19/08/2020
Número: 0813983-41.2020.8.15.0001
Classe: AÇÃO POPULAR
Órgão julgador: 1ª Vara de Fazenda Pública de Campina Grande Última distribuição : 19/08/2020
Valor da causa: R$ 500,00
Assuntos: Locação / Permissão / Concessão / Autorização / Cessão de Uso, Concessão / Permissão
/ Autorização
Segredo de justiça? NÃO Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM Tribunal de Justiça da Paraíba PJe - Processo Judicial Eletrônico
Partes Procurador/Terceiro vinculado
ALDO MANOEL BRANQUINHO NUNES (AUTOR) ANDRE MOTTA DE ALMEIDA (ADVOGADO) OLIMPIO DE MORAES ROCHA (ADVOGADO) ROMULO BENICIO LUCENA (AUTOR) ANDRE MOTTA DE ALMEIDA (ADVOGADO)
OLIMPIO DE MORAES ROCHA (ADVOGADO) MUNICIPIO DE CAMPINA GRANDE (REU)
ROMERO RODRIGUES VEIGA (REU)
Documentos Id. Data da Assinatura Documento Tipo 33387 794
AO JUÍZO DE DIREITO DA ___ VARA DA FAZENDA PÚBLICA DE CAMPINA GRANDE – PARAÍBA
1) ROMULO BENICIO LUCENA, brasileiro, divorciado, título de eleitor nº
0188 8706 1260, zona 016, seção 0072, CPF 839.284.304-59, residente na Rua Marinheira Agra, n.º 73, Bairro José Pinheiro, Campina Grande - PB, cidadão quite com a Justiça Eleitoral (cópia anexa), e
2) ALDO MANOEL BRANQUINHO NUNES, brasileiro, casado, professor,
RG 2.619.992 SSP/PB, CPF 049.212.384-56, inscrição eleitoral 0650 8553 0817, endereço na Rua Coronel Américo Porto, nº 489, Bairro Lauritzen, Campina Grande – PB, CEP 58.401-381, cidadão quite com a Justiça Eleitoral (cópia anexa), vêm a este juízo respeitosamente promover a presente
AÇÃO POPULAR COM PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA LIMINAR
fundamentada no artigo 5º, inciso LXXIII, da Constituição Federal, e na Lei Federal nº. 4.717, de 29 de junho de 1965 (Lei da Ação Popular), em face dos réus a seguir nominados:
1) ROMERO RODRIGUES VEIGA, brasileiro, casado, Prefeito Constitucional do Município de Campina Grande, com domicílio na
Prefeitura Municipal de Campina Grande, no Palácio do Bispo, na Rua Barão do Rio Branco, nº 304, Centro, Campina Grande – PB, CEP 58.400-058; e
2) MUNICÍPIO DE CAMPINA GRANDE, pessoa jurídica de direito público
interno, CNPJ 08.993.917/0001-46, representado pelo Procurador Geral
JOSÉ FERNANDES MARIZ, com domicílio na PROCURADORIA GERAL DO MUNICÍPIO, na Rua Cardoso Vieira, nº 234, Centro, Campina Grande
– PB, CEP 58.400-097, pelo que aduzem e ao final requerem:
1) DA NARRATIVA FÁTICA. DOAÇÃO DE TERRENOS COM VIOLAÇÃO A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. ILEGALIDADE PATENTE.
O fim do mandato do Senhor Prefeito de Campina Grande tem sido por demais custoso aos cofres públicos e ao patrimônio público de Campina Grande. O objetivo ululante e manifesto de manter a sua estrutura política na chefia do Executivo Municipal de Campina Grande tem levado o prefeito a realizar toda sorte de ilegalidades tendentes e se manter, por prepostos, comandando os destinos do Município.
A sociedade campinense vem acompanhando, atônita, uma série de atos administrativos praticados pelo Sr. Romero Rodrigues, Prefeito do Município, tendentes a causar séria e grave lesão ao erário público, privilegiando asseclas e
correligionários, de forma a violar flagrantemente princípios constitucionais, sem que haja a atuação expedita dos órgãos de controle.
Ontem, 18/08/2020, vários os sítios eletrônicos relataram punição do TCE da Paraíba ao demandado, por prática de nepotismo, como segue:
Vide link: https://paraibaja.com.br/nepotismo-em-cg-tce-pb-da-prazo-para-romero-regularizar-contratacoes/
Ainda, como exemplo das violações aos princípios da Administração Pública, tem-se a indiscriminada e ilegal distribuição de terreno públicos noticiada na imprensa e que já foi objeto, inclusive, de intervenção do Poder Judiciário, para evitar tais desatinos administrativos. Vejamos:
Só no mês de Dezembro de 2019, na última sessão do ano na Câmara Municipal, foram doados pelo prefeito da cidade 11 (onze) terrenos públicos, algo sem precedente em nossa história, num único ano. Um ano pré-eleitoral, diga-se. Era a última possiblidade do Chefe de Executivo fazer tal doação, posto que a Lei 9.504/97 considera a doação conduta vedada em ano eleitoral.
E não é só! Apenas de junho a dezembro de 2019, o Chefe do Executivo Municipal inflou a folha de pessoal do Município com mais de 200 (duzentos) servidores. Do total de 9.193 servidores, em dezembro de 2019, cerca de 4.141
servidores eram detentores de cargos comissionados ou contratados por excepcional interesse público, quase metade do total.1
Cabe rememorar que Campina Grande tem vivenciado tempos difíceis, em que a Policia Federal realizou ações visando impedir que quadrilhas se apropriem do erário público, para fins meramente pessoais.
É de sabença geral, por exemplo, a atuação do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Judiciária na famosa OPERAÇÃO FAMINTOS, que se encontra em sua terceira fase, em que foi desbaratada uma quadrilha que atuava junto à Secretaria de Educação do Município, acusada de se locupletar com a verba pública que deveria ser destinada à compra da merenda escolar das crianças matriculadas. Vejamos:
Sen ão vej am os o not iciá rio sob re o fat o!
A sensação de impunidade é tamanha que o ataque ao patrimônio público não encontra limites. Ontem, 18/08/2020, numa ação ilegal e oportunista, visando burlar a legislação eleitoral, o Chefe do Executivo anunciou, com grande alarde, um acordo com os times de futebol de Campina Grande, quais sejam Treze Futebol Clube e Campinense Clube, para confecção de um contrato de cessão de
uso de terrenos públicos às referidas equipes, pasmem, por 30 (trinta) longos anos, sendo uma verdadeira doação.
Sequer uma contrapartida efetiva e real foi apresentada pelos clubes. É uma graciosidade do prefeito, provavelmente achando que fez um GOLAÇO, quando na verdade faz um gol contra o patrimônio público e contra os princípios da moralidade e legalidade.
Depois de praticamente 8 (oito) anos de mandato, em vias de deixar o cargo, o Prefeito Municipal busca presentear entidades de natureza privada com o patrimônio público, avaliado em cerca de R$ 20.000.000,00 (VINTE MILHÕES DE REAIS).
Vide link:
http://blogs.jornaldaparaiba.com.br/plenopoder/2020/08/18/prefeitura-vai- ceder-area-para-construcao-de-centros-de-treinamento-para-equipes-do-treze-e-campinense/
Por óbvio, a benesse com o patrimônio público foi amplamente divulgada pela mídia oficial e oficiosa do Município, como também em sites e blogs de jornalistas conceituados, visando a promoção pessoal do gestor em pleno fim de mandato, por verdadeira doação de terreno público, sem autorização legislativa. Sendo assim, é contra essa cristalina e ululante ilegalidade que os autores populares se insurgem. Eis, em síntese, o resumo dos fatos!
2) DO DIREITO: MALFERIMENTO AOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA LEGALIDADE, MORALIDADE. VIOLAÇÃO À LEI DE LICITAÇÕES.
2.1) VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS E DITAMES CONSTITUCIONAIS
Com efeito, disciplina o disposto no art. 5º, inciso LXXIII, da Carta Magna:
“Art. 5º, LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência;”
No mesmo diapasão, cabe destacar o cabimento da presente ação na defesa dos interesses maiores da sociedade. Assenta o art. 1.º, da Lei 4.717/65:
“Qualquer cidadão será parte legitima para pleitear a anulação ou a declaração de nulidade de atos lesivos ao patrimônio da União, do Distrito Federal, dos Estados, dos Municípios, de entidades autárquicas, de sociedade de economia mista, de sociedades mútuas de seguro nas quais a União represente os segurados ausentes, de empresas públicas, de serviços sociais autônomos, de instituição ou fundações para cuja criação ou custeio o tesouro público haja concorrido ou concorra com mais de cinqüenta por cento do patrimônio ou da receita anual de empresas incorporadas ao patrimônio da União, do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios, e de quaisquer pessoas jurídicas ou entidades subvencionadas pelos cofres públicos. § 1.º Consideram-se patrimônio público, para os fins referidos neste artigo, os bens e direitos de valor econômico, artístico, estético, histórico ou turístico.”
Assim, indiscutível a violação aos princípios constitucionais aqui demonstrados, ficando clara a possibilidade de ajuizamento desta ação popular para defesa dos interesses públicos da população de Campina Grande.
2.2) DA VIOLAÇÃO À LEI DE LICITAÇÕES (LEI 8.666/93)
A legislação que rege as licitações públicas (Lei 8.666/93) não deixa margem a interpretações quanto à necessidade de licitação para o que pretende o prefeito municipal. Logo em seu artigo 2º, resta gritante que as concessões devem ser precedidas de licitação:
“Art. 2o As obras, serviços, inclusive de publicidade, compras, alienações, concessões, permissões e locações da Administração Pública, quando contratadas com terceiros, serão necessariamente precedidas de licitação, ressalvadas as hipóteses previstas nesta Lei.
Parágrafo único. Para os fins desta Lei, considera-se contrato todo e qualquer ajuste entre órgãos ou entidades da Administração Pública e particulares, em que haja um acordo de vontades para a formação de vínculo e a estipulação de obrigações recíprocas, seja qual for a denominação utilizada.”
Continua, a mesma, lei dizendo que a doação de bem público imóvel para particular pressupõe, como regra, nos termos do art. 17, da Lei n. 8.666/1993, i) desafetação do bem; ii) existência de interesse público devidamente justificado/motivado; iii) autorização legislativa; iv) avaliação prévia e v) licitação na modalidade de concorrência.
Esta licitação somente é dispensada nos casos de doação destinada exclusivamente para outro órgão ou entidade da Administração Pública e conforme disposto nas alíneas f, h e i, do mesmo art. 17, I, ou seja, para o atendimento a programas de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública, o que não é o caso, obviamente.
Por tudo isto, a doação de terreno público para clubes de futebol, cujo objetivo, naturalmente, é o lucro privado, para além de claramente violar o
princípio da moralidade administrativa, não preenche os requisitos legais e constitucionais, sendo, portanto, inviável!
2.3 DA VIOLAÇÃO À LEI DAS ELEIÇÕES (LEI 9.504/97) E SOBRE A CESSÃO DE USO
Por oportuno, é relevante destacar que para fins de evitar o abuso de poder político e garantir a isonomia na competição eleitoral, a Lei Geral das Eleições (Lei 9.504/97) cria uma série de empecilhos para o uso da máquina pública durante a fase pré-eleitoral, trazendo as denominadas CONDUTAS VEDADAS, conforme estabelecidas no artigo 73 da norma:
“Art. 73. São proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais:
§ 10. No ano em que se realizar eleição, fica proibida a
distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios por parte
da Administração Pública, exceto nos casos de calamidade pública, de estado de emergência ou de programas sociais autorizados em lei e já em execução orçamentária no exercício anterior, casos em que o Ministério Público poderá promover o acompanhamento de sua execução financeira e administrativa.”
Por distribuição gratuita de bens entende-se também a doação de bens públicos. Cabe lembrar que a escandalosa doação do terreno para o Sítio São João, em área nobre da cidade, para um filho do vereador líder do governo na
Câmara Municipal foi barrada na Justiça no ano passado e, por estarmos em ano eleitoral, o prefeito, até o presente momento, se abstém de sancionar a lei de doação.
Então, qual a manobra encetada pelo Chefe do Executivo, Romero Rodrigues? Para burlar a legislação de regência e obter capital político e eleitoral, visa trapacear a vedação legal através de um CONTRATO DE CESSÃO DE USO para os clubes.
Necessário lembrar que a concessão de uso, no Direito Administrativo, é um contrato de natureza obrigacional. Vejamos o que aponta a Enciclopédia Jurídica, da festejada PUC/SP2:
“Concessão de uso pode ser definida como uma modalidade de contrato administrativo, submetido ao regime jurídico de direito público, firmado por órgão ou entidade da Administração Pública, cujo objetivo é o uso privativo de bem público. A concessão de uso apresenta natureza jurídica
obrigacional, não tem caráter precário – como a autorização de uso e a permissão de uso –, pode ser onerosa ou gratuita e DEVE SER PRECEDIDA DE LICITAÇÃO, excetuadas as
hipóteses legais que admitem contratação direta.” (destaque nosso)
É de relevo destacar que não se trata de autorização ou permissão de uso, que são contratos administrativos precários, mas sim de concessão de uso que gera obrigações bilaterais e exige, portanto, processo licitatório.
Outrossim, incumbe destacar que há, no caso, o intuito de viabilizar uma doação. O contrato de concessão de uso é por 30 ANOS – REPITA-SE – 30 anos! Um verdadeiro acinte!
Por outra banda, o contrato pretendido pelo Prefeito Municipal será realizado sem qualquer autorização legislativa, o que denota visível violação aos princípios da legalidade e moralidade. Vejamos o que aponta doutrina sobre a temática3:
“De forma distinta à autorização e à permissão, a concessão de uso de bem público apresenta natureza contratual, também discricionária, porém não mais precária, tendo em vista que geralmente encontra-se associada a projetos que requerem investimentos de maior vulto por parte dos particulares. Sendo contratos administrativos, submetem-se à
legislação de licitações e às cláusulas exorbitantes que caracterizam a contratação com o poder público.”
Estamos diante de manifesto ataque ao princípio da legalidade, que exterioriza a sujeição do administrador público, em toda a sua atividade funcional, aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum, não podendo deles se desviar, sob pena de perpetrar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar, civil e criminal, conforme o caso. Nesse sentido se manifesta o insigne Hely Lopes Meirelles, in Direito Administrativo Brasileiro, ao asseverar que:
3(
“Na Administração Pública não há liberdade nem vontade pessoal. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza. A lei para o particular significa “pode fazer assim”; para o administrador significa “deve fazer assim””.
Sobre a cessão de uso, Meirelles também deixa patente que só pode ocorrer entre entidades públicas. Vejamos:
“Cessão de uso é a transferência gratuita da posse de um bem público de uma entidade ou órgão para outro, a fim de que o cessionário o utilize nas condições estabelecidas no respectivo termo, por tempo certo ou indeterminado. É ato
de colaboração entre repartições públicas, em que aquela que
tem bens desnecessários aos seus serviços cede o uso a outra que deles está precisando. (…) A cessão de uso entre órgãos da mesma entidade não exige autorização legislativa e se faz por simples termo e anotação cadastral, pois é ato ordinário de administração através do qual o Executivo distribui seus bens entre suas repartições para melhor atendimento do serviço. (…)”. (MEIRELLES. Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 21ª. Ed. Malheiros Editores: São Paulo, 1996, p. 442.)
“Cessão de uso é o ato que consubstancia a transferência do
uso de certo bem de um órgão (Secretaria da Fazenda) para outro (Secretaria da Justiça) da mesma pessoa política (União, Estado-Membro e Município), para que este o utilize segundo sua natureza e fim, por tempo certo ou indeterminado. É medida de colaboração entre os órgãos
públicos; daí não ser remunerada e dispensar autorização legislativa. Formaliza-se por termo de cessão” (GASPARINI. Diogenes. Direito administrativo. 12 ed. rev. e atual. – São Paulo: Saraiva, 2007, p. 860-861.)
O agente administrativo, ao atuar, não poderá desprezar o elemento ético de sua conduta, sob pena de afastar-se do fim institucional, que é o de concorrer para a criação do bem comum. In casu, há manifesto desvio de finalidade, posto que o demandado/prefeito, em 7 anos de mandato, NÃO realizou nenhum benefício aos clubes municipais e, no apagar das luzes de seu mandato, entrega patrimônio público vultoso para times de futebol.
É palmar que o ato administrativo, seja qual for, tem que guardar respeito ao princípio do interesse público. Cabe indagar: há interesse público na cessão de uso atacada? Em fim de mandato, o Chefe do Executivo pode ir por aí cedendo bens públicos por prazo tão largo? Obviamente que não!
Daí é que o TJSP decidiu, com inegável acerto, que “o controle jurisdicional se restringe ao exame da legalidade do ato administrativo; mas por legalidade ou legitimidade se entende não só a conformação do ato com a lei, como também com a moral administrativa e com o interesse coletivo”.
A Lei nº 9.784/99 consagra o princípio da moralidade administrativa, afirmando que ele significa “atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé (cf. art. 2º, parágrafo único, IV), de maneira que não há
justificativa legal para que prospere a intenção dos promovidos, conforme amplamente demonstrado nesta ação popular.
3) DA TUTELA ANTECIPADA DE URGÊNCIA: PEDIDO DE ORDEM
LIMINAR. CONFIGURAÇÃO DOS REQUISITOS LEGAIS.
PROBABILIDADE DE PREJUÍZO IRREVERSÍVEL AO ERÁRIO PÚBLICO MUNICIPAL.
De início cabe destacar que incide, no caso, a norma do inciso XXXV, do artigo 5º, da Constituição Federal, assecuratório de que nem mesmo a ameaça a direito está indene à atuação do Poder Judiciário:
“XXXV – a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário
lesão ou ameaça a direito.”
Configura-se a iminente lesividade ao patrimônio público, impondo-se a concessão da medida liminar, com supedâneo no art. 5º, §4 º, da Lei de Ação Popular, como segue:
“Na defesa do patrimônio público, caberá suspensão liminar do ato lesivo impugnado.”
Igualmente, para a concessão do provimento liminar necessário o fumus boni iuris e o periculum in mora, que estão devidamente evidenciados no presente caso, conforme exigido no art. 300, do Código de Processo Civil.
A fumaça do bom direito se constitui na perfectabilidade do ato flagrantemente ilegal, com inequívoco malferimento aos princípios constitucionais adrede referenciados. No caso, uma vez prestados os serviços e
havendo a respectiva contraprestação, não há possibilidade de retorno ao status quo ante em flagrante prejuízo à sociedade.
No que pertine ao perigo de demora, resta gritante sua comprovação, posto que a não inibição da CESSÃO DE USO redundará em prejuízo ao patrimônio público, de forma irretratável.
Em outra assentada, se vê:
AÇÃO POPULAR – INAPLICÁVEL O ART. 2º, DA LEI Nº 8.437/92 – Cabível liminar sem justificação prévia e ouvida
do representante da pessoa jurídica de direito público. A Lei nº 4.717/65 prevê a suspensão liminar do ato lesivo impugnado, sem a exigência de justificação prévia. As disposições da Lei nº 8.437/92 não se aplicam à ação popular, porque neste processo o autor não é adversário do estado, é seu substituto processual.
(TJBA – AG 56.556-6 – (6337) – 1ª C.Cív. – Rel. Des. Carlos Cintra – J. 24.05.2000)
*
AGRAVO DE INSTRUMENTO – Ação Popular – Liminar –
Possibilidade – Verificado que somente a suspensão do ato administrativo garante a eficácia de eventual sentença favorável ao autor popular, a liminar se justifica como expressão do poder geral de cautela do Juiz – Desnecessária a prévia audiência do representante da pessoa jurídica de direito público, quando evidente que a sustação do ato não
implicará em nenhum prejuízo de monta ao Poder Público ou à população – Recurso não provido.
(TJSP – AI 126.267-5 – Piracaia – 9ª CDPúb. – Rel. Des. Teresa Ramos Marques – J. 22.12.1999 – v.u.)
Assim, comprovados os requisitos do artigo 300, do CPC, requerem a concessão da antecipação da tutela de urgência, de forma liminar, sem a oitiva dos promovidos.
4) DOS PEDIDOS
Pelo exposto e cabalmente provado, os autores populares requerem deste douto juízo:
a) justiça gratuita, na forma da Lei de Ação Popular e da Constituição Federal;
b) concessão da antecipação da tutela de urgência, de forma liminar, para determinar que os promovidos se abstenham de
realizar a CESSÃO DE USO atacada, seja por ato ou por
contrato administrativo, com base no art. 5º, § 4 º, da Lei de Ação Popular, sob pena de multa de R$ 10.000,00 (dez mil) reais por cada dia de descumprimento;
c) citação dos promovidos para, querendo, apresentarem defesa no prazo legal, sob pena de revelia;
d) intimação do Ministério Público Estadual para intervir no feito, na forma da Lei de Ação Popular, como também para apurar eventual ato de improbidade administrativa;
e) seja julgada procedente, confirmando-se a antecipação da tutela de urgência liminar, para que os promovidos se
abstenham de realizar a CESSÃO DE USO atacada;
f) sejam os promovidos condenados a pegar honorários advocatícios sucumbenciais, na forma do Código de Processo Civil;
g) provar o alegado por todos os meios admitidos em direito. Valor da causa: R$ 500,00 (quinhentos reais), por alçada.
Campina Grande, 19 de agosto de 2020.
ANDRÉ MOTTA DE ALMEIDA OAB/PB 10.497
OLÍMPIO DE MORAES ROCHA OAB/PB 14.599