UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
Explicações teleológicas no ensino de evolução: um
estudo sobre os saberes mobilizados por professores de
Biologia
Maicon J. C. Azevedo
Explicações teleológicas no ensino de evolução: um
estudo sobre os saberes mobilizados por professores de
Biologia
Maicon J. C. Azevedo
Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Educação.
Orientadora: Prof.a Dra. Sandra L.
Escovedo Selles.
Co-orientadora: Prof.a Dra. Ana Cléa
M. Ayres
Explicações teleológicas no ensino de evolução: um
estudo sobre os saberes mobilizados por professores de
Biologia
Maicon J. C. Azevedo
Orientadora: Prof.a Dra. Sandra L. Escovedo Selles.
Co-orientadora: Ana Cléa M. Ayres
Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Educação.
Aprovada por:
_______________________________________ Presidente, Prof.a Dra. Sandra L. Escovedo Selles
Faculdade de Educação/UFF
___________________________
Prof.a Dra. Ana Cléa M. Ayres
Faculdade de Formação de Professores/UERJ
____________________________________ Prof.a Dra. Simone Salomão
Faculdade de Educação/UFF
___________________________
Prof.a Dra. Dominique Colinvaux
Faculdade de Educação/UFF (suplente)
RESUMO
Explicações teleológicas no ensino de evolução: um estudo sobre os saberes mobilizados por professores de Biologia
Maicon J. C. Azevedo
Orientadora: Prof.a Dra. Sandra L. Escovedo Selles.
Co-orientadora: Prof.a Dra. Ana Cléa M. Ayres
Resumo da Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Educação.
AZEVEDO, Maicon Jeferson da Costa: Explicações teleológicas no ensino de evolução: um estudo sobre os saberes mobilizados por professores de Biologia. Orientadora: Sandra L.Escovedo Selles. Co-orientadora Ana Cléa M. Ayres. Niterói-RJ/UFF, 11/07/2007. Dissertação (Mestrado em Educação), 100 páginas. Campo de Confluência: Ciência, Sociedade e Educação. Linha de pesquisa: Formação de professores de Ciências e Biologia; Projeto de Pesquisa: A experimentação no ensino de Biologia: Matrizes históricas e curriculares na formação de professores.
Biologia escolar, dadas às vantagens didáticas que esta leitura dos fenômenos biológicos oferece. Apontamos para seu uso consciente e em situações específicas. Palavras chave: Ensino de Biologia; Saberes Docentes; Filosofia da Biologia.
Abstract
Teleological explanations in the teaching of evolution: a study of the Biology teachers’ knowledge
Maicon J. C. Azevedo
Supervisor: Prof. Dr. Sandra L. Escovedo Selles. Co-supervisor: Prof.a Dr. Ana Cléa M. Ayres
Abstract of the Masters Dissertation submitted to the Post-graduation Program in Education, Faculty of Education, Universidade Federal Fluminense, as part of the requirements to obtain the certificate of Master in Education.
AZEVEDO, Maicon Jeferson da Costa: Teleological explanations in the teaching of evolution: a study of the Biology teachers’ knowledge Supervisor: Sandra L. Escovedo Selles. Jointly supervisor Ana Cléa M. Ayres. Niterói-RJ/UFF, 11/07/2007. Dissertation (Master of Education), 100 pages. Area: Science, Society and Education. Research area: Training for Teachers of Science and Biology; Research Project: Experimentation in the teaching of biology: historical links between curriculum and teacher training.
phenomena can offer. We recommend that it is necessary, though, to use the teleological explanation with caution and only in specific situations.
Keywords: Biology Teaching; Teacher knowledge; Philosophy of Biology.
O ser vivo representa a execução de um plano,
mas um plano que nenhuma inteligência concebeu.
Ele tende para um fim,
mas um fim que nenhuma vontade escolheu.
Agradecimentos
Tenho muito a agradecer e a muitos. O fim de um trabalho é o fim de mais uma etapa vencida. Uma conquista que traz consigo reflexão, alívio e gratidão. Muito além de uma mudança profissional, a conclusão deste estudo é um ganho pessoal imensurável e representa o esforço de muitas pessoas, pessoas que confiaram na minha capacidade de realização. Citá-las será mesmo uma tarefa árdua que mesmo correndo o risco de cometer injustiças (por imperfeições de memória), é essencial fazê-lo e registrar o meu muito abrigado.
À minha mãe, Iris, pelo exemplo de determinação e doação, que mesmo com as agruras que a vida lhe impôs soube mostrar-me, com seu enorme coração, a beleza de viver em doação pela família.
Ao meu pai, Jorge “Jeferson” (in memoriam), que com seu exemplo de determinação me mostrou que sonhos são possíveis.
Ao meu irmão, Marcus, pela nossa cumplicidade e apoio inconteste.
Ao meu grande amor, Silvia, pela simbiose que nos mantém vivos e pulsantes. Pelo fruto maravilhoso que nos une e fortalece.
À minha orientadora, Sandra Selles, que mais que orientação trouxe carinho e afeto. Pelo exemplo a ser seguido e como disse a Ana: “É um privilégio conviver com você, com sua energia, disposição para o trabalho, compromisso com a escola, prazer pelos estudos...” Você é o alvo e a seta! Obrigado pela paciência e ajuda.
À amiga e co-orientadora, Ana Cléa, pelo exemplo, pela enorme paciência que teve comigo desde o início de minha caminhada, pelo apoio sempre presente. Pelo carinho e pela amizade. Obrigado pelo zelo!
À professora Simone Salomão, por aceitar participar de minha banca de defesa e pela imensa contribuição na construção deste trabalho.
Às professoras Dominique Colinvaux e Nadir Ferrari, pelas importantes orientações que em momentos de grandes inquietações nortearam meus estudos.
As professoras pós-graduandas do curso de especialização em Ensino de Ciências – modalidade Biologia, turma 2006/2007. Meu incomensurável agradecimento.
Aos grandes amigos e parceiros de estudo que sempre estiveram ao meu lado. Cristininha, Danielle, Everardo, Dorvillé, Margarida e Mariana Vilela, Mariana Cassab e Roberto Bezerra. Obrigado pela confiança, pelo apoio e pela torcida.
Ao amigo Luiz Felipe (Lufe), pelos momentos de descontração e pela valorosa ajuda em momentos preciosos.
Aos grandes amigos do Colégio Municipal Irene Barbosa Ornellas, pelo prestimoso e valoroso auxilio, presente nas horas mais necessárias.
Aos grandes amigos do Colégio Estadual Ismael Branco, pelo incentivo.
Aos grandes amigos e atuais colegas de trabalho do CEFET-RJ, que tão bem me acolheram e tornaram aprazível a árdua e melindrosa tarefa de concluir este estudo. Aos meus alunos.
No fim,
LISTA DE TABELAS e MAPA CONCEITUAL
Mapa conceitual do tema Teleologia... 34
Tabela 1: Concepções das docentes sobre o tema evolução... 54
Tabela 2: Soluções apresentadas no tratamento das questões que envolvem o
pensamento teleológico... 56
Tabela 3: Subcategorias que apresentam a identificação e a forma de atuação da
SUMÁRIO
Introdução... 14
Capítulo 1 1. Um breve histórico... 19
1.2. Darwin e a teoria da evolução... 22
1.2.1 Darwin, Huxley e a suposta derrota da teleologia... 26
1.3 Entendendo a Teleologia... 27
1.3.1 Teleologia e o progresso... 35
1.3.2 O conceito de progresso... 37
1.3.3 O progresso na Biologia... 38
1.3.4 O progresso em Darwin... 40
1.3.5 O progresso depois de Darwin... 41
1.3.6 O progresso na atualidade... 41
1.4. A persistência da Teleologia nas Ciências Biológicas... 43
Capítulo 2 2. O percurso da investigação... 46
2.1 O contexto da pesquisa... 47
2.2 As docentes em seu espaço de formação... 47
2.3 Os sujeitos da pesquisa... 47
2.4 As etapas da pesquisa... 48
2.4.1 Primeira etapa: discussão sobre evolução e júri simulado... 48
2.4.2 Segunda etapa: a temáticas evolutivas... 49
2.4.3 Terceira etapa: explicações teleológicas em situações de sala de aula... 50
2.4.4 Quarta etapa: analisando teleologia em livros didáticos... 52
2.5 Procedimentos de análise... 49
Capítulo 3
3. Saberes docentes e argumentos teleológicos: analisando os dados da pesquisa... 59
3.1 O entendimento das docentes sobre evolução... 60
3.2 Discutindo as explicações teleológicas em um júri simulado... 64
3.3 Analisando situações de ensino... 69
3.4 Analisando os registros de regência... 71
3.5 Analisando explicações teleológicas em livros didáticos... 75
3.6 Buscando sentidos nos saberes das professoras... 77
3.7. Identificação da teleologia... 78
3.7.1 Quando a explicação teleológica não é identificada... 78
3.7.2 Quando a Teleologia é identificada... 78
3.8 A Teleologia em situações de aprendizagem... 80
3.8.1 Explicações teleológicas como um fator limitante na aprendizagem... 80
3.8.2 Explicações teleológicas como um fator que não compromete as situações de ensino... 80
3.8.3 Explicações teleológicas como um fator facilitador de aprendizagem... 81
Capítulo 4 4. Considerações finais... 83
Referências Bibliográficas... 91
Anexo I... 95
INTRODUÇÃO
O uso da explicação teleológica no ensino de ciências é o tema geral deste
estudo. Considerando que a teleologia é o princípio filosófico que trata a natureza como
um sistema que relaciona meios e fins, esta dissertação focaliza o emprego das
explicações ou argumentações teleológicas em conteúdos biológicos de Ensino Médio
por professores de Biologia. Neste trabalho, partimos da definição filosófica para
estudar a temática em perspectivas didáticas. Assim, buscamos compreender como
conteúdos de ensino expressam ações ou processos biológicos dispostos de acordo com
um projeto para a obtenção de uma finalidade. Em outras palavras, quando encontramos
afirmações tais como: árvores perenes desenvolveram raízes mais profundas para
sobreviverem em ambientes de pouca chuva, identificamos uma explicação ou
argumento teleológico, pois tais afirmações parecem negar por completo todo o
processo de seleção natural pelo qual os vegetais foram submetidos ao longo da história
da vida. Desta forma, as relações de causa e efeito de caráter evolutivo de todo sistema
são desconsideradas.
A associação da teleologia com as ciências tem raízes profundas e longínquas,
remontando ao pensamento aristotélico. Nas Ciências Biológicas, nem mesmo os
trabalhos de Darwin1 foram capazes de retirá-la de forma peremptória e não são raros os
relatos de temas que são tratados teleologicamente nesta área do conhecimento. Ao
longo desta dissertação apontaremos como o pensamento teleológico também está
enraizado no Ensino de Ciências, demandando estudos e reflexões que explicitem os
sentidos didáticos da apropriação teleológica neste campo de conhecimentos e práticas.
Para este estudo é preciso partir da associação entre pensamento evolutivo e pensamento
teleológico o que, obviamente, nos leva ao lugar que as idéias de Darwin ocuparam no
desenvolvimento das Ciências Biológicas.
Quase 150 anos se passaram desde a divulgação das primeiras idéias de Charles
Darwin, sistematizadas na obra clássica A Origem das Espécies e, ainda hoje,
continuam a incitar grandes polêmicas2, sobretudo porque a teoria evolutiva por ele
1
Embora muitos estudos reconhecem o darwinismo como um marco na retirada do pensamento teleológico da Biologia. Ver Foster (2005) pág. 263.
2 Inúmeras polêmicas vêm se travando no âmbito de círculos religiosos cristãos que, desde o início, viram
proposta deslocava a centralidade do homem no universo e introduzia o elemento acaso
nas possibilidades futuras do desenvolvimento biológico. Tais idéias atingiam os
pressupostos finalistas e colocavam a teleologia em xeque.
Nos quatro séculos anteriores a Darwin, a ciência estava atrelada à religião e o
homem conservava seu lugar no centro do universo, obra sublime da criação divina. A
viagem Darwinista levou toda humanidade a repensar seu papel na história da vida:
depois de Darwin somos apenas mais uma entre as muitas espécies do planeta, uma
espécie como as outras, sem nada de especial, sem o toque deificador. Mais do que isso,
as teorias de Darwin além de esvaziar a criação divina, nos retira todo o alento de uma
vida cálida e aconchegante. Isso porque no cerne das teorias evolutivas de Darwin está o
acaso, “regendo” o processo evolutivo. Tomar o acaso como âmago de todo o processo
significa creditar todo o futuro na imprevisibilidade dos fatos, sem qualquer indício da
segurança que nos sustente. Então, como viver sem acreditar que somos especiais que a
natureza - e tudo que há nela - não foi pensado e arquitetado para o nosso usufruto?
Certamente, estas questões permeiam o cotidiano escolar e encontram no ensino
de evolução um espaço curricular para o qual convergem e se complexificam. Não são
raros os relatos de que alguns estudantes, mesmo ao final do ensino médio, constroem
seus conhecimentos científicos relativos à teoria da evolução mesclando ciência e
religião o que parecem gerar idéias, no mínimo, conflituosas (Dorvillé, no prelo). À
medida que a ciência se apresenta aos estudantes, eles a percebem como um desafio às
suas crenças religiosas e, por meio de complexos processos de elaboração
sócio-cognitiva, reelaboram os conteúdos biológicos aprendidos mantendo suas crenças e
valores e assumindo as referências teleológicas de suas denominações religiosas3.
Talvez seja por conta disto, que muitos autores relatam que estudantes de diferentes
níveis escolares mantêm idéias diferenciadas a respeito do processo evolutivo. Chi e
Ferrari (apud Pinto, 2003) destacam que alguns estudantes entendem a evolução como
um evento e não como um processo. Já Santos e Bizzo (2000) afirmam que uma parcela
considerável de estudantes acredita que a mudança, durante a evolução, ocorre em
virtude da necessidade gerada pelo meio e que os seres evoluem progressivamente até
se transformarem em outros seres. Trigo et al. (2003) indicam que uma possível causa
das distorções é a tentativa dos estudantes de compatibilizar os campos científicos e
religiosos na formação dos conceitos evolutivos. Neste caso, uma das distorções mais
prelo).
3
freqüentes é a interpretação finalista dada aos fenômenos evolutivos, ou seja, a crença
de que as modificações ocorrem sempre orientadas por uma força imaterial no sentido
da perfeição em níveis mais elevados.
No entanto, esta interpretação finalista não pode ser creditada simplesmente
como um erro conceitual ou elaboração equivocada de estudantes religiosos. É preciso
destacar que a visão finalista dos processos evolutivos encontra eco dentro do próprio
pensamento biológico. De acordo com Tamir & Zohar (1991) a Biologia adota dois
parâmetros para construir suas explicações: a teleologia e o antropomorfismo. A
tradição teleológica nas ciências teve seu início com Aristóteles, que recorreu as
“causas finais”, não apenas para explicar processos individuais de seres vivos, mas
também para o conjunto do universo (Mayr, 1998b). Para o filósofo grego, o universo
seria como um organismo que se desenvolve segundo um propósito. A finalidade não
dependeria de uma mente ou intenção, mas da capacidade dos seres vivos de buscar e
manter certa organização (Martinez e Barahona, 1998). As formulações teleológicas são
aquelas em que os fins são utilizados como a base para a explicação, ou seja, o
argumento teleológico baseia-se na noção de que as entidades foram construídas para
atender a um determinado fim (Souza, 1999), como no exemplo: a pele do urso branco
tornou-se grossa para proteger o animal das baixas temperaturas.
Atuando como professor Biologia no ensino médio desde 1997, pude perceber o
impacto que questões ligadas ao tema evolução têm em sala de aula. Contudo, foi
somente nos estudos de minha formação continuada que tive a oportunidade de
identificar, de forma mais clara, o pensamento teleológico. Digo isso considerando o
caráter tácito que o pensamento teleológico assume tanto na Biologia acadêmica quanto
na Biologia escolar. Parece muitas vezes furtar às vistas. Entretanto, um olhar um pouco
mais esmerado faz desvelar os argumentos teleológicos. Presente, sobretudo na escola,
nos discursos de alunos e professores, na sala de aula, os docentes se valem de
diferentes argumentos para facilitar a compreensão dos alunos. A princípio, a utilização
do pensamento teleológico me parecia, de forma geral, deletéria, já que, em boa parte
dos casos, contradiz os conceitos evolutivos. Entretanto, com o avanço dos estudos pude
perceber a complexa rede de raciocínios que estrutura o pensamento teleológico,
amalgamada por elementos histórico-filosóficos, políticos e religiosos.
Esta constatação instigou-nos a procurar compreender como professores de
Biologia utilizam os argumentos teleológicos na elaboração das explicações sobre
Curso de Mestrado, desejando contribuir para a compreensão sobre a forma com que a
escola se apropria do pensamento teleológico.
Em termos gerais, a pesquisa tem como finalidade investigar o pensamento
teleológico em suas implicações para o ensino e a formação de professores de Biologia.
Isto implica em assumir que as bases teóricas para estudar o pensamento teleológico na
escola, não podem referenciar-se unicamente na ciência. É preciso articular os sentidos
filosóficos que a teleologia historicamente assume nas Ciências Biológicas com as
formas específicas do conhecimento que circula na escola, o conhecimento escolar
(Forquin, 1992). Isto porque não apenas assumimos as transformações pelas quais
passam os conhecimentos científicos na constituição da modalidade escolar quanto
reconhecemos a escola como uma instância de produção de saberes e práticas. Neste
sentido, os sujeitos professores ocupam um papel de destaque nesta produção e
compreender as explicações teleológicas na escola demanda estudá-las como expressão
dos saberes docentes.
Meu entendimento a respeito dos saberes docentes provém da busca de diálogo
com o instrumental teórico oferecido por diferentes autores como Shulman, Tardif,
Lessard e Lahaye (1986, 1991, 2002 & 2005) entre outros. Com esses pesquisadores,
procuro construir pontes que permitam compreender os saberes que subjazem à prática e
ao discurso dos docentes que participam da investigação. Busco também na produção
destes autores, ferramentas conceituais que me possibilitem entender as operações
realizadas por professores no processo de ensino da temática de evolução, destacando
como usam os argumentos teleológicos, como esses são vistos e utilizados pelos
docentes e ainda em que contextos se aplicam. O diálogo que busco se dará,
efetivamente, na porção final deste estudo onde, munido de depoimentos e relatos das
docentes envolvidas neste estudo, discuto e registro meu entendimento.
Esta dissertação é, portanto, o resultado do trabalho de pesquisa desenvolvido,
focalizando o uso de explicações teleológicas para ensinar evolução por professores de
Biologia e encontra-se organizada em quatro capítulos. No capítulo 1 traçamos uma
breve história do pensamento evolutivo, destacando o pensamento teleológico como
elemento constitutivo da Biologia, delineando suas tênues relações com o conceito de
progresso para por fim, destacar a persistência da teleologia nas Ciências Biológicas.
O capítulo 2 é reservado à Metodologia. Traz o percurso investigativo do estudo,
etapas da investigação. Apresenta ainda os procedimentos de análise e o processo de
categorização que serviu de base ao esforço interpretativo da investigação.
O capítulo 3 constitui-se o cerne da dissertação em que analisamos e discutimos
as diferentes situações de ensino apresentadas às docentes, considerando os saberes
mobilizados para lidar com o pensamento teleológico em sala de aula.
Finalmente, o quarto capítulo apresenta as últimas considerações e algumas
conclusões derivadas da investigação. Realizamos uma síntese dos resultados, buscando
CAPÍTULO 1
1. Um breve histórico
Talvez nenhum dos conceitos fundamentais da Biologia provoque tanta
inquietação quanto as teorias evolutivas. Segundo Gould (1997), a evolução dos seres
vivos é o mais importante e também o mais mal compreendido de todos os temas da
Biologia. Desta forma, qual (is) seria(m) o(s) motivo(s) de tanto(s) desconcerto(s)? De
acordo com este mesmo autor, a idéia de evolução é relativamente simples e é bastante
provável que a dificuldade não resida exatamente na complexidade de sua estrutura
lógica, já que a base da seleção natural está calcada em dois fatos incontestáveis:
1) os seres vivos mudam e essas variações são herdadas (pelo menos em parte) por
seus descendentes;
2) os organismos produzem mais descendentes do que aqueles que podem sobreviver.
A partir destes dois fatos há uma conclusão: as variações favoráveis crescerão
nas populações reguladas pela seleção natural (Gould, 1999).
É provável que o motivo das grandes controvérsias que envolvem o tema
evolução, não esteja exatamente no caráter científico do assunto, e sim, na enorme gama
de implicações que o tema desperta em diferentes áreas do conhecimento humano. De
acordo com Mayr (2005), nenhum outro livro, exceto a Bíblia, teve um impacto maior
em nosso pensamento moderno do que Origem das espécies, de Charles Darwin (1859).
Temas ligados à evolução geralmente causam polêmicas, porque estão invadidos e
defrontamos com a maior de todas as questões evolutivas - a origem do homem - nossos
preconceitos e temores podem nublar nossa limitada informação.
As questões como as levantadas por Darwin trazem recônditas em si uma
escolha bastante arriscada: se por um lado nos arrebata com a sensação de domínio e
poder sobre a natureza, por outro, nos impele para um estado de separação bastante
incômodo. Sugerem que troquemos a tradicional fonte de conforto humano – o nosso
reservado isolamento e superioridade – por um ponto de vista peculiar: o da vida em
união com os outros seres e como elemento contingente de uma história em que
perdemos a exclusividade. E ainda, esta “nova” opção traz entranhada em si um
desconfortante sentimento de solidão e desamparo, sobretudo quando nos deparamos
com a nossa condição simplória neste contexto, o que nos traz a possibilidade de
retroceder na nossa história de forma a (re) arrumá-la para que o nosso lugar cálido e
aconchegante na história da vida seja preservado. (Gould, 2001)
Antes de Darwin, porém, nossa aconchegante posição no mundo natural, nunca
havia sido tão seriamente questionada. Até aproximadamente 1830, a visão do mundo
comum e aceita era a de que vivemos em um planeta estável, povoado por espécies
imutáveis. Entretanto, essa história começa a se modificar bem antes desta data.
Segundo Mayr (1998a), nenhum outro naturalista gozou de tão grande fama durante a
sua vida como Carl Lineu. Com um interesse especial pela botânica, em 1735 publica
Systema Naturae, em que elaborou um método claro e eficiente de nomear todos os
animais e plantas. Brody (1999:229) nos conta que, nas primeiras edições do Systema,
Lineu manteve a idéia da imutabilidade das espécies, entretanto, conforme seu trabalho
amadurecia, emergia o paradoxo. Lineu encontrou uma dificuldade crescente para
manter firme a sua tese original, de que as espécies são imutáveis. À medida que o
tempo passa, ficavam cada vez mais sugestivas as evidências de que as espécies se
modificam ao longo do tempo.
Em 1749, George-Louis Leclerc de Buffon publicou o primeiro livro de sua obra
de 44 volumes sobre História Natural. Buffon concluiu que parte da vida animal estava
extinta e sugeriu discretamente que os animais talvez houvessem sofrido algum tipo de
mudança evolutiva. Afirmou também, considerando as semelhanças entre homens e
macacos que alguns mamíferos poderiam ter ancestrais comuns fisicamente diferentes
dos mamíferos da época em que ele vivia. (Brody, 1999)
James Hutton, em 1785, em uma obra de dois volumes, Teoria da Terra propôs
essa janela ampliada do tempo, criando o conceito de tempo profundo, dando a outros a
oportunidade de situar o número crescente de descobertas fósseis em seu contexto
apropriado. Suas idéias deram surgimento ao uniformitarismo4 tendo influenciado Lyell
e mais tarde, Darwin.
Em 1796, o zoólogo e estadista francês Georges Cuvier descobriu ossos de
mamutes lanosos nas proximidades de Paris, salamandras gigantes, répteis voadores e
outras espécies extintas. Cuvier concluiu que o conceito popular de catastrofismo era
correto e que James Hutton, com seu conceito de uniformitarismo, estava errado.
Para Brody (1999), o alicerce mais sólido para uma teoria da evolução anterior
ao século XIX desenvolveu-se por meio das pesquisas e escritos de Erasmus Darwin5.
Sua versão da teoria evolucionista afirmava que as espécies se modificavam
adaptando-se ao meio graças a algum tipo de esforço consciente, esadaptando-se conceito era conhecido como
a doutrina das características adquiridas. Para Mayr (1998a), Erasmus Darwin via “na
faculdade de seguir melhorando” era uma das propriedades básicas da própria vida.
Entretanto, o autor nos conta que no contexto inglês do século XVII e começo do século
XVIII, o trabalho de Erasmus Darwin, representava uma exceção, pois não havia
interesse pelas questões evolucionistas. O autor nos informa que neste período havia
grande pujança do empirismo e consequentemente, uma grande valorização das
Ciências Físicas e experimentais. Isto sem considerar que as questões de História
Natural estavam a cargo de ministros ordenados, que conduziam seus estudos,
inevitavelmente, a um mundo perfeitamente criado e incompatível com o conceito de
evolução.
Nem mesmo com os estudos de Lamarck (1744-1828), estivemos tão ameaçados
de perder nossa posição privilegiada na natureza. Lamarck nas primeiras edições de sua
obra de 1809, Filosofia zoológica, expôs dois princípios. O primeiro é que os animais
revelam uma série graduada de perfeição. Para Mayr (1998a: 387), Lamarck entendia
por perfeição crescente o aumento gradual de complexidade. Havia uma gradação que
ocorria dos animais mais simples até os mais complexos, culminando no homem. A
idéia de que um órgão se fortalece pelo uso contínuo, e que enfraquece pelo desuso,
4
Segundo Mayr (1998) os termos uniformitarismo e catastrofismo foram cunhados pelo filósofo britânico William Whewell, em 1832. O termo uniformitarismo ou uniformidade, de acordo com Brody (1999), afirma que as rochas e outros materiais inorgânicos da Terra são formados e modificados por uma série contínua e uniforme de fenômenos naturais.
5
aliado à idéia da transmissão de características adquiridas, eram na verdade, uma
combinação das idéias que já existiam com idéias do próprio Lamarck. Esta visão nos
remete, inevitavelmente, a uma imagem progressista e linear do processo evolutivo,
idéia que gradativamente foi sendo descartada em edições posteriores do próprio
Lamarck. Mayr (1998b) reforça este fato e nos conta que, gradativamente a idéia de
linearidade progressiva foi substituída pela imagem de uma árvore que se ramifica. Isto
não significa, necessariamente, dizer que Lamarck admitia a produção de diversidade
das espécies a partir do processo evolutivo. Lamarck entendia a ramificação como um
processo de adaptação. Ainda de acordo com o autor, Lamarck não acreditava que
moléculas orgânicas pudessem dar origem a animais complexos como os elefantes.
Assim, desta forma, nossa posição humana privilegiada era mantida, mesmo com os
estudos de Lamarck. O fato é que as teorias de Darwin para a transmutação das
espécies caíram como uma bomba em uma sociedade habituada a buscar a verdade nas
páginas da Bíblia.
1.2.Darwin e a teoria da evolução
A mãe de Darwin morreu quando tinha oito anos de idade e assim, ele cresceu
sob a proteção de sua irmã mais velha, Caroline. Depois de ter abandonado aos estudos
de Medicina, Darwin formou-se em Teologia na Universidade de Cambridge, na
Inglaterra, na turma de 1831. Segundo Brody (1999), Darwin saíra-se bem em suas
aulas sobre naturalismo e admirava Henslow, seu professor de Botânica, do qual se
tornou amigo. Recebeu a carta de um alto funcionário do governo, George Peacock, que
acabaria por mudar todo o curso da história das Ciências Biológicas.
Gould (1999) nos conta que, a princípio, Darwin havia sido convidado para
integrar a tripulação do H.M.S. Beagle apenas como companheiro do capitão Fitzroy,
um jovem aristocrata que pretendia fazer desta expedição um marco para as viagens
exploratórias. O autor nos revela que o capitão não podia ter contato social com seus
oficiais, porque estes não pertenciam à classe social adequada. Somente um cavalheiro
poderia sentar-se à sua mesa, e cavalheiro, certamente Charles Darwin o era. O
naturalista da expedição era o médico cirurgião Robert McKormick. Na época, a
marinha britânica tinha uma longa tradição de médicos naturalistas e McKormick havia
se instruído para tal. Gould (idem) ainda informa que o argumento utilizado pelo capitão
Natural, embora o navio já contasse com um naturalista a bordo. No início Darwin e
McKormick trabalhavam juntos, entretanto, agruras durante a viagem e a falta de
condições equânimes levaram McKormick de volta à Inglaterra. Em abril de 1832, ele é
declarado “Inválido”, o que em outras palavras significava: desagradável ao capitão e
deixa a expedição. Agora, naturalista a bordo do Beagle, Darwin montava as amostras
que recolhia para enviar para a Inglaterra: rochas, fósseis, animais marinhos, vida
vegetal e animal no litoral próximo das cidades portuárias onde eles atracavam durante
a viagem.
À medida que Darwin cuidadosamente observava e examinava essas formas de
vida, extintas e vivas, e as formações geológicas circundantes, começava a ter um
insight sobre aquela geologia mutável e a vida que ela sustenta. A viagem com duração
planejada de dois anos acabou demorando cinco anos em razão do mau tempo,
problemas mecânicos, necessidade de fazer novos levantamentos onde haviam sido
cometidos erros e todos os eventos inesperados de uma viagem em alto-mar num navio..
Ao voltar para casa, Darwin abandonou sua rota anterior para o clericato e dedicou-se a
estudar o material que trouxera e a teorizar sobre as muitas questões que passaram a
povoar sua mente. Publicou O Diário de um Naturalista ao Redor do Mundo, que
reunia os escritos que fizera em sua viagem no Beagle, e consolidou sua fama entre a
comunidade acadêmica de seu tempo, contando o apoio de Henslow e Lyell.
Em meados de julho de 1837, Darwin se pôs a escrever a transmutação das
espécies. Refletindo sobre o trabalho de Malthus, Darwin aplicou-o às suas próprias
observações sobre as espécies vegetais e animais. Ele supôs, corretamente, que a
evolução não ocorre à esmo, dependendo efetivamente da poderosa e deliberada
influência da seleção natural, que, por sua vez, é determinada pela geologia, pelo clima,
pela competição e pelas demais forças que compõem o meio ambiente e que têm sido
formas moldadoras da vida desde o começo dos tempos.
Brody (1999) nos conta que o plano original de Darwin, em função de sua saúde
debilitada, fora deixar os originais por ocasião de sua morte com instruções à esposa
para mandar publicá-los. O naturalista sabia que suas idéias provocariam um verdadeiro
rebuliço na sociedade, afeita a receber a palavra revelada. Até que, em junho de 1858,
chegou pelo correio a correspondência de Alfred Russel Wallace esboçando a sua
própria teoria da seleção natural, desenvolvida de forma independente, com um
argumento muito semelhante ao esboçado por Darwin em 1842. Como homens tão
De acordo com Mayr (1998a), durante muito tempo esta extraordinária
coincidência, foi motivo de pasmo, já em 1858. Darwin, filho de família tradicional e
abastada, era um erudito que poderia dedicar-se de forma integral à pesquisa. Wallace
era filho de um homem pobre e com instrução mediana, sem qualquer formação
superior. A necessidade de trabalhar para Wallace era premente. Este possuía uma
profissão bastante perigosa na época, coletor de pássaros, insetos e plantas em países
tropicais, infestados de doenças. Wallace constrói suas idéias em meio a grandes
viagens realizadas a regiões tropicais do planeta como a Amazônia e ao arquipélago da
Malásia. Certo é que o desenvolvimento dos trabalhos de Wallace leva Darwin a rever
seus planos para a publicação. Assim, após recebimento da correspondência, Darwin se
viu obrigado a divulgar sua teoria, numa apresentação conjunta de trabalhos. E em
1859, quase vinte anos após o seu início, Darwin publica seu livro.
O fato é que Origem das espécies subsidiou diferentes discussões, em diferentes
áreas do conhecimento e em diferentes práticas sociais. Para Foster (2005), o
materialismo tácito nas teorias transmutacionistas6 de Charles Darwin representa um
marco para diferentes campos do conhecimento humano que se apropriaram de sua idéia
revolucionária e marcante7. De acordo com Teixeira Leite (2004), a Evolução liga as
Ciências Naturais às Ciências Humanas ou Sociais, quando Darwin admite que o termo
“sobrevivência do mais apto” 8 é mais exato e por vezes mais cômodo que a seleção
natural. Foster (2005) destaca que Darwin daria uma contribuição ainda maior à
interpretação malthusiana da sua teoria – indicando o caminho para o que seria o
“darwinismo social” – quando adotou 1869, o conceito de “sobrevivência do mais apto”
– expressão introduzida anteriormente por Herbert Spencer, em 1864 – como sinônimo
de seleção natural. Assim, neste sentido o conceito veio a ser aplicado à sociedade
humana, porém, ele parecia prover uma justificativa para a lei do mais forte e para a
superioridade da elite. O autor ainda nos conta que nos EUA, William Graham Sumner,
sustentava que “os milionários são um produto da seleção natural”. O mesmo tipo de
distorção que gerou o “darwinismo social” ocorreu com o termo “evolução” que, como
“sobrevivência do mais apto”, não constava da primeira edição. Nesta, Darwin se referia
à “seleção natural”, à “mutabilidade das espécies” e à “descendência com modificação”
(apenas uma vez usou o termo “evoluir” – jamais “evolução”, segundo Foster 2005:262)
6
Assim inicialmente denominada por Charles Darwin.
7
Uma discussão sobre a relação entre a idéia de Darwin e o materialismo de Marx e Engels, pode ser encontrada em Foster (2005) capítulo 6.
8
“Evolução”, com um significado de “desenvolvimento” e “progresso”, continha uma
visão teleológica – um sentido de direção, rumo a uma perfeição ainda maior no
processo orgânico global - que era oposta às visões materialistas de Darwin. Assim, no
contexto histórico em que tais fatos foram produzidos, a burguesia liberal justificou a
manutenção do status quo na naturalização da distribuição desigual da riqueza. Dessa
forma, os ricos são mais aptos; os pobres e miseráveis são indolentes, o Estado e a
sociedade não são “culpados” por sua sorte. Também o sentido da competitividade se
acirrou novamente: os mais bem adaptados são aqueles que saem vitoriosos na luta
pela sobrevivência e esta mimetiza a competição mercantil da época. Contrariamente a
uma assimilação capitalista, a teoria evolucionista por meio da seleção natural é também
apoiada pela esquerda revolucionária do século XIX. Foster (op. cit.) ressalta que
muitos críticos deste período apontavam para uma provável relação entre seleção
natural e a luta de classes e que a teoria de Darwin oferecia “base” para a teoria de
Marx.
É interessante notar que neste meandro, tanto a burguesia quanto a esquerda
marxista, implicitamente, se apoiavam no conceito de progresso, ora quando
vislumbram uma sociedade em que os indivíduos estão cada vez mais adaptados, ora
quando conjecturam uma sociedade mais igualitária, “mais desenvolvida”. O conceito
de progresso heuristicamente nos conduz a um sedutor lugar de destaque na história da
vida, o cume. Neste contexto, o homem seria o ser mais progredido do planeta. De
acordo com Barahona (1998), o conceito de “progresso evolutivo” 9 poderia explicar a
visão teleológica de muitos naturalistas, aqueles que acreditam que os organismos mais
antigos são os mais inferiores na escala da vida. Segundo Foster (idem), o conceito
tradicional que daí se pode depreender era o de “Escala Naturae”, que presumia a
existência de uma fina escala ou uma gradação da natureza, estando os seres humanos
no ápice da escala, sendo que todas as espécies foram criadas por Deus. Esta escala era
essencialmente estática. Barahona (op. cit.) ainda nos informa que assim pensava
Lamarck, que via todos os organismos formando parte de uma escada grande em
movimento, no qual a mudança era progressiva e irreversível, desde o momento em que,
por geração espontânea, apareciam os organismos “inferiores” até os “superiores” e o
homem. A conexão entre os organismos inferiores e superiores não era feita ao acaso e
sim, pela necessidade de adaptação. Desta forma, a mudança influenciada pelo meio
9
ambiente se coloca em segundo plano, passando a ser apenas uma forma de ajuste ao
meio, e a noção de progresso, o motivo pelo qual ocorrem as mudanças.
1.2.1 Darwin, Huxley e a suposta derrota da teleologia.
A revolução darwiniana golpeou dois postulados fundamentais do pensamento
tradicional: o essencialismo e a teleologia. A crítica revolucionária de Darwin à
teleologia teve importância ainda maior na medida em que se dirigia ao postulado
central da teologia natural. Huxley insistia que a teoria de Darwin, adequadamente
entendida, era independente de qualquer concepção linear de progresso ou processo
teleológico proposital. Contudo sempre restava a questão veiculada por Huxley nas suas
primeiras discussões: se Darwin havia superestimado o papel da seleção natural.
No fim da vida o próprio Darwin havia recuado na confiança da seleção natural
como causa exclusiva do desenvolvimento evolucionário. Isto graças a três objeções
levantadas à teoria dele (Foster, 2005:268):
a) A primeira delas se centrava na incompletude do registro fóssil e na
ausência de tipos intermediários entre as espécies.
b) A segunda sustentava, com base em cálculos concernentes a
supostas taxa de arrefecimento da crosta terrestre, que o planeta
teria entre 20 e 400 milhões de anos, ou seja, pouco tempo para o
processo que Darwin havia proposto.
c) O argumento de Fleeming Jenkin, de que as características
herdadas dos pais se reduziriam a metade a cada geração, que
estariam se diluindo ao longo das gerações. Jenkin partia do
pressuposto que as quantidades de informações eram constantes e,
portanto, seriam obliteradas.
Diante da ambigüidade destes argumentos cada vez mais Darwin adotou a noção
de Lamarck de herança das características adquiridas. Estas visões lamarckistas não
estavam totalmente ausentes da primeira edição. Assim o lamarckismo já representava
um importante papel nos argumentos de Darwin, pois deste modo o relógio biológico
poderia ser adequado aos cálculos da física de Thomson10. E porque, faltava a Darwin o
10
apoio de uma teoria da hereditariedade. No fim da vida de Darwin a teoria da seleção
natural havia sido abandonada em grande escala pelos seus seguidores e continuaria
perdendo influência pelo restante do século, todavia a visão evolucionária havia sido
vitoriosa sobre a teologia natural.
1.3 - Entendendo a Teleologia
A idéia de que a Terra foi criada para servir de palco para evolução do homem
rumo à perfeição se encaixa perfeitamente com a visão judáico-cristã de universo. Em
outras palavras, um universo antropocêntrico e recente, cujo conhecimento está na
palavra revelada e a natureza é subserviente ao homem. Para Souza (1999), o uso de
explicações teleológicas que apóiam idéias dogmáticas visa a orientar o próprio
comportamento humano em face a um futuro inexoravelmente pré-determinado. A idéia
de um universo antropocêntrico, com aspectos teleológicos, é a base da visão
judáico-cristã, um dos fatores que alicerçaram o desenvolvimento cultural da civilização
ocidental. Este pensamento, ainda de acordo com o autor, teve sua origem,
provavelmente, no Zoroastrismo11, doutrina que envolvia uma interpretação teleológica
do tempo, que foi a primeira escatologia sistematizada na história da religião. O grande
adversário do pensamento teleológico está baseado em causas meramente eficientes,
conhecido causalismo, que quando se reduz a causa puramente mecânica é o
mecanicismo. Segundo Souza (1999), o mecanicismo e o pensamento teleológico se
opõem desde os primórdios da filosofia grega.. Para os adeptos do pensamento
teleológico, a existência das causas eficientes não o invalida; há apenas uma questão
hierarquicamente colocada: os fins representam a causa dos meios.
O referido autor ainda destaca que a teleologia pode ser externa, como na
organização imposta ao mundo natural de Platão, ou interna, como na Física
Aristotélica, na qual cada entidade tem o seu próprio objetivo. Para Platão todo
progresso consistia na aproximação de um modelo pré-existente em um mundo
atemporal das formas transcendentais. Aristóteles via no progresso a realização de uma
forma que já se encontrava potencialmente presente. Ambos os pensamentos excluem
qualquer possibilidade de evolução na concepção contemporânea do termo. O
argumento teleológico baseia-se na noção antropocêntrica de que as entidades foram
biodiversidade. Seus cálculos não levaram em consideração a fonte de aquecimento derivada do decaimento radioativo que só se tornou conhecida pouco depois com os estudos de Beckerel e o casal Curie.
11
construídas para nosso benefício imediato ou para algum outro fim. Já o pensamento
eutaxiológico, evoca relações harmônicas como causas de um propósito, de forma
análoga, seria como se pudéssemos contemplar a perfeita compatibilidade entre as peças
de um determinado sistema, extremamente complexo, sem que soubéssemos
absolutamente nada sobre as suas finalidades. O que, segundo Souza (1999), talvez
possa ser entendido como o princípio de uma preeminente distinção entre o pensamento
eutaxiológico e o argumento teleológico. Esta distinção não deve ser desprezada, pois
de acordo com o autor, o pensamento Teísta12 se harmoniza com a teleologia, enquanto
que a argumentação Deísta13 se ajusta perfeitamente ao pensamento eutaxiológico, que
estará alicerçando a revolução científica moderna, cujo símbolo característico será o
relógio, em que as perfeitas engrenagens trabalham em harmonia. Por conta disto, o
pensamento teleológico vá, ao longo da história, sendo substituído pelo argumento
eutaxiológico.
A influência do Aristotelismo, principalmente em sua versão tomista14, no
pensamento científico ocidental, somente começou a ser reduzida, a partir do
renascimento, tendo sido retirada inicialmente das disciplinas físicas.
Em oposição aos teleologistas estavam os mecanicistas, aqueles que segundo
Mayr (1998a), encaravam o universo como um mecanismo que funciona de acordo com
as leis da natureza, daí porque as engrenagens do relógio são análogos precisos.
Contudo, desprezar a aparente finalidade de algumas estruturas bem como os processos
de adaptação de órgãos parecia algo que não poderia ser ignorado pelos mecanicistas.
De acordo com Souza (1999), nomes como Copérnico, Descartes, Bacon, Boyle,
Newton e vários outros podem ser citados como críticos do pensamento teleológico.
Todavia, merece destaque o trabalho de Galileu (1564-1642), que pôs este pensamento
em xeque. Galileu introduziu, entre outros, o conceito de inércia, que demoliu os
conceitos da física aristotélica do séculoXVI. No entanto, questionar o pensamento
aristotélico significava questionar toda filosofia cristã dominante, o que abrasou ainda
mais as discussões. Naquele momento, tal como fizeram Copérnico e, principalmente
12
Doutrina que admite a existência de um deus pessoal, causa do mundo.
13 Sistema ou atitude dos que, rejeitando toda espécie de revelação divina e, portanto, a autoridade de
qualquer Igreja, aceitam, todavia, a existência de um Deus, destituído de atributos morais e intelectuais, e que poderá ou não haver influído na criação do Universo.
14 Doutrina escolástica de S. Tomás de Aquino (teólogo italiano que viveu entre 1225 e 1274) adotada
Galileu, discutir os modelos geocêntrico e heliocêntrico significava também discutir as
relações de poder na sociedade da época.
Souza (idem) destaca que, gradativamente, a teleologia foi sendo retirada das
ciências, dando lugar a um mecanicismo regido pela visão deísta de universo, isto é,
Deus mantém a ordem do universo, onde tudo é regido por causas mecânicas fornecidas
no momento da criação. Este pensamento, que teve em Descartes (1596-1650) um
expoente, propunha explicar o mundo conectando efeitos às causas, diferentemente do
que fizera Aristóteles.
Para Souza (op. cit.) a história da Biologia se apresenta como um grande conflito
entre a maneira aristotélica de pensar (vitalista, holística e teleológica) e a de
Demócrito15 (materialista, causalista e mecanicista). O pensamento teleológico
permaneceu vivo e aparente na Biologia, pelo menos nos momentos que antecederam os
trabalhos de Darwin. O ponto de vista imobilista, representado na época pela teologia
natural16, recebeu significativas críticas quando Darwin propôs um mecanismo de
mudança orgânica regida pelo acaso. Porém, estas mudanças propostas por Darwin
ocorreram de forma lenta e gradativa e Mayr (1998a) argumenta que, até a seleção
natural ganhar credibilidade, muitos evolucionistas acreditavam em uma força não viva
que orientava o mundo vivo em direção à perfeição.
A teoria de Darwin rompe com a frágil coexistência entre a teologia natural (que
abrange o pensamento teleológico) e a ciência. Segundo Martínez e Barahona (1998),
Darwin pretendia explicar um processo, até então histórico-teleológico, empregando
mecanismos de variação, herança e seleção, separando as explicações por meio dos
mecanismos, das explicações finalistas. A validade do pensamento teleológico para a
Biologia constitui-se, até hoje, em tema de acaloradas discussões entre nomes
importantes da Biologia como Ayala, Mayr, Wimsatt, Beckner e muitos outros17.
15 Filósofo Grego (Abdera, Trácia 460 a.C. -370 a.C.) que sustenta que toda matéria é formada por
átomos (atomismo) que se agrupam em combinações causais e por processos mecânicos. 16
A teologia natural é a tentativa de encontrar a evidência de Deus e de seu desígnio inteligente sem recorrer a nenhuma revelação sobrenatural. Distingue-se da “teologia revelada”, baseada nas escrituras ou em experiências religiosas. Segundo Foster (2005), a Teologia Natural começou a ser desenvolvida em fins do século XVI e no século XVII com o propósito de estabelecer a existência de Deus por meio do estudo da natureza. Neste contexto, São Tomás de Aquino desempenhou um papel fundamental, em seu ensaio Summa Theologica, no qual afirma que a existência de Deus está provada na ordem e harmonia do mundo, o que supõe que deve existir um ser inteligente capaz de coordenar as coisas naturais, o que, em última instância, deve ser Deus. (ver, Mayr, 1998a).
17 A idéia de que há um plano em franco desenvolvimento, dirigido por Deus ou não, mas com um final
Martínez e Barahona (idem.) analisando o emprego do pensamento teleológico,
expõem a contradição presente nas visões de Mayr e Ayala no que dizem respeito à
teleologia. De acordo com estes autores, Mayr propõe que se deve abandonar
definitivamente o conceito de teleologia e só resgatá-lo por meio de uma nova
terminologia. De fato, Mayr (1998a) defende o uso do termo teleológico, para uma série
de fenômenos biológicos diferentes. O autor afirma que o termo teleológico foi aplicado
a cinco diferentes conceitos ou processos18, como veremos a seguir.
1) Atividades teleonômicas . A descoberta da existência de programas genéticos
forneceu uma explicação mecânica para uma categoria de fenômenos
teleológicos. Um processo fisiológico, ou um comportamento, que deve sua
orientação a um fim à operação de um programa, pode ser designado
“teleonômico.” (Pittendrigh, 1958) O aspecto verdadeiramente teleonômico
caracteriza-se quando há mecanismos que iniciam, “causam”, esse
comportamento, e são voltados para o objetivo. Em 2005, o autor redefine o
termo, a fim de tornar ainda mais claro o seu significado: um processo ou
comportamento teleonômico é aquele que deve sua orientação por uma meta
à influência de um programa evoluído. (p.69)
2) Processos teleomáticos . Qualquer processo que se relacione a objetos
inanimados, em que um fim definido é alcançado estritamente como
conseqüência das leis físicas, pode ser designado “teleomático” (Mayr, 1974)
É o que acontece inexoravelmente com um rio que flui para o oceano.
3) Sistemas adaptados. Nesta categoria estão os fenômenos relacionados aos
sistemas que devem sua adaptação a um passado processo seletivo. O
coração para fazer circular o sangue; rins para retirar o produto do
metabolismo e assim por diante. Uma das conquistas mais decisivas de
Darwin foi haver mostrado que a origem e o aperfeiçoamento gradual destes
sistemas podiam ser explicados por meio da seleção natural. Em 2005, o
autor propõe uma nova nomenclatura para esta categoria: “características
adaptativas”.
capítulo. 18
4) Teleologia cósmica. No cosmos de Aristóteles todas as coisas tinham seu
lugar e todos os lugares suas coisas. A natureza é um processo contínuo
movido por causas intrínsecas e orientado para um fim. Houve um devido
tempo em que este conceito aplicado ao dogma cristão, tornou-se o conceito
predominante na teologia natural. É este tipo de pensamento que a ciência
moderna rejeita sem reservas.
5) Comportamento proposital em organismos pensantes. Esta categoria se
presta a analisar os comportamentos propositais dos animais, principalmente
de aves e mamíferos, que quase sempre são qualificados como teleológicos.
A literatura animal, segundo o autor, está repleta de exemplos de
comportamento animal claramente proposital, fruto de um planejamento
cuidadoso. Em boa parte dos casos não há diferenças significativas entre
seres humanos e animais pensantes.
Os trabalhos de Ayala (1998) mencionam alguns evolucionistas que têm negado
o valor das explicações teleológicas porque não reconhecem os diversos significados
que podem assumir o termo teleologia. O autor acredita que estes biólogos atuam
corretamente ao excluir certas formas de teleologia das explicações evolutivas, mas se
equivocam ao afirmar que todas as explicações teleológicas teriam que ser excluídas da
teoria evolutiva. De acordo com Ayala (1998), os mesmos autores que criticam as
explicações teleológicas se utilizam delas em seus trabalhos, mas não as reconhecem
como tais, preferindo chamá-las de outra forma. Para o autor este procedimento mantém
assim, de forma velada, a vigência do pensamento teleológico, agora travestido por
outros termos e não encerram a polêmica do uso do pensamento teleológico.
Ayala (1998) defende que há uma finalidade nos sistemas homeostáticos e,
portanto, em sentido estrito, eles são teleológicos. Para Ayala (idem), as ações ou
processos vitais são considerados teleológicos quando podem ser vistos como
ordenados de acordo com um propósito para a obtenção de uma finalidade.
Desta forma, Ayala (ibid.) afirma que a teleologia pode ser abordada de forma
artificial ou externa. Uma mesa, uma faca ou um relógio são exemplos de sistemas com
teleologia artificial: suas características teleológicas são resultados da intenção
consciente de um agente. Os sistemas teleológicos não devem ser intencionados por um
agente, devem resultar de um processo natural. Ayala (1998.) denomina este tipo de
teleologia como natural ou interna. Para o autor as asas de uma ave servem para voar,
tipos de teleologia natural: (i) a determinada ou necessária - aquela que alcança um
estado final específico apesar das variações ambientais, por exemplo, o
desenvolvimento de um zigoto até formar uma pessoa; (ii) a indeterminada ou
inespecífica - quando o estado final não está predeterminado especificamente, é o
resultado da seleção de uma das diversas opções existentes, podendo depender de
circunstâncias ambientais ou históricas e o resultado não é previsível, como por
exemplo: as asas surgiram como conseqüência de uma série de acontecimentos tendo
sido selecionada a opção mais vantajosa em cada momento, porém as opções presentes
em um momento determinado dependiam, ao menos em parte, de sucessos aleatórios.
Ayala (idem), assim, defende que as explicações teleológicas são compatíveis
com as causas. Para ele, as causas em Biologia estão incompletas sem o componente
teleológico: existe uma diferença fundamental entre as atividades funcionais ou
processos de desenvolvimento do indivíduo ou sistema que estão controladas por um
programa e a melhora constante dos programas genéticos. Essa melhora é a adaptação
evolutiva controlada pela seleção natural. Por exemplo: teleologia natural apresentada
por órgãos como mãos e olhos. Eles têm um fim (enxergar e pegar), mas surgiram por
processos naturais que não envolvem o projeto. Deste modo, considera-se a seleção
natural como teleologia natural indeterminada, não no sentido finalista. As adaptações
dos organismos podem ser explicadas como resultado de processos naturais sem a
necessidade de recorrer às “causas finais”.
O tema evolução certamente suscita idéias muito interessantes. Deixemos que as
idéias de Gould (1990), apresentadas em seu livro Vida Maravilhosa, nos conduza.
Vejamos: quando consideramos o vôo nas aves, por exemplo, vemos que por mais que a
seleção natural favoreça o vôo, este só pôde surgir em aves graças à presença de
estruturas que, do ponto de vista aerodinâmico, permitiam vôos. É bastante razoável
considerar que as penas não surgiram com o propósito inicial de auxiliar no vôo,
embora, sua contribuição para o mesmo seja inegável. No passado, a seleção favoreceu
sua manutenção, talvez pela sua qualidade de isolante térmico. Processos seletivos que
atuaram em seus ancestrais, moldaram as possibilidades de variações no presente das
aves. Caso houvesse uma alteração em um dos processos seletivos, todo o resultado
final poderia ser mudado. Por exemplo, se a seleção natural não tivesse favorecido a
manutenção das penas em dinossauros, graças a uma suposta vantagem na manutenção
do calor corpóreo, atuando como isolante térmico, quem sabe as aves hoje não voassem.
vida não são, “desde sempre” determinadas; tudo depende do que aconteceu em sua
história pretérita. Neste sentido, o pensamento de Gould autor nos conduz a idéia de que
o passado é extremamente relevante para compreender a diversidade atual. E esta
importância cresce ainda mais se considerarmos o papel do acaso neste processo; a
qualificação contingente depende diretamente de sucesso probabilísticos em outros
eventos. O sucesso adaptativo de um organismo em um dado ambiente não garante que
a seleção natural irá preservá-lo. Um organismo bem sucedido tem apenas mais chances
de sobreviver do que um que seja menos adaptado às mesmas circunstâncias ambientais.
A leitura que fazemos o conceito de Teleologia natural indeterminada
apresentada por Ayala se aproxima bastante do que Gould chama de Contingência
evolutiva (Gould, 1990), pois ambas preconizam os sucessos probabilísticos da história
pretérita dos seres vivos como os responsáveis pelo surgimento de órgãos-chave para o
“sucesso evolutivo” atual destes mesmos organismos. Esta semelhança, para nós,
expressa como o tema é complexo, produzindo elaborações teóricas que suscitam
inúmeras controvérsias.
Desta forma, elaboramos esquematicamente a complexa rede de conceitos e
definições - dos diversos autores aqui apresentados - que envolvem a formulação do
Figura 1. Mapa conceitual.
1.3.1 - Teleologia e o progresso
Segundo Gould (1997), Nicolau Copérnico mudaria radicalmente a maneira de o
homem ver o mundo e si próprio. Com a publicação de seu livro: Das revoluções dos
corpos celestes em 1543, Nicolau Copérnico retirava do homem sua posição de
destaque, ou pelo menos, o seu papel de figura central no cenário da criação divina. Em
outras palavras, quando a Terra deixa de ser o centro do universo e passa a ser mais um
planeta do sistema solar, o homem é obrigado a reconhecer sua pequenez no processo
de criação do universo. Mesmo assim, não faltam tentativas de recuperar este papel de
destaque. Estudos sobre evolução têm, por diversas vezes, sido utilizados para reforçar
esta idéia. É o caso, por exemplo, analisado por Gould (1990), do uso de famosas
iconografias que retratam o processo de evolução humana em propagandas e
publicidade. Nestas encontramos, postos em fila indiana como nossos ancestrais,
diversos símios que, do ponto de vista evolutivo, podem somente ser comparados a
parentes próximos, como nossos “primos”. No final da fila, postos como os mais
evoluídos, estão os seres humanos, reforçando ainda mais a idéia de nossa
superioridade. Estas imagens têm sido veiculadas como sinônimo de progresso e ainda
mais, como progresso inevitável e pré-determinado, logo, teleológico.
Neste caso analisado por Gould, os conceitos de teleologia e progresso
encontram-se intimamente associados, visto que, um processo teleológico é aquele que,
na verdade, é entendido como uma alteração ordenada de acordo com um propósito para
obtenção de uma finalidade. E esta pode ser, em última instância, o próprio progresso.
Como acreditava Lamarck, que via na transformação dos seres vivos uma finalidade, a
adaptação. Em outras palavras, a melhora ou o progresso. Entretanto, para termos clara
a idéia de progresso como sinônimo de melhoria ou avanço, precisamos entender que o
conceito de progresso não é, segundo Ayala (1998), um conceito estritamente científico,
e que está entranhado em uma complexa rede de valores, demandando um
aprofundamento em outros campos conceituais além das Ciências Biológicas.
Para Barahona (1998), a idéia de progresso é aplicada tanto à história da
humanidade como à natureza, e começou a se desenvolver no Renascimento. Os gregos
viam o mundo em termos de ciclos eternos e isto se deu até o século XVI quando se
começa a pensar na possibilidade de que a história da humanidade e da natureza pudesse
ter tido um desenvolvimento “progressivo”. A autora nos conta que para Bacon, no
humana; o legítimo fim da ciência era dotar a vida humana de novas invenções e
riquezas, e no caso das ciências naturais, estabelecerem o domínio humano sobre a
natureza. Segundo Bacon, para progredir era crucial a capacidade da mente humana
para descobrir verdades úteis para o bem-estar e melhoramento da humanidade. Bacon
pensava que poderiam se estabelecer estados progressivos de certeza. A tecnologia
aumentaria a força de entendimento humano e garantiria o progresso.
Segundo Barahona (1998), durante o século XVIII o progresso foi visto como o
melhoramento contínuo do homem. De acordo com a autora, esta idéia foi desenvolvida
no século XVIII pelo Marques de Condorcet que baseava sua idéia de progresso na
analogia entre a raça e o indivíduo, cada um aprendendo através da experiência desde
sensações simples até as complexas. E assim como os indivíduos são capazes de
armazenar informações, os membros de uma espécie acreditavam em uma memória
coletiva de habilidades e conhecimento. Cada estágio da história é, para Condorcet, o
resultado do que ocorreu momentos antes, como uma espécie de escada em que um
passo está inexoravelmente ligado ao passo anterior. Esta visão não inclui a noção de
descendência filogenética, e credita a criação de cada estágio a eventos sobrenaturais.
Este contexto no conduz à idéia de que as criações sucessivas se ligavam a uma ordem
divina. Para Condorcet não havia limites para o progresso das faculdades humanas, a
perfeição humana era ilimitada. O limite para o progresso era o tempo, o tempo que
durasse o planeta.
Kant e outros filósofos acreditavam que se deveria buscar o que chamou de “a
lei do progresso”, que caracterizava não só a natureza, mas a humanidade e suas
intenções nos séculos posteriores. De acordo com Barahona (idem), o conceito de
progresso surge em um ambiente altamente influenciado pelas idéias iluministas. Mayr
(1998b) destaca que no século XVIII, na Alemanha, a Teologia Natural alcançava seu
apogeu e revigorava ainda mais a idéia de progresso. O autor nos conta que o
evolucionismo na Alemanha se construiu de forma diferente da França e Inglaterra. Na
Alemanha tratava-se fundamentalmente de um movimento otimista, que via
desenvolvimento e melhoria em toda parte, uma força em direção a níveis elevados de
perfeição, fortalecendo assim as idéias procedentes da Escala Naturae e do conceito de