UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE
CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE
UNIDADE ACADÊMICA DE PSICOLOGIA
“ELES TRAZEM REMÉDIOS BONS PARA CURAR OS CRISTÃOS”:
UMA ANÁLISE DA REPRESENTAÇÃO DE CURA EM HINÁRIOS DO
SANTO DAIME
JOYCE RAÍLLA DE ARAÚJO SILVA GUSMÃO
CAMPINA GRANDE 2018
JOYCE RAÍLLA DE ARAÚJO SILVA GUSMÃO
“ELES TRAZEM REMÉDIOS BONS PARA CURAR OS CRISTÃOS”:
UMA ANÁLISE DA REPRESENTAÇÃO DE CURA EM HINÁRIOS DO
SANTO DAIME
Trabalho de conclusão de curso orientado pelo professor Dr. Pedro de Oliveira Filho como pré-requisito para obtenção do grau de bacharela em Psicologia pela Universidade Federal de Campina Grande.
CAMPINA GRANDE 2018
Responsabilidade técnica - catalogação: Jônatas Souza de Abreu, M Sc. CRB-4/1823
G982e
Gusmão, Joyce Raílla de Araújo Silva.
"Eles trazem remédios bons para curar os cristãos": uma análise da representação de cura em hinários do Santo Daime / Joyce Raílla de Araújo Silva Gusmão. – Campina Grande: o autor, 2018.
34 f.
Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) - Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde.
Referências.
Orientadora: Prof. Pedro de Oliveira Filho, Dr.
1.Santo Daime. 2.Cura. 3.Representação. 4.Hinário. I. Autor. II. Oliveira Filho, Pedro de. (Orientador). III. Título.
RESUMO
Neste trabalho foi realizado um estudo documental qualitativo que teve como objeto de análise as representações do fenômeno da cura em três hinários da doutrina do Santo Daime: “O Cruzeiro”, “O Justiceiro” e “Nova Jerusalém”. O objetivo geral do trabalho foi analisar de que forma representa-se discursivamente a cura nestes hinários. Os objetivos específicos foram: Identificar e classificar os agentes da cura na doutrina e seus níveis; identificar e classificar as fontes do mal e as estratégias usadas para combatê-lo; identificar e classificar os hinos que apresentam essa temática; identificar e classificar as enfermidades presentes; e delimitar o papel e a relevância dos hinários para a doutrina. Foi utilizada a técnica de análise de conteúdo de Bardin (2011) de tipo categorial, que consiste em um leque de apetrechos cuja flexibilidade permite dar conta do campo comunicativo sobre o qual se estenda a análise, de modo a buscar o conteúdo implícito das mensagens. Foram considerados os dois principais expoentes da doutrina na seleção dos hinários: Irineu Serra e Sebastião Mota de Melo. Fez-se uso dos seguintes descritores: sofrer, bem/mal, cura, saúde, doença e variantes. Foram selecionados 28 hinos para compor o corpus de análise. A posteriori, criaram-se três categorias: Hino-Instrução, Sofrimento-Salvação e Entidades Curadoras. Percebeu-se que certos hinos demonstraram clara tendência a externalizar mensagens que exprimem o sentido de uma instrução, um conselho, trazem ensinamentos para orientar os adeptos (“Hino-Instrução”); a ideia de que o sofrimento é uma consequência de nossos próprios atos como uma resposta à desobediência dos ensinamentos (“Sofrimento e Salvação”), ou a apresentação de seres do panteão daimista que se mostram como seres de cura (Entidades Curadoras). Ao final, aporta-se a conclusão de que a dimensão da cura nos hinos do Santo Daime é fundamental para alimentar discursivamente a ritualística empregada e a doutrina construída. Compreende-se o “trabalho” na sua totalidade, mas também nos seus detalhes, como veículo de tratamento físico e espiritual. Tal fenômeno, a cura, apresenta-se no nascimento da doutrina daimista, na sua maioridade e nos seus desdobramentos, e se traduz na história e no conteúdo dos hinos que compões as suas compilações cardeais: O Cruzeiro, O Justiceiro e a Nova Jerusalém.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ... 5
2. A HISTÓRIA DA DOUTRINA: UMA SÍNTESE... 9
Cura ... 11 3. MÉTODO ... 15 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO... 16 Hino-instrução ... 17 Sofrimento e salvação ... 18 Entidades curadoras ... 20 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 22 6. BIBLIOGRAFIA ... 24
1.
INTRODUÇÃO
Este trabalho aborda as representações do fenômeno da cura inseridas no contexto dos hinários da doutrina do Santo Daime. O Santo Daime, ou Daime, é uma doutrina religiosa sincrética e musical organizada em torno do consumo ritualístico de uma bebida – a ayahuasca (do quéchua, “vinho da almas” ou “cipó dos mortos”), produzida e consumida na forma de um chá. Este chá é produzido a partir da cocção de dois vegetais oriundos da região amazônica: o cipó Banisteriopsis caapi também conhecido pelas denominações jagube, mariri, liana, yagé ou caapi; e a folha Psycotria viridis comumente chamada de chacrona ou folha da Rainha (PELÁEZ, 1994; LABATE; ARAÚJO, 2002; ROSE, 2006; MERCANTE, 2012; ASSIS, 2013; LIZARDO DE ASSIS; FARIA; LINS, 2014; SAN JOSÉ; CACHIQUE, 2016).
O consumo da ayahuasca se confunde, inclusive, com a história da civilização Inca, uma vez que a bebida esteve integrada à vida da população, através dos rituais fúnebres, religiosos, medicinais, entre outros. Seus usos e sua presença, portanto, nos falam de um conhecimento milenar, mas não apenas na região atualmente delimitada pelo Peru, mas sim em toda a região ocupada pela floresta amazônica, de forma a englobar países como o Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Equador (MERCANTE, 2012; SAN JOSÉ; CACHIQUE, 2016).
Apenas no Brasil desenvolveram-se religiões não indígenas que fazem o uso ritualístico da ayahuasca, dentre as quais podemos citar, para além do Santo Daime, a Barquinha e a UDV (Centro Espírita Beneficente União do Vegetal) (COSTA; FIGUEIREDO; CEZENAVE 2005; MERCANTE, 2012, 2013; REHEN, 2016). Não obstante, outros grupos xamânicos espalhados pelo Brasil e pelo mundo afora utilizam o chá, com sua própria e definida ritualística.
O processo de produção da bebida consagrada nos encontros do Santo Daime é norteado por alguns princípios internos deixados por Raimundo Irineu Serra – mais conhecido por seus seguidores como Mestre Irineu, criador da doutrina –. Tais diretrizes também se referem à colheita dos vegetais que compõem o chá (cipó e folha), seu processo de limpeza, maceração do cipó, cocção, armazenamento, canto de hinos, dentre outros aspectos.
Nas palavras de Mercante (2012, p. 24) “os rituais são „trabalhos‟, momentos de imersão nesse mundo espiritual para que sejam lapidadas questões centrais à existência de cada um dos presentes nas cerimônias, o que se refletirá no dia a dia dessas pessoas”. O autor sugere o termo “imagem mental espontânea” para uma das características mais marcantes da experiência com a bebida, denominada “miração” (MERCANTE, 2012; 2013). Nas mirações,
o parâmetro é o sujeito, “mas um sujeito que não está restrito por sua pele” (2012, p. 45). Elas representam um fenômeno crucial para aqueles que comungam deste sacramento, estando na origem de experiências senso-perceptivas e autotranscendentes para o sujeito, por meio das quais imagens sequenciadas surgiriam para o sujeito, às vezes transmitindo-lhe algum ensinamento, dando-lhe alguma instrução, às vezes mostrando-lhe algo completamente inusitado.
Estejamos, ainda, cientes de alguns elementos centrais à doutrina, que conferem organização à sua estrutura. O Daime possui uma organização ritualística ligada a uma tradição eminentemente musical, centrada no canto de hinos, também conhecidos como “ícaros” (ASSIS, 2013), cujo agrupamento é o que se entende por hinário (REHEN, 2007). Não obstante, tal compilação não obedece a um número específico pré-determinado de hinos e, em geral, podem ser necessários anos para que seja reunida uma quantidade razoável para a sua organização em um hinário.
Nos termos de Alverga (1995):
Nesse processo de descoberta, que está longe de ser intelectiva, a música assume uma importância crucial. Não é à toa que uma das primeiras coisas que chama a atenção do neófito é o fato da Doutrina do Santo Daime ser absolutamente musical. A tal ponto que, poderíamos dizer, a música é parte integrante dela, dos seus ensinamentos (p. 84-5).
O autor ainda nos aponta para o caráter pedagógico da música, em suas palavras, “não por sustentar um corpo doutrinário discursivo, mas pelo seu poder em si [...]”, isto é, seu poder de transportar o indivíduo a um outro plano perceptivo dos sons emanados pela natureza, e pelo plano astral. “No processo de conhecimento, a música está longe de ser um mero adereço, uma moldura para as frases que compõem os hinos, com todas as exortações religiosas, éticas, prescrições etc. Ela encerra, sim, uma sabedoria própria que os ouvidos captam e o coração sente” (ALVERGA, 1995, p, 85).
Tendo esclarecido este ponto, é necessário também adentrarmos em uma questão muito peculiar da doutrina que é o próprio processo de recebimento do hino. Dentro da doutrina se entende que o conteúdo, melodia e composição dos mesmos são recebidos diretamente de um plano superior, ou, como é comumente chamado, do “astral” (REHEN, 2007), sendo captados na dimensão da qual fazemos parte por aqueles que já alcançaram certa abertura mediúnica.
De forma bastante simplificada e, porque não, leiga, podemos dizer que estes sujeitos que estão vivenciando o desenvolvimento mediúnico propiciado pelo Daime e que passam pelo processo de “recebimento” do hino, entram em uma sintonia vibratória distinta que os permite entrar em contato e compreender a mensagem transmitida do astral, de forma a
compartilhá-la neste plano. Para além de conterem a mensagem, isto é, os ensinamentos doutrinários, os hinos ainda podem ser compreendidos como presentes dos “seres do astral” para com os adeptos. De forma a expandir esta explanação, podemos recorrer diretamente às palavras do autor:
De acordo com o discurso nativo, receber um hino é absolutamente diferente de compor uma música, isso porque em uma composição, ainda que possa existir o fator da “inspiração” ou até mesmo da “intuição”, o compositor é sujeito do processo de autoria, estando apto a experimentar, alterar e influenciar a música em todas as suas dimensões: rítmica, harmônica, melódica e poética; sentindo-se de alguma forma o seu proprietário, aquele que “faz”, “cria” e/ou “inventa” (REHEN, 2007).
Outro aspecto relevante que nos chama a atenção nos hinos é a presença de um sujeito ou um eu-lírico peculiar, às vezes plural, às vezes singular, ou mesmo sem identificação qualquer, que nos lança a distintas interpretações sobre a natureza do sujeito a quem o hino se refere: ao adepto que recebeu o hino, a um eu coletivo, à entidade que ofertou o hino ou mesmo à ideia de “eu superior”.
Não obstante todas essas possibilidades, o que os hinos engendram no seio da doutrina, é o sentimento de união e pertencimento, uma vez que o hino fala diretamente a cada um dos presentes, enquanto todos cantam em uníssono: “Daí a importância de o canto ser executado em coro, com todos na mesma altura da melodia central, de forma que se consolide ao longo de toda a cerimônia uma identidade de grupo por meio da música”. (REHEN, 2016).
Podemos citar aqui trechos de hinos em que o eu-lírico está bem delimitado, sendo demonstrado por meio do uso de pronomes pessoais: “Eu digo é com firmeza dentro do meu coração que Jesus está comigo, é quem nós dá as instruções”; e oblíquos: “A minha mãe que me ensinou”. Há, porém, casos em que podem pairar dúvidas a respeito da identidade do eu-lírico, quando, por exemplo, não se sabe ao certo se quem transmite a mensagem do hino é uma entidade superior (neste caso, Jesus) ou o sujeito que recebeu o hino: “Sou filho desta verdade e meu pai é São José”.
Os hinos “Eu venho da Floresta” e “O povo estão rebeldes” (ver anexo A) nos ajudam a perceber duas vozes distintas que se apresentam nos hinários do Santo Daime. Se por um lado encontramos dentro da nossa amostra um hino em que o eu-lírico apresentado se autodeclara como a própria bebida – o Daime, “Eu vivo na floresta/Eu tenho os meus ensinos/ Eu não me chamo Daime/ Eu sou é um ser divino. Eu sou um ser divino/ Eu venho aqui para te ensinar/ Quanto mais puxar por mim/ Mais eu tenho que te dar”; por outro, encontramos uma mensagem ambígua em que parece existir um diálogo entre duas vozes coexistentes
dentro do mesmo hino, vejamos: “Meus irmãos e minhas irmãs/Estou aqui para aconselhar. [...] Vou tomar o teu conselho/E na estrada eu já me vou”.
Assim, a aparente contradição apontada anteriormente pode ser percebida por meio das seguintes frases: “Estou aqui para aconselhar” e logo a seguir, “vou tomar o teu conselho”. Isto é, em um momento o eu-lírico oferece o conselho para, em seguida, tomá-lo para si, dando a ideia da presença de duas vozes distintas dentro de um mesmo hino.
Já em relação à periodicidade das sessões realizadas, podemos dizer que se obedece a um calendário semestral e que, em geral, a egrégora se reúne duas vezes por mês, para participar de rituais que obedecem a três classificações distintas e principais: trabalhos de concentração, trabalhos de cura e “bailados” (MERCANTE, 2012). Além destes três, existem alguns outros que ocorrem com menor frequência, como o trabalho de São Miguel (também conhecido como trabalho de Banca Aberta, mas que também se caracteriza como um trabalho espiritual de cura), a missa, o feitio e o festival.
2.
A HISTÓRIA DA DOUTRINA: UMA SÍNTESE
A história da criação e desenvolvimento da doutrina do Santo Daime nos remonta à história de vida do próprio fundador, o maranhense Raimundo Irineu Serra, mais conhecido pelos adeptos como Mestre Irineu. Irineu partiu de sua terra natal no Maranhão por volta de 1909 levando consigo o desejo de desbravar o mundo, como também, tendo sido impulsionado pelos boatos que corriam naquela época, referentes ao rápido enriquecimento a partir do trabalho nos seringais.
O final do século XIX e primeira metade do século XX foram marcados pelo forte fluxo migratório de famílias nordestinas que partiam em direção às terras amazônicas, deixando para trás uma vida de precariedade – baseada na agricultura de subsistência –, com o intuito de trabalhar dentro dos seringais, no contexto do extrativismo do látex, matéria-prima da borracha. O intenso trabalho extrativista neste período, sua comercialização e exportação se deveram ao seu importante valor para a indústria internacional (MOREIRA; MACRAE, 2011; NASCIMENTO, 2014).
Assim, o início da jornada de Irineu aconteceu ao partir de sua terra natal durante o ciclo da borracha, junto às levas migratórias com destino aos seringais da região Norte. No entanto, ele aporta no Acre quando o extrativismo seringalista já não representa uma atividade lucrativa, tendo em vista o declínio do ciclo da borracha, de modo que ingressa no trabalho de demarcação territorial por meio da Comissão Brasileiro-Peruana de Limites, função que lhe permitiu, durante alguns anos, viajar e conhecer muito a região amazônica, os rios e a cultura locais (NASCIMENTO, 2014).
Foi neste contexto e por meio dos conhecimentos travados naquele momento, que Irineu Serra entrou em contato pela primeira vez com a ayahuasca. Deste primeiro contato emergiram outros, que desembocaram em uma experiência mística dentro da floresta, durante a qual teria recebido da Nossa Senhora da Conceição (também conhecida como Virgem da Conceição ou Rainha da Floresta) as instruções para a criação da doutrina do Santo Daime.
O desenvolvimento histórico da religião – ou o que em outras religiões poderia ser chamado mito fundador –, tem suas bases ligadas ao universo da cura, dado que Mestre Irineu recebeu no evento que desencadeia a fundação da doutrina a missão de curar aqueles que lhe procurassem pedindo ajuda. Tal desenvolvimento também se encontra ligado à trajetória de vida de Mestre Irineu, dado que parte significativa da ritualística do Daime contém seus fundamentos em outras religiões e cerimônias, dos quais podemos citar o cristianismo popular, a matriz maranhense denominada Tambor de Mina, a Umbanda, o espiritismo
kardecista, o xamanismo, o esoterismo europeu e, ainda, aspectos das religiões orientais (REHEN, 2007).
Tal sincretismo religioso aliado à doutrina musical, ao canto dos hinários, ao preparo ritualístico do chá, ao uso de roupas bastante específicas, somados também a um ethos específico, são aspectos que competem para a construção de um esboço rápido e simplificado da doutrina do Santo Daime. Como nos fala Nascimento (2014), “as manifestações religiosas são sistemas vivos, sujeitos a movências e a montagens elásticas de suas próprias tradições. O sincretismo é uma característica inerente ao fenômeno religioso e, como afirma Ferreti (2008), a presença dele não descaracteriza a tradicionalidade da religião” (pag. 37). Assim, por mais que tentemos descrever este sistema religioso, sempre faltará algo essencial nesta tentativa por se tratar de algo vivo, que se furta a explicações que abarquem toda a sua complexidade.
À medida que o grupo originalmente formado por alguns poucos seguidores de Mestre Irineu se expandiu, fez-se necessário realocar um novo espaço para acomodar a todos. Tal expansão se deveu ao alastramento da fama de Mestre Irineu e dessa bebida misteriosa que causava estranhos efeitos nos indivíduos que a ingeriam. Assim, é possível resgatar relatos de curas físicas espirituais que ocorreram ao longo da história da doutrina, alcançadas por meio do uso ritualístico do chá e da adoção de condutas especificamente recomendadas por Mestre Irineu (MOREIRA; MACRAE, 2011; MORTIMER, 2000).
Com a sua morte no ano de 1971, ocorrem alguns conflitos girando em torno dos direcionamentos, da organização e administração doutrinárias, de modo que as divergências que emergem naquele momento intensificam-se e levam à cisão da comunidade do Santo Daime (REHEN, 2007). Dentro desta divisão houve uma parte da comunidade daimista que permaneceu no Alto Santo, seguindo junto à linha originária do Mestre Irineu, agora liderada por Leôncio Gomes; a outra parte da comunidade, descontente com os novos rumos que a doutrina estava tomando, se junta a Sebastião Mota de Melo – segundo maior expoente da doutrina, que mais tarde viria a fundar o CEFLURIS – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, hoje apenas CEFLU (MÓRTIMER, 2000).
Seria então a partir do CEFLURIS que a doutrina expandir-se-ia para o restante do Brasil e, em seguida, para o mundo, rompendo as fronteiras acreanas e levando uma mensagem de harmonia, amor, verdade e justiça para outros continentes, hoje presente em mais de vinte países, de modo a configurar-se, hoje, como a vertente daimista que congrega o maior número de adeptos.
Muito antes de encontrar Mestre Irineu e a doutrina do Santo Daime, Sebastião Mota de Melo, ou “Padrinho Sebastião”, já trabalhava com a arte da cura por meio de sua
mediunidade avançada, auxiliando àqueles que lhe procuravam. Seu valor enquanto curador aumentava ainda mais em razão da precariedade da vida na floresta atrelada à dificuldade de acesso à rede pública de saúde.
Nas palavras de Lúcio Mórtimer (adepto da doutrina que conviveu de perto com o Padrinho Sebastião e participou ativamente do desenrolar da história da doutrina em seu processo de transferência e estabelecimento no Mapiá): “Ainda é uma característica importante em toda comunidade amazônica a presença do rezador e do curador. Isto como herança cultural indígena e em parte pelo completo isolamento da medicina oficial (MÓRTIMER, 2000, p. 45)”. Moreira e McRae (2011) corroboram e complementam: “Aquela remota região do Brasil era quase inteiramente desprovida de atendimento médico, havendo somente a alternativa de remédios caseiros, nem sempre muito eficazes. Em momentos de maior aflição, só restava o recurso a rezadores e à pajelança indígena ou mestiça. (p. 58)”.
Cura
Inicialmente, é interessante apontarmos o fato de que a narrativa da cura encontra-se presente textualmente em muitos hinos da doutrina. Mais sugestivo ainda, é a existência do ritual de cura, que lida especificamente com esta dimensão. Na doutrina do Santo Daime, portanto, para além do âmbito dos hinários, existe a referência à cura – seja a nível físico ou espiritual – na vivência religiosa dos adeptos, delineada também pelo discurso trazido à tona pelos mesmos, que nos remete ao bem-estar biopsicossocial do sujeito, demonstrando a relevância deste estudo para o campo da Psicologia.
É muito comum encontrarmos casos de pessoas que buscam conforto dentro da religião, seja ela qual for, para lidar com a diversidade de problemas que os afligem cotidianamente, depositando sua fé e esperança em um ser superior e divino, e direcionando a ele suas orações. Dentro do contexto religioso também se enquadra o fenômeno da cura enquanto uma busca para a resolução de males tanto físicos quanto espirituais. Cada religião dispõe de recursos específicos para intermediar essa relação dicotômica entre saúde e doença, e cada vertente religiosa se apropria de uma estrutura discursiva singular a partir da qual se explicaria (ou não) o fenômeno da cura.
As buscas por meios não ortodoxos de cura são relatadas em todo o mundo desde os tempos mais remotos (ALMEIDA; ALMEIDA; GOLLNER, 2000). Não é, portanto, algo
surpreendente que indivíduos, muitas vezes sem perspectivas de alcançar a cura pela medicina tradicional/ocidental, partam à sua procura por meio da religião, por um viés terapêutico alternativo àquela tradição medicinal, o que nos aponta para um “itinerário terapêutico” traçado pelo sujeito (PELÁEZ, 1994) que pode se dar concomitantemente ao tratamento medicinal.
Do mesmo modo, existe um discurso sobre a cura que atravessa um universo simbólico específico desenhado dentro de cada tradição religiosa, imprimindo um sentido, uma razão, dando um direcionamento ou servindo de bálsamo para o sofrimento humano e que trabalha no sentido não da supressão dos efeitos da doença como um fim em si mesmo, mas sim, debruça-se sobre as causas. De acordo com Peláez:
Nos sistemas religiosos, a remissão sintomática não seria necessariamente um indicador de cura, nem a morte do paciente marcaria o fracasso do tratamento. Nestes sistemas a cura equivaleria a uma „transformação espiritual‟ através da qual o doente recuperaria um „verdadeiro‟ sentido de vida. Por este ponto de vista, os conceitos de saúde e salvação seriam sinônimos (ambas as palavras provem da mesma raiz latina: salus) (ibidem, p. 80).
Por meio desta interpretação relacionada ao sentido da cura e da morte dentro dos sistemas de crença religiosos, estes fenômenos perdem seu sentido usual e desprega-se o conceito de cura da remissão sintomática; a morte do fracasso terapêutico, de modo a não se sustentar mais na noção de causa e efeito imediatos. A partir desta perspectiva passa-se a compreender a doença como um modo de existência possível, um sofrimento que pode ser convertido em algo positivo, pois dele se extrai um sentido maior ou mais elevado.
Para algumas doutrinas religiosas, o sofrimento causado por uma doença pode ainda representar um meio através do qual o indivíduo alivia sua carga kármica em sua passagem por esta existência. Bhaktivedanta Swami Prabhupada em “Karma – a justiça infalível” nos fala que
seja qual for o caso, antes de morrer devemos realizar expiação, para que não levemos as atividades pecaminosas para a vida seguinte e tenhamos de sofrer mais. Se não executarmos nenhuma penitência por nossas atividades pecaminosas, a natureza não nos perdoará. Teremos de sofrer os efeitos dos nossos pecados na vida seguinte. Este cativeiro ocasionado pelas atividades materiais chama-se karma-bandhannah (PRABHUPADA, 2016).
É importante ressaltar que não há unanimidade entre os pesquisadores (ALMEIDA; ALMEIDA; GOLLNER, 2000) quando questionada a imprescindibilidade ou não do elemento da fé no contexto da cura espiritual, isto, é, se para a concretização da cura nos indivíduos, é necessário que os mesmos cultivem a fé. A este respeito, só nos é possível especular, tendo em vista a sua imaterialidade, escapando-nos quaisquer formas de avaliação quantitativas ou qualitativas da fé: a fé não se pesa, não se observa, não se avalia. Não
obstante, se ela assim nos escapa, ainda nos resta estudar os seus efeitos nos indivíduos, sabendo como eles a percebem, como a sentem em seu interior e como ela está relacionada ao fenômeno da cura espiritual.
A cura espiritual praticada no Brasil não se opõe à medicina científica, mas busca, de certa forma, complementá-la, corroborando a ideia de que existe um “itinerário terapêutico” sendo traçado pelos indivíduos (ALMEIDA; ALMEIDA; GOLLNER, 2000; PELÁEZ, 1994). Na pesquisa realizada por Almeida, Almeida e Gollner (2000) foi abordada uma modalidade de cura que se vale das cirurgias espirituais “visíveis” e “invisíveis”. Para eles, “os cirurgiões espirituais do Brasil não são „curandeiros tradicionais‟, eles são produtos da modernização de nossa sociedade, o que se reflete no fato de serem frequentemente procurados por integrantes dos estratos socioeconomicamente mais elevados” (ALMEIDA; ALMEIDA; GOLLNER, 2000).
Outro ponto que merece atenção é o de nem sempre existir uma promessa explícita de cura nos centros aos quais os indivíduos recorrem, sugerindo-nos que a cura em si está para além de uma capacidade terapêutica/mediúnica ou mesmo de uma questão de fé, recaindo, deste modo, na esfera superior e intangível do poder divino. Nas palavras dos autores: “Sabe-se muito pouco sobre os mecanismos das curas espirituais, as hipóte“Sabe-ses geralmente giram em torno das sugestões psicológicas ou da transmissão de uma energia até então não detectada. Fato é que as explicações dos céticos não resolvem os casos de cura espiritual que excedem os domínios dos tratamentos psicossomáticos” (ALMEIDA; ALMEIDA; GOLLNER, 2000).
Para Costa, Figueiredo e Cazenave (2005) as concepções daimistas de doença e cura fazem parte de um universo simbólico dentro do qual virtudes cristãs como o arrependimento e o perdão assumem grande importância. A transformação ética do indivíduo seria possível por meio do consumo ritualístico da bebida, que, associada ao canto dos hinários, traria os ensinamentos necessários.
Achterberg (1985, apud RICCIARDI, 2009) elenca alguns pontos principais que emergem das relações estabelecidas entre o ritual e as práticas de cura e que sintetizam aspectos cruciais da experiência subjetiva e individual de cura, como também, coletiva, através dos rituais religiosos:
a. As preparações e participações rituais ajudam o paciente e a comunidade a se sentirem em controle de uma situação que parecia desesperadora. b. As relações dentro da comunidade são reforçadas e a solidariedade grupal é enfatizada. c. O drama e a estética do ritual são reconfortantes e distrativos. d. Certos aspectos do ritual reforçam os laços entre o paciente e o grupo do qual ele pode ter se sentido distanciado. e. O paciente pode sentir alívio através da crença de que a harmonia entre ele e o mundo espiritual foi estabelecida. f. Os rituais e símbolos servem para interpretar o significado da doença e do papel do doente em determinado contexto cultural. g. O paciente é tocado emocionalmente pela intensidade do ritual, aumentando assim sua esperança e confiança de que algo importante está para
acontecer. h. Quando preparados psicoativos são utilizados, ou quando ocorrem estados dissociativos ou outras alterações de consciência, como parte do ritual, o poder do curador é reforçado por experiências incomuns e estas reforçam os sistemas de crença espiritual (ACHTERBERG, 1985, apud RICCIARDI, 2009, p. 157).
Diante desta constatação, é importante não apenas refletir sobre como se representa a cura dentro da doutrina do Santo Daime, mas também sobre os agentes da cura. Quem são esses agentes? Quem ou o quê causa o mal? Como a cura é realizada? A cura acontece em quais níveis?
O objetivo geral deste estudo é analisar de que forma se expressa e é representado discursivamente o fenômeno da cura em hinários da doutrina do Santo Daime. Os objetivos específicos são os seguintes: Identificar e classificar os agentes da cura na doutrina do Santo Daime e os diferentes níveis de cura; identificar e classificar as fontes do mal nessa doutrina e as estratégias usadas para combatê-lo; identificar e classificar os hinos que apresentam essa temática; identificar e classificar as enfermidades abordadas nos hinários; e delimitar o papel e a relevância dos hinários para a doutrina do Santo Daime.
3.
MÉTODO
Trata-se de um estudo documental de cunho qualitativo cujos materiais utilizados foram três hinários da doutrina do Santo Daime, analisados com a técnica de análise de conteúdo (BARDIN, 2011). O delineamento da amostra utilizada neste estudo se deu de modo a considerar os dois principais expoentes da doutrina que se fazem representar pelos seus hinários: O Cruzeiro – hinário do fundador da doutrina, Mestre Irineu –, e os dois hinários deixados por Padrinho Sebastião – O Justiceiro e Nova Jerusalém.
A escolha deste material se dá pela importância e proeminência destes dois personagens dentro do universo do Santo Daime enquanto principais líderes espirituais. Sua escolha justifica-se, ainda, pela dificuldade em quantificar e ter acesso a todos os hinários existentes na doutrina, pois a cada dia esse número aumenta e não há uma plataforma que os disponibilize integralmente.
Foram utilizadas as seguintes palavras-chave para facilitar o processo de delimitação dos hinos a serem considerados para análise: sofrer, bem/mal, cura, saúde e doença. As palavras escolhidas abrangem variações, tais como sofrimento, sofredor e curador.
O hinário “O Cruzeiro” possui 129 hinos, “O Justiceiro” possui 156 e “Nova Jerusalém”, 26, contabilizando 182 hinos do Padrinho Sebastião. No entanto, após a leitura
integral dos hinos, verificou-se que no hinário do Mestre Irineu 16 hinos apresentam as palavras-chave correspondentes, porém apenas 13 se encaixam no contexto de cura; nos dois hinários do Padrinho Sebastião, dos 27 hinos que trazem em seu conteúdo as palavras-chave, apenas 15 se encaixam na temática. Foram, então, selecionados ao todo 28 hinos para compor o corpus de análise deste trabalho (ver ANEXO 1).
De acordo com Bardin (2011), a análise de conteúdo, antes de ser um mero instrumento a serviço do pesquisador, caracteriza-se por comportar uma série de “apetrechos”, flexíveis em si mesmos para dar conta do campo comunicativo diante do qual se estende a análise. Em outras palavras, análise de conteúdo é um conjunto de técnicas que conta com procedimentos objetivos e sistemáticos para a descrição do conteúdo das mensagens estudadas, seja qual for a natureza do seu suporte (BARDIN, 2011).
Neste estudo se realizou uma análise categorial de tipo qualitativo. A análise categorial (tanto a qualitativa quanto a quantitativa) é a mais antiga e “na prática é a mais utilizada” (BARDIN, 2011, p. 201). Funciona por meio do desmembramento do texto em novas unidades ou categorias que satisfaçam à logica do reagrupamento pelo compartilhamento de temas ou ideias centrais.
4.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O fenômeno da cura na doutrina do Santo Daime, antes de mais nada, atravessa sua história de modo singular. Atravessa-a ao constatarmos todos os episódios relacionados, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, ao consumo dessa bebida conhecida e cultuada como Daime. A título de exemplo, poderíamos relembrar aqui elementos ligados ao mito de criação da religião que remontam ao pedido realizado por Raimundo Irineu Serra, Mestre Irineu, para poder estabelecer-se como curador, pedido este transformado em sua missão, cujo instrumento era o próprio Santo Daime.
Podemos também trazer à tona parte da história de um dos principais expoentes da doutrina, Sebastião Mota de Melo, que, antes mesmo de ligar-se a esta, já era reconhecido localmente como um curador. Acrescentemos ainda o modo peculiar de sua chegada ao Alto Santo, tendo ido ao encontro do centro onde Mestre Irineu realizava seus trabalhos buscando sanar uma enfermidade que lhe acometia, após o que se considera curado pelos seres que trabalharam em seu corpo por meio do Santo Daime.
É, também, após um processo de cura por meio da ingestão do chá que Alfredo Gregório de Melo, filho do Padrinho Sebastião e atual líder da vertente ligada ao Céu do Mapiá, estabelece o trabalho de São Miguel, que é, por excelência, um trabalho de cura. Como se pode perceber, os exemplos citados anteriormente evidenciam a forte relação estabelecida entre a cura, objeto deste estudo, e os líderes da doutrina, como também, refletem as circunstâncias de sua consolidação.
No que diz respeito à questão sobre os agentes da cura, os hinos do Daime são povoados por diferentes entidades/seres/divindades: Virgem da Conceição, Virgem Maria, Jesus Cristo, Espírito Santo, Mestre, Deus, Estrela, São José, Rainha, Nossa Senhora, Virgem Mãe, Mãe, Pai, Mestre Juramidã, Beija-flor, caboclos, Princesa Janaína. Percebe-se que a referência à Virgem Maria é uma das mais recorrentes, não obstante sua representação por nomes diversos (Virgem da Conceição, Maria, Mãe, Rainha), o que demonstra uma firme ancoragem da doutrina no universo do catolicismo e a relevância da figura de Nossa Senhora como entidade que concede a cura.
Com efeito, a maior parte das referências encontradas nos hinos é de personagens cristãos, mas há também certas entidades representadas textualmente pelo nome de elementos da natureza, caso de Estrela e Beija-flor, encontrados nos trechos: “é Beija, é Beija-Flor/que minha Mãe me entregou/Para afastar as doenças/De quem for merecedor” e “As estrelas já chegaram para dizer o nome seu”. Encontramos também referência à entidade identificada
como Princesa Janaína, que se destaca no panteão de outras religiões sincréticas, como na Barquinha, na Umbanda e na doutrina espírita Vale do Amanhecer.
Por sua vez, a entidade denominada Mestre Juramidã, ou Mestre Império Juramidã1, está presente em diversos pontos dos hinários aqui estudados, o que demonstra sua relevância dentro do universo daimista. Com a morte de Mestre Irineu “a bebida e a instituição passariam a representá-lo como agente legitimador e, como o ser espiritual „Juramidã‟, ele estaria então presente em todos os rituais do Daime, em que se toma a bebida da maneira que ensinou” (MOREIRA; MCRAE, 2011, p. 61). Isto é, após a morte do Mestre Irineu ocorreu o que poderíamos chamar de personificação de suas características à entidade conhecida pelo nome de Juramidã, assimilação esta que ratifica sua posição dentro da doutrina e a legitima.
Apesar de ser uma religião de caráter sincrético, percebemos a predominância dentro dos hinos estudados de entidades do panteão cristão, característica que se faz notar mais intensamente no hinário do Mestre Irineu. Este perfil começa a mudar de figura na trajetória do Padrinho Sebastião e é incorporado ao universo dos hinários mais explicitamente por meio de Alfredo Gregório de Melo, que passa a introduzir, nos hinários, referências expressas a entidades da Umbanda, tais como Iemanjá e Ogum da Beira-mar. Tal mudança se fez notar após a aproximação da vertente doutrinária do Padrinho Sebastião com a linha de Umbanda, pelo que passou a ser também conhecida como “Umbandaime”2.
Para fins de simplificação da nossa análise, criamos categorias que permitissem reunir os hinos que compartilhassem entre si, em linhas gerais, a mesma forma de apresentar o fenômeno da cura, que contivessem o mesmo conteúdo. Categorias estas que traduzem os hinos de forma mais clara e nos ajudam a ter uma melhor perspectiva dos mesmos. Dito isto, podemos apontar as categorias às quais, doravante, iremos nos reportar sobre: Hino-Instrução, Sofrimento e Salvação e Entidade Curadora.
Hino-instrução
Os hinos enquadrados nesta modalidade são aqueles em que encontramos expressos em seus textos um conteúdo que se presta à instrução de todos aqueles que fazem parte da
1 Sua grafia pode variar entre Juramidã, Juramidam, ou ainda, Juramidan. Isto se explica pelo fato de, na
época vivida por Mestre Irineu e Padrinho Sebastião, no meio da floresta amazônica, predominar o modo oral de transmissão dos hinos, sendo escasso o número de pessoas com alguma formação escolar, de modo que a escrita se assemelha à fala (MOREIRA, MCRAE, 2011).
2 Os trabalhos abertos à incorporação de entidades, como nos trabalhos de São Miguel, estabelecido por
Alfredo Gregório de Melo, e nos trabalhos denominados de Mesa Branca, não chegam a fazer parte do calendário anual oficial, especificamente na vertente doutrinária do Padrinho Sebastião (Céu do Mapiá), sendo totalmente desconsiderados pela linha do Alto Santo.
doutrina, isto é, revelam ensinamentos que supostamente permitem uma aproximação com o criador e a concessão de bênçãos, como o perdão, a salvação, o afastamento das doenças e o bem-estar. Foram encontrados hinos em que foi possível observar uma atitude rogativa, direcionada a Deus ou a alguma outra entidade celestial para que lhe seja concedido aquilo que, humildemente, ele pede.
Em “Deus, divino Deus” o eu-lírico apresenta uma atitude contrita, porém também de firmeza, ao mesmo tempo em que apela para a união de seus irmãos, vejamos: “Vamos, vamos meus irmãos, vamos todos nós cantar. Para Deus dar a nossa saúde, a virgem Mãe nos perdoar”. Se percebe que por meio do ato da oração, mas também do louvor a Deus em forma de canto, o eu-lírico espera receber o perdão, a saúde, como também, sua iluminação. Mais a frente ele afirma ter firmeza “dentro do coração” ao expressar tais palavras, pois foi Jesus Cristo quem concedeu estas instruções. “Botai-me no bom caminho e livrai-me de todo mal” é outro exemplo de uma postura de humildade em que o indivíduo roga a Deus por algo.
Seguindo a mesma linha encontramos o hino “Cheguei” em que a princípio o eu-lírico revela ter chegado aonde ele bem queria estar. Não obstante, na estrofe seguinte roga a Deus para que ele ilumine aqueles que estão sendo rebeldes e desobedientes, isto é, aqueles que, tendo conhecimento do caminho e dos ensinamentos, preferem não segui-los. Por outro lado, revela uma atitude de misericórdia e caridade ao rogar também pelos demais, de maneira que o adiantamento espiritual chegue para todos. Ao final do hino, onde lemos: “Nos dai conforto, nos dai saúde, para podermos trabalhar”, notemos que não há referências ao corpo físico, tampouco ao espírito, ou de que natureza é o trabalho.
Do hino “Sexta-feira santa” podemos extrair os seguintes trechos: “A minha Mãe me trouxe aqui”; “Vou seguindo, vou seguindo os passos que Deus me dá”; “A minha Mãe que me ensina, me diz tudo que eu quiser”. A partir desta sequência vamos compreendendo que, na perspectiva do eu-lírico, tanto a chegada de um adepto à doutrina, quanto os ensinamentos encontrados no interior dos hinos, vêm de um conhecimento superior, como também, que na transmissão do hino por meio de seu canto, se compartilham as instruções deixadas para guiar os fiéis. No hino em questão, se deixa uma instrução referente aos costumes ligados à Sexta-Feira Santa: “A Sexta-Feira Santa guardemos com obediência. Três antes e três depois para afastar toda doença”.
Sofrimento e salvação
Nesta categoria encontraremos aqueles hinos que apresentam tanto a ideia de que a salvação é alcançada por meio do merecimento, ou seja, das boas obras e da obediência aos
ensinamentos divinos presentes na mensagem dos hinários, como também aqueles que nos advertem para o fato de que o sofrimento nada mais é do que uma consequência dos atos praticados levianamente nesta vida ou ainda, uma via de expiação dos pecados.
A ideia de que Jesus morreu deixando-nos lições que foram escritas com seu sofrimento para que as sigamos e aprendamos de modo a alcançar a salvação é o que reveste o hino Sete-Estrelas, leiamos: “Ele [Jesus] morreu neste mundo para nós acreditar, para nós também sofrer, para poder alcançar”. É interessante explorarmos também aquilo que se diz em uma estrofe anterior e que revela-nos parte do contexto: “Ninguém sabe compreender com amor, com alegria, a pessoa de Jesus Cristo, Jesus, filho de Maria”. Juntas, as estrofes complementam-se e formam a ideia de que a mensagem de Cristo, não sendo compreendida através do amor e da alegria será compreendida por meio da dor e do sofrimento.
De maneira semelhante, porém com um punhado a mais de contundência, encontramos no hino “Disciplina” a mesma ideia depreendida no hino anterior: “Minha Mãe, minha Rainha, com amor ninguém não quis. Apanhar para obedecer, na estrada para seguir [...]. Apanhar para obedecer, para poder acreditar”. Assim, não apenas necessário para o processo de aprendizado, o sofrimento ao final das contas demonstra ser inevitável: tendo firmeza se apanha, ao fugir o sofrimento é ainda maior. Por outro lado, não é esclarecido por quais vias o sofrimento é perpetrado ou por quem.
O sofrimento também é apresentado como consequência da falta de caridade, do desvio do caminho correto, do bem e da verdade, caminho este repetidamente elucidado por meio dos hinos: “A verdade eu mostro a todos que souber me compreender”, em outras palavras, a verdade está aí para quem quiser e souber aproveitá-la; “Aquele que aqui vier e não prestar atenção, terá muito que sofrer na sua separação”. No hino “Eu vivo na floresta” encontramos: “Aquele que não aprender é porque não presta atenção. Muito terá que sofrer aqui na reunião. [...] Jesus Cristo veio ao mundo e sofreu até morrer, mas deixou os seus ensinos para quem quiser aprender”.
O hino em questão (“Eu vivo na floresta”) é-nos interessante por apresentar uma nova faceta que não apenas reveste o imaginário contido na doutrina, mas que revela uma verdade reconhecida pelos adeptos: o Daime, sacramento da doutrina, é um ser divino. Assim, divisamos outro fio condutor para os ensinamentos e lições transmitidos. Agora, não mais puramente pelo conteúdo dos hinos, mas por esta complementaridade singular com o chá da ayahuasca.
Ao abordarmos uma categoria que engloba, de forma geral, a ideia de que o sofrimento é a consequência de uma falta cometida, estamos lidando também com uma ideia que talvez possamos caracterizar como diametralmente oposta, mas que não a contradiz: a
salvação, o perdão e a saúde são concedidos pelos seres divinos por meio do merecimento do indivíduo, como se pode perceber nos hinos “Meu Mestre me ensina” e “Peguei na minha espada”, respectivamente: “Meu Mestre me ensina, eu devo aprender. Trabalhar com firmeza para não ver o corpo sofrer”; “Aqui estou dizendo para todos compreender, é andar direitinho para não ver o corpo sofrer”. No entanto, isto não significa dizer que os mesmos seres divinos que concedem estas graças são os mesmos que condenam o homem ao sofrimento e à dor.
Muito pelo contrário, o que se pode deduzir com o trabalho de análise dos hinos é o de que o sofrimento chega ao homem pelas suas próprias mãos, por meio de uma engrenagem de retroalimentação: os erros dos quais me arrependo e me corrijo são perdoados; recaindo frequentemente nos mesmos erros, atraio o sofrimento para minha vida. Não obstante, à medida que o trabalho espiritual avança e o adepto permanece firme na doutrina, tanto os mecanismos que o conduzem ao sofrimento são invertidos, como os seres de luz passam a trabalhar a seu favor: “É Beija, é Beija-Flor, que minha mãe me entregou para afastar as doenças de quem for merecedor”.
Os hinos alertam: “Ninguém queira ser grande. A grandeza Deus é quem tem” (“Oh, minha Mãe”) e “Anda direitinho, repara o que está fazendo” (“Tu prometes ser fiel”). Assim, os hinos vão pregando aos seus adeptos uma mensagem de humildade e compaixão, benevolência divina, caridade e amor ao próximo. Não excluem, no entanto, o sentimento de dor e aflição que podem emergir ao caminhar dentro da vida espiritual da doutrina.
Entidades curadoras
Esta categoria, como o próprio nome diz, traduz-se na reunião dos hinos que contenham referências a entidades superiores ou divindades do panteão daimista. Nestes hinos, o tema da cura emerge de forma central. O hino “As estrelas” possui uma narrativa interessante, pois relata a chegada de seres aqui nomeados como Estrelas. Prosseguindo em sua leitura, encontramos um eu-lírico que diz ter sido levado pelos seres Estrelas para percorrer o mundo em busca do conhecimento da verdade.
Em seguida, temos o trecho: “Eu subi serra de espinhos pisando em pontas agudas, as estrelas me disseram „no mundo se cura tudo‟”. Quando nos detemos na primeira parte desta estrofe podemos perceber que ela se encontra ligada à estrofe anterior e nos aponta, talvez, para um novo aspecto sobre o processo de busca do conhecimento e da verdade. A ponte é feita por meio de uma analogia muito simples, porém de bastante efeito. A subida da serra circunscreve o processo de conhecimento da verdade, que por si só já representa tarefa
cansativa e longa. Cada passo dado pode ser compreendido como um avanço no sentido da evolução espiritual do sujeito e se faz apesar dos espinhos e das pontas agudas, isto é, vicissitudes que se apresentam pelo caminho.
Na segunda metade da terceira estrofe lemos a primeira referência explicita à cura. Nela se diz que “no mundo se cura tudo”. Mas a questão de quem cura e como cura não foi preenchida ainda. Antes de chegarmos à segunda referência trazida por este hino ao tema da cura, lemos: “As estrelas me disseram „ouve muito e fala pouco‟, para poder compreender e conversar com meus caboclos”. E logo em seguida: “Os caboclos já chegaram de braços nus e pés no chão. Eles trazem remédios bons para curar os cristãos”.
Temos assim revelada a identidade dos seres que trazem os remédios, as curas, para sanar os males dos “cristãos”. Ao mesmo tempo, não é possível afirmar de que ordem é o mal a ser curado, tampouco se fala no termo doença, mas sim em cura e em remédios. Há curas que são espirituais e há curas que são do campo propriamente físico, mas de qual delas se está falando não se pode ter certeza.
No hino percebemos um estreitamento dos laços que unem o mundo material ao mundo imaterial – espiritual ou extrafísico: os caboclos são seres do mundo astral que estão a serviço das pessoas, com o intuito de ajudarem-nas em seu adiantamento espiritual e, no contexto do hino, são eles os portadores dos remédios.
5.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho debruçou-se sobre as representações e o significado da cura presente em determinados hinários da doutrina do Santo Daime, uma das três religiões brasileiras (além da Barquinha e da UDV) que utilizam a ayahuasca como sacramento e que encerram os mistérios das plantas curadoras, as “sagradas medicinas” da floresta.
Na doutrina do Santo Daime, a narrativa da cura está presente não apenas de modo puramente textual, o que pode ser verificado no conteúdo dos hinários que são entoados, mas no próprio discurso dos adeptos quando falam das curas alcançadas (tanto físicas quanto espirituais) por meio da ingestão da bebida. Há que se fazer lembrar, inclusive, da existência do ritual de cura, que é um trabalho espiritual feito justamente com este propósito: alcançar curas individuais e coletivas, promovendo a limpeza da corrente formada pela união de todos e dos próprios “aparelhos” físicos.
Os três hinários selecionados pertencem aos dois maiores expoentes da doutrina, Mestre Irineu (Raimundo Irineu Serra, fundador da doutrina) e Padrinho Sebastião (Sebastião Mota de Melo, propagador da doutrina). Ao explorarmos o material, fizemos uso de certos descritores (sofrer, bem/mal, cura, saúde e doença, e suas variações), o que nos auxiliou no processo de seleção dos hinos a serem analisados.
Após termos procedido à seleção e análise dos hinos foram encontradas três categorias principais, as quais foram denominadas Hino-Instrução, Sofrimento e Salvação e Entidades curadoras. Estas três categorias alcançaram concentrar os três principais eixos de compreensão e representação do tema aqui estudado, a cura.
A cura, dentro da perspectiva apresentada nos hinos, requereria uma mudança do sujeito que passa por uma transformação que opera no sentido do interior para o exterior, de dentro para fora, isto é, apela para um resgate, de qualidades e virtudes que propiciariam um adiantamento espiritual na doutrina. A contrição, a humildade, a caridade, o perdão, a perseverança na fé e nas boas obras, a firmeza no amor a Deus e ao próximo são consideradas algumas das qualidades que devem ser alimentadas diariamente pelo adepto.
São lições transmitidas na “escolinha do professor Raimundo” (analogia feita pelos adeptos em referência à Mestre Irineu) por meio dos hinos que encerram uma sabedoria aparentemente simples, também compartilhada por outras religiões. Por outro lado, seguir as instruções e ensinamentos deixados não seria suficiente para garantir uma vida sem sofrimentos ou decepções, uma vez que, como seres humanos, somos falhos e tampouco estaríamos livres das influências do “mundo da ilusão”.
Ao final, a contribuição prestada neste trabalho, não pretende ser conclusiva, mas, ao invés disso, oferece a abertura de vias de investigação em pesquisas futuras. A noção de cura merece um estudo atento, sobretudo diante de novas aplicações que vêm sendo sugeridas para a ayahuasca no âmbito terapêutico, como no caso da depressão.
Para além da breve análise de conteúdo aqui realizada, cabe também atentar para outras dimensões da ritualística daimista que são igualmente importantes para as representações de cura, tais como a noção de “trabalho”, com o uso do corpo como ferramenta para receber e oferecer alívio espiritual; os demais elementos ritualísticos presentes nos centros; as orações realizadas coletiva ou individualmente no início e ao final de cada cerimônia; a própria função “medicamentosa” da bebida, desenvolvida no contexto do Mestre Irineu como um veículo de cura tanto física como espiritual; a assimilação de elementos de distintas tradições religiosas que convergem, com a consagração do chá, para um indistinto alívio espiritual, bem como as trajetórias de expoentes da doutrina, vários deles ligados a experiências de enfermidades e curas por meio do Daime.
Num dos hinos de despacho, costumeiramente entoado nas cerimônias, afirma-se: “o Daime é a minha forma de vida, meu professor, que vem curar minhas feridas”. A riqueza textual que oculta uma indistinta complexidade em termos tão simples como forma de vida, professor e instrumento de cura, nos dão conta de que aqui só logramos uma abordagem introdutória a esta rica temática que é a do crescimento espiritual por meio da cura, à qual se entregam com fervor os praticantes na doutrina do Santo Daime.
6.
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ANEXO – SELEÇÃO DE HINOS SELEÇÃO DO MESTRE IRINEU HINÁRIO – O CRUZEIRO
A TERRA AONDE ESTOU
A terra aonde estou Ninguém acreditou
Dai-me amor, dai-me amor Dai-me o pão do criador A minha mãe que me ensinou Quem me deu este primor Dai-me amor, dai-me amor Dai-me o pão do criador
A riqueza todos têm
Mas ninguém quer acreditar Dai-me amor, dai-me amor Livrai-me de todo mal
SETE-ESTRELAS
Eu vi no sete-estrelas Um rosto superior. Eu digo é com certeza, Que a Rainha me mostrou. A Rainha me mostrou Para mim reconhecer O nome que tanto se fala E ninguém sabe compreender. Ninguém sabe compreender Com amor, com alegria, A pessoa de Jesus Cristo, Jesus, filho de Maria. Jesus, filho de Maria, Desde a hora em que nasceu Começou seu sofrimento, Até o dia em que morreu. Ele morreu neste mundo Para nós acreditar, Para nós também sofrer, Para poder alcançar.
DISCIPLINA
Vou chamar os meus irmãos Quem quiser venha escutar Se ficar firme apanha E se correr vai sofrer mais
Minha mãe minha rainha Com amor ninguém não quis Apanhar para obedecer Na estrada para seguir
Mestre bom ninguém não quis E não souberam aproveitar Apanhar para obedecer Para poder acreditar
Fica assim a disciplina Quem quiser pode correr Se eu falar do meu irmão Estou sujeito a morrer
AS ESTRELAS
As estrelas já chegaram Para dizer o nome seu Sou eu, sou eu, sou eu Sou eu um filho de Deus
As estrelas me levaram Para correr o mundo inteiro Pra conhecer esta verdade Para poder ser verdadeiro Eu subi serra de espinhos Pisando em pontas agudas As estrelas me disseram No mundo se cura tudo
As estrelas me disseram Ouve muito e fala pouco Para poder compreender
Os caboclos já chegaram De braços nus e pés no chão Eles trazem remédios bons Para curar os cristãos
DEUS, DIVINO DEUS
Deus, Divino Deus Soberana luz de amor É o Poder Universal É a força superior
Vamos, vamos meus irmãos Vamos todos nós cantar Para Deus dar a nossa saúde A Virgem Mãe nos perdoar Eu digo é com firmeza Dentro do meu coração Que Jesus Cristo está conosco É quem nos dá as instruções
CHAMO ESTRELA
Chamo Estrela, chamo Estrela Chamo Estrela, Estrela vem Ela vem os ensinar
O amor de quem quer bem O amor de quem quer bem É a saúde e o bem-estar Consagrando este amor Para sempre não faltar Para sempre, para sempre Amigo do meu irmão Que ele é a minha luz Neste mundo de ilusão
NO JARDIM MIMOSA FLOR
No jardim mimosa flor Para sempre eu estou aqui Para ser filho de Deus Não precisa ser ruim Todo mundo é muito bom Mas não quer se condoer Se fogem da caridade E depois não quer sofrer
O caminho torto errado E daqui ninguém quer ser A verdade eu mostro a todos Que souber me compreender Aqui dentro da verdade A minha Mãe que me ensinou Me dá força e me dá brilho Para sempre eu ter valor
NO CRUZEIRO
No Cruzeiro tem rosário Para quem quiser rezar Também tem a Santa Luz Para quem quiser viajar Vamos todos nós louvar O Divino Espírito Santo A Virgem Nossa Senhora Nos cobrir com o vosso manto Eu digo é com firmeza
Dentro do meu coração Vamos todos nós louvar A Virgem da Conceição A Virgem da Conceição É a nossa protetora
É quem nos dá vida e saúde E é a nossa defensora Vamos todos meus irmãos Vamos cantar com amor Vamos todos nós louvar A Jesus Cristo Redentor Jesus Cristo Redentor Filho da Virgem Maria É quem nos dá a Santa Luz E o nosso pão de cada dia
SEXTA-FEIRA SANTA
Sou filho, sou filho, Sou filho do Poder
A minha Mãe me trouxe aqui Quem quiser venha aprender
Vou seguindo, vou seguindo Os passos que Deus me dá A minha memória divina Eu tenho que apresentar A minha Mãe que me ensina Me diz tudo que eu quiser Sou filho desta verdade E meu Pai é São José A Sexta-feira Santa
Guardemos com obediência Três antes e três depois Para afastar toda doença
ENCOSTADO A MINHA MÃE
Encostado a minha Mãe E meu Papai lá no astral Para sempre eu quero estar Para sempre eu quero estar Minha flor minha esperança Minha rosa do jardim
Para sempre eu quero estar Com minha Mãe juntinho a mim Eu moro nesta casa
Que minha Mãe me entregou Eu estando junto com Ela Sempre dando o seu valor Fazendo algumas curas Que minha Mãe me ordenou De brilhantes pedras finas Para sempre aqui estou
SOU FILHO DO PODER
Sou filho do Poder E dentro desta casa estou Fazendo os meus trabalhos Que minha Mãe me ordenou Eu pedi a meu Pai
Me deu o consentimento Trabalhar para os meus irmãos Aqueles que estão doentes Confessa a consciência E alegra teu coração
Que esta é a verdade
Que eu apresento aos meus irmãos
DOU VIVA A DEUS NAS ALTURAS
Dou viva a Deus nas alturas E a Virgem Mãe nosso amor Viva todo Ser Divino
E Jesus Cristo Redentor Eu peço a Deus nas alturas Para Vós me iluminar Botai-me no bom caminho E livrai-me de todo mal Eu vivo aqui neste mundo Encostado a este Cruzeiro Vejo tanta iluminária Do nosso Deus Verdadeiro Esta iluminária que eu vejo Alegra o meu coração Estas flores que recebemos Para nossa Salvação
QUEM PROCURAR ESTA CASA
Quem procurar esta casa Que aqui nela chegar
Encontra com a Virgem Maria Sua saúde Ela dá
Minha Sempre Virgem Maria Perdoai os filhos Seus
Vós como Mãe Soberana A Divina Mãe de Deus Eu peço a Vós bem contrito Fazendo as minhas orações Peço a Vós a Santa Luz Para iluminar o me perdão Aqui dentro desta casa Tem tudo que procurar Seguindo o bom caminho Fazer bem, não fazer mal
SELEÇÃO DO PADRINHO SEBASTIÃO
HINÁRIOS – “O JUSTICEIRO” E “NOVA JERUSALÉM”
EU VIVO NA FLORESTA
Eu vivo na floresta Eu tenho os meus ensinos Eu não me chamo Daime Eu sou é um ser divino Eu sou um ser divino
Eu venho aqui para te ensinar Quanto mais puxar por mim Mais eu tenho que te dar Muito eu tenho que te dar E também tenho para te dizer Quem tem dois olhos enxerga Mas os cegos também vêem Os ensinos da Rainha Todos eles são divinal Eles são das cortinas Lá do alto do astral
Eu te entrego estes ensinos Como que seja uma flor Gravai bem no teu peito Este tão grande amor Este tão grande amor
É para todos os meus irmãos Os ensinos da Rainha
E do Mestre Juramidam Meus amigos e meus irmãos Todos vão gostar de ver Que aqui neste salão Tem muito que se aprender Aquele que não aprender É porque não presta atenção Muito terá que sofrer Aqui na reunião O Mestre e a Rainha Eles têm um grande amor Eles estão fazendo paz Como Cristo Redentor
Jesus Cristo veio ao mundo E sofreu até morrer
Mas deixou os seus ensinos Para quem quiser aprender
PRINCESA JANAÍNA
Jesus Cristo está no céu Está na terra, está no mar A Princesa Janaína Ela veio para me ensinar Os ensinos da princesa Todos eles têm valor
Vamos louvar ao Pai Eterno E a Jesus Cristo Redentor Jesus Cristo foi o maior Rei Que neste mundo habitou Jesus Cristo está em mim Ele é meu protetor
Jesus Cristo Filho de Deus Ele é bom curador
Ele cura todo mundo Que souber dar o seu valor Estou aqui neste salão Eu vim aqui para me curar Peço força ao Pai Eterno Ele é quem tem para nos dar A Princesa Janaína
Ela tem todo valor Ela ama ao Pai Eterno E a Jesus Cristo Salvador
O POVO ESTÃO REBELDES
O povo estão rebeldes Que não querem acreditar Meus irmãos e minhas irmãs Estou aqui para aconselhar Vá à casa do meu Mestre Que lá tem o que te dar Te dá força, te dá saúde Te dá o que precisar Vou tomar o teu conselho E na estrada eu já me vou
Fui chegando e fui pedindo Padrinho me cure esta dor Fui chegando e fui pedindo Na estrada do astral
Encontrei com a Rainha Na vida espiritual
Eu queixei-me a minha Mãe Eu me acho tão doente As portas estão abertas Para curar os inocentes A Rainha me pegou E me tirou da solidão Todos que fizerem assim Vem ficar no meu salão
A BARQUINHA
A barquinha vem seguindo Vem na minha direção O povo que eu vejo nela É da Virgem da Conceição A Rainha nos mandou Para todos nós louvar E louvar o filho dela No dia que Ele chegar Vou seguindo, vou seguindo Vou na mesma embarcação Vou seguir com a Rainha E o Império Juramidam Vou subindo, eu vou subindo Até aonde eu posso ir
Encontrar com Jesus Cristo Que é a flor deste jardim Sinto dor, eu sinto dor Tenho prazer no coração De me achar reunido Aqui com os meus irmãos O Mestre manda se bailar Aqui neste salão
E trabalhar com firmeza Firmeza no coração O Mestre nos ensina Para todos aprender
No dia da audiência
É que vão nos gostar de ver Aquele que aqui vier E não prestar atenção Terá muito que sofrer Na Sua Separação
QUANDO TU ESTIVER DOENTE
Quando tu estiver doente Que o Daime for tomar Te lembra do ser divino Que tu tomou para te curar Te lembrando do ser divino O universo estremeceu A floresta se embalou Porque tudo aqui é meu Eu já te entreguei Agora vou realizar
Se fizeres como eu te mando Nunca hás de fracassar Tu já viste o meu brilho E já sabes quem eu sou Agora eu te convido Para ires aonde estou
PEÇO FORÇA
Peço força, lá vem força Deus do céu foi quem mandou Jesus Cristo está comigo Ele é meu protetor Jesus Cristo está na terra Ele é bom curador
Ele cura quem lhe procura Pois Ele é o triunfador Ele cura quem lhe procura Conforme o seu merecer
Que nem todos estão nas graças Para as curas receber
MEU MESTRE ME ENSINA
Meu Mestre me ensina Eu devo aprender
Trabalhar com firmeza Para não ver o corpo sofrer Venerando é meu Mestre E ninguém quer conhecer Tombar e balançar Para todo mundo ver Trabalho com respeito Dentro da soberania
Meu Mestre é quem me ensina Meu Mestre é o meu guia Meu Mestre me dá força A força Ele me dá Ninguém não acredita Depois vão acreditar O Mestre nos ensina Ninguém quer se condoer A febre do amor
É difícil de compreender Ele está nas alturas E Ele aqui está Curando e batizando Todos que aqui chegar
EU VIM DA MINHA ARMADA
Eu vim da minha armada E dentro desta casa estou Trabalho com firmeza Que meu Mestre me mandou Com Ele eu tenho tudo E Com Ele eu tenho prazer Amostro a meus irmãos Aqueles que merecer O tempo não engana Eu agora vou dizer
Muitos que estão zombando É para depois ir sofrer Que meu Mestre não engana Ele aqui nunca enganou Se alguém não aprendeu Foi porque nunca ligou
PEGUEI NA MINHA ESPADA
Peguei na minha espada Foi para guerrear
Eu tenho força eu tenho tudo Que meu Mestre é quem me dá Vejo tudo tremer
Vejo o povo zombar
Eu tenho força eu tenho tudo Que meu Mestre é quem me dá Entrei em conferência
No meio da multidão
Eu tenho força eu tenho tudo Com meu Juramidam
Todos prestem atenção No que eu vou dizer
Que as palavras que Ele disse Tudo vai acontecer
Aqui estou dizendo Para todos compreender É andar direitinho
Para não ver o corpo sofrer
BEIJA-FLOR
É Beija, é Beija-Flor
Que minha Mãe me entregou Para afastar as doenças De quem for merecedor Meu Mestre está comigo Pois ele é meu amor É no céu e na terra Jesus Cristo Salvador Oh meu Juramidam Foi Ele quem me mandou Para relembrar lembranças Da salvação do amor Meu Mestre está comigo Mesmo aqui aonde estou É a glória do meu Pai Jesus Cristo Redentor Eu digo tá, eu digo tá Eu digo tá e aqui estou