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8 Considerações Finais

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Academic year: 2021

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Considerações Finais

O grafite vem assumindo diferentes papéis de acordo com a época, o local e o contexto social em que está inserido. Uma prática em constante processo de transformação, que modifica sua essência e envolve a subjetividade daqueles que a produzem. Se há algumas décadas o grafite era sinônimo de transgressão e marginalidade, de modo de expressão e comunicação daqueles que não tinham voz, espaço ou autonomia para fazê-lo nos veículos oficiais, hoje ele se tornou um produto respeitado, legalizado e, sobretudo, comercialmente valorizado.

A cartografia aqui traçada apresentou apenas uma pequena faceta desse processo de transformação, que teve como campo de pesquisa a Zona Sul do Rio de Janeiro e a região portuária da cidade. Os episódios relatados e analisados compreendem um período de pouco mais de três anos e fazem parte de um contexto ainda maior, mais rico e diverso, que inclui vários atores, instituições e acontecimentos, mas que parecem caminhar no mesmo sentido, não só no Rio de Janeiro, mas em um movimento global de cooptação e mercantilização.

No que diz respeito ao grafite, ao longo dos últimos anos transgressão e capitalismo passaram a envolver-se de forma cada vez mais intensa e aberta. No Rio de Janeiro, essa relação entre o marginal e o capital é claramente percebida nos episódios aqui relatados, desde o icônico mural não autorizado do muro do Jockey Club Brasileiro, passando pelo envolvimento de empresas, marchands e instituições, até a participação do grafite em

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processos de gentrificação, como os que ocorrem atualmente na região portuária do Rio.

Pode-se dizer que, em grande parte, o grafite passou a ser definido pelo poder econômico. Hoje, o local onde ele está inserido, sua estética, sua temática e, principalmente, os nomes dos grafiteiros que se destacam são determinados pelo capital. Seja no novo muro do Jockey, na lateral do Marina Palace Hotel, nas galerias de arte, na revitalização urbana ou em eventos como Art Rua e Art Core, a transgressão e a marginalidade cederam espaço para a fama, o reconhecimento e o valor de troca.

Mercantilizado, o grafite tornou-se um poderoso aliado não só do Rio de Janeiro, mas de todos os grandes centros urbanos. Ele já não suja e “emporcalha” os muros da cidade, desafiando as leis e os procedimentos de controle. Ao contrário, parece que hoje o papel do grafite gira em torno, sobretudo, da decoração, seja nos espaços públicos ou nos espaços privados. Os coloridos painéis que adornam os muros, paredes e laterais dos prédios têm a função de colorir a cidade e alegrar os ambientes: um antídoto ao caos, à frieza e à impessoalidade da vida na metrópole. No local onde os indivíduos estão submissos à razão, à racionalidade, os grafites coloridos substituem o cinza, o sujo e o feio por imagens que suavizam o cotidiano, ornamentam os espaços e valorizam a cidade.

Nesse contexto os grafites contemporâneos aproximam-se do design ao disfarçar a aparência (Forty, 2007) dos espaços urbanos. O novo muro do Jockey, antes sujo e desleixado, transformou-se em um painel limpo, organizado e colorido. A lateral do Marina Palace Hotel, antes uma parede branca, tornou-se suporte para o maior painel da cidade, além de uma poderosa ferramenta de marketing. As ruas da região portuária, mal cuidadas e desgastadas

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pelo tempo e abandono, ganharam cores, formas e novas visualidades com o grafite, contribuindo assim para o processo de gentrificação da região.

Das ruas para as galerias, o grafite alçou a posição de arte, o valor de uso deu lugar ao valor de troca, proporcionando mais valia não só para os grafiteiros, agora apreciados como artistas, como também para os marchands, que enxergaram em seus traços, cores e formas uma nova e lucrativa oportunidade no mercado de arte.

Os grafiteiros, que antes agiam na marginalidade, tornaram-se uma força produtiva, útil e muito valorizada. Muitos deles, com formação acadêmica em design, perceberam o poder e o valor de seu trabalho e passaram a lucrar com o que antes era feito de graça, pelo prazer de se expressarem nos muros da cidade. Na mesma direção, pichadores trocaram as assinaturas ilegíveis por trabalhos coloridos, visual e culturalmente aceitos, a fim de garantirem ganhos e lucro com a atividade.

Parece haver uma tendência crescente de se utilizar a linguagem formal do grafite como estratégia de marketing, não só no Rio de Janeiro, mas em escala mundial. No mercado editorial, a Peguin Books lançou, em 2013, a “Penguin Street Art Series”, uma coleção de clássicos da literatura contemporânea com capas criadas por renomados grafiteiros. Na indústria de bebida, as marcas de vodka Belvedere e Absolut lançaram seus produtos com embalagens também produzidas por grafiteiros. A Calvin Klein lançou uma edição limitada de seu perfume CK One, chamada “Street edition”, com embalagem especial repleta de elementos com referência ao grafite. O grafiteiro Fernando Chimarelli já produziu estampas de mouses da Microsoft a garrafas de bebidas e relógios de pulso. A grife de luxo Louis Vuitton tem uma linha de bolsas e acessórios

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que simula pichações criadas pelo grafiteiro norte-americano Stephen Sprouse. No Brasil, a indústria da moda também se aproximou do grafite: marcas como Wöllner, Melissa e Redley costumam convidar grafiteiros para personalizar seus espaços de venda.

É notório que, ao associarem sua imagem ao grafite, essas empresas buscam a possibilidade de ser identificadas com elementos contemporâneos, jovens e urbanos, e utilizam-se da linguagem da prática como tática comercial. Essa propensão faz com que o grafite se transcodifique também para outras áreas, como o design e a publicidade, o que, consequentemente, abre novos campos de atuação e trabalho para os grafiteiros. Ou, em outras palavras, cria novas formas de alienação.

De modo geral, pode-se pensar todas essas estratégias e transformações como maneiras eficazes de alienação do grafite. Estratégias que, como os dispositivos descritos por Foucault (1998), podem ser pensadas como uma rede de artimanhas heterogêneas entre si, que envolvem jogos de objetivação e subjetivação. Como, por exemplo, os discursos da mídia sobre o grafite, as instituições que o cooptam, leis e regulamentos que o legalizam, assim como decisões, medidas administrativas, enunciados, proposições filosóficas e morais (Foucault, 1998). Táticas que colaboram diretamente com as ações de controle dos corpos e espaços da cidade. Dóceis, ocupados e produtivos, os grafiteiros estão mais interessados em atividades que podem gerar benefícios como oportunidades, lucro e reconhecimento para seu trabalho. Elementos que, consequentemente, num círculo virtuoso, resultam em mais oportunidades, lucro e reconhecimento. Nesse

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contexto, a sedução gerada pelo capital é mais recompensadora que a pintura fugaz e efêmera dos muros da cidade.

Ao passo em que o grafite torna-se cada vez mais institucionalizado e legitimado, surgem outras ações que desafiam o governo, a polícia e, porque não, o capital. Manifestações anônimas que não pretendem lucro ou reconhecimento, descolam-se do grafite e tomam os muros da cidade, questionando e ironizando por meio da transgressão da escrita sem autorização. Monocromáticas, muitas vezes discretas, algumas outras mais evidentes, são escrituras que representam verdadeiras forças de resistência em um ambiente completamente afetado pelo capitalismo.

A pesquisa aqui apresentada não se encerra, e mesmo antes do ponto final indica possíveis desdobramentos que podem enriquecer a discussão a respeito do grafite na contemporaneidade. A primeira delas seria a expansão para outras áreas da cidade que não foram aqui contempladas, como o bairro de Santa Tereza, a Lapa, o Centro, a Zona Norte e o subúrbio (algumas delas citadas, porém não aprofundadas). Uma ampliação que pode permitir a visão mais completa do grafite carioca e de sua relação com o mercado ou não.

Da mesma forma, este estudo pode ser ampliado e aplicado em outras cidades, regiões e países, a fim de identificar novos ou diferentes artifícios, estratégias e contextos na intrincada trama em que o grafite se encontra na atualidade.

Pode-se pensar também num estudo sobre as relações entre governo, grafite e estratégias de controle. Seja por meio da criação de leis e órgãos especiais, como a Lei do Grafite e a instituição do EixoRio; a utilização do grafite em campanhas educativas, como no projeto Arte na Faixa; a pintura de túneis, passagens subterrâneas

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para pedestres, postos de salva-vidas na praia de Ipanema; e a realização de oficinas para jovens e crianças, com o objetivo de ensinar técnicas de grafite às novas gerações, visando à transformação de possíveis pichadores, ainda considerados vândalos, em artistas.

Ainda dentro das possibilidades de aprofundamento, a relação entre os cidadãos e o grafite pode gerar novos olhares, interpretações e críticas sobre a prática na atualidade. A visão dos espectadores e as tramas que os envolvem com o grafite e a cidade abrangem diferentes questionamentos, dúvidas e possibilidades sobre a escritura parietal.

Uma temática que permite novas abordagens, olhares e conexões. Principalmente por tratar-se de uma prática em constante transformação e adequação ao momento histórico, social e econômico em que está inserida. Há 15 anos, o grafite era transgressor, ilegal e inoportuno. Hoje, além de reconhecida por lei, a prática é legitimada e respeitada no meio artístico, no mercado e no governo. No futuro, novas configurações podem modificar sua imagem e aceitação. Dada a imprevisibilidade dos acontecimentos que podem afetar o campo social, econômico e artístico, outros estudos serão necessários, provavelmente, em um curto espaço de tempo, para dar conta de todo o potencial e riqueza que o tema apresenta.

Enquanto que esta pesquisa se tornará um registro da docilização dos grafiteiros e sua consequente transformação em corpos úteis e produtivos à sociedade e ao capital. E também uma crônica de algumas das ações, táticas e dispositivos utilizados em sua normatização e na transformação de uma prática considerada

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transgressora e marginal em um bem simbólico, lucrativo e aclamado. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212294/CA

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