A MÍDIA E SUA
INFLUÊNCIA NAS
BRINCADEIRAS DAS
CRIANÇAS.
INTRODUÇÃO
n Um dos problemas causados pelo aumento do processo de
urbanização é a falta de segurança, o qual limitou os espaços de recreação das crianças alterando, assim, a sua rotina de brincadeira.
n Desta maneira, a criança teve que adaptar-se a brincar em
espaços fechados e reduzidos, sempre sob supervisão de adultos.
n De acordo com Rua (2007), os indivíduos não nascem membro da
sociedade, tornam-se membros dela sociedade ao estabelecerem relações de entendimento, ao compartilharem vivências, experiências, motivações, afetos. A identidade pessoal e social é resultado de processos de interação social em que os valores, as normas, as tradições do mundo social objetivo em vivem são interiorizados pelos sujeitos, não através de processos lineares resumíveis à mera transmissão e reprodução cultural, mas por meio de processos complexos, que desencadeiam dinâmicas de recriação e transformação cultural.
n Assim, as brincadeiras apresentam-se como um mecanismos de
interação com os pares, sendo essenciais para a socialização das crianças. Além disso, por meio das brincadeiras a criança descobre o mundo pela ação, percepção, sentidos, liberdade, criatividade, liberdade, responsabilidade, consciência corporal e noções de corpo e espaço.
n Entretanto, é crescente a substituição das brincadeiras pelo
entreterimento televisivo, tendo esse meio de comunicação grande importância no cotidiano das crianças. Portanto, paulatinamente, esse eletro doméstico passou a competir com os espaços lúdicos de brincadeira, sendo que, para muitas crianças é a única fonte de entreterimento.
n Nesse sentido, é importante refletir sobre a influência dos meios de
comunicação sobre a vida das criança e o seu desenvolvimento psicológico, bem como a influência sobre as suas emoções, sonhos e informações que afetam de forma, positiva ou negativa, o desenvolvimento infantil.
n O objetivo da pesquisa foi examinar as relações que as crianças
estabelecem em suas brincadeiras com o conteúdo televisivo que assistem, seja este especificamente ou não destinado à elas, pois sabe-se que as crianças são assíduas expectadoras da TV
Metodologia
n
Os dados foram coletados através das narrativas,
observações, desenhos de crianças e leitura de
imagem,
orientando-se
como
uma
pesquisa
qualitativa (Figura 01 e 02).
n
Participaram desse estudo 03 crianças de 03 anos
de idade, residentes na Rua Santo André – Vila
Rubim/Vitória-ES.
n
Essas
crianças
brincam
nesse
espaço
com
constância. Entretanto, o uso da televisão como
artefato de brincadeira é significativo.
RESULTADO E DISCUSSÃO
n A imagem utilizada foi a reprodução da obra Coab-SantosDumont-Vila Velha/ES da artista plástica Ângela Gomes (figura 03). O uso dessa imagem teve como objetivo propiciar uma discussão sobre o significado da rua para esse grupo de crianças. Curiosamente, nos relatos dessas crianças sobre as brincadeiras realizadas na rua sempre existiam referência a personagens de desenhos televisivos.
Narrativa de Mateus (4 anos). Dia 25/03/2009.
“Quando vou na rua gosto muito de brincar de Speed Racer. [....] Essa brincadeira é assim, eu corro na frente e Murilo e Pedro correm atrás de mim.”
Mateus – “Gosto de brincar de Speed Racer porque ele sempre vence a corrida. Nunca perde, os outros corredores sim.”
n Mateus não brinca de pega pega, mas de Speed Racer. Assim, em
seu relato ele incorpora um personagem televisivo, salientando o sucesso que o personagem tem na televisão (figura 04).
FIGURA 04: Desenho de Mateus. De acordo com o autor nessa rua ele gosta de brincar de Speed Raccer. Existe a
n
Assim, valores como a competição exacerbada e
estar sempre em primeiro lugar são apresentados
com grande relevância nesse desenho televisivo.
Diante do exposto podemos inferir que, a televisão
não influencia o ato de brincar, e sim, a maneira de
pensar e agir.
n
Nas brincadeiras de corrida
realizadas pelas
crianças, constantemente elas se utilizam de
artefatos
do
personagem
Ben
10
para
se
organizarem. Além disso, o uso de roupas e outros
objetos de uso pessoal com esse personagem
estampado é rotineiro nestas crianças.
n Durante conversas entre Murilo, Pedro e Mateus, o primeiro
questiona os outros sobre o seu vestuário novo.
Murilo - Vocês tem a sandália do Ben 10 ? [...] Minha mãe
comprou para mim, ontem. [...] Sabe eu tenho a sandália do Ben 10, a camisa do Ben 10, a bermuda do Ben 10 e o boné do Ben 10. E vocês ?
Pedro – Eu tenho isso tudinho. Ganhei de aniversário “onti”. Murilo – Mas eu tenho mais do que você, porque eu tenho o
relógio, e você não tem.
Pedro - Mas minha mãe vai comprar, tá!Você vai ver, amanhã
eu vou ter um.
n Percebemos que a televisão exerce grande influência nas
representações dessas crianças, além de ser utilizada como fonte de lazer, ela algumas vezes apresenta-se como exemplo a ser copiado.
n
Lisboa e Pires (2004) citado por Souza e Cardoso (2008),
vêem isto, como uma questão do mundo capitalista, que a
TV além de passar seus programas, oferece ao povo uma
grande variedade de produtos lindos a serem usufruídos,
sendo chamado de indústria cultural, que fornece bens de
consumo a cada seguimento social, ou seja, esses bens
de consumo são feitos para todo tipo de pessoa, utilizando
a mídia como uma grande vitrine para esses produtos.
n
Pedro ao desenhar a brincadeira que gosta de realizar
com seus amigos, apresenta 03 ilustrações as quais
denomina Tom (ele), Jerry (Murilo) e o cão (Mateus).
Todos brincando de modo harmonioso, atrás desse
desenho há três representações de porta, a qual ele
esclareceu com sendo as portas das casas deles (figura
03).
n
O desenho representado por Pedro possui
como personagem um gato (Tom), um rato
(Jerry) e um cão (Sam). Constantemente,
esses personagens travam perseguições,
onde Tom persegue Jerry, esse utiliza-se
de artimanhas para se defender de Tom,
além disso Sam constantemente tenta
proteger Jerry de Tom. Ressaltamos que,
em pouco episódios esses personagens
apresentam-se
de
modo
harmonioso
(figura 05).
Figura 05: Representação de Pedro sobre sua brincadeira na rua.
Tom (Pedro) Jerry (Murilo)
n
Embora
Pedro
seja
receptivo
as
mensagens veiculadas pela TV, ele as
recria conforme a sua experiência em um
processo
de
troca
de
conhecimentos.
Portanto, ele incorpora o que vê e ouve de
maneira
criativa,
retirando
o
que
lhe
interessa naquele momento (Figura 06).
Pedro: Aqui também é eu, Murilo e Matheus, aqui está a estelinha que caiu do céu no lago.
Pesquisadora: Mas, que estrelinha é essa Pedro ?
Pedro: A estrelinha da história que a tia contou na escola, hoje. Você não sabe de nada mesmo, hein !
Figura 06: Desenho de Pedro, representação de Tom (ele), Jerry (Murilo) e San (Mateus) juntamente com a estrelinha que caiu do céu.
n
Para Vygotsky (2007) a linguagem é um signo por
meio do qual as crianças se socializam, ela
também
desempenha
um
papel
importante
facilitando a formação de conceitos.
n
Ao analisarmos a linguagem de alguns desenhos
animados,
verificamos
que,
corriqueiramente,
palavras como vencer, ação, força são difundidas.
Além disso, ações que representam esses mesmos
valores são muito presentes.
n
Assim, a mídia participa da constituição de sujeitos
e
subjetividades
na
medida
em
que
produz
imagens e significações, enfim, saberes que de
alguma maneira se dirigem à "educação“ das
pessoas, ensinando-lhes modos de ser e estar na
sociedade em que vivem.
CONCLUSÃO
n
Percebe-se que, a TV tem influenciado o lúdico das crianças,
não de um modo em que os elementos sejam diretamente
apropriados por elas e reproduzidos em seu cotidiano, mas
formando mentes consumidoras de ideologias, as quais se
perpetuarão nesses futuros adultos.
n
Assim, é fundamental refletir sobre a influência dos meios de
comunicação
sobre
a
vida
da
criança,
sobre
o
seu
desenvolvimento psicológico, bem como a influência sobre as
suas emoções, sonhos e informações que afetam de forma,
positiva ou negativa, o desenvolvimento infantil.
n
Além disso, é necessário refletir a importância da família e da
escola como instituições educativas, onde a criança possa
entender os significados dessas ideologia, e ultrapasse o
nível da consciência ingênua e atinjir o nível da consciência
crítica
BIBLIOGRAFIA
n COELHO, Glaucilene do Nascimento. Brincadeiras na favela: A
constituição da infância nas interações com o ambiente. In: VASCONCELLOS, Vera Maria Ramos; SARMENTO, Manuel Jacinto (orgs). Infância (in) visível. São Paulo. Junqueira e Marin editores, 2007. 173-203.
n RUA, Maria Adelaide. Infância em territórios de pobreza: os fales e
sentires das crianças. In: VASCONCELLOS, Vera Maria Ramos; SARMENTO, Manuel Jacinto (orgs). Infância (in) visível. São Paulo. Junqueira e Marin editores, 2007. 173-203.
n SOUZA, Thiago Cardoso de Souza; CARDOSO, Ana Lúcia. A
influência da mídia televisiva no movimenta-se das crianças em
tempo livre na escola.
http://www.cds.ufsc.br/pet/SEF2008/anais/trabalhos/orais/thiago.pd f. Acesso: 30/03/2009.
n Vigotsky, L.S. A formação social da mente. 7ª edição.São Paulo: