1 A humanidade como movimento
O acto humano
O número 11. da «Primeira exortação apostólica do Papa Francisco»,
Evangelii gaudium, A alegria do Evangelho, intitula-se «Uma eterna
novidade».
Que melhor expressão do que esta para caracterizar o que é o acto propriamente humano: uma eterna novidade? Pelo menos tal actividade é uma novidade em permanência, desde que se ganha forma humana aquando da junção dos biológicos gâmetas humanos, em diplóide célula humana inicial, até que o organismo se metamorfoseie em cadáver.
A realidade humana, que é cumulativa e integradamente física – química, como sub-parte da física –, biológica, e espiritual, nisso que é, é sempre uma realidade de sucessiva absoluta novidade: cada novo acto introduz no ser algo que nunca no ser esteve; esta diferença é um absoluto a nada redutível, por nada substituível; a sua sucessiva inexistência relativamente a isso que é novidade implicaria a imediata “queda” no nada. Apenas o novo permite a continuidade do ser e no ser; esta continuidade, sendo no e do ser, é, assim, continuidade ontológica.
A morte, como aniquilação, é uma total ausência de realidade e de possibilidade de novidade, de mudança, de movimento. Compreende-se melhor, então, a razão pela qual a vida tem de ser sempre novidade.
O movimento é, então, isso que nos dá o absoluto da diferença entre um estado ontológico e um outro, qualquer seja. Sem este absoluto de novidade, nada mais haveria do que um ser – teórico e teórico, apenas –
2 condenado a uma mesmidade absolutamente inerte. Mas, sem mudança a partir deste estado, como distinguir tal estado do nada absoluto?
O que está aqui em causa percebe-se melhor se atentarmos no que é narrado no início do Livro do Génesis: Deus – que é infinito em acto, isto é, que já possui actualmente todas as possíveis perfeições e, por isso, não precisa de as adquirir, quer dizer, não é sujeito ou objecto de movimento –
cria o mundo.
Antes desta criação do mundo, precisamente, do mundo nada havia. Pode, assim, dizer-se que Deus cria o mundo a partir do nada. Não do nada absoluto, ou não haveria sequer Deus – e, metafisicamente, Deus é o absoluto da diferença entre haver algo e não haver nada, isto é, Deus é o absoluto de haver algo –, mas, a partir da sua infinita grandeza de ser faz ser isso que passa a ser o ser do mundo. A utilização repetida do verbo «ser» não é negligente, antes manifesta o que é um limite de linguagem, na nossa humana linguagem, que não pode ir além do que é manifestado para a inteligência humana pela intuição a que, precisamente, chamamos «ser».
Antes do acto de criação, não havia movimento algum. Isso que foi criado, isto que foi criado, é o lugar do movimento; melhor, tudo o que é, nele, só é porque é em movimento. O próprio mito sagrado em que tal nos é narrado assume a condição criatural do movimento, pois a obra divina não é imediatamente instantânea, mas “instantânea por sete vezes”. De cada vez, é perfeita como acto que desencadeia formas diferentes de movimento. Todo o ser do mundo é, assim, movimento. A ausência de movimento, no mundo, significa morte; a total ausência de movimento no e do mundo significa a morte deste, como redescobriram os cientistas cosmólogos contemporâneos, na forma do arrefecimento entrópico, que diz da anulação de todo o movimento e da entrada numa forma singular para que não há
3 palavras ou sequer forma de intuição. Nem se pode dizer que o mundo está frio em absoluto, porque já não há mundo para que dele se possa dizer algo. Lembre-se que a possibilidade da inteligência que é a nossa, como a que exercemos aqui e agora, existe apenas neste mundo, sendo esta mesma inteligência o único «espelho» de tipo consciente de que há notícia real. O mais são, precisamente, especulações.
O acto universal do mundo é um acto de movimento incessante, contínuo e contíguo. Esta absoluta continuidade implica que nada permaneça como é num qualquer dado momento que se queira isolar e num outro, diferente, que se queira também isolar, a fim de os comparar um com o outro.
Assim, e para que nada permaneça o mesmo, isto é, para que não «morra» para o ser como movimento, há que acontecer «novidade», novidade em seu sentido profundo, ou seja, novidade ontológica, segundo o ser. Na sua mais profunda realidade como movimento, o ser do mundo é sempre novo.
Por isso, pode o Papa Francisco pôr o título acima invocado: porque o acto do mundo é uma perene relação de novidade com a infinita possibilidade de realização que Deus lhe conferiu quando o criou.
É esta a vocação do mundo: a perfeição possível a partir do dom incoativo de bem que Deus lhe outorgou.
À relação de Deus para com o mundo chamamos Providência: é esta relação, como vocação para Deus e como memória em Deus, que confere à novidade perene sentido, impedindo o mundo de se estilhaçar em novidade sem ligação. Esta novidade sem ligação poderia bem ser uma imagem do inferno: o acto em que se nega a relação com Deus. Ora, o mundo que nega
4 a ligação com Deus transforma-se num real inferno, inferno para os que negam tal relação, inferno para quem sofre como terceiro tal negação.
Note-se que tudo, salvo o ser humano, através do tipo de uso que este faz do livre-arbítrio com que foi criado, funciona mundanamente bem, isto é, como é suposto que funcione. Todas as relações cósmicas são o que são e operam em função do que são as suas estritas possibilidades, de que a escolha não faz parte. Mesmo a plasticidade física de tipo quântico não deixa de ser o que metafisicamente é como absoluto de possibilidade, quer dizer, nada se passa a este nível que não esteja determinado, ainda que como indeterminação possível.
O mundo não humano é sempre bom: não há boas e más gravidades, só boas; não há bons e maus planetas; só bons; não há bons e maus átomos e moléculas; só bons. O mesmo se pode dizer dos seres vivos, salvo os seres humanos: não há bons e maus vírus: como tais, são todos bons, podem é ser prejudiciais, mas isso é irrelevante quanto à sua bondade ontológica própria, pois cumprem exactamente o que são como possibilidade estrita, quer dizer, a sua possibilidade é indiscernível de uma determinação. O que se disse do vírus, caso proximamente limite do que é ser-se em forma de vida, pode universalizar-se para todos os seres vivos não-humanos.
Já o ser humano não funciona assim: a sua possibilidade consiste em
poder determinar o que é precisamente como possibilidade: pode mesmo
escolher a aniquilação mundana como eleição de possibilidade, sem que seja para isso determinado por algo diferente do que é em si próprio.
O acto humano é, deste modo, sempre e só, um acto de novidade. Sem esta novidade, como qualquer outro acto mundano, o ser humano é aniquilado. A morte em sentido ateu consiste exactamente na anulação de
5 toda a forma de novidade e de movimento próprio, neste caso, para o ser humano, para a pessoa.
Em tal, difere profunda e radicalmente da morte em sentido cristão, que não é uma ausência total de novidade e de movimento, mas uma metamorfose no modo como novidade e movimento acontecem. A morte em sentido cristão significa a cessação da novidade e do movimento em sentido mundano, físico, mas a continuação da novidade e do movimento em sentido espiritual, puramente espiritual.
É, assim, estranho que tantas pessoas vivam uma vida em que não há sentido do novo, vivendo em perpétua negação do que é o cerne da realidade, mormente da realidade humana. Vivem sem alegria.
Diz o Papa Francisco, no nº 52 da mesma «Exortação», que «A alegria de viver frequentemente desvanece-se […]», apontando algumas daquelas que considera ser as principais razões para que tal suceda.
Ora, o que há de comum em termos etiológicos relativamente a todas as variantes concretas deste modo de viver diz respeito exactamente a tudo o que aliena a pessoa do sentido do ser como constante novidade, isto é, como se, a cada instante, se estivesse situado nos primeiros momentos da criação, como se se estivesse sempre a sair das mãos de Deus.
Esta condição é, como já afirmámos, verdadeiramente infernal, pois aliena a pessoa do absoluto ontológico de cada instante, melhor, de cada acto, especialmente dos seus próprios actos. Sem este sentido esplendoroso do real, tudo se torna assignificativo, pois pode sempre pensar-se que qualquer realidade é redutível a qualquer outra, assim as anulando a ambas: nenhuma das assim comparadas sobrevive como «nova».
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Se se estender este modo de intuir, de «sentir», se se preferir, o real, o mundo, então, tudo perde imediatamente o seu sentido próprio.
Tudo é redutível a algo que não o que é em si próprio. Tudo acontece como se fosse cópia de algo anterior.
Toda a beleza, associada ao novo como esplendor da sua bondade ontológica própria, desaparece. Como no exemplo mítico de Midas e do seu universal ouro, o mundo como indiferenciação é indiscernível de um «mundo como ausência total de sentido». Ora, tal é exactamente a negação do que o mundo é: acto do sentido.
Apenas o novo, o diferente – e apenas o diferente, o não-redutível a algo que já é ou que já foi, é novo – permite o mundo, permite o ser humano como propriamente humano no mundo.
Ao ser humano, pede-se-lhe, laica e religiosamente, que seja na forma de acto de diferencialidade, de constante novidade ontológica, por outras palavras, que crie.
O ser humano que não cria está humanamente morto. O ser humano que se recusa a criar está em processo de suicídio ontológico, ainda que físico-biologicamente não se mate.
O acto humano é um acto de poeticidade. Esta poeticidade pode ser introdutora de bem e beleza no mundo, mas também pode ser destruidora de bem e beleza no mundo. O primeiro acto configura a bondade, o segundo configura a maldade. O primeiro cria o bem, o segundo degrada o bem, uma vez que o mal não pode ser criado.
O governo deste acto próprio do ser humano é dado pelas virtudes. A ausência destas implica que o poema que cada pessoa pode escrever se
7 transforme numa cacofonia de actos, num contributo para a morte do mundo, humano e circunstante.
Américo Pereira 2017