Alfred Percy Sinnet
( 1840 - 1921)O BUDISMO ESOTÉRICO
PENSAMENTO
ÍNDICEPrefácio à Edição Comentada...2
Prefácio da Edição Original...10
Ao Leitor...17 1. INSTRUTORES ESOTÉRICOS ...19 COMENTÁRIOS ...32 2. A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM...37 COMENTÁRIOS ...47 3. A CADEIA PLANETÁRIA ...51 COMENTÁRIOS ...64 4. OS PERÍODOS DO MUNDO ...67 5. O DEVACHAN...85 COMENTÁRIOS ...105 6. KÂMA-LOKA ...106 COMENTÁRIOS ...121
7. A ONDA DA MARÉ HUMANA...134
COMENTÁRIOS ...145 8. O PROGRESSO DA HUMANIDADE ...149 COMENTÁRIOS ...163 9. BUDA ...166 10. O NIRVANA...182 11. O UNIVERSO...191 12. REVISÃO DA DOUTRINA...203
Prefácio à Edição Comentada
Este livro foi publicado pela primeira vez no começo de 1883. Desde então, recebi numerosas informações referentes a muitos dos problemas de que trata. Mas apraz-me dizer que, se os ensinamentos posteriores mostram o caráter incompleto de minha concepção original da doutrina esotérica, de modo algum eles evidenciam qualquer erro material. Na verdade, recebi do próprio Grande Adepto, de quem obtive minha instrução, a certeza de que o livro, como se apresenta agora, é uma exposição segura e digna de confiança do esquema da Natureza tal como os iniciados da ciência oculta a entendem. Esta pode ser, em futuro próximo, ampliada consideravelmente, se o interesse que estimula for suficiente para levar a uma procura acentuada de ensinamentos desse tipo por qualquer um, mas nunca terá de ser reformada ou justificada. Em vista dessa certeza, parece melhor que eu exponha minhas conclusões últimas e as minhas informações complementares sob a forma de comentários em cada um dos ramos do assunto, sem fundi-los no texto original, onde, devido às circunstâncias, não me disponho a introduzir qualquer alteração. Este é o plano adotado para a presente edição.
Querendo transmitir meu reconhecimento indireto da harmonia geral a ser estabelecida entre esses ensinamentos e os reconhecidos dogmas filosóficos de algumas outras grandes escolas de pensamento hindu, passo aqui a referir-me às críticas a este livro, publicadas na revista indiana Theosophist, em junho de 1883, por "Um hindu brâmane". Lamenta-se o autor que, ao interpretar a doutrina esotérica, eu me tenha afastado desnecessariamente da nomenclatura sânscrita aceita. Entretanto, sua objeção significa simplesmente que, em alguns casos, dei
nomes pouco familiares para idéias já incorporadas aos sagrados escritos hindus, e que honrei demasiado o sistema religioso comumente conhecido por Budismo, apresentando-o mais intimamente ligado à doutrina esotérica do que nenhum outro. Diz o meu crítico brâmane: "A sabedoria popular da maior parte dos hindus até o dia de hoje é mais ou menos influenciada pela doutrina esotérica ensinada no livro de Mr. Sinnett, impropriamente denominado O budismo esotérico, enquanto que não existe uma só aldeia ou vilarejo, em toda a índia, em que o povo não esteja mais ou menos familiarizado com os sublimes princípios da filosofia Vedanta.... Os efeitos do karma no próximo nascimento, o gozo de seus frutos, bons ou maus, num estado subjetivo ou espiritual de existência, anterior à reencarnação da mônada espiritual neste ou nalgum outro mundo, o vagar das almas insaciadas ou dos cascões humanos na Terra (Kâma-loka), os períodos malaicos e manvantáricos... não são apenas inteligíveis, como também, para muitos hindus, são familiares sob nomes diferentes dos usados pelo autor de O budismo esotérico”. É tanto melhor que assim seja — permito-me contestar — sob o ângulo dos leitores ocidentais, para os quais deve ser indiferente se a religião esotérica, hindu ou budista, está mais ou menos próxima da ciência espiritual absolutamente verdadeira, que por certo não deveria admitir nome algum que pareça fazê-la solidária, no mundo exterior, a uma fé mais do que a outra. Na Europa, tudo o que podemos aspirar é chegar à clara compreensão dos princípios essenciais daquela ciência; e se neste livro encontramos definidos esses princípios, conforme os representantes ilustrados de mais de uma das grandes crenças orientais, como à altura de verdades subjacentes a todos os diversos sistemas, estaremos tanto mais propensos a crer que a presente exposição da doutrina merece nossa atenção.
Com referência à crítica de que os ensinamentos, aqui reduzidos a uma forma inteligível, estão incorretamente descritos pelo nome que este livro leva, não posso fazer nada melhor do que citar a nota com que o redator de Theosophist replica a seu colaborador brâmane. Essa nota diz: "Publicamos a carta anterior porque expressa, em linguagem cortês e de modo hábil, as opiniões de grande número de nossos irmãos hindus. Ao mesmo tempo, deve ser dito que o nome O budismo esotérico foi dado à última publicação de Mr. Sinnett, não porque a doutrina nela exposta pretenda estar especialmente identificada com qualquer forma particular de fé, mas porque Budismo significa a doutrina dos Budas, dos Sábios, isto é, a Religião da Sabedoria". De minha parte, necessito apenas aduzir que aceito e admito plenamente essa explicação do assunto. Seria, na verdade, uma concepção errônea do propósito a que este livro responde o fato de supor que se preocupa em recomendar, ao gosto do diletante moderno, modos de pensamento religioso próprios do Mundo Antigo. As formas externas e fantasias religiosas, em uma época, podem ser mais puras e, em outra, mais corrompidas, mas inevitavelmente se adaptam a seu tempo, e seria extravagância imaginar que se possam substituir umas pelas outras. Esta declaração não é formulada na esperança de converter em budistas os seguidores de qualquer outro sistema, porém com o fito de comunicar aos pensadores que nos lêem, tanto no Oriente como no Ocidente, uma série de idéias-guia, referentes às verdades efetivas da Natureza e aos fatos reais do progresso do homem através da evolução, e que, tendo sido comunicadas ao autor pêlos filósofos orientais, amolda-se assim com mais facilidade ao Oriente. Quanto ao valor desses ensinamentos, talvez se apreciará melhor quando se perceber claramente que seu caráter é mais científico do que controverto. Ai verdades espirituais se são verdades, podem evidentemente ser tratado com espírito no
menos científico do que as reações químicas. E nenhum sentimento religioso, de qualquer espécie que seja, precisa ser perturbado pela importação, ao repertório geral do conhecimento, de novos descobrimentos sobre a constituição e a natureza do homem, no plano de suas mais altas atividades. Á religião verdadeira atinaria, eventualmente, com um procedimento para assimilar muitos conhecimentos recentes, do mesmo modo que sempre acaba por admitir maior expansão do Conhecimento, no plano físico. À primeira vista, isso pode confundir noções associadas a crenças religiosas — assim como, no início, a geologia complicou a cronologia bíblica. Mas com o tempo os homens foram vendo que a essência das afirmações bíblicas não reside no sentido literal das passagens cosmológicas do Antigo Testamento, e os conceitos religiosos purificaram-se muito com o subsídio que assim lhes pôde ser propiciado. Da mesma forma, quando os conhecimentos da ciência positiva começarem a abranger uma compreensão das leis relativas ao desenvolvimento espiritual do homem, alguns conceitos errôneos da Natureza, durante muito tempo misturados com religião, poderão ser suplantados, mas apesar de tudo se descobrirá que as idéias fundamentais da verdadeira religião foram mais aclaradas e robustecidas, mediante aquele processo. À medida que tais procedimentos continuam, em especial as dissensões internas do mundo religioso serão fatalmente superadas. A luta entre seitas pode ser devida apenas à deficiência da parte dos sectários rivais em compreender os fatos fundamentais. Quem sabe chegará um dia em que as idéias fundamentais, nas quais a religião se apóia, sejam compreendidas com a mesma certeza que compreendemos algumas leis físicas elementares e que as discordâncias sobre elas sejam consideradas ridículas por todas as pessoas instruídas; então, não haverá lugar para tantas acres divergências no sentimento religioso. As circunstâncias externas ao pensamento religioso serão
diferentes ainda, em diferentes climas e entre raças diferentes, como diferem a indumentária e o regime alimentar; mas tais diferenças não causarão antagonismo intelectual.
A meu ver, os fatos fundamentais da natureza indicada são desenvolvidos na exposição da ciência espiritual que obtivemos agora de nossos amigos orientais. Para os pensadores religiosos, é completamente inútil afastar-se deles sob a impressão de que esses argumentos favoreçam algum credo oriental, em detrimento da crença mais generalizada do Ocidente. Se a ciência médica descobrisse um fato novo sobre o corpo humano, se desvendasse algum princípio até agora oculto, em que se baseasse o crescimento da pele, da carne e dos ossos, essa descoberta não seria encarada como uma violação do domínio da religião. O domínio da religião poderia considerar-se invadido, por exemplo, por uma descoberta que, por trás da ação dos nervos, revelasse urna série mais delicada de atividades que os manipulassem, do mesmo modo como eles manipulam os músculos? De qualquer modo, malgrado tal descoberta pudesse ser um princípio para reconciliar ciência e religião, nenhum homem que permita que suas faculdades superiores tomem parte em seus pensamentos religiosos desprezaria como hostil à religião um fato positivo plenamente demonstrado da Natureza. Sendo um fato, inevitavelmente se ajustaria a todos os outros fatos, assim como a verdade religiosa. Isso acontece com a grande massa de informações relativas à evolução espiritual do homem, compreendida na presente exposição. Nosso melhor intento é perguntar, antes de nos fixarmos no relato que dou a público. Não se enquadra, sob todos os seus aspectos, com opiniões preconcebidas. E realmente nos insere numa série de fatos naturais relacionados com o crescimento e com o desenvolvimento das mais altas faculdades do homem. Se assim é, podemos sabiamente examinar os fatos,
primeiramente com espírito científico e, depois, deixar que eles exerçam seus efeitos razoáveis e legítimos nas crenças colaterais.
À medida que a explanação prossegue, ramificando-se em muitas direções, ver-se-á que a afirmação principal que agora se divulga é uma teoria antropológica que completa e espiritualiza as noções correntes da evolução física. A teoria que assinala o desenvolvimento do homem, por meio de sucessivos e graduais aperfeiçoamentos das formas animais, de geração em geração, é uma teoria muito desinteressante e pobre, se encarada como uma explicação que compreende a criação inteira. Entretanto, devidamente entendida, facilita o acesso à compreensão do processo concorrente superior que faz evoluir a alma do homem no reino espiritual da existência. Á atual visão do assunto reconcilia o método evolucionista com o anseio profundamente arraigado em cada entidade consciente, de perpetuação da vida individual. As séries desarticuladas de formas progressivas existentes na Terra não têm individualidade. À vida de cada uma é, por sua vez, uma operação separada que não encontra na próxima e similar operação qualquer compensação pêlos sofrimentos que a acompanham. Nenhuma justiça, nenhum fruto de seus esforços. Todavia, pode-se argumentar, na suposição de nova e independente criação de uma alma humana, cada vez que nova forma humana é produzida por desenvolvimento fisiológico, que nos estados espirituais posteriores desta alma a justiça será concedida. Mas, nesse caso, essa concepção está em desacordo com a idéia fundamental da evolução que faz depender ou crê fazer depender, em cada caso, a origem da alma das operações da matéria altamente desenvolvida. Isso não deixa de ser discrepante com as analogias da Natureza, mas, sem entrar neste assunto, basta por enquanto perceber que a teoria da evolução espiritual, tal como ela aparece nos ensinamentos da ciência esotérica,
harmoniza-se em todo caso com essas analogias, ao passo que, ao mesmo tempo, coincide com as exigências da justiça e satisfaz a demanda instintiva, pela continuação da vida individual.
Esta teoria reconhece a evolução da alma como um processo que é inteiramente contínuo em si mesmo, embora efetivado, em parte, por intermédio de uma grande série de formas dissociadas que servem como instrumentos. Deixando de lado, por agora, a metafísica profunda da teoria que revela a origem do princípio da vida, a primeira causa original do cosmos, encontramos a alma como uma entidade emergente do reino animal e passando às formas humanas primigênias, sem estar ainda preparada naquele tempo para a mais elevada vida intelectual com que estamos familiarizados, no estado presente da humanidade. Porém, devido às sucessivas encarnações nas formas, cujo aprimoramento físico, sob a lei de Darwin, está constantemente se ajustando para ser a sua morada a cada retomo à vida objetiva, adquire gradualmente aquele raio de experiência em que a resultante é o seu mais elevado desenvolvimento. Nos intervalos entre as suas encarnações físicas, prolonga, desenvolve e por fim esgota ou transforma as experiências pessoais de cada vida em desenvolvimento proporciona abstrato. Esta é a chave da explicação verdadeira daquela dificuldade aparente que persegue a forma mais crua da teoria da reencarnação, apresentada algumas vezes pela especulação independente. Cada homem é inconsciente das vidas por que passou anteriormente, por isso sustenta que as vidas subseqüentes não podem lhe proporcionar compensação alguma para esta presente. Não se dá conta da enorme importância do estado espiritual intermediário, no qual de modo algum esquece as aventuras e emoções pessoais pelas quais passou e durante o qual refina estas em outros tantos progressos cósmicos. Nas páginas que seguem, tenta-se elucidar este
mistério, profundamente interessante. O exame dos acontecimentos, pêlos quais atualmente passamos, não é só' uma solução dos problemas da vida e da morte, mas também de muitas das desconcertantes experiências que ocorrem na região limítrofe entre estas duas condições — ou antes, entre a vida física e a espiritual — que tanto prenderam a atenção e foram objeto de especulação nos últimos anos, nos países mais civilizados.
Prefácio da Edição Original
Os ensinamentos compreendidos neste volume lançam luz sobre questões relacionadas com a doutrina budista, que deixaram perplexos os escritores que se ocuparam dessa religião, e oferecem, ao mundo, pela primeira vez, uma chave prática para o significado de quase todo o antigo simbolismo religioso. Mais ainda, uma vez propriamente entendida a doutrina esotérica, ver-se-á que ela possui razões muito poderosas para que todos os pensadores sérios lhe dêem atenção. Seus princípios não nos são apresentados como a invenção de algum fundador ou profeta. Seu testemunho não se baseia em nenhuma escritura. Suas opiniões sobre a Natureza foram desenvolvidas graças às pesquisas de uma série enorme de perquiridores, qualificados para sua missão, pela posse de faculdades e percepções espirituais de uma ordem mais elevada que as pertencentes à humanidade comum. No decorrer dos tempos, o repertório de conhecimentos assim acumulados, referentes às origens do mundo e do homem e aos destinos posteriores de nossa raça — relativos também à natureza de outros mundos e a estados de existência que diferem dos de nossa vida presente — comprovados e examinados em cada um de seus aspectos, e constantemente sujeitos a completo exame, chegou a ser encarado por seus defensores como sendo a verdade absoluta, no que diz respeito às coisas espirituais, ao estado real dos fatos nas vastas regiões de atividade vital, mais além desta existência terrena.
A filosofia européia, quer se refira à religião, quer à metafísica pura, acostumou-se, durante tanto tempo, a um sentimento de insegurança nas especulações além dos limites da experiência física, que os pensadores prudentes dificilmente reconhecem como objeto razoável de investigação, a verdade absoluta sobre as coisas espirituais. Na Ásia, porém, adquiriram-se outros hábitos de
pensamento. A doutrina secreta, que em extensão considerável tenho agora a oportunidade de expor, é considerada não só por seus seguidores, como por grande número dos que nunca esperaram conhecer dela outra coisa do que saber que existe, como uma mina de conhecimentos inteiramente dignos de fé, da qual todas as religiões e filosofias tiraram o que possuem de verdade e com os quais toda religião deve coincidir, se pretende ser um modo de expressão da verdade.
De fato, isso é uma pretensão audaciosa, mas me aventuro a declarar que o conteúdo deste livro é de suma importância para o mundo, porque creio que essa pretensão pode ser justificada.
Não digo que dentro dos limites deste volume se possa provar a autenticidade da doutrina esotérica. Essa prova não se apresenta por nenhum processo de argumentação, mas apenas pelo desenvolvimento de per si das faculdades exigidas à observação direta da Natureza, ao longo da senda indicada. Esta conclusão prima fade pode se determinar pela importância que tenham para o indivíduo as opiniões que se vão expor sobre a Natureza, e pelas razões que existem para confiar nos poderes de observação daqueles que a comunicaram.
Pode-se supor, talvez, que a própria magnitude da presente pretensão em benefício da doutrina esotérica suscite esta afirmação oriunda da região a que se refere seu título — a da pesquisa relativa ao significado real e interno da religião definida e específica chamada Budismo. O fato, contudo, é que o Budismo Esotérico, embora de maneira alguma esteja divorciado das relações com o Budismo Exotérico, não deve ser concebido como constituindo mero imperium in imperio — uma escola central de cultura no vórtice do mundo budista. À medida que o Budismo se retira dos recessos de sua fé, descobre-se que estes se misturam com os recessos de outras crenças. As concepções cósmicas e o conhecimento da
Natureza nos quais repousa o Budismo, como também constituem o Budismo Esotérico, são as mesmas do Bramanismo esotérico. E a doutrina esotérica é assim considerada por todos os "iluminados" (no sentido budista) das crenças como a verdade mais absoluta referente à Natureza, ao Homem, à origem do Universo e aos destinos para os quais tendem os seus habitantes. Ao mesmo tempo, o Budismo
Exotérico permaneceu em união mais estreita com a doutrina esotérica do que
qualquer uma das outras religiões populares. A exposição da ciência interna estará associada, portanto, de forma irresistível por si mesma, com as descrições familiares dos ensinamentos budistas. Com certeza, conferindo a estes um significado vívido, que no geral lhes parece faltar, mas por isso mesmo contribuindo para que a doutrina esotérica seja estudada em seu aspecto budista: além disso, um aspecto que foi tão fortemente impresso sobre ela, desde os tempos de Gautama Buda. Embora a essência da doutrina seja bem mais remota, o colorido budista penetrou por completo em sua substância. O que vou expor ao leitor é o Budismo Esotérico, e para estudantes acidentais, que pela primeira vez o abordam, seria imprópria qualquer outra denominação.
À exposição das doutrinas deve ser considerada pelo leitor em seu conjunto, antes que possa compreender por que os iniciados na doutrina esotérica consideram como de assombrosa grandeza a situação que envolve uma revelação atual do esboço geral desta doutrina. Uma explicação desse sentimento pode ser vista surgir, de imediato, da extrema sacralidade que está sempre incorporada aos antigos guardiões das verdades íntimas e vitais da Natureza. Até hoje, esta santidade tem prescrito sua ocultação absoluta do rebanho profano. E, no que este costume de ocultação — tradição de muitos séculos — vai sendo na atualidade substituído pelo novo costume que determina o aparecimento deste livro, o será com surpresa e
pesar por grande número de discípulos iniciados. Submeter à crítica, que pode às vezes ser desairosa e irreverente, doutrinas que até agora foram tidas por tais pessoas como de importância demasiado majestosa, para que se fale delas apenas em circunstâncias de condizente solenidade, parecer-lhes-á uma terrível profanação dos grandes mistérios. Considerando este livro do ponto de vista europeu, seria pouco razoável esperar que se possa livrá-lo da dureza costumeira dispensada às idéias novas. E as convicções especiais ou o fanatismo vulgar podem fazer com que, algumas vezes, no caso presente, tal conduta se torne particularmente hostil. Apesar de tudo isso e ainda que dar à luz tais conhecimentos seja coisa lógica de se esperar de expositores europeus como eu, será encarado com grande pesar e desgosto pelos seus mais antigos e regulares representantes. Com tristeza, apelarão à sabedoria sancionada pelo tempo em que, no antigo e simbólico estilo, se proibia aos iniciados jogar pérolas aos porcos.
Felizmente, conforme eu penso, não se permitiu que a regra funcionasse por mais tempo em detrimento de todos aqueles que, apesar de estarem ainda muito longe de ser iniciados, no sentido oculto da palavra, estão aptos, pela pura força da cultura moderna, a apreciar essa concessão.
Parte das informações contidas nas páginas que se seguem foi, primeiramente, divulgada de modo fragmentário no Theosophist, revista mensal publicada em Madras, índia, pêlos diretores da Sociedade Teosófica. Como quase todos os artigos foram assinados por mim, não vacilei em entremear trechos dos mesmos, quando achei conveniente no presente volume. Desse modo, consegui certa vantagem, mostrando como as separadas peças do mosaico, pela primeira vez apresentadas a público, ajustam-se naturalmente em seus respectivos lugares no pavimento já concluído.
A doutrina ou sistema agora revelado, em seus traços essenciais, foi tão zelosamente guardado até hoje que nenhum gênero de pesquisas literárias, embora houvessem esquadrinhado a índia inteira, pôde trazer à luz a menor partícula do conteúdo aqui revelado. Foi, afinal, dada ao mundo pela livre vontade daqueles sob cuja custódia haviam permanecido até hoje. Ninguém teria arrancado deles nem a sua primeira letra. Somente após ler com atenção estas explicações é que a atitude em geral, com respeito às suas atuais revelações ou à reticência anterior, pode ser criticada ou mesmo compreendida. As opiniões sobre a Natureza, agora expostas, são bastante estranhas para os pensadores europeus. O modo de agir dos graduados na ciência esotérica, resultado de uma longa intimidade com essas opiniões, deve ser considerado em relação com o alcance peculiar da própria doutrina.
Quanto às circunstâncias sob as quais estas revelações foram pela primeira vez apresentadas no Theosophist, agora completadas e aqui expostas, como perceberão nossos leitores, basta dizer, no momento, que a Sociedade Teosófica, por meio da qual e graças à minha relação com ela vieram às minhas mãos as informações deste livro, deve sua existência a certas pessoas que se incluem entre os defensores da ciência esotérica. O assunto que, por fim, é exibido em proveito dos que estão aptos a recebê-lo, é apresentado ao mundo por intermédio da Sociedade Teosófica desde sua fundação, e somente circunstâncias posteriores indicaram-me como o agente através de quem esta comunicação poderia ser feita de modo conveniente.
É preciso que se saiba que não me considero o único expositor da verdade esotérica para o mundo exterior, durante esta crise. Estes ensinamentos constituem a conseqüência, no tocante ao conhecimento filosófico, das relações estabelecidas
com o mundo exterior pelos guardiões da verdade esotérica por meu intermédio. E apenas em virtude dos atos e intenções destes instrutores esotéricos que decidiram atuar por meu intermédio é que possuo um determinado conhecimento. Mas, em diferentes sentidos, alguns outros escritores empreenderam, parece, a exposição em benefício do mundo — e, segundo creio, de conformidade com um vasto plano, do qual este volume é uma parte — das mesmas verdades que, sob outros aspectos, tenho a missão de revelar. É provável que a grande efervescência existente, hoje em dia, nas especulações literárias a respeito de problemas que ultrapassam os limites da ciência física, tenham provocado tal conduta por parte dos grandes guardiões da verdade esotérica, em que meu livro é, por certo, mais uma manifestação. Já o ardor agora demonstrado nas "Pesquisas Psíquicas" por homens ilustres e cultos à testa da Sociedade que se dedica, em Londres, a tal propósito, segundo minhas convicções íntimas — conhecendo, como conheço, algo relativo ao modo como as aspirações espirituais do mundo estão sendo secretamente influenciadas por aqueles cujos trabalhos ocorrem nesse departamento da Natureza — é fruto evidente de esforços paralelos àqueles com os quais estou mais diretamente preocupado.
Agora me resta negar, com relação ao estudo que se segue, qualquer pretensão minha quanto à perfeição de linguagem. Uma familiaridade maior com o vasto e complicado esquema da cosmogonia revelada sugerirá, sem dúvida, aperfeiçoamentos na fraseologia empregada de minha exposição. Há dois anos, nem eu nem outro europeu conhecíamos o alfabeto da ciência aqui exposta pela primeira vez, sob uma forma científica — ou, pelo menos, tentada nesta direção —, a ciência das Causas Espirituais e de seus Efeitos, da Consciência Suprafísica, da Evolução Cósmica. Embora tais idéias comecem a se revelar ao mundo, sob um
disfarce mais ou menos embaraçoso de simbolismo místico, não se tentara até há dois anos, por nenhum instrutor esotérico, expor a doutrina em sua clara pureza abstrata. Na medida em que progredia a minha própria instrução neste sentido, inventei frases e sugeri palavras como equivalentes às idéias que se apresentavam à minha mente. Não tenciono ficar convencido de que em todas as oportunidades tenha inventado as melhores frases possíveis, nem que haja encontrado as palavras mais nítidas e expressivas. Por exemplo, no início da obra, precisamos atribuir nomes aos elementos ou atributos de que se compõe o ser humano completo. "Elemento" seria um termo inadequado para se usar, devido à confusão que se originaria de sua utilização com outros sentidos. Também sujeita a objeções foi a palavra "princípio". Para um ouvido educado nas sutilezas das expressões metafísicas, esse termo soará de um modo pouco satisfatório, em algumas de suas presentes aplicações. É bem possível que, com o passar do tempo, a nomenclatura ocidental da doutrina esotérica se desenvolva muito mais a partir do que eu construí provisoriamente. A nomenclatura oriental é bem mais apurada. Mas o sânscrito metafísico parece embaraçar penosamente o tradutor — embora a culpa, segundo meus amigos indianos, não seja do sânscrito, mas da linguagem em que pretendem expressar a idéia sânscrita na atualidade. Com a ajuda do grego, que nos é familiar, às vezes recebe-se melhor a nova doutrina — ou, antes, a primitiva doutrina, tal como ela foi revelada recentemente — do que no Oriente se presumiu fosse possível.
Ao Leitor
Todos os que lerem hoje este livro devem lembrar-se de que ele foi publicado pela primeira vez em 1883, e constitui o mais primitivo esboço da doutrina esotérica já revelada ao público em geral, em linguagem simples. Desde que ele foi escrito, o estudo da teosofia e a posterior ajuda obtida dos Mestres originais ampliaram muito o nosso conhecimento, e de muitas maneiras os pontos de vista que somos capazes de expressar a respeito da evolução humana e da vida suprafísica são muito mais ricos de detalhes que naquele esboço primitivo, que é considerado agora como incompleto, até certo ponto enganoso. Por exemplo, neste livro todos os conhecimentos da vida no Plano Astral (ou Kâma-Ioka) estão inteiramente desatualizados. Meu trabalho seguinte, O crescimento da alma, elucida o assunto de alguma forma. Um livro ulterior, No próximo mundo, aborda também outros aspectos das condições variadas em que a Terra está dividida, com a prevalência dos subplanos do vasto invólucro suprafísico. Do mesmo modo, todos os relatos neste texto sobre o "Devachan" supervalorizam a importância desse estado — na verdade, apenas um dos aspectos da vida no plano do Manas — e não propriamente um objetivo a ser visado por toda a humanidade. Resumindo, a teosofia, considerada uma ciência espiritual, avançou e está progredindo tão magnificamente que os seus livros mais antigos são interessantes principalmente como registros de suas origens — um prognóstico incompleto da riqueza de conhecimentos, acumulada mais tarde em nossas mãos. A primeira coleção dos Anais da Loja de Londres, publicada durante os anos de 1884-1902, revelou grande parte do progresso obtido; a nova coleção (em circulação), de 1913-1916, já incorporou os resultados desse discreto trabalho posterior.
A Ética da Teosofia é demasiado clara e simples para necessitar de revisão constante. Em seu aspecto intelectual, a Teosofia é uma ciência viva repleta de possibilidades futuras infinitas. Assim como o químico moderno deve remontar a épocas anteriores com interesse, não desprovido de humor, para a especulação transita sobre o "flogisto" e o "ar sem flogísticos", bem assim os teosofistas precisam, qualquer que seja seu estado, espero, ter uma espécie de tolerância pêlos muitos equívocos contidos em O budismo esotérico, lembrando que, apesar deles, o livro teve a honra de inaugurar o grande movimento teosófico no plano físico do mundo ocidental.
A.P.SINNETT 1918
1. INSTRUTORES ESOTÉRICOS
As informações contidas nas páginas a seguir não são uma coleção de inferências deduzidas de estudos. Aos leitores, apresento conhecimentos obtidos mais por generosidade que por esforços. Disso não decorre que seu valor seja menor; ao contrário, aventuro-me a declarar que será incalculavelmente maior pela facilidade com que os obtive, do que quaisquer resultados proporcionados pêlos métodos ordinários de pesquisas, mesmo se eu tivesse possuído, em seu grau mais elevado, o que não pretendo possuir de modo algum — a Ciência Oriental.
Todos os que se preocupam com a literatura indiana, e mais ainda, qualquer pessoa que na índia tenha tratado de assuntos filosóficos com nativos cultos, estarão cientes da convicção geral no Oriente de que há homens que sabem mais sobre filosofia, na acepção mais elevada da palavra — a ciência, o verdadeiro conhecimento das coisas espirituais —, do que se acha registrado em qualquer livro. Na Europa, a noção de segredo aplicada à ciência repugna tanto ao instinto dominante que a primeira tendência dos pensadores europeus é negar a existência daquilo com que antipatizam. Mas as circunstâncias me deram a certeza cabal, durante minha estada na índia, de que a convicção que acabo de mencionar está perfeitamente bem fundamentada. Afinal, tive o privilégio de receber uma massa considerável de instrução sobre a até hoje ciência secreta, a respeito da qual os filósofos orientais meditaram em silêncio até agora. Essa instrução foi unicamente comunicada a estudantes preparados para penetrar nas regiões do segredo, e permanecendo seus instrutores muito tranqüilos com relação à dúvida em que têm ficado os demais investigadores, acerca da existência ou não de algo de importância a aprender deles.
Compartilhando em princípio essa grande antipatia pela antiga regra de conduta oriental, no que diz respeito ao conhecimento, cheguei, no entanto, a perceber que a antiga ciência oriental era efetivamente uma verdade Importante. E escusável considerar as uvas como verdes quando estão totalmente fora de alcance, mas seria loucura persistir nessa opinião se um amigo de estatura elevada pudesse apanhar um cacho e as achasse doces.
Por razões que aparecerão no decurso desta obra, a massa considerável de ensinamentos até hoje secretos, que ela contém, me foi comunicada não só fora das condições normais, mas com a finalidade explícita de que, de minha parte, eu as comunicasse sem reservas ao mundo.
Sem a luz da ciência oriental, até agora secreta, é impossível que apenas pelo estudo de sua literatura publicada — em língua inglesa ou em sânscrito — até mesmo os estudantes da melhor qualificação científica possam compreender as doutrinas internas e o significado verdadeiro de qualquer religião oriental. Esta assertiva não envolve repreensão alguma aos escritores eruditos e laboriosos de grande gênio, que têm estudado as religiões orientais em geral, e o Budismo de modo especial, em seus aspectos exteriores. O Budismo é, sobretudo uma religião que tem gozado de uma existência dual desde o início de sua introdução no mundo. O significado real interno de suas doutrinas foi mantido apartado dos estudantes não-inicia-dos, enquanto seus ensinamentos externos têm sido simplesmente apresentados à multidão, como um código de lições morais e com uma literatura simbólica e velada, que indicava a existência de conhecimentos anteriores.
Esta ciência secreta, na verdade, é muito anterior à passagem de Gautama Buda pela vida terrena. A filosofia bramânica, em épocas anteriores a Buda, compreendia a mesma doutrina que na atualidade pode ser chamada de Budismo
Esotérico. Com efeito, os seus contornos haviam-se apagado e as suas formas científicas haviam sido parcialmente confundidas; mas a massa geral de conhecimentos já estava em poder de uns poucos eleitos antes que Buda viesse a participar dos mesmos. Buda, entretanto, empreendeu a tarefa de revisar e restaurar a ciência esotérica do círculo interno de iniciados, bem como a moralidade do mundo externo. As circunstâncias em que esta tarefa foi feita foram muito mal-entendidas; uma verdadeira explicação não seria inteligível sem as elucidações, que deveriam ser obtidas por um exame prévio da própria ciência esotérica.
Desde o tempo de Buda, até hoje, a ciência esotérica de que nos ocupamos tem sido zelosamente guardada como uma preciosa herança, privativa tão-só dos membros regularmente iniciados das associações misteriosamente organizadas. Estes, no que diz respeito ao Budismo, são os Arhats a que se refere a literatura budista. São os iniciados que trilham a "quarta senda da santidade", de que se fala nos escritos budistas. Mr. Rhys Davids, referindo-se à multiplicidade de textos originais e às autoridades sânscritas, diz: "Podem-se escrever páginas e páginas com os louvores impregnados de um sentimento temeroso e de êxtase, de que são pródigos os escritos budistas a este estado da mente, o fruto da quarta senda, o estado de um Arhat, de um homem perfeito segundo a fé budista." E depois de fazer uma série de citações oriundas de autoridades sânscritas, expressa: "Para aquele que chegou ao fim da senda e passou além da tristeza; que se libertou por si mesmo de tudo; que se desprendeu de todos os grilhões, não existe mais nem a paixão, nem o desgosto... Para ele não há mais nascimentos... acha-se no gozo do Nirvana. Seu antigo karma está esgotado, não foi produzido nenhum novo karma; seu coração está livre de anseios por uma vida futura e, não gerando novos desejos, eles, os sábios, se extinguiram tal o lume de uma vela." Estes e outros parágrafos
semelhantes conduzem, de qualquer modo, os leitores europeus a uma idéia completamente falsa no que concerne ao tipo de pessoa que um Arhat é efetivamente, à vida que leva enquanto está na Terra e à que espera no futuro. Mas a elucidação destes pontos pode ser adiada no momento. Primeiramente se podem expor outros parágrafos procedentes de tratados esotéricos, que demonstram o que é que geralmente se supõe ser um Arhat.
Mr. Rhys Davids, falando de Jhana e Samadhi (a crença de que era possível, por meio de intensa auto-absorção, atingir faculdades e poderes sobrenaturais) diz ainda: "Tanto quanto é do meu conhecimento, não se registra nenhum caso de alguém, seja um membro da ordem, ou um asceta brâmane, que tenha adquirido estes poderes. Um Buda sempre os possui; se os Arhats, como tais, realizam os milagres especiais em questão, e se dentre os mendicantes somente os Arhats ou unicamente os Asekhas podem realizá-los, é coisa que não está clara na atualidade”.As fontes de informação que foram exploradas até agora sobre o assunto esclarecem muito pouco. Mas limito-me a mostrar que a literatura budista é abundante em alusões relativas à grandeza e aos poderes dos Arhats. Quanto a um conhecimento mais íntimo a respeito deles, circunstâncias especiais nos devem apresentar explicações cabíveis.
Mr. Arthur Lillie, em Buda e o budismo primitivo, nos relata: "Seis faculdades sobrenaturais se requerem do asceta antes que ele possa pretender o grau de Arhat. A elas se alude constantemente nos Sutras como as seis faculdades sobrenaturais, em geral sem nenhuma outra especificação... O homem possui um corpo constituído dos quatro elementos... neste corpo transitório está acorrentada a sua inteligência, e, achando-se assim confuso, o asceta dirige a sua mente à criação do Manas. Ele imagina a si mesmo, em pensamento, com outro corpo criado a partir
desse corpo material — um corpo com uma forma, com membros e órgãos. Com relação ao corpo material, este corpo é o que a espada é para a bainha, ou como uma serpente saindo de um cesto em que estivesse confinada. Então o asceta, purificado e aperfeiçoado, começa a pôr em prática faculdades sobrenaturais. Encontra-se apto a passar através de obstáculos materiais, como paredes, muralhas, etc.; é capaz de lançar sua fantástica aparição em muitos lugares ao mesmo tempo... pode abandonar este mundo e até alcançar o céu do próprio Brahma... Adquire o poder de ouvir os sons do mundo invisível de forma tão nítida quanto os do mundo fenomenal — ainda mais nitidamente na realidade. Também pelo poder dos Manas, é capaz de ler os pensamentos mais secretos dos outros e de dar conta de seus caracteres." E assim sucessivamente com os demais exemplos. Mr. Lillie não adivinhou com exatidão a natureza da verdade existente atrás desta versão popular dos fatos; porém, a rigor, não é necessário citar mais, para demonstrar que os poderes dos Arhats e sua penetração nas coisas espirituais são respeitados pelo inundo budista do modo mais profundo, por mais que os próprios Arhats se tenham mostrado singularmente pouco dispostos a facilitar o mundo com autobiografias ou relatos científicos dos "seis poderes sobrenaturais".
Algumas proposições da tradução recente feita por Mr. Hoey, da obra Buda: sua vida, sua doutrina, sua ordem, do Dr. Oldenberg, podem-se inserir neste local, após o que seguiremos adiante. Nela lemos: "A proverbial filosofia budista atribui, em inúmeras passagens, a posse do Nirvana ao santo que ainda pisa a Terra: 'O discípulo que se livrou da sensualidade e do desejo, rico em sabedoria, conseguiu aqui na Terra livrar-se da morte; atingiu o repouso, o Nirvana, o estado eterno. Aquele que escapou dos difíceis labirintos do Samsara, que cruzou e chegou à costa, absorvido em si mesmo, sem tropeços e sem dúvidas, que se livrou por si
mesmo das coisas terrenas e alcançou o Nirvana, a esse eu chamo de um verdadeiro brâmane.' Se o santo quer pôr fim ao seu estado de existência, pode fazê-lo, mas muito continua nele, até que a Natureza tenha atingido sua meta; a respeito disso, cabem aquelas palavras postas na boca do mais eminente dos discípulos de Buda: 'Não desejo a morte; não desejo a vida; espero que chegue minha hora, como um obreiro que aguarda o seu salário'."
A multiplicação de citações semelhantes equivaleria a repetir, em formas variadas, os conceitos exotéricos sobre o Arhats. Como todos os fatos ou pensamentos do Budismo, o Arhat tem dois aspectos: um sob o qual ele se apresenta ao mundo em geral, e o outro no qual vive, move-se e existe. No que se refere à apreciação popular, ele é um santo aguardando um galardão espiritual do gênero que o vulgo pode entender — um produtor de maravilhas graças a agentes sobrenaturais. Na verdade, ele é o guardião, por longo tempo provado, da filosofia mais profunda e secreta da religião fundamental que Buda renovou e restaurou; um investigador da ciência natural, situado no próprio cume do conhecimento humano, não só no que diz respeito aos mistérios do espírito, mas também em tudo o que se relaciona com a constituição material do mundo.
Arhat é uma designação budista. Na índia, onde os atributos da ordem de Arhat não estão necessariamente associados com as profissões do Budismo, a designação mais familiar é Mahâtmâ. A Índia está saturada de narrativas sobre os Mahâtmâs. Os mais antigos Mahâtmâs são, geralmente, chamados Rishis. Mas os termos são permutáveis, e ouvi aplicar o título de Rishis a homens que estão vivos hoje. Todos os atributos dos Arhats, que se descrevem nos escritos budistas, são mencionados com não menos reverência na literatura indiana que os atributos Mahâtmâs; e este volume poderia facilmente encher-se com traduções de livros do
país, referindo fatos milagrosos verificados por aqueles a quem a história e a tradição conhecem por tal nome.
Com efeito, os Arhats e os Mahâtmâs são os mesmos homens. Naquela altura de exaltação espiritual, o conhecimento supremo da doutrina esotérica harmoniza todas as distinções sectárias originais. Seja qual for o nome que se dê a esses illuminati1, eles são os adeptos da ciência oculta, algumas vezes, na índia de hoje, chamados Irmãos e depositários da ciência espiritual que lhes foi legada por seus predecessores.
Seria em vão pesquisar a literatura antiga e moderna, em busca de qualquer explicação sistemática de sua doutrina ou ciência. Boa parte dela está obscuramente exposta nos escritos ocultos; mas muito poucos têm utilidade para os leitores que empreendem a tarefa sem um prévio conhecimento adquirido independentemente dos livros. Pelo fato de eu ter recebido instrução direta de um entre eles, posso agora tentar um esboço dos ensinamentos dos Mahâtmâs, do mesmo modo como adquiri o que sei relativo à organização a que pertence a maior parte deles, bem como os maiores, da atualidade.
Em todo o mundo há ocultistas de diversos graus de eminência e, igualmente, há fraternidades ocultas que têm muito em comum com a fraternidade dirigente estabelecida no Tibete. Mas todas as minhas investigações sobre o assunto me convenceram de que a Fraternidade Tibetana é incomparavelmente a mais elevada dessas associações, e como tal é considerada por todas as demais — dignas, por sua vez, de serem encaradas como "iluminadas", no sentido oculto da palavra. Na verdade, existem na índia muitos místicos isolados, que receberam uma auto-educação integral sem vinculação com as associações ocultas. Muitos destes dizem
que atingem mais altos pináculos da iluminação espiritual do que os Irmãos do Tibete, ou do que qualquer outra pessoa na Terra. Porém, o exame dessas pretensões, em todos os casos com que me deparei, creio que conduziria qualquer leigo imparcial, por pouco qualificado que estivesse em seu desenvolvimento pessoal para julgar sobre iluminação oculta, à conclusão de que são completamente infundadas. Por exemplo, conheço um natural da índia, homem de educação européia, que goza de alto prestígio no Governo, de boa posição social, de caráter elevado e que é respeitado de modo invulgar pêlos europeus que com ele se relacionam na vida oficial. Essa pessoa concede aos Irmãos do Tibete apenas um segundo lugar no mundo da iluminação espiritual. Considera o primeiro lugar ocupado por uma pessoa que já não está neste mundo — seu próprio mestre oculto na vida —, que ele convictamente afirma ter sido uma encarnação do Ser Supremo. Seus próprios (do meu amigo) sentidos internos foram despertados por esse Mestre, de forma que as visões do estado extático, em que pode imergir silenciosamente à vontade, são para ele a única região espiritual digna de interesse. Convencido de que o Ser Supremo foi seu instrutor pessoal desde o início, e que continua ainda sendo no estado subjetivo, ele é naturalmente inacessível a sugestões de que suas impressões podem ser deturpadas em vista de seu desenvolvimento psicológico mal dirigido. Por outro lado, os devotos de alta erudição, que eventualmente se podem encontrar na índia, que erigem sua concepção de Natureza, do Universo e de Deus sobre uma base completamente metafísica, e que desenvolveram seus sistemas pela força pura do pensamento transcendental, tomarão algum reconhecido sistema de filosofia como fundamento e irão amplificá-lo a um ponto que apenas um metafísico oriental poderia sonhar. Conseguem discípulos que depositam neles uma fé tácita e fundam a sua pequena escola, que floresce durante certo tempo dentro de
seus próprios limites. Porém, uma filosofia especulativa dessa espécie é antes uma ocupação para a mente do que um conhecimento. Esses "Mestres", comparados aos Adeptos organizados da mais alta fraternidade, são como botes a remo comparados com os transatlânticos — meios úteis de locomoção em seu próprio lago ou rio, mas nunca uma embarcação em que se possa confiar para uma grande viagem marítima ao redor do mundo.
Descendo a um nível ainda mais baixo na escala, a índia está saturada de ioguins e faquires, em todos os graus de autodesenvolvimento, desde o dos mais sujos selvagens, muito pouco superiores aos ciganos ledores de sorte que acorrem às nossas corridas de cavalo, até o de homens em cuja reclusão um estrangeiro dificilmente penetraria, cujas anormais faculdades e poderes bastam ser vistos ou experimentados para quebrar a incredulidade dos mais ardorosos representantes do moderno ceticismo ocidental. Os pesquisadores superficiais confundem com facilidade tais pessoas com os Grandes Adeptos, dos quais ouviram falar vagamente.
Entretanto, no que diz respeito aos verdadeiros Adeptos, não me aventuro a dizer nada sobre o que é a organização tibetana, quanto às suas mais altas autoridades dirigentes. Esses próprios Mahâtmâs — sobre os quais os leitores que pacientemente me seguirem até o fim poderão formar uma idéia mais ou menos adequada — estão subordinados, em seus diversos graus, ao chefe de todos. Tratemos, antes de tudo, das primeiras condições da instrução oculta, o que pode ser entendido com mais facilidade.
O grau de elevação que constitui um homem — chamado no mundo exterior Mahâtmâ ou "Irmão" — só é alcançado após prolongada e penosa provação e ansiosas provas de uma severidade realmente terrível. Há pessoas que passaram
vinte, trinta ou mais anos de irrepreensível e árdua devoção, dedicadas à missão que empreenderam na vida, mas apesar disso, ainda se acham nos primeiros graus de seu chelado, contemplando as alturas do adeptado, que estão muito acima de suas possibilidades. E em qualquer idade que um garoto ou um homem se dedique à carreira do ocultismo, dedica-se, entenda-se bem, sem reservas de nenhum gênero e por toda sua vida. A missão que leva a cabo é o desenvolvimento em si mesmo de muitas faculdades e atributos, de cuja existência nem se suspeita devido ao fato de serem completamente latentes na massa da humanidade, sendo negada a possibilidade de seu desenvolvimento. Estas faculdades e atributos devem ser desenvolvidos pelo próprio cheia, com muito pouca ajuda, se houver alguma, além da orientação e direção de seu mestre. Diz um aforismo oculto: "O Adepto se torna um adepto: ele não é convertido em um." Pode-se ilustrar isto com o que acontece num exercício físico corriqueiro. Todo homem com o uso normal de seus membros é capaz de nadar. Mas mergulhem aqueles que, segundo provérbio popular, não podem nadar em águas profundas, e eles se afogarão. O simples procedimento de mover os membros não é um mistério. Porém, a menos que o nadador, ao movê-los, acredite que tais movimentos produzirão o resultado almejado, este não será obtido. Nesse caso, ocupamo-nos com forças meramente mecânicas, mas o mesmo princípio se aplica às forças mais sutis. A mera "confiança" conduz o neófito oculto muito mais longe do que o vulgo geralmente imagina. Quantos leitores europeus permaneceriam totalmente incrédulos se relatassem a ele alguns resultados que os cheias ocultistas, dos graus mais incipientes de sua instrução, têm de obter por pura força da confiança e, apesar disso, ouvem amiúde na igreja as familiares afirmações bíblicas de que o poder reside na fé, e permitem que as palavras passem como o vento, sem deixar qualquer impressão.
O grande fim e propósito do Adeptado é realizar o desenvolvimento espiritual, cuja natureza está velada e disfarçada nas frases comuns da linguagem exotérica. Dizer que o Adepto procura unir sua alma com Deus, para poder, por esse meio, entrar no Nirvana, é uma assertiva destituída de significação para o leitor comum, e quanto mais examiná-la, baseado em livros e métodos elementares, tanto menos plausível lhe será a compreensão da natureza do processo observado, ou do estado desejado. Em primeiro lugar, é preciso conhecer o conceito esotérico de Natureza e a origem e os destinos do Homem, o que se diferencia por completo dos conceitos teológicos, antes que se torne inteligível uma explicação da meta que o Adepto persegue. Enquanto isso, entretanto, é desejável, logo de início, abrir os olhos do leitor para o falso conceito, que provavelmente possa ter formado, sobre os objetivos do Adeptado.
O desenvolvimento dessas faculdades espirituais, cujo cultivo se relaciona com os mais elevados objetivos da vida oculta, proporciona, à medida que progride, um conhecimento casual, relativo às leis físicas ainda não compreendidas da Natureza em geral. Esse conhecimento, e a arte prática de manipular certas forças ocultas da Natureza, como conseqüência, confere a um Adepto, e até aos discípulos de um Adepto, num estágio incipiente de sua instrução, poderes extraordinários, cuja aplicação nos assuntos da vida diária gera, em algumas ocasiões, resultados que parecem completamente milagrosos. Do aspecto habitual, a aquisição de um poder de aparência milagrosa é uma conquista tão estupenda que as pessoas, às vezes, se sentem inclinadas a imaginar que o desígnio do Adepto, ao procurar os conhecimentos que obtém, não foi outro que ele próprio investir-se desses poderes cobiçados. Isso seria tão racional como dizer de qualquer grande patriota da história
militar que o seu propósito, ao ser soldado, foi o de portar um vistoso uniforme e aguçar a imaginação das amas-secas.
O método oriental para o cultivo do saber sempre diferiu diametralmente do seguido no Ocidente, durante o desenvolvimento da ciência moderna. Enquanto a Europa pesquisou a Natureza da forma a mais pública possível, sendo discutido cada passo com a mais ampla liberdade e circulando de imediato cada recente fato adquirido para o benefício de todos, a ciência asiática foi estudada em segredo e suas conquistas zelosamente guardadas. Não é necessário que eu tente no momento a crítica ou a defesa desses métodos. Mas, de qualquer modo, esses métodos foram afrouxados até certo ponto em meu próprio caso, e como já afirmei, tenho o pleno consentimento de meus instrutores para seguir minhas inclinações como europeu, comunicando o que aprendi a todos os que desejarem recebê-lo. Posteriormente se verá como a transgressão das regras elementares do estudo ocultista, incorporada às concessões agora feitas, cai naturalmente no lugar apropriado do esquema completo da filosofia oculta. O acesso a essa filosofia esteve sempre, de certo modo, aberto a todos. Através do mundo, por vários meios, foi vagamente difundida a idéia de que certos processos de estudo, que alguns homens realmente seguiram, aqui e acolá, podiam conduzir à aquisição de um gênero de conhecimento mais elevado do que o que é geralmente ensinado à humanidade nos livros ou por meio de pregadores públicos religiosos. O Oriente, como já foi assinalado, esteve sempre mais que vagamente impressionado por essa crença, porém mesmo no Ocidente a massa inteira de literatura simbólica, referente à astrologia, alquimia e ao misticismo em geral, fermentou na sociedade européia, levando algumas poucas inteligências, singularmente receptivas e qualificadas, à convicção de que detrás de toda essa falta de sentido, superficialmente
incompreensível, grandes verdades jazem ocultas. A essas pessoas, esse excêntrico estudo revelou algumas vezes passagens ocultas que conduziam aos maiores reinos imagináveis da iluminação. Porém, até agora, em todos esses casos, de acordo com a lei dessas escolas, tão logo o neófito forçava passagem na região do mistério, era-lhe imposto o segredo mais inviolável a tudo o que se relacionasse com seu ingresso nessa região e com os seus progressos ulteriores. Na Ásia, do mesmo modo, o cheia, ou discípulo de ocultismo, tão logo se converte em um cheia, deixa de ser testemunha da realidade da ciência oculta. Fiquei espantado ao ver, assim que comecei a tratar deste assunto, quão numerosos são os cheias. Mas é impossível imaginar algum ato humano mais improvável do que a revelação não autorizada, por parte de qualquer cheia, aos profanos, de sua qualificação como tal. E assim é como a grande escola esotérica de filosofia conserva com sucesso o seu segredo.
Num livro anterior, O mundo oculto, apresentei um completo e fiel relato das circunstâncias sob as quais estive em contato com homens de dons elevados e profundamente instruídos, de quem obtive as informações contidas neste volume. Não preciso repetir a história. Agora tratarei do assunto sob novo ângulo. A existência de Adeptos ocultistas e a importância de suas aquisições são estabelecidas por intermédio de duas diferentes Unhas de argumento: em primeiro lugar, considerando-se a evidência externa — o depoimento de testemunhas qualificadas, a manifestação de pessoas relacionadas com Adeptos de faculdades anormais que proporcionem algo mais que mera suposição da existência de conhecimentos de anormal amplitude; em segundo lugar, pela apresentação de uma parte considerável desses conhecimentos, suficiente para dar a segurança intrínseca
de seu próprio valor. Meu primeiro livro seguia o primeiro destes métodos. Agora, enfrento um desafio maior, utilizando o segundo.
COMENTÁRIOS
Quanto mais avançamos no estudo do ocultismo, tanto mais exaltadas se tomam, sob muitos aspectos, as nossas concepções sobre os Mahâtmâs. A compreensão global da maneira como estas pessoas chegam, ao final de longo tempo, a diferenciar-se da espécie humana não é algo que se obtém apenas com a ajuda do esforço intelectual. Há aspectos na natureza do Adepto que se relacionam com o extraordinário desenvolvimento dos princípios superiores do homem, que não podem ser compreendidos pela aplicação dos inferiores. Mas enquanto os conceitos incompletos, formados a princípio, por pouco não alcançam o nível verdadeiro dos fatos, surge uma curiosa complicação do problema nesse caminho. A primeira idéia que fazemos de um Adepto que conquistou o poder de penetrar os tremendos segredos da natureza espiritual é formulada de acordo com os nossos conceitos de um homem de ciência muito talentoso, em nosso próprio plano. Estamos aptos a pensar que, uma vez Adepto, ele será sempre um Adepto — um ser humano muito digno, que necessariamente deve usar, em todas as circunstâncias de sua vida, as qualidades que lhe são pertinentes como um Mahâtmâ. Desse modo — como já indicamos — não conseguiremos, certamente, por mais que nos esforcemos, fazer justiça em nossos pensamentos aos seus atributos ás Mahâtmâ. Podemos com bastante facilidade incorrer no extremo oposto ao pensarmos nele em seu aspecto humano comum e, destarte, ficaremos perplexos, à medida que começarmos a nos familiarizar com as características do mundo da ciência oculta. Precisamente porque
os mais elevados atributos do adeptado se relacionam com os princípios da natureza humana, que transcendem inteiramente os limites da existência física, é que o Adepto ou Mahâtmâ apenas pode ser um Adepto, na mais alta acepção do termo, enquanto está, como diz a expressão, "fora do corpo" ou, de qualquer modo, num estado anormal alcançado por sua própria vontade. Quando não tem por que entrar em tal estado, nem sair completamente fora das limitações de sua prisão carnal, parece-se muito mais com um homem comum, do que a experiência dos discípulos sobre algum de seus aspectos poderia fazê-los supor.
Uma apreciação correta desse estado de coisas explica a contradição aparente, com base na posição do discípulo de ocultismo diante de seus mestres comparada com algumas das declarações que o próprio mestre faz freqüentemente. Por exemplo, os Mahâtmâs asseveram que não são infalíveis, que eles são homens como os demais, talvez com uma compreensão mais ampla da Natureza que o comum da humanidade, mas, apesar de tudo, capazes de enganar-se tanto na direção dos assuntos práticos com que podem estar relacionados, como na apreciação dos atributos de outros homens, ou na apreciação da capacidade dos candidatos para o desenvolvimento oculto. Mas como conciliarmos afirmações dessa natureza com o princípio fundamental, existente no fundo de toda pesquisa do ocultismo, que induz o neófito a confiar absolutamente e sem nenhuma reserva nos ensinamentos e na orientação do mestre? A solução da dificuldade está no estado de coisas, ao qual nos referimos anteriormente. Embora o Adepto possa ser um homem capaz de enganar-se algumas vezes de modo surpreendente, quanto aos assuntos mundanos, do mesmo modo que entre nós alguns dos maiores gênios estão propensos a cometer erros em sua vida comum, que talvez não cometeria jamais o vulgo de outro lado, assim que um Mahâtmâ se ocupa com os mais
elevados mistérios da ciência espiritual, ele o faz devido ao exercício de seus atributos de Mahâtmâ, e, no que tange a estes, dificilmente é considerado capaz de enganar-se.
Esta consideração permite-nos sentir que a confiança que merecem os ensinamentos derivados dessa fonte, em que se inspira o presente volume, está completamente fora do alcance dos pequenos incidentes que no progresso de nossa experiência pareçam pedir a retificação dessa confiança entusiástica na sabedoria suprema dos Adeptos, que geralmente evoca as primeiras abordagens ao estudo do ocultismo.
Isso não quer dizer que esse entusiasmo ou reverência diminua por parte de algum cheia ocultista, à proporção que cresça sua compreensão do mundo em que penetra. O homem, que em um de seus aspectos é um Mahâtmâ, antes é conduzido dentro dos limites do afetuoso respeito humano, do que privado de seus direitos à reverência, pela consideração de que em sua vida comum não está acima do nível comum dos sentimentos humanos, como algumas de suas nirvânicas experiências nos levariam a crer.
Se temos sempre presente na mente que um Adepto só é verdadeiramente um Adepto quando está exercendo as suas funções e que no exercício destas pode elevar-se à relação espiritual com tudo aquilo que é, ao menos dentro dos limites de nosso sistema solar, o que na prática significa para nós a onisciência, livrar-nos-emos então de muitos de nossos erros gerados pelas dificuldades do assunto.
Pode-se relatar aqui algo atinente à intrincada natureza do Adepto, o que seria difícil compreender sem fazer referência a alguns dos últimos capítulos deste livro. Mas, como isto tem um significado tão importante para tudo quanto se refira à compreensão do que é o Adeptado, será conveniente tratar dele de uma vez. A
natureza dúplice do Mahâtmâ é tão completa que algo de sua influência ou sabedoria, nos planos mais elevados da Natureza, pode atingir os que estão em singulares relações psíquicas com ele, sem que o Mahâtmâ-homem sequer perceba no momento em que esse apelo lhe foi dirigido. Por essa via, estamos livres para especular sobre a possibilidade de que a relação entre o Mahâtmâ espiritual e o Mahâtmâ-homem algumas vezes pertença antes à Natureza do que às vezes se menciona nos escritos esotéricos como um obscurecimento (overshadowing), em vez de uma encarnação no amplo sentido da palavra.
Além disso, como outra complicação independente do assunto, devemos apreciar o fato de que cada Mahâtmâ não é meramente um ego humano num estado muito exaltado, mas pertence, por assim dizer, a algum departamento específico da grande organização da Natureza. Cada Adepto deve pertencer a um ou a outro dos sete grandes tipos do Adeptado. Mas embora possamos, quase com certeza, inferir que existam correspondências entre esses vários tipos e os sete princípios do homem, eu evitaria tentar a elucidação completa desta hipótese. Será suficiente aplicar a idéia ao que conhecemos vagamente sobre a organização ocultista em suas mais altas regiões. Há algum tempo, afirmou-se que nos escritos esotéricos existem cinco grandes Chohans ou Mahâtmâs superiores, que presidem sobre toda a fraternidade dos Adeptos. Quando foi escrito o capítulo precedente deste livro, eu tinha a impressão de que um chefe supremo, situado num nível diferente, exercia autoridade sobre esses cinco Chohans. Agora, parece-me que este personagem deve antes ser considerado como um sexto Chohan, cabeça de um sexto tipo de Mahâtmâ. Esta conjectura conduz, de uma vez, a outra inferência: deve existir um sétimo Chohan para completar as correlações que assim discernimos. Mas como o sétimo princípio na Natureza ou no homem é um conceito de ordem mais
inacessível, que escapa ao poder de qualquer inteligência e que seria descrito em nebulosas frases ininteligíveis sobre metafísica, podemos portanto estar seguros de que o sétimo Chohan está fora de toda compreensão dos intelectos não versados na matéria. Mas ele, fora de dúvida, desempenha um papel naquilo que pode ser chamado a mais elevada organização da Natureza espiritual, sendo que tal personagem é, às vezes, visível para alguns dos outros Mahâtmâs. Mas a especulação que lhe diz respeito é valiosa, principalmente para ratificar a idéia segundo a qual os Mahâtmâs podem ser compreendidos em seu verdadeiro aspecto, como fenômenos necessários da Natureza, sem os quais a evolução da humanidade dificilmente seria imaginada como avançando, e não como homens excepcionais que atingiram um estado de grande exaltação espiritual.
2. A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM
Um exame da Cosmogonia, tal como a compreende a ciência oculta, deve preceder toda tentativa de explicação dos meios pêlos quais se chegou a obter o conhecimento dessa mesma Cosmogonia. Os métodos de pesquisa esotérica são o resultado de fatos naturais, que a ciência exotérica desconhece totalmente. Estes fatos naturais relacionam-se ao desenvolvimento precoce de faculdades nos Adeptos ocultos, que a humanidade em geral não desenvolveu ainda. Estas faculdades, por sua vez, capacitam seus possuidores à exploração dos mistérios da Natureza e à comprovação das doutrinas esotéricas, na manifestação vindoura de seu sublime desígnio. O estudante prático de ocultismo pode desenvolver primeiramente suas faculdades e aplicá-las depois à observação da Natureza. Mas, para os leitores ocidentais, que só procuram a compreensão intelectual, deve preceder a consideração dos sentidos internos utilizados pela pesquisa oculta, antes de expor a teoria da Natureza. Por outro lado, o exame da Cosmogonia, tal como é compreendida pela ciência oculta, só pode ser sistematizado cientificamente em detrimento da inteligibilidade para os leitores europeus. Antes de mais nada, devemos tentar entender o estado do Universo anterior ao início da evolução. Isso não foi negligenciado de modo algum pêlos estudantes esotéricos, e, mais adiante, no curso deste esboço, serão feitas algumas sugestões relativas à opinião que o ocultismo sustenta sobre os processos primitivos, através dos quais a matéria cósmica passa em seu percurso evolutivo. Mas uma ordenada exposição dos processos mais primitivos da Natureza incluiria indicações à constituição espiritual do homem, que não seria entendida sem alguma explicação preliminar.
A ciência esotérica reconhece sete princípios distintos na constituição do homem. A classificação difere de um modo tão absoluto de tudo aquilo com que os leitores europeus estão familiarizados que, naturalmente, me questionarão sobre as bases em que o ocultismo se apóia para chegar a essa conclusão. Porém, devido às peculiaridades inerentes ao assunto, que mais adiante serio compreendidas, devo pedir para esta ciência oriental que dou a conhecer, certa atenção, por assim dizer, de tipo oriental. Os sistemas oriental e europeu de transmitir conhecimento diferem completamente em seus métodos. O método ocidental instiga e provoca, a cada momento, o instinto da controvérsia do discípulo. Ele é animado a debater e a opor-se à evidência. Proíbe-opor-se-lhe aceitar qualquer afirmação científica tão-somente por sua autoridade. Pari passu, à medida que adquire conhecimentos, deve aprender o modo como eles são adquiridos e faz-lhe sentir que nenhum fato é digno de ser conhecido, a menos que se conheça ao mesmo tempo a maneira de se demonstrá-lo como tal. O método oriental dirige seus discípudemonstrá-los de uma forma bem diferente. Está atento à necessidade de demonstrar seus ensinamentos como o Ocidente, mas fornece provas de um gênero bem diferente. Dá poder ao estudante de pesquisar por si mesmo a Natureza e de comprovar seus ensinamentos naquelas regiões em que a filosofia ocidental só pode penetrar por intermédio da especulação e do argumento. Jamais se dá ao trabalho de questionar sobre nada. Afirma: "O fato é assim e assim; eis a chave dos conhecimentos; agora vai e observa por ti mesmo." Assim ocorre que o ensinamento per se não é nada mais que ensinamento pela autoridade. O ensinamento e a demonstração não vão de mãos dadas. Seguem-se um ao outro na devida ordem. Outra conseqüência deste método é que a filosofia oriental emprega o método que no Ocidente foi afastado, por boas razões, como incompatível com nossa própria atitude de desenvolvimento intelectual: o sistema de