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Produção de Saúde como Compromisso da Psicologia Social

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Academic year: 2020

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PRODUÇÃO DE SAÚDE

COMO COMPROMISSO

DA PSICOLOGIA

SOCIAL*

LEONARDO PINTO DE ALMEIDA**

LUÍS HENRIQUE DA COSTA LEÃO***

A s temáticas relativas à saúde e à doença têm recebido atenção peculiar no mundo contemporâneo. As mudanças na vida hodierna se caracterizam pela ruptura de laços sociais e pela exacerbação do individualismo. Somos solapados por uma cultura narcisista e pela emergência de certos hedonismos. Na sociedade contemporânea, percebemos ainda a preca-rização do trabalho, a sensação de perda de sentido, as exigências de rapidez e de flexibilidade oriundas dos ditames do mercado capitalista cada vez mais excludente. Nesse contexto, novas manifestações de sofrimento emergem, suscitando mudanças no perfil de adoecimento da população, com destaque para os transtornos mentais e do comportamento. Como

enten-Resumo: o artigo discute a noção de “produção de saúde” e o caráter contextual e histórico sobre os fenômenos saúde-doença. Analisamos os problemas de saúde da população a partir da psicologia social: a superação da visão unilateral sobre a questão orgânica, o olhar para as comunidades e relações sociais, a crítica das instituições e a questão da produção de sub-jetividade.

Palavras-chave: Saúde. Promoção. Prevenção. Produção. Psicologia Social.

* Recebido em: 22.07.2013. Aprovado em: 07.08.2011.

** Pós–Doutor em Psicologia pela PUC – RIO. Doutor em Psicologia pela PUC – RIO com estágio de doutorado sanduíche na Université de Reims Champagne-Ardenne. Professor Adjunto II de Psicologia da Universidade Federal Fluminense. E-mail: [email protected].

*** Doutorando em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, ENSP/ FIOCRUZ. Mestre em Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ. Professor Assistente I do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso. E-mail: [email protected]

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demos que o ser humano é relacional e descontínuo, podemos perceber que uma análise das vicissitudes da vida na contemporaneidade abre nossas reflexões sobre o que é a saúde e a doença. Nossa reflexão aponta para uma questão talvez de uma contundência inusitada, já que nos encontramos em uma era de avanço tecnológico e científico inquestionável: Qual seria o contexto social em que envolve a produção da saúde e da doença? Será que podemos ainda olhar para a saúde e a doença como se fossem elementos estáticos da natureza humana? Os desenvolvimentos tecnológicos e os avanços nas neurociências, robótica, medi-cina e diagnóstico por imagem, além das conquistas em termos de informação e de comu-nicação, têm representado conquistas sem paralelos para a resolução de sérios problemas de saúde humana. Ao mesmo tempo, cria a sedução da busca pela “cura” via tecnologia – equi-pamentos médico-hospitalares para diagnóstico, exames e cirurgias e uma supervalorização dos medicamentos como via prioritária para o tratamento de doenças. Somos comumente levados ao fascínio em relação ao avanço tecnológico. No entanto, muitas vezes, este avanço e fascínio são dirigidos por ideias preestabelecidas do que seria a natureza humana.

Este movimento nos leva para uma espécie de fetichização dos medicamentos. Uma Panaceia para o mal-estar na vida contemporânea – paradoxalmente angustiante e empol-gante. Aliás, como afirma Ehrenberg (2010), o uso de medicamentos psicotrópicos, sejam sedativos, estimulantes ou euforizantes e diversos medicamentos contra a tristeza, a insônia, a depressão, tem sido alternativas para suportar etapas difíceis na vida, criando uma verdadeira civilização química. Uma sociedade dopada, porque a cultura da conquista tem como corolá-rio a cultura da ansiedade (EHRENBERG, 2010).

A cultura capitalista atual aponta para exigências de eficácia e de superação. Deleu-ze (1992), em Post-scriptum sobre as sociedades de controle, assinala que vivemos em uma época em que o homem está em constante dívida. A sociedade de controle inventa o homem endividado. Quando compramos algo com cartão de crédito, adquirimos uma dívida para o fim do mês. Quando terminamos o doutorado, somos levados a ter que galgar mais andares no espaço acadêmico. A empresa não é diferente, já que ela é talvez o paradigma da socieda-de socieda-de controle. Os trabalhadores, capturados em seus tentáculos, são inseridos na lógica do aprimoramento constante, ainda mais se seu salário for modulado pela ideia de salário por mérito. Esta exigência constante de aprofundamento na busca da eficácia faz com que nossa cultura seja suscetível à ansiedade e à depressão, por exemplo. O consumo de remédios para dar conta destes problemas segue a mesma lógica de consumo de si e de produtos suscitada pela sociedade em que vivemos.

Esta discussão aponta para o motor de reflexão levantado pelo presente artigo: as vicissitudes da saúde e da doença na contemporaneidade. As maneiras de lidar com a questão da saúde, da doença variam consideravelmente nas culturas e nas diferentes épocas da hu-manidade. Em uma perspectiva histórica, podemos inclusive perceber diversas tradições de conhecimentos e de saberes sobre o objeto – saúde – ora com ênfases no organismo humano, visto como um corpo que responde a afetações e estímulos ambientais e a agentes patógenos, ora com ênfases nas questões sociais e simbólicas capazes de formar o modo de viver dos co-letivos e dos grupos humanos.

Entendendo essas oscilações e tendências, que perpassam ainda hoje as pesquisas e as intervenções em saúde, este artigo pretende problematizar alguns lugares ocupados pela psicologia social, por meio de suas variadas abordagens, nos discursos e nas práticas que te-matizem a saúde, chamando atenção para o seu compromisso com a construção de melhores

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condições de saúde na cena contemporânea. A intenção é apresentar como determinadas li-nhagens de estudos desse campo do conhecimento contribuem para o que chamamos aqui de produção de saúde. Esta ideia está atrelada a uma compreensão da subjetividade que aponta para a característica relacional e descontínua que produz os sujeitos em sociedade. A produ-ção está associada à ideia de que a saúde não está no sujeito, em sua natureza, ou em germe apenas precisando ser acionada. Ela está ligada à compreensão de que a saúde é fruto de en-trecruzamento de forças sociais, genéticas, biológicos, linguísticas, alimentares. A produção leva em conta a complexidade relacional de nosso objeto.

Daí a importância das psicologias sociais que têm, na relação e no compromisso social, sua diretriz. Assim, vamos nos apropriar, ao longo do presente artigo, de discussões apresentadas pela psicologia sócio-histórica, pela psicologia comunitária e pela psicologia das instituições.

Assim, para traçar um modo de compreensão sobre as vicissitudes da saúde no contem-porâneo, utilizamos, neste ensaio, o pensamento de determinados autores para discutir a ideia de “produção de saúde”, dentre eles Giovanni Berlinguer e Georges Canguilhem, destacando saúde/ doença como fenômenos ligados a processos históricos e sociais das coletividades humanas.

Em seguida, fazemos uma imersão em pensadores do campo da psicologia que in-vestigaram diferentes aspectos da sociedade contemporânea, tal como a tradição da psicologia comunitária, a psicologia social/microssociologia nascida sob a influência de Herbert Mead e, por fim, autores pós-estruturalistas, como Deleuze e Guattari, a fim de apresentar categorias e modos pelos quais a psicologia social tem se inserido na problemática da saúde/doença, destacando seu compromisso com a sociedade no que tange à melhoria das condições de vida. SOBRE A PRODUÇÃO DE SAÚDE

Na época atual, intensamente produtivista, pode parecer estranha a ideia de “pro-duzir saúde”. Ainda mais porque em nome da produtividade práticas organizacionais injustas e perversas se estabelecem como uma espécie de doença social (GAULEJAC, 2007), se asso-ciando a uma aceitação social das injustiças (DEJOURS, 2006) e configurando assim uma banalização da vida e um culto coletivo à urgência.

A princípio pode dar a ideia que sustentamos e defendamos aqui a noção de saúde como uma mercadoria a mais no cenário econômico-financeiro, como se esta fosse resultado de um processo de produção de bens, conformando um artefato a mais no reino das coisas.

Se bem que, levando em consideração a dificuldade de determinadas classes da população em obter acesso a serviços de saúde, a realidade da “venda da saúde” exemplificada nos adicionais de insalubridade nos contratos de trabalho em situações de risco e a moneta-rização dos procedimentos de tratamento de doenças nos sistemas privados, não é possível desprezar a existência de práticas correntes no tecido social atual que fazem da saúde, de fato, uma commodity.

Afinal, o mercado da saúde é cada vez mais crescente e o “complexo médico indus-trial” um nicho mercadológico extremamente lucrativo. Nesse processo, inclusive, novas pa-tologias podem despontar em função dos interesses de indústrias farmacêuticas direcionadas tão somente para patentear produtos e vendê-los.

Um verdadeiro ciclo produtivo se forja aí, envolvendo agências, associações e agre-miações profissionais de saúde, indústrias, redes de cuidados em saúde, para o

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desenvol-vimento de tecnologias, articulando matérias-primas, instrumentos e meios de produção, trabalhadores em saúde e consumidores.

Pensar na expressão produção social de doença talvez seja um pouco mais escla-recedor. Não afirmamos a saúde como o contrário da doença, pois como já argumentavam Nietzsche e Canguilhem, a saúde não é o “silencio dos órgãos”, mas a capacidade de criação de novas normas para a vida. Daí o vitalismo que podemos retirar do pensamento desses dois autores. A questão principal para eles é a vida e é, a partir deles, que pensamos ser a saúde muito mais do que algo proveniente da capacidade do homem de sobreviver a si mesmo e ao mundo a partir da força adaptativa proveniente de seus componentes biológicos e genéticos. Assim, a ideia de produção social da doença acentua o aspecto histórico, cultural e contextual do desencadeamento de processos de adoecimento. A produção aponta que a saúde e a doen-ça são frutos de relação. Esta ideia tem um componente político importante para pensarmos o contemporâneo e suas vicissitudes.

Foucault (1994), em Nietzsche, la généalogie, l’histoire, apresenta a distinção entre a origem e a invenção. Vemos, através deste pensamento, que a noção de origem está atrelada a uma compreensão dos eventos sociais como se eles tivessem uma essência, uma natureza. Visto por este viés, não adianta mudarmos as práticas de tratamento de um louco, pois a es-sência da loucura seria imutável. As práticas serviriam apenas para continuarmos reaquecendo as políticas de poder sobre os corpos que causam problemas para a sociedade.

Dentro da ótica da invenção, – ideia inspirada no pensamento nietzschiano que direciona certo grupo de análises da obra de Foucault –, pensamos que nada tem origem e que tudo é inventado no tecido sócio-histórico. O louco foi inventado, a intimidade foi inventada, a infância foi inventada, a autoria foi inventada... Todas elas pelas forças que atra-vessam hodiernamente o espaço em habitamos em sociedade. Assim, não existe natureza, mas uma naturalização que serve para certo poder. Este pensamento tem uma forte importância política, pois pensa que se mudarmos as práticas comumente usadas sobre um dado objeto, mudamos o objeto, pois ele não teria essência.

Por que utilizar tal digressão para aportarmos sobre uma análise sobre a saúde e a doença na atualidade? Normalmente, pensamos a doença a partir de um panorama estático. Este panorama nos é confortável para atacarmos os agentes que enfraquecem as forças que nos fazem viver melhor. No entanto, esta compreensão segue a mesma lógica de consumo atual e impossibilita compreendermos a doença em um contexto relacional.

A lógica do consumo na atualidade funciona a partir de uma hierarquia de objetos. Hierarquicamente, vivenciamos, como se nós seres humanos, estivéssemos em um patamar acima dos objetos e dos outros animais e patamares abaixo dos deuses. Esta lógica aponta para a produção de dejetos, de lixo... O homem moderno é o produtor de lixo, do descarte... Curiosamente, se pensarmos uma compreensão de mundo que não entende que somos hie-rarquicamente superiores, mas que os elementos da natureza e do mundo são iguais, como no animismo, a doença é fruto de um desequilíbrio dos elementos. A macrobiótica, como Michio Kushi (1977) apresenta, segue esta lógica. Normalmente, na compreensão ocidental, trabalhamos com a noção de causa com o intuito de extirpá-la para suscitar a retomada da saúde perdida.

Esta digressão não tem o intuito de analisarmos o problema seguindo uma ótica fundada em uma leitura oriental da doença, mas apenas para indicar de como a lógica atual do consumo contamina a compreensão que temos da saúde e da doença.

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Tal conceituação rivaliza frontalmente com a noção de doença tida como uma en-tidade natural, algo que os humanos “pegam”, conforme atestam as expressões do senso co-mum. Nossa análise sustenta uma compreensão da doença e da saúde seguindo a ideia de que o natural seria um problema para pensarmos a vida. Devemos pensar a vida contra a natureza, a essência (ALMEIDA, 2013). Paradoxalmente, podemos pensar que a Natureza é, em seu modus operandi, anti-natural, pois ela não é estática. E o estático é contra a vida ou para usar as palavras de Monsieur Teste “a essência é contra a vida” (VALÉRY, 1997, p.125).

A produção de doença expressa a compreensão das doenças, a partir de um proces-so construído contingencialmente, imbricado nas inter-relações entre condições biológicas, contextos de vida – habitação, renda, transporte, alimentação, saneamento, trabalho etc. – e processos psicossociais – cultura, religião, etc. Ela apresenta sua filiação conceitual com o pro-blema nietzschiano da invenção. A doença é produto do entrecruzamento de forças que vai além do biológico. Assim, a produção de saúde visa recuperar não apenas o corpo adoecido, mas as relações que adoecem aqueles que habitam o espaço existencial.

Isso demonstra que as formas de adoecer e morrer não decorrem de uma dada na-tureza ou de entidades que impactam negativamente com o corpo humano, mas de realidades forjadas socialmente, numa inter-relação complexa e dinâmica nos territórios onde a vida comunitária se dá.

Nesse sentido, a noção de produção de saúde remete à busca permanente e sistemá-tica, nos campos científicos, político-institucionais e sociais, pela compreensão e intervenção nos meios de vida capazes de gerar melhores condições para a vida individual e coletiva se expressar. É no processo social que se produzem e manifestam os adoecimentos e a saúde. Daí, a importância política do conceito em questão. Como a noção de invenção, ela nos serve para nosso embate contra os poderes que impedem a criação de novas formas de existência. Ela serve para quebrarmos os padrões que obliteram o surgimento da saúde, quando esta é compreendida como algo natural.

Ademais, a noção de produção de saúde não se vincula diretamente a tradições já consolidadas no campo da saúde. Por exemplo, ao mencionar a prevenção da saúde estamos nos filiando à trajetória da conhecida “história natural da doença”.

Se tomarmos a definição da palavra prevenção no dicionário Aurélio, verificamos que ela remete a noção de antecipação, de ideia preestabelecida que direciona. Previno-me de algo, pois tenho uma ideia de como devo me apresentar frente a dado problema. Assim, a ideia de prevenção não toma a saúde a partir de uma relação, mas dentro de uma lógica de origem e de essência. Eu devo suscitar políticas públicas para prevenir a população de deter-minadas doenças (FERREIRA, 1987, p. 1137).

Quando utilizamos o conceito de promoção da saúde o mesmo ocorre. A vincula-ção agora é com o movimento da nova saúde pública, iniciado pelas ações do Ministério da Saúde Canadense no início da década de 1970, com o “informe Lalonde”, de demais confe-rências mundiais de promoção da saúde: Alma-Ata, 1978; Otawa, 1986, entre outras.

A ideia de promoção segue uma lógica teleológica. Promoção provém do latim promotore que quer dizer adiantamento. No bojo de sua compreensão, quando promovemos algo intentamos um objetivo preestabelecido a ser alcançado (FERREIRA, 1987, p. 1145).

Assim todas as duas noções se opõem a ideia relacional fundada na noção de pro-dução da doença e da saúde que queremos aqui veicular para refletir sobre suas vicissitudes no contemporâneo.

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A noção de produção da doença aponta para questões e dimensões éticas e políticas da atualidade, já que a vida e a saúde da população têm sido colocadas em risco por meio de situações evitáveis. Talvez a ética seja a questão filosófica por excelência na contemporanei-dade, já que a experiência moderna é a vivência radical do abandono das diretrizes morais e religiosas que deveriam reger a vida. O homem moderno é levado a se reinventar em suas relações. Assim, as questões da ética, da relação e da invenção entrelaçam nossa discussão sobre a produção de saúde. A produção da saúde leva em conta o componente relacional e fabricado da subjetividade.

Vivemos na sociedade do risco, como atesta Beck (2010). Pensemos nos exemplos dos acidentes industriais que difundiram tóxicos e produtos de poluição ambiental, nos riscos da produção de energia nuclear e a recente catástrofe ocorrida em Fukushima no Japão. Eles demonstram as escolhas e as responsabilidades políticas na sociedade contemporânea que põe em risco parcelas da população para sustentar modos de viver, gerar energia, bens de consumo e lucro.

Berlinguer (1988), em seu clássico texto A doença, demonstra as variações dos sen-tidos e dos significados históricos e culturais da concepção de doença, indicando que as so-ciedades, as nações, as classes, os grupos e os indivíduos manifestam e lidam com as doenças de modos completamente distintos. As compreensões sobre esse fenômeno perpassam inicial-mente a noção de problema moral e espiritual. Na chamada “era bacteriológica”, passa a ser compreendida como problema relativo à anatomia, micróbios, toxinas e parasitas O enfoque é colocado então sobre os sintomas clínicos como correspondentes a lesões orgânicas.

Na verdade, para Berlinguer (1988), no fenômeno da doença, estão interligados três componentes fundamentais: um fato objetivo, corporal; maior ou menor conhecimento do mal, uma ideia e uma medida, baseados nos interesses da época, bem como “um juízo de valor, uma interpretação ética, além da científica, que vale como guia de ação” (BERLIN-GUER, 1988, p. 20).

Ainda no século XIX e início do XX, por outro lado, ocorreram ações sistemáticas de coleta e interpretação de informações relativas às condições de saúde e vida das popula-ções. As ações de Johann Peter Frank, na Alemanha, Sir Edwin Chadwick e Willian Farr, na Inglaterra, (TEUTSCH, 2000) são exemplos dessa ênfase na determinação social da saúde da população.

Essa mesma tendência é percebida em autores latino-americanos da linhagem da medicina social latino-americana, como Laurell e Noriega. Essa tradição busca compreender a historicidade do nexo biopsíquico humano e rompe com a compreensão a-histórica da biologia humana. Eles utilizam algumas categorias para a análise da produção social do nexo biopsiquicosocial, destacando os elementos que interatuam entre si e com o corpo humano, gerando perdas da capacidade potencial e/ou efetiva corporal e psíquica (LAURELL; NO-RIEGA, 1989).

Nessa trajetória, as concepções de Canguilhem (2002) são fundamentais porque trazem um novo eixo de análise sobre o binômio normal/patológico. Ele critica a ideia de que os fenômenos patológicos seriam variações quantitativas do normal. Esse pensamento, inclusive, foi muito veiculado em boa parte no século XIX nos campos da medicina e biolo-gia (COELHO; ALMEIDA-FILHO, 1999). Para Canguilhem, o patológico indicaria uma forma de viver, certo fechamento, podemos dizer. Isso porque, a diferença entre o normal e o patológico estaria na abertura para a formação de eventuais modificações. Ter saúde, nesse

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sentido, implica na possibilidade de construir novas normas para o viver. Seria a capacidade de inventar e transformar as normas em cada nova situação da existência.

Certamente as normas diferem entre as culturas e os tempos, portanto, a normali-dade dependeria do que dadas socienormali-dades e grupos impõem como sua normativa, sua lei. O normal, a saúde, não seria um estado perfeito, estático, natural. Pelo contrário. Saúde implica na dinamicidade do estar doente e ser capaz de se levantar constituindo formas inovadoras de lidar com o meio (CANGUILHEM, 2002).

Seguindo nessas trilhas conceituais, a produção de saúde e da doença estaria ligada à própria forma de organização das sociedades e nas relações que a mantém e a modificam. Assim, quando o campo da Psicologia Social traz ao debate categorias para a compreensão e intervenção na sociedade (relações humanas, grupos, comunidades, instituições e subjetivida-de), ela assume um importante lugar dentre os variados campos do conhecimento na trilha da produção de saúde e no questionamento das formas sociais de produção de doença.

A PSICOLOGIA SOCIAL NAS TRILHAS DA PRODUÇÃO DA SAÚDE

O vasto campo das psicologias sociais apresenta alicerces teóricos e práticos para a discussão da produção de saúde na sociedade atual, como argumentamos nesse ensaio.

Em primeiro lugar, porque a psicologia social teve a relevância de questionar o status quo das teorias organicistas para a explicação dos fenômenos sociais, incluindo os pro-cessos saúde-doença.

Da mesma forma, foi relevante ao questionar abordagens cujo olhar se restringia puramente às relações químicas e neurológicas. A ênfase no indivíduo em dadas psicologias cedeu lugar à ampliação do olhar para a questão social. Essa ampliação, inclusive, ajudou a tematizar a saúde como questão biopsicossocial e não intrapsíquica, orgânica e meramente biológica.

Isso ocorre no seio da psicologia social, através da grande virada surgida em sua história, a partir da crise da psicologia social no final dos anos 70, início dos 80. A psico-logia social hegemônica, originalmente estadunidense e cognitivista, tinha como objetivo a compreensão das leis do comportamento humano em sociedade, fundamentada por mi-croteorizações, experimentalismo, a-historicismo e compreensões generalizantes a partir das experiências norte-americanas (ALMEIDA, 2012; KRÜGER,1986),

A psicologia latino-americana, a partir deste momento, se coloca com contundência contra a compreensão essencializante e a-histórica da perspectiva hegemônica norte-americana. Será Pedrinho Guareschi, em seu belo livro Psicologia Social Crítica, que indicará o fio condutor de nossa argumentação ulterior para justificar o uso da psicologia social na análise da produção de saúde, ao afirmar o seguinte: “Quero confessar, logo de saída, que esse conceito [relação] é para mim, o conceito central para a compreensão do ser humano... para a compreensão da so-ciedade, do que é o social, do que é um grupo...” (GUARESCHI, 2004, p. 60).

A questão principal da psicologia social brasileira, sustentada pela crítica à psicolo-gia social estadunidense, está associada ao conceito de relação. Como veremos, este conceito está do lado da compreensão dos fenômenos sociais que seguem a ótica da invenção e, por conseguinte, da promoção de saúde.

A crítica da não neutralidade da ciência, o questionamento do papel social do pes-quisador e da servidão da produção científica são contribuições inquestionáveis desse ramo da

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psicologia social. Ela afirma a perene necessidade de uma tomada de consciência e posição dos pesquisadores em favor da saúde e bem estar dos seres humanos. A psicologia social latino--americana em sua crítica a vertente hegemônica se fundamentou na ideia do compromisso social.

Esta psicologia social que no Brasil passou a ser chamada de Psicologia Sócio-His-tórica, encabeçada pelo trabalho de Silvia Lane, sofreu influência do pensamento marxista e da teoria crítica da Escola de Frankfurt. Esta teoria se baseava no materialismo histórico como ferramenta para uma análise e uma atuação sobre o social que visava o compromisso com a sociedade (ABRANTES, 2005).

O materialismo histórico possibilitava, junto a esses psicólogos, a retomada da his-toricidade e de uma produção de conhecimento que visava à transformação social (ALMEI-DA, 2012). Esta psicologia social apostou nas relações sociais inseridas em uma realidade concreta do homem brasileiro. A sua preocupação com o compromisso se valeu do conceito de ideologia e sua relação com a dominação, para trabalhar em grupos com o intuito de pos-sibilitar a conscientização.

Desta mesma época e seguindo a mesma inspiração teórica, surgem os questiona-mentos que fundamentam a visão sobre a comunidade como espaço rico em relações sociais e potencializadoras de questionamento sobre as ideologias que acometem os indivíduos em sociedade.

A psicologia comunitária na América Latina surge na década de 1970. Ela é fruto de insatisfações de grupos de psicólogos com relação às abordagens experimentalistas predo-minantes nos EUA, dos movimentos populares de reinvindicação para a resolução de proble-mas básicos e da influência do pensamento de Paulo Freire (ARENDT, 1997).

Essa psicologia contribui fundamentalmente para retirar a ênfase sobre o indivíduo como alvo dos estudos e pesquisas. E enfatiza os problemas comunitários e a necessidade do desenvolvimento comunitário. Para isso, considera fundamental a tomada de consciência dos moradores com vistas à sua efetiva participação na mudança social. Ela segue a lógica funda-mentada pelo materialismo histórico e a força que a conscientização tem para nos retirar de relações de dominação. O trabalho comunitário, seguindo a ótica sócio-histórica, tem como objetivo a autonomia do grupo, fundada na ideia de transformação social (CAMPOS, 1998).

Essa é justamente umas das contribuições dessa linha teórica da psicologia so-cial. A participação popular, a consciência da cidadania e a construção de estratégias de engajamento comunitário trazem à noção de saúde como luta social-comunitária. Afinal, a produção de saúde se dá pelo enfrentamento e combate coletivo contra aquilo que difi-culta o “andar a vida”, na expressão de Canguilhem. Efetivas mudanças podem acontecer nos contextos comunitários, justamente quando as populações que habitam um território assumem o protagonismo na luta em favor de suas vidas. Saúde é também cidadania, di-reito, voz. Assim, a ideia de indivíduos carentes de uma terapêutica é substituída pela de um coletivo em busca de alternativas e saídas concretas para seus problemas. A figura dos pacientes à espera pelo seu agente curador cede lugar à imagem dos produtores de melhores condições de vida, portanto, e saúde.

Daí, podemos vislumbrar como o conceito de relação se coaduna com a ideia de produção de saúde. E mais ainda, seguindo a visão de uma psicologia social comunitária, podemos perceber que a luta por melhores condições de vida, suscitadas pela força da cons-cientização, possibilitam aos sujeitos a resgatar seu papel na sociedade em que habitam e, por

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conseguinte, se responsabilizem por sua própria saúde e de seu grupo social.

Este grau de comprometimento suscita um maior questionamento crítico sobre as vicissitudes da saúde na sociedade contemporânea. As pesquisas sobre as relações humanas injustas e desiguais nos contextos sociais latino-americanos vêm contribuir para dar luz a situações desarmônicas originadoras de sérios problemas sociais e de saúde. Por exemplo, as pesquisas sobre o sofrimento ético-político, a exclusão social de parcelas da população, entre outros, ilustram satisfatoriamente essa tradição.

A análise dessas relações põe em relevo também situações de sofrimento, saúde, doença entre classes e grupos sociais, conforme Sawaia aponta ao discutir o sofrimento:

Conhecer o sofrimento ético-político é analisar as formas sutis de espoliação humana por trás da aparência de integração social, e, portanto, entender a exclusão e a inclusão como as duas faces mod-ernas de velhos e dramáticos problemas – a desigualdade social, a injustiça e a exploração (SAWAIA, 2009, p. 106).

Outro ponto que merece destaque é a crítica às instituições. Sobre esse aspecto, apesar das variadas linhas de pensamento abordarem diferentemente o conceito de instituição, des-tacamos aqui uma importante tradição originada das compreensões de George Hebert Mead. Aliás, as pesquisas historiográficas da psicologia nem sempre consideram devida-mente o valor e principaldevida-mente o pioneirismo desse autor para a Psicologia Social. Já no início do século XX, particularmente, em 1900-1901, ele já utilizara o termo “psicologia social” na ministração de aulas na universidade de Chicago, anos antes de McDougall e Ross, ambos em 1908 (SOUZA, 2011).

Sua abordagem trouxe inovações para as compreensões da relação indivíduo-socie-dade, tais como a noção de interação social e formação do self. Mead destaca a construção de identidades e o papel da linguagem como mediadora da formação dessa identidade, sempre de caráter psicossocial.

Uma das funções do self, segundo ele, seria a capacidade de promover a integração grupal e, ao mesmo tempo, resistir às atitudes coletivas, possibilitando a afirmação da singu-laridade. Essa seria constituída pelo “me” e o “eu”.

O “me” consiste na reprodução de reações socialmente construídas e organizadas, na internalização do outro generalizado, na identificação do sujeito com sua comunidade cultural. O “eu” é a reação inusitada, criativa e original do sujeito diante das ações da sociedade, transformando-a; representa as atitudes novas assumidas e criadas pelo indivíduo diante das reações sociais formalizadas (SOUZA, 2011, p. 377).

Uma das repercussões históricas do pensamento de Mead foi o desenvolvimento da escola de Chicago, onde floresceram trabalhos brilhantes sobre as relações sociais e a ecologia humana, exemplificadas nas pesquisas de Goffman, Elias e outros.

Especificamente, tomamos aqui o trabalho de Mead e Goffman, como pilar para a discussão da saúde. Ora, compreender saúde/doença como questão biológica é incorrer em um simplismo mutilador. A relação entre indivíduo e grupos sociais, mediadas pela lingua-gem e pelas instituições são portadoras de potenciais de vida e também de sua inibição. As-sim, vale ressaltar também que a vida nas instituições totais, segundo Goffman, é carregada de padronizações comportamentais, de regras, de situações que vão alterando as relações sociais. A análise dessas situações é fundamental para a discussão da saúde.

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O próprio Goffman foi membro do Laboratório de estudos sócioambientais do Instituto Nacional de Saúde em Maryland nos EUA. Nesse período, ele realiza variados traba-lhos de campo em instituições resultando em trabatraba-lhos como os quatro ensaios de “Manicô-mios, Conventos e Prisões”. Neles, o autor se debruça sobre o tema das instituições totais, ou seja, locais de residência e de trabalho com grande número de indivíduos vivendo em situação semelhante, separados da sociedade mais ampla e com vida fechada bem como formalmente administrada (GOFFMAN, 1974). Um dos aspectos de destaque nessa discussão é a noção de carreira moral. Aliás, é na escola de Chicago, que essa conceituação se desenvolve e segun-do Goffman (1974, p. 112) esse conceito “permite que andemos segun-do público para o íntimo, e vice-versa, entre o eu e sua sociedade significativa, sem precisar depender manifestamente de dados a respeito do que a pessoa diz que imagina ser”.

Nessa linha, ele discute a carreira moral do “doente mental” abordando os efeitos da institucionalização nas relações sociais no indivíduo e a questão do modelo médico e da hospitalização.

Suas análises críticas são fundamentais para a desconstrução do modelo hospitalo-cêntrico, centrado na figura do médico. Ao mesmo tempo, são substratos teóricos impres-cindíveis para a desconstrução da psiquiatrização e internação dos sujeitos em sofrimento, infelizmente ainda corrente na atualidade.

Aliás, toda a luta histórica do “movimento dos trabalhadores de saúde mental”, a reforma psiquiátrica brasileira, a luta antimanicominal e a constante caminhada na direção da desinstitucionalização são tributárias também dessas fundamentações teóricas e práticas de crítica social. São exemplificações reais das contribuições históricas desse pilar da psico-logia social para a produção de saúde. Estas contribuições teóricas do campo possibilitam associar o questionamento e comprometimento social, com os conceitos de relação e de produção de saúde.

É preciso fazer uma ressalva: A crítica das instituições não se limita a apenas os autores discutidos aqui. Poderíamos trazer à tona toda a tradição latino-americana e francesa de análise institucional, demonstrando outras categorias por elas preconizadas. Nesse artigo, no entanto, nos limitamos a apontar nessa direção, para novos desenvolvimentos posteriores. Por fim, ressaltamos que o conceito de produção de subjetividade pode ser consi-derado outra fundamentação de base da psicologia social nas trilhas da produção da saúde. Este conceito segue a linhagem da invenção. A subjetividade, segundo Guattari (1986), é fabricada pela maquinaria capitalística que incide sobre os desejos com o objetivo de produzir subjetividades modelizadas e serializadas. Este movimento visa à construção de hegemonia e de dominância. Este movimento é regido pelos sistemas de produção de subjetividades hege-mônicas. É esse sistema que suscita a padronização.

No entanto, tanto Guattari (1986) quanto Deleuze e Guattari juntos (1980), estão interessados nas linhas de fuga. Naquilo que faz questão para a sociedade. Aquilo que escapa à hegemonia e que suscita novas formas de viver. Eles estão do lado de processos de singulari-zação. São modos de torção das relações de poder padronizadoras e hegemônicas que impõem modos de vida às subjetividades existentes. No entanto, aqui percebemos uma diferença clara entre esta perspectiva e a psicologia sócio-histórica, enquanto a última crítica o poder pelo viés da conscientização das relações ideológicas de dominação, a primeira está do lado de uma crítica micropolítica que leva em conta o problema da verdade, como algo inventado. A noção de invenção é parceira desta reflexão. Devemos compreender que as subjetividades são

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produzidas, inventadas. E para lidar com a hegemonia, devemos fazer uma crítica contunden-te à essência, à natureza e, por conseguincontunden-te, à verdade.

Assim, vemos que esta perspectiva pode nos apresentar subsídios para refletirmos sobre a produção de saúde. A saúde é inventada hodiernamente pelo entrecruzamento de forças que atravessam uma sociedade.

Nesse sentido, podemos apontar no jogo social a produção de sujeitos adoecidos. E esses processos de “patologização” do sofrimento geram vitimização e culpabilização.

Afinal, os diagnósticos e os prognósticos, tão corriqueiros nas práticas dos profissio-nais da saúde, podem ser estratégias – talvez não tão conscientes – de uma fabricação social de sujeitos adoecidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse texto abordou a noção de “produção de saúde”, diferenciando-o das noções de prevenção e de promoção da saúde, vinculadas à história natural da doença e às propostas do campo da saúde coletiva e os movimentos políticos surgidos nas conferências internacionais. Destacou também algumas das principais abordagens teóricas surgidas na trajetória história da psicologia social no Brasil, que em seus conceitos e métodos, compõe um quadro de leituras e de críticas fundamentais para a compreensão e a ação sobre os problemas de saúde da população brasileira.

Seu propósito foi demostrar como tais abordagens problematizam aspectos da in-terface entre indivíduo-sociedade (seres humanos e seus modos de agir, pensar e sentir) con-tribuindo, em conceitos e métodos, na produção de saúde (construção de meios e possibili-dades de intervir em aspectos geradores de doenças).

Todas essas abordagens discutidas são ricas fontes para subsidiar novas pesquisas e ações da psicologia no território e cenário brasileiro, celeiro de situações paradoxais, contra-ditórias, simultaneamente modernas e arcaicas.

A nosso ver, a ideia de produção de saúde, discutida neste artigo, apresenta o caráter central da compreensão da saúde-doença como questão histórica e contextual.

Tal noção põe em evidência a compreensão de processos históricos que criam adoe-cimentos e mortes entre a população. Assim, uma vez que sejam historicamente construídos, chamam ao desafio da intervenção social com vistas à sua eliminação e controle.

Se existe uma produção de sujeitos adoecidos por situações sociais (determinadas formas de trabalho, exposição desigual a toxinas e produtos químicos perigosos, vulnerabili-dades de acesso a direitos e serviços de saúde por preconceitos, etc.), por que não investir em pesquisas e ações, nos variados campos do saber, sobretudo na psicologia social, que busquem meios para construir melhores possibilidades de vida e saúde entre a população?

PRODUCTION OF HEALTH AS COMPROMISE OF SOCIAL PSYCHOLOGY Abstract: the article discusses “health production” as an important concept to demonstra-te health and disease as a historical and condemonstra-textual phenomenon. We analyzed the health problems of population by means of social psychology frameworks: the overcoming of the limited view based on human organism, the communities and social relations importance, the institutions critique and production of subjectivity issue.

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