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A psicose e sua constituição estrutural

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Academic year: 2021

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PEDRO HENRIQUE PEREIRA VIEIRA DA ROSA

A PSICOSE E SUA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL

SANTA ROSA 2016

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PEDRO HENRIQUE PEREIRA VIEIRA DA ROSA

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO A PSICOSE E SUA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia à Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, como requisito parcial à obtenção do titulo de Bacharel em Psicologia.

ORIENTADOR: PROF.ª MARCELE TEIXEIRA HOMRICH RAVASIO

SANTA ROSA 2016

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PEDRO HENRIQUE PEREIRA VIEIRA DA ROSA

A PSICOSE E SUA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL

BANCA EXAMINADORA

________________________________________ Profª. Dr. Marcele Teixeira Homrich Ravasio

________________________________________ Profº. Dr. Gustavo Héctor Brun

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AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais, meus irmãos, à Jéssica e a minha Tia Olga pelo apoio de sempre, me incentivando, motivando e reconhecendo o valor das minhas forças direcionadas para a melhor produção possível desta pesquisa.

Agradeço também a minha Profª Orientadora Marcele Homrich Ravásio pela confiança, atenção e generosidade ao me orientar academicamente na produção deste trabalho.

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“Não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.”

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A PSICOSE E SUA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL

PEDRO HENRIQUE PEREIRA VIEIRA DA ROSA

MARCELE TEIXEIRA HOMRICH RAVASIO

RESUMO

O seguinte trabalho acadêmico ancora-se no direcionamento dos saberes acerca do que e como se consiste a formação psicótica, bem como suas principais raízes etiológicas no sujeito até a sua maneira de constituir-se psiquicamente. Com o intuito de explicar e explanar acerca dos trâmites inerentes constituição da estrutura psicótica, o texto referencia-se sobre um apanhado bibliográfico advindo de obras clássicas e também autores contemporâneos da teoria psicanalítica. Primeiramente, apresenta-se um esclarecimento das diferentes formas de diagnosticar um sujeito, diferenciando o diagnóstico fenomenológico do diagnóstico estrutural. Posto à par da estrutura do sujeito, recém referenciada, o estudo narra a constituição do sujeito enquanto os encargos dos enlaces edípicos da constituição, podendo, por fim, esclarecer quanto ao modelo errante da psicose no que concerne ao estruturar-se, onde, através da falha da função paterna no processo edípico, a foraclusão põem-se como constituinte fundamental da estruturação psicótica.

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ABSTRACT

The following scholarly work is anchored in directing the knowledge about what and how psychotic training consists, as well as its main etiological roots in the subject up to the psychic constitution. With the purpose of explaining the inherent procedures of the psychotic structure, the text refers to a collection of bibliographies from classical works and contemporary authors of psychoanalytic theory. Firstly, a clarification of the different ways of diagnosing a subject is presented, differentiating the phenomenological diagnosis from the structural diagnosis. In keeping with the structure of the subject, recently referenced, the study narrates the constitution of the subject as the burden of the Oedipal bonds of the constitution, and, finally, can clarify the wandering model of psychosis in what concerns the structuring, where, through the failure of the paternal function in the Oedipal process, the foraclusion becomes as fundamental constituent of the psychotic structuration.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 8

1 DIAGNÓSTICO ESTRUTURAL ... 11

1.1 DIAGNÓSTICO FENOMENOLÓGICO ... 11

1.2 DIAGNÓSTICO ESTRUTURAL ... 14

2 A ESTRUTURA DO SUJEITO PSÍQUICO... 20

2.1 O ACOLHIMENTO MATERNO E A ALIENAÇÃO AO DESEJO DO OUTRO ... 20

2.2 TRÍADE EDIPIANA: A NOMEAÇÃO DA FIGURA PATERNA ... 26

3 A ESTRUTURA PSICÓTICA ... 34

3.1 FORACLUSÃO ... 36

3.2 A SUSTENTAÇÃO DO SUJEITO PSICÓTICO - A METÁFORA DELIRANTE .... 41

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 47

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INTRODUÇÃO

Este trabalho visa pesquisar o entendimento do modelo de estruturação psicótica do sujeito, dentro dos referenciais psicanalíticos freudolacanianos de entendimento psíquico. A estrutura psicótica é posta a analise e argumentação, fundamentada por uma pesquisa literária alicerçada por uma bibliografia quase que essencialmente formada por autores psicanalíticos, autores e comentadores, principalmente, guiados pelas obras angulares de Sigmund Freud e Jacques Lacan, também referenciados neste trabalho acadêmico. Os principais temas abordados são os conceitos fundamentais da psicanálise, mais aprofundados no que se refere à psicose e seus principais pilares conceituais de entendimento, tais como a foraclusão e a relação do sujeito com o significante Nome do Pai, que levam a formação psíquica da estrutura psicótica, constituída através de um delírio central, na busca de organizar um sujeito em falha no âmbito da castração da lei paterna.

Como se dá este modelo de estrutura psicótica do sujeito é a grande questão levantada nesta construção acadêmica, onde, a resposta revela-se na condução da agência paterna nos processos de formação do psiquismo, agência esta, fundamentada pela falha, pela ausência simbólica desta função alicerce no processo constituinte. Dentre os objetivos deste trabalho, está o esclarecimento do que de fato é uma modelo de estrutura psíquica de um sujeito, como se dá esta formação estrutural e, por fim, qual é a força angular de formação estrutural especificamente psicótica, fundada na foraclusão do Nome-do-Pai.

Ante a pensar o entendimento da psicose estrutural, o primeiro capítulo trata, basicamente do objetivo de contextualizar quanto a uma analise peculiar à que se chama de estrutura psíquica de um sujeito. Ao decorrer de um apontamento estrutural, posto ao diagnóstico propriamente dito, é preciso percorrer o esclarecimento da diferença entre o diagnóstico médico fenomenológico e a visão clínica psicanalítica de um diagnóstico de estrutura. Aqui, autores como Freud, Alfredo Jerusalinksy, Joel Dör, Contardo Calligaris, entre outros, serviram de posse bibliográfica para as referencias citadas na construção do texto. O estudo inicial deste primeiro capítulo, proposto a situar quanto às competências de uma estrutura psíquica, é, assim como todo o restante da obra, uma construção teórica,

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fundamentada por um apanhado literário baseado em obras e autores correspondentes à teoria psicanalítica da formação da subjetividade.

O trabalho é uma teorização acerca do modelo de estruturação psíquica do sujeito, que, após esclarecer quanto ao diagnóstico estrutural – ora, quanto ao que é de fato uma estrutura psíquica – esmiúça a constituição e gênese deste modelo estrutural de leitura do sujeito. O segundo capítulo aborda a cronologia e a particularidade da estruturação, revelando desde o acolhimento do sujeito pelo Outro, ente materno, passando pelas posições de ser o falo, para ter o falo, de acordo então, com a ordem da instauração paterna. É, portanto, o modelo edípico de relações inconscientes, atribuídas às formações da construção subjetiva, que ancoram a base teórico-literária deste capítulo.

Dividindo a gênese constitutiva entre a relação da criança com a mãe, referência de Outro, e a conjuração da ação simbólica da figura do pai, o capítulo fundamentou-se em obras lacanianas e referências a outros autores, como Jerusalinsky (2002), ao trazer todo um amparo quanto a primordial ação de acolhimento materno e a ação da relação fusional da criança com o grande Outro. Para o segundo ponto, dentro ainda deste capítulo voltado às indulgências de um modelo estrutural de constituição, apresenta-se a simbólica força de ação da figura paterna, castrando e organizando o sujeito enquanto sujeito de fato, conforme uma ordem simbólica de função fálica. Este esclarecimento, quanto à introdução da figura paterna na ordem das relações edipianas, se constrói através de autores fundamentais como Dör (1989, 1991), Nasio (1997), Lacan (1988) e demais comentadores pós-lacanianos.

Posto que, aqui o trabalho é direcionado, totalmente às questões inconscientes da elaboração psíquica, trazendo temas invariavelmente inerentes à construção dos enlaces edipianos e suas consequências, como engrenagens fundamentais do entendimento da subjetividade estrutural do sujeito. É desta forma, aqui apresentada, portanto, a orientação do interesse desta produção acadêmica, de um cunho psicanalítico quanto às questões e argumentações propostas. A leitura estrutural que aqui se faz, é fundamentalmente relacionada à clínica estrutural do sujeito.

Por fim, uma vez que já construído o caminho quanto ao conhecimento e ao entendimento das constituintes fundamentais da gênese estrutural do sujeito, aponta-se, portanto, a proposta da estrutura psicótica na formação deste sujeito. No

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terceiro capítulo, se faz o estudo da etiologia e das fundamentais instituições que regem a psicotização estrutural, atribuindo a esta, a máxima da foraclusão do Nome-do-Pai, ausente enquanto agente da ação simbólica paterna e castradora. Através do entendimento, a priori, da constituição neurótica (dada como a “normal”, de acordo com segundo capítulo), pode-se partir à leitura do entendimento da constituição não neurótica, mas sim a psicótica, argumentada em cima de conceitos fundamentais como a foraclusão e a metáfora delirante.

Lacan (1988) traz a psicose aos seus Escritos, Freud (2006), anteriormente narrara o Caso Schereber (âncora da análise dos enquadramentos referenciados a falha da figura paterna) e Calligaris (2013) esmiúça todas as particularidades da psicose ao elucidá-las na sua obra Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses. Tais autores, somados a Dör (1991) e Soler (2007), também contemporâneos as obras lacanianas, embasam o estudo proposto às inerentes constitutivas da psicose enquanto modelo estrutural. O apanhado teórico aqui apresentado, referencia uma modelo de análise que passa da foraclusão à ação da metáfora delirante (bem como seu delírio de sustentação e a injunção da crise no psicótico).

A Psicose enquanto estruturação frente à alienação ao desejo do Outro, é o que este trabalho busca, portanto, esclarecer, de acordo com os trâmites da constituição psíquica do sujeito, estruturando-se através da ideia da foraclusão, conceito psicanalítico fundamental no entendimento das psicoses. Aqui, o intuito é entender o modo de se constituir do Eu psicótico, ausente do referencial paterno, castrador.

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1 DIAGNÓSTICO ESTRUTURAL

Ao falar de um sujeito, em âmbito profissional, seja no ramo da psicologia ou da psiquiatria, é falar neste sujeito, sobretudo, dentro do que este tem a apresentar como produtor do material que será posto em julgamento do profissional que o ampara. Quanto ao potencial de conhecimento e o agir deste profissional, sabe-se que, de acordo com a identidade teórica assumida dentro dos padrões de tratamento e condução do processo terapêutico, cabe um modelo de diagnóstico específico que se enquadre adequadamente a esta abordagem específica. A medicina e a clínica psicanalítica diferem muito, neste modelo de balizamento quanto ao ler e entender o sujeito ao que se atem. A prática médica assume a posição de propor o estudo e a condução da ação médica psiquiátrica dentro de um modelo classificatório descritivo presente em manuais, já a clínica psicanalítica propõe a analise estrutural do sujeito, focando em seu subjetivo modelo de discurso e de relacionamento com o outro.

Propor o entendimento do sujeito psíquico requer primeiramente à distinção entre os modelos de ler este sujeito, bem como as diferentes abordagens classificatórias ao qual caberá entende-lo. Jerusalinsky (2011) aborda as diferentes formas de posicionamento frente aos modelos de entendimento da psicopatologia contemporânea, diferenciando, portanto os padrões classificatórios do positivismo fenomenológico, proposto no campo médico pelo CID-10 e ainda pelo DSM-IV, da leitura psicanalítica do sujeito, conduzida pela escuta, embasada nas teorizações pós-freudianas de analise do sujeito. O debate contemporâneo acerca das diferentes formas de analise e diagnóstico caminha concomitante ao ato terapêutico em si.

1.1 DIAGNÓSTICO FENOMENOLÓGICO

Partindo da proposta positivista que acompanha a analise do fenômeno, apresentamos o diagnóstico psiquiátrico, como aquele que se faz possível através da percepção concreta de um sintoma aparente. Machado (1999) nós aponta que a medicina, baseada na fenomenologia apresentada no corpo, requer um estudo criterioso e de possível classificação universal, a fim de enquadrar o padrão sintomático em um sistema organizado no qual o médico ira se ancorar ao diagnosticar os fenômenos que lhe são apresentados.

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A conduta do tratamento psiquiátrico, de acordo com este modelo de diagnóstico baseia-se, no diagnóstico do sintoma revelado pelo corpo, no fenômeno que se apresenta ao médico.

Um diagnóstico é um ato médico mobilizado por dois objetivos. Primeiramente, um objetivo de observação destinado a determinar a natureza de uma afecção ou uma doença, a partir de uma semiologia. Em seguida um objetivo (...) que permite localizar um estado patológico no quadro de uma nosografia. (DOR, 1991, p.13).

Sendo assim, o estudo e o tratamento da patologia se fazem de modo a se definir, a priori qual a patologia constada, para então poder conduzir o tratamento adequado ao quadro apresentado. Contudo, este processo de diagnostico do fenômeno deve seguir os modelos presentes nos sistemas internacionais de classificação – a Classificação Internacional das Doenças (CID), da Organização Mundial de Saúde, 10ª revisão (CID 10) e o Manual Diagnóstico e Estatístico dos

Transtornos Mentais, 4ª edição (DSM-IV).

O modelo de diagnóstico através dos padrões estatísticos do DSM, presente na psiquiatria, classifica o sintoma, ou o conjunto de sintomas, dentro de um quadro

sindrômico, recorrente de um quadro nosológico que compõem a patologia

observada. Dor (1991) afirma que este modelo de investigação médica põe-se em curso, primeiramente, através de uma anamnese investigativa e direcionada, onde, através desta entrevista inicial, busca-se perceber os sintomas apresentados pelo paciente. Posteriormente, o médico utiliza-se de ferramentas adequadas para o prosseguimento da busca diagnóstica, fazendo uso de exames e procedimentos adequados que o auxiliem a fazer a leitura correta dos sintomas, tais como mediadores técnicos, instrumentais e biológicos.

Neste sentido, Machado esclarece:

O diagnóstico em psiquiatria prevê, de modo geral, uma coleta de dados a respeito do paciente e de sua história clínica para, a partir deles ser possível uma classificação. Baseados nestes dados, será feita uma hipótese diagnóstica que vai levar a um diagnóstico provisório, este, por sua vez, dará origem ao diagnóstico definitivo. (MACHADO, 1999, p.55).

O enquadramento dos sintomas dentro de um modelo padrão tem por objetivo o caráter emergencial de sanar com este quadro patológico aparente, onde cada

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patologia constatada adéqua-se a um padrão de tratamento a ser seguido, seja ele farmacológico, psicoterapêutico ou ambos.

Figueiredo (2002) nos apresenta dois tipos de diagnósticos presentes neste modelo psiquiátrico de conduta de classificação nosográfica. Segundo o DSM, o médico pode estabelecer um Diagnóstico Sindrômico, o qual se caracteriza por não decorrer acerca da doença em si, em sua etiologia, mas sim no conjunto de sintomas e sinais apresentados. Dentro da psiquiatria, um quadro sindrômico delirante-alucinatório (caracterizado por delírios e alucinações de diversas naturezas), por exemplo, pode estar presente em uma esquizofrenia, em uma psicose maníaco-depressiva (segundo os termos psiquiátricos atuais, um transtorno afetivo de bipolaridade) ou ainda em uma psicose reativa breve. O Dignóstico Sindrômico seria, portanto o levantamento do quadro sintomático apresentável, decorrendo acerca dos sintomas (delírios e alucinações, conforme o exemplo à cima).

Do mesmo modo em que se faz o enquadramento sintomático dissociado da enfermidade que o produz, o médico deve buscar um modelo de classificação que o esclareça da patologia de fundo que origina este conjunto de fenômenos. Um modelo de diagnóstico que o oriente acerca da moléstia investigada, um padrão de apontamento de Diagnóstico Nosológico. Neste, o objetivo é classificar a enfermidade, diagnosticando então, conforme o DSM, a patologia apresentada pelo sujeito, dentro dos padrões estatísticos e classificatórios cujo qual esta se compõem no campo da medicina fenomenológica. A autora Ana Figueiredo Machado aponta para o objetivo desta diferenciação de classificação:

O primeiro objetivo desta distinção estaria em orientar a clínica mais imediata, no sentido de sistematizar, pelo diagnóstico sindrômico, os sintomas que devem ser atacados, sobretudo porque as terapêuticas psiquiátricas são sintomáticas. (...) O diagnóstico sindrômico teria ainda a função de orientar o próprio diagnóstico nosológico, uma vez que certas síndromes não ocorrem em certas patologias. (FIGUEIREDO, 2002, p.33).

O tratamento de caráter emergencial consequente do diagnóstico sindrômico tem então por objetivo sanar os sintomas e sinais apresentados pelo paciente, a fim de conter quaisquer que sejam as ações patológicas agindo. Um exemplar plano de ação terapêutica baseada neste diagnóstico seria o uso de psicofarmacos antipsicóticos na contenção de alucinações e delírios enquanto sintomas positivos,

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lembrando que este tratamento não estaria curando a enfermidade causadora destas ações no sujeito.

Uma vez que o diagnóstico nosológico busca a identificação da natureza propriamente dita da doença, este, orienta a intervenção médica à longo prazo, segundo Machado (1999). Esta visão mais aprofundada da patologia permite o entendimento do quadro nosográfico em questão, a ponto de estabelecer um prognóstico de tratamento e uma conduta médica de maior alcance, no que diz respeito ao tratamento da etiologia da enfermidade.

O diagnóstico fenomenológico, portanto como ferramenta fundamental na condução da ação médica, classifica e enquadra o sujeito e seus sintomas positivos dentro dos referenciais descritivos presentes no DSM e no CID. A fim de tratar estes sintomas, sanando as suas ações no corpo, o médico faz uso de fármacos ou não, bem como uma terapêutica psiquiátrica adotada, independe da analise clínica subjetiva da causalidade da enfermidade, focada no apontamento objetivo e pragmático descrito nos manuais, adotando uma postura de controle sintomático, sem que se busque entender a origem singular destes sintomas no contexto particular do sujeito.

Dor (1991) nos referencia, de maneira crítica, remetendo-se ao sucesso desta intervenção médico-terapeutica correlacionando a prática médica diretamente à regularidade e fixidez das enfermidades agindo no corpo em contra-ação dos objetivos nosológicos dos fármacos utilizados, ou seja, o tratamento médico, se faz eficaz a medida em que este sana as ocorrências positivas diagnosticadas. Ora, este modelo de diagnóstico então, assume a postura rígida de classificar e ordenar, objetivando de fato a minúcia sintomática descritiva e objetiva, sem fazer-se necessária a contextualização singular de cada sujeito para com estas atribuições patológicas.

1.2 DIAGNÓSTICO ESTRUTURAL

O DSM, como ferramenta objetiva e estatística de classificação nosográfica, portanto, municia o campo da clínica psiquiatrica com descrições específicas e organizadas dentro de um padrão universal, porém, aquém de qualquer interesse de constatação subjetiva que revele algo inerente à singularidade do sujeito. No campo da clínica psicanalítica, por outro lado, antes mesmo de buscar o diagnóstico

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estrutural, é de fundamental esclarecimento a noção de que a singularidade de cada sujeito condiz com seus sintomas e discursos apresentados, baseados estes, nas construções inconscientes determinantes unicamente a este sujeito específico.

Uma determinação assim, do diagnóstico, no campo da clínica psicanalítica, torna-se, de antemão, impossível, pela razão da própria estrutura do sujeito. A única técnica de investigação que analista dispõe é a sua escuta. Tanto quanto caduca a noção de investigação armada, permanece essencialmente verbal o material clínico fornecido pelo paciente. Será, então, de imediato na dimensão do dizer e do dito que se delimitará o campo de investigação clínica. (DOR, 1991, p.14)

Tendo então este trecho de Jöel Dor como referência de um ponto de partida no esclarecimento de um diagnóstico estrutural baseado na fala e no discurso proposto pelo paciente, é imprescindível alentar de antemão, que, de acordo com Freud (2006) é de suma importância o esclarecimento da noção de que o diagnóstico estrutural na clínica da escuta se faz junto ao caminhar e ao desenvolvimento do tratamento. O diagnóstico estrutural, se confirma à medida em que o terapeuta avança em seus encontros com o paciente, o que, para Freud e suas orientações quanto aos métodos psicanalíticos, se apresenta de maneira paradoxal, uma vez que o mover do tarapeuta em direção da cura se dá através do estudo da estrutura, este sucesso se fará decorrente da confirmação que só virá após algum tempo de tratamento e de conhecimento de caso.

A ação da clinica psicanalítica sobre tudo, não deve ancorar-se apenas na identificação do diagnóstico da estrutura do sujeito, como seu grande e principal objetivo, uma vez que a interpretação de um psicólogo analista deva ser ímpar quanto ao levantamento diagnóstico. Se assim não for, as alusões aos procederes médicos em seus derivados campos de atuação determinariam, da mesma forma, a clínica analítica. O diagnóstico estrutural não assume, pragmaticamente, uma posição de conclusão, vedando o manejo do tratamento ou enquadrando o sujeito dentro de um perfil estrutural sem qualquer possibilidade de novo posicionamento diagnóstico, pelo contrário, o proceder na clínica da escuta, se faz de maneira a estar sempre aberto às novas significações trazidas pelo sujeito.

Na clínica analítica, o ato diagnóstico é necessariamente, de partida, um ato deliberadamente posto em suspenso e relegado ao devir. É quase impossível determinar, com segurança, uma avaliação diagnóstica, sem o apoio de certo tempo de análise. Mas é preciso, no entanto, circunscrever (...) uma posição diagnóstica para decidir quanto á orientação da cura. (DOR, 1991, p.15)

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Na clínica, a avaliação do analista é essencialmente subjetiva, municiada apenas pela escuta do livre associar de ideias do paciente, sendo de fato o dizer do sujeito o verdadeiro expositor da sua determinante estrutural. A linguagem, constituinte desta determinação inconsciente do sujeito, carrega consigo todo o modelo de organização deste frente aos significantes de desejo e as relações de posição frente ao Outro, cujo qual, veremos mais adiante. É através da fala, que o discurso do paciente apresenta este, em suas instâncias intersubjetivas, ao conhecimento daquele que lhe escuta. Propor então o diagnóstico estrutural de acordo com o Freud (2006), parte do dizer e do dito como pontos de atenção do analista, dotado este, portanto, de uma escuta flutuante, sem inclinadores, preconceitos críticos ou posições de julgamento. Ao escutar, se escuta de maneira aberta à subjetividade do discurso do paciente, aquém do seu sintoma, voltando as atenções ao espaço intersubjetivo deste que fala.

A descontinuidade entre a observação do sintoma e a avaliação diagnóstica, impõem que se recentre o problema diferentemente, sobre tudo à luz da especificidade dos processos inconscientes, que não podem ser objeto de uma observação direta sem que se exija a participação ativa do paciente, quer dizer, uma participação de palavras. (DOR, 1991, p.20)

A linguagem revela o inconsciente, e é através dela que o sujeito se organiza frente ao mundo externo. Todo o seu modo de relação objetal e de prazer move-se de acordo com os determinantes inconscientes. Segundo Dor (1991), ao citar Lacan “(...) o sintoma se resolve inteiro numa análise da linguagem, porque é ele próprio estruturado como uma linguagem, ele é linguagem, da qual a palavra deve ser liberta”. Portanto, deve-se pensar na clínica da escuta como a relação da dinâmica de condução e interpretação da palavra, onde esta mesma irá revelar o que de fato pertence a este que a fala. A clínica do diagnóstico de estrutura utiliza-se da fala do paciente e da escuta do profissional como única e primordial ferramenta de condução de tratamento e de elaboração de diagnóstico ao mesmo tempo, coatuando de maneira singular à cada encontro com o paciente.

É importante pensar aqui, no que se refere a este modelo diagnóstico de estrutura psíquica, que o sujeito posto, ainda que dentro de seu posicionamento singular de determinantes subjetivos, como um sujeito que parte de um modo de relação causal de ações psíquicas pré-conhecidas de funcionamento e organização, o que permite, de fato, balizá-lo dentro destes modelos referenciáveis de posição.

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Segundo o autor Joël Dor, entender este padrão concerne um pilar fundamental no entendimento da psicanálise estrutural como um todo.

Não estamos num campo de interações puramente empáticas ou de influências sugestivas. A psicanálise se definiu, precisamente em usa especificidade, tão logo Freud conseguiu arrancar suas intervenções próprias do domínio das sugestões. Cabe, pois pensar que em uma certa topografia das afecções psicopatológicas pode, no entanto, se definir. Essa topografia advém principalmente de um certo modo de balizamento que deve levar em conta as propriedades mais fundamentais do seu objeto: a causalidade

psíquica e, mais particularmente, o caráter imprevisível dos efeitos do

inconsciente. (DOR, 1991, p.15-16)

É inerente, portanto, à prática clínica procurar, ainda que sem o mesmo cunho investigativo da conduta da medicina fenomenológica, a relação causal dos sintomas especificamente percebidos com a identificação de um diagnóstico que faça luz a origem e à organização destes sintomas.

De fato, a especificidade da estrutura de um sujeito se caracteriza, antes de mais nada, por um perfil pré-determinado de economia de energia do seu desejo, que é governada por uma trajetória esterotipada. São semelhantes trajetórias, estabilizadas (...) por assim dizer, traços estruturais. (DOR, 1991, p.21-22)

Esta conclusão acima, dita ao diagnóstico estrutural, deve, sobretudo, ater-se à diferenciação do que é o sintoma, bem como do que é, de fato, um traço próprio da estrutura.

(...) As referências diagnósticas estruturais aparecem, então, como indícios codificados pelos traços da estrutura, que são, eles próprios, testemunha da economia do desejo. Donde a necessidade, para analisar o caráter operatório do diagnóstico, de se estabelecer claramente a distinção que existe entre os “sintoma” e os “traços estruturias”. (DOR, 1991, p.22)

O sintoma, de acordo com Freud (2006), é posto como uma evidencia do eu, é uma ação pré-determinada ligada ao processo primário, que parte, portanto do inconsciente. É através do sintoma que o sujeito se faz ser, se revela ao outro e transborda-se de si mesmo. É a vazão dos significantes mais primitivos do eu, aludindo ao inconsciente que, puramente pulsional, exterioriza-se para fora do corpo. Um sintoma, de qual natureza fenomenológica for, seja de inscrição positiva no corpo, na fala, no sonho ou no chiste, carrega consigo uma infinitude de significantes condensados e ressignificados. Para Freud, o sintoma revela o sujeito e faz retornar à este, as vicissitudes de um inconsciente movido pelo princípio do

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prazer, atemporal e aquém da palavra, um inconsciente onde a coisa, retorna ao sujeito de maneira enigmática, a fim de poder então, de fato, vazar este eu.

(...) podemos compreender em que a natureza do sintoma sempre apenas um valor significativo tão aleatório quanto imprevisível. Enquanto formação do inconsciente, o sintoma se constitui, com efeito, por sucessivas estratificações significantes. Ora, nessa estratificação, a “seleção” dos significantes não obedece a qualquer princípio de escolha estável. (...) Os componentes significantes constitutivos no sintoma mantêm-se, então, diretamente tributários das “fantasias” do inconsciente. (DOR, 1991, p.22) O modelo de organização e estratificação dos significantes operacionais do eu, orienta a formação sintomática e é o que define, portanto, o modo de organização das fantasias do sujeito. O sintoma apresenta-se como rico em material próprio do sujeito, porém organiza-se de maneira tributária ao que entende-se como estrutura. O traço genuinamente estrutural atua regendo as formações dos sintomas e o modo como estes vão agir sobre o sujeito, modelando as relações deste com os mecanismos de ação do eu e as forças dos significantes inconscientes.

(...) podemos compreender em que a natureza do sintoma sempre apenas um valor significativo tão aleatório quanto imprevisível. Enquanto formação do inconsciente, o sintoma se constitui, com efeito, por sucessivas estratificações significantes. Ora, nessa estratificação, a “seleção” dos significantes não obedece a qualquer princípio de escolha estável. (...) Os componentes significantes constitutivos no sintoma mantêm-se, então, diretamente tributários das “fantasias” do inconsciente. (DOR, 1991, p.22) O modelo de organização psíquica do sujeito assume então uma determinação de ordem, relacionada ao modo como este sujeito irá relacionar-se com o Outro, com as pulsões de gozo e as escolhas objetais. Estes determinantes, inerentes à constituição única de cada estrutura, regram a formação dos agentes do eu e da organização da linguagem, portanto, são estes traços estruturais que conduzem o sujeito a formar-se psiquicamente, singularmente moldando seu discurso para com o objeto e o outro, bem como na formação dos sintomas.

Ao lado, todavia, da indeterminação relativa da escolha dos significantes que intervêm nesta formação do inconsciente, existe uma determinação incontrolável: trata-se de uma determinação cuja intendência do material significante se afetua apesar do sujeito. Esta intendência é característica do funcionamento da estrutura, ou seja, de um certo modo de gestão do desejo. (DOR, Jöel, 1991, p.22-23)

A prática da clínica psicanalítica, bem como os estudos da constituição do sujeito, segundo Freud (2006) atribuem à formação estrutural ao episódio das

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relações edipianas, posta ao sujeito durante a formação da sua sexualidade. É através do Complexo de Édipo, que o sujeito, ao relacionar-se com a tríade de papeis, propostos pela cena dinâmica das primarias relações afetivas de posição e de posse, que o sujeito irá, de maneira única e imutável, organizar-se segundo uma estrutura psíquica. A “escolha das neuroses”, segundo Freud (2006), é o momento da passagem do sujeito pela cena edípica, onde este estrurar-se-á conforme se der esta relação com o Outro e com as demais etapas de formação do sujeito psíquico.

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2 A ESTRUTURA DO SUJEITO PSÍQUICO

A estrutura do sujeito, no que tange aos limiares teóricos da psicanálise, apresenta um modelo de funcionamento psíquico ordenado pelas incumbências inconscientes, advindas das relações do sujeito para com a sua forma de economia e direcionamento da energia do desejo. Diz-se da estrutura, algo que nos revela o modelo de relação do sujeito com o objeto, seu modo de discurso frente ao outro e sua posição ante à castração paterna. Pensar o sujeito, organizado dentro do campo da linguagem e das relações edipianas, exige o entendimento da etiologia desta constituição, a priori da castração e instauração do desejo fálico. É importante ater-se aqui à noção de referência inconsciente ao qual ater-se direciona este modelo de narração estrutural, uma vez que são as funções e posições fálicas as quais nos direcionaremos, que serão, portanto, os ordenadores simbólicos do psiquismo que determinarão o entendimento da organização dos significantes do sujeito, proposto neste capítulo.

2.1 O ACOLHIMENTO MATERNO E A ALIENAÇÃO AO DESEJO DO OUTRO

O sujeito psíquico, ao que nos referimos, inaugura-se como significante no discurso dos pais antes mesmo de sua existência real. Freud (2006) nos relata acerca do valor significante objetal ao qual se atribui à imagem do filho ainda em processo biológico de sua concepção. No discurso parental, idealizado de uma espera dita como normal, de relações familiares, o bebê já passa pela energia do desejo dos pais durante todo o processo de sua formação. Ainda que a priori do acolhimento real do filho idealizado, os pais já lhe atribuem um nome, uma imagem construída de seus significantes e um valor imensurável de extensão narcísica para com o significante bebê. Pensar o mobiliar de um quarto, por exemplo, como ação de deposito da energia libidinal dos pais para com o filho, evidência de fato a ação real, advinda do desejo da idealização do bebê, a majestade suprema da extensão do desejo narcísico dos pais.

Carregada de valor significante, a criança, ao nascer, dentro do modelo funcional ao que propõem a psicanálise, faze-se prioridade da atenção materna, requerendo a si o direcionamento da ação da mãe, como primeiro e grande instaurador dos processos de relação entre o sujeito advir e o Outro. Segundo

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Jerusalinwski (2002), o sujeito, neste primeiro momento de sua existência, ainda não é, de fato, sujeito, mas sim um corpo orgânico vazio de forças psíquicas e mnêmicas. Aqui a criança encontra-se como um agente biológico carente de um acolhimento real, onde suas necessidades suprir-se-ão através de uma ação de outrem que lhe sustente de suas carências fisiológicas.

(...) a mãe não só estabelece a demanda do bebê – colocando em cena seu saber inconsciente para ler, para outorgar seu choro – ela produz outro movimento fundamental: após formular uma resposta à demanda do bebê, ela se certifica de que a significação que atribuiu a tal demanda tenha sido acertada. (JERUSALINSKI, 2002, p.137)

Esta demanda da criança para com este segundo agente de ação, revela o início do processo de constituição daquilo que virá a ser o eu, determinado pelas forças das relações deste sujeito com o Outro e suas consequências. A mãe inicialmente atribui, portanto, a sua demanda e seu investimento libidinal ao bebê, acolhendo-o, segundo a sua própria demanda de significação.

Neste movimento, ela supõe sujeito bebê, supõe nele um desejo que não necessariamente coincidiria com o dela. A mão sustenta uma suposição de sujeito desde muito cedo, ainda que as reações do recém-nascido são reflexas, carecendo de qualquer intencionalidade, ela está a super um desejo no bebê. (JERUSALINSKI, 2002, p.137)

Antes de prosseguir no decurso da relação entre a mãe e a criança, é extremamente necessário fazer-se aqui um esclarecimento do que pensamos para a função materna. Aqui, segundo Jerusalinski (2002), a mãe, a que nos referimos, não entende-se como a progenitora real, biológica ou não, de uso linguístico corriqueiro e trivial. Não estamos tratando da mãe culturalmente conhecida e utilizada no discurso social de função familiar real, mas sim do agente acolhedor e gerador da assistência imaginária inconsciente. Ora, uma vez que decorremos dos processos inconscientes de constituição do eu, adentramos no entendimento da Mãe como um posicionamento de ação e relação puramente psíquica, ainda que ligada ao papel real de satisfação. A função materna exerce na criança a noção de um Outro, um onipotente e referenciado o agente acolhedor que irá prover e suprir esta criança das incumbências que lhe serão pertinentemente demandadas a nível pulsional.

O percurso da pulsão – satisfação impossível da pulsão – não amarra o Outro (...) Na satisfação própria da zona erógena não se necessita nenhum Outro,

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mas no desejo e no amor sim. Aí é onde entra verdadeiramente a dimensão do Outro, não na pura pulsão, mas no enodamento da pulsão com o desejo. (CORIAT, 1995, p.119)

Pensar o entendimento desta relação inicial do bebê, ainda na posição de assujeito, com a mãe, requer uma analise prévia de como se forma esta relação entre os dois, ou seja, a relação entre o vínculo da satisfação pulsional, ligada à zona erógena do bebê, e o circuito de demanda e desejo da mãe, autuada aqui como o grande Outro. De acordo com Jerusalinski (2002), para o entendimento deste laço inicial, é necessário previamente entender e conhecer a fonte das inferências constituintes do bebê, ao qual chamamos de circuito pulsional. É preciso pensar um sujeito que seja originário - desde os primórdios das suas relações com o desejo e demanda do Outro – das suas próprias forças internas de busca por satisfação e gozo real. A fonte do desejo, que parte do corpo, precisa decorrer um percurso natural para que possa sanar a tensão pela busca por satisfação. É do corpo que parte a demanda de satisfação, onde, portanto advém a fonte e origem da vetorização que dará destino às vicissitudes pulsionais.

O objeto da pulsão é aquilo que ou pelo qual a pulsão pode alcançar sua meta, a satisfação. O objeto é o mais variável na pulsão: não esta enlaçado originalmente a ela, senão que é a ela coordenado somente como uma consequência de sua aptidão para possibilitar a satisfação (FREUD, 2006, p. 118)

A pulsão parte do corpo e a ele retorna, mas não sem ter uma representação psíquica que a represente, bem como, um objeto que possibilite esta busca por satisfação. E é no movimento de busca por satisfação que caracteriza-se a sua perpétua insatisfação, ou seja, é a noção e a marca da falta e ausência que constituem a noção de pulsão. Satisfazer-se, baixar a tensão e marcar-se pela falta compõem o circuito pulsional, que far-se-á de acordo com a relação do Outro ao suprir esta demanda pulsional do bebê, marcando-o mnímica e erogenamente.

Diante dos estímulos endógenos do bebê é preciso um Outro encarnado que atribui intenção de comunicação ao seu grito e, por meio de uma interpretação, produza uma ação específica capaz de satisfazê-lo. Se há interpretação é porque já há linguagem ali. Mas é evidente que a linguagem não se inscreve por si. Não basta colocar um bebê na frente do rádio ou da televisão. Para que o gozo do bebê se atrele ao Outro, como instância da linguagem, é preciso um endereçamento, é preciso um Outro que, ao tomar o bebê desde um desejo não anônimo e a partir do saber simbólico que a linguagem lhe permitiu constituir, opere corte e costura do funcionamento

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corporal do bebê, levando em conta o que o afeta e fazendo borda ao seu gozo. Se isto atrela o bebê ao campo do Outro, para que ele possa chegar a situar-se na condição de falante, e não como um mero repetidor ecolálico do que lhe é dito, será preciso que esse desejo não anônimo opere no laço mãe-bebê enquanto um enigma diante do qual, para a mãe, o mãe-bebê se situa como sujeito que supostamente deteria um saber. (JERUSALINSKY, 2002, p. 68).

O estimulo parte do corpo biológico, que precisa satisfazer-se e suprir esta demanda existente, que, somente através do objeto de satisfação, permitirá a baixa de tensão excitatória que causa a satisfação, porém, esta satisfação é caracaterizada, concomitantemente, pela insatisfação. O Outro, encarnado pelas incumbências da função materna, que marca e erogenisa o corpo do bebê, é detentor daquilo que satisfaz e ao mesmo tempo causa a angustia da falta, aquele que possibilita o gozo e o prazer, bem como a busca pelo mesmo.

A satisfação da pulsão não é absoluta, satisfação e insatisfação fazem uma série contínua (...) A satisfação como tal é impossível porque não se pode evitar que, ai ir pelo caminho que ela marca, se torne insatisfatória, já que não há complementariedade com o objeto. O circuito pulsional se descreve como um arco pois, como aponta Freud, a meta da pulsão é a satisfação que só pode ser alcançada cancelando o estado de estimulação na fonte da pulsão. Assim, a pulsão parte da zona erógena (que é sua fonte) e a ela retorna (para nela suprimir o estado excitação), sem nunca conseguir uma satisfação completa. (JERUSALINSKI, 2002, p. 146)

É, portanto, a relação com o Outro, bem como sua demanda e seu desejo significante que ditará o modelo de alienação do bebê para com este, ou seja, o acolhimento materno e a relação inicial entre a mãe e o bebê marcam as primeiras noções de satisfação, falta, desejo e vínculo, atribuídas todas, psiquicamente, aos traços mnêmicos oriundos desta relação. O sujeito, em sua jornada para tornar-se tal, requer ser demandado, acolhido e posto às mãos do desejo do Outro, que inaugura seu corpo e seu desejo por satisfação, guiado pela falta que este mesmo Outro lhe proporciona.

(...) os diferentes circuitos pulsionais de um bebê, podem vir a inscrever-se como mais extensos ou mais encurtados. O estiramento da corda pulsional pode ficar achatado sobre a zona erógena ou pode armar um longo circuito a partir dela, e isto dependerá do modo em que tal pulsão se articulo com o circuito de desejo e de demanda do Outro. (JERUSALINSKI, 2002, p. 147)

É este vinculo descrito na busca por satisfação pulsional e todas as vicissitudes desta vetorização, enlaçadas à articulação deste desejo aos cuidados

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inerentes da demanda e desejo do Outro que marcam o inicio da constituição psíquica.

Podemos pensar a constituição de um sujeito no bebê como o estabelecimento de uma dobra em relação ao discurso do Outro encarnado. Inicialmente, no bebê, trata-se de uma dobradiça que situa seu circuito pulsional de forma bastante pregada e muito pouca intermediada pelo gozo do agente materno. É por isso que, claramente, em bebês bem pequenos (antes do estágio do espelho) os sintomas produzidos precipitam-se em seu corpo, mas se sustentam através da representação inconsciente materna. (JERUSALINSKI, 2002, p. 143)

Ainda sobre o modelo de relacionamento primordial do traço constitutivo, Julieta Jerusalinski faz outra ressalva que esclarece a importância do enlace acolhedor do agente materno para com o bebê:

Ocorre que, se num primeiro momento, não se produz a articulação que atrela o circuito pulsional do bebê, esta superfície corporal, ao campo do desejo e demanda do Outro – se não se produz esta operação de alienação – este bebê não terá desde onde sustentar a sua identificação primordial – nem para que se produza o seu reconhecimento pelo traço unário (pela incorporação de uma constelação significante a partir do discurso do Outro), nem para constituir o seu Eu (identificação imaginária). (JERUSALINSKI, 2002, p. 144)

Uma vez que já há encarnado no bebê o vínculo da busca por satisfação e da erogenização do corpo advindo da relação com o Outro que lhe acolhe e lhe sustenta - dentro da cronologia da constituição do sujeito - faz-se luz este estudo, às características de alienação ao desejo do Outro ao qual prende-se este sujeito em formação, neste momento do seu processo de constituição psíquica. O momento em que nos encontramos, é a posição cujo qual Lacan nos apresenta como sendo o primeiro momento do enlaço da tríade Edipiana, aqui, ainda representada apenas pela dualidade mãe-bebê, progenitora da primeira noção de identificação (incumbências inerentes dos estágios do espelho) e constituição imaginária do sujeito advir.

A medida em que um bebê vai se constituindo psiquicamente e que vão comparecendo as diferentes aquisições de seu desenvolvimento, o rolo que vai sendo desdobrado, que vai sendo estendido é justamente o do encadeamento significante. A dobradiça então já não ficará tão radicalmente pregada sobre a mestria do gozo materno, e poderá começar a constituir-se nesta dobradura, como uma resposta própria do sujeito – pela operação da separação, ou do se separar, parar-se, defender-se diante disto que o Outro encarnado lhe propõe. Mas, num momento inicial, tal movimento não tem

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como se sustentar mais do que como uma resposta invertida à demanda materna. (JERUSALINSKI, 2002, p. 144)

Fora do enquadramento real de agentes funcionais, tampouco ainda da romantizada narração edípica freudina do amor entre o filho e a mãe, é na noção de alienação ao desejo do Outro que pensaremos este movimento da articulação simbiótica entre mãe e bebê, onde passaremos agora a analisar a vetorização constitutiva do sujeito, bem como as posições de ser, para ter o falo, uma vez que este movimento, de fato, articula a base estrutural de organização da demanda e economia de desejo no sujeito.

(...) a mãe, na qualidade de mulher, coloca seu filho no lugar de falo imaginário, e o filho, por sua vez, identifica-se com esse lugar para preencher o desejo materno. O desejo da mãe, tal como de toda mulher, é ter o falo. Assim a criança de identifica como sendo ela mesma, esse falo – mesmo falo que a mãe deseja desde que entrou no Édipo. Por isso a criança se aloja na parte faltosa do desejo insatisfeito do Outro materno, e assim se estabelece uma relação imaginária consolidada entre uma mãe que acredita ter o falo e um filho que acredita sê-lo. (NASIO, 1997, p. 42)

Neste primeiro momento de sua constituição, visto como a referencia inicial do complexo edipiano, a criança encontra-se, como vimos, presa ao desejo da mãe, encarnada a ser o falo, objeto de gozo materno, ou seja, aquela que detém o que e aquilo que a mãe demanda. Nesta primeira relação fusional da dialética dos enlaçamentos edípicos, Lacan (1988) nos apresenta àquele que virá a estruturar-se psiquicamente como desejante, ainda em uma posição de assujeitamento, alienado ao gozo materno, aquém de um discurso próprio de desejo identificatório.

(...) esta relação fusional é suscitada pela posição particular que a criança mantém junto a mãe, buscando identificar-se com o que supõe ser o objeto de seu desejo. Esta identificação, pela qual o desejo da criança se faz desejo do desejo da mãe, é amplamente facilitada, e até induzida pela relação de imediação da criança com a mãe, a começar pelos primeiros cuidados e a satisfação das necessidades. Em outras palavras, a proximidade dessas trocas coloca a criança em situação de se fazer objeto do que é suposto faltar à mãe. Este objeto suscetível de preencher a falta do outro é, exatamente, o falo. A criança depara-se, assim, com a problemática fálica em sua relação com a mãe, ao querer constituir-se ela mesma como falo materno. (DÖR, 1989, p. 81)

Ser o falo é estar, segundo ao autor, a mercê do gozo do Outro, é pôr-se tal qual aquilo que falta a mãe, encarnado a preenchê-la em sua demanda desejante. Dor (1991) afirma, com ressalva, que a interação dinâmica do desejo da mãe e a

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criança não é, entretanto coerente senão face à falta. A mãe pressentida como faltante sempre pode imaginariamente ser preenchida pelo objeto de desejo que lhe falta, ora, justo que, imaginariamente, também pode a criança identificar-se com tanto ou até mais facilidade ao objeto que falta ao Outro. O autor ainda nos apresenta em sua leitura as obras lacanianas, a eminência de não assimilar esta relação dualística à simbiose funcional entre ambas as partes, uma vez que a alienação do primeiro tempo, mesmo que componente angular dos processos constituintes da estrutura, ainda é uma posição de assujeitamento e enlaçamento prisional frente ao desejo do Outro.

O espaço desta relação não traduz, portanto, a experiência de uma pura e simples dualidade, trata-se menos ainda de uma “simbiose”, termo tão frequentemente evocado. A indistinção fusional só se fundamenta, porque lhe preexiste um terceiro termo: a falta e a existência imaginária de um objeto capaz de preenchê-la: o falo. Em consequência, é, portanto, exatamente o objeto da falta como tal que reclama e nutre a dinâmica da relação fusional. (DÖR, 1989, p. 11)

Posto que, mesmo este Outro atuando como uma matriz linguística fundamental na instauração da erotização do corpo imaginário da criança - fundamental para a constituição psíquica do sujeito advir - é aqui acentuada a ressalva da importância de um fator de cisão nesta dualidade fusional. Um agente deve ser nomeado que desloque este sujeito a uma posição de dono do próprio desejo, sendo, portanto, fálico e não mais o falo.

Prosseguimos no curso da dialética edipiana até a etapa decisiva marcada pela intrusão da figura paterna na relação de indistinção fusional mãe-criança. Essa intrusão vão se manifestar essencialmente por uma reconsideração da identificação fálica, subentendida por um duplo esboço de simbolização. Por um lado, a criança mostra-se cada vez mais sensível ao interesse que a mãe dedica ao pai, na realidade. Por outro, ela desenvolve convicção de que jamais chegará a ser tudo para o Outro na realidade de sua existência. A repetição destas experiências reais vai suscitar, progressivamente, na criança, certas correlações significantes. (DÖR, 1989, p. 12)

2.2 TRÍADE EDIPIANA: A NOMEAÇÃO DA FIGURA PATERNA

A entrada de um terceiro elemento na dualidade fusional, representada pela ligação mão-bebê, é aqui referenciada, portanto, à função paterna. Um agente de ordem simbólica, investido de função metafórica e centralizadora das amarragens

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significantes. O Pai, ou Nome-do-Pai, de acordo com Lacan (1988), atua na psicanálise como ação castradora, normativa, reguladora, organizadora e referencial, possibilitando o sujeito tornar-se de fato sujeito. É a ação paterna que inscreve o sujeito no campo do simbólico, desvencilhando-o das amarras dualísticas da primeira relação com o Outro, onde a criança se encontrava presa ao desejo materno. Todavia, cabe aqui, a priori, o entendimento da figura paterna como não referenciada à função real e comumente narrada de agente de paternagem. Não nos referimos ao pai biológico, homem e progenitor, mas sim, à uma função simbólica metafórica, de ação insconsciente nos processos constitutivos de organização estrutural, ou seja, é este operador simbólico que nos instaura como sujeitos, no que diz respeito ao ordenamento psíquico.

(...) O pai a que nos referimos permanece, sob certos aspectos, excluído da acepção comum que dele fazemos, de saída e cotidianamente, enquanto agenda da paternidade comum. Também não se trata de buscar apreender sua incidência na perspectiva de uma evolução histórica que permaneceria, ela também, estranha ao contexto no qual esta noção é operatória em psicanálise. Contra toda expectativa, até mesmo contra toda ideia recebida, a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico. (DÖR, 1991, p. 13)

O mesmo autor ainda traz outra referência que serve de base para o entendimento inicial do que decorreremos acerca da função paterna na constituição do sujeito e do modo de ação ao qual esta mesma opera no sujeito:

(...) De fato, nada pode garantir antecipadamente que esta encarnação coresponda seguramente à consistência de um pai investido de seu legítimo poder de intervenção estruturante do ponto de vista inconsciente. Neste sentido, por pouco que tenhamos, entretanto que considerá-lo como um ser, trata-se menos de um ser encarnado do que de uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função. (DÖR, 1991, p. 13-14)

Em suas obras já citadas, Introdução à Leitura de Lacan (1989) e O Pai e sua Função na Psicanálise (1991), Jöel Dor, ao trazer seus esclarecimentos sobre as imperativas lacanianas acerca da constituição psíquica do sujeito e seus processos inerentes, nos fornece os devidos alicerces literários para expormos aqui a problemática paterna na subjetivação do eu, bem como a lógica por trás das diferentes formas de investimento que tem por objetivo a ação da figura paterna. Toda a dialética edipiana, ao deparar-se com a nomeação deste elemento catalisador da castração e edificador da elaboração estrutural, passa a estar a par

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de uma função simbólica e metafórica, de ação inconsciente e normatizadora, possibilitando um limiar único de novas possibilidades objetais e libiniais à criança em direção ao seu “tornar-se” sujeito.

Posto isso, devemos entender qual a insurgência desta ação simbólica na cisão dualística já narrada entre mãe-bebê. Ora, a criança que, até então, via-se como a completude à falta do Outro, vê-se portanto como não mais capaz de suprir neste Outro àquilo que lhe é faltante, imaginariamente, percebendo no Pai o detentor deste catalisador de satisfação materna, ou seja, não mais a criança põem-se à põem-ser aquilo que falta a mãe, mas sim à também buscar ter, de acordo com a identificação à este terceiro agente da relação, o falo que satisfaz a falta do Outro. É o jogo do não mais ser, mas do agora ter o falo.

Se a criança não é tudo para a mãe – como prova se interesse pelo pai – não poderia, consequentemente, ser o objeto que preenche a sua falta. Assim, a mãe revela-se tanto mais desprovida do falo no espaço imaginário da relação de indistinção fusional, porque o pai se mostra como um polo de atração que mobiliza seu desejo. Essas duas ocorrências significantes bastam, por um tempo, para sustentar a encarnação do pai imaginário, falo rival da criança junto ao Outro. Somente esta figura do pai pode vetorizar uma série de deslocamentos decisivos na lógica desejante da criança, doravante presa à questão, “ser ou não ser” o falo. (DÖR, 1989, p. 13)

O pai, neste segundo tempo da constituição edipiana, passa a rivalizar o desejo materno com a criança que, imaginariamente, passa por diversos deslocamentos significantes e redirecionamentos de posições quanto ao Outro e suas referências, porém, e justamente no discurso deste Outro que se deve fazer presente a nomeação deste agente ordenador. O pai deve ser posto à função através do discurso materno, ou seja, deve-se fazer presente na relação outrora dualística por meio da intervenção do próprio Outro. Dor (1989) nos afirma que a mediação significante do agente paterno, só é operada mediante o posicionamento da mãe em emergir em seu discurso este terceiro representante funcional, castrador e organizador. A mãe passa a nomear o pai como aquele que lhe completa e lhe satisfaz falicamente, referenciando a criança à esta condição de não mais possuidora daquilo que é desejado por ela, mas sim o pai.

Tanto em seu modo de ser quanto no discurso que adota com ela, é importante que a mãe se dedique a fazer a criança entender o papel desempenhado pela mãe acerca de seu próprio desejo. O que esta em jogo é uma prescrição simbólica que consiste em lhe garantir, sem equívoco ou ambiguidade, que é dele, seu homem, que ela espera obter o objeto que lhe

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falta. A criança recebe assim, do discurso materno a garantia de que nada tem a esperar da sua identificação imaginária com o falo, à medida que a mãe sabe simbolicamente significar-se dependente do pai e não dela, quanto ao objeto de seu desejo. (DÖR, 1989, p. 14)

É de acordo com esta invasão imaginária de um falo rival, que possibilitar-se-á a criança não mais ser o objeto de completude da mãe, mas sim perceber encarnada ao pai esta posição de ser aquilo que completa a mãe. É neste engodo de posições e funções discursivas que se fará o joguete inicial do deslocamento de posições e de possibilidade á novas formas de investimento e de manejo das atribuições libidinais da criança, agora posta a conduzir sua constituição elementarmente psíquica de acordo com os posteriores enlaces advindos deste falo rival, pai privador, interditor e frustrador.

(...) Por mais desconfortável que seja, esta descoberta só pode mobilizar a criança para pressentir o Pai real ao uma luz cada vez mais imaginária, é, pois essencialmente na qualidade de Pai imaginário que a criança vai perceber daí por diante este intruso que detêm o direito, que priva, interdita e frustra: ou seja, a três formas de investimento que contribuem para mediatizar a relação fusional da criança com a mãe. (DÖR, 1991, p. 48)

Este agente da função, Nome-do-Pai, representa a ordem imperativa da lei, romanticamente é aquele que impede o incestuoso amor materno ao qual encontra-se depositada a vetorização imaginária da criança. É este Pai que irá romper com as amarras imaginárias que posicionam a criança alienada ao desejo do Outro, instaurando o campo simbólico e deslocando o sujeito da posição de ser o falo desejado para, portanto, identificar-se com aquele que possui o falo, capaz de satisfazer a mãe.

A ultima etapa da constituição (...) remete diretamente ao ponto de conclusão da dinâmica edipiana dialetizada pela intercessão da metáfora Nome-do-Pai. Todos os deslocamentos iniciados desde o espaço imaginário foram, de fato, induzidos ao alcance estruturante da função simbólica do pai, inauguralmente introduzida pela mediação do discurso materno. A sinergia das diferentes figuras paternas – pai frustrador, privador, castrador, doador – não pode garantir a passagem estruturante do ser para o ter, a não ser à medida em que o pai é investido, ao extremo, da atribuição fálica. Como tal, isto é, enquanto pai simbólico, supostamente ele dá à mãe o objeto que lhe falta. (DÖR, 1989, p. 16)

Em outra passagem, o autor volta a esclarecer este movimento advindo da intervenção paterna frente à relação da mãe com a criança:

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Por ser suposto opor a mãe a possibilidade de ser satisfeita pelo único objeto de desejo que é seu filho, o pai sobrevêm, inevitavelmente, como um intruso privador no investimento psíquico da criança. Além disso, impedindo-a de tê-la toda para si, o pai, descoberto como um que tem direito a mãe, manifesta-se então à criança como interditor. A privação punida ao interdito só pode, enfim, suscitar na criança a representação de um pai frustrador que lhe impõem ser confrontado com a falta imaginária desse objeto real que é a mãe e da qual ela necessita. (DOR, 1991, pg. 48)

O Nome-do-pai, para ter êxito, enquanto agente normativo da constituição, é preciso fazer função, afirma Dor (1989). A mediação induzida por esta mesma mediação simbólica não é estruturante, a não ser à medida em que a existência intrusiva do Pai aí se faz, ela mesma, simbolicamente eco. Tanto a mãe deve significar à criança sua dependência desejante face ao pai, quanto este não deve deixar de confirmar sua incidência, colocando-se como àquele que dita a lei a mãe, afirma o autor.

A ação paterna recai sobre o sujeito de modo a fazê-lo sujeito. É muito possível que grande parte da referência teórica psicanalítica conceba a ideia de que a função paterna seja a chave catalisadora do ser para o ter. É a função simbólica Nome-do-Pai, traz Lacan, que realiza a cisão da alienação ao desejo do Outro, é o terceiro elemento que corta e castra, desloca e faz função.

Não seria necessária outra prova mais convincente do que lembrar que a edificação do Pai simbólico a partir do Pai real constitui a próprio dinâmica que regula o curso da dialética edipiana e, com ela, todas as consequências psíquicas que dela dependem. (DÖR, 1991, p. 43)

O Pai, segundo os fundamentos elementares da psicanálise: é metáfora, função alicerce da constituição psíquica, o significante central, é o que substitui, o organizador, que centraliza toda a linguagem, o significante dos significantes, o que filia, que tem o saber, o que tem, o que detêm, o que pode e o que diz se pode ou não pode. É aquele que castra, interrompe, barra e corta, é o rival encarnado no imaginário, é a função e o agente da ação simbólica, é o que possui o falo, o filiador, o que diz que não, inaugurando o recalque, fazendo de fato função, normatizando e impondo a lei, a regra, a organização e a identificação. O que sustenta e fia o sujeito numa posição privilegiado do saber, que o detêm e o faz querer tê-lo. O Nome-do-pai nada mais é do que a barracão do gozo, o que gera o recalque primordial e orientador máximo da sexualidade, da condução da vetorização do investimento da libido sobre o objeto desejado, o que orienta o modelo de inclinação do discurso

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frente ao outro e a forma com que se organiza toda a construção linguística do sujeito, centralizada e regrada conforme uma lei normativa, um saber onipotente sobre a condução da palavra.

Ainda acerca das amarras fundamentais que se fazem necessárias à busca pelo mais pleno esclarecimento da função do Pai no processo de estruturação, Lacan (1988) em seu seminário no qual aborda as formações inconscientes afirma:

O pai não é um objeto real, então o que é ele? (...) O pai é uma metáfora. Uma metáfora? O que é isso?... É um significante que vem no lugar de outro significante. (...) O pai é um significante que substitui outro significante. E é este o motor, e o único motor essencial do pai enquanto interventor no complexo de Edípo. (LACAN, 1988, p.359)

A substituição do significante, até então, encarnado pelo desempenho materno na dualística edípica primordial, pelo novo significante normativo e frustrador, representado pelo Nome-do-Pai, reposiciona o sujeito no enlace edipiano, direcionando toda a construção desta matriz instauradora da subjetividade e da linguagem nos tramites psíquicos cujos quais nos referimos. Lacan (1988) atribui ao pai o papel de ancoragem nos processos edípicos da formação do sujeito, pondo que a função do pai no Complexo é de ser um significante que substitui outro, como já citado, onde o primeiro significante introduzido na simbolização é, de fato, aquele representado ao Outro primordial, o significante materno, que aqui, se faz recalcado pela ação metafórica imposta pelo novo significante jazido no terceiro tempo da constituição, àquele que diz respeito ao pai.

Dor (1991), ao elucidar a importância dos lampejos lacanianos acerca da formulação psíquica, ordena quatro linhas fundamentais que formam a elaboração angular da analise da figura paterna, segundo os tramites inconscientes a ela engajados funcionalmente:

1. A noção de função paterna institui e regula dimensão do complexo de Édipo (dimensão conflitual);

2. O desenvolvimento da dialética edipiana requer certamente a instância simbólica da função paterna sem, no entanto exigir a presença necessária da um Pai real;

3. A carência do Pai simbólico, isto é, a inconsistência de sua função no decorrer da dialética edipiana não é absolutamente coextensiva à carência do Pai real em sua dimensão realista.

4. A instância paterna inerente ao complexo de Édipo é exclusivamente simbólica, posto que é metáfora. (DOR, 1991, pg. 46)

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Ante a narrativa decorrente dos processos pertinentes às constituintes edipianas e suas consequências nos processos de formação e estruturação psíquica do sujeito, podemos pensar o modelo de organização de discurso e linguagem, a posteriori, desta cisão operada pela função paterna. O recalque primordial e a posição de ser desejante, inerente a instauração de um sujeito psíquico de fato, organizam o modelo de discurso e investimento da libido objetal do eu, ordenando toda a forma de relação dos significantes com a linguagem, ou seja, é através deste agente operador da lei, normatizador e proventor do recalque que se estrutura e se organiza psiquicamente o sujeito. A ordem simbólica da função paterna possibilita a centralização das amarragens significantes, organizando as cadeias linguísticas de acordo com uma matriz centralizadora, operando conforme as identificações e atribuições de um suposto saber paterno, detentor, portanto daquilo que é, de fato, o saber primordial e de merecimento identificatório.

Uma vez que tenhamos observado com veemência minúcia os agentes de função da figura paterna, podemos, por fim, entender o que este de fato contribui para a estrutura do sujeito em formação. É, portanto, após este complexo enlaçamento posto em ação e reação frente aos elementos da dialética edipiana que por ventura decorremos ao que, de fato, é a pedra angular do modelo organizador da constituição psíquica e demais direcionamentos possíveis à ação de economia e investimento da libido objetal do sujeito, o recalcamento originário que irá conduzir toda a formação inconsciente. O processo de acesso ao registro simbólico, segundo Lacan (1988), residente na aposteriori conjuração da ação da metáfora paterna, advêm da operação inaugural do mecanismo fundamental da patogênese neurótica, o recalque originário.

Posto que tal mecanismo de substituição é também o próprio mecanismo de condução da simbolização normativa do direcionamento da sexualidade e da linguagem, o recalque, operado pela castração paterna, vem de encontro ao sujeito para redirecioná-lo e conduzi-lo, em seu discurso ante à centralização das amarras significantes. Pois assim, quanto o que diz respeito à este discurso estruturado após a ação do recalque, Calligaris (2013) atribui à este sujeito castrado a referencia de um mundo linguístico habitado e orientado por um ponto organizador central, que orienta e centraliza através de um único significante, todas as outras.

Referências

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