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WORKSHOP BRASILEIRO DE INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO, 3., 2002, SÃO PAULO. ANAIS.

CONGRESSO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE GESTÃO DO CONHECIMENTO, 1., 2002, SÃO PAULO. ANAIS. 14901

CONHECIMENTO E AÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES:

UM OLHAR CONSTRUTIVISTA

HELENA F. N. SILVA ; GERÔNIMO W. MACHADO; ANA Z. MAIO ORTIGARA; SÔNIA M. BREDA

Professora do Departamento de Ciência e Gestão da Informação, Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutoranda em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina

e-mail: [email protected]

Professor do Departamento de Economia, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando do Programa de Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina

e-mail [email protected]

Professora do Departamento de Letras e Artes da Fundação Universidade do Rio Grande. Doutoranda em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina

e-mail [email protected]

Professora do Departamento de Ciência e Gestão da Informação, Universidade Federal do Paraná (UFPR) e-mail [email protected]

RESUMO

Aborda as teorias cognitivistas como campo de investigação no último século e suas implicações nas ações e no conhecimento dos sujeitos, dentro de um contexto organizacional. As Ciências da cognição, como um campo de investigação interdisciplinar sobre o processo de conhecer e a função do conhecimento na vida individual e coletiva, considera as dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais. A partir de uma pesquisa bibliográfica analisa as transformações das ciências da cognição. Primeiramente, o conceito de mente ocupa lugar de destaque na compreensão dos processos que geram o conhecimento e o modo como o homem lida com o conhecimento para enfrentar desafios. Num segundo momento, com base no rompimento com o paradigma da mente cartesiana, surge a segunda revolução cognitivista na qual a mente deixa de ser um “lugar” e passa a ser entendida como disposições a agir de maneira específica em certas situações. A linguagem estrutura o mundo e constrói a realidade, incluindo a cultura. A mente e a linguagem têm vinculação com a ação. Conclui que a abordagem cognitivista reflete implicações na gestão das pessoas, fornecendo conceitos para a compreensão, explicitação e análise das ações dos membros das organizações, destacando o papel que o pensamento e o conhecimento desempenham nesse ambiente. Evidencia ainda, o princípio de que os indivíduos são sujeitos ativos com posições críticas que na condição de agentes complexos constroem os contextos nos quais eles agem e se movimentam. Portanto, as ações das pessoas nas organizações têm origem em suas atividades cognitivas e mentais, não só individuais, como também relacionadas a grupos e organizações e que os processos e estruturas cognitivas são primordiais para a compreensão da participação dos seres humanos nas organizações. Além disso, o pensamento e a ação estão imbricados na visão de mundo, no horizonte de compreensão e na experiência vivida pelos sujeitos dessas ações, incluindo aspectos emocionais, corporais, culturais e sociais que geram conhecimento tácito e estão amplamente presentes na vida cotidiana.

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WORKSHOP BRASILEIRO DE INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO, 3., 2002, SÃO PAULO. ANAIS.

CONGRESSO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE GESTÃO DO CONHECIMENTO, 1., 2002, SÃO PAULO. ANAIS. 14902

ABSTRACT

KNOWLEDGE AND ACTION INSIDE THE ORGANIZATIONS: THE COGNITIVE APPROACH This paper treats on the cognitive theories as a field of investigation, in the last century, and their implications in the actions and in the knowledge of subjects, in an organizational context. Cognition sciences – as an interdisciplinary field of research turned to the knowing process and to the function of knowledge in private and collective life – consider biological, psychological, social and cultural dimensions. Based on a bibliographic research, it analyses the transformations of cognition sciences. First, the concept of mind is prominent in the comprehension of the knowledge raising processes, and in the way men use knowledge as a device to face their challenges. In a second moment, breaking off with Cartesian mind paradigm, a second cognitive revolution appears, in which mind is no longer considered as a “place”, but as dispositions to act in a specific way, according to different situations. Language gives the world a structure and builds up reality, including culture. Mind and language are linked to action. It concludes that the cognitive approach reflects itself in people’s management, providing concepts to the comprehension, explicitation and analysis of the actions of the members of the organizations, highlighting the role of thought and knowledge in this environment. It makes evident the principle that individuals are active subjects, with critical positions, who, as complex agents, build up the contexts in which they act. It emphasizes that people’s actions, inside the organizations, have their origin in their cognitive and mental activities, not only individual ones, but related to groups and organizations as well, being cognitive processes and structures which are fundamental to the comprehension of human participation in the organizations. Besides, thought and action are involved in the view of world, in the range of comprehension and in the living experience, including emotional, organic, cultural and social aspects, that generate tacit knowledge and that are widely present in daily life.

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1 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

As teorias e os modelos organizacionais pouco têm enfatizado a necessidade de pautar-se na realidade social dos membros que constituem as organizações. O conhecimento dessa realidade pode orientar os administradores na seleção de pessoas e na organização do trabalho propriamente dito, ajudando-os na compreensão de hábitos, atitudes, emoções e outros elementos humanos indispensáveis para qualquer ação.

O termo realidade concentra inúmeras discussões acerca do conhecimento. A concepção do termo remete a um universo semântico de conceitos eminentemente ontológicos: existência, essência, possibilidades, atualidade, efetividade e objetivação.

A realidade diz respeito não só ao ser-objetivado, mas também às suas representações reais e imaginárias. Ela é sempre síntese do processo no qual se dialetizam fatos e interpretações múltiplas desses fatos. Conhecer uma realidade é, portanto, segundo TEVES1, “reconhecê-la como historicamente determinada, constituída por sujeitos que a representam, a simbolizam. Sob a forma de percepção, de intuição, de sensações, de concepções, a realidade é sempre uma realidade para um indivíduo ou grupo de indivíduos que compartem entre si o sentido dessa realidade”.

À compreensão da realidade de uma organização precede a compreensão do contexto (histórico, social, político, econômico) na qual essa organização está inserida. Assim, antes da abordagem do tema propriamente dito, far-se-á uma síntese das principais mudanças ocorridas nos padrões de produção e de organização, especialmente para modelos de empresas mais flexíveis. Além disso, cabe também apontar as profundas transformações que ocorrem nas condições de mercado, nas tecnologias e nos valores relativos ao trabalho em si.

No que se refere às condições de mercado, as características mais acentuadas foram a instabilidade, a diversificação e intensificação da concorrência ligada à abertura dos mercados, a exigir das empresas capacidade de adaptação rápida às mudanças e de resposta adequada às exigências específicas e diferenciadas dos vários segmentos.

As novas tecnologias, por outro lado, ao mesmo tempo em que criam oportunidades, requerem uma lógica organizacional que permita o desenvolvimento de competências e comportamentos capazes de utilizá-las.

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Os valores referentes ao trabalho exigem estruturas organizacionais cada vez mais flexíveis e participativas, estimuladoras da criatividade e iniciativa dos indivíduos, indivíduos estes cada vez mais escolarizados, com competências cognitivas mais elevadas, mais autonomia, responsabilidade, desenvolvimento pessoal e profissional e participação.

A compreensão e a atuação do homem nessa nova organização passam pois por questões muito mais complexas do que se imagina. A ação das pessoas no mundo do trabalho está associada à visão de mundo, a crenças e valores que envolvem a cognição. A cognição engloba aspectos emocionais, corporais, culturais e sociais que geram conhecimento tácito e estão amplamente presentes na vida diária de todos nós.

Todas essas questões se impõem como objeto de reflexão, tomando-se como ponto de partida e contribuição o pensamento de alguns estudiosos da temática.

2 COGNIÇÃO E AÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES: BREVE RETROSPECTO

A trajetória científica para compreender como o homem aprende e transforma esse aprendizado em ações é bastante longa e tem sido um desafio constante das diversas disciplinas envolvidas: Psicologia, Lingüística, Neurociências e Computação.

No início, por um lado, pensava-se - numa visão cartesiana - que a mente era uma entidade interna, independente do corpo, fonte da razão, do conhecimento e verdade. A razão e a emoção eram tidas como domínios isolados. Por outro lado, sob o domínio behaviorista, acreditava-se que mente era um conceito não-científico, circular, inacessível e subjetivo. A ênfase residia no observável: o comportamento, o ambiente.

Nos anos 50 surge o paradigma do processamento de informação, uma metáfora com o computador e arquiteturas simbólicas. Nesse sentido, a mente poderia ser comparada a um software e a cognição com a computação, ou seja, processamento de informações que envolvem a coleta, o processamento, a armazenagem e a recuperação. A ênfase é dada ao pensamento, enquanto que os planos afetivos, emocionais, contextuais e culturais são deixados de lado. No modelo do computador para a cognição, afirma CAPRA2, “o conhecimento é visto como livre de contexto e de valor, baseado em dados abstratos. Porém, todo o conhecimento significativo é conhecimento contextual, e grande parte dele é tácito e vivencial”.

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Rompendo a noção de símbolo, surgem as arquiteturas conexionistas tendo como metáfora o cérebro. As idéias das redes neurais, ou seja, nodos que se conectam; o processamento paralelo ou distribuído; a memória como armazenamento distribuído e o processamento automático, implícito e inconsciente são o ponto central dessa corrente. As neurociências tentam uma aproximação do corpo e da mente. Assim, a mente seria como um produto de um organismo em interação e de um equipamento biológico singular e complexo: o cérebro. Introduzem-se também as noções de plasticidade e evolução: adaptação do organismo; mente: atividade e processo; mente e corpo: a dicotomia razão e emoção também é rompida.

O construtivismo incorpora cultura e ação, tendo a mente como instrumento ativo de criação social do mundo. O processo de construção do conhecimento é mediado pela linguagem; os aspectos semânticos têm significados no interior de práticas sociais e o discurso é um ato da fala. As ações, afirma ALVES3, “são geradas (às vezes, nem sempre) por hábitos, que são gerados por comportamentos, que são gerados por formas de pensamento (paradigmas), que são mutáveis e estocásticos, ou seja tudo está em movimento”.

As ciências da cognição, poder-se-ia afirmar, caminham em três novas direções: (a) rompimento com a noção de símbolo e de processamento serial com o desenvolvimento da modelagem conexionista, (b) maior vinculação da mente ao corpo, especialmente o cérebro com as neurociências, (c) incorporação das dimensões social e cultural com o desenvolvimento das perspectivas construtivistas e da ênfase na ação. A vertente construtivista incorpora de novo nas ciências da cognição a natureza social do processo de construção e a revisão do fenômeno da linguagem, centrado na construção dos significados socialmente partilhados.

Tem-se assim, a segunda revolução cognitivista, com base no rompimento com o paradigma da mente cartesiana, no qual a mente deixa de ser um “lugar” e passa a ser entendida como disposições a agir de maneira específica em certas situações. A linguagem estrutura o mundo e constrói a realidade, incluindo a cultura. A mente e a linguagem têm vinculação com a ação, o conceito central de uma psicologia humana é o significado, juntamente com os processos que envolvem a construção desses significados.

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3 INCORPORANDO CULTURA E AÇÃO: A PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA

A corrente construtivista entende que a atenção deve ser voltada não só aos aspectos sintáticos mais também aos semânticos, ou seja, recuperando o papel do significado, a importância da linguagem, da cultura e da sociedade na construção da mente humana. A mente, segundo BASTOS4, é “um instrumento ativo na construção ou criação do mundo”. Dessa forma, segundo esse autor, a ênfase na natureza social do processo de construção e na postura ativa do sujeito do conhecimento é a base da perspectiva da construção social, provindo daí a identidade pessoal desse sujeito.

Na visão construtivista, a cognição está imbricada na ação ou, como afirma BASTOS5, “o indivíduo ao se comportar, busca modificar ambientes e contexto, influenciar outrem, dirigir seu próprio comportamento... O contexto é composto por outras pessoas, logo social, cultural e simbólico”. Dessa maneira, a ação das pessoas integra componentes emocionais e afetivos. Ainda segundo o autor referido, “o sentir, o agir e o pensar interligam-se em complexas redes que geram atos e resultam de uma história singular em um contexto também singular, naquilo que é percebido, interpretado e construído pelo próprio sujeito”. Tais colocações encontram sustentação no pensamento de CAPRA6, quando afirma que “os neurocientistas descobriram fortes evidências de que a inteligência humana, a memória humana e as decisões humanas nunca são completamente racionais, mas sempre se manifestam coloridas por emoções, a partir da experiência”.

Assim, a apreensão do mundo pelo homem é uma apreensão intencional, constituída de desejos, de interesses, de sonhos, nunca numa constatação desinteressada. O sujeito do conhecimento é, portanto, sujeito social, histórico, determinado e determinante da realidade.

Na consciência dessa realidade estão presentes a razão e a emoção imbricadas e não há como dicotomizá-las. Na unidade do ato perceptivo, pensa-se sentindo, sente-se pensando. Ou como afirma MERLEAU-PONTY7, o olhar não é a síntese de visões monoculares. Ele atua como uma metamorfose, como um milagre que arranca do mundo aquilo que passa a conhecer. Assim como os olhos, a boca, os dedos, o corpo todo do homem é o limite da sua captação do mundo.

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4 A ORGANIZAÇÃO SOB O OLHAR COGNITIVISTA

No entendimento de BASTOS8, o conceito de organização incorpora a idéia de agrupamento social ou de indivíduos em interação. Dessa maneira, as organizações, por serem resultados de ações individuais e coletivas, entrelaçam-se com processos e dinâmicas dessas pessoas e grupos em um lugar e tempo que impõem e circunscrevem essas interações.

Na tentativa de explicar os processos envolvendo a discussão sobre a determinação individual ou estrutural dos fenômenos organizacionais, surgiram ao longo do último século duas abordagens interpretativas.

A primeira, denominada de micro, passa pela abordagem comportamental, concentrando-se nos processo envolvidos no organizar-se. Privilegia o papel do individuo na construção da organização sobre o papel determinante da organização sobre os processos individuais. Dessa forma, ganham importância os processos decisórios, o comportamento gerencial, a liderança e o comportamento administrativo, buscando a compreensão da própria estrutura e coordenação da organização.

A segunda considera a organização como uma entidade, com existência própria independente das pessoas e de suas atividades. Essa visão se consolidou como macro- orientada à vertente dos estudos organizacionais e fortemente fundamentada na Sociologia, na Ciência Política e na Economia.

Na visão de BASTOS9, os dois campos, ancorados na separação individuo -organização, convivem, apesar das tensões permanentes. Assim, os processos que classicamente integram o domínio do comportamento micro-organizacional – processamento de informações, definição de problemas, percepções de trabalho, motivação, tomada de decisão, liderança e avaliação de desempenho – foram abordados com base em uma perspectiva cognitivista. Destacam a importância dos estímulos sociais ou interpessoais sobre as percepções que as pessoas desenvolvem sobre as próprias características do trabalho que realizam.

A perspectiva macro-organizacional parte do pressuposto que o comportamento das pessoas se deve a fatores organizacionais. As organizações teriam o poder de moldar comportamentos e ações individuais. Elas agem, têm políticas, subsistem no tempo para

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além das pessoas. Existiria uma estrutura social, um sistema de regras, normas valores e expectativas que preexistiriam aos indivíduos.

No trabalho de WEICK, citado por BASTOS10, introduz-se a idéia da organização como processo. Assim, “qualquer organização é a maneira pela qual passa pelos processos de sua formação. Tais processos, que consistem de comportamentos interligados, estão relacionados e constituem um sistema”. Na visão desse autor, a organização pode ser vista como corpos de pensamentos ou como conjunto de práticas de pensamento. Está aí presente a influência da corrente construtivista ou interpretativa.

A ênfase nos processos organizacionais tem sido manifestada através das inúmeras pesquisas da área. BASTOS analisa inúmeros exemplos de pesquisas, sendo inseridos aqueles considerados mais relevantes no âmbito desta reflexão.

A construção do quadro de referência apresentado por SCHNEIDER e ANGELMAR citados por BASTOS11, articula três níveis de análise (individuo, grupo e organização) e três propriedades centrais da cognição (estruturas cognitivas, processos cognitivos e os estilos cognitivos).

WALSH, também citado por BASTOS12, expõe um esquema que sintetiza a pesquisa sobre as estruturas de conhecimento (representação, busca, seleção, armazenamento e geração de novos conhecimentos e comportamentos). Afirma o autor que os estudos têm se voltado para: “(a) desenvolvimento e mudanças nas estruturas do conhecimento; b) a representação ou estrutura do conhecimento em si buscando descobrir, em face de estruturas específicas utilizadas por gerentes, seus atributos, conteúdos específicos e como esses se estruturam; c) o uso e conseqüências dessas estruturas, qual seu impacto sobre os resultados organizacionais, em seus diferentes níveis”.

A cognição e os processos organizacionais nas duas correntes (micro e macro) apresentam uma pluralidade de conceitos, o que pode ser considerado como sinal de imprecisão ou falta de confiabilidade dos mesmos. Os estudos são normalmente voltados a explorar os impactos das estruturas de conhecimento, porém quase nenhuma ênfase é dada ao conhecimento implícito. É perceptível também um rompimento ou diluição da dicotomia micro-macro, buscando-se uma aproximação com a vertente construtivista e sua preocupação com a natureza social da construção de significados. Ela se manifesta, afirmam PORAC e outros13, na ênfase em sensemaking em oposição a calculação,

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superando a metáfora do computador que dominou os primórdios da pesquisa sobre processos decisórios gerenciais. Estas são igualmente contempladas nos estudos sobre a construção do conhecimento como um fenômeno interpsíquico do que intrapsíquico. A proposição dessa nova articulação entre mente e ação é o que existe de mais avançado no campo de estudos sobre cognição e organização.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cognição e a ação nas organizações dependem dos sujeitos e da visão de mundo de cada um. Estão também atreladas a concepções. Num determinado momento, estiveram sob a visão cartesiana e sob o domínio behaviorista. Mais tarde, por volta dos anos 50, o paradigma do processamento de informação, utilizando o computador como metáfora, dominou pesquisas e ações nas organizações. Os novos rumos no campo de investigação da cognição deram espaço, primeiro, às teorias conexionistas, depois, às neurociências e, por fim, à vertente construtivista. Esta última está ligada principalmente à natureza social do processo de construção do conhecimento.

A partir do que foi colocado, é possível estabelecer algumas características do campo de estudo Cognição e Organização. Inicialmente, a pluralidade de linguagens e conceitos nessa área de pesquisa, exigindo uma maior preocupação nas relações entre os mesmos. Segundo, a cognição no território das organizações está bastante voltada para as estruturas de conhecimento das pessoas, gestores e organização. Identifica-se, aí, a vasta representatividade do paradigma de processamento simbólico através de schemas, scripts, mapas, teoria implícita, entre outros.

Outra característica de destaque é o entendimento de que a cognição individual constrói comportamento organizacional. A cognição ainda tem beneficiado o rompimento da dicotomia micro-macro. Todas essas observações pautam o campo investigatório sobre Cognição e Organização, com forte influência da vertente construtivista e a valorização da construção social dos significados.

Desse modo, a abordagem cognitivista reflete implicações na gestão das pessoas, fornecendo conceitos para a compreensão, explicitação e análise das ações dos membros das organizações, destacando o papel que o pensamento e o conhecimento desempenham

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nesse ambiente. Evidencia-se, ainda, o princípio de que os indivíduos são sujeitos ativos com posições críticas que, na condição de agentes complexos, constroem os contextos nos quais eles agem e se movimentam.

Assim, o conhecimento, principalmente aquele produzido nas organizações, como afirma GADAMER14, “pertence com toda a evidência à experiência humana no mundo”.

O conhecimento que, pela compreensão, os seres humanos buscam, seja de artefatos, instituições ou práticas humanas, inclui a interpretação que põe em ação pré-concepções, crenças, valores, emoções e o contexto de tal objeto. Tais elementos nos são dados em uma perspectiva histórica, nosso “ser no mundo” e, portanto, os possíveis modos de conhecer.

Dessa forma, seria um erro afirmar que as ações planejadas pelos dirigentes organizacionais, quando o que está em jogo é a compreensão, seriam executadas segundo a visão de mundo desses dirigentes. O sujeito, ao executar suas atividades, desvela-se, coloca-se por inteiro, mente e corpo. Portanto, aquilo que é planejado, não é a mesma coisa que o sujeito reproduz no seu cotidiano, nas suas ações, pois uma mesma tarefa, um mesmo objeto, pode extrair significados e conhecimentos diferentes, se observados sob outra perspectiva, ou pelo horizonte de outra pessoa. Nesse sentido, recorre-se mais uma vez à idéia de GADAMER15. Para ele, os conhecimentos, tanto quanto os seus significados, são relativos aos horizontes históricos nos quais são interpretados. Portanto, a inserção e a ação do sujeito na organização será sempre a partir da sua compreensão de mundo. Essa compreensão, por parte de quem elabora políticas de recursos humanos, bem como o entendimento das interfaces entre cognição e organização, podem contribuir para profundas alterações no contexto de aprendizagem nas instituições.

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REFERÊNCIAS

1 TEVES, N. (Org.) O imaginário na configuração da realidade social. In: _____.

Imaginário social e Educação. Rio de Janeiro: Gryphus; Faculdade de Educação da UFRJ,

1992. p. 7.

2 CAPRA, F. A lógica da mente. In: _____. A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1996. p. 69.

3 ALVES, J. L. L.. Sistema complexo. Revista Proteção, p. 46, maio 2000.

4 BASTOS, A.V. Cognição e ação nas organizações. In: DAVEL, E. VERGARA, S. C. (Org.). Gestão com pessoas e subjetividade. São Paulo: Atlas, 2001. p. 91.

5 Ibid., p. 93.

6 CAPRA, op. cit., p. 68.

7 MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1964. p. 14. 8 BASTOS, op. cit., p. 94.

9 Ibid., p. 96-97. 10 Ibid., p. 100. 11 Ibid., p. 103. 12 Id.

13 PORAC, J. F.; MEINDL, J. R.; STUBBART, C. Introduction. In: _____. Cognition

within and between organizations. Thousand Oaks: Sage, 1996.

14 GADAMER, H.-G. Verdad y metodo. Salamanca: Sigueme, 1988. p. 22. 15 Ibid., p. 372.

LEITURAS COMPLEMENTARES

ARAÚJO, I. L. Introdução à Filosofia da Ciência. 2. ed. Curitiba: Ed. da UFPR, 1998. FIALHO, F. A. P. Ciências da cognição. Florianópolis: Insular, 2001.

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LÉVY, P. O caminho da ecologia cognitiva. In: _____. Tecnologias da inteligência. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.

PRADO, E. O mundo precisa de Filosofia. Rio de Janeiro: Agir, 1970.

SANTOS, M. J. et al. Globalizações: novos rumos no mundo do trabalho. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2001.

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