REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO INTERVENTIVA DO SERVIÇO SOCIAL
Claudia Maria Daher COSAC*
• RESUMO: Reflexões sobre a prática profissional do assistente social estabelecendo ponderações em torno do processo interventivo e inflexões em que se considera sua trajetória, marcada que é por determinismos múltiplos que acompanhou o processo evolutivo do capitalismo brasileiro.
• PALAVRAS CHAVE: formação; agir profissional; prática; estratégia; conhecimento.
Introdução
Refletir a questão da prática profissional do assistente social com o objetivo de compreender a intervenção no plano das relações sociais de produção, constitui-se tarefa das mais instigantes. Envolve discussões sobre os aspectos teóricos e metodológicos subjacentes ao agir profissional bem como a análise crítica, a dimensão de historicidade, o bojo do qual se produzem as relações capitalistas da sociedade. Vivemos um período de transições e crises.
Como viajantes do século XX,
(...) somos todos protagonistas e produtos dessa nova ordem, testemunhos vivos das transformações que ela produziu. Contudo, não o somos, (...), do mesmo modo que o éramos há quinze ou vinte anos (...) estamos de novo perplexos, perdemos a confiança epistemológica; instalou-se em nós uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não sabemos ao certo o que estamos em vias de perder; admitimos mesmo, (...) que essa sensação de perda seja apenas a cortina de medo atrás da qual se escondem as novas abundâncias da nossa vida individual e coletiva. Mas mesmo aí volta a perplexidade de não sabermos o que abundará em nós essa abundância. (SANTOS; BOAVENTURA DE SOUZA, 1997, p.8)
Ao propormos neste estudo refletir sobre a prática e estabelecer ponderações em torno do processo interventivo, constitutivo do Serviço Social, escolhemos realizar uma inflexão em que se considera sua trajetória, marcada que é por determinismos múltiplos, a qual acompanhou o processo evolutivo do capitalismo brasileiro1.
* Departamento de Serviço Social e Coordenadora do Conselho de Curso de Graduação da
UNESP – Franca-SP.
1 Ampla bibliografia pertinente às pesquisas de mestrado e doutorado a partir da década de 1980
advogam este fato, mas sem dúvida os representantes da vanguarda intelectual da profissão, entre outros, apontam para Faleiros (1981; 1985; 1997), Iamamoto e Carvalho (1982), Iamamoto (1995), Netto (1981; 1991), Netto e Falcão (1987), Baptista (1995), Sposati (1985), Battini (1982), Lima (1983), Oliveira Lemos (1988), Weisshaupt (1985) etc.
Como estas reflexões teóricas se referem à prática profissional, objeto da investigação, observamos que o recorte temporal em pauta remete à contemporaneidade.
Privilegiaremos três autores que tratam contemporaneamente de concepções da prática no Serviço Social: Marilda Vilella Iamamoto, Vicente de Paula Faleiros e Myrian Veras Baptista. Esta foi uma escolha intencional baseada na influência e relevância que alcançaram, e (ainda) alcançam, na produção de conhecimentos e no debate acadêmico da profissão.
Na redação, distinguimos o pensamento dos autores veiculando as concepções sobre o campo do Serviço Social, a prática profissional e a intervenção. As referências encontram-se entre aspas indicando as páginas das obras pesquisadas.
As leituras realizadas conduziram a dois eixos teóricos: concepções sobre o Serviço Social e o assistente social e concepções sobre práticas, às quais incorporamos as questões da intervenção.
1 – Concepção de Prática do Serviço Social na Atualidade 1.1 - Marilda Vilella Iamamoto
Expoente da vanguarda marxista, Iamamoto2 caracteriza o Serviço Social
como profissão face a divisão de trabalho peculiar à sociedade capitalista. A divisão social do trabalho submete os indivíduos a certos ramos de atividades profissionais gerando a acumulação e as particularidades da reprodução da força de trabalho, processo que reifica as relações estabelecidas.
É no contexto da divisão social do trabalho que a autora situa o Serviço Social, enquanto uma atividade institucionalizada, “legitimada pelo Estado e pelo conjunto dominante” (p.31).
Ressalta a importância da apreensão histórica dessa noção e da compreensão das diversas formas que a divisão social do trabalho assume, “de acordo com as condições de produção sobre a qual se baseiam as relações entre os membros da sociedade” (p.99).
O Serviço Social, como profissão situa-se no processo de reprodução das relações sociais, fundamentalmente como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do controle social e na difusão da ideologia da classe dominante entre a classe trabalhadora. Isto é, na criação de bases políticas para o exercício do poder de classe. (p.100).
2 Na presente reflexão estaremos nos baseando no texto Renovação e Conservadorismo no Serviço Social – Ensaios Críticos publicado originariamente em 1992 (1.ed.), que reúne de modo
Para explicar a natureza da ação profissional do Serviço Social, a autora reafirma a condição de disciplina de intervenção, uma atividade predominantemente prática que visa introduzir mudanças imediatas no contexto social. Quanto ao papel do assistente social, evoca-o basicamente instrumental como educador, orientador da hegemonia e da coerção de classes a que se vincula objetivamente. “Essas funções são exercidas através da mediação dos serviços sociais” (p.53), na criação de condições favoráveis à reprodução da força de trabalho.
“O assistente social realiza esta ação a partir das manifestações imediatas das relações sociais no cotidiano da vida dos indivíduos. É no cotidiano que se dá a reprodução das relações sociais” (p.102).
Embora os serviços sociais sejam o suporte material, e as entidades sejam a base organizacional que condiciona e viabiliza a atuação profissional, esta atuação dispõe de características peculiares. Trata-se de uma ação global de cunho sócio-educativo ou socializadora, voltada para mudanças na maneira de ser, de sentir, de ver e agir dos indivíduos, que busca adesão dos sujeitos (p.101).
Incide tanto sobre as questões imediatas percebidas no cotidiano como sobre a visão de mundo daqueles que se beneficiam de sua prática.
“O direcionamento dessa ação não é unívoco, embora em sua trajetória histórica, a profissão tenha se orientado predominantemente na perspectiva de integração à sociedade”. (p.102).
No exercício profissional, o assistente social encontra-se vinculado a (...) organismos estatais, paraestatais ou privados, dedicando-se ao planejamento, operacionalização e viabilização dos serviços sociais à população. Exerce funções tanto de suporte à racionalização do funcionamento dessas instituições, como funções técnicas propriamente ditas. (p.100).
Do ponto de vista da demanda3, o assistente social é chamado a
constituir-se em agente intelectual que estabelece a relação entre a instituição população, entre a solicitação dos serviços e a prestação dos mesmos. Portanto dispõe de poder atribuído institucionalmente, de incluir e excluir os que têm ou não direito de participar dos programas propostos, dada a incapacidade da rede de equipamentos sociais em atender a demanda.
“Deriva daí a existência e exigência da triagem ou seleção sócio-econômica e das visitas domiciliares” (p.101).
3 No que diz respeito às demandas, a autora preconiza a atuação do assistente social polarizada
por interesses das classes sociais, tendendo a ser cooptada pelas que têm posição dominante. Mas responde tanto às demandas do capital como do trabalho e só pode fortalecer um ou outro pólo pela mediação de seu oposto (1995, p.99).
Tecendo análises sobre a concepção do CELATS – Centro Latinoamericano de Trabajo Social – quanto ao Serviço Social Alternativo (p.131-48) como categoria teórica e histórica, Iamamoto levanta uma questão aparentemente óbvia, mas pertinente, para evitar visão determinista das alternativas profissionais que exclui as mediações, peculiares ao exercício da profissão no processo social global, ressalvando
(...) que se os processos históricos moldam as dinâmicas conjunturais que se abrem nos países, eles não rebatem sem mediações nos rumos da ação profissional, plasmando
diretamente alternativas profissionais (...) não são os processos históricos que definem,
em cada conjuntura, as alternativas profissionais – se assim fosse cairíamos numa ‘personificação reificada’ da história. O que a dinâmica histórica põe e repõe, objetivamente, são possibilidades para a ação profissional, que só se traduzirão em alternativas reais na órbita profissional quando apropriadas e elaboradas por atores
profissionais ao estabelecerem estratégias de ação que se configurem como respostas intelectuais e técnicas às demandas emergentes naquele campo de possibilidades.
(p.146-7).
1.2 - Vicente de Paula Faleiros
Sujeito ativo na produção teórica4 do Serviço Social, Faleiros identifica-se
com a vertente marxista ladeado por um grupo de intelectuais vanguardistas que protagonizaram o processo de amadurecimento da perspectiva crítica do Serviço Social no Brasil e América Latina.
Reconhece o Serviço Social como profissão, destacando “(...) o processo de elaboração teórica por que passa questionando-se a si mesmo”. (p.29) enfatizando a preocupação da profissão em vincular o método científico e o método profissional “(...) seja através do cientificismo, seja através da vinculação à práxis social, em que reflexão e ação se articulam”. (p. 29-30).
Define a metodologia do Serviço Social como produto da sociedade que “(...) consiste na mediação entre produção material e a re-produção do sujeito para esta produção, e na mediação da re-presentação do sujeito nesta relação” (p.100).
Em Faleiros “o método é o desdobramento do objeto, das mediações, nas suas interconexões ou multilateridade” (p.53).
Desdobra a análise metodológica flexionando sobre a mediação quando define que “(...) reproduzir-se é atender às necessidades de sobrevivência nas relações sociais dadas historicamente, é a mediação da re-produção da força de
4 Independentemente da vasta produção teórica de Faleiros, utilizamos basicamente sua
publicação Estratégias em Serviço Social (1997) que condensa vários artigos escritos pelo autor nos últimos dez anos.
trabalho no cotidiano. Representar-se significa o processo da re-construção da identidade” (p.76).
Traduz-se pela consciência de si diante do outro e pela mobilização das energias postas em movimento nas lutas e demandas individuais e coletivas. A re-produção está articulada à representação (p.102) e esta, pertinente às manifestações culturais, ideológicas do eu, da vida diária e das relações de classe, expressam-se de maneira heterogênea e confusa. (p.102).
Segundo o autor, o assistente social é o intelectual que trabalha a mediação da re-presentação articulada à reprodução, “é uma das suas tarefas desafiar e retraduzir a representação do dominado na visibilidade do dominante” (p.105).
A representação, a identidade, não é mecânica mas um processo dinâmico, político, complexo
(...) que pressupõe enfrentamento às determinações históricas da sociedade e na formação de mediações, desde que apropriadas pelo pensamento e desdobradas em estratégias e táticas pertinentes a problemas concretos como pesquisar, informar-se, planejar, mobilizar, reunir, divulgar, comunicar-se. (p.109).
Tudo isso necessita de uma referência estratégica para saber a oportunidade, a possibilidade e a previsibilidade de se obter um resultado, a satisfação dos participantes e a organização dos interesses dos dominados. Para o autor o assistente social precisa
(...) coadjuvar a ação dos dominados, fornecendo alternativas concretas, específicas e eficazes para a dinâmica do conflito e o encaminhamento de soluções favoráveis aos interesses dos dominados. Sem teoria não há alternativa, não há construção do específico, da eficácia e do conflito. (p.110).
E, porque a representação é dinâmica, o sujeito não se descobre no imediato. Ser sujeito implica na mediação do político, isto é, do poder. “Este poder significa expressar-se, aliar-se, refletir, recusar, dispor de si, estabelecer estratégias, definir demandas, construir o cenário do confronto”. (p.102).
Ao abordar a questão das estratégias, Faleiros fortalece sua inserção à categoria mediação como componente de análise da realidade complexa no contexto da sociedade capitalista e também como categoria operativa, instrumental, relacionada à prática profissional do assistente social, estratégia à ação. Nesse sentido as estratégias profissionais, “(...) surgem das contradições, redes e mediações” (p.59) porque elas se constróem no campo das possibilidades de ação, estratégicas às mudanças.
“São sempre relacionais e situacionais, oriundas do confronto aberto ou fechado de forças, dos recursos disponíveis, da organização, dos enfrentamentos”. (p.30-1).
Para o autor, as estratégias de ação em Serviço Social, são construções teórico-metodológicas advindas do movimento fecundo da teoria pela prática e da prática pela teoria que implica acumulação de experimentações controladas por um saber sistemático que articula a investigação quanti-qualitativa com as análises críticas das mesmas.
Evoca que “(...) a prática profissional só deixará de ser repetitiva, pragmática e empiricista se os profissionais souberem vincular as intervenções no cotidiano” (p.72), num processo contínuo, que forneça à prática a análise das condições em que ela se realiza, sem perder de vista a temporalidade histórica. Ou seja,
(...) aliar o imediato a um processo de mediações complexas” que implica na produção de conhecimento, decisões, escolhas entre alternativas, poder e saber, poder para conhecer, conhecer para poder, visualizando-se o essencial no imediato, pois a ação vai mudando a própria interpretação no tempo histórico à medida que certos resultados vão surgindo, e só assim se pode ver o processo. (p.72).
Para Faleiros o significado da especificidade da profissão, sua particularidade,
(...) só se define no contexto mais geral de uma totalidade que precisa ser desconstruída, analisada em suas partes e em sua dinâmica, nas relações de forças em presença, no confronto de projetos e organizações para manter a ordem, transformá-la, reconstruí-la, na articulação de alianças e blocos históricos em que se definem as estratégias. (p.30). Neste autor a questão da intervenção está ligada diretamente à prática ou estratégia de ação no campo do Serviço Social. Diria mesmo que faz uma inflexão sinonímea entre estes dois termos direcionando seu raciocínio sobre o campo da possibilidade de produção de conhecimento no Serviço Social, distinguindo a prática reiterativa da práxis criadora, quando considera o objeto de intervenção profissional do assistente social a realidade que lhe é posta como desafio, um aspecto determinado de uma realidade total sobre o qual irá formular um conjunto de reflexões e proposições para intervenção. Defende a tese de que na intervenção, o profissional estabelece uma rede de mediações, estratégias de ação, e rejeita as elucubrações de alguns autores que colocam em questionamento a existência ou não de uma teoria do Serviço Social por verem na profissão apenas uma atividade pragmática, de execução, limitada ao cotidiano e, por isso, sem condições de produzir conhecimentos.
1.3 - Myrian Veras Baptista
Integrante do grupo de docentes e pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, estuda a relação complexa entre a teoria e a prática no Serviço Social e, identificada com a vertente marxista, privilegia a perspectiva teórico-metodológica assentada em um rigor que admite a tencionalidade dialética e exclui o ecletismo na produção de conhecimento.
Os textos consultados para esse estudo referem-se a duas publicações da autora em 1995 respectivamente, ‘Ação Profissional no Cotidiano’ e ‘Produção do Conhecimento Social Contemporâneo e sua ênfase no Serviço
Social’5.
.Baptista reconhece o Serviço Social como profissão que se refaz e se reconstrói nas relações com a sociedade,
(...) muito embora nesse processo, não supere os limites das relações postas pelo capitalismo, uma vez que a própria sociedade não os supera. Nesse processo de construção, as ações individuais dos profissionais podem assumir dimensões de síntese – resultante do processo coletivo de elaboração de conhecimentos e práticas desenvolvidas pela categoria – e de criação de novas propostas e de novos conhecimentos (...) A experiência é submetida a uma seletividade que determina o que deve ser retido e o que deve ser “esquecido”, o que deve ser objetivado, conservado e acumulado, constituindo-se o acervo de conhecimentos da formação profissional. (1995¹, p.117).
Para a autora,
(...) o espaço privilegiado da intervenção profissional é o cotidiano, o ‘mundo da vida’, o ‘todo dia’ do trabalho que se revela no ambiente do qual emergem exigências imediatas e esforços para satisfazê-las, lançando mão de diferentes meios e instrumentos de ação. (1995¹, p.111).
No desenvolvimento da prática profissional, as ações e as relações são determinadas historicamente pela divisão sócio-técnica do trabalho que ocorre predominantemente nas instituições, sob vínculo empregatício, na condição de trabalhador assalariado.
Existe um lugar definido para o Serviço Social na divisão sócio-técnica do trabalho, mas este não é um lugar simplesmente dado, é um lugar historicamente construído pelo tipo de relações e de respostas que seus profissionais foram produzindo face às questões e desafios postos, no seu âmbito de intervenção, pelas conjunturas históricas (1995², p.92-3).
5 Para que não haja confusão na indicação da literatura pesquisada, utilizaremos 1995¹ para A ação Profissional no Cotidiano e 1995² para Produção do Conhecimento Social Contemporâneo e sua ênfase no Serviço Social.
Para a autora, a dialética - movimento de análise para desvendar a realidade - configura-se na sustentação da prática cotidiana desenvolvida pelo assistente social, potencializando-a em prática social mais geral.
“Há os limites impostos pela ordem social vigente, mas esta prática pode ser alargada em seus limites na medida em que esteja vinculada a um projeto mais amplo de mudanças no real”. (1995², p.93).
Neste sentido Baptista exemplifica um atendimento em plantão:
(...) se estou trabalhando em plantão, tenho que perceber o quanto um plantão é um lugar privilegiado para detectar situações que estão se colocando no real daquele grupo social com o qual trabalho, como indicadoras de situações mais amplas: eu posso ou não perceber isso, posso não trabalhar sobre isso” (1995², p.93).
E, para a autora, essa é uma questão central com relação à escolha do método de ação (no dizer de Iamamoto “metodologia da ação profissional ou metodologia da intervenção. (1995, p.172-92).
As reflexões da autora sobre estas questões, são das mais relevantes para o desenvolvimento da profissão: a relação teoria/prática e a reconstrução do objeto de intervenção no Serviço Social.
“Sem uma teoria consistente não se consegue ultrapassar o limite do objeto” (1995², p.91).
E, no entender de Baptista, na medida em que ele (objeto) se situa no contexto das relações sociais do mundo capitalista, é a teoria social, que remete a Marx, que irá possibilitar um maior alcance na apreensão de sua estrutura e significado.
“O real é o que nos aparece à primeira vista, é a empiria, e o concreto é a síntese de múltiplas determinações, a unidade na diversidade, é a gênese, é aquilo que determina historicamente o real que se está enfrentando naquele momento” (1995², p.90).
O que vai determinar o método é a dimensão dada pelo profissional ao olhar o objeto sobre o qual recai sua ação: é o modo de ver, de compreender e de explicar o objeto que define o método de abordagem e não a amplitude desse objeto no contexto das relações sociais. (1995², p.92).
Sob este aspecto Baptista enfatiza os equívocos cometidos pelos assistentes sociais que incorporam a ótica da compartimentalização da realidade e têm a sensação de estar presentes em segmentos particularizados sem preservar a visão do todo. Transferem para a prática a fragmentação das abordagens sócio-históricas teoricamente veiculadas (tendo em vista os currículos das Faculdades de Serviço Social), porque não entendem sobre o que recai sua ação e passam a pensar a opção metodológica a partir do âmbito de
sua prática: “(...) se está trabalhando a comunidade, o melhor método é o dialético; se atende plantão, o fenomenológico; se é empregado de uma empresa, tem que adotar necessariamente a abordagem funcionalista. Este é um sério equivoco” (1995², p. 92).
A construção do saber do profissional, tendo como horizonte a intervenção, inclui um tríplice movimento:
(...) de crítica, de construção de um conhecimento novo e de nova síntese no plano do conhecimento e da ação, em um movimento que vai do particular para o universal e retorna ao particular em outro patamar, desenhando um movimento em espiral de relação ação/conhecimento. (1995¹, p.119).
Citando Lefèvre, a autora explica que é no cotidiano, onde o homem é (...) abandonado pela sabedoria à própria sorte, à trivialidade, à banalidade prática e à prática banal que encontra uma dualidade: a de miséria, com os trabalhos enfadonhos, repetitivos, as relações elementares com as coisas, com as necessidades e o dinheiro; e de grandeza com a continuidade que permite que a vida se perpetue, estabelecida sobre este solo de prática incompreendida – na possibilidade de fazer das mediações necessárias na vida cotidiana (...) uma obra para os indivíduos, os grupos e as classes. (1995¹, p.119-20).
Na prática profissional, as mediações entre a elaboração teórica, a projeção e a intervenção se dão de maneira complexa: têm de responder a questões muito concretas, sócio-econômicas e políticas de uma sociedade extremamente diversificada, colocando-se diante de problemas muito específicos. (1995¹, p.115).
O profissional não só analisa os acontecimentos mas tece-os criticamente, toma uma posição e decide por um determinado tipo de intervenção.
Na sua forma particular de conhecimento voltado para a prática, ao conhecer a realidade vai construindo no pensamento, um projeto de ação, vai emergindo uma maneira particular de ver problemas e construir soluções lançando mão do desenvolvimento teórico e de aplicações técnicas. O modo como o profissional faz isso determina a relação que ele estabelece com a teoria: se extrai um problema teórico estabelecendo uma combinação orgânica das demandas de ação com as requisições teóricas; se parte aprioristicamente de uma teoria para análise crítica e intervenção; se sua reflexão teórica se situa ao nível de justificativa de determinados tipos de prática com as quais apenas tem remotamente alguma ligação; se vê a teoria como instrumental e ainda, considerando aqueles que não fazem relação alguma. (1995¹, p.115-6).
No entender da autora existe uma defasagem entre a produção teórico-metodológica no Serviço Social e os desafios da prática que não foram privilegiados nas reflexões dos pensadores marxistas de maior renome. Esta defasagem “(...) vai exigir dos profissionais conhecimentos que não foram formulados necessariamente dentro da proposta marxista”. (1995², p.94).
Mas alerta que a apreensão desses conhecimentos não poderá ser feita de maneira “mecânica, eles precisarão ser reelaborados, resgatando o que estes estudos avançaram, superando seus limites, criando criticamente um conhecimento novo à luz de uma teoria social” (1995², p.94).
Alerta também para as limitações dos conhecimentos parciais que, em lugar de serem vistos compreendidos na totalidade, são encarados como se fossem a própria totalidade.
“O seu resgate pode ser feito a partir de uma relação dialética entre teoria social e o conhecimento científico” (1995²,p.94) apreendido no imediato, inscrevendo-os em uma perspectiva histórica e instrumental.
Ainda para a autora
(...) os assistente sociais cuja especificidade profissional é a intervenção, não podem se deter e contentar com o nível explicativo de sua crítica e, ao mesmo tempo manter uma prática reiterativa. A prática profissional só permanece reiterativa se não tivermos uma leitura crítica dela e uma proposta mais ampla de intervenção. (1995², p.95).
Ao terminar suas reflexões (1995²) evoca um desafio ao Serviço Social: análise e aprofundamento das propostas teóricas com a preocupação de construir bases operativas que permitam uma intervenção crítica.
2– O Serviço Social: Relevâncias sobre Mediação e Estratégias de Ação
A partir das reflexões dos autores acima mencionados, o Serviço Social constituiu-se historicamente em uma profissão de natureza interventiva cujo objeto de análise, síntese de reflexões teórico-metodológica diversificadas, volta-se à realidade sócio-histórica. Sua ação devolta-senvolve-volta-se face às demandas sociais que se consubstanciam na sociedade, advindas dos segmentos subalternizados. Enquanto profissional, o assistente social realiza sua prática vinculado a organismos institucionais6, inserido na divisão sócio-técnica do
trabalho, estabelecendo uma rede de mediações que estruturam o tecido social,
6 Instituições públicas, privadas cuja natureza volta-se ao atendimento das mais variadas
demandas sociais: de trabalho, de produção, de saúde, de educação, de prestação de serviços, assistenciais, filantrópicas, confessionais, as Organizações não Governamentais-ONGs, consolidando um ambiente diversificado de trabalho para o assistente social.
tendo em vista o cotidiano como palco que consolida, perpetua ou transforma sua ação.
A prática é particular e específica. Ela implica sujeitos com múltiplas determinações históricas no todo e, a especificidade, é extremamente complexa.
O Serviço Social atua sobre as demandas sociais expressas por necessidades e carências dos segmentos pauperizados, excluídos e subalternizados produzidos pela sociedade porque é imanente ao capitalismo industrial o estabelecimento das relações entre dominantes e dominados onde o econômico sobrepuja o social, caracterizando-se através de relações hegemônicas de poder.
O atendimento às demandas tem sido realizado precipuamente pelo assistente social, no contato estreito e direto com a população e em apreender as suas mais variadas expressões de vida: saúde, habitação, lazer, educação, família, afetividade etc. As manifestações imediatas e cotidianas desses segmentos são explicitadas nas relações de poder, ou seja, na correlação de forças entre os lados diferentes de uma mesma realidade ou situação social, vinculando a intervenção profissional do assistente social ao cotidiano, ao imediato, diverso e plural, num processo relacional entre as demandas (sócio-institucionais e profissionais) e a prestação dos serviços sociais. E é aí que está a especificidade complexa do Serviço Social: atuar basicamente na trama das relações sociais de conquista, apropriação de serviços e poder desses segmentos subalternizados. Esse é o eixo da prática profissional, inserida no contexto mais amplo das práticas sociais, entendida como movimento de reflexão e ação capaz de apreender a concretude da realidade, ou sua totalidade, junto ao foco do jogo de poder.
Essa inserção não deixa de ser peculiar à profissão porque coloca o assistente social em contato com as várias instâncias sociais (políticas, econômicas, hierárquicas), nas formas de programas, projetos, atendimento direto, encaminhamentos os mais diversificados da malha institucional pública e privada, sendo necessário o estabelecimento de uma rede de mediações para uma ação específica.
A mediação (análise marxista), é uma categoria da práxis presente na prática do assistente social, com dimensões e caráter essencialmente político. No Serviço Social esta abordagem vem sendo desenvolvida desde o Movimento de Reconceituação, sob inspiração do materialismo dialético, de maneira bastante difusa pelos intelectuais7. Devido aos desdobramentos teóricos e
metodológicos recentes na profissão sobre esta categoria, existe ainda um vazio neste campo de investigação. O Serviço Social apropriou-se dessa idéia para
explicar teoricamente os movimentos de reflexão e passagens que se operam entre concepções, modos de pensar e práticas. Desta maneira ela é trabalhada do ponto de vista ontológico e reflexivo. Nesta linha de raciocínio, a mediação é discutida teoricamente, sem avançar na apreensão da especificidade do real. Não cabe aqui realizar um estudo mais aprofundado sobre esta categoria8 mas
explicitar teoricamente sua articulação no contexto das práticas profissionais dos assistentes sociais, atentando para a diversidade complexa das formas de intervenção, de compreensão e de representações que historicamente acompanham a trajetória teórico-metodológica do Serviço Social.
Segundo Pontes (1995) “O papel fundamental da categoria mediação no plano metodológico está parametrado à dupla dimensão contida na natureza da própria categoria: ontológica e reflexiva” (grifo nosso) (p. 175).
E retomando Lukács, prossegue:
(...) no plano ontológico da categoria (...) estas mediações que estruturam, informam, permitem movimento, dão textura histórico-social, permitem passagens entre as instâncias constituintes da totalidade (...) devem ser reconstituídas pela razão. Este é o movimento da razão buscando através do movimento do abstrato ao concreto, capturar as mediações ontológicas na própria estrutura do objeto de conhecimento pelo sujeito cognoscente. (...) Este movimento da razão histórica pode propiciar a reconstrução do campo de intervenção profissional, com suas respectivas mediações e determinações históricas. (p.175-6).
Na dimensão reflexiva,
(...) a categoria mediação é construída intelectivamente pela razão com o fito de conhecer o objeto e orientar a intervenção no mesmo. (...) o agente profissional poderá participar do processo interventivo, seguramente, com possibilidades bem mais amplas de alcance de atendimento às demandas sócio-profissionais. (p.176).
Sob o ponto de vista do autor, a mediação aparece eivada de alto poder de dinamismo e articulação entre as estruturas sócio-históricas: capta o movimento ontológico através da razão ligada ao intelecto que, no plano do imediato, analisa, desdobra, oculta e recompõe o fenômeno no pensamento sem eliminar as determinações empíricas da prática, no ‘todo dia’ da vida de trabalho dos profissionais assistentes sociais.
Se o Serviço Social constitui-se em profissão eminentemente interventiva, imbricada no cotidiano, o campo empírico torna-se fundamental para o processo de construção e de renovação de conhecimentos, caso contrário, estaríamos
8 Lançamos mão dos estudos de Reinaldo Nobre Pontes, Mediação e Serviço Social (1995) que
eliminando a experiência do homem, da vida, da própria existência. Mas deve garantir distância do ecletismo, da adição, agregação pura e simples de pontos de vista sem direção (acrítica), aquele que não confronta os vários elementos e cada um em particular, de uma mesma realidade complexa.
É no dia-a-dia que se dá o atendimento imediato às necessidades e carências das demandas enquanto práticas de prestação de serviços mais comuns no Serviço Social. Este tipo de atendimento requer uma dimensão técnica, expressa em maior competência por conteúdos e metodologias, que permitam interferir eficiente e eficazmente no real. Torna-se uma das preocupações básicas do assistente social no ato interventivo, tendo em vista a condição de profissional inserido na divisão sócio-técnica do trabalho que atende, ouve, reflete, discute e encaminha a situação social junto aos sujeitos envolvidos, em busca de resultados que relacionam meios e fins integrados a um marco teórico. Acrescentando-se à dimensão ético-política, exige ainda visão crítica desse profissional questionando o sentido desse agir. A prática não pode e não deve ser considerada como um fim em si mesma, subjacente a toda e qualquer ação que se queira transformadora no campo social. Deve saber encadear pensamentos e ações, descrevendo, analisando, compreendendo e operando a área social. Mas antes de mais nada é primordialmente a maneira como esse profissional conduz o processo, a postura que adota no conjunto da realidade em que estão envolvidos – sujeito/objeto – é que enriquece a relação e o conhecimento produzido em sua gênese. Ou seja, no plano do imediato, os fatos, as coisas, os acontecimentos, aparecem no movimento concreto do real que se desvenda num processo relacional de aproximações sucessivas, desvios, alternativas, à medida que apropriado pela razão, introjetado pelo pensamento e exteriorizado na ação. É isso que confere sentido e garante especificidade à ação profissional.
À primeira vista, estes processos podem dar a impressão de lineares e mecânicos se não levarmos em conta a diversidade das práticas do Serviço Social, a heterogeneidade dos sujeitos, a variedade de explicações sobre a vida social como base para a intervenção do assistente social no processo social e, principalmente, a maneira de olhar, ver, apreender e explicar suas ações no conjunto das práticas sociais.
Retomando Boaventura de Souza Santos,
(...) Estamos de novo regressados à necessidade de perguntar pelas relações entre a ciência e a virtude, pelo conhecimento dito ordinário ou vulgar que nós, sujeitos individuais ou coletivos, criamos para dar sentido às nossas práticas e que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusório e falso; e temos finalmente de perguntar pelo papel de todo conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou empobrecimento pratico de
nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para nossa felicidade (...) Estamos no fim de um ciclo de hegemonia de uma certa ordem científica (...) (1997, p.8-9).
Desde que a intervenção profissional do assistente social é realizada no cotidiano dos grupos excluídos da participação social nos bens, serviços, e riquezas produzidos pela sociedade, busca a totalidade dentro dele consciente de que é nele que se processa a mediação entre singular/particular/universal. Então, parafraseando Falcão (NETTO; FALCÃO, 1987, p.50), “(...) é nela e sobre ela que realizamos nossa prática”.
O assistente social se torna o agente que atua com e nas mediações, trabalhando no plano das representações da população, usando estratégias para superar o nível singular da prática e, no processo de intervenção, possibilitar a articulação das forças e os sujeitos presentes. A categoria mediação tem a ver com a dimensão ontológica-reflexiva.
Como instrumento prático-operativo, articulado à dimensão ontológica-reflexiva, pode estabelecer uma rede de mediações, num processo de aproximações sucessivas que possibilitem articulações intelectivas diversas (do conhecimento com a razão, a reflexão, a ação, a intervenção, a vontade, a afetividade, incluindo habilidades formais, técnicas, éticas e políticas) sobre a realidade ou situação social em questão. Pelo movimento de aproximações sucessivas, também o pensamento racional se apropria de estratégias de ação (não de mediações).
O campo da intervenção implica em tomada de decisão. É necessário saber decidir articulando praticidade e esclarecimento, analisando as condições históricas do contexto para compreendê-lo no tempo do acontecimento, na imediaticidade. Este raciocínio nos leva ao conceito de estratégia.
No dizer de Faleiros,“ (...) a visão dialética supõe a análise da totalidade em mediações complexas (...) categorias que permitem a análise complexa de situações concretas (...)” (1985, p.94).
E, ainda: “(...) a transformação social é um processo de mediações complexas e não só de oposições rígidas (...)” (1985, p.94).
Neste sentido, o autor coloca a categoria mediação vinculada ao componente de ação, pois a prática põe em pauta o imperativo da “transformação social”. Ao deixar claro este ponto de vista, enfatiza a dimensão operativa da mediação e a torna substantivada no sentido de estratégia para a ação: “(...) um processo permanente de mediações, de estabelecimento de estratégias e de práticas de lutas para avançar e capacidade de recuar, e não um processo linear de avanços sem recuos” (1985, p.95).
Também vincula a mediação à dimensão analítica ao reportar-se à complexidade de seu processo, não atrelado unicamente a “oposições rígidas”, gerando a necessidade de reformulação do conhecimento pela interpretação que alia os sentidos que os assistentes sociais atribuem à prática e a análise das condições complexas em que esta se realiza.
Para Faleiros, portanto, as estratégias profissionais configuram-se como mediações complexas que se colocam no cotidiano de trabalho dos assistentes sociais prevendo combinação articulada e sucessiva de trajetórias e estratégias de ação que se entrecruzam numa conjunção de saberes e poderes, forças que condicionam recursos, saberes que definem problemas, conhecimento e estratégias que precisam ser levados em conta, num processo constante de perscrutar as condições concretas da intervenção.
Percebemos nos autores estudados que a marca da especificidade do Serviço Social, advém da intervenção na sua forma particular (inserida no contexto diverso das práticas sociais) que implica o confronto com problemas sociais, com correlação de forças e os interesses em jogo, no dia-a-dia de trabalho. Neste sentido, a ação profissional do assistente social não pode dispensar o jogo do poder, um jogo de forças entre lados diferentes, onde as partes envolvidas podem tirar vantagens mas, de nenhum modo, encontram-se desprovidas uma frente à outra. Existe uma margem de liberdade no processo estabelecido que permite a construção de estratégias capazes de instituir acordos ou subverter a ordem, aumentando ou diminuindo o caráter imprevisível dos comportamentos em jogo.
De qualquer forma, a conduta humana é estratégica, está sempre se ajustando às novas situações, tentando buscar a satisfação de suas necessidades que se manifestam de maneira muito diversa no cotidiano complexo. É ilusório supor que o atendimento às demandas sociais coincidam necessariamente com as determinações dominantes na sociedade. Por isso a conduta humana encaminha-se estrategicamente de forma flexível ao encontro de resultados eficazes, com avanços e recuos que implicam em mudanças e decisões que podem ou não enfraquecer os processos de atendimento às necessidades sentidas. Nesse sentido, a estratégia configura-se como um instrumento de ação do assistente social, articulado ao complexo movimento de pensar, relacionar, correlacionar, propor, acompanhar, avaliar e se comprometer, tanto com as condições concretas em que se dá a intervenção como com os sujeitos, atores desse processo.
Essas reflexões necessárias no plano interventivo cotidiano do assistente social e que remetem ao campo instrumental, evoca outras discussões articuladas tais como a necessidade de estabelecer prioridades de ação,
trabalhar com recursos escassos potencializando resultados em contraposição às crescentes demandas, necessidade de formar alianças e parcerias na tentativa de melhorar a utilização dos recursos, de criar instrumentos e meios de sustentação da ação, garantir transparência na intervenção e reconstruir as hierarquias nas relações sócio-institucionais.
Nessa direção, o assistente social deve se estruturar levando em conta as singularidades e especificidades do seu campo de atuação que exigem, também, formas específicas de serem geridas. Assumindo a postura de ‘gestor’, deverá fornecer respostas às crescentes demandas e pressões sociais de forma eficiente, eficaz e com qualidade, capacitando-se ao atendimento, buscando fazer valer a legitimidade da organização perante a sociedade através de seu desempenho e capacidade profissional. E ainda, ser capaz de analisar permanentemente os contextos do ambiente interno e externo, adaptar-se às novas situações e pensar estrategicamente o futuro.
3 – Gestão: Vetor Reflexivo para a Prática Profissional do Assistente Social
Ao iniciarmos as reflexões que seguem, gostaríamos de enfatizar as várias concepções sobre Serviço Social, práticas e intervenções encontradas na leitura para elaboração deste texto. Da mesma forma nos deparamos com as questões referentes à gestão que remetem a posicionamentos teóricos e metodológicos diversificados sobre o agir profissional do assistente social. O movimento articulado entre intervenção e prática requer, antes de mais nada, conhecimento aprofundado sobre a realidade social e histórica que evolve o campo da intervenção como o conhecimento sobre a teoria social que informa e fundamenta a ação profissional. Neste movimento, a aquisição de habilidades técnicas torna-se essencial para apreensão das ações localizadas e diversas que possam articular o todo às partes.
O locus predominante da prática profissional do assistente social ocorre nas instituições e todas, sejam elas com ou sem fins lucrativos, públicas ou privadas, das mais diversas naturezas, necessitam gerir sua estrutura organizacional para atendimento às demandas a que se propõem. Desenvolvem produtos ou serviços através da utilização de recursos e do trabalho das pessoas, defrontando-se com um mundo em crescente mudança, aumentando a complexidade organizacional, sua diversidade e ambigüidade. Novas tecnologias são incorporadas ao processo de trabalho exigindo adequações internas, que se refletem no ambiente externo, configurando sistemas de gestão cada vez mais
flexíveis9, ágeis e capazes de se adaptarem às novas situações. Todo esse
processo complexo provocou não só um aumento considerável, mas criou novas demandas sociais agravando as questões relacionadas à pobreza, miséria, exclusão, questões pertinentes à cidadania, acarretando a necessidade de respostas imediatas e eficazes à sociedade.
O desenvolvimento das sociedades democráticas, representativas e participativas, têm proporcionado o envolvimento da população na definição de prioridades e exigido transparência nas formas de gestão social, tanto no que se refere à clara utilização dos recursos quanto à definição dos programas e ações a serem implementados. Por isto transita nas organizações contemporâneas a necessidade de reestruturação e modernização administrativa que busquem a melhor maneira de operacionalizar boas propostas de forma eficiente, eficaz, ágil, participativa, transparente, crítica e com qualidade para que possam atender as demandas com resultados, interferindo na realidade, transformando-a. Com a flexibilidade administrativa, o sistema de gestão social busca o constante repensar de seus métodos de abordagens, de práticas e dos próprios serviços que presta expressos diretamente pelas pessoas mais habilitadas para realizá-los.
Existem habilidades gerenciais que são adquiridas no cotidiano, no enfrentamento das contradições e mutações inerentes à situação organizacional em questão. Existem outras que são apreendidas por conhecimentos sistematizados advindos das ciências administrativas e de outras ciências que auxiliem na compreensão do todo organizacional. Mas de qualquer forma como as organizações são diferentes, para cada uma delas exige-se um novo aprendizado, entendido como a arte de pensar para melhor decidir e agir, expressos pela eficácia profissional. Se por um lado podemos tratar as questões da gestão e, por conseguinte de quem desvela seu exercício10 como algo
científico e racional, de outro, subsiste uma dimensão emocional, sensível, espontânea e intuitiva que aumenta a amplitude e lateralidade do pensamento, da decisão e da ação em função do caráter imprevisível da interação social e humana, inerente ao contexto organizacional. Por isso o estímulo à formação de conhecimentos na busca de novas perspectivas sobre a realidade em que se está inserido.
9 Por flexível entende-se a capacidade de ação realizada no movimento de exceção das
organizações (revisão da perspectiva complexa de decisões programadas, regras e procedimentos formalizados), para adaptação às condições imprevisíveis e mutantes das estruturas sociais e humanas da dimensão institucional.
10 Gerente ou gestor, entendidos como uma ação humana articulada ao pensamento, voltada para
“a arte de pensar, de decidir e de agir; é a arte de fazer acontecer, de obter resultados. Resultados que podem ser definidos, previstos, analisados e avaliados, mas que têm de ser alcançados através das pessoas e numa interação humana constante”. (MOTTA, 1996, p.26)
(...) Melhorar o que existe é importante, mas aprender coisas novas é crucial para sobrevivência e relevância. Rotinizar tecnicamente a instituição, contribui apenas para que os atuais dirigentes executem melhor suas tarefas do que seus antecessores e que seus sucessores se saiam tão bem quanto eles. Especialistas em técnicas administrativas são essenciais, mas não são mais difíceis de se encontrar no mercado de trabalho. Capacidade gerencial é mais rara pois exige habilidades mais complexas: capacidade analítica, de julgamento, de decisão e liderança e de enfrentar riscos e incertezas. (...). (MOTTA, 1996, p.27).
O mundo moderno exige dos dirigentes capacidade de negociação entre interesses e demandas múltiplas, de pensar estrategicamente a ampliação do universo de atuação organizacional, formar parcerias, desenvolver redes de apoio, captar recursos e produzir o marketing do programa a ser operacionalizado. Com sensibilidade para definir prioridades (tomar decisões baseando-se no conhecimento da realidade social e organizacional, contando também com uma boa dose de intuição e assumindo riscos) e, sem perder de vista a aptidão técnica de monitoramento, controle e avaliação, organizar-se profissionalmente buscando soluções objetivas e efetivas para obtenção de resultados qualitativos.
Outra habilidade importante para viabilizar uma gestão desta natureza está ligada ao processo interacional de capacitação de pessoal para formação de grupos com espírito analítico e crítico capazes de compreender onde se processam as mudanças do ambiente interno e externo à organização, estimulando o desenvolvimento de agentes de transformação.
O Serviço Social como profissão reconhecida pela sociedade, não pode fugir à realidade de que seus profissionais produzem ações interventivas na complexidade da realidade social, diversa e plural, cujos significados estão diretamente ligados à capacidade de gerir e operacionalizar os serviços sociais institucionalmente criados para atendimento às demandas. Para entender a natureza da ação profissional é necessário explicá-la no movimento articulado de sua complexidade, tendo em vista a dimensão analítica, a dimensão operativa e sobretudo a de conhecimento científico.
Outro componente de análise faz-se necessário no processo histórico da produção de conhecimento vinculado à prática social que não só remete à esfera macro-social (conjuntura/estrutura) mas principalmente,
(...) na esteira das relações micro-sociais (o assistente social) concretiza ou cumpre sua vocação profissional (...), que se confronta no cotidiano com as necessidades e carências fundamentais do homem, não só na esfera do econômico e técnico, como também na do afetivo. (RODRIGUES, 1995, p.154).
A questão é polêmica, nos meios intelectuais, de que o Serviço Social não se assume como profissão produtora de conhecimentos, apesar de sua dimensão e da especificidade de sua proposta profissional resultarem de ações peculiares que desenvolve. Autores como Rodrigues (1995) afirmam:
(...) o Serviço Social tem condições de produzir conhecimento argumentando, principalmente, que as práticas por ele desenvolvidas caracterizam-se por um certo modo de apropriação e aplicação dos conhecimentos das ciências a uma forma peculiar de ação profissional e de atuação na realidade social – apropriação, aplicação, ação e intervenção capazes, por sua vez, de possibilitar a produção de “outros” ou de novos conhecimentos. (...) este raciocínio permite ressaltar que para uma profissão de natureza interventiva, que lida com as situações-limite envolvendo problemas sociais, sua prática veicula e revela o modo próprio como compreende, explica e se propõe alterar uma dada realidade, uma dada sociedade. (p.154).
A preocupação em entender o conteúdo específico das práticas profissionais dos assistentes sociais nos fez empreender uma jornada que mostrou múltiplos destinos à “profissão-mãe” e deixou-nos a convicção de apenas estarmos iniciando o processo de re-visão sobre a dimensão da complexidade do Serviço Social, suas intervenções e práticas.
Encerrando as reflexões aqui contidas lembramos Boaventura de Souza Santos que nos diz:
(...) a ciência pós-moderna sabe que nenhuma forma de conhecimento é, em si mesma, racional; só a configuração de todas elas é racional. Tenta, pois, dialogar com outras formas de conhecimento deixando-se penetrar por elas. A mais importante de todas é o conhecimento do senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no cotidiano orientamos as nossas ações e damos sentido à nossa vida. A ciência moderna construiu-se contra o construiu-senso comum que considerou superficial, ilusório e falso. A ciência pós-moderna procura reabilitar o senso comum por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. É certo que o conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador mas, apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico. Esta dimensão aflora em algumas das características do conhecimento do senso comum. (1997, p.56). COSAC, C. M. D. Reflections about the interventive dimension of the Social Work. Serviço Social &
Realidade (Franca), v.11, n.1, p.167-186, 2002.
• ABSTRACT: Reflections about the professional practice of the soacial wworkers, setting ponderations about the interventive process and inflections about its trajectory, stamped by multiples determinisms that accompanied the evolutive process of the Brazilian Capitalism.
A COSTURA MANUAL DE CALÇADOS NA CADEIA PÚBLICA DE FRANCA
Helene Yuri ANAGUCHI*
Israild Giacometti CHINALI**
• RESUMO: A cidade de Franca possui uma economia voltada para a indústria de calçados masculinos. A partir da década de noventa, quando agudizou a crise da indústria calçadista, ocasionando um grande número de demissões nesse setor, as indústrias expandiram o trabalho terceirizado, empurrando um significativo número de trabalhadores (expulsos do mercado formal) no mercado informal. A costura manual de calçados apresenta-se como uma das fases da produção de sapatos, sendo a mais suscetível à terceirização. A atividade da costura manual em sua maioria realizada por meio do trabalho a domicílio, conta com a mão-de-obra de crianças e mulheres, em péssimas condições de trabalho, com destaque para os baixíssimos salários. Esta desvalorização da força de trabalho está relacionada com a permanente busca do capital pela redução dos custos da produção. Devido a essa lógica, o trabalho do preso acaba sendo inserido na produção de calçados, por meio de interesses das indústrias e de “atravessadores” (sujeitos intermediários entre a fábrica e o trabalhador). • PALAVRAS CHAVE: Trabalho informal; costura manual de calçados em Franca;
trabalho dos presos.
O trabalho informal e a costura manual de calçados em Franca
Atualmente o trabalho atende aos interesses sociais, econômicos e políticos do sistema capitalista de produção. As relações sociais são então reproduzidas na exploração do trabalho de homens e mulheres, em direção da busca exacerbada do lucro.
Pode-se considerar o trabalho como mecanismo indispensável para sobrevivência do ser social.
(...) o trabalho é visto como algo inerente ao ser social, tem um caráter universal e histórico e deixa de existir ativamente quando o ser social também não existir mais. Vale ressaltar que o trabalho deveria ser algo que trouxesse prazer e alegria ao ser humano, mas a sociedade capitalista conseguiu transformá-lo em mercadoria, estabelecendo um valor para sua compra, tornando a venda da força de trabalho o único meio de a classe trabalhadora sobreviver. (SIQUEIRA, 2001, p.67).
Essas relações sociais (re) produzidas pelo modo de produção capitalista acabam por mercantilizar todos os elementos da vida social, tornando a força de trabalho uma mercadoria disponível no mercado.
* Discente do 4° ano de Serviço Social da UNESP – Franca-SP. ** Departamento de Serviço Social da UNESP – Franca-SP.
O sistema capitalista sempre sofreu drásticas mudanças para superar as crises provocadas pela vulnerabilidade do mercado, sem que se modificasse a sua base de sustentação: a propriedade privada dos meios de produção.
As transformações do mundo do trabalho nas últimas décadas foram provocadas pelo impacto mundial de novos modelos de organização do trabalho, com vistas a superar a grande crise do capital, cujos sinais já aparecem na segunda metade dos anos 60, mas que se mostra em toda sua extensão em meados dos anos 70. As crises, provocadas pela lógica capitalista, acirram a busca permanente do capital em baixar os custos da produção para garantir a progressiva acumulação. Um dos recursos para isso é a flexibilização do trabalho, principalmente por meio da terceirização1, que diminui o custo da força de trabalho.
A subcontratação, a precarização do emprego, a flexibilização dos direitos trabalhistas aparecem como estratégias do capital para manter a economia e esquivar-se das crises.
Com a terceirização ocorre o predomínio do trabalho informal. Como bem explica Paul Singer:
(...) o trabalho informal corresponde ao segmento estagnado da população excedente (...) trata-se do exército industrial ativo e não de reserva (...) os trabalhadores informais já desistiram de procurar emprego, eles saem à luta, tentando ganhar a vida de qualquer jeito. (2000, p. 12)
Assim, trabalha-se longas jornadas no exercício de um trabalho precarizado.
No setor informal há uma heterogeneidade de atividades, sendo que “o que homogeneiza de fato o trabalho informal enquanto ‘forma’ – não enquanto atividades – é a não-presença de estruturas formais de produção ou de circulação ou ainda de distribuição”. (PIRES, 1993, p.6) Deste modo, existem trabalhadores informais exercendo atividades diferenciadas, aparecendo desde os camelôs e as “bancas de calçados2” até os profissionais liberais. Outra
1 “Em meio à aceleração do processo de reestruturação produtiva, a partir dos anos 90, assistimos
a um crescente movimento de descentralização da produção, que passa a ser denominado pelo neologismo ‘terceirização’, cujo padrão adotado no Brasil tem sido referenciado como ‘fraudulento’, ‘espúrio’, ou ‘predatório’, por buscar a redução de custos através da exploração de relações precárias de trabalho que se objetivam em diferentes formas na subcontratação de mão-de-obra; (...) no trabalho a domicílio; (...) mecanismos esses que buscam neutralizar a regulação estatal e a sindical e que colocam em risco uma série de direitos sociais e trabalhistas, duramente conquistados". (Cf DIEESE, Seminário e Eventos, set. 1994, p.34-35 apud Navarro, 1998, f. 178).
2 “(...) instância subcontratada pela fábrica para realizar frações do processo de produção do
calçado, principalmente a costura mecânica (pesponto) e a costura manual das partes superiores do sapato”. (CHINALI, 1997, p. 87)
característica importante do setor informal é sua relação subordinada ao setor formal-legal da economia. Pires identifica o setor informal, como:
(...) um conjunto de atividades e ocupações que constitui um mercado de trabalho informal-ilegal na economia, relativamente autônomo, permanente no tempo e de estruturação heterogênea, mas que não escapa dos processos de transformações econômicas e sociais ocorridos no lado formal-legal da economia. Daí a sua articulação subordinada.(...) (1993, p. 6)
A indústria de calçados utiliza em grandes proporções o trabalho informal, “aliás, o fenômeno do trabalho informal é praticamente regra no setor, mesmo em países com legislação social avançada, como Espanha e Itália” (PICCININI; ANTUNES; FARIA, 1997, p.178), em decorrência do caráter artesanal do processo de fabricação de calçados.
Outra característica de fundamental importância na compreensão da indústria calçadista é, de um lado, o uso intensivo de mão-de-obra e, de outro, o uso de tecnologia ainda muito próxima ao processo artesanal, do que decorre elevado potencial de emprego, incluindo parcela significativa de mão-de-obra não especializada.(...) O processo de produção de calçado comporta fases distintas: modelagem, corte, costura, montagem e acabamento. As fases de montagem e costura são as que mais absorvem mão-de-obra, 80% do total, e sua complexidade dificulta a automação. Assim, em que pese à introdução de inovações tecnológicas, essa indústria continua a ser intensiva em mão-de-obra. (CHINALI, 1997, f. 74).
Recentemente, a indústria calçadista vem sofrendo crises agudas decorrentes do crescimento da concorrência internacional, proporcionado pela chamada “globalização” da produção e comércio.
A cidade de Franca com 287.737 habitantes (IBGE, 2000) tem uma economia baseada na indústria de calçados, possuindo um número considerável de fábricas: 11503 incluindo as “bancas de calçados”.
Nestas últimas décadas, houve um aumento brutal do desemprego na cidade, que pode tanto ser relacionado com os reflexos da “globalização”, bem como aos planos econômicos do governo federal. Em 1986 (antes do Plano Cruzado) houve uma produção de 35 milhões de pares de sapatos, com 36.609
3 Conforme os dados da Prefeitura para o ano de 1994. No entanto, o sindicato patronal de Franca
aponta 400 indústrias, no ano de 1994. Esta diferença de números é explicada por Huzak e Azevedo pelo fato de não ser conveniente aos industriais apontarem a forte presença da indústria informal na cidade. (CHINALI, 1997, p.94) No ano de 2001, o Sindicato das Indústrias mencionam 360 indústrias e calçados. Essa diminuição reflete a crise neste setor, que a partir de 1994 sofreu uma queda brusca na produção, em conseqüência do Plano Real.
empregados na área4. Até julho de 2001 havia apenas 18.547 trabalhadores
(formais) nas indústrias de calçados em Franca, com uma produção estimada em 32,5 milhões de pares de calçados5.
Esse grande aumento de produtividade, está relacionado, dentre outros fatores, com a busca das indústrias por mão-de-obra externa à fábrica, por meio da terceirização6. Devido ao grande número de desempregados com
experiências na produção de calçados, parte dessas pessoas acabou sendo absorvida pelo mercado informal.
(...) associada a estratégias tradicionais de redução de custos, a “terceirização” aparece muitas vezes acompanhada de uma precarização e instabilidade do emprego. Nesse sentido, a redução do emprego formalizado, com a conseqüente eliminação de despesas com encargos sociais e a redução do poder de interferência do sindicato numa conjuntura econômica, pode aparecer como o principal atrativo para a externalização da produção. (GITAHY, 1994, p.152-3 apud CHINALI, 1997, p. 87).
Há uma utilização de serviços terceirizados por meio das “bancas de calçados”(costura mecânica e manual) e/ou do trabalho domiciliar. O Presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Calçados de Franca, Paulo Afonso, analisa a terceirização de serviços na cidade como forma de perda dos direitos dos trabalhadores:
O que vemos hoje em Franca é uma terceirização fraudulenta, que não respeita o ser humano nem seus direitos. Famílias se aglomeram em suas próprias casas para trabalhar 14, 16 horas por dia em condições desumanas. (RIBEIRO, 2002, p.20).
A costura manual de calçados, em sua maioria é feita por meio do trabalho a domicílio, fato este existente desde os primórdios da industrialização do município7, porém drasticamente acentuado a partir da década de 90, em
conseqüência da crise do setor calçadista.
4 CHINALI, 1997, p.98. Quadro demonstrativo da evolução da produção e pessoal empregado na
Indústria de calçados em Franca. 1986 – 1995.
5 Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca.Informações gerais sobre o setor calçadista. 6 “(...) o documento (...) apresentado no Seminário de Competitividade Industrial no Âmbito do
Mercosul realizado em 1994 no Brasil, informa o alto grau de terceirização da indústria de calçados
no Brasil, calculado em 1990 em 80% da mão-de-obra (STICVFR/DIEESE, 1994, p.6)” (CHINALI,
1997, p. 86).
7 “(...) nas indústrias de calçados masculinos de couro de Franca, a terceirização, sob a forma de
transferência de parte da produção para ser realizada fora das indústrias, é uma prática anterior e bastante difundida. O que se observou, em Franca, a partir dos anos 90 foi apenas uma intensificação desse processo que, apesar de ter sido apresentado como uma estratégia moderna
Verifica-se em Franca que as “bancas de calçados” recebem serviços variados das indústrias, sendo os mais freqüentes a montagem e a costura de sapatos. No caso específico da costura manual, as “bancas” ainda distribuem este trabalho para outros trabalhadores em seus domicílios, sendo muito comum haver uma distribuição entre os próprios familiares ou parentes e conhecidos, destacando-se aí as mulheres, as crianças e os desempregados8 em geral.
Nos últimos anos algumas indústrias de Franca deslocaram-se para outras regiões do país, principalmente para o Nordeste, por haver mão-de-obra barata em abundância e pela isenção que os Estados dão dos encargos fiscais, por alguns anos, como forma de incentivo para as empresas. Outro fator de peso nessa migração das fábricas é o fato de Franca possuir um Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Calçados muito forte e atuante,9 o que cria
dificuldades à exploração de mão-de-obra. Essa migração foi feita, sem no entanto, desfazer o complexo industrial da cidade, que continua a utilizar o trabalho informal como estratégia de redução dos salários dos trabalhadores, principalmente da costura manual de calçados, na forma da terceirização dos serviços.
O trabalho do preso em Franca
Nesta mesma lógica de baixa do custo da produção, aparece também o trabalho dos presos. Algumas “bancas de calçados” introduziram a costura manual de calçados na Cadeia Pública de Franca, fornecendo atualmente trabalho para cerca de 170 presos (aproximadamente de 60% do total de presos), conforme relato da direção da Cadeia. Segundo explica Camargo, a utilização do trabalho do preso “transforma a população ociosa em população trabalhadora” (1998, p. 133), a serviço do capital.
O uso da mão-de-obra dos presos para costura manual de calçados sempre ocorreu como forma de baratear os custos. De acordo com a direção da da readequação da produção industrial calçadista, não apresenta nada de novo”. (NAVARRO, 1998, p. 179).
8 “O Sindicato dos Trabalhadores estima que os desempregados de Franca somem 25.000, o que
representa algo em torno de 30% da PEA” (CHINALI, 1997, p. 99). Esta população foi chamada por Marx de população relativamente excedente “Por que relativamente excedente? Porque ela excede momentaneamente as necessidades do capital (...) Mas ela de modo algum é excedente, no sentido de redundante, desnecessária à economia como um todo, inclusive ao modo de produção capitalista. Este, para poder pagar salários compatíveis com a valorização do capital, precisa poder dispor de uma massa de trabalhadores que esteja sendo demitida por algumas empresas e admitida por outras. É uma reserva móvel de trabalho (...)” (SINGER, 2000, p. 11).
9 O Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Calçados de Franca conquistou um piso salarial
que era o maior da categoria no país e uma jornada de trabalho de 44h, antes mesmo da regulamentação da Constituição Federal em 1988.
Cadeia de Franca, data de 1978 a introdução da costura manual na Cadeia. Nesta data os calçados Sândalos S/A e o SENAI elaboraram um projeto de intervenção junto aos presos da Cadeia Pública de Franca com o objetivo de “capacitar mão-de-obra ociosa, facilitando a sua reintegração [do preso] após o cumprimento da pena e proporcionar condições para o trabalho remunerado do detento da própria cadeia” (FALEIROS; MENDONÇA, 1984, p.14).
Porém, a partir da pesquisa desenvolvida pelas autoras (FALEIROS; MENDONÇA), analisa-se que o trabalho foi direcionado essencialmente para a lucratividade da empresa, uma vez que não havia acompanhamento social que proporcionasse reflexão sobre o trabalho, nenhuma atividade sócio-educativa e nenhum dado a respeito de “reintegração” dos presos que trabalharam neste projeto.
O projeto findou-se e desde então houve uma continuidade da utilização da mão-de-obra do preso, para costura manual de calçados. Todavia, já não mais através de projetos de empresas, mas através das “bancas de calçados”. Quando o mercado calçadista sofreu sua grave crise, nos anos 90, as “bancas” aumentaram o envio deste trabalho, conforme relato da direção da Cadeia, o que demonstra a utilização da mesma lógica da empresa.
Conforme relato dos trabalhadores presos em aulas do GAPAF (Grupo de Alfabetização Paulo Freire) na Cadeia Pública de Franca, esse trabalho é realizado sem instrumentos adequados o que causa problemas de saúde, como feridas e fortes dores nos pulsos.
Atingidos ainda pela hierarquia própria do sistema carcerário, em que o medo gerado pelos meios violentos de controle ocasiona atitudes submissas e irracionais, intensifica-se a exploração do trabalho mediada por “atravessadores” que, fora do sistema prisional são as “bancas de calçados” e dentro da Cadeia são os "faxinas", presos com "bom comportamento" que por meio de contatos com as "bancas de calçados" repassam o trabalho ao restante dos encarcerados. Isso agudiza a desvalorização do trabalho dos presos, chegando a ser pago cerca de um quarto do valor de mercado por par costurado.
Por meio de muitas lutas, principalmente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Calçados, o piso salarial do sapateiro em Franca chegou ao valor de R$248,0010. As “bancas de calçados” pagam aos trabalhadores informais da
costura de calçados cerca de R$0,80 por par costurado, sendo que sua renda mensal não ultrapassa R$100,00, devido à descontinuidade do trabalho. Para os presos o valor por par costurado atinge aproximadamente R$0,20.
10 Ibid. O que apesar de ser superior ao salário mínimo atual (R$180,00) e estar bem superior à
renda mensal da maioria dos trabalhadores informais, é insuficiente para proporcionar condições dignas de sobrevivência a uma família.
Do mesmo modo que o trabalho precarizado aparece no trabalho domiciliar, projeta-se para os presos. Há uma procura desenfreada de baixar os custos da produção, própria do capitalismo.
No processo de subcontratação, o trabalho a domicílio é o último elo de uma corrente de progressiva precarização das condições de trabalho. Essa precarização deve ser entendida como uma estratégia permanente do capital. (CHINALI, 1997, p. 108).
A observação da realidade do trabalho dos presos foi feita em visitas semanais à Cadeia Pública de Franca decorrentes da participação de uma das autoras deste trabalho como extensionista do Grupo de Alfabetização Paulo Freire (GAPAF) – UNESP/Franca, que desenvolve um projeto de alfabetização de adultos junto aos presos de Franca, propiciando contato com os trabalhadores presos.
ANAGUCHI, H. Y.; CHINALI, I. G. The shoes’s handcraft sewing in the Public Prison of Franca.
Serviço Social & Realidade (Franca), v.11, n.1, p.187-194, 2002.
• ABSTRACT: Franca has an economy focused in the industrial production of Masculine shoes. In the middles of the 1990 decade, when acuted the crisis of this industry, causing a lot of demissions in this sector, the industries expanded the tertiary work, hustling a significant number of labors (expurgated of the formal market) to the informal market. The handcraft sewing is one of the main shoe’s production steps, being the more susceptible to the work’s tertiarization. More executed in domicile labor, the handcraft sewing activity, relies on the work of children and women, in wretched conditions, with prominence to the basses salaries. This workforce devaluation is connected with the permanent capital search for the reduction of costs in production. Due to this logic, the prisoner labor is included in the shoe’s production, by means of the interests of industries and “intermediates” (person between the factory and the worker).
• KEYWORDS: Informal labor; shoes’s handcraft sewing in Franca; prisoners labor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES, R.L.C. Adeus ao trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 5.ed. Campinas: Cortez, 1998.
CAMARGO, M. S. A Prisão. Serviço Social e Sociedade. São Paulo, v.11, n.33 p. 131-137, ago. 1990.
CHINALI, I. G. A globalização do capitalismo e as políticas sociais. Serviço