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A aventura da paixão do excrito de forma em forma

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Academic year: 2021

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(1)Tradução & Comunicação Revista Brasileira de Tradutores Nº. 27, Ano 2013. A AVENTURA DA PAIXÃO DO EXCRITO DE FORMA EM FORMA The adventure of the passion of the ex-scribed from form to form. Luís Fernando Protásio Universidade Estadual de Campinas Unicamp [email protected]. RESUMO Por habitar o território de uma funcionalidade inter-humana, a linguagem é aquilo que se desvia não apenas da manifestação de um sentido absoluto, próprio, mas de qualquer manifestação, até mesmo da manifestação da metáfora. Esse desvio, ao colocar em uma cena de escrita [écriture] o que Jacques Derrida (2007) entenderá como ao mesmo tempo traço e incisão da linguagem no corpo linguístico (um mecanismo metafórico em linguagem ordinária), extrai de cena a existência de um corpo absoluto (próprio, vivo) que, nesse sentido, terá sido recuado para os bastidores (esquecido, arquivado). Nesses termos, abandonado no limiar da escrita resta, portanto, o corpo que esse movimento de esboço e recuo excreve da cena de manifestação. No limite dessa excrição, a tradução destina-se, como uma missiva, a esse limiar, realizando, em ato, uma deformação que tanto excede a polaridade sentido próprio/sentido metafórico quanto registra, como traço de possibilidade ou abertura para o outro, a aventura oportuna de errar de forma em forma. Palavras-Chave: tradução; escrita; manifesta; deformação; forma.. ABSTRACT. Anhanguera Educacional Ltda. Correspondência/Contato Alameda Maria Tereza, 4266 Valinhos, São Paulo CEP 13.278-181 [email protected]. Dwelling the inter-human territory, language detours itself not only from the manifestation of an absolute, proper meaning, but also from any manifestation, including that of the metaphor. Performing in a writing scene [écriture] what Jacques Derrida (2007) would recognize as simultaneously trait and incision of language in a linguistic body (a metaphoric apparatus in ordinary language), such detour retreats the existence of an absolute body (proper, living), henceforth withdrawn to some backstage space where it remains elapsed. In this scenario, the body that this drive of draft and retreat ex-scribes from manifestation remains abandoned in the threshold of writing. It is at such threshold that the translation aims, performing, like a missive on the edge of this ex-scription, a distortion that both exceeds the classical opposition “proper/metaphoric meaning”, and registers, as trait of possibility or opening to the other, the felicitous adventure of traveling from form to form. Keywords: translation; writing; manifestation; distortion; form.. Coordenação Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE Artigo Original Recebido em: 18/02/2014 Avaliado em: 10/04/2014 Publicação: 30 de abril de 2014. 89.

(2) 90. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. PRETEXTO Em La traduction au manifeste, texto que abre o livro L’épreuve de l’étranger (1984), Antoine Berman afirma, em tom programático que, no século 20, a reflexão sobre a tradução finalmente passou das mãos dos “teólogos, filósofos, linguistas e críticos” para as dos “tradutores”. Esse fato, de acordo com o autor, indica da “necessidade íntima” de ela, a tradução, “tornar-se uma prática autônoma” (p. 12). Em outras palavras, “manifestar-se”, revelar-se, sair do “reino das sombras” que habitaria para, finalmente, empreender “uma reflexão moderna sobre a tradução” que aponte para uma “ciência da tradução”. Mais tarde, em L’âge de la traduction (1999), seminário proferido no Colégio Internacional de Filosofia, em 1985, sobre Die Aufgabe des Übersetzers, famoso prefácio que Walter Benjamin escrevera à tradução de alguns poemas de Baudelaire, Berman reconfigura essa questão ao introduzir a ideia de comentário. Em suas palavras: Uma questão fundamental é que o texto de Benjamin não se permite senão um comentário. E o fato de um texto sobre tradução exigir, para ser esclarecido, tal abordagem, tampouco é uma questão a se desconsiderar [...] Todo comentário de um texto estrangeiro comporta um trabalho de tradução. No limite, é tradução. Inversamente, toda tradução comporta um elemento de comentário. (BERMAN, 1999, p. 12, ênfases no original)1. Como esse trecho sugere, o que sobra, por fim, é a necessidade (e, talvez, a urgência) de se abordar a tradução de uma maneira mais ampla, a partir de uma perspectiva que não a reduza à passagem de uma língua para a outra (não se contenha na famosa “tradução propriamente dita”, na expressão perpetuada por Jakobson), mas que articule também a relação de uma língua com a outra (DERRIDA, 1996) e considere a passagem da “coisa em si”, idem a si mesma, para sua nomeação, seu reconhecimento na língua e como língua, sua transformação em língua − passagem que justamente corporifica o delírio (DELEUZE, 2011) ou a loucura (BLANCHOT, 2011) fundados na Aufgabe [tarefa/renúncia] que Benjamin (2008 [1923]) aborda tão brilhantemente no prefácio em questão. Em outras palavras, a necessidade de tocar além do escrito – ainda que em tal aventura seja possível apenas vislumbrar o excrito, ou seja, aquilo que se retrai da cena da inscrição. A fim de apreciar essa aventura, proponho testar a trajetória arqueológica empreendida por Berman em seu famoso livro L’épreuve de l’étranger (1984). Para isso, será preciso colocar à prova, oferecer à experiência e à experimentação (ou seja, ao fazer correr o risco) (1) a ideia de tradução como movimento crítico ou, em outras palavras, a ideia de que a tradução, como manifesto, manifesta-se; (2) a ideia de que a tradução, como forma, deforma, tal como sugere uma leitura desconstrutivista do prefácio A tarefa do tradutor, de. 1. Todas as traduções não referidas são minhas.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(3) Luís Fernando Protásio. 91. Walter Benjamin e (3) a ideia de relação entre tradução e manifestação de alguma coisa (um significado, uma significação) ou, de dizendo de maneira mais simplificada, mas também mais problemática, a ideia de “tradução como relação”. Para isso, será preciso confiar que você, leitor, escute entre escrito e excrito a homofonia que sobra no limbo do que falo, do que se fala. Para isso, será preciso supor de você dê ouvido à escuta, apostar que um saber, em algum lugar, vacile, isto é, oscile provisoriamente. Essa confiança, essa suposição e essa aposta, não se esqueça, já estão lá no começo de toda cena de tradução − já são a possibilidade da tradução acontecer. (...) Duas vozes falam, abra suas orelhas, duas vozes vão falar: uma escrita, manifesta, e outra ex-crita, recuada da cena de manifestação.. TESTE 1 – A IDEIA DE PROVISORIEDADE DA TRADUÇÃO; A PERTINÊNCIA DE RECONTAR A AVENTURA IMPRESCINDÍVEL DA TRADUÇÃO: TRÊS CAMINHOS DEFORMADOS Comecemos pelo vínculo estrutural (então “imprescindível”) entre, de um lado, a provisoriedade da tradução e, de outro, a possibilidade da tradução que, no prefácio “A tarefa do tradutor”, Benjamin irá chamar de traduzibilidade (outro nome para o intraduzível,). Melhor: comecemos pelas maneiras como esse vínculo abre espaço para pensar a formação de um discurso emancipatório que faça emergir o que o Daniel do Nascimento e Silva (2011), retomando Austin, chama de um “saber da ordem da práxis e não do cogito”. Em outras palavras, como o imprescindível que ata provisoriedade e traduzibilidade da tradução emerge como um lugar de escrita, de registro e funciona como campo simbólico de um discurso que passa da ordem da representação à ordem da ação, do constativo ao performativo, da iteração à iterabilidade. Para falar dessa passagem, desse movimento (portanto, ação, ato) de passagem, escolhi (primeiro corte) colocar ênfase num aspecto que, creio (e isso é uma hipótese: é a hipótese de Walter Benjamin em A tarefa do tradutor), escolho colocar ênfase num aspecto que enoda provisoriedade, traduzibilidade e performatividade: a emancipação, ou, melhor dizendo, o espectro de certo ideal emancipatório (ideal no sentido de ideia utópica, algo, portanto, da ordem do sublime e não do simbólico) que assombra não só a tradução como espaço de ação da linguagem (espaço em que a linguagem age e atua), mas. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(4) 92. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. assombra também − e isso talvez seja mais grave − a instituição “Universidade” como (supostamente) espaço de produção e divulgação de conhecimento.2 Talvez, portanto, seja o momento apropriado de retornar ao texto de Benjamin. Proponho fazê-lo percorrendo três caminhos. Primeiro caminho: a deformação da provisoriedade. “Toda tradução é apenas uma forma [Art], de algum modo provisória [vorläufige], de lidar com a estranheza das línguas.” O provisório a que alude Benjamin [Vorläufige: por ora, por agora, por enquanto a título de, no lugar de – ou seja, por empréstimo], como vocês veem, diz respeito tanto a um sentido temporário, transitório, quanto a um sentido espacial. Claro que um purista que procure no dicionário encontrará “provisório” para vorläufige e, claro, também, que “provisório” supõe “a provisão, o provimento e a providência”, criando uma rede de significados bastante estimulante para as teorias da tradução. Entretanto, mais do que isso, “provisório” implica um “final”, um “terminal” no horizonte – algo que existe, apenas ainda não foi alcançado. Além disso, por enfatizar a questão do tempo (ora, agora, por enquanto) em detrimento da questão do espaço (a título de, por empréstimo, no lugar de), nele também previsto, proponho desfigurar vorläufige ao ponto da incerteza e sugiro traduzi-lo por “precário”, significado que corre subterraneamente em “provisório” mas que, diferentemente deste, não implica um “final”, um “terminal” no horizonte, uma vez que enfatiza a questão espacial para além da temporal. Se digo que a tradução é uma forma provisória de lidar com o outro (o estranho, o estrangeiro), afirmo, com isso, que é. Afirmei que o espectro de certo ideal emancipatório assombra tanto a tradução quanto a instituição “Universidade”. No caso da tradução como espaço de ação da linguagem, o espectro do ideal emancipatório incorpora questões institucionais e toma a forma de um suposto problema do qual, de modo igualmente suposto, os Estudos da Tradução [Translation Studies] seriam a solução: o suposto problema é: a emergência da tradução como campo independente; a suposta solução é: a emancipação da tradução tanto da Literatura quanto da Linguística. No caso da “Universidade” como espaço de produção e divulgação de conhecimento, o espectro do ideal emancipatório se traveste de ideal democrático (mas qual democracia?) e ganha força renovada nas políticas institucionais derivadas de uma leitura viciada de políticas federais mais amplas. Em que sentido?: ao sugerirem acolher o diferente de modo a garantir a manutenção de uma democracia salvadora. Dois problemas aqui que, pelo limite de tempo, deixo apenas indicados: 1) defender que a emancipação se dá apenas no espaço institucional da Universidade é repetir um gesto soberano criticado já lá em Foucault (1976) e reincidir na fórmula positiva que supõe superar; 2) acolher o diferente não significa acolher a diferença, e isso, me parece, não é considerado. Em ambos os casos trata-se de um ideal emancipatório clássico, ideal que, como Derrida sugere em A origem da geometria de Husserl (1989 [1962]) por ser obsoleto, datado, exige ser revisitado criticamente (de acordo com Derrida, esse seria o gesto de Husserl ao reconectar, em seu livro, a atitude teórica de algumas ciências – no caso, a geometria – com contextos históricos e sociais determinados. Em outras palavras, lembrar o vínculo entre teoria e prática Porém, o ideal emancipatório que a tradução ensaia tocar é de outra ordem: para começar, não é da ordem do sublime, mas do simbólico, isto é, diz respeito ao que pode e somente ao que pode ser escrito, registrado e não unicamente pensado (entramos no campo da práxis). Por isso trata-se, como eu disse, de um “discurso emancipatório”. E esse discurso, para começar a pensar em responder às demandas de uma práxis antes de um cogito, de uma “pragmática renovada” (isto é, de uma pragmática inconcebível como “teoria” − daí o erro clássico de John Searle), pensar, enfim, em responder às demandas de uma práxis antes de um cogito precisa, primeiro, operar um duplo reconhecimento: (1) o reconhecimento dos limites de uma “pedagogia da tradução” e (2) o reconhecimento das possibilidades de um “ensino” ao mesmo tempo da e de “tradução”. Esse último reconhecimento pode parecer mero jogo de palavras para determinado pensamento analítico − especialmente o anglófono. É, entretanto, ação, performance da palavras, e isso redimensiona o problema da emancipação. Deixo essas considerações em suspenso, limitando-me a insinuar o seguinte: é nesse duplo reconhecimento que, a meu ver, os estudos em tradução contemporâneos (os Estudos da Tradução) falham − uma falha que ganha corpo não apenas na evidente e cada vez mais escandalosa distância que a teoria toma da prática, mas também (e essa é a ironia) nas abordagens ditas descritivas ou cognitivas (portanto, pretensamente científicas), cujo objetivo é mapear a atividade tradutória (geralmente mediada pela máquina) de modo a aprimorar a “expertise” do tradutor “profissional”. 2. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(5) Luís Fernando Protásio. 93. possível lidar com o outro (o estranho, o estrangeiro), ainda que, por ora, esse escopo possa não ter sido atingido. Porém, se digo que a tradução é uma forma precária, insinuo que não há como lidar com o outro se não de forma incerta, incompleta. Assim, desloco o texto de Lages, retraduzindo-o, de maneira bastante débil, da seguinte forma: “De algum modo precária [vorläufige], toda tradução é apenas uma forma de lidar com a estranheza das línguas.” Por entender a precariedade imprescindível à tradução, tomo a liberdade de deslocá-la para a posição de início da sentença, lugar onde ganha destaque sintático. Segundo caminho: a informação da traduzibilidade. “A traduzibilidade [ bersetzbarkeit] é uma propriedade essencial de certas obras” (BENJAMIN, 2010, p. 205). A palavra alemã para traduzibilidade,. bersetzbarkeit, não chega a ser um neologismo,. mas é uma palavra estranha na língua. De acordo com Samuel Weber (2008), Benjamin usava o sufixo –barkeit (algo como –abilidade, −ibilidade) como mecanismo linguístico de inscrição de conceitos (“criticabilidade”. [Kritisier-barkeit],. “reprodutibilidade”. [Reproduzier-barkeit],. “traduzibilidade” [ bersetz-barkeit]). Mas o que Weber nota de mais relevante é o fundo que enoda todos esses conceitos: o sufixo –barkeit, o índice da força ou da potencialidade registradas, escritas na qualidade, na condição do substantivo que Benjamin está alçando à conceito. Explico: criticabilidade é a potencialidade ou possibilidade da crítica, reprodutibilidade é a força ou a possibilidade da reprodução, traduzibilidade é a possibilidade estrutural da tradução. Tendo isso em conta, sugiro uma segunda deformação no texto de Lages: trata-se da tradução da palavra Fremheit. Embora “estranheza” seja uma escolha certificada para “Fremdheit”, o termo alemão arquiva uma sutileza que, creio, merece atenção. Veja: como ancora a qualidade ou condição de ser estrangeiro [o sufixo –heit] em uma fórmula constativa, descritiva que marca o substantivo, o nome [Fremd, “estranheiro, alheio”], sugiro ler Fremdheit, dando sobrevida, em certo sentido, à proposição de Samuel Weber, como “estrangeiridade”, isto é, a força, potencialidade ou condição daquilo que, nas línguas, resta estrangeiro, alheio, e resiste à tradução. Enquanto “estranheza” diz respeito ao diferente, ao estranho, “estrangeiridade” diz respeito à diferença, ao estrangeiro3. E o que resiste à tradução, nessa sentido, é menos o estranho (que, se pensarmos com Freud, já habita em nós, sendo, então, da ordem do próprio) do que o estrangeiro, o alheio. E é nesse sentido que a traduzibilidade é outro nome para o intraduzível em toda a sua exigência. Portanto: “De algum modo precária,. Lamy e Nouss traduzem Fremdheit pelo neologismo “Xénophanie”, que explicam na nota 35: “Nous proposons ce néologisme pour traduire Fremdheit, la qualité ou la condition d'être étranger, afín de ne pas utiliser « étrangeté » qui reçoit une autre charge sémantique ou « étrangèreté » qui nous paraît inélégant.” (op. cit., p. 52). Todavia, “étrangèreté”, apesar de “deselegante”, teria revelado o ruído do sufixo “-barkeit”/“-ability” discutido por Samuel Weber, motivo pelo qual é minha escolha. 3. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(6) 94. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. toda tradução é apenas uma forma de lidar com a estrangeiridade [Fremdheit] das línguas.” Terceiro. caminho:. a. aventura. da. performatividade.. Como. disse,. a. performatividade diz respeito à passagem da iteração à iterabilidade, isto é, à discursividade da iteração, se assim pudéssemos chamar a iterabilidade − algo que os sofistas, por exemplo, fazem ao questionarem o ser do não-ser, operando, assim, a passagem do clone ao avatar (“o não-presente que não é ausência”, como lemos em Barbara Cassin). A iterabilidade é, nesses termos, o negativo da “iteração”, o que não quer dizer que seja a negação (isto é, a anulação pelo contrário) da “repetição”, mas a possibilidade, a potencialidade da iteração (iter-ability). Essa potencialidade da iteração, essa repetição transformadora ocorre como “performatividade” no texto de Benjamin quando o francês de um certo Mallarmé corta o alemão do prefácio. Esse corte encena (trata-se de performance, de ação) a passagem do ideal emancipatório da ordem do sublime, da iteração para um discurso emancipatório da ordem do simbólico, do excrito, da iterabilidade − que, no texto de Benjamin, resta como “saber inconsciente” acessível apenas por meio de suas possíveis traduções, portanto, acessível apenas de forma precária – por exemplo, a famosa disputa em torno da tradução de “Aufgabe”4. Considerados esses termos, sugiro um último deslocamento no texto de Susana Lages. Lida como “forma”, palavra Art inscreve a hipótese de “A tarefa do tradutor” no campo do constativo, já que destaca a tradução como “modelo, molde, feição”. Essa leitura, aliás, é certificada na medida em que ecoa o que lemos em certo momento no texto de Benjamin: “A tradução é uma forma,. bersetzung ist eine Form” (BENJAMIN, 2010,. p.205). Entretanto, palavra usada no trecho em destaque, Art, diz respeito à condição, maneira, o que faz mais sentido em minha proposta. Assim reposicionado, o trecho em questão lê-se: “De algum modo precária, toda tradução é a única condição [Art] de lidar com a estrangeiridade das línguas.” Apenas em tradução é possível, de forma precária, lidar com o outro. Entendo que falo de muitas coisas muito rapidamente e ligo-as de modo bastante precário, mas posso apenas confiar que, no intervalo entre o que sai de minha boca e o que entra no ouvidos de vocês, algo aconteça, um ato, provisório, se realize. Posso apenas supor de vocês ouvidos à escuta, apostar que um saber, em algum lugar, terá emergido, provisoriamente. Essa confiança, essa suposição e essa aposta, não se esqueçam, já estão lá no começo de toda cena de tradução − elas são a possibilidade da tradução acontecer. E a possibilidade da tradução, recuada da cena de manifestação (do escrito) para o lugar de. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(7) Luís Fernando Protásio. 95. potencialidade de iteração (o lugar do excrito), emerge como precariedade ou como ruído na origem.. Ruído 1 Maurice Blanchot, no texto Traduzido de..., incluído no volume A parte do fogo, afirma que um tradutor hábil (qualifié) deve, em primeiro lugar, considerar que a impressão de que a linguagem em tradução é uma linguagem emprestada à qual sempre resta algo a dizer. Uma sobra, uma escolha. O que sobra, o que deve sobrar a dizer e que, sobrando a dizer, diz? Vejamos duas possibilidades: (1) Jacques Derrida, “The retrait of Metaphor” (2007). Cito: A partir do momento que se excreve [withdraws] removendo-se e retirando-se, o traço [trait] é a priori retrait [retraço; retirada], excrição, nãoaparência [unappearance] e supressão [effacement] da marca de seu primeiro corte. Sua inscrição, como tentei articular com relação ao rastro [trace] ou à différance, acontece apenas ao ser e por ser suprimido. (DERRIDA, 2007, p. 75)5. (2) John L. Austin, “How to do Things with Words” (1975): In these lectures, then, I have been doing two things which I do not altogether like doing. These are: (1) producing a programme, that is, saying what ought to be done rather than doing something; (2) lecturing. However, as against (1), I should very much like to think that I have been sorting out a bit the way things have already begun to go and are going with increasing momentum in some parts of philosophy, rather than proclaiming an individual manifesto. And as against (2), I should certainly like to say that nowhere could, to me, be a nicer place to lecture in than Harvard. (AUSTIN, 1975, p. 164). If not an individual manifesto but rather unappearance, o que essas palavras de Derrida e de Austin, deformadas pelo trabalho de citação, advertem e, advertindo, informam?.. TESTE 2 – A IDEIA DE TRADUÇÃO COMO MANIFESTO; A IDEIA DE QUE A TRADUÇÃO MANIFESTA-SE Em sua trajetória arqueológica em busca dos fundamentos para uma “ciência da tradução” Berman afirma que o próprio da tradução é “ser abertura, diálogo, mestiçagem, relação”. Mobilizando um aparato teórico escavado nos atos de tradução realizados nesse. Tarefa e renúncia. From the moment that it withdraws in drawing and pulling itself out, the trai tis a priori retrait, withdrawal, unappearance, and effacement of the mark in its first cut. Its inscription, as I have attempted to articulate with regard to trace or differance, succeeds only in/by being effaced. 4. 5. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(8) 96. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. idealismo alemão, Berman esboça o caminho para uma “ciência da tradução”. Tal ciência ou reflexão seria fundada, de acordo com o autor, nas bases de um tríplice investimento (uma tríplice visada: história, ética, analítica) e é essa visada que serve, ainda hoje, de ementa para os problemáticos projetos disciplinares da “Tradução” como área autônoma, isto é, independente (como se fosse possível) tanto da Linguística quanto da Literatura. Com efeito, será nesses termos (nos termos de uma “ciência da tradução”, em defesa da tradução) que a arqueologia empreendida por Berman em seu livro reivindicará a transformação do saber da tradução (um saber, nesse sentido, não apenas determinável, mas principalmente recuperável) em objeto (de análise, de crítica, de estudos...). É essa transformação do saber da tradução em manifesto da Tradução ao mesmo tempo que em manifestação da Tradução o que festejam, por exemplo (exemplo, aliás, do próprio Berman), as traduções de Haroldo de Campos ou, ainda, outro exemplo, também de Berman, as autotraduções de determinados escritores, especialmente aqueles engajados com políticas linguísticas em defesa de línguas ditas minoritárias no campo da Literatura (por exemplo, o catalão, o russo, o português). Em ambos os casos, a tradução é colocada em relação com a criação e a crítica literária). Ela é um manifesto (de autonomia) e ela manifesta-se (como tal) apenas com relação a... ainda que essa relação seja arbitrária. Investe-se, como vocês veem, na relação que funda o signo saussuriano (significado barra significante; a barra sendo o que estabelece a relação e uma hierarquia). Mas, no entanto.... Ruído 2 “L’effacement soit ma façon de resplendir.” Essa é uma frase do poeta Philippe Jaccottet citada por Berman na conclusão de L’épreuve de l’étranger. “L’effacement soit ma façon de resplendir.” “Seja a excrita minha medida de luzir.” Mas o que isso diz? O que isso quer dizer? Quero dizer: no nível da significação? Alguma coisa acontece, vocês veem, alguma coisa precisa acontecer com o corpo. Mas esse corpo não é segurança alguma, garantia viva alguma de uma presença qualquer: ele é o primeiro corpo, o corpo inaugural da “palavra”, do “discurso. Em certo sentido (no sentido unidirecional, convencional, linear, lógico, analítico), isso (essa frase) aponta para uma interação, e pressupõe uma “relação”. Estamos no domínio convencional do signo, domínio do linguista, mas também do tão famoso native speaker. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(9) Luís Fernando Protásio. 97. Em outro sentido, porém (no sentido rizomático, performativo, poético ou mitopoético) isso suspende a ação, e aponta a “não-relação”, uma promessa – exigência do perfomativo − deixada para depois, deslocada para além da barra ou do corte do signo linguístico. Barra ou corte que serão responsáveis pelas formações que a tradução terá que enfrentar, terá que atravessar (de outro modo, não se traduz): os chistes, os atos falhos, os esquecimentos… o poético… Entre significado e significante alguma coisa cai... Mas o quê? O que cai? O que é preciso fazer cair em tradução para uma tradução ser, enfim, não manifesta, mas relevante.. TESTE 3 – A IDEIA DE RELAÇÃO ENTRE TRADUÇÃO E MANIFESTAÇÃO; A IDEIA DE TRADUÇÃO COMO RELAÇÃO Em A prova do estrangeiro, a expressão “pulsion du traduire” foi convencionalmente traduzida por “pulsão de tradução”. Essa tradução, entretanto, por escrever-se na tradição linguística saussuriana (um conceito em relação à uma imagem acústica, de onde justificam-se as autoridades tanto dos dicionários quanto dos “native speakers”) não manifesta “a tradução”, não retira a tradução do “reino das sombras” (já que repete inadvertidamente um “equívoco”). Essa tradução simplesmente transmite um erro. Se for assim, essa expressão (admitamos que se trate de uma expressão), precisaria escorregar do campo da bêtise, isto é, do “humano” para o campo do animal, isto é, do não-humano e, levando em conta toda a história de uma disciplina (a psicanálise a que Berman parece querer fazer diálogo nesse ponto), ser mais ou menos traduzida como “instinto de tradução”, embora uma tradução menos certificada, mas mais manifesta (no. sentido. de. reveladora). para. “pulsion. du. traduire”. talvez. tivesse. sido. “traduzibilidade”. Essa tradução, creio, ata a obra tanto à tradução quanto à crítica – algo que Walter Benjamin mais tarde chamará de traduzibilidade (no prefácio da Tarefa) e de criticabilidade (na dissertação sobre o drama barroco alemão). É claro que entendo que essa escolha seria, para uma certa casta de teóricos da tradução, um desvio impertinente, para não dizer que fosse, talvez até, deformação desrespeitosa já que, em certo sentido, a tradução (para não dizer o tradutor, embora seja, também, o tradutor) estaria trocando Freud (seria, mesmo, Freud?) por Benjamin (“traduzibilidade” é um “conceito” de Benjamin), invadindo um eco de psicanálise com um ruído de filosofia, rasurando uma com a outra, e rompendo, como isso, a relação “verdadeira” [pois dicionarizada, certificada pelo uso, pela convenção e pelo dicionário]. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(10) 98. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. com o texto, o “significado” [o sentido] “verdadeiro” [primeiro e, de certa forma, até óbvio, raso] do texto. Exatamente. Pois trocar, invadir, rasurar e romper, todos sabemos, são também nomes que a história dá para “traduzir”. Como se vê, institui-se, ao traduzir “pulsion du traduire” por “traduzibilidade” a (não)relação com o qual o traduzir e uma tradução haverão, justamente, de lidar. Não há relação entre significado e significante, o que é outra forma de dizer que a tradução, passando de significante a significante, é puro movimento de significação. Em outras palavras, ao se traduzir “pulsion du traduire” por “traduzibilidade” não se faz nada menos do que recuar, para o campo do significante, o traço de possibilidade da tradução − nem força, nem ainda potência, mas, como diz Derrida em outro contexto, puissement, isto é, “o vacilo do subjuntivo que vibra com o desejo... le puis-sement” (CALLE-GRUBER, 2001, tradução minha). E no campo do significante, vocês sabem, não há manifestação alguma e, portanto, não há “significado verdadeiro” algum. Apenas vacilo de um subjuntivo vibrando com o desejo. E isso quer dizer, portanto, que não há relação alguma em tradução. E isso quer dizer que para o saber da tradução formar manifesto da Tradução ao mesmo tempo que manifestação da Tradução ele precisa ser excrito. E isso quer dizer que algo precisa sobrar.. Ruído 3 Cenas de forma em forma Em 1940, um grupo de jovens encontrou, nas paredes de uma pequena caverna no sul da França, uma série de desenhos que, posteriormente, estudos arqueológicos concluiriam se tratar de pinturas rupestres com aproximadamente 17 mil anos de idade. Interessante desse fato é que as gravuras das paredes do que descobriu-se ser um conjunto de grutas que ficaram conhecidas como Lascaux não eram justaposições de animais e de instrumentos em um mesmo plano, como é o mais frequente na arte paleolítica, mas representavam cenas completas, o que leva à hipótese de se tratar de representações de episódios mitológicos ou mitopoéticos, muito embora o significado de tais episódios permaneça um enigma. O que se passa na narrativa a seguir parte e é parte desse enigma.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(11) Luís Fernando Protásio. 99. Figura 1. Unicórnio. Sala dos Touros, 16.000 – 14.000 AC, Grutas de Lascaux, França (reprodução). Interferência: uma tradução... (Começamos com a cena originária do poeta francês René Char que bordeja o tecido excêntrico de um ensaio de Maurice Blanchot. Trata-se do poema “La Bête innommable” que inaugura o ensaio “La bête de Lascaux”. Antecipando uma conclusão de leitura, tratase do que é humano e é não-humano, nomeável como inominável, como apenas uma tradução terá sido capaz de revelar.). Cena inaugural: iminência de tradução, imanência da tradução Em O efeito sofístico (2005), lemos: “Não é o discurso que comemora o de fora, é o de fora que se torna revelador do discurso” (p. 62). Depois do poema de René Char, só posso ler esse “discurso” como “discurso escrito” e isso me leva a algumas considerações sobre a tradução e o traduzir. Apenas promessa de significação – mas para depois. Depois de uma aventura, depois de uma tradução... LA BÊTE INNOMMABLE La Bête innommable ferme la marche du gracieux troupeau, comme un cyclope bouffe. Huit quolibets font sa parure, divisent sa folie. La Bête rote dévotement dans l’air rustique. Ses flancs bourrés et tombants sont douloureux, vont se vider de leur grossesse. De son sabot à ses vaines défenses, elle est enveloppée de fétidité.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(12) 100. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. Ainsi m’apparait dans la frise de Lascaux, mère fantastiquement déguisée, La Sagesse aux yeux pleins de larmes. (René Char, 1952). Cena excrita: uma aventura; uma tradução... Abraçando o “momento oportuno” do poema La Bête innommable, de René Char, com o ensaio La bête de Lascaux, Maurice Blanchot desvia e deforma justamente o “humano” dessa função inter-humana do símbolo. E o destitui (e traduz) ao aproximá-lo da – cito Blanchot − “palavra oracular que não dita nada, que não obriga a nada, que não fala em si, mas que faz desse silêncio o dedo imperiosamente fixado em direção ao desconhecido”. Desconhecido aqui diz respeito ao inumano animal, ao super-humano ou ao sobrehumano divino (a palavra oracular, afinal de contas, não fala em si justamente porque é a fala de um deus, então ausente). Suponhamos que esse desvio ou deformação operados pelo texto de Blanchot torne presente uma cena, uma cena originária de escrita, de registro, de logos – portanto, uma cena simbólica. Afinal, “o homem é o animal dotado de logos”, lemos na Política de Aristóteles. Suponhamos ainda que, dessa cena, dessa cena originária de escrita, um corpo absoluto (em sentido próprio, vivo, biológico, zoé) seja recuado (esquecido, arquivado) e que, nesse lugar de bastidores (no teto ou nas paredes, ou seja, nas “bordas” da cena), esse corpo recuado narre, como Oráculo ou como voz que fala em off, uma sequência de ações ordinárias (por exemplo, a caça de um cervo, o duelo com um búfalo, a oferenda a um deus). Esse recuo da cena de escrita [da scène d’écriture], por sua vez, é ao mesmo tempo [1] traço [trait] de linguagem num corpo (simbólico) (terá havido logos ali – na gravura inscrita na parede) e [2] incisão/começo [entame] da linguagem no corpo (biológico) (terá havido animal ali – atrás da gravura inscrita na parede). Por causa do mecanismo desse duplo recuo, Derrida (2007) entenderá que a metáfora (o mecanismo metafórico em linguagem ordinária) acontece num “fora de cena” (por exemplo, fora do consciente, fora do corpo biológico, vivo). São cenas de excrição aquelas que se inscrevem nas paredes escuras do interior de uma caverna mitopoética onde Blanchot reencontratá o saber no corpo da Sabedoria (Sagesse), da “parole écrite: parole morte, parole de l’oubli” do nomeado inominável vislumbrado pelo poeta René Char. Imaginemos, dessas cenas de excrição, uma tradução (será a minha). Do poema de René Char, “La Bête Innommable”, primeiro traduzo como “A criatura inominável”. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(13) Luís Fernando Protásio. 101. Mas isso ainda recupera apenas um corpo vivo, biológico e não é disso que se trata, já que essa tradução apenas comemora o ser, o “de fora” (fora da cena). Entretanto, em minha leitura, como disse, trata-se do corpo originário da palavra e da fala – do “discurso”, portanto, que se deve revelar. Insinuo “O Inominável”, trazendo para o primeiro plano o ruído de Samuel Beckett, fazendo ele (Beckett, o ruído) falar. Então traduzo à seu modo: “Como um ciclope, grotesco, o Inominável encerra a marcha do gracioso concurso”. Ou ainda: “Devoto, arrota o Inominável no ar agreste”. Retiro da cena da tradução o corpo biológico (aqui, “la bête”) e, enxertando-o no centro da oração, a meio caminho entre decidível (“ciclope”, biológico e mitológico) e indecidível (“agreste”, espaço e metáfora), isso fala. Prossigo. Agora, uma tradução do título do ensaio de Blanchot: “La bête de Lascaux”. Tenhamos em mente a palavra (bête) e toda a história da palavra escrita, desde o Fedro com o qual inicia Blanchot. Tenhamos em mente, então, o logos. “A criatura de Lascaux” é minha primeira sugestão. Mas então tenho essa palavra, “criatura”, e ela diz de “bête”, justamente, o que não é: “animal” sem logos. Entendo que não se trata (no poema de René Char) do animal, e tampouco da gravura do animal na parede de Lascaux. Que animal é esse, então? De que se trata? Entendo (por causa do encadeamento com o Fedro que Blanchot precisamente começa) entendo que se trata do não-humano que não é o animal, o não-humano que enviou, como missiva, alguma coisa ali – o animal, a gravura do animal. Entendo que “bête” é, portanto, o não-humano excluído da cena de escrita, recuado da cena da palavra, retirado da cena do logos. Impossível traduzi-lo, se assim for, por “besta”, “animal” ou “criatura” – embora um filólogo, apoiado em todos os dicionários e vocabulários e glossários do mundo, prove, através de lógica aristotélica, que não, que “bête” traduz-se por “besta”, “animal”, “criatura” e que outra coisa seria puro exercício de deformação − sofística até. Bem, mas 17 mil anos atrás... E, de qualquer forma, “terá havido logos ali”, “terá havido animal ali”. Minha tradução precisa, portanto, abandonar-se ao que Blanchot, em seu ensaio, chama de “o corte de uma decisão”. Devo confiar no risco (no trait) e confiar alguma coisa ao risco de traduzir o título de Blanchot por aquilo que, no título de Blanchot, excreve-se da cena: o não-humano de Lascaux, recuado, retirado, excrito da cena do logos. Corro o risco e traduzo “La bête de Lascaux” como “O homem de Lascaux”, esperando que essa tradução do fora revele um discurso e seja, como diz Barbara Cassin em O efeito sofístico (2005),. “inteiramente. um. performativo,. no. sentido. austiniano. do. termo”.. E. imediatamente alguma coisa falta e imediatamente alguma coisa resta.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(14) 102. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. Cena recuada: ...e depois Resta um saber e falta “a tradução”... e depois? Restam o homem de Lascaux, excrito, e o percurso da missiva que ele nos enviou. Restam os traços nas paredes de Lascaux e resta a bête ao mesmo tempo inominável e nomeada, intraduzível e traduzida. Inominável porque sem um nome próprio (a figura mostra um animal aparentemente fantástico para o qual nossas línguas não têm um nome; um animal, portanto, silenciado ou excrito). Nomeada porque inscrita, negativamente, como símbolo, como corpo vivo, o que atesta a grafia da maiúscula. Alguma coisa acontece com o corpo, o corpo excrito da cena de escrita. Território do símbolo, território do “limbo”. Mas isso é, ainda, como sempre, vocês percebem, Platão – ou melhor, a desconfiança de Platão com respeito à palavra escrita – uma desconfiança que, como já sublinhou Derrida, e que agora, portanto, não nos resta senão repetir “trata, nada mais, nada menos, que da passagem à filosofia”. Passagem que uma tradução de “bête” por besta, animal ou criatura irá apagar. E isso é sempre uma aventura a ser narrada. E isso é sempre uma paixão a ser vivida. Em tradução, essa paixão será justamente encenada (nos bastidores – e isso é importante sublinhar) pela barra ou pelo corte entre significado e significante; barra ou corte que, em tradução, tornam-se espetáculo ao tirarem dos bastidores da linguagem ordinária um “aparelho performativo” – ao, de fato, fazerem (barra ou corte) algo com as palavras. Não é outra coisa, aliás, o que Austin provoca ao fazer irromper, no interior mesmo do aparelho da linguagem, um mecanismo linguístico (os atos de fala) que extrapola (excede) o corpo (vivo, físico, mas também linguístico, da língua) ao mesmo tempo em que atua tanto nesse corpo (vivo, físico), gerando nele o que pode ser compreendido como “transformação”, quanto nesse corpo linguístico, deslocando-o para o campo do somático e do histórico. “Ao mesmo tempo em que” deve aqui ser compreendido como um corte na discursividade do tempo ele mesmo. Esse espetáculo, esse corte na discursividade do tempo ele mesmo manifesta-se (isto é, flameja) em umas das sentenças mais intraduzíveis da intraduzível narrativa de Maurice Blanchot, La folie du jour (2002 [1973])/The Madness of the Day (1995): Et ce jour s’effaçant, je m’effacerai avec lui. And when this day fades, I will fade along with it Recuando a manifestação para trás de uma sintaxe cartesianamente simétrica e de. uma. cadência. pueril,. essa. frase. excreve. (retrai),. como. passagem. (s’effaçant/m’effacerai), o próprio corpo que passa (alguma coisa entre “jour” e “je”, a. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(15) Luís Fernando Protásio. 103. loucura6) – daí Blanchot, em outro texto (Traduire), dizer que “traduzir é, no fim das contas, loucura”. Alguma coisa acontece, como vocês veem, alguma coisa precisa acontecer com o corpo, com o corpo excrito na cena de excrição, recuado para o limite, retraído até o limiar. Ou até o limbo. No limbo, território do “limbo”. Trata-se da última fala (será uma fala?) de La folie du jour (2002 [1973])/The Madness of the Day (1995): “Un récit ? Non, pas de récit, plus jamais.” Ou: “A story? No. No stories, never again.” Ou, ainda, talvez: Narrar? Não, não. Não há narração. Embora... embora, em cada uma dessas línguas (francês, inglês, português), essa frase narre, em tradução, a aventura da paixão do excrito de forma em forma... REFERÊNCIAS AUSTIN, John L. How to do things with words. 2.ed. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1975. BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. Tradução: Susanna Kampf-Lages. In: BENJAMIN, Walter. Escritos sobre mito e linguagem. (Org. Jeanne Marie Gagnebin). São Paulo: Editora 34, 2011) ______. Die Aufgabe des Übersetzers/A tarefa do tradutor. Tradução: Susana Kampff Lages. In: HEIDERMANN, Werner (org.). Clássicos da teoria da tradução. 2.ed. Florianópolis: UFSC/Núcleo de Pesquisas em Literatura e Tradução, 2010. BERMAN, A. L’épreuve de l’étranger. Culture et traduction dans 1'Allemagne Romantique. Paris: Gallimard, 1984. ______. A prova do estrangeiro. Cultura e tradução na Alemanha Romântica. Herder, Goethe, Schlegel, Novalis, Humboldt, Schleiermacher, Hölderlin. Tradução: Maria Emília Pereira Chanut. Bauru, SP: EDUSC, 2002. ______. Pour une critique des traductions: John Donne. Paris: Gallimard, 1995. ______. L’âge de la traduction : « La tâche du traducteur » de Walter Benjamin, un commentaire. In : BRODA, M. (direction) La traduction-poésie: À Antoine Berman. Strasbourg : Presses Universitaires de Strasbourg, 1999. BLANCHOT, Maurice. La bête de Lascaux. Montpellier: Éditions Fata Morgana, 1982. ______. Traduzido de. In: BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Tradução: Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. ______. La folie du jour. Paris: Gallimard, 2002. ______. The Madness of the Day. Translation: Lydia Davis. New York: Barrytown/Station Hill Press, Inc (Reprint edition), 1995. A loucura do dia, genitivo; ou ainda, {minha} loucura do dia – grosso modo, trata-se de um “eu” que, por algum motivo, surta e é internado. 6. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

(16) 104. A aventura da paixão do excrito de forma em forma. CALLE-GRUBER, Mireille. Refaire les contes dans la langue adverse. Assia Djebar, Oran, langue morte. In: RUHE, Ernstpeter. Assia Djebar. Berlin: Konigshausen & Neumann, 2001. CASSIN, Barbara. O efeito sofístico. Tradução: Ana Lúcia de Oliveira, Maria Cristina Franco Ferraz e Paulo Pinheiro (Coleção Trans). São Paulo: Editora 34, 2005. DELEUZE, Gilles. Da superioridade da literatura anglo-americana. In: DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998. DERRIDA, Jacques. Edmund Husserl’s Origin of Geometry: An Introduction. Translated, with a preface and afterword by John P. Leavey, Jr. Lincoln and London: University of Nebraska Press, 1989 [1962]. ______. The retrait of Metaphor. Translation: Peggy Kamuf. In: DERRIDA, Jacques. Psyche. Inventions of the Other. Vol. 1. (ed. Peggy Kamuf and Elisabeth Rottenberg). Stanford University Press: Stanford, California, 2007. FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité, tome 1: La volonté de savoir. Paris. Gallimard, 1976. JAKOBSON, Roman. Aspectos linguísticos da tradução. In: JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. Tradução: Isidoro Blinkstein. São Paulo: Cultrix, 1975. LAMY, Laurent; NOUSS, Alexis. L’abandon du traducteur: prolégomènes à la traduction des “Tableaux parisiens” de Charles Baudelaire. TTR: Traduction, Terminologie, Rédaction, v.10, n.2, 1997, p. 13-69. Disponível em: <http://id.erudit.org/iderudit/037299ar>. Acesso: 9 abr. 2014. SILVA, Daniel Nascimento. John Langshaw Austin & Sigmund Freud: aproximações críticas. In: MARIANI, Bethania; MEDEIROS, Vanise.; DELA-SILVA, Silmara. (Org.). Discurso, Arquivo e.... Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2011, p. 93-107. WEBER, Samuel. Benjamin’s –ability. Cambridge & London: Harvard University Press., 2008 Luís Fernando Protásio Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Doutorando em Linguística Aplicada na mesma universidade, na área de Teoria, Prática e Ensino da Tradução, trabalhando com os seguintes temas: teorias da tradução, diálogos entre filosofia, psicanálise e teoria literária e relações entre atos de fala, autotradução e narração. Tradutor profissional no segmento editorial.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores  Nº. 27, Ano 2013  p. 89-104.

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