SUL
Departamento de Humanidades e Educação – DHE
CURSO DE PSICOLOGIA
ADOECIMENTO DO POLICIAL: Onde está a Psicologia?
Eduardo Cappellari Feltraco
Santa Rosa – RS 2019
ADOECIMENTO DO POLICIAL: Onde está a Psicologia?
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, do Departamento de Humanidades e Educação – DHE, a ser utilizado como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia.
Orientadora: Msª. Carolina Baldissera Gross
Santa Rosa – RS 2019
EDUARDO CAPPELLARI FELTRACO
ADOECIMENTO DO POLICIAL MILITAR:
Onde está a Psicologia?
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, do Departamento de Humanidades e Educação – DHE, a ser utilizado como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia, avaliado pela seguinte banca:
__________________________________
Professora Msª. Carolina Baldissera Gross
Orientadora
___________________________________
Professora Msª. Janete Teresinha de Aquino Goulart
Banca examinadora
Santa Rosa – RS Novembro de 2019
Ao meu Senhor e salvador Jesus Cristo,
A minha família e amigos,
A gloriosa Brigada Militar do Rio Grande do Sul e a Polícia Militar do Distrito Federal.
Agradeço a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo pelas bênçãos concedidas ao longo de minha jornada neste mundo, oportunizando meu desenvolvimento intelectual.
A minha mãe, Melita Cappellari e ao meu pai, Vilmar Francisco Feltraco por todo investimento, educação, carinho, apoio e afeto.
A minha amada Luana Binkowski da Rosa que esteve sempre ao meu lado me incentivando.
Ao Comandante 1º Tenente Strossi e 1º Sargento Milani do 4º Pelotão da Brigada Militar de Tuparendi que contribuíram significativamente para o desenvolvimento deste trabalho e de meu estágio.
A minha orientadora Carolina Baldissera Gross e também a coordenadora do curso de Psicologia, Simoni Antunes Fernandes, que com toda paciência do mundo me encorajaram afetivamente a investir nesta temática e me auxiliaram teoricamente para minha formação.
“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta”.
Com a emergência dos paradigmas da saúde mental nos trabalhadores policiais, fomenta-me a temática que convoca a Psicologia ética e profissional, quanto Ciência Humana e de Direitos Humanos, em direcionar seus esforços no âmbito Institucional e social. A literatura acadêmica-científica que versam sobre o tema, frisam a necessidade da Psicologia, principalmente em sua vertente Organizacional e do Trabalho, ser mais presente e demonstrar mais interesse pela sua atuação nas áreas policiais. No entanto, nenhum destes escritos se questiona e problematiza o porquê ainda a sua inserção é fragilizada e incipiente neste campo de atuação, mesmo ciente de toda sua implicação social e para a saúde de seus trabalhadores. A partir deste estudo, pretendo basear o leitor em teoria acadêmica, estágio supervisionado, dados estatísticos e uma tenra crítica a esta área do saber, e prática, objetivando um olhar mais aproximado, afetivo, atencioso e livre de ideologias em promover a saúde dos policiais e também as demais forças de segurança pública no Brasil.
Palavras-chave: Psicologia Organizacional e do Trabalho. Ética. Ideologia. Polícia
With the emergence of mental health paradigms in police workers, it promotes me the theme that calls ethical and professional psychology, as Human Science and Human Rights, to direct their efforts in the institutional and social. The academic-scientific literature on the subject stress the need for Psychology, especially in its Organizational and Labor aspects, to be more present and to show more interest in its work in police areas. However, none of these writings question and question why their insertion is still weak and incipient in this field, even aware of all its social implications and the health of its workers. From this study, I intend to base the reader on academic theory, supervised internship, statistical data and a tender critique to this area of knowledge, and practice, aiming at a closer look, affective, attentive and free of ideologies in promoting the health of police officers. and also the other public security forces in Brazil.
Keywords: Organizational and Work Psychology. Ethic. Ideology. Military police.
1 INTRODUÇÃO: INTENÇÕES INICIAIS...11
1.1 Justificativa pessoal e profissional...11
1.2 Uma novidade a ser despertada na Psicologia...12
1.3 Diretrizes e apontamentos: o estudo atual...13
1.4 O roteiro da escrita...17
1.5 A relevância do campo Organizacional e do Trabalho...18
2 QUESTÕES ORIUNDAS DO CAMPO: A POLÍCIA MILITAR...20
2.1 Fragmentos do campo da Psicologia Organizacional e do Trabalho...20
2.2 Segurança Pública no Brasil...21
2.3 A Polícia Militar...25
2.3.1 Relações internas: a instituição militar...28
2.3.2 Relações externas: a demanda social...29
2.3.3 E alguém já ouviu falar em Psicologia Militar?...30
2.4 Informações psicodinâmicas e discursivas in loco...32
2.4.1 Cultura organizacional...32
2.4.2 Clima organizacional ...33
2.4.3 Cenário de adoecimento psíquico do policial no Brasil...33
3.1 A escuta...42
3.2 A observação...44
3.3 A intervenção: método de Dejours...44
3.4 Mobilização subjetiva e identificação no trabalho...46
3.5 Saúde mental do trabalhador: sofrimento e adoecimento...50
4 CIÊNCIAS HUMANAS E PSICOLOGIA: DE CRÍTICOS À CRITICADOS...53
4.1 Discurso da Polícia Militar...53
4.2 Discurso da Psicologia...54
4.3 Ideologia e discurso político: orientativo ou imperativo?...56
4.3.1 A origem da confusão: Esquerda vs. Direita? Uma história mal contada...60
4.4 Imaginário social: estereótipo e padronização...66
4.4.1 O que envolve até o Psicólogo...68
4.5 Ética e profissionalismo da Psicologia...69
4.5.1 A imparcialidade e a vida pessoal do Psicólogo: um Psicólogo pode ser parcial?...71
4.6 Campo de atuação: urgência na saúde mental e relevância na ciência...71
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS: É HORA DE (RE)PENSAR...76
5.1 A Psicanálise também serve à Psicologia...76
5.2 A reflexão crítica do espelho: um olhar para si...77
1 INTRODUÇÃO: INTENÇÕES INICIAIS
Com a emergência dos paradigmas da saúde mental nos trabalhadores policiais, fomenta-me a temática que convoca a Psicologia de forma ética e profissional, tanto de Ciências Humanas, quanto de Direitos Humanos, em direcionar seus esforços no âmbito Institucional e social que abarcam a atuação dos policiais. Os escritos acadêmicos que versam sobre o tema, frisam a necessidade da Psicologia, enquanto área Organizacional e do Trabalho, ser mais presente e demonstrar mais interesse pela sua atuação em áreas policiais. Mas nenhum destes escritos se questiona e problematiza o porquê de a Psicologia ainda não está inserida neste campo de atuação, mesmo ciente de toda sua implicação social e para a saúde de seus trabalhadores.
1.1 Justificativa pessoal e profissional
Minha vida perpassa por uma formação acadêmica nas ciências humanas, desde minha formação em Bacharel em Teologia (FAERPI) e minha Pós-Graduação em História e Dogma (FAERPI), atualmente formando de Psicologia e ingresso da Polícia Militar do Distrito Federal. Venho de uma família composta por uma professora Mestre em Química e um 2º Sargento da Brigada Militar, que, no trato emocional e afetivo, integraram, e integram, a construção da minha subjetividade e personalidade como pessoa humana, além de realizares as funções psicológicas que garantiram a minha educação e autonomia.
Por certo tempo me vi como um intelectual e escritor do mundo acadêmico, porém no decorrer do curso minhas memórias dos desejos infantis de ser um policial igual meu pai, ressignificaram minha existência e meu lugar neste mundo. Isso fez com que depois de um lapso temporal de bons anos de análise subjetiva decidi por seguir meu sonho de infância e atrelar todos meus instrumentos teóricos adquiridos para somar na minha profissão futura, em busca de proporcionar um valor maior que sempre acreditei que os policiais mereciam – pois todos estes policiais tiveram em suas vidas, educadores/professores, assim como tive eu também, e uma dentro de casa.
Foi então que embarquei no mundo dos concursos público, me interessando pelas matérias do ordenamento jurídico e político, com a intenção de ser um federal – porque na esfera federal há mais recursos e estrutura para eu aplicar meus conhecimentos acadêmicos e benefício da segurança pública. Em meio a muitas dificuldades, no ano de 2018, prestei concurso à Polícia Militar do Distrito Federal a qual obtive aprovação no cadastro de reservas para entrar em exercício no ano de 2020, era um sonho que seria realizado. A partir daqui você pode entender o porquê me interesso na temática da Psicologia se aproximar das Instituições Policiais, não só porque serei eu um beneficiado dessa aproximação, mas sim porque os policiais tendem a ficar menos adoecidos psicologicamente e a Psicologia a crescer mais quanto profissão e ciência aqui no Brasil.
1.2 Uma novidade a ser despertada na Psicologia
De fato, a presença da Psicologia em organizações de Segurança Pública no Brasil é quase nula, como analiso ao longo desta escrita. Mesmo sendo um campo novo que vem gerando discussões, e aos poucos certo interesse, a sua história é milenar. Cabe a nós nos despojarmos de um estereótipo atribuído à contradição do discurso da Psicologia, como Ciência Humana, com a Policia Militar, como força e autoridade, pois é de sujeitos que vestem uma farda, com uma matriz simbólica poderosa, de quem estamos falando. Sujeitos que sofrem, adoecem, sentem, nascem, morrem, creem, choram, trabalham, amam, odeiam, viajam, ou seja, vivem normalmente como todos os demais seres humanos. Se tomamos como pauta e objetivo dos Conselhos a proteção dos Direitos Humanos, é preciso incluir os policiais também destro deste objetivo – porque ser humano é ser um sujeito, e a lei simbólica que faz função na subjetividade é representada por estes homens e mulheres que regulam a sociedade.
É um campo curioso de se trabalhar como psicólogo, pois nele temos contato consciente diretamente com a representação da lei simbólica inconsciente que torna o ser humano um “sendo” de subjetividade no mundo. Talvez possa ser esse o motivo de alguma resistência da parte da Psicologia ainda não se fazer presente como deveria nestas organizações, ou possa ser um choque discursivo ambíguo. Contudo, não sei, mas será analisado todas essas questões nestas páginas.
1.3 Diretrizes e apontamentos: o estudo atual
Para que o leitor se sintonize e entre em contato com a substancia linguística desta escrita, é necessário que ele, além de começar lendo pela introdução, entender o real motivo deste trabalho, para não cair em falsas dicotomias e nem em interpretações estereotipadas, o que contaminaria seu entendimento e fragmentaria a leitura do sentido acadêmico e profissional daquilo que exponho e reflito.
A temática do questionamento inicial pode ser resumido em uma pergunta: “como a Psicologia pode cooperar, com sua ciência psíquica, para a saúde mental do Policial Militar?”. Porém, o objetivo vai além, perpassando a fronteira da Psicologia Organizacional e do Trabalho e entrando no campo dos discursos que marcam qualquer trabalho ou ciência, com a intenção de descobrir o porquê da Polícia Militar, bem como demais instituições de Segurança Pública no Brasil, ter pouco espaço de inserção para a atuação profissional dessa Ciência Humana que atua na área da saúde, também analisando se há aspectos de resistências da própria Psicologia em encarar esse campo de trabalho tão grande e com tantas implicações, mas com uma quantidade de atuações quase que nulas.
Esse tema surge devido a omissão/ausência de políticas públicas do Conselho Federal de Psicologia e dos Conselhos Regionais de Psicologia em benefício do trabalhador policial, mostrando-se quase que exclusivamente crítica ao trabalho policial. Como tenho aproximação tanto pessoal e familiar, quanto profissional, me instigou um fato confirmado, por meio de pesquisa documental e de literatura, neste meio profissional, isto é, quais os motivos da fragilidade da inserção da Psicologia como suporte psicológico aos trabalhadores policiais. Através de críticas e apontamentos vagos, muitas vezes infundados a respeito do trabalho laboral/operacional do policial, que arrisca sua integridade física para a segurança da sociedade, as áreas de Ciências Humanas, com marcas ideológicas, têm se demonstrado, desta maneira, como um fator de sofrimento na pessoa do policial.
Assim sendo, devido à grande lacuna existente entre o campo de atuação da Psicologia e das atividades do ramo Policial, o tema interessa a mim e à expansão acadêmica-científica, para problematizarmos com uma solução satisfatória e eficaz, tendo como intenção que estes policiais não sejam mais desamparados de assistência psicológica e abandonados pelo Poder Público.
O que hipoteticamente proponho em analisar, é a problematização do próprio discurso da ideologia de esquerda presente na profissão e na academia de Psicologia, como é típico nas áreas das Ciências Humanas, analisando seus efeitos em nosso campo de atuação, colocando em tensionamento com a falta de inserção da profissão nos campos policiais e da Segurança Pública. Não se trata de uma questão de juízo moral sobre a cultura organizacional de um trabalho ou de diretrizes sociais de alguma ciência, mas sim de questiona se esse discurso está prejudicando o seu profissionalismo e a sua ética. O que reforça essa hipótese é a resistência em si da Psicologia encaixar em sua multidisciplinariedade as esferas de Segurança Pública, justificada pela tentativa de imparcialidade pessoal da profissão de psicólogo – o que a Psicanálise afirma ser impossível. Mas por que vemos inúmeras críticas e quase
nenhum apoio/suporte dos psicólogos aos policiais nas políticas públicas e no sistema político em si? É o que pretendo estudar a partir desta hipótese que pode, ou não, ser
verificada ou refutada, analisando os desdobramentos no campo da saúde mental dos sujeitos trabalhadores policiais.
Com esta intenção, é necessário olharmos para os dois lados da moeda, apresentando minha construção de dois lados de pesquisa acadêmica: um lado que remete à Psicologia como Ciências Humanas, e outro à instituição Policial, especialmente a Militar. Atendando para os aspectos críticos que abrangem essa dialética social, como também refletindo sobre o imaginário social que também acaba por tomar a pessoa do psicólogo. Um exemplo disso são as chacotas e remorsos que alguns policiais sentem da psicologia e vice-versa, confirmados pelas falas e pesquisa de Estágio em Psicologia e Processo Organizacionais e do Trabalho.
Há uma caracterização de um discurso cultural, muito presente e nítido, de a Polícia Militar ser de direita e da Psicologia ser de esquerda, no que tange o cenário atual da política brasileira. Tal aspecto tem-se apresentado, porém essa rixa mostra-se prejudicial para a saúde mental do Policial Militar, de fato, pela distância desta Ciência que possui ferramentas únicas e importantes para a subjetividade destes trabalhadores. A psicologia reconhecer isso, é o primeiro passo para a mudança no seu discurso humano e para produzir materiais científicos neste campo, como também lutar para sua inserção profissional nele.
Segundo o olhar da psicanálise, o sujeito é iluminado a entender a história desse sintoma e admiti-lo como seu, para daí em diante, então, reelaborar a sua
cadeia de significantes, não ficando mais adstrita à tal sintoma, de forma a não se libertar-se dele, mas sim trabalhar com ele não prejudicando a saúde mental de seres humanos por uma omissão ou negligência de atuação in loco.
No que tange a solução hipotética, como algo a ser validado ou refutado, ela se resume em a Psicologia reconhecer o seu sintoma ideológico para construir pautas que beneficiem a função policial no Brasil, através dos instrumentos e ferramentas necessárias à saúde do trabalhador e que são quase exclusivas dessa profissão. Assim a Psicologia se torna paciente clínica dela mesma no próprio divã da auto-reflexão e auto-crítica. Diante de estarmos cientes das implicações organizacionais
da Polícia Militar e do acelerado aparecimento de quadros depressivos e suicidas nela, por que a Psicologia não busca Políticas Públicas, em apoio e assistência aos policiais, como busca nos demais grupos com discursos ideológicos da esquerda política no Brasil?
Em todos os ramos do trabalho e da academia há tendências ideológicas e políticas (que são estigmas e paradigmas culturais presentes e organizadores da sociedade), porém a diferença está no reflexo de um discurso desses, podendo prejudicar o profissionalismo e a ética de determinado trabalho. Acentua-se aqui a reflexão de ideologia como apenas um fragmento-orientação (que reflete na política de uma ciência ou trabalho) ou um imperativo-discursivo (que estereotipisa, dita e padroniza o cientista ou trabalhador em determinado discurso ou diretrizes). A questão se remete à alienação sintomática da ideologia mística e totêmica intocável, baseada no imaginário social e no imperativo-discursivo, que se ramifica na psicodinâmica do trabalho ou de um curso, e os seus profissionais passam a responder através desse sintoma social restrito a determinado grupo, limitando sua atuação e visão profissional, resultando em prejudicada a subjetividade do grupo de trabalho da Polícia Militar no Brasil, e também da própria expansão da ciência da Psicologia.
Como os demais artigos e trabalhos na área, é limitado em não problematizar os motivos do abismo entre a Psicologia e as Instituições Policiais, mesmo assim podemos notar esse comentário muito preciso do Blog Psicologado (SILVA, E. F. 2014, p. 1):
É fundamental que a psicologia contribua para a construção de novos conhecimentos e práticas de intervenção policial neste século que se inicia. Pôr em xeque esta questão ativa diretamente à primeira fase de mudança das relações institucionais existentes, ou seja, permite dar voz e ser capaz de ouvir
esses policiais e a sociedade [...]. Nota-se a importância do olhar e da ação do papel do psicólogo nesse ambiente em prol de princípios que sirvam como mediadores para o enfrentamento psicossocial decorrente das citadas problemáticas presentes na polícia, no policial e na sociedade [...]. A Psicologia precisa ainda de grandes avanços em material científico nesta área, para a construção deste ensaio foi preciso recorrer, principalmente, as obras sociológicas, devido à escassez de estudos psicológicos referentes a esta temática. Se há sujeitos, há Psicologia, logo, não se pode desprezar um tema de tamanha importância para o nosso país diante do cenário atual. Desenvolver o sentido crítico por parte desses policiais, ou seja, que a instituição permita uma maior autonomia de expressividade desses sujeitos atuantes. Evoluindo, assim, as relações grupais e cooperativas para uma verdadeira integração grupal e aumento da capacidade de empatia e manejo de relações interpessoais.
Estes elementos e apontamentos surgem devido à urgente relevância profissional, legal e ética da Psicologia ser inserida nestas instituições, bem como de meu interesse em ver meu trabalho acadêmico refletindo na promoção de saúde mental a colegas policias, recebendo a devida ajuda e olhar desta ciência, que é imprescindível para este meio de atuação social.
O cenário atual do país, através de dados, leis e a política discursiva, demonstram por si só tal relevância que baseia esta justificativa. Diante disso, é preciso tomarmos por base alguns dados e pontos de uma legislação pertinente a esta construção crítica. Como vemos abaixo, a profissão tem total amparo legal para sua atuação em áreas policiais e da Segurança Pública, através de um dos dispositivos mais importantes utilizados como instrumento na aplicação do Direito Humanitário Internacional no Brasil:
PORTARIA INTERMINISTERIAL Nº 4.226, DE 31 DE DEZEMBRO DE 2010. Diretrizes sobre o Uso da Força pelos Agentes de Segurança Pública. 11. Quando o uso da força causar lesão ou morte de pessoa (s), o órgão de segurança pública deverá realizar as seguintes ações:
g) promover o devido acompanhamento psicológico aos agentes de segurança pública envolvidos, permitindo-lhes superar ou minimizar os efeitos decorrentes do fato ocorrido; e
h) afastar temporariamente do serviço operacional, para avaliação psicológica 1e redução do estresse, os agentes de segurança pública
envolvidos diretamente em ocorrências com resultado letal.
Além do mais, também é preciso concordar com a informação de que no Brasil não há aparato teórico que sustente a Psicologia especificamente na Polícia Militar,
sendo um ponto importante que precisamos pensar para a profissão e ciência. Ficando evidente que a APA – Associação Americana de Psicologia – afirma que não há uma linha de trabalho específica para o policial no Brasil. Segundo o site da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (Psicologia Militar: Panorama Atual, 2017)
A análise de tais especialidades revela que, comparativamente à APA, no Brasil diversas áreas não estão ainda reconhecidas/organizadas, como é o caso das divisões 19 (Psicologia Militar), 51 (Estudos do homem e da masculinidade) e 56 (Psicologia do Trauma). Na verdade, não existe no Brasil um órgão que atue no sentido da APA, buscando a organização científica da Psicologia. É uma lacuna importante que precisa ser analisada.
Conforme dados apresentados no segundo capítulo do presente trabalho, trarei um compilado estatístico de pesquisas, para termos uma noção do cenário de adoecimento psíquico do policial no Brasil, através de fontes que demonstram a confirmação do real sofrimento psíquico que aflige uma boa parte dos policiais brasileiros, quer sejam militares, federais ou civis. É de extrema importância para que olhemos os reflexos, em formas dos dados estatísticos a seguir elencados, de termos uma presença ínfima da promoção de saúde psíquica neste tipo de trabalho que é imprescindível para o regulamento social de nossa civilização.
1.4 O roteiro da escrita
Como toda escrita científica, ela precisa de sustentação e validação acadêmica. Sendo assim, cabe ressaltar que o método de pesquisa utilizada neste trabalho é misto, caracterizando-se por descritiva (exposição da experiência em estágio de campo), bibliográfico (atrelando ao teórico), explicativa (dados estatísticos de pesquisas) e exploratória (reflexiva e crítica). Destacando-se, ainda, a forma qualitativa de pesquisa.
Sintetizando de maneira mais objetiva e clara por onde sigo o cronograma da presente escrita acadêmica em explícito, trago como objetivo geral, onde proponho realizar uma crítica construtiva a Psicologia – Ciências Humanas –, no campo ético e profissional, que mesmo em face da relevância do campo Organizacional e do Trabalho e diante das implicações psicológicas do Policial Militar, a partir do grande abismo da aplicação desta Ciência Humana em Instituições Militares, deixa de atuar
e buscar por uma inserção maior nessas instituições. Especificando esta intenção, traço a seguir os quatro fundamentos bases que sustentam a estrutura do presente trabalho:
a) Expor a atividade Policial Militar, como um trabalhador social e subjetivo, com
suporte do trabalho realizado em Estágio de Psicologia e Processos Organizacionais e do Trabalho, com apoio de reflexões do projeto de intervenção e relatórios da Ênfase.
b) Trazer dados estatísticos para embasamento e legislações pertinentes à
atuação da Psicologia in loco.
c) Atrelar as teorias da Psicologia e Psicanálise, na área Organizacional e do
Trabalho, presentes em discursos no campo institucional da atividade Policial dentro do ramo da Segurança Pública no Brasil.
d) Realizar uma crítica construtiva e ética a Psicologia e as Ciências Humanas
como um todo, para que se problematize a falta de inserção (ou de interesse) da Psicologia mesmo diante da ciência desse cenário psicodinâmico presente neste campo em específico.
Assim sendo, é a partir do Estágio de Ênfase em Psicologia e Processos Organizacionais e do Trabalho, onde fui capaz de ouvir elementos comuns e psicodinâmicos da Brigada Militar, colhendo dados mentais, grupais e discursivos do que interliga os policiais ali presentes, atrelando à teoria da Psicologia Organizacional e do Trabalho, bem como à Psicanálise Freudo-Lacianiana, e finalizando com análise de aspectos reflexivos e críticos do que perpassa a lacuna entre a Psicologia e a Polícia Militar – também às Instituições de Segurança Pública – para que esta seja re(pensada) na intenção de fortificar mais a atuação do Psicólogo ali e a produção de novos materiais acadêmicos e científicos no referente campo de trabalho.
1.5 A relevância do campo Organizacional e do Trabalho
Com a emergência dos sujeitos psíquicos sendo marcados simbolicamente no trabalho e com a atual dinâmica afetiva nas organizações, a Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) vem sendo um campo crescente da Psicologia. Com as demandas de trabalho e exigências de produtividade cada vez maiores, a alta gestão viu como positiva tratar seus trabalhadores com maior dignidade; se for com a
intenção de proporcionar saúde mental ou de ganhos lucrativos, de fato, não podemos julgar essa questão.
A base trabalhista é o eixo econômico e o sustentáculo da humanidade, são eles que desempenham a função de rotatividade laboral na civilização, ou seja, são eles que põem a engrenagem humana para funcionar. Historicamente, segundo Costa (2012), a POT surge em meio a Primeira Guerra Mundial, na pessoa do major comissionado e psicólogo Robert Yerkes que selecionou Walter Dill Scott para ajudar a seleção de pessoal militar, anteriormente chamada de Psicologia Industrial. Nesta época, foi o primeiro momento em que se olha o fator humano no reino do trabalho.
Na atualidade, agora com o nome de Psicologia Organizacional e do Trabalho, ela atua nos ambientes organizacionais com a psicodinâmica dos comportamentos e das relações ali presentes. Ouvindo o que a Organização fala através de seus trabalhadores e se comprometendo com os superiores/gestores, ao passo que os superiores/gestores se comprometem com o psicólogo, em olhar para um sujeito humano e singular, não mais para um indivíduo trabalhador e substituível. É nesta intenção, de valorizar a subjetividades dos trabalhadores e proporcionar um ambiente de saúde organizacional e condições de trabalho, é que essa especialização da Psicologia vem repercutindo muito o seu espaço atual, pois ela cabe em todos os lugares que há atividade de trabalho frente à trabalhadores suscetíveis ao adoecimento psíquico e físico devido ao ambiente organizacional e seu enlace com o social.
2 QUESTÕES ORIUNDAS DO CAMPO: A POLÍCIA MILITAR
Inicialmente, faz-se necessário, apresentar a Polícia Militar, presente em todas as cidades do território brasileiro, o que ela representa para a população civil e quais as implicações que esse trabalho apresenta, tanto ao cidadão, quanto ao profissional da psicologia; atrelando com a problemática de adoecimento dos policiais e com o fazer de nossa profissão e teoria oferecida para a promoção de saúde humana.
2.1 Fragmentos do campo da Psicologia e Processos Organizacionais e do Trabalho
Através do estágio supervisionado de ênfase, para a conclusão de minha graduação em Psicologia, em Psicologia e Processos Organizacionais e do Trabalho em um determinado Pelotão da Brigada Militar da região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, interessei-me em trabalhar com aqueles policiais militares, entre eles Oficiais, Sargentos e Soldados, com a intenção de desenrolar a ciência e a prática do curso num campo extremamente fechado e marcado pela deficiência da inserção dos psicólogos. Tal aspecto apresenta-se como um desafio, é desbravar o novo no atual contexto político e social, no desejo de ampliar a inserção do psicólogo neste campo
Ao longo do presente ano, foi possível o estabelecimento de transferência de trabalho neste ambiente, com todos aquele sujeitos que cooperaram com sua disposição em apoiar minha proposta de projeto de intervenção ali e minha escrita em defesa do fortalecimento da inclusão da prática do psicólogo naquele meio como forma de proporcionar um olhar mais atento e humano sobre aqueles trabalhadores. Não cabe aqui descrever todos os enodamentos do estágio, mas sim validar as reflexões discursivas, teóricas, críticas e estatísticas que baseiam esse estudo.
Nestes ambientes, da Polícia Militar, a linguagem é diferente, como também as posturas, os valores, o trabalho, a compreensão, a intervenção, porém, os sujeitos não, estão ali, a atuação da Psicologia não muda, está ali. Faz-se necessário o conhecimento a respeito do trabalho do policial militar e da história que cerca essa função de regulação social, para embarcar e estruturar nosso trabalho, de maneira a compreender o que aquele local significa para a sociedade e para os sujeitos que nele
desempenham suas funções. Por isso, darmos atenção para a antropologia do contexto social e do trabalho é imprescindível para o êxito ético e profissional.
No decorrer do estágio, apresento detalhadamente no capitulo a seguir as ferramentas e instrumentos utilizados para a praxe profilática, o projeto de estágio se desdobrou a partir do trabalho com temáticas grupais acerca do trabalho policial no que tange o seu cotidiano, possibilitando um espaço de fala, escuta e fomentação da valorização e reconhecimento deles, objetivando dessa forma a promoção de saúde mental e evitando o adoecimento. Sem deixar de sustentar todo fazer de forma teórica e sustentada pela prática de supervisão, para validar a intervenção, não podemos deixar de esquecer a restituição oral ou escrita, como uma forma de feeback à Organização, propondo mudanças positivas e descrevendo as relações e comportamentos.
O militarismo é um campo milenar, porém novo e pouco olhado no que tange a atuação da Psicologia nele. Por ser limitada a inserção do profissional de Psicologia nas Instituições de Segurança Pública, foi possível identificar a presença do receio e a incerteza pela parte dos trabalhadores policiais; entretanto, tais sentimentos foram estabilizados e desmistificados através do diálogo e explanação do fazer psicológico e da importância da praxe da Psicologia para a sociedade e para o ambiente militar. Essa aproximação com o campo, é uma forma de pulsionar os desejos acadêmicos, e quiçá, proporcionar um despertamento da Psicologia e um desprendimento de resistências ou pré-juízos pessoais, objetivando uma maior abertura nestes campos onde o sofrimento é grande e as implicações psicodinâmicas relevantes para a ciência. Desta forma, estaremos valorizando os policiais e contribuindo para a segurança pública no Brasil, de forma que eles não se sintam abandonados e não reconhecidos pela nossa profissão.
2.2 Segurança Pública no Brasil
De início, precisamos compreender as marcas histórico-simbólicas que tangem ao campo policial no Brasil, mais especificamente o mais antigo, a saber, a Polícia Militar. Neste sentido é imprescindível e necessária uma breve capitulação da história, a qual será realizada a partir do Direito brasileiro. Para garantir que o inciso terceiro e quarto seja efetivo e assegurado pela Polícia Militar, é importante sabermos o que
eles tratam através da Constituição Federal que sustenta o Estado Democrático de Direito da República Federativa do Brasil:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania; II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;2
V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
É instituída, e vinculada com os instrumentos jurídicos, a Segurança Pública no artigo cento e quarenta e quatro:
Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:3
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal; (VETADO) IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.
Para o presente trabalho, destaca-se o parágrafo quinto, onde trata da força de segurança mais próxima, hoje, da sociedade, a Polícia Militar:
§ 5º Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública4; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil.
Também é necessário frisar que propostas somente funcionarão efetivamente quando vinculadas em lei ordinária expressa, conforme o parágrafo sétimo:
2 Inciso III e IV, grifos do autor. 3 Art. 144, grifos do autor. 4 Grifo do autor.
§ 7º A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades.
A partir do parágrafo supracitado, deixa claro aos psicólogos compromissados com as políticas públicas, que é a partir disso que teremos nossos anseios de compromisso com o sujeito humano efetivado no plano concreto e real. É a partir das pressões políticas, com o objetivo de alterar a lei, no sentido, de ampliá-la, ou melhor, atualizarmos elas ao contexto atual, que podemos marcar a presença do profissional de psicologia nos ambientes policiais. Então, é através do dispositivo do parágrafo sete, que se pode abrir a possibilidade de inserção da psicologia em ambientes de segurança pública, objetivando a consolidação de políticas públicas em Psicologia.
A função social da polícia é a regulação da sociedade, tanto de maneira preventiva quanto repreensiva. Conforme o Dicionário Michaelis (2016), a etimologia grega da palavra “polícia”, é “politeia” ligada à palavra política, vem de “polis” que significa “cidade”, com “cia” que significa “companhia”, ou seja, a companhia da cidade; destacada pelo governo local, que tinha como objetivo promover a ordem, a manutenção e a guarda dentro das cidades gregas, acompanhando-a, também, conferindo a segurança, os valores morais, a liberdade e qualidade de vida – reflexão de Edemundo Dias de Oliveira Filho, presidente da Academia Goiana de Direito e da Comissão de Segurança Pública e Políticas Criminais da OAB/GO. Como pode-se ver, a origem do policiamento possui mais de 2.000 mil anos.
Já o militarismo é mais antigo ainda, com sua origem já remontada nos meados do pentateuco bíblico e judaico, cerca de quase 2.000 anos antes de Cristo (JOSEFO5,
1990), e ainda 1.000 anos antes do policiamento grego. Essa estratégia de guerra, também remonta do período dos famosos guerreiros espartanos na Grécia Antiga, 900 anos a.C. Podemos pensar, então, seguramente que a origem do militarismo na história da humanidade tem no mínimo cerca de 3.000 anos de existência, embora ainda, escavações e achados arqueológicos remontam esse tipo de estratégia de guerra cerca de 9.500 anos a.C. (KEELEY, 1996), época egípcia do Escorpião Rei e Narmer, que eram dois faraós. Então, em torno de 500 anos a.C., o militarismo já se
5 Flávio Josefo foi um historiador e escritor, de origem judaica e sacerdotal que viveu entre 37 e 103
d.C. Escreveu a obra, que depois da Bíblia, é considerada o documento mais antigo e relevante para a história do Império Romano, o povo Judeus e os demais Impérios da antiguidade.
torna popular pelo mundo inteiro (ibidem), tendo como o mesmo objetivo do policiamento grego, a guarda política através da centralidade das armas bélicas.
São três mil anos de construção social e da nossa civilização humana, três mil anos de construção para chegar ao que hoje conhecemos por Polícia Militar, da evolução dos animais até a mais nova modernidade de equipamentos e inteligência no desempenho das atividades policiais atuais. Atualmente há uma intenção de existir apenas uma Polícia Civil unificada, que é apenas investigativa, ou seja, uma polícia judiciária que apura as infrações penais e seus respectivos procedimentos investigativos, exceto as infrações penais militares, conforte o § 4º do artigo 144 da Constituição Federal de 1988; extinguindo a disciplina e hierarquia militar do artigo 142, que baseiam a polícia militar em sua função ostensiva e preservação da ordem pública, visto acima no § 5º do artigo 144, ou seja, é a Polícia Militar que tem o primeiro contato com a sociedade. Sendo assim, a Polícia Militar e a Polícia Civil têm competências e funções diferentes. Tal intenção, no entanto, é muito improvável, apesar da Polícia Militar já estar evoluindo seus conceitos antigos e se contextualizando; como exemplo temos uma nova filosofia – não regulamentada em regramento interno ou em legislação vinculada – de polícia emergindo, chamado
Policiamento Comunitário.
Essa nova ideia de polícia, que de forma alguma tange a desmilitarização ou desoperacionaliza as forças táticas e especiais da polícia. É, na verdade, uma filosofia de comportamento que torna as relações internas na polícia militar menos verticalizadas e as relações externas na sociedade mais próximas e afetivas, com a intenção de valorização do próprio policial e de estratégia criminológica preventiva. Tal concepção, aponta para importância do trabalho com o imaginário social que incide na figura do policial militar, ao passo que o próprio policial precisa se despojar de quaisquer sentimentos de superioridade ou poder sobre o cidadão de bem. A partir do policiamento comunitário, é possível firmar uma parceria entre a sociedade e as organizações policiais, a partir dos vínculos de proximidade e humanização policial, pois essa filosofia acredita que os problemas sociais terão soluções cada vez mais efetivas, na medida em que haja a participação, envolvimento e integração de todos na sua identificação, análise e discussão. Um exemplo tangível é o policiamento a pé e o policiamento com bicicletas.
No Brasil, segundo o portal do Senado Federal (2013; 2018), desde que D. João III no ano de 1500 d.C. institui as capitanias hereditárias, viu-se como necessário uma força para proteger essas propriedades, criada em 1530 d.C. era a chamada Polícia Brasileira. Pulando no tempo, em 13 de maio de 1809, através de D. João IV, foi criada a Guarda Real da Polícia no Rio de Janeiro, a mais antiga polícia militar no Brasil. Vale lembrar que ainda antes, em 1775 havia uma força de patrulhamento chamada de Regimento Regular de Cavalaria de Minas, criada na histórica Vila Velha, atual Ouro Preto, era a PM Mineira. A força militar é expressa na Constituição Federal desde 1824, onde todo brasileiro era obrigado a “pegar em armas” (artigo cento e quarenta e cinco) para defender a independência e integridade do Império. Quando em 1831, os demais Estados brasileiros começaram a copiar o modelo e montar suas guardas. Foi então que em 1946, na Constituição Federal, essas Guardas começaram a ser chamadas de Polícia Militar, cuja profissão, função e funcionamento será falado a seguir.
2.3 A Polícia Militar
Após apresentar o desenrolar histórico das forças de segurança até a constituição da Polícia Militar atual, cabe no momento, a compreensão da pratica e da teoria atreladas às especificidades destes profissionais da segurança pública. Tendo em vista que, na visão da Psicologia, além do policial garantir a manutenção da ordem e segurança pública, é ele que não permite que sejam rompidas as estruturas reguladoras da civilização, que é chama da lei simbólica; rupturas que são levadas ao ato por pessoas que não se assujeitaram a essa lei, vulgo criminoso, desde a sua constituição psíquica infantil, ficando preso no primitivismo animal. Em síntese, o policial militar é um dos representantes social da instância superegóica, a qual é conceituado por Freud como uma instância moral que barra os desejos não aceitos pela sociedade chamado de “id” 6(FREUD, 1923).
6 Segundo Freud (1923-1925), o “id” é a fonte de energia psíquica e o principal componente da
personalidade, é impulsionado pelo princípio de prazer, é inconsciente e considerado o animal instintivo do seres humanos; o “ego” é o mediador do id e do superego, responsável por lidar com a realidade a partir do princípio de realidade, interagindo tanto na instância consciente, pré-consciente e inconsciente, ele faz com que os desejos do id sejam satisfeitos de maneira aceita pela sociedade; o “superego” é a instância moral da personalidade que nos permite vivermos em sociedade a partir de padrões socialmente aceitos, é consciente e considerado como regulador social.
O trabalho, além de ser sublimatório e fonte de prazer7 (ibidem), possui uma
função psíquica de constituição subjetiva em uma rede de significados para o trabalhador (DEJOURS, 2015). Tal aspecto possibilita refletir sobre a origem do sofrimento no trabalho, onde uma hierarquia extremamente rígida no contexto militar, sem uma valorização ou reconhecimento, gere uma expressão significativa de sofrimento. Por isso, que frente a hierarquia deve sempre haver laços afetivos (ibidem) entre colegas policiais militares, fomentando os princípios militares da camaradagem e da solidariedade.
Com o rigor disciplinar e hierárquico e a exposição constante à cenários de violência, geram efeitos na área pessoal e social dos policiais militares, passando a integrar o seu funcionamento humano, repercutindo nos seus relacionamentos em geral, o que nos faz refletir as implicações psicossociais desse trabalho e a ausência de um acompanhamento psicológico oferecido tanto pela Instituição quanto pela Psicologia. Azevedo (2017), Spodea e Merlob (2006) observam que no sujeito policial militar a farda se sobrepõe ao indivíduo marcando com toda força a matriz institucional deste discurso, cuja função é conter a violência, mas que, ao mesmo tempo, corre o risco de reproduzi-la e/ou de ser vítima dela. Adriana da Câmara Costa e Ionara Dantas Estevam (BLOG PSICOLOGADO, 2019) ao discorrerem sobre a depressão causada pela função social do policial militar, apontam que:
Além do perigo potencial que a prática do policial acarreta para si mesmo e a população, a morte é uma realidade constante na vida desse profissional, visto que o mesmo precisa lidar com a morte das vítimas, dos bandidos, dos companheiros de farda e com a possibilidade de sua vida ser ceifada a qualquer momento durante o confronto (VALLA, 2002), enfrentando risco de vida para si mesmo e para os demais. Os policiais convivem com os riscos reais e imaginários na profissão, sendo assim o sofrimento patogênico e a depressão apresentam perigos e podem desencadear respostas de alerta ou levar a morte [prematura].
Entretanto, pela via do reconhecimento e da valorização – duas atitudes que motivam o trabalhador e o comprometem ao trabalho –, tanto da sociedade quanto dos próximos e superiores, que o sofrimento vivenciado pode ser transformado em prazer e realização, configura-se como uma profilaxia psicológica – esta questão será tratada no próximo capítulo. Neste sentido, Heloani e Lancman (2004) apud Machado, Traesel e Merlo (2015), “os processos de reconhecimento, gratificação e mobilização
7 Ou seja, o trabalho é um local onde o trabalhador descarrega sua energia psíquica – pulsão –, e
da inteligência, além de estarem relacionados à realização do trabalho, estão ligados à constituição da identidade e da subjetividade”.
Seguindo os resultados encontrados na literatura geral (DANTAS, BRITO, RODRIGUES, & MACIENTE, 2010; SOUZA & MINAYO, 2005 apud, OLIVEIRA & FAIMAN, 2019) o trabalho do policial militar é considerado uma das atividades que mais geram estresse e desgaste do trabalhador. Visto que se trata:
De uma profissão que tem visibilidade na sociedade e é constantemente julgada por ela, já que a polícia tem o dever de proteger o cidadão e trabalha nas ruas, em contato direto com a população. Diversas opiniões são formadas, às vezes positivas vendo-se o profissional como uma figura de autoridade e respeito, às vezes negativas, quando ele é associado à Ditadura Militar e ao poder abusivo.
Além disso, o policial deixa de ser visto como um cidadão, mesmo nos horários de folga ou fora do serviço, a sociedade não realiza esta separação entre o público e o privado, tão pouco a natureza do trabalho a realiza, desmanchando desta forma as fronteiras entre o início e o fim da escala de serviço, assim, o trabalho invade a vida pessoal e as relações deste trabalhador (FREITAS, 2003, apud, FREITAS, 2015). Sem incorrer no erro de atribuir juízos de valores, a precocidade, referida acima, pode ser associada à sociedade não se demonstrar cooperativa com os policiais e também à Instituição Militar em não oferecer suportes de mobilização subjetiva a eles. Na maioria das vezes o policial militar não tem para onde fugir ou aonde procurar socorro.
Assim, a sociedade exige um policial militar profissional e qualificado na segurança pública, no entanto, não deve esquecer que este policial também é um ser humanos. Sendo assim, este policial, por ser uma das figuras de autoridade mais solicitadas pelos demais cidadãos, deve ter sua dignidade respeitada e também ele respeitar a si próprio.
Devido a população ter uma visão de um policial militar onipotente e auto-suficiente, destituído de subjetividade – onde muitas vezes tal aspecto é reforçado pela própria Instituição Militar – por ser responsável pela manutenção da segurança – cabendo lembrar que a responsabilidade pela manutenção da segurança social é responsabilidade de toda sociedade, conforme observado na Constituição Federal de 1988 –, o distanciamento da Instituição Militar com o trabalho policial é prejudicial à saúde e à subjetividade destes profissionais, fazendo com que, quando há algum erro
da parte destes profissionais, seja criado um questionário negativo de desprezo e um abandono público, a partir de um imaginário social; tal aspecto será trabalhado no capítulo 4.
Desta forma, articula-se a falta de compreensão pela sociedade das implicações profissionais e sociais que são impostas aos policiais militares pela grande mídia e por pessoas que não simpatizam com a Polícia. Jesus (2005) apud Machado, Traesel e Merlo (2015), aponta que,
Atualmente, os policiais militares estão em busca do reconhecimento da sociedade pelos serviços prestados a ela. É importante que esse profissional se sinta motivado e orgulhoso pelo que faz, resgatando a consciência de seu papel social, uma vez que está a serviço da cidadania.
A importância do reconhecimento e da valorização é de suma importância para o sujeito policial militar no desempenho de suas atividades. Do contrário, é possível observar uma espécie de dupla frustração – que será tema do próximo capítulo, mas esquematizado neste. O seguinte esquema, que podemos observar, está presente na psicodinâmica institucional, na atualidade, em Instituições Policiais Militares, bem como nas demais Instituições de Segurança Pública no Brasil. Conforme já tratamos anteriormente, é possível nos localizarmos conceitualmente desta maneira, no esquema abaixo que trata da pressão psíquica sobre o policial militar:
Mobilização subjetiva → Instituição militar → Policial Demanda social Desvalorização Ativa, Interna - Passiva, Externa
2.3.1 Relações internas: a instituição militar
Temos aqui a própria Cultura Organizacional instituída em lei, a qual o policial militar deve concordar para ser empossado no exercício de suas funções. Quando se refere sobre a relação do discurso da farda e o poder simbólico atribuída a ela em reger o comportamento do policial dentro desta implicação, não deve ser considerada como um erro ou algo psicologicamente prejudicial, pois além do policial ter o arbítrio consciente sobre a escolha do seu trabalho, todos os demais trabalhos, cursos acadêmicos, filosofias e religiões também possuem seus discursos e simbolismos;
são fundamentais para a marca social do trabalho e a subjetividade de seus trabalhadores. Porém, o que o presente trabalho levanta como questionamento é se essa Instituição possui estruturas e apoio para proporcionar ao policial com a finalidade de trabalhar com a hierarquia e disciplina em sua personalidade psicológica, desta forma, contemplando também a vida pessoal deste trabalhador.
Então, uma Instituição rígida que não permite essa mobilização subjetiva (DEJOURS, 2015), certamente irá adoecer seus trabalhadores, pois como se trata de uma questão interna, por mais que os subordinados sejam ativos nesse ambiente, somente os seus superiores é que poderão mudar essa situação, passando a olhar para os seus policiais operacionais (policial de rua, o que mais adoece) com mais humanidade e respeito à sua dignidade.
Dignidade esta que contemple ao trabalhador um ambiente de convivência familiar e espiritual saudável, com horas para descanso e lazer, ainda também atividades físicas, tudo isso motivado pela própria Instituição, visando a qualidade de vida do trabalhador, mediante um equilíbrio mental das atividades exercidas. Em termos diretos e claros, se tratando de um objetivo institucional a saúde mental do policial militar, para Paulo Victor Ferreira (Blog Abordagem Policial, 2011):
Para a manutenção da saúde mental de seus servidores, a instituição policial-militar deve oferecer atendimento psicológico, promover atividades físicas, valorizar os seus profissionais oferecendo melhores condições de trabalho e salários dignos, dessa forma resultará em homens e mulheres satisfeitos e motivados em promover a segurança pública que a sociedade carece.
2.3.2 Relações externas: a demanda social
A partir do que foi explanado, podemos observar o mesmo movimento associado ao adoecimento do policial militar, o que muda são somente as manifestações concretas dessa pressão. Deste lado o que podemos observar são as queixas negativas e questionamentos imaginários que atacam diretamente a função do policial militar, de forma até generalista, quando é cometido algum erro funcional. O que muda, é o aspecto que, neste sentido, o policial militar recebe uma comunicação do meio externo, onde é totalmente passivo neste recebimento; também a questão que é preciso refletir, não é meramente esta comunicação, mas sim em quando ele desempenha corretamente as suas atribuições e não é valorizado e nem reconhecido pela sociedade, tampouco pelo poder público – o que vem sendo
amplamente discutido e repercutindo certas mudanças positivas com a atualidade política em apoio aos trabalhadores da Polícia Militar.
Uma sociedade que cobra pelos seus erros e não o agradece pelos seus acertos é um fator potente que pressiona o policial ao adoecimento psicológico e físico. Algo a se notar e comumente observável, é quando estamos no direito positivo8,
ficamos gratos com o trabalho da segurança pública, porém quando estamos no direito negativo9, automaticamente nos colocamos em resistência contra o trabalho
policial. Quando estes homens e mulheres se sentirem valorizados, reconhecidos e gratos pela sociedade, apesar dos seus erros que a grande mídia impõe forte e veemente através de um discurso politicamente ideológico e humilhante, estaremos avançando para uma polícia militar mais humana e menos doente.
2.3.3 E alguém já ouviu falar em Psicologia Militar?
Em 2012, no Rio de Janeiro, Samuel Costa, psicanalista clínico e neurocientista, escreveu o livro “Psicologia Militar sob tensão: estresse e emoção”, cujo aqui é feito uma releitura com apontamentos pertinentes ao presente estudo, a partir do conhecimento do autor e de sua curiosidade despertada no seu estágio em Psicologia Organizacional e do Trabalho no Exército Brasileiro. Juntamente com o livro da Biblioteca do Exército, “Psicologia Militar”, escrito em 1949, essa literatura científica da Psicologia foi praticamente esquecida pela academia no Brasil, sendo os dois únicos títulos disponíveis no país para a compra e leitura de civis.
A escrita de ambos os livros trata da aplicação teórica da Psicologia especificamente no ramo militar; pensemos que se a nossa profissão está pouco inserida na Segurança Pública no Brasil, então pouco está em escritas literárias e produções de conhecimentos acadêmicos para o militarismo, é, de certa forma, faltante. Justamente por este aspecto, faz-se necessário, apresentar e ressaltar, ao leitor, seja acadêmico ou profissional, o quão vasto é o campo de atuação e quantos campos ainda não são objetos de pesquisa e intervenção do saber e do fazer do profissional da psicologia.
8 Quando estamos corretos perante o comportamento social regulamentado de forma tácita. 9 Quando estamos incorretos perante o comportamento social regulamentado de forma tácita.
Essa Psicologia trabalha com os mesmos afetos que qualquer outra Psicologia trabalha dentro da sua perspectiva prática e teórica, pois segundo Krumm (2007) apud Costa (2012, p.70-1), “são eles que fornecem motivações ou comportamentos psicodinâmicos em relação a todas situações da vida e desempenham papel dominante nos pensamentos e ações de uma pessoa com saúde ou doença”. A Psicologia Militar não é uma especialização da Psicologia, como são as ênfases clínica, educação, organização ou social. Está preocupada em desenvolver aptidões e instrumentos para analisar sistematicamente o contexto humano, de forma a compreender ou prever os fenômenos do comportamento de militares.
Expondo alguns registros históricos e temporais, Samuel Costa (2012) aponta que Benjamin Constant foi o pioneiro dessa disciplina no Brasil, ao introduzi-la na Escola Militar da Praia Vermelha, que adaptou os conhecimentos da Psicologia ao militarismo, por meados de 1900. Quando em 1913, foi criada em Realengo no Rio de Janeiro, a Escola Militar do Realengo, que seguiu a mesma metodologia. Em 25 de outubro de 1949, pela Portaria número 171, do Ministério da Guerra, foi criado o curso de psicólogos militares, nunca época em que a Psicologia ainda não era reconhecida no Brasil como ciência – veio a ser através da Lei 4.119 de agosto de 1962, e também em 1964 pelo Decreto-Lei número 53.464 em relação à atuação do psicólogo. Mesmo antes da Psicologia ter sido reconhecida como profissão e ciência, ela já tinha sido implantada no Exército, Marinha e Aeronáutica do Brasil, como base para a aplicação de instrumentos do psicotécnico militar.
Já no contexto norte-americano (COSTA, 2012), o mentor da Psicologia Organizacional se chama Walter Dill Scott, do Exército dos Estados Unidos. É ele quem inclui nas Forças Armadas o quadro de psicólogos organizacionais, a partir da necessidade de seleção e recrutamento, tanto do Exército quanto de funcionários de empresas. Nos Estados Unidos, a Psicologia Militar, desde lá, encontra-se em grande expansão. Aproveitando o capitalismo americano, o Estados Unidos pelo Alto Comando do Exército Norte-Americano foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da Psicologia Clínica, em meados de 1941.
Ainda é cabível informar que esta Psicologia, a Militar, afirma que o estresse e a tensão são também necessários para a nossa vida não se tornar monótona, pois estão presente em nossos relacionamentos, além de indicar para o cérebro que somos sujeitos de emoções. Seu principal objetivo está em oferecer ao militar, através
de recursos subjetivos, a aptidão e a habilitar de reelaborar e suportar os eventos estressores causadores de conflito em sua profissão.
Enseja ficar claro que um forte apoio recebido para a existência da Psicologia no Brasil veio dos próprios militares. Temos em cena uma certa retribuição social da profissão da Psicologia, quer concordemos ou não, mas ao adentrarmos e entendermos essa temática relevante e carente da presença do fazer psicológico, passamos a ter ciência que temos de retribuir com nossa ciência para a saúde dos trabalhadores que asseguram a manutenção social, ou seja, os policiais.
2.4 Informações psicodinâmicas e discursivas in loco
Neste ponto apresentarei a materialização teórica e de interpretação daquilo que a Organização apresenta, como e com o que se relaciona, entre o trabalho policial militar e a sua atuação na sociedade, cabendo ressaltar que é uma variável psicológica de local para local, contexto para contexto e ambiente para ambiente, justamente por ser marcada pela subjetividade humana desde a sua fundação e até o acolhimento de trabalhadores singulares. Segundo Zanelli (2014), a Organização é vista como dinâmica e orgânica, como um sujeito psíquico, porém uno e que se choca com a sua autonomia funcional devido à hierarquia existente nela – ao exemplo de uma célula sanguínea. Para o entendimento deste estudo, é preciso tomar fundamento teórico na Cultura e Clima Organizacional, e o seu reflexo psíquico na vida do trabalhador.
2.4.1 Cultura organizacional
A cultura organizacional é compreendida como a estrutura da Instituição, sendo ela, como algo que ela “é” e “tem”, ou seja, uma expressão cultural dos valores e diretrizes de sua totalidade (SMIRCICH, 1983 apud ZANELLI, 2014). Se faz importante, nela, serem identificados os valores básicos, as diretrizes, conjunto de regras, os arquétipos e a fenomenologia histórica que orientam o comportamento e as relações dos trabalhadores. Segundo Dejours (2015, p. 157), o psicólogo aqui somente pode trabalhar com a intenção de diminuir a pressão organizacional sobre o trabalhador.
Por ser a operacionalização da instituição (ibidem), a Organização precisa ser instituída nas relações de trabalho, chamado de institucionalização, que é o estabelecimento de regularidades de comportamento, fixando, marcando e registrando a cultura organizacional; é habitual, cotidiana e serve como guia comportamental. A primeira grande institucionalização é a linguagem (por signos e símbolos), somente por esse assujeitamento é que podemos nos relacionar, através da comunicação e compreensão de mundo (ibidem).
2.4.2 Clima organizacional
O clima organizacional é compreendido como o reflexo psicodinâmico e afetivo da Cultura Organizacional, ou seja, é o produto dela, é o emergir da sua finalidade (SILVA; TOLFO; ZANELLI, 2014). Neste nível que se encontra o foco do trabalho do psicólogo, traduzindo-se em um nível pessoal, de ordem social que implica no reconhecimento e identificação do trabalhador no seu trabalho a partir do que a Organização o oferece em termos de recursos subjetivos.
No nível do Clima é onde poderemos identificar se a Organização está oferecendo tais recursos aos seus trabalhadores, também se um grupo de trabalho se transformará em uma equipe de trabalho; verificando a partir dos relacionamentos deste nível é que deciframos o suporte Organizacional, para aí podermos questionar aos superiores se a forma que a estão conduzindo tem sido saudável ou não, acarretando na propositura de mudanças.
Aqui que temos o paradigma da saúde mental do trabalhador, dividindo-se em sofrimento ou adoecimento – trabalharei esta problemática no próximo capítulo. O Clima Organizacional se torna reflexo quando a Organização em si, admite em sua Cultura que é uma cognição, um simbolismo e um processo inconsciente, isto é, é um sujeito psíquico (ibidem).
2.4.3 Cenário de adoecimento psíquico do policial no Brasil
Entender o cenário atual dos policiais, faz-se necessário para a reflexão e compreensão da vulnerabilidade que os mesmos estão expostos em relação ao adoecimento, é, portanto, lançar luz sobre um paradigma ainda encoberto pela
desvalorização da categoria pela mídia e pela sociedade, refletindo diretamente nas configurações organizacionais em promoverem saúde e receberem suporte que beneficie a pessoa do policial e também o seu trabalho. Casos de “suicídio indicam certamente uma desestruturação das relações sociais no trabalho [...] ele indica a solidão psicológica, que é uma solidão afetiva” (DEJOURS, 2017, p.121). Na sequência, são apresentadas pesquisas e notícias, que remontam aos cenários aos quais os policiais estão inseridos, evidencia a vulnerabilidade que se encontram, ficando evidente o descaso do poder público com estes sujeitos.
Uma pesquisa realizada por Oliveira e Santos (2010) a com o objetivo de sondar a percepção de saúde mental em policiais militares de força tática e de rua, publicado na Revista Sociologia de Porto Alegre, descreve que “quem consentiu na
participação, foi aplicado individualmente uma escala com 30 questões, abordando assuntos relativos ao tema. Os resultados evidenciaram que os participantes (91,7%), sempre ou às vezes, percebiam-se estressados; uma parte (41,7%) relatou já ter agido impulsivamente em alguma ocorrência; 88,3%, sempre ou às vezes, se sentiam emocionalmente cansados após o dia de trabalho; 62,5% afirmaram que às vezes percebiam-se agressivos no trabalho; 20,8% já pensaram em suicídio e 8,3% nunca se sentiam realizados com a profissão. Sugere-se a necessidade de novos estudos [...pois ...] as corporações militares, de um modo geral, não possuem em seu quadro de funcionários um psicólogo ou até mesmo, um setor de psicologia que atue junto com o médico ou, ainda, que tenha autonomia própria para propor ao militar algum tipo de tratamento ou suporte clínico, ou ainda, algum trabalho preventivo para conter os sintomas mais latentes já no início de seu aparecimento”.
O site Terra de Notícias (2015), lançou “uma das pesquisas, realizada pelo
Laboratório de Análise da Violência da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), entrevistou 224 policiais militares do Rio de Janeiro. Deles, 22, ou seja, 10%, declararam ter tentado suicídio. Pelo menos 50 disseram ter pensado em suicídio em algum momento da vida. Os dados indicam que a taxa de suicídio entre PMs é 3,65 vezes a da população masculina e 7,2 vezes a da população em geral. A taxa de sofrimento psíquico revelada pela pesquisa do Claves, que se transformou em livro, foi de 33,6% na PM e 20,3% na Polícia Civil. Diagnóstico realizado pela PM do Rio entre policiais de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) constatou que 70% deles
relataram ter algum tipo de sofrimento psíquico, de depressão a dificuldades de relacionamento”.
Através do guia para saúde mental do site Vice (2015), informou-se que “no
Brasil, 30% dos policiais federais fazem tratamento psicológico com remédios. Em um ano, 11 se mataram. Dentre 11 mil policiais (número total da corporação brasileira) entrevistados recentemente, 2 mil afirmam tomar algum tipo de medicamento para tratamento psicológico e psiquiátrico, de acordo com a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) em 2012, 53% dos policiais entrevistados responderam que gostariam de se desligar da Polícia Federal. Quando perguntados sobre a existência de programas voltados para o bem-estar ou atenção à saúde do servidor dentro da PF, 88% afirmaram não haver qualquer programa do tipo”.
Uma pesquisa concluída pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), realizada de 2010 a 2012, teve seus dados revelados pelas notícias da BBC Brasil (2016) em agosto de 2015 onde “de 224 policiais militares entrevistados, 10% disseram ter
tentado suicídio e 22% afirmaram ter pensado em suicídio em algum momento. Em contrapartida, 68% disseram nunca ter tentado nem pensado em se matar. De acordo com dados citados na pesquisa, cuja fonte é a própria Polícia Militar, de 1995 a 2009 foram notificados 58 casos de suicídio de policiais militares no Rio de Janeiro, mais 36 tentativas de suicídio. Dos 58 óbitos por suicídio de PMs da ativa, três aconteceram em serviço e 55 nos dias de folga. Foram em média três suicídios a cada ano. O número de mortes por suicídio na folga foi 18 vezes maior do que em serviço. São apenas 95 psicólogos para 48 mil PMs - os policiais militares no Rio de Janeiro têm quatro vezes mais chances de cometer suicídio se comparados com a população civil. Entre janeiro de 2014 e junho de 2018, três PMs foram diagnosticados com transtornos mentais por dia. Enquanto em 2014 houve 836 policiais afastados por essa razão, de janeiro a agosto de 2018 foram 2.500 - mais que o dobro”.
No portal R7 Notícias (2017) informa que “o suicídio de policiais federais é 6
vezes maior que a média brasileira, e 20% deles já pensou em se matar”. Se juntarmos
com as demais polícias brasileiras e compararmos com a média nacional, o valor do dado médio é absurdamente superior.