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AS PRÁTICAS FUNERÁRIAS PARA GLÁUCIAS REPRESENTADAS NA SILUAE 2.1 DE ESTÁCIO

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AS PRÁTICAS FUNERÁRIAS

PARA GLÁUCIAS

REPRESENTADAS NA SILUAE

2.1 DE ESTÁCIO*

MURILO TAVARES MODESTO**

RENATA LOPES BIAZOTTO VENTURINI***

Resumo: na sociedade imperial romana, um funeral era uma cerimônia para celebrar o falecido e garantir sua passagem para a vida após a morte. Na narrativa poética da Siluae 2.1, uma consolação composta pelo poeta latino Estácio (45-96 EC) para seu patrono Atédio Mélior, há descrições de alguns elementos que envolveram o funeral luxuoso dedicado a Gláucias, um jovem possivelmente libertus. Analisando com conceitos do estudo sobre a morte e de representação, nossa comunicação objetiva investigar as práticas fúnebres representadas pelo poeta para honrar o falecido e o enlutado. Como considerações finais, refletimos sobre os interesses de Estácio em representar o funeral de um libertus como um evento luxuoso. Palavras-chave: Ritual funerário. Estácio. Siluae 2.1.

* Recebido em: 15.08.2019. Aprovado em: 00.00.0000.

** Graduando em História (Licenciatura) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). E-mail: [email protected]

**** Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM). E-mail: [email protected]

DOI 10.18224/frag.v30i1.7562

DOSSIÊ

N

a sociedade imperial romana, os mortos eram considerados seres sombrios pode-rosos, que podiam ser sentidos, ouvidos e notados (CUMONT, 1922). Os ritos funerários, oferendas e celebrações aos mortos eram estimadas como cerimônias fundamentais para prevenir que as sombras dos falecidos permanecessem na terra e se voltassem contra os vivos (GRAHAM, 2006; CUMONT, 1922) e, assim, após os eventos fúnebres, a sociedade poderia retomar os enlutados à ordem, triunfando sobre a morte (MORIN, 1970). Por isso é possível que os funerais tenham originado em consequência do medo dos mortos, mais do que pelo amor a eles, avaliando que as precauções eram feitas contra as sombras, não por um cuidado piedoso (CUMONT, 1922).

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Os mortos, então, eram agentes de transformação da sociedade, pois a permanência do corpo falecido do indivíduo altera as paisagens com os sepultamentos e as celebrações dos mortos demandavam o cuidado com esses cenários fúnebres (ERASMO, 2008). Pela inte-ração com os vivos, os mortos continuavam exibindo presença e, até, exercendo influências. Os símbolos, os rituais funerários e os escritos literários em homenagem aos falecidos são representações de como esses indivíduos continuavam (e como gostariam de continuar) par-ticipando do mundo dos vivos (ERASMO, 2008).

O funeral romano era um rito transitório, pois o corpo do falecido, ainda presente, passava por um processo de remoção de sua sombra do mundo dos vivos (HOPE, 2007). Ainda que os detalhes dos funerais variassem de acordo com o período, a região, o grupo ét-nico e o status socioeconômico de quem o praticava, não sendo possível fazer uma definição universal das práticas funerárias no Império Romano, é possível reconhecer alguns elementos gerais dos ritos fúnebres romanos, a respeito de como os corpos eram preparados e dispostos, principalmente em relação aos eventos organizados para indivíduos masculinos da alta ca-mada social de Roma, o grupo mais representado nas fontes remanescentes (HOPE, 2007). O reconhecimento de um certo padrão no rito fúnebre é plausível porque seus envolvidos deveriam desempenhar determinados papéis, de forma já conformada (HOPE, 2007).

A Siluae 2.1, o primeiro poema do segundo volume das Siluae, composta pelo poeta napolitano Estácio (45-96 EC), assim como outros poemas desta coleção de poemas ocasio-nais, “exibem um espelho magnífico para os detalhes cotidianos da vida contemporânea [em Roma aos fins do século I EC]” (COLEMAN, 2008, p. 28; tradução nossa). Na narrativa poética deste poema é possível acompanhar alguns procedimentos do funeral organizada para honrar Gláucias, um jovem possivelmente libertus (liberto) e querido pelo aristocrata Atédio Mélior (ASSO, 2010). Este patrono convocou o poeta napolitano, como seu amicus na re-lação de patronato, para compor uma consore-lação em elogio ao falecido e apoio ao enlutado durante o evento funerário (ASSO, 2010).

Escrito por volta de 92 EC, durante o principado flaviano (69-96 EC), este poema segue a estrutura tradicional das consolações poéticas, em termos gerais (ASSO, 2010): há uma introdução (vv. 1-35), em que se reconhece o luto e exorta o lamento; então, é feita a

laudatio (vv. 36-136), em elogio e lamento ao morto; em seguida, as descriptiones (vv.

137-82), com descrições do funeral; e o poema é concluído com a consolatio (vv. 183-234), a consolação propriamente dita. Nem todas as práticas fúnebres explicadas por Hope (2007) são representadas na narrativa de Estácio, então avaliamos o que é detalhado em relação ao padrão funerário romano.

METODOLOGIA

O estudo sobre a morte envolve pensar os processos, rituais, crenças e emoções que envolvem a questão mortuária de determinada sociedade (HOPE, 2007). Os indivíduos en-caram o fim da vida do outro e de sua própria a partir de certas compreensões rituais e lógicas culturais (MUNIZ, 2006) e é preciso pensar as atitudes diante da morte e como tais atitudes se relacionavam com o viver (HOPE, 2007)

O funeral é a prática mortuária mais comum, cuja funções eram separar o morto do mundo dos vivos e marcar o momento de reintegração dos enlutados na sociedade (HOPE, 2007). O rito fúnebre pode, e na prática romana de fato fazia, envolver e unir diversos

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mem-bros da sociedade, se tornando um espaço com a oportunidade de expressar crenças e valores comuns e, também, de reforçar os papéis sociais de acordo com status, riqueza, gênero e idade (HOPE, 2007). A morte ritualizada e cerimoniada, a partir de interdições e concessões para a garantia da imortalidade, é uma estratégia que nega a natureza da morte como um simples fim da vida (MUNIZ, 2006; MORIN, 1970).

Assim, tendo a questão mortuária um aspecto contextual, Maranhão (1985) desta-ca como o fenômeno da morte está relacionado com a dimensão social, se tornando um acon-tecimento estratificado: a expectativa de vida e as modalidades de práticas fúnebres costumam ser diferentes de acordo com a camada social que se trabalha. A disparidade da expectativa de vida entre a população menos privilegiada e a mais favorecida tem relação com a distribui-ção de renda e o acesso à infraestrutura de serviços (MARANHÃO, 1985), além do risco de mortalidade também estar relacionado com idade e gênero (HOPE, 2007). Não obstante, a morte é uma realidade constante onde as taxas de mortalidade são altas, como era o caso do Império Romano (HOPE, 2007).

A estratificação das condutas funerárias, por vez, era muito marcante no passado, podendo diferir de acordo com a riqueza, o status, o gênero e a idade do falecido (MARA-NHÃO, 1985; HOPE, 2007). Assim, nossa análise parte da reconstrução e discussão de Hope (2007), a partir de uma variedade de fontes, de diferentes períodos, a respeito dos eventos padrões e usuais de preparação do corpo e do funeral, deixando claro que não há uma descrição definitiva dos ritos fúnebres.

Analisando com o conceito de representação da História Cultural de Chartier (1990), refletimos a respeito de modelos de discursos e de práticas criadas pelos grupos para pensar suas posições e interesses em sociedade, definindo identidades próprias. Em uma re-presentação na escrita, então, podemos observar modelos no discurso que refletem práticas definidas e estruturadas e, também, interesses relacionados com a perspectiva particular de um grupo, que deve ser contextualizado: “Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza” (CHARTIER, 1990, p. 17). As-sim, para lidar com a documentação literária latina inspirada pelo luto, caso da consolação da

Siluae 2.1, é fundamental evidenciarmos que suas representações refletem principalmente as

perspectivas da elite masculina do centro do Império Romano (HOPE, 2007).

As comemorações fúnebres e as estruturas designadas para os mortos refletiam as identidades sociais, as ideologias e os valores da sociedade romana (HOPE, 2007; MET-CALF, HUNTINGTON, 1991). Assim, as palavras, imagens e eventos fúnebres devem ser compreendidos em conjunto, pois foram pensados para comemorar os mortos e comunicar algo aos vivos (HOPE, 2007). Pensando nestes aspectos do estudo sobre a morte, podemos avaliar como o funeral de Gláucias foi organizado a partir da representação poética.

O FUNERAL DE GLÁUCIAS

O momento em que Estácio escreve a consolação é durante da cremação de Gláu-cias, “ante as piras em brasa queimando” (v. 3). O poeta acompanhou a marcha fúnebre le-vando caixão do jovem (vv. 19-20) pela Via Flamínia, que sai de Roma em direção ao norte da península itálica, para chegar até a pira funerária adiante da ponte Mílvia, que atravessa o Rio Tibre (v. 176). Assim, Gláucias fora cremado além das muralhas da cidade (pomoerium), ao norte de Roma, para obedecer a segunda lei da décima tábua das Leis das Doze Tábuas sobre

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enterrar os mortos além dos limites urbanos (ERASMO, 2008): “Não será permitido sepultar nem incinerar um homem morto na cidade” (MEIRA, 1972, p. 173).

Após a morte, a preparação do corpo do falecido para seu funeral era o evento fúnebre inicial (HOPE, 2007). Primeiro, seus olhos eram fechados e o chamavam pelo seu nome (conclamatio) (HOPE, 2007). Em seguida, o corpo deveria ser lavado em água morna e, depois, ungido, vestido e adornado, tarefas feitas pelas mulheres da casa ou pelos

pollincto-res masculinos, profissionais funerários que passavam pó na face dos falecidos para disfarçar

a descolorização do corpo (HOPE, 2007). Na Siluae 2.1, Estácio indica que, seguindo os costumes funerários no preparo do corpo falecido de Gláucias para seu funeral, os cabelos do rapaz foram lavados com perfumes “das flores da Cilícia, das ervas da Índia / e das águas da Arábia, Palestina e Faros [Egito]” (vv. 160-162). Citando esses produtos importados, pode-mos notar uma estratégia retórica para demonstrar a riqueza de seu patrono. Os indivíduos envolvidos na preparação do corpo, entretanto, não foram evidenciados.

Com o corpo preparado, uma procissão fúnebre transportava o falecido de sua casa para o local de cremação ou de enterro (HOPE, 2007). A pompa (cortejo) de familiares e amigos seguia a procissão (HOPE, 2007). A pompa de Gláucias é descrita na Siluae 2.1 como um “negro cortejo” levando o “pequeno caixão” do rapaz pela procissão fúnebre até uma pira funerária (vv. 19-20). A caracterização do visual preto dos participantes da pompa está de acordo com a convenção para os enlutados romanos em se trajarem roupas escuras, intentan-do demonstrar os sentimentos de tristeza e apresentar-se aos respeitos intentan-dos outros como uma pessoa em luto (HOPE, 2007).

A cremação era a prática de disposição do corpo mais usual entre os finais da Re-pública e o início do Império (RÜPKE, 2018). Os corpos eram cremados nas piras gálicas (ERASMO, 2008), construídas com toras de madeira, comumente a de cipreste, pois reduzia o cheiro do corpo queimado (RÜPKE, 2018). Incensos e papiros poderiam ser adicionados a pira para colaborar com às chamas e o odor (HOPE, 2007), como acontece com a pira de Gláucias, retratada com um “monte selvagem de incenso” (v. 19-21). As cinzas e os restos da cremação eram, então, enterrados (RÜPKE, 2018), mas o poema não indica o que fora feito após a cremação do rapaz.

Antes de ter a pira acessa, o corpo do falecido deveria ser beijado e ungido por um familiar, sendo deixado de olhos abertos (HOPE, 2007). O único comportamento diante da pira que Estácio representa com enfoque é o luto de Mélior, que estaria tomado pela dor e pelo mal (vv. 14-15) e se encontrava muito próximo a pira fúnebre, como se fosse jogar junto ao rapaz: “cingindo o fogo e pronto para tragar as chamas” (v. 24). A imagem da tristeza de Mélior, em resumo, pode ser indicada em: “Um luto intenso / atinge a alma e o peito lada ao ser tocado” (vv. 12-13). Os pais de Gláucias, por vez, são retratados apenas uma vez, descritos como “aflitos” o fim do funeral e “atônitos” ao ver o estado debilitado do luto de Mélior (vv. 166-174).

As famílias de alto status social costumavam organizar uma pompa esplendorosa, pois tinham os recursos para organizarem grandes comemorações, com músicas e apresen-tações, preparadas para serem espetáculos memoráveis e, com frequência, até promovendo mensagens políticas (HOPE, 2007). Na Siluae 2.1, Estácio comenta que todo o evento fune-rário que seu patrono Mélior organizara em honra ao falecido foi marcado pelo luxo: “Dos prodígios às chamas dados, das exéquias, / o que direi? Do fogo ardendo em luxo fúnebre, / da pira se elevando a ti em terra púrpura,” (vv. 157-159). Assim, a poética de Estácio exalta

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seu patrono como um indivíduo com riquezas, disponível para custear um rito fúnebre luxuoso.

As cerimônias fúnebres ao longo da pira ou do túmulo são incertas, mas se sabe que o discurso fúnebre (laudatio) era comum, com a lamentação pelo falecido (HOPE, 2007). Como poesia ocasional, o poema 2.1 fora encomendado para ser recitado no evento, em elogio ao falecido e consolação a Mélior e os outros participantes enlutados (ASSO, 2010). A poesia em funerais tinha um aspecto teatral em que as performances eram planejadas para envolver os espectadores (ou possíveis futuros leitores) no processo do ritual, usando diversas associações culturais como estratégia para invocar e interpretar performaticamente, definindo diversos papéis para os indivíduos assumirem no processo de relação com o morto ao longo do funeral: sobreviventes, enlutados, espectadores e celebradores (ERASMO, 2008). Assim, Estácio acompanhou a pompa como parte dos espetáculos fúnebres em honra a Gláucias, sendo sua poesia um serviço de patronato.

Depois do funeral, uma porca deveria ser sacrificada no túmulo para a deusa Ceres, evento conhecido como porca praesentanea, e ter a carne consumida no dia do funeral e ofer-endada ao falecido (HOPE, 2007). Entretanto, as evidências desse banquete são ambíguas e devem ter ocorrido em período posterior (HOPE, 2007). Finalizado o funeral, os enlutados deveriam ter dias de descanso e lamentação (feriae denicales) (HOPE, 2007). Nenhum destes eventos após a cremação são representados na poética, possivelmente porque ela foi escrita justamente enquanto o corpo do falecido se encontrava na pira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É possível observar que, ao longo da narrativa fúnebre, apesar de não detalhar todos os elementos envolvidos nas práticas fúnebres de Gláucias, o que é representado da cerimônia fúnebre do rapaz segue o padrão do ritual funerário romano apresentando por Hope (2007). Sendo um espaço para expressar valores e reforçar papeis sociais (HOPE, 2007), o evento or-ganizado por Mélior, membro da aristocracia romana, busca ser valorizado em uma represen-tação que indica uma cerimônia luxuosa nos padrões normalmente dedicados aos indivíduos da alta camada social, mesmo não seja o caso de Gláucias, possivelmente um libertus.

A extravagância do funeral, portanto, pode ter sido criticada por ser dedicada a alguém de status social inferior (ASSO, 2010). Estácio, então, faz uma série de elogios a Gláucias, representando-o como alguém digno dessas honras (ASSO, 2010). As principais justificativas para este evento luxuoso estão justamente nas estrofes da laudatio (vv.36-136), em elogio e lamento ao morto: o rapaz era um “menino por mérito amado” (v. 37), pela rela-ção carinhosa, amável e cuidadora com Mélior (vv. 56-66, 70-71), e era um jovem de beleza encantadora (vv.38-48), honrado por suas práticas em participar das lutas em palestras (locais de convívio social exclusivamente masculino, destinado para a prática de lutas) e habilidades de recitar clássicos da literatura (vv. 110-119), digno de receber presentes de “enfeites e rou-pas” (vv.128-135). Por isso o poeta elogia: “Que bom se o almo [criador, Mélior] teu, com grande funeral, / te honrasse!” (vv. 69-70).

A poética de Estácio está envolvida ativamente com o contexto de mudanças nas atitudes da literatura flaviana em relação a luxúria, compreendendo que a riqueza deve ser livre para ser utilizada tanto para propósitos privados, além de para os bens cívicos (NEWLANDS, 2002) e que o luxo é sinal de virtude (LEITE, 2012b), por estar associado com o alto status

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social e o patronato artístico (NEWLANDS, 2002). Assim, podemos entender uma retórica na narrativa fúnebre de Estácio em representar uma série de elementos luxuosos para elogiar o funeral como um evento organizado por Mélior, ainda que fosse dedicado a Gláucias. Na consolação, então, há um interesse nas representações em retratar o patrono como um indiví-duo possuidor de riquezas, refletindo as perspectivas da literatura flaviana.

Além de ser um rito transitório para a sombra de Gláucias, por fim, esta comemo-ração fúnebre foi organizada de forma luxuosa em reflexo aos valores da sociedade romana do período flaviano e o poema fúnebre composto por Estácio na ocasião colabora e participa da demonstração de riqueza por seu patrono. De forma que as palavras fúnebres e o evento funerário comemorem o falecido e comuniquem algo aos vivos (HOPE, 2007), portanto, é reconhecível o modelo ritualístico da aristocracia masculina romana nas representações das práticas funerárias da Siluae 2.1, tendo uma narrativa envolta de interesses do contexto fla-vianos.

THE FUNERARY PRACTICES TO GLAUCIAS REPRESENTED IN STATIUS’ SILU-AE 2.1

Abstract: in Roman Empire society, a funeral was a ceremony to celebrate the deceased and ensure

his passage to the afterlife. In Siluae 2.1’s poetic narrative, a consolation composed by the latin poet Statius (45-96 CE) to his patron Atedius Melior, there are descriptions of some elements that involved the luxurious funeral dedicated to Glaucias, a young possibly libertus. Analyzing with concepts of death study and of representation, our communication aims to investigate the funerary practices represented by the poet to honor the deceased and the bereaved. As final considerations, we reflect about Statius’ interesses on representing the funeral of a libertus as a luxury event.

Keywords: Funerary ritual. Statius. Siluae 2.1. Notas

1 Os romanos concebiam que cada indivíduo tinha uma sombra em seu corpo, cuja forma imitava a fisio-nomia deste e o deixava durante os sonhos e a morte (CUMONT, 1922). Esta concepção é compatível com o conceito de duplo nos estudos mortuários: uma forma que replicava o indivíduo, ainda que fosse maleável, e podia se desprender o corpo material deste por um pequeno espaço de tempo, durante o sono, e se libertar definitivamente pela morte (DURKHEIM, 1996). Os ritos funerários buscam acelerar o processo de separação do duplo com o corpo, para que pudesse seguir a jornada da vida após a morte (DURKHEIM, 1996).

2 A tradução da fonte de pesquisa escolhida por nós é a transladação de Leandro Dorval Cardoso (2017) para a coletânea de poesias latinas do livro “Por que Calar Nossos Amores? Poesia Homoerótica Latina”, publicado pela editora Autêntica. Essa edição foi selecionada por seguir a versificação do poema de Estácio, reproduzindo o texto latino, e por apresentar um rigor na tradução dos termos clássicos.

3 Os poemas ocasionais são encomendados pelos patronos para serem recitados em eventos específicos, inte-ressados em que a poética exalte as circunstâncias mundanas da cerimônia com tons gloriosos e supranatu-rais (COLEMAN, 2008). Esses poemas são de curta ou média extensão métrica, com temáticas variadas e, em geral, estão ligados ao elogio, com estética de encômio (hino religioso de louvor), de écfrase (descrição minuciosa de alguém ou de algo) e de epideixes (exibição em público) (LEITE, 2017).

4 A estrutura tradicional das antigas consolações eram, em sequência: introdução, laudatio (elogio),

lamenta-tio (lamentação), descriplamenta-tiones (descriações) e consolalamenta-tio (consolação) (ASSO, 2010). Entretanto, a estrutura

não era tão rígida, sendo alguns elementos, por vezes, unidos em uma única seção, como é o caso da

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5 É estimado que a taxa de mortalidade anual no período inicial do Império Romano era por volta de 40

per 1000, cerca de 80 pessoas por dia (GRAHAM, 2006). Assim, é evidente que na sociedade romana a

“Morte estava sempre presente” (HOPE, 2007, p. 46; tradução nossa).

6 A representação do intenso luto de Mélior está relacionado com a tradição poética em considerar o luto uma fonte de inspiração, por evidenciar o sofrimento das pessoas, evocar a empatia da audiência e exaltar o luto (HOPE, 2017). E como a consolação do enlutado podia ser o tema central na literatura fúnebre (HOPE, 2007), é compreensível que o destaque na narrativa seja Mélior, organizador do evento e patrono do poeta, e não os outros envolvidos no funeral.

7 Ceres era a deusa romana da terra cultivada, equivalente a Deméter dos gregos (GRIMAL, 2005). Seu mito está relacionado com o mundo dos mortos pois sua filha, Prosérpina (Perséfone, para os gregos), reinava ao lado de Plutão (Hades), o deus dos mortos e irmão de Ceres. A principal narrativa mitológica de Ceres envolve o rapto de Prosérpina por Plutão, pois ao descobrir que sua filha se encontrava no mundo infe-rior, a deusa abdicou de suas funções divinas para viver no mundo, inicialmente se instalando em Elêusis (GRIMAL, 2005). Sem a divindade de eres, a terra se tornou infrutífera, então Júpiter, para conseguir que a deusa voltasse ao Olimpo, ordenou que Prosérpina passasse metade do ano no mundo inferior e a outra metade com sua mãe (GRIMAL, 2005). Nos mistérios de Elêusis, mãe e filha estavam estritamente liga-das, frequentemente designadas como “as deusas”, e a narrativa de sua união no Olimpo era uma revelação fundamental na iniciação aos mistérios (GRIMAL, 2005).

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