• Nenhum resultado encontrado

A tilápia é o coelho da Amazônia?

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A tilápia é o coelho da Amazônia?"

Copied!
8
0
0

Texto

(1)

A tilápia é

o coelho da

(2)
(3)

56

Curimatã, pirarucu, filhote, aruanã, guri-juba, pacu, com os dias contados? Matrichã, tambaqui, piramutaba, piranha, pirapatinga, ameaçados? Pirananbu, apapá, peixe-cachor-ro, curimbatá, jatuarana, jaú, condenados? São mais de três mil, as espécies de peixes da Amazônia, a maior biodiversidade aquática do planeta. Toda ela, porém, pode estar ame-açada pelo desmatamento, pela crise climá-tica ou mais imediatamente, pela introdução de espécies exóticas de peixes, como, por exemplo, a tilápia.

A preservação dessa diversidade de peixes e de mamíferos aquáticos – como botos, pei-xes-boi e golfinhos – deve-se ao fato da bacia amazônica manter-se livre de populações de peixes exóticos, ou seja provenientes de ou-tros lugares do planeta. Esse fenômeno, a introdução de espécies exóticas, acontece na maioria dos ambientes aquáticos e é respon-sável pela destruição da diversidade local.

A introdução de espécies de outros luga-res, muitas vezes para atender caprichos ou situações que poderiam ser contornadas de outras formas, tem um histórico desastroso. Dois exemplos terrestres são bastante ilus-trativos: os coelhos na Austrália e os casto-res, na Terra do Fogo.

Não existiam coelhos na Austrália, mas existiam caçadores que queriam caçar co-elhos. Assim, em meados do século XIX, um deles teve uma ideia para resolver esse problema: levou 24 coelhos para caçar na

(4)

Austrália. Aparentemente, ele não era bom caçador pois não caçou todos os coelhos e eles se reproduziram loucamente, gerando milhões de animais. Claro que essa quanti-dade exorbitante de coelhos causa grandes impactos como erosão, desertificação e per-das significativas na agricultura.

Para tentar conter os coelhos, o governo australiano tentou cercas, o que obviamen-te fracassou, e importou raposas vermelhas, que além de se reproduzirem descontrolada-mente, atacavam a fauna nativa de marsu-piais e aves, gerando mais um problema. Em 1951, a Austrália adotou a guerra biológica: importou um vírus de uma doença de coelhos existente no Uruguai e conseguiu a morte de alguns milhões de coelhos. Depois, porém, vieram os sobreviventes, resistentes a do-ença, e geraram novas gerações de coelhos imunes. Como se isso fosse pouco, a doença se espalhou e acabou matando uma quantida-de enorme quantida-de coelhos em outros continentes. Mais recentemente, a Austrália passou a usar uma nova variante do vírus de uma do-ença hemorrágica, mortal para os coelhos. O problema é que, como sabemos, os vírus não conhecem fronteiras, nem precisam de vis-tos, assim sendo a qualquer momento, esse vírus pode se espalhar pelo mundo, e chegar, por exemplo à Península Ibérica, onde se ten-ta proteger os coelhos. Ali a escassez desses animais ameaça espécies como o lince ibéri-co e a água imperial espanhola. Outro risibéri-co é

(5)

58

que o vírus se torne mais letal ou que comece a infectar outras espécies, história que co-nhecemos bem depois da Covid-19. Ou seja, o que um capricho de um mau caçador de coe-lhos pode causar…

Com os castores, na Terra do Fogo, a his-tória é similar. Em 1946, foram importados 25 castores canadenses para a ilha, onde não ha-via nem castores, nem predadores de castores. A ideia era desenvolver uma indústria de peles para casacos, porém o negócio fracassou. Os castores, no entanto, prosperaram e atingiram uma população de mais de cem mil indivíduos, causando uma enorme degradação das flores-tas, derrubando árvores e inundando regiões com seus diques. Apesar das diversas tentati-vas de erradicação dos castores, eles seguem donos da Terra do Fogo.

Com as tilápias não é muito diferente. Esses peixes originários da África tendem a dominar os ambientes onde são introdu-zidos, pois competem com muita eficiência pelos recursos alimentares, por espaço e por locais de desova, levando ao desapare-cimento outras espécies. Há diversos casos documentados de lugares onde a tilápia foi introduzida e causou a extinção das espécies nativas. Imagine as tilápias nadando faceiras nos rios amazônicos...

Seria possível enumerar um conjunto de consequências desastrosas para a Amazônia, derivadas de uma inconsequente introdução

(6)

da tilápia na bacia, mas bastam duas. A pri-meira é o comprometimento da biodiversida-de aquática que pobiodiversida-de levar a uma biodiversida-degradação em cadeia. O desaparecimento das espécies de peixes causará a extinção de muitas outras espécies, tanto de fauna como de flora, o que transformará o ambiente e pode conduzir à destruição do ecossistema. A segunda, é que não há volta para a introdução de espécies na Amazônia, ou seja, não dá para experimentar e depois decidir que deu errado. Uma vez in-troduzidas, o dano será irreversível. Coelhos e castores não nos deixam esquecer…

Mas ainda assim, há uma forte pressão pela introdução da tilápia, além de algumas iniciativas já em curso, na bacia amazôni-ca. Isso acontece, possivelmente, porque os interesses de curto prazo prevalecem e há pacotes tecnológicos para criação e merca-dos consumidores garantimerca-dos para a tilápia. Mais uma vez, corremos o risco de que não se atente para as consequências desse tipo de ação e tenhamos que pagar um alto preço mais tarde.

A tilápia pode funcionar como uma me-táfora da troca da enorme diversidade ama-zônica - de povos indígenas, comunidades locais, plantas, animais, forma de viver, sa-bores e curas - por uma forma homogênea de se alimentar e de viver. Trocaremos os mais incríveis sabores, peixes com consis-tências e gostos diferentes, que suscitam

(7)

60

novas combinações culinárias, por receitas convencionais a base de tilápia.

(8)

ilustrações de Taisa Borges

Amazônia

nurit bensusan

Referências

Documentos relacionados

Assim, com a unificação do crime de estupro e do atentado violento ao pudor em um único tipo penal, os condenados que tiveram suas penas aumentadas em razão do

Excluindo as operações de Santos, os demais terminais da Ultracargo apresentaram EBITDA de R$ 15 milhões, redução de 30% e 40% em relação ao 4T14 e ao 3T15,

Jayme Leão, 63 anos, nasceu em Recife, mudou-se para o Rio de Janeiro ainda criança e, passados vinte e cinco anos, chegou a São Paulo, onde permanece até hoje.. Não

Aplicar um curativo no local da punção (Manual Técnico do PNTN bvsms. Armazenamento: Após o período de secagem de 3 horas na posição horizontal, as amostras devem

Nesse sentido, para ela, o fato de ter tido seu corpo sempre censurado , bem como a constante censura praticada pelo Instagram aos corpos das mulheres gordas são evidências de que

Na minha opinião o veiculo mais importante para a divulgação da veiculo mais importante para a divulgação da marca a Ocidente marca a Ocidente foi mesmo o MIUI, visto que esta

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..

Daí que o preâmbulo, seja por indicar os fins a serem atingidos pelo ordenamento constitucional e, por isso, ser capaz de influenciar a interpretação dos seus preceitos, não pode