2 QUESTÕES ORIUNDAS DO CAMPO: A POLÍCIA
2.5 O trabalho da Psicologia Organizacional e do Trabalho
O trabalho da Psicologia Organizacional e do Trabalho é um fazer que não está pautado nas individualidades particulares de cada pessoa que ali trabalha, mas sim na profissão que exercem no ambiente de trabalho e que repercute reflexos na vida pessoal também, decifrando a visão de mundo organizacional (ZANELLI, 2014), enquanto a Psicologia Organizacional decifra o comportamento subjetivo, a Psicologia do Trabalho decifra a saúde do trabalhador, ambas se compondo.
Retornando à instituição em questão no presente momento, a Instituição Militar, que de praxe é instituída pela hierarquia e disciplina militar, com efeito jurídico vinculado em lei; o resultado que se dá dessa instituição denomina-se clima organizacional, este, por sua vez, é relativo de local para local e de grupo para grupo. No clima organizacional da corporação que é focado o trabalho psicológico, sondando aspectos mentais da profissão policial-militar que possam estabelecer material de estudo para uma estruturação prática da psicologia em aplicar sua ciência proporcionando um espaço de escuta que contribua à saúde mental do trabalhador no trabalho e fora dele.
De início ao trabalho prático, é tanto necessário o reconhecimento da Cultura Organizacional deste local, quanto um estudo histórico desta Instituição, que tem seus objetivos e suas diretrizes vinculadas em lei, sendo cabível ao Psicólogo também sondar o desenrolar histórico dos discursos e valores morais da Instituição no decorrer do tempo desde a sua criação, bem como também sua relação social entre profissão e sociedade.
Culminamos, então, o reconhecimento do Clima Organizacional. Após a escuta e uma observação histórica – ferramentas trabalhadas no próximo capítulo – dos processos sociais e do trabalho que permeiam a Polícia Militar, é possível chegarmos o mais próximo possível da gênese do iceberg psicológico do ambiente. De forma resumida, podemos compreender, a Cultura Organizacional como as diretrizes e objetivos que movem a Instituição, e o Clima Organizacional é o reflexo psicodinâmico e afetivo dela. Evidentemente trabalhamos com aquilo que emerge no nível de intervenção pessoal das relações de trabalho, focando no Clima, pois como é sabido, a Cultura Organizacional é Instituída em lei vinculada.
Como a Organizacional é composta de vários níveis, ao exemplo do iceberg, muitas questões ficam submersas sobre as outras, cabendo também um estudo sobre a antropologia contextual e histórica do município e sobre as relações da Polícia Militar com a comunidade, para poder-se sondar as suas questões da Cultura Organizacional – pois a Psicopatologia do Trabalho (DEJOURS, 2015) tem como objeto os fenômenos de ordem histórica e psicossocial. Essas informações são importantes pois implicam diretamente com aquilo que a Polícia trabalha na área de sua jurisdição, refletindo, assim, no ambiente de trabalho. Para clarear o entendimento, é possível comparar as demandas sociais da atuação, preventiva e repreensiva, da Polícia Militar em uma cidade de interior e outra de metrópole. Questionamentos da cultura, religião, número de habitantes, quantidade de ocorrências, natureza das ocorrências, visão da comunidade sobre o trabalho da Polícia, valores locais, são importantes para esse estudo que complementa também o trabalho do Psicólogo.
Resumidamente, através de uma proposta, da Universidade de Santa Cruz do Sul, de prevenção em saúde mental do policial militar (AMADOR; SANTORUM; CUNHA; BRAUM, 2002),
O objeto da Psicodinâmica do Trabalho é a análise dinâmica dos processos psíquicos mobilizados pelo confronto do sujeito com a realidade do trabalho, dinâmica essa constituída de mecanismos defensivos, tanto individuais quanto coletivos, sendo estes últimos focos principal dos estudos. Em outras palavras, a análise em Psicodinâmica do Trabalho detém-se no entendimento dos processos intersubjetivos e interativos que se desenvolvem nos locais de trabalho. Assim, entendemos que são necessários esforços no sentido de garantir a viabilidade de ações promotoras e preventivas em saúde mental do trabalhador na Polícia Militar mediante algumas iniciativas: a primeira que destacamos refere-se a dar continuidade ao processo de democratização na Polícia Militar, o qual, para ser verdadeiramente efetivo, pressupõe a restauração do direito à palavra no contexto do trabalho; a segunda diz respeito ao investimento na contratação de profissionais das áreas das ciências
humanas e da saúde que possam atuar junto às Companhias aproximando-se, desse modo, do cotidiano dos policiais e, por fim, chamamos a atenção para a importância do estabelecimento de políticas públicas em saúde e segurança que amparem programas sistemáticos em saúde do trabalhador junto aos espaços de trabalho policial, oportunizando o repensar permanente dos agentes da segurança pública acerca de sua relação com o trabalho.
3 TEORIA DA PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO APLICADA AO CAMPO POLICIAL
Apesar de um campo de trabalho teórico novo, a Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) tem-se apresentada como um sustentáculo teórico imprescindível para o andamento laboral e subjetivo de sujeitos reunidos em torno de uma atividade, ou seja, é apreendida como o fazer humano no ambiente de trabalho e tem seu foco de trabalho sobre os grupos e sujeitos ali presentes e os impactos do trabalho nestes, especialmente sobre a qualidade de vida e a saúde mental do trabalhador (ZANELLI, 2014).
Este ramo da Psicologia é aplicável, em sua prática e reflexível em sua teoria, em múltiplos ambientes que se dinamizam em torno de uma atividade trabalhista que envolva seres humanos. O campo da Segurança Pública é um deles, mais precisamente a área policial, tanto ostensiva quanto intensiva, preventiva quanto repreensiva. Afinal, aonde há trabalhadores, há sujeitos, logo, seres humanos que precisam de nosso enfoque profissional voltado à sua qualidade de vida no trabalho.
Cabe aqui, ressaltar alguns apontamentos teóricos que o Psicólogo Organizacional e do Trabalho precisa ter em seu aparato cognitivo para saber lidar com as situações ocorridas dentro de um ambiente de trabalho, neste caso, uma Organização policial, para que tenha estrutura em embasar suas intervenções no local em que está inserido. É interessante, ainda, notar que a POT é, sobretudo, uma Psicologia das relações de trabalho humano, cujo desenrolar social constrói marcas significativas e históricas nos sujeitos trabalhadores, centrando nos pilares da nossa ciência nestes ambientes, ou seja, “olhar – escutar e observar – e compreender para intervir” (ZANELLI, 2014).