa e as crianças, já que atuava tam-bém como professora regente desse grupo.

Consideramos que as crianças, ao atuarem na pesquisa e narrarem as suas diferentes leituras sobre os filmes, são sujeitos produtores de sentidos e cul-turas, ressignificam e reelaboram aquilo que veem segundo sua participação

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na sociedade construindo com os outros – filme, demais crianças e adultos – conhecimentos, sentidos e cultura. O estudo de Fantin (2011) dialoga com a nos-sa pesquinos-sa ao considerar que a criança relaciona-se com o cinema nesnos-sa dimen-são de autoria.

Nesse sentido, apresentaremos como se constituiu o cineclube Megacine com a exibição regular de filmes com debate para a turma investigada que é depois ampliada para outras turmas da escola e repercute até mesmo no sur-gimento de um clube do cinema – ambos por iniciativa das próprias crianças. Interessante ver, diante dessas atitudes das crianças investigadas, como pensam sobre o cinema e a experiência vivida com ele nas sessões de filme na escola.

Sobre as questões éticas inerentes ao ato de pesquisar, referentes ao uso dos nomes e imagens das crianças na pesquisa, buscou-se a coerência com os referenciais teórico-metodológicos adotados neste estudo. As autoras Fantin e Girardello (2009) afirmam que pode haver uma relativização dos princípios em relação ao anonimato, pois há situações em que os sujeitos envolvidos aceitam divulgar sua identidade e, nesses casos, quando não há riscos envolvidos, o ano-nimato pode ser quebrado.

Dessa forma, além das autorizações enviadas aos responsáveis como parte da pesquisa e suas especificidades, as crianças foram consultadas sobre como gostariam de ser mencionadas no estudo. Todas as crianças optaram por ter seu primeiro nome como forma de identificação ao longo da pesquisa e fizeram questão de colocar seus nomes em produções como vídeos, desenhos e carta-zes, comprovando a marca de coautoras da pesquisa pela atuação que tiveram ao longo do processo. E é dessa forma que as traremos aqui.

CONSTRUINDO O CAMPO: O MEGACINE EM AÇÃO

No dia 20 de maio, uma sexta-feira, 32 crianças estavam presentes, a pesquisado-ra, a estagiária e muita, muita pipoca... Era a primeira sessão do cineclube. No iní-cio, as crianças leram o cartaz do filme ‘Valentin’ e observaram as informações con-tidas e levantaram hipóteses sobre o personagem, estabeleceram comparações com um personagem da novela ‘Ti, ti, ti’ da rede Globo, que se chamava ‘Vitor Valentin’ e era espanhol. O filme é argentino e os alunos ficaram um pouco apreensivos com

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o fato do filme ser com o áudio em espanhol, pois não possuem hábito de assistir a filmes legendados.

No início da sessão, estavam mais preocupados com a pipoca, porém foram se con-centrando com a narrativa de Valentin que foi envolvendo a todos.

Com o desenrolar do filme, ao meu ver por ser em uma língua, cultura e época dife-rentes, as crianças foram ficando envolvidas e curiosas com a história do menino. Durante o filme, riam e se entreolhavam, com cumplicidade nos olhares.

No momento que Valentin apareceu vestido de astronauta, cantando a sua música, quando o tio apresenta um cassete como ‘última tecnologia’, na fala de sua ‘supos-ta namorada’, que criou burburinhos por ter o mesmo nome de uma aluna da tur-ma e em vários outros momentos, os alunos se divertiam com Valentin.

Quando Valentin e Letícia trocam afetos e o menino urina na árvore, as crianças riem muito e uma aluna, ao ver o carinho de Valentin com Letícia diz: ‘–Que fofo!’.

(Diário de campo Sessão Valentin)

O trecho do diário de campo da exibição do filme Valentin aponta como as crianças reagiram durante o filme e o modo como interagiam com este e com seus pares durante a exibição. Risos, olhares, burburinhos marcavam os mo-mentos de exibição dos filmes em todas as sessões.

A experiência das crianças vivida coletivamente em torno do cinema deu ori-gem a esse cineclube na escola, trazendo vários momentos como o anteriormente relatado. Assim como Rose Clair1 o define, cineclube é entendido como “o espaço

que congrega pessoas com a possibilidade de debater/discutir sobre os filmes”. Na apresentação do Megacine, torna-se necessário delimitar a diferen-ça, sempre destacada pelos estudiosos da comunicação, entre filme e cinema. Marília Franco (2010) destaca que para pensar as relações entre cinema e edu-cação é preciso estar claro que filme e cinema têm dimensões diferentes, mas indissociáveis na constituição da cultura audiovisual que marcou os hábitos cul-turais do século XX.

1 Em palestra realizada pela autora na disciplina Tópicos especiais em cinema e educação, ministrada pela professora Adriana Hoffmann, no dia 15 de setembro de 2011.

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O filme é um objeto estético/cultural de consumo individualizado. Sua fruição se dá dentro de uma bolha perceptiva, construída pela tecnologia da projeção das imagens em movimento em sala escura. O espectador fica ‘sozinho’ para desfrutar das emoções proporcio-nadas pela história, contada através de uma linguagem que hiper-trofia as percepções visual e sonora (esta última a partir de 1930). (FRANCO, 2010, p. 11)

Outro autor, Teixeira Coelho, comenta que, quando se fala de cinema, está se falando de um modo cultural, mas não necessariamente de filmes. Nessa pers-pectiva, considera-se neste estudo, o filme como um produto cultural, enquanto o cinema é entendido como fenômeno social. (DUARTE, 2002) Nesse sentido, ver filmes numa sala de projeção, com possibilidade de debater de forma coleti-va após a exibição, constitui um modo de constituição cultural diferenciado do ver filmes sozinho em casa.

Um filme é algo delimitado; o cinema, mais especificamente a cul-tura do cinema, remete a domínio bem mais amplo. Um filme é uma película impressionada, montada, sonorizada, com um sentido rela-tivamente fixo e definido. A cultura do cinema é um universo sempre em expansão que abrange desde as mundanidades de uma première até as mais sofisticadas teorias sobre o que é projetado na tela [...] (COELHO, 1999, p. 110)

Nessa lógica, fica claro que mesmo atuando na escola podemos trazer para esse espaço a possibilidade de criação de uma cultura do cinema. Nossa inves-tigação não pretende apenas perceber a relação das crianças com filmes como espectadores de forma isolada, mas, ao instituir e investigar um cineclube no espaço da escola, objetiva perceber a possibilidade de captar o modo de relação das crianças com a cultura do cinema numa dimensão mais ampla assim como a apontada por Coelho (1999).

A constituição do cineclube Megacine criou uma forma de relação com os filmes como evento, inserindo-os numa provável construção de prática cultu-ral que, para esse grupo de crianças moradoras da zona norte, pode não ser tão próxima de seu cotidiano. Como o objetivo da investigação é pensar as relações de crianças com o cinema, a proposição desse espaço favoreceu momentos de

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diálogo com as crianças que aconteceram tanto nos debates coletivos após os fil-mes como nas entrevistas, aspectos que fazem parte da estratégia metodológica da pesquisa.

As crianças receberam bem o projeto, no entanto, houve alguns estranha-mentos iniciais principalmente em uma das sessões iniciais como a que ocorreu com o filme Valentin, um filme Argentino, que foi exibido com áudio em espa-nhol e legendas.

Nas sessões, foram feitas poucas interferências nos debates, atentando prin-cipalmente para a percepção das narrativas que as crianças construíam livre-mente a partir dos filmes fazendo uma ou outra provocação para pensarem a respeito do que viam. Algumas crianças trouxeram suas impressões logo nos primeiros debates realizados: “Eu achei que o filme foi diferente do que a gente costuma assistir, às vezes a gente assiste filme de ação, comédia...” (Hannah) “É como se a gente visitasse filmes feitos por outros países, para a gente ver como são diferentes do que a gente já estava acostumado... de Hollywood ”. (Esther) “É conhecer filmes de outras linguagens, ‘tipo’ aprender... só isso...” (Brenda)

Hannah, criança da pesquisa, iniciou o debate do filme Valentin, tratando da experiência estética de ver a um filme diferente do que costumava assistir, como aponta sua fala. Ao possibilitar novas experiências e construções de senti-dos pelas crianças com os filmes e “[...] crer que o cinema olha para certos temas de hoje, e, ao fazer isso, nos convida e nos ensina também a olhá-los de outro modo” (FISCHER; MARCELLO, 2011, p. 507), garante-se o direito de interação com as culturas, ampliando e atualizando os repertórios, “[...] além de trazer aos espaços formadores referências culturais de vários lugares, países e tempos his-tóricos, através de gêneros, linguagens e estéticas as mais diversas possíveis”. (FANTIN, 2007, p. 4)

Dos filmes exibidos em 2011 no Megacine, tivemos cinco sessões de filmes longas: quatro fizeram parte do campo de análise da pesquisa, dos quais dois foram trazidos pelas pesquisadoras – Valentin, filme argentino de Alejandro Agresti, e Filhos do Paraíso, filme iraniano de Majid Majidi – e dois escolhidos pe-las crianças – O pequeno Nicolau, filme francês de Laurent Tirard, e As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl, filme americano de Robert Rodriguez. O filme francês foi escolhido após parte da turma tê-lo assistido no Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI). O filme americano foi escolhido pela maioria ser fã do mesmo. Em todas as sessões realizadas no cineclube, houve exibição, debate e

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as crianças, além de participarem vendo e debatendo, também fotografavam, fil-mavam e registravam o que pensavam desse processo. Os filmes foram exibidos no auditório da escola municipal, onde as crianças estudavam. O espaço foi dis-ponibilizado pela escola e o facilitador desse processo foi o fato da pesquisadora também ser professora da instituição. Durante o percurso no campo empírico, desdobramentos foram surgindo a partir do retorno da participação das crianças na pesquisa. Um deles foi o clube do cinema criado por um grupo de crianças participante do Megacine e outro foi a exibição de filmes do cineclube – organi-zada pela turma do Megacine – para outras turmas da escola com a mediação de algumas crianças da pesquisa.

CLUBE DO CINEMA

O clube do cinema surgiu a partir de um projeto já existente na turma chamado “clube do livro”, que funcionava como uma pequena biblioteca da turma, onde eram feitos empréstimos em que as próprias crianças pegavam livros a qualquer momento do dia. Fizeram, então, a mesma sistemática com um acervo de filmes. No total, o clube obteve 31 filmes. Alguns dos títulos desse acervo criado pelas crianças são: Alvin os esquilos 2; O diário da barbie; Hello Kitty; Vila sésamo 1,2,3, conte outra vez; Avatar; Astroboy; dentre outros títulos que o compuseram. Cabe ressaltar, que as pesquisadoras não interferiram na constituição do acervo cria-do pelas crianças. O pequeno acervo criacria-do pelas crianças é composto em sua maioria por DVDs “piratas”, fato que desencadeou várias discussões e conclu-sões por parte das próprias crianças. Bergala, em seu projeto na França, também destaca que ao trabalhar com projetos de cinema na escola sentiu a necessida-de necessida-de selecionar um conjunto necessida-de filmes para uso na mesma. As crianças, a seu modo demonstram perceberem que o trabalho com cinema demanda ver mais, ampliar o ver e o acesso.

Para explicar o processo de aquisição dos filmes e a dinâmica do clube cria-do por elas, trazemos algumas falas que justificam como pensaram para montar o clube do cinema e sua importância no ponto de vista delas:

Ah, [montamos o clube] pedindo empréstimos para as turmas, botamos e fizemos cartazes pela escola, entregamos nas salas e pedimos filmes... quem tiver filme velho, velho mesmo, mas que esteja em bom estado pra gente assistir. Esses filmes

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foram conseguidos assim, através de pessoas caridosas, que têm filme, mas não as-sistem e trouxeram pra gente poder assistir. (Hannah)

Muita gente não tem dinheiro para ir à locadora, aí escolhe alguns filmes, assiste em casa, traz no dia... É do jeito da pessoa, o filme que quiser... E também tem gente que doar para outros assistirem...Tem um filme aqui que a maioria tem preconcei-to de assistir porque fala que é chatinho... Quase ninguém pega esse filme! É o Vila Sésamo 1,2,3, conte outra vez, dizem que é pequenininho, chatinho, de criança...

(Andressa)

“O clube do cinema é como uma locadora que a gente poderia ter colocado ou-tros filmes, mas como a gente pediu emprestado, só entraram filmes mesmo que a maioria já conhecia ou então não eram de outros países, sem ser de Hollywood”. (Esther)

Figura 1 – Caixa confeccionada pelas crianças da pesquisa para o clube do cinema

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A constituição do clube do cinema pelas crianças demonstra que elas per-cebem a importância de que para se apropriar de uma cultura do cinema é pre-ciso construir um espaço de acesso aos filmes, tal como esse criado por elas. No entanto, é interessante perceber que elas próprias dizem que como pediram emprestado, receberam filmes de “pessoas caridosas”, só entraram filmes “que a maioria já conhecia” ou como disse Hannah “filme velho mesmo mas que esteja em bom estado para assistir”. Isso demonstra que, mesmo criando o clube, sa-bem que conseguir filmes que a “maioria não conhece” ainda se constitui num desafio de ampliação do acesso. Dessa maneira, os filmes que fazem parte do acervo do clube do cinema dão pistas para pensar como as crianças se relacio-nam com os filmes como produtos culturais e se constituem como consumido-ras destes, ampliando a questão do consumo como espaço que serve para pensar (CANCLINI, 1997), não o encarando de forma simplista como usos e gastos que nada dizem.

O consumo cinematográfico das crianças, o gosto que possuem pelos filmes, estão intimamente relacionados às práticas sociais e culturais por elas vividas. De acordo com Duarte (2002, p. 89), “mesmo aqueles considerados ruins (e esse julgamento é sempre subjetivo) podem despertar o interesse e estimular a curio-sidade em torno de temas e problemas que, muitas vezes, sequer seriam leva-dos em conta”. Entretanto, como aparece nas falas anteriores, essa dificuldade do acesso “a filmes que a maioria não conhece” transparece quando questio-nadas sobre a possibilidade do clube do cinema ter acesso aos filmes exibidos no Megacine, principalmente aos filmes trazidos pelas pesquisadoras, que as crianças não teriam acesso em locadoras ou locais próximos às suas residências. Todas manifestaram o desejo de levar tais filmes para compartilhar com outros, como observa-se a seguir: “Ia ser bem legal a gente ter. Porque a gente vê e nossos pais, às vezes, falam: ah, é mentira! Pra gente mostrar para eles outros filmes de cultura, que alguns pais não veem, que os irmãos que não conhecem”. (Esther)

Tal fala aponta que entendem a importância da ampliação do acesso ao pos-sibilitar que a família, pais e irmãos, vejam filmes novos que não conhecem. O desejo de ter o filme desses no clube do cinema passa por poder compartilhar também com as pessoas de fora da escola. A ampliação do acesso promovida pelo Megacine começa na escola e eles demonstram que desejam que saia dela, que atinja outras pessoas de fora da escola como suas famílias. A discussão so-bre o consumo e acesso aos filmes para o clube do cinema trouxe à tona a forma

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como entendem a questão da cópia dos filmes na relação estabelecida com eles, a partir do clube do cinema: “Eu acho assim, mesmo que a pessoa devolva ele di-reitinho, se ela tiver com a cópia, ela pode fazer várias outras cópias dessa cópia e vender... Isso é que é pirataria! Mas se a pessoa fizer uma cópia para ficar para ela tudo bem, não tem nada de errado, mas se ela copiar e vender, aí já não está certo...” (Esther) “Filme pirata tem sempre algum erro, sempre tem algum pro-blema... já para baixar, a minha irmã tem um site que ela se cadastra no site... viu só? Tem até que se cadastrar no site! Já mostra que lá não é site que tem filme pirata...” (Fernanda)

Apesar de associarem na maioria das vezes filmes piratas a filmes com pro-blemas e erros, as crianças (re)construíram um conceito de pirataria no contexto do projeto, associando-o a possibilidade de acesso a filmes que não teriam de ou-tra forma e identificando e validando o significado sociocultural desses produ-tos e bens simbólicos diante do contexto vivido. (CANCLINI, 1997) Interessante a diferença que fizeram nesse contexto entre “copiar” e “baixar” o filme como se fossem coisas diferentes. A ideia de “pirata” para elas foi entendida como fazer algo escondido “sem identificação” e encararam o copiar um filme para consu-mo próprio coconsu-mo algo possível – e não pirata –, diferente do copiar para vender que, para elas, “não está certo”.

Sem dúvida, as crianças da pesquisa mostraram ao longo do percurso da in-vestigação que não se configuram em momento algum como dóceis audiências assim como aponta Canclini (1997) na relação de consumo que estabelecem com os filmes, mas atuam como sujeitos que participam da construção da cultura de seu tempo trazendo questões para se pensar os desafios da ampliação do acesso à cultura do cinema na contemporaneidade.

SESSÕES DE CINEMA PARA OUTRAS TURMAS COM

MEDIAÇÃO DAS CRIANÇAS DA PESQUISA NO DEBATE

Como outro fruto do Megacine, algumas crianças realizaram juntamente com as pesquisadoras, a exibição do filme Valentin para outra turma da escola com mediação das próprias crianças da pesquisa. Tendo marcado dia e horário com a outra turma, as crianças da pesquisa realizaram o convite para os colegas, convi-dando-os para a sessão que exibiu o filme Valentin.

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As crianças que foram chamadas na pesquisa de “mediadoras” foram aque-las que demonstraram maior envolvimento com a pesquisa, tanto nos debates com comentários acerca do filme como na preparação das sessões do cineclube, com cartazes de divulgação e disponibilidade para fotografar, filmar e fazer diá-rios de campo. Observa-se que os papéis das crianças mediadoras se intercalam, ora comentam sobre o filme, ora fazem perguntas às outras crianças e ora gra-vam a voz, a imagem e fotografam o momento, interagindo o tempo todo com a outra turma que estava presente e que havia sido convidada por elas. Essas mesmas crianças, também idealizadoras do clube do cinema já apresentado an-teriormente, deram continuidade ao projeto, criando as sessões do cineclube para toda a escola, mesmo após a finalização do campo da pesquisa. A seguir, trazemos algumas falas sobre suas impressões das sessões realizadas por elas:

Eu gostei muito da sexta-feira, porque eles se pareciam com a gente nos primeiros Megacine. Tínhamos vergonha de falar e muito mais de se expressar, igualzinho a eles. E foi uma oportunidade para mim, porque eu tinha faltado o filme Valentin, foi uma segunda chance e espero que eles tenham gostado do projeto assim como nós. (Andressa)

Figura 2 – Modelo de cartaz confeccionado pelas crianças da pesquisa

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Os alunos que estavam sentados na primeira fileira pareciam muito impressiona-dos com o filme, pois não tiravam o olho da telinha. Deu para perceber que os alu-nos estavam se expressando em algumas cenas, até comentavam com os colegas do lado sobre as cenas mais apavorantes. (Mylena)

Através dessas falas, as crianças mediadoras trouxeram questões importan-tes em que falam dos colegas comparando-se a eles ao dizerem que “pareciam com a gente nos primeiros Megacine” e expressam que percebem mudanças ao viver o cineclube até vendo que nesse novo papel viam os colegas num processo de crescimento no debate com os filmes.

Ao possibilitar novas experiências e construções de sentidos pelas crianças com os filmes e “[...] crer que o cinema olha para certos temas de hoje, e, ao fazer isso, nos convida e nos ensina também a olhá-los de outro modo” (FISCHER; MARCELLO, 2011), garante-se o direito de interação com as culturas, ampliando e atualizando os repertórios, “[...] além de trazer aos espaços formadores referên-cias culturais de vários lugares, países e tempos históricos, através de gêneros, linguagens e estéticas as mais diversas possíveis”. (FANTIN, 2007, p. 4)

Ao atuarem como mediadoras na pesquisa, as crianças se configuram como coautoras, confirmando a intervenção vivida com os nossos sujeitos da pesqui-sa e a opção teórico-metodológica escolhida para o estudo. Ao participarem da criação do cineclube com as pesquisadoras e o ampliarem em outras atuações com o cinema, produziram sentido e cultura, construíram suas identidades, dei-xaram suas marcas sociais pelas diferentes apropriações feitas com o cinema.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Eu no Megacine me via como uma pessoa que ontem falava que filme era chato e hoje estou participando de debates, falando de filmes. Estou vendo coisas no filme que eu não via antes. Eu não tinha a visão que tenho agora, não era só porque eu era menor. Eu tinha um olhar diferente, eu não debatia, eu não tinha sentimento em relação aquele filme, eu só queria ver filme já mastigado, filme bobo, não bobo, mas assim Hello Kitty...

(Juliana em entrevista ao falar sobre sua participação no Megacine)

Figura 3 – Sessão do filme Valentin, exibido no dia 20 de maio de 2011 no cineclube Megacine

Fonte: arquivo da pesquisa.

As falas das crianças trazem pistas para compreendermos as relações cons-truídas com o cinema a partir das experiências culturais tecidas no contexto do Megacine. Quando Juliana, na epígrafe, afirma “Estou vendo coisas no filme que eu não via antes [e] eu tinha um olhar diferente” aponta possibilidades para pensarmos como as crianças narram-se na relação com o cinema, tendo como

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precursor dessa relação o cineclube. A partir desse espaço, as crianças refletem e dialogam com os seus pares e pesquisadoras sobre as narrativas dos filmes, construindo suas próprias leituras e narrativas, ao ressignificar o que viram com suas apropriações.

Percebemos como o convívio, como o ver e debater filmes ampliam o olhar das crianças o que possibilita que se tornem mediadores do ver para outros que ainda não viram. Ao “verem coisas novas”, passaram a propor novas práticas articuladas ao que já conheciam pensando no clube de cinema e na exibição, tendo elas como mediadoras dos debates dos filmes. Esses foram, na pesquisa, dois espaços de produção de cultura criados e mantidos pelas próprias crianças empenhadas em levar adiante o cineclube na escola.

Com o clube do cinema, as crianças, além de formularem ideias e conceitos a respeito do acesso aos filmes “que todos conhecem” ou mesmo os chamados pelas mesmas de “diferentes”, indicam as narrativas escolhidas para comparti-lhar com os colegas e familiares e a relação que estão construindo com o cinema nesse contexto.

Ao propor pesquisar a relação das crianças com o cinema na escola, percebe-mos que o cinema como dispositivo constrói sonhos que atravessam o imaginário infantil e, através da leitura dos filmes, os debates “valorizam a imaginação da criança” como afirma Juliana, criança mediadora da pesquisa. Nesse contexto, precisamos ouvir suas vozes, ver seus olhares e sentir o encontro delas com os filmes e as leituras que eles proporcionam. (FRESQUET, 2009) Somente assim, como afirma Fresquet (2009, p. 153), “[...] eles são os reais protagonistas na recep-ção e produrecep-ção de uma cultura que lhes é própria”.

Como afirma Xavier (1988, p. 370), “No cinema, posso ver tudo de perto, e bem visto, ampliado na tela, de modo a surpreender detalhes no fluxo dos acon-tecimentos, dos gestos. A imagem na tela tem sua duração, ela persiste, pulsa, reserva surpresas”. Assim como no cinema, a pesquisa reserva surpresas, faz as nossas reflexões pulsarem e amplia os detalhes que no cotidiano poderiam passar despercebidos. Detalhes que as próprias crianças revelam. Os processos sociais significados pelas crianças ao assistir e experienciar os filmes, atribuem novos sentidos à cultura e nos permitem ampliar o olhar ao perceber – cada vez mais de perto – a relação das mesmas com o cinema.

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Narrativas de jovens do ensino médio sobre

cinema dentro e fora da escola

Kelly Maia Cordeiro

INTRODUÇÃO

A recepção através da distração, que se observa crescentemente em todos os domínios da arte constitui o sintoma de transformações profundas nas estruturas perceptivas, tem no cinema seu cenário privilegiado. (BENJAMIN, 1994, p. 194)

Ao se colocar diante das mudanças sociais ocorridas a partir dos novos paradig-mas, procedentes das múltiplas possibilidades contemporâneas da reprodução técnica, Benjamin (1994) considera o cinema como um meio de distração e pos-sibilidade de construção de conexões mentais que trazem a percepção a novos sentidos. Através do filme, da contemplação estética da arte, a mente se “solta” para construir elementos que surgem a partir dessas narrativas, permitindo aos espectadores um “alívio” das tensões do momento, num processo contínuo de aprendizagem e fruição.

As relações de consumo do cinema compõem elementos da cultura, que como aponta García Canclini (2009), são concebidas por um conjunto de práti-cas sociais, econômipráti-cas e polítipráti-cas. Conforme tal autor, essas relações abarcam o conjunto de processos sociais de produção, circulação e consumo de signifi-cação na vida social, sendo um processo de signifisignifi-cação social. A cultura, nesse

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contexto, não se fecha sobre um aspecto pré-definido, se abre para ser pensada de forma híbrida, entrelaçando elementos significativos da esfera local e global. Compreendendo que o cinema se estabelece também através da cultura, e faz parte do contexto dos jovens, procuramos na pesquisa do mestrado em Educação, investigar como são construídas as relações dos jovens com o cinema. Neste artigo, apresentaremos um recorte da pesquisa trazendo a metodologia adotada, o campo, os sujeitos e parte dos resultados da pesquisa que mostram o consumo do cinema através das narrativas dos jovens. Destaco que a pesqui-sa foi realizada dentro de um projeto institucional da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), e tanto o projeto quanto a pesquisa de mestra-do que deu origem a esse capítulo tiveram outras versões em publicações ante-riores em revistas.1

O CINEMA NO CONTEXTO EDUCATIVO DA PESQUISA

A pesquisa realizou-se a partir dos pressupostos da pesquisa-intervenção por compreendermos que no processo e no percurso da pesquisa nos colocamos en-quanto pesquisadores, atuando com os sujeitos participantes, que se encontra-vam num movimento de estar, aprender, ouvir e deliberar em colaboração. Bem como sinaliza Moreira (2008, p. 430), “a pesquisa não é feita ‘sobre’ um grupo, mas ‘com’ um grupo”.

Desse modo, a intervenção aconteceu desde o momento em que começamos a circular e a dividir os espaços da instituição. Passando pelo estágio da obser-vação, exibição de filmes, debates e avançando pela interação na cibercultura. O material que subsidiou a análise foi coletado por entrevistas, conversas na es-cola e na rede social. Os critérios que balizaram essas escolhas foram norteados pelo delineamento da pesquisa e pela flexibilidade que o campo apresentou. Tendo como prioridade as narrativas dos professores da escola e dos sujeitos da pesquisa.

O campo de pesquisa foi constituído a partir da parceria entre duas univer-sidades, a Unirio – onde realizei meu mestrado – e a Universidade Católica de Petrópolis (UCP) em processo de parceria entre os projetos de pesquisa institu-cionais de seus professores. (FERNANDES, 2010; GARCIA, 2010) O local de

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quisa foi um colégio em que ambos os professores já faziam projeto em parceria e ao entrar no mestrado foi aberta a possibilidade para que fizesse meu campo de pesquisa nesse mesmo local. Trata-se de um colégio estadual no municí-pio de Petrópolis que oferta o Ensino Médio Integral (EMI) com o Curso Médio Integrado de Formação Profissional em Áudio e Vídeo. A proposta do curso é oferecer e desenvolver as práticas audiovisuais a partir dos princípios da ciência, cultura e trabalho, e a formação de técnico audiovisual oferecida busca contem-plar os estudos: de roteiro; de direção; produção de pequenos curtas-metragens; análises de filmes e de textos.

Nosso campo de pesquisa ocorreu nos tempos de aula da disciplina de Comunicação crítica num total de sete encontros às quartas-feiras, sempre no período da manhã. Os filmes exibidos2 tinham a característica de serem histórias

adaptadas de obras literárias, com temática diversificada, de países variados. As narrativas não seguiam um padrão comum nos filmes de alta comercializa-ção, procurando sempre trazer filmes com narrativas instigantes e artísticas.

Participaram da pesquisa, nos momentos de exibição e debate, 30 alunos. Após os debates, foram feitas seis entrevistas com: três jovens do 2º ano e outros três do 3º ano, escolhidos pela intensa participação nos debates. Além disso 12 alunos – os seis da entrevista e outros seis alunos – nos aceitaram para amizade no Facebook, o qual se constituiu num espaço fora da escola para nossas conver-sas. Como percepção geral sobre esse grupo, evidenciamos que:

Falavam muito sobre cinema, conversando sobre os filmes que assisti-ram, sobre os atores e atrizes, o que gostavam e o que não gostavam; • Possuíam um repertório construído de histórias para contar sobre

situa-ções vividas em relação ao cinema. De idas ao cinema, realização de ati-vidades que envolviam filmes e a produção de audiovisual como propos-ta da escola;

• A faixa etária dos jovens eram entre 17 e 20 anos, se interessavam por di-ferentes gêneros de filmes. Boa parte deles eram “amigos” no Facebook e também interagiam em outros espaços fora da escola.

2 Os filmes da pesquisa foram: O carteiro e o poeta, Fahrenheit 451, Adeus Lenin!, Ensaio sobre a ceguei-ra, Balzac e a costureirinha chinesa, Edifício Master.

Referências

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