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O autor Nasio (1997) nos contextualiza o termo Foraclusão ao elucidar sua terminologia oriunda a um terno do vocabulário jurídico, proposto por Jacques Lacan a fim de traduzir o vocábulo alemão Verwefung, habitualmente utilizado nas publicações francesas das obras e produções freudianas pela palavra rejet (rejeição, repúdio). Freud utilizava esta referência linguística ao teorizar os aspectos recorrentes do repúdio à ação castradora, pondo o sujeito a temer e rejeitar a ação de corte junto à mãe, ou seja, a não filiação e passividade diante da falha na cisão paterna, correspondem adequadamente a perspectiva freudiana da posição de relutante à castração, base alicerce da, posteriormente apresentada, releitura de Lacan à obra freudiana, atribuindo, portanto, a Foraclusão como essencialmente inerente às constituintes da estruturação psicótica.

Pensar na estrutura psicótica é entender que este modelo constitutivo de formação psíquica elabora-se de acordo com uma falha, uma ausência no campo das ações simbólicas, onde a função paterna é forcluída, não acionando a identificação faltante no sujeito. Esta falha simbólica representa o estuturar-se de acordo com a alienação frente ao Outro.

Quando o significante Nome-do-Pai não consegue se inscrever no lugar do Outro, toda a estrutura da faixa do real sofre uma modificação significativa, traduzindo assim as alterações que resultarão dessa falta de inscrição ao nível da organização subjetiva. É essa ocorrência específica, designada por Lacan de foraclusão do Nome-do-Pai. (DOR, 1989, pg. 19)

Uma vez que não haja a ação fundamental do corte fusional, a alienação frente ao desejo materno, eminente à falha simbólica, organiza um modelo de construção subjetiva singular, onde toda a construção e organização dos registros

psíquicos funda-se tal qual a esta ausência do significante central, posto que, deste modo, a relação com o Outro é de total dependência, vetorizando as construções simbólicas a um saber universalmente próprio do sujeito, que configura-se cativo às demandas imaginárias do desejo do Outro. O constituir-se do psicótico, ausente do referencial paterno, se dá através desta falha, desta negativa funcional que não desloca-o para a posição de faltante, falicamente desejante.

Partamos do caso típico em que o advento do Pai Simbólico é falho, isto é, da situação em que o significante Nome-do-Pai, que inaugura a cadeia significante para um sujeito faltante, não consegue substituir o significante de desejo da mãe. Além da falta essencial que isso resulta no acesso ao Simbólico, essa ausência de inscrição atesta a impossibilidade em que se encontra a criança de poder se orientar em relação ao falo imaginário. Em tais condições, ela não tem outra saída a não ser permanecer cativa de uma relação de imediatismo com a mãe, relação que sofre por não se referir à instância paterna. (DOR, 1989, pg. 19)

O conceito de Foraclusão refere-se justamente a esta ordem especificamente advinda do sujeito psicótico, uma ordem do próprio sujeito, singular e totalitária, onde o pai foracluído orienta, pela ausência simbólica, uma estruturação falha frente ao Outro. Ora, é de minúcia atenção atribuir a este conceito, que, por consequência de sua própria incumbência, refere-se a um conceito negativo, inerente a noção de falta de função, ou seja, a foraclusão, é a não ação da figura do Pai, é o que acontece quando algo que é da ordem não se valida enquanto função. É a psicose, portanto, uma “não neurose”.

A autora Soler (2007) trata da foraclusão como fator pertencente á gênese constitutiva da psicose, porém, ressalva para o caráter não fenomenológico da ausência da função. Pois sendo assim, o que quer se dizer é que a foraclusão é, de fato, uma ausência, uma falha primordial de ação simbólica, que não pode ser classificada nem representada por qualquer referência positivista de apresentação fenomenológica. A foraclusão, ao postar-se como a não neurose, traz consigo aquilo que à característica de não ser o fenômeno em si, mas sim o conceito que atribui-se à gênese da estrutura em falta quanto o agente simbólico.

Lacan definiu a foraclusão como uma falha, uma ausência no nível do Outro: a ausência de um significante, o Nome-do-Pai, e de seu efeito metafórico. Esse acidente, diz ele, confere a psicose “sua condição essencial como estrutura que separa a neurose”. (...) É a hipótese pela qual Lacan designa a causalidade significante da psicose. Esse ponto tem importância no que tange à questão do diagnóstico. Se a foraclusão não faz parte do fenômeno,

não é pela foraclusão que se diagnostica a psicose. Não identificamos a foraclusão, mas seus efeitos. Essa foraclusão é uma espécie de axioma que explica os fenômenos. (SOLER, 2007, pg. 12)

A foraclusão do Nome-do-Pai ao representar, portanto, a falha da ação simbólica, promove, enquanto falha, no sujeito, uma estruturação velada ao desejo do Outro, onde a regra e a norma da metáfora paterna não fazem função, impossibilitando este sujeito o manejo homogêneo dos três registros, de acordo com os ordenamentos psíquicos advindos das ações do recalque e do deslocamento de significantes. O ordenamento das incumbências inconscientes, no sujeito psicótico, pode ser melhor elucidado ao comparado com a ordem neurótica das posições do saber, onde, na estrutura do foracluído, o discurso faz-se posto ao saber advindo do próprio sujeito em sua totalidade, ao lidar com a demanda imaginaria do Outro, e, portanto, não à um “ao menos um” que sabe e é possuidor de um suposto saber, detentor do saber fálico da mãe, ou seja, o psicótico atrela seu discurso à um investimento não regrado, muito menos ainda à um investimento centralizado e oriundo à um único saber suposto, pelo contrário, se constitui de fato pelo poder à ele mesmo investido de um advento psíquico das próprias interferências imaginárias.

(...) Outra diferença significativa esta no lugar onde se situa o saber de defesa. Para o neurótico é um saber suposto ao pai; para o psicótico não pode ser suposto (pois a quem?) e deve ser produzido (pelo menos pelas trilhas da sua errância), mas também só pode ser produzido na superfície da coisa mesma, como um casulo ao redor da coisa mesma. (...) Trata-se da um pensamento que tem um horizonte de totalidade, que não se autoriza a partir de uma filiação, ou seja, de uma transmissão, mas se sustenta nos seus próprios percursos, e por isso, só pode emanar da coisa mesma, como se aflorasse na superfície dela. (CALLIGARIS, 2013, pg. 23)

Quando falamos da amarragem centralizadora do saber neurótico, posto à diferença ante a falha de função psicotizante, referimo-nos à condução da estruturação através de um significante único e primordial, referenciado ao pai, enquanto idealizador da ordem e da organização simbólica, logo, à esta função fálica, se atribui o saber do que refere-se o desejo do Outro, e daí, partem-se às demais significações. Ora, posto à falta, é esta ação foracluída que rege a organização peculiar do discurso psicótico, onde a falta de um ponto central constitui um modelo plano e unicamente singularizado de organização discursiva da linguagem. Por mais que, pareça de fato, desorganizado e desconexo, o saber psicótico é um advento das suas organizações próprias, onde nenhum ponto

específico define ou regula o valor do outro, ou seja, os valores e atribuições das significações frente a demanda objetal, dão-se de maneira heterogênea, independentes de um saber de função central.

(...) Na neurose, existe algo universal, esta amarragem fixa que chamamos de função paterna, sendo do ponto de vista da significação que esta amarragem central distribui o universo fálico. Na psicose não há isto. Um universal positivo próprio da psicose é extremamente problemático, porque, se não existe uma amarragem central para todos, seguramente nem podemos imaginar que exista uma significação que seja a mesma para todo o sujeito psicótico. Quando falamos que o psicótico tem que ter uma significação, apesar de parecer circular numa metonímia e não ter uma amarragem metafótica do mesmo tipo que o neurótico, o certo é que não existirá uma significação que seja a mesma – por exemplo, a fálica – para todos os psicóticos. Nem outra que não a fálica porque se houvesse uma significação que fosse a mesma para todo sujeito psicótico, não haveria psicóticos, pois seriam neuróticos. Se houvesse uma significação para todos, isto implicaria uma amarragem que, por ser comum, seria central. (CALLIGARIS, 2013, pg. 38)

O não cumprir função – manejo insatisfatório da ação do Nome-do-Pai – das atribuições simbólicas normatizadoras, orienta um modelo de estruturação onde o deslocamento das posições fálicas imaginárias é conjurado pelo discurso descentralizado do sujeito a constituir-se. É, portanto, do traço constitutivo deste sujeito psicótico a falha na lei e a ausência da referencia normativa da regra. A lei do pai, ao não se instaurar na criança, através da errância da função fálica, promove um advento do sujeito sem a marca da castração e da privação, onde a lei do desejo do Outro e a posição de ser o detentor daquilo que supre este desejo, constituem os processos de formação do eu, bem como, dizem daquilo que irá orientar os modelos de manejo objetal deste sujeito psicótico. Joel Dör nos fala deste modo de entender o modelo de relacionamento com a questão ligada à lei paterna e sua não função no sujeito:

Na falta de poder se referir ao significante Nome-do-Pai, o Eu da criança permanece tributário de uma relação singular com a mãe, instituída como Outro, e junto a qual ela se esforça para buscar autenticação simbólica. Dizer, como enuncia Lacan, que a mãe psicotizante está “fora da lei”, ou ainda, que “faz a lei”, é salientar a incidência de uma mãe depositária de uma lei que não é sua; lei de pura conveniência pessoal, de modo algum relacionada à lei simbólica paterna. Em tais condições, a mãe garante então, no lugar do Outro, uma função simbólica que em nada pode autenticar alguma coisa, como faria a lei do pai. É esta falta de autenticação simbólica que subentende fundamentalmente a relação da criança com a mãe. (DOR, 1989, pg. 21)

O pai deve ser posto a ação de pai, no que tange a função simbólica já referenciada, tal qual se faz presente este agente no discurso materno, quer dizer, segundo Dor (1989), é através da nomeação discursiva da mãe, imaginariamente orientada a criança como o Outro, que se dará, ou não, a presença do terceiro elemento na relação fusional. O pai deve ser devidamente nomeado pelo ordenamento das referencias do Outro para a criança, possibilitando assim, o advento desta função paterna, que irá constituir o sujeito enquanto sujeito de fato. A foraclusão passa, a priori, pela falha, então, no próprio discurso materno, que, ao enunciar-se como mãe psicotizante, prende a criança ao seu desejo, e não possibilitando a primordial ação instauradora da subjetividade simbólica.

Posto que, pensar o discurso do sujeito psicótico e todo o seu modo de posicionar-se frente a um saber não suposto, mas sim totalitário, requer, dos modos de investimento da libido, uma conduta unicamente vetada à falta que compete à formação simbólica das ordens normativas de relação com o Outro. Ou seja, a injunção da foraclusão, posiciona este sujeito a um saber que é dele próprio, um saber que não passa pela significação central do pai, dono de um suposto saber. O saber do foracluído é sustentado pelas próprias significações do sujeito, descentralizadas e universais quanto aos seus valores, é um saber no todo, advindo do próprio sujeito.

Se pensarmos que o saber do sujeito não tem função organizadora reprimida, então quem vai poder sustentar este saber? Como o psicótico poderá sustentar e se sustentar neste saber? Na relação do neurótico, no final das contas, o que sustenta o saber e o sujeito é sempre a referência a pai. Sempre há, para o neurótico, um sujeito suposto cujo domínio da situação permite descansar. O pai, referência central do saber do sujeito, é suposto saber. Daí uma significação é garantida ao sujeito sem que um esforço no campo do saber seja necessário: referir-se ao pai é suficiente, visto que ele é suposto se encarregar do saber. Mas para o psicótico, relacionado a um saber sem sujeito suposto, é certo que a tarefa de sustentar este saber cabe ao sujeito mesmo. Ele só pode sustentá-lo assim, com a sua pessoa, então com a sua certeza egóica . (CALLIGARIS, 2013, pg. 29)

A foraclusão do Nome-doPai, pedra angular da constituição psicótica, ainda que um conceito de negatividade de ação, referencia, portanto, à falta da ação simbólica de instauração da lei paterna, nos apresentando um modelo de estruturação psíquica ordenado por um sujeito que busca sustentar-se diante desta falha da metáfora, e é aí, então, que o faz através de um delírio metafórico. O eu

psicótico é alicerçado pelas incumbências de sustentação de uma metáfora delirante, agindo em suplência àquela da neurose, a metáfora paterna.

No documento A psicose e sua constituição estrutural (páginas 37-42)

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