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O CONCEITO DE IMPLICAÇÃO E A PROBLEMÁTICA PERIFÉRICA NA PESQUISA EM CIENCIAS SOCIAIS

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Revista de Humanidades e Letras ISSN: 2359-2354 Vol. 5 | Nº. 2 | Ano 2019 Lúcia Ozório Benyounes Bellagnech

O CONCEITO DE IMPLICAÇÃO E A

PROBLEMÁTICA PERIFÉRICA NA PESQUISA

EM CIENCIAS SOCIAIS

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RESUMO

O texto trata da implicação do pesquisador com seu campo de trabalho, do prático com seu campo de ação, do homem com a vida. Como postura ético-político-desejante, epistemológico-teórico-prática inclui a batalha para dar visibilidade a um pensamento-ação da convivência da/na diversidade, com o múltiplo, sempre em construção. E reverte-se a pretensa neutralidade das ações humanas. O conceito de implicação de René Lourau (1997) aprofunda esta problemática notadamente no seu livro Implicação Transdução em que seu devir minoritário como pesquisador - conceito de Gilles Deleuze e Felix Guattari – mostra que as alianças que tece com alguns pontos do pensamento de alguns autores aponta outras direções a seu pensamento, na compreensão da problemática periférica. Para isto como pesquisador precisa fazer suas involuções, ou melhor, estabelecer alianças que são compreendidas como evolução entre heterogêneos. Com uma critica necessária ao racionalismo científico, que quer afastar o periférico, marca-se um interesse por uma ciência aliada das periferias. Isto significa dizer de uma ciência que dá importância à imanência das práticas no campo social. E mais : de uma ciência que quer refletir sobre o permanente esforço de afirmar nexos entre o muito que habita o campo da pesquisa, em que todos os que neles trabalham são atores implicados neste processo. René Lourau com o conceito de implicação afirma no campo da ciência alianças com os processos, com o estranho, o provisório, as transições, o sonho, esta flama, com o desejo, com o amor. Implicar-se pois com a problemática periférica é se abrir à potencialização de forças e formas resistentes que buscam articulações entre o valor da liberdade e o valor da igualdade na afirmação da diversidade e do pluralismo.

Palavras chave : implicação ; problemática periférica ; devir minoritário ; campo de pesquisa

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RESUMÉ

Le texte traite de l'implication du chercheur dans son champ d'activité, du praticien dans son domaine d'action, de l'homme dans sa vie. En tant que posture éthique-politique-désirante, épistémologique-théorique-pratique inclut la bataille pour donner de la visibilité à une pensée-action de la coexistence de / avec la diversité, toujours en construction. Et ainsi nous renversons la prétendue neutralité des actions humaines. Le concept d'implication chez René Lourau (1997) approfondit cette problématique notamment dans son livre Implication Transduction dans lequel son devenir-minoritaire de chercheur - concept de Gilles Deleuze et Félix Guattari - montre que les alliances qu'il noue avec certains points de pensée de certains auteurs lui ouvrent d’autres directions de pensée de la problématique périphérique. Pour cela, en tant que chercheur, il doit faire ses involutions, ou plutôt établir des alliances comprises comme évolution entre hétérogènes. Avec une critique nécessaire du rationalisme scientifique, qui veut s'éloigner de la périphérie, il existe un intérêt pour une science alliée aux périphéries. Cela signifie une science qui donne de l'importance à l'immanence des pratiques dans le champ social. De plus, il s’agit d’une science qui veut réfléchir sur l’effort permanent d’affirmation des liens entre les différents acteurs qui constituent le champ de la recherche, dans lesquels tous ceux qui y travaillent sont des acteurs impliqués dans le processus. René Lourau avec le concept d'implication affirme dans le domaine de la science des alliances avec les processus, avec l'étranger, le transitionnel, les transitions, le rêve, cette flamme, avec le désir, avec l’amour. S'impliquer dans la problématique périphérique, c'est s'ouvrir à la potentialisation de forces et de formes résistantes cherchant des articulations entre la valeur de la liberté et la valeur de l'égalité dans l'affirmation de la diversité et du pluralisme.

Mots-clé: Implication, Problématique périphérique, devenir-minoritaire, champs de recherche

Site/Contato

www.capoeirahumanidadeseletras.com.br

[email protected]

Editores

Marcos Carvalho Lopes

[email protected]

Pedro Acosta-Leyva

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O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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O CONCEITO DE IMPLICAÇÃO E A PROBLEMÁTICA

PERIFÉRICA NA PESQUISA EM CIENCIAS SOCIAIS

Lúcia Ozório1 Benyounes Bellagnech2

« Numa noite, todos os explorados sonharão que é preciso acabar, e como acabar, com o sistema tirânico que os governa, então, talvez, a aurora se levante em todo o mundo nas barricadas. »

Jean Schuster, Billet surréaliste, Le libertaire, no. 286, out. 1951.

« Os trabalhadores sem terra (...) se conhecem nos seus sonhos, eles sonham. »

João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Sem Terra (entrevista Conselho Regional de Psicologia - - CFP, 2000, Apud : OZORIO, 2014 p. 12).

Escolhemos começar com a potência dos sonhos. Ou melhor, com a potência das perife-rias. Com isto assumimos nossa implicação com a problemática periférica. Digamos que apos-tamos em modos de pensar o presente. No sonho, nossas condições no mundo, o próprio mundo com suas aberturas e fechamentos, se misturam, desejos tramam, se realizam das mais diversas

de-formas. Ou melhor, sonho e potência apostam as suas certezas no impossível. As lutas

perifé-ricas, realistas, fazem o impossível, facilitando um tráfico de dois sentidos entre o plano virtual das intensidades e o plano atual de formas. É preciso escutar as singularidades pré-individuais ou proto-subjetivas que se agitam no devir periférico.

Jean Schuster e João Pedro Stédile expressam o sonho numa igualdade radical, em que as periferias trabalham para intervenções na lógica capitalista da propriedade privada, dos privilégios, na divisão social que separa a nossa sociedade com a exploração de muitos brasileiros.

1 Pesquisadora Laboratório Experice, França - Universidades Paris 8 e Paris 13-Nord; Laboratório Lipis -

Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social, Puc. Membro do GT Psicologia Comunitária –

Anpepp. E-Mail: [email protected]

2 Editor Geral Da Revista Les IrrAIductibles, Universidade Paris 8. Diretor Da Coleção Transductions Universidade

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Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.5 | Nº. 2 | Ano 2019 | p. 259

Esta escolha de começar com sonhos se deve às discussões neste texto : a implicação do pesquisador com seu campo de trabalho, buscando construir desde uma perspectiva ético-política, uma ciência aliada das periferias, uma ciência que dá importância à imanência das práticas no campo social. Dizemos mais : buscamos refletir sobre o permanente esforço ( ? ) de se afirmar nexos entre o muito que habita o campo da pesquisa, em que todos os que nele trabalham são atores implicados neste processo.

O tema é da ordem da batalha e exige uma entrega. Não se sabe por onde se caminha nem onde se vai chegar. Sabe-se que é preciso fazer outro movimento que não aquele com o qual já estamos confrontados e que nos empurra na sua direção. Seguimos a linha do devir que nos leva para mais longe do que imaginamos.

O campo de pesquisa é um território insurrecional que se constrói através de caminhos e movimentos variados, certamente contendo coeficientes de chance e de perigo.

Adentramo-nos na nossa problemática com o conceito de implicação proposto por René Lourau (1975; 1978; 1997) que trata da relação do pesquisador com seu campo de trabalho, do prático com seu campo de ação, do homem com a vida, mostrando a responsabilidade ética com o que fazemos-somos, revertendo assim a pretensa neutralidade das ações humanas. Como pos-tura ético-político-desejante, epistemológico-teórico-prática inclui a batalha para dar visibilidade a um pensamento-ação da convivência da/na diversidade, com o múltiplo, sempre em constru-ção.

René Lourau, este sociólogo a “plein temps, tem uma vasta obra (1975; 1978; 1980; 1981; 1987; 1988; 1994; 1997; 1999; 2000) sobre o conceito de implicação, na qual mostra sua implicação, embrionária, com o periférico, com aquilo que perturba, desarruma as certezas, con-vida à ousadias, provoca medo, atiça o controle, aposta na con-vida. Relevamos dentre esta, a obra Implication Transduction3 de 1997, em que este autor fez como ele próprio diz, suas involuções

(LOURAU, ibid p. 149), explicitando de modo bastante singular, seu esforço permanente para iluminar outras vias do trabalho da ciência, ao dar pistas para que o pesquisador e o trabalhador social analisem suas implicações no processo da pesquisa.

Este termo involução Lourau toma do livro Mille Plateaux4 de Gilles Deleuze e Felix Guattari (1980), que o compreendem como uma evolução que se dá entre heterogêneos. Aqui a

involução de que se trata não é regressiva. Ao contrário, ela é criativa, se dá entre diferentes, sem

nenhuma filiação possível. O devir segundo estes autores surge de uma involução, ou seja, de uma evolução entre heterogêneos. As diferenças entre pensamentos que se aliam estão em ques-tão.

3 Implicação Transdução (tradução dos autores do texto):– livro ainda não traduzido em português. 4 Mil Platôs (tradução dos autores do texto) - livro com tradução em português.

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O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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Daí podermos falar de um devir minoritário do pensamento de um autor, e no caso, do de René Lourau, queaponta outras direções a seu pensamento. Pontos do pensamento de outro au-tor funcionam como linhas de fuga no seu pensamento, que acabam acenando para uma nova perspectiva deste. Por que minoritário? É preciso não confundir minoritário e minoria. O primei-ro é pprimei-rocesso enquanto o segundo é conjunto ou estado. A maioria “... supõe um estado de

domi-nação e não o inverso (...) a maioria no universo supõe já dados o direito e o poder do homem. É neste sentido que as mulheres, as crianças e também os animais, os vegetais, as moléculas são minoritárias” (Deleuze e Guattari, idem: 356.) E acrescentamos: é neste sentido que as

periferi-as, minoritáriperiferi-as, campo de imanência de um processo de pesquisa, portam um devir minoritário. Implicar-se com a problemática periférica é se abrir à potencialização de forças e formas resis-tentes que buscam articulações entre o valor da liberdade e o valor da igualdade na afirmação da multiplicidade, diversidade e pluralismo.

Podemos dizer que Lourau faz um convite, com o conceito de implicação, para que o pesquisador se deixe banhar por um devir minoritário que animará as linhas de seu pensamento. Ele sabe que a hermenêutica não dá conta da ontologia do mundo. E nós sabemos que este texto também é marcado por nossa implicação com a problemática periférica na pesquisa em ciências sociais.

E o devir minoritário, em todas as involuções que afirma está presente uma crítica ao capital, ao Estado e suas instituições, inclusive em nós, como Lourau analisa na obra L´Etat In-conscient, (LOURAU, 1978)5

O conceito de implicação é um conceito político que faz parte do aparelho conceitual da análise institucional, esta contra-sociologia da qual é um dos seus grandes artífices. Este conceito contribui para que a ciência se implique no terreno das lutas políticas, buscando responder no presente, no aqui e agora do campo de pesquisa, à urgências da diversidade e multiplicidade, este reservatório de heterogênese. Digamos que se abre na ciência um campo para a vida, para as ma-nifestações concretas da crítica social.

Contumaz crítico do capital sabe-o presente em muitas produções científicas que se ali-nham com formas hegemônicas de pensar-agir no mundo. É um grande crítico da ciência-Estado, impositiva, que cultiva modelos e busca alhear o que desarruma e ameaça seu campo. Assim, torna-se importante que o pesquisador analise suas implicações de olho no capital e na sua capa-cidade de fagocitar até os desejos os mais embrionários.

Como dizia Lourau, não basta analisar as tensões provocadas pela divisão e reprodução sociais, é preciso combatê-las. Quanta vezes problematizou as contribuições de Pierre Bourdieu,

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Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.5 | Nº. 2 | Ano 2019 | p. 261

teórico de muitas análises sobre a reprodução social, como na sua obra com Jean-Claude Passe-ron (BOURDIEU & PASSERON, 1975).

Mas tudo é perigoso, já dizia Michel Foucault (1982). Trabalhar com a problemática peri-férica é uma espécie de trabalho onírico que « ... é tão delirante quanto o postulado de um

movimento social que desarruma as formas estabelecidas, as dissolve em certos momentos, de modo claramente anti-autoritário.» (LOURAU, 1978 p. 84)

André Breton do movimento surrealista citado por Lourau (1999) no trabalho sobre os sonhos, Le Rêver, enquête sur la logique 6, dizia da capacidade destes de superrestituição da rea-lidade instituída, da capacidade destes de ver o que à pobre consciência escapa. E como diz, o sonho, na sua singularidade, é efeito da multiplicidade do ser, das suas tensões, « [...] da

contradição construtiva que Lupasco descreve entre a homogeneização e a heterogeneização, da passagem da antropologia à ontologia (Foucault e Simondon) [...]. » (LOURAU ,1999 p. 110).

Sabemos que não se trata de anunciar o sonho que falta, ou o sonho da falta. Importante também perceber o fracasso do sonho que cultivamos. Aliás, fracasso do sonho? Ou sonhos fra-cassados do capital, sonhos de consumo, que invadem o mundo da pesquisa, fazendo-o trabalhar para uma sociedade de mercado e seus resultados.

Interessante lembrar que Enéas, o herói de Eneida de Virgílio, foi um dos heróis favoritos de Freud. Enéias, como um filho dos «vencidos», era um andarilho desejoso de garantir a vingança de seu povo. A citação que S. Freud (1973, p.343) colocou na epígrafe da

Interpretação dos Sonhos, é dele.

« Flectere se nequeo superos, Acheronta movebo ».

« Se eu não puder fazer meus desejos chegarem aos deuses do Alto, colocarei os Infernos

em ação. » (tradução dos autores deste artigo)

Como pode o pesquisador se deixar levar pelas potências que vêm dos infernos? E não se deixar vencer pelas imposições (infernos) da instituição científica?

Trazer as «rêveries» - sonhações ativas para o campo da ciência é tarefa ingrata. O cienti-ficismo está distante do Adeus à Razão que propôs Feyerabend (1991) com sua critica vigorosa ao racionalismo científico, relativizando-o e historicizando-o. E poetizando-o. Colocando a ciên-cia na diversidade da vida. Os assim chamados espíritos eruditos quantas vezes se excedem ao quererem nomear o mundo, forjando suas categorias, estanques, para categorizar a complexida-de. Não se dão conta desta difícil aprendizagem que é nomear o mundo, como advertia Paulo Freire (1975) na sua obra Pedagogia do Oprimido.

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O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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É preciso gritar o múltiplo, já diziam Deleuze e Guattari (id). É preciso se deixar banhar pela multiplicidade, mostra Lourau, quando trabalha o conceito de implicação, pois o múltiplo não é nem está dado: ele se faz. E se faz no campo de pesquisa, renovando-o. Como aliado desta empreitada temos os assim considerados saberes menores, não saber, pelos discursos hegemônicos da produção científica. Como diferenças, intensas, estes saberes trabalham inter-vindo em muitas fronteiras desta produção, abrindo a possibilidade de trânsito entre os mais dife-rentes saberes, apostando no nomadismo, convidando à imaginação.

As Escolas-Estado do cientificismo controlam, perseguem, punem os que não respeitam suas teorias, seus paradigmas, suas metodologias. Como se pergunta Lourau (1988 p. 250 - tra-dução dos autores), teorizar « [...] não é criar mais ou menos um dispositivo panóptico, como

mostra Foucault ...?

Mas não tem jeito. Apesar dos panópticos, já dizia Rabellais em Gargântua, citado justo por Lourau no seu livro Análise Institucional:

« Oú a mur y a, et devant, et derrière, y a force murmur, envie et conspiration mutue » « Onde há muro, na frente e atrás, há muitos murmúrios, e desejo e conspirações mútuas» (LOURAU, 1975 p. 5. Apud : RABELAIS, MCMLXXI tradução ARISTIDES LOBO)

A aliança com os murmúrios, desejos e conspir-ações, no campo da pesquisa, estimula Lourau, nos estimula, autores deste texto. Certamente estimula a alguns outros que percorrem os caminhos da análise institucional (LAPASSADE, 1971 ; 1974 ; 1976 ; 1977, 1997, 2002 ; HESS, 1981 ; 1989 ; 1998 ; RODRIGUES et al. 1992 ; BAREMBLITT, 1992 ; ALTOÉ, 1990 ; COIMBRA, 2005; MARTIN, 1989 ; PETIT, 2015). E a muitos outros que percorrem os caminhos da antropologia (ALTHABE, 2002 ; FAVRET-SAADA,1977 ; LOURAU, 2016)

René Lourau ao ofertar seu livro Implicação / Transdução (LOURAU, 1997), a um dos autores deste texto, livro que consideramos o mais involutivo de sua obra – que o incita a « ...

novos questionamentos ... » (LOURAU, 1997 p. 64, tradução dos autores). Ali escreveu: « Para Lúcia, este candomblé epistemológico e ... poético (?) ». Genial este entendimento do conceito

de implicação. Talvez esta dedicatória tenha alguma relação com nossa ida a um terreiro de can-domblé na ocasião de uma das suas viagens ao Rio de Janeiro.

Mas pensamos que esta dedicatória expressa os transes ao qual o pesquisador está sujeito, no seu trabalho com a diversidade e multiplicidade. Certamente nela está explícita a aliança do autor com a Mãe África, com a América Latina, com os continentes considerados pelas “gran-des” potências como menores. Os filhos destes continentes, como os autores deste texto, uma brasileira e um marroquino, encontravam nele um mestre ... sonhador. René Lourau reconhece

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como Amir Baraka (2003) que os africanos caminham acompanhados dos seus deuses, na terra, marcando sua presença indispensável neste mundo. Com seus alunos trabalha a divisão social no processo pedagógico, ensinando-os à não só interpretá-la, mas nela intervir.

1. A pedagogia institucional funcionava como um dispositivo importante para este

trabalho. Como entusiasta de Paulo Freire, o educador brasileiro, ficava atento à Pedagogia do Oprimido, parafraseando o título do livro de Paulo Freire (id.), uma pedagogia aliada das periferias.

René Lourau fazia um seminário que pode funcionar como um analisador deste processo de experimentações-interferências para a construção de uma natureza comunitária da razão, assim chamava uma razão generosa, provisória, sempre em construção (LOURAU, 1993).

2. Era famoso seu seminário das terça-feiras, às 14 h. na sala A428, no departamento

das ciências da educação da Universidade Paris 8, destinado à alunos do DEA, um curso anterior ao doutorado. Mas era aberto a todos, mesmo a alunos de doutorado, de mestrado, ou a não estudantes. René chegava à sala, se instalava, pegava seu caderno e depois começava a ler seu jornal, o Libération. Enquanto isso, nós, alunos, nos entreolhávamos, ou olhávamos para René. A espera às vezes ficava mais longa e a ansiedade ganhava nossos rostos, muitas vezes com perguntas silenciosas que não ousavam se exprimir. Era difícil para todos se despojar das aulas frontais, ou dos seminários diretivos, com o professor no lugar do saber instituído. Tinhamos a impressão de estar na eternidade da espera, até o momento em que o próprio René troca informações de notícias ou em algum de nós surge uma idéia ou uma pergunta. Neste momento, o seminário começava e ia até às 17 h. Depois íamos juntos ao bar Khedive, próximo da universidade, em frente à Basílica de Saint-Denis. Ali continuávamos o seminário até às 19 ou 20 horas. Quando nos separávamos à noite, tínhamos o desejo de voltar na próxima terça. O seminário fazia parte de nossas vidas. Revigorava-nos. (BELLAGNECH, 2008)

Uma cumplicidade ética, necessária, entre palavra e gesto do pesquisador está no

cora-ção ... do entendimento do conceito de implicacora-ção. Para Lourau « [...] trabalhar um conceito é

fazê-lo variar ... » (ibid p. 33, tradução dos autores). Todo conceito vai variando, durante a

pesquisa, durante o processo de produção de conhecimento, sujeito a tanto que lhe percorre.

Implicar-se com o processo periférico é se abrir à variações (LOURAU, 2016).

Como reabilitar a diferença vista como o estranho, o incômodo, o que desconstrói, o que ameaça? A problemática periférica é da ordem do devir (BENYOUNÈS, 1988; OZÓRIO, 2014, 2016), de um devir minoritário no campo de pesquisa enquanto virtualidade que explora virtudes deste campo, mostrando uma linha de força que liga as periferias ao mundo, linha que muitos didatas da ciência insistem em cortar. É de se relevar uma certa aversão das periferias ao controle contínuo, ao compromisso com modelos, representações e mandatos de conformidade,

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con-O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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formações. Importante considerar não apenas as contradições de uma sociedade mas também su-as linhsu-as de fuga, peculiares modos dsu-as periferisu-as, enquanto diferençsu-as, singulares, escaparem à homogeneização. Quando falamos de linhas de fuga, não estamos nos referindo à fuga, mas a modos diversos de ser, estar, pensar n/o mundo, intensos, a modos de fazer de outro modo, ape-sar das armadilhas dos controles que querem esvaziar a potência periférica.

Esta problemática porta uma crítica à dicotomia centro e periferia, às posições centralistas que ratificam a exclusão e dominação. Somos pela proliferação da centralidade das periferias. Como diz Althabe (2002), muitas concepções e práticas em ciências sociais reprodu-zem centralismos, tipo de certezas alicerçadas pela razão iluminista que quer promover o expur-go do caos. Santos (2006) mostra que a criação de dicotomias são para justificar a dominação e exploração de um povo. A ciência, saber válido ou validado a partir da rejeição dos saberes « sem verdade », os que dispensam o método científico, vai marcando suas divisões, mundos di-vididos, como se o mundo pertencesse a alguém.

Mas do ponto de vista ético-político, escutar o periférico não nos garante contra a desilusão, face à possibilidade de nos tornarmos pesquisadores ... orgânicos do subterrâneo. Podemos cair nas armadilhas da competência, ou melhor, na violência que é querer falar pelo outro. Sujeitados aos ardis do poder, das representações, podemos acabar lutando pela servidão, inclusive a nossa como se fosse pela liberdade (?). Não há ciência neutra. A ciência precisa saber que quando toma a palavra, ratifica que esta não tem posição neutra. Como diz Favret-Saada (1977 p. 22. tradução dos autores) « [...] na feitiçaria a palavra é a guerra. ». Seu trabalho com as práticas de feitiçaria no Bocage contribui para a compreensão da beligerância do pesquisador, do potencial violento presente na palavra da ciência na sua tentativa de classificar o mundo.

A intervenção nesta dicotomia centro-periferia aponta para uma operação de subjetivação necessária que faz pensar no que diz Foucault (1982) sobre a historicidade de nossos dias, muito beligerante. Em termos práticos: pensamos que saídas são possíveis. E precisamos inclinar o pensamento « ...a ter mais piedade pelo real. ... » (FOUCAULT, 1980 : 40).

Como contornar, intervir, subverter as malhas do controle, cerradas e abrangentes não só na ciência mas nestes tempos de globalização e dominação (NEGRI e COCCo, 2010; OZÓRIO, 2016)? A sociedade contemporânea vaza por todos os lados.

Com a passagem do moderno ao pós-moderno é importante nos perguntar: se há sub-missão real ao capital não há também a construção de uma resistência desde seu interior? O con-ceito de implicação permite que possamos, de um modo peculiar, entrar nesta reflexão.

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Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.5 | Nº. 2 | Ano 2019 | p. 265

No livro Implicação Transdução, Lourau (1997) propõe dez variações para o entendimento do conceito de implicação, modo habilidoso não só para compreender a multiplicidade e a diversidade que cadenciam a construção de um conceito, mas também de compreender a implicação de um pesquisador com seu campo de pesquisa, sempre variando, aberto às expansões. Remi Hess faz o prefácio deste livro relevando a presença deste conceito em toda a obra de Lourau, o que ele chama utilizando uma expressão do próprio autor « ... de

caça ou pecado apaixonante. » (LOURAU, ibid p. VIII, tradução dos autores).

Este conceito é apresentado de forma inovadora. Pensamos que este livro aponta carto-grafias do pensamento do autor cuja morte prematura, infelizmente, em 2000, impediu que fos-sem expandidas. Uma certa liberdade face à instituição científica mostra um pensamento em devir, interessado em que o pesquisador tenha pistas para enfrentar riscos, caso caia « ... nos

braços de tal ou qual doutrina consoladora ou tal ou qual sistema fechado ... . » (LOURAU,

ibid. p. 64, tradução dos autores).

Nas suas involuções, estabelece alianças com o pensamento de outros autores, que lhe ajudam a problematizar a planagem no mundo das idéias tão almejada pelas ciências que pensam que não são necesssáriamente desarrumadas pelo periférico, este « hors texte», - fora do campo científico. O autor aposta nas potências que pulsam no Campo de Coerência (C de C) - assim nomeia o campo de pesquisa, inspirado em Jacques Ravatin (1985-1991 ; 1992).

Esta noção de Campo de Coerência (C de C) é introduzida já na primeira variação, mostrando o esforço do autor em considerar que toda reflexão epistemológica não pode estar se-parada do ato de pesquisa, ao contrário, aquela e este fazem uma composição (LOURAU, ibid. p. 7). Ou melhor, a coerência deste campo é entendida como processo, é a coerência que se abre às expansões, sem medo das (in)coerências.

Embora busque de modo significativo alianças com pensamentos para expandir a com-preensão do conceito de implicação – são inúmeros os autores que lhe inspiram neste momento de escrita deste livro - seria impróprio falar em influências teóricas do livro, uma vez que não há compromisso com rigor exegético. Aqui marcamos algumas linhas conceituais que o estimulam a se abrir às variações da teoria da implicação, na tentativa de apresentá-la sob um « ...novo

ân-gulo e uma nova forma ... » (LOURAU, ibid. p. XVII). Precisamos admitir que se trata de

traba-lho que consegue mostrar muitas cartografias que um pesquisador percorre para a construção de um conceito aliado com a problemática periférica.

Nas 64 páginas da primeira parte, uma epistemologia inquieta busca alianças com au-tores que desarrumam as coerências da lógica instituída do campo de pesquisa protagonizada

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pe-O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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lo racionalismo científico. Nestas páginas, Lourau, no seu devir minoritário, se ocupa de pontos do pensamento de alguns dos autores sobre os quais reflete e parte para novas perspectivas. Nes-te Nes-texto tomaremos alguns desNes-tes pontos relevados pelo autor em relação a alguns dos inúmeros autores em quem Lourau se inspira. Uma atração pelo pensamento de Ravatin, com noções vin-das da matemática e da física, numerosas, efervecentes e de grande inventividade, mas de difícil sistematização, não o impedem de se esforçar para a compreensão do C de C proposto e que os assim chamados por Ravatin de «R.R.B.» (Racioalistas, Idiotas e Limitados) (LOURAU, ibid p. 4, tradução dos autores do texto) desprezam. Stéphane Lupasco, com sua lógica antagonista, Gilbert Simondon com o conceito de transdução o inspiram na compreensão do C de C da pesquisa como um campo metastável. Fourier e sua atração universal enriquece este processo transdutivo da pesquisa pleno de idéias românticas ou pré-românticas que buscam « restituir o

desejo na sua integralidade » (LOURAU, id. p. 49, tradução dos autores). Gaston Bachelard e

suas sonhações diante da flama mobiliza uma surracionalidade – alianças com o surrealismo – com a mobilização de nossas forças ricas em imaginação, contra a razão redutora.

A primeira parte do livro faz uma interessante composição com sua segunda parte através do diálogo que Lourau mantém consigo mesmo e com os leitores, através de seu diário de pesquisa/jornal. Esta composição com o seu diário que o acompanha durante a construção do livro, precisa ser relevada.

Perguntamo-nos ? Será que todo pesquisador adota um jornal de pesquisa que possa ser seu companheiro nas suas cartografias no seu campo de trabalho?

Neste jornal, temos acesso a relatos, leituras e reflexões que ilustram bem os desejos, angústias, compromissos, ousadias do pesquisador e seu pensamento. Alguns encontros, inclusive com autores em quem se inspirou, como Ravatin, para compor o conceito de implicação, estão neste jornal. Percebe-se que ao compartilhar seu jornal com os leitores, aproxima a ciência do mundo, das periferias que rodeiam a produção de conhecimento, do tanto que habita seu C de C. O diário/jornal é dispositivo fundamental para que o pesquisador ouse mais, ao registrar as alianças que faz na construção do conhecimento, alianças muitas vezes nada desejadas pela coerência dos sistemas teóricos que adota.

À sua escritura diarística chama de Nipponites mirabilis - fósseis do Nipponites mirabilis – o mais famoso amonito heteromorfo do Japão. Interessante o autor estabelecer nexos entre estes fósseis, com suas formas bizarras, de-formas e seu jornal de pesquisa – onde relata o que chama de suas involuções (LOURAU, ibid p. 149). Mostra um vivo interesse pela de-formação,. pela de-semelhança, pelas imagens in-formais e um cansaço pelo pensamento científico saturado de modelos-imagens-clichês. Deleuze (2007) no seu livro Lógica das Sensações, a propósito da

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indefinição das formas em Francis Bacon (1996), diz que a in-definição de Bacon não é devido à indistinção, mas para "destruir” a clareza com clareza.

O diário com suas de-formas dá mais clareza às involuções do pensamento de Lourau. Quando nos referimos a uma composição deste livro queremos enfatizar seu modo singular de fazê-lo. Compor exige uma multivocalidade em que as pulsações da potência periférica incitam o pesquisador a sonhar (OZÓRIO, 2016), exige o múltiplo, lembrando Deleuze e Guattari (ibid).

Já na primeira variação do livro, o devir é relevado e entendido desde a lógica da con-tradição hegeliana, referência cara à Lourau, quando considera que o terceiro termo da relação dialética, a singularidade, se organiza no devir (LOURAU ibid. p. 4). Já no final da primeira par-te do livro, na décima variação, mostra seu desconforto com o o racionalismo hegeliano que ce-de lugar, ele acha, com suas reflexões, à « ... formas mais transdutivas que classificadoras do

espírito, ... » (LOURAU, ibid. p. 62), fazendo crítica aos excessos do Espírito Absoluto do

sistema de Hegel e seus modos de classificar o processo de conhecimento do real.

A busca de alianças com Lupasco mostra um Lourau desejoso de descobrir mais so-bre o devir no campo de pesquisa. Lupasco com sua lógica antagonista (LOURAU, ibid. 4), contribui à dialética, compreendendo este campo como de equilíbrio metaestável. Lourau dá as referências das obras deste autor, datadas de 1935 ; 1935a ; 1960 ; 1962 ; 1979 (LOURAU ibid. p. 3). Lupasco não dá chance à compreensões substancialistas, seja no que diz respeito à subs-tância subjetiva ou objetiva, compreendendo que a dupla sujeito-objeto não é estável, e estes « ... só são possíveis na metastabilidade, num processo em que um e outro se potencializam e se atualizam reciprocamente. (LOURAU, ibid p. 4).

Gilbert Simondon (1958, 1964, 1989), também com a proposta de equilíbrio metastável, permite que Lourau reflita mais sobre o C de C da pesquisa como rico em potenciais em que es-tão « ... forma, matéria e energia preexistentes em um sistema ... » (SIMONDON, 1964, p.8). Para este autor, o equilíbrio metastável, cuja compreensão se deve à ciência, se diferencia do equilíbrio estável que corresponde ao nível mais baixo de energia potencial. Como Simondon diz, o equilíbrio estável acontece quando « ... todas as transformações possíveis foram realiza-das e não existe mais nenhuma força; todos os potenciais se atualizaram e, tendo atingido seu mais baixo nível energético, o sistema não pode se transformar novamente ... » (SIMONDON,

ibid. p.6). A metastabilidade diz da potência constante do C de C em transformação constante. Simondon, faz « ... uma profunda crítica de conceitos os mais antigos da filosofia: por exemplo,

os conceitos de matéria e forma ... » (CURIEN, 1994 p. 12, tradução dos autores do texto). Nos modos de existência dos objetos técnicos (SIMONDON, 1958) mostra que não se trata de opor

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O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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na matéria. O tijolo não é um objeto exterior à argila, ele co-porta uma intenção de uso e uma intenção de fabricação. É preciso pois apreender sua gênese, ou melhor, se interessar pela dinâmica das formas que participam de sua gênese. É a partir de sua apreensão que podemos definir a individualidade e especificidade dos objetos técnicos.

Interessante Simondon dizer que a aversão que o homem tem às máquinas nada mais é que a aversão que tem ao estrangeiro (SIMONDON, 1958 p. 9).

Interessante Lourau descobrir a originalidade deste pensamento, aliás que a ciência de-morou a reconhecer (CURIEN, 1994), que influenciou muitas contribuições filosóficas, inclusive as de Deleuze, que se interessa sobremaneira pelo campo intensivo pré-individual (CURIEN Ibid. p. 12). Para Simondon a tarefa do filósofo é « ... um pensamento do devir, articulando

di-nâmicas evolutivas que têm sua autonomia, que são o processo de individuação.» (CURIEN,

Ibid. p. 12, tradução dos autores do texto). Para este autor a individuação como processo mostra que toda análise não deve partir do indivíduo, de uma realidade constituída, dada antecipadamente.

Estas concepções de Simondon têm repercussão nos domínios da física, da biologia, da psicologia e da sociologia que encontram seus equivalentes com o conceito de transdução, que é formalizado filosoficamente por este autor a partir dos fenômenos de cristalização : « ... um

cristal que a partir de um germemuito pequeno aumenta e s expandeem todas as direções na sua água-mãe, fornece a imagem simples da operação transdutiva : cada camada molecular já constituída serve de base estruturante para a camada que está em vias de se formar. »

(CURIEN, Ibid. p. 14, tradução dos autores do texto). Lourau se inspira neste conceito para compreender esta dinâmica transdutiva do campo de pesquisa. A relação sujeito-objeto comporta

n dimensões e é a partir destas dimensões que se vai definir uma problemática.

Esta compreensão do processo transdutivo provoca um descentramento no C de C da pesquisa intervindo no excesso de racionalismo deste campo. O conceito de transdução dá mais subsídios para Lourau fazer críticas ao sistema hegeliano em que se inspira. Como diz, o processo transdutivo provoca aberturas neste sistema, supondo um Hegel « ... sob o efeito de

al-guns copos do excelente Bordeaux que fazia regularmente vir da França, abre de verdade o ou-tro C de C implicado nas ... dobras de seu sistema. » (LOURAU, ibid. p. 62, tradução dos

auto-res).

Na verdade, Lourau se deixa levar pela dinâmica transdutiva que atravessa a produção deste livro. No seu devir minoritário, quando repatria pontos do pensamento de Simondon para o seu pensamento, comete um lapsus e o admite na introdução de Implicação Transdução. Ele escreve : « Com a morte na alma, escolhi arbitrariamente uma data próxima de meu ato falho :

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esquecimento e redescoberta tardia da teoria transdutiva num texto (1969) de meu mestre em dialética, Henri Lefebvre. » (LOURAU, id p. XIX, tradução dos autores).

A obra esquecida de Lefebvre a qual Lourau se refere foi escrita em 1967 e publicada em 1968, obra da qual tinha conhecimento. Lefebvre foi seu orientador de tese de doutorado.

Neste livro, Logique formelle et logique dialectique – Lógica Formal e Lógica Dialética, no

prólogo da segunda edição escreve:

Além da dedução e da indução, a metodologia dialeticamente detalhada tinha que apresentar novas operações, como a transdução, a operação do pensamento em / em direção a um objeto virtual para construí-lo, e perceber isso. Seria uma lógica do objeto possível e / ou impossível.

(LEFEBVRE 1969, p. XXIII, apud OZÓRIO, 2001 p.94, tradução dos autores).

Interessante lembrar que Lourau (1981) já analisou os lapsus dos intelectuais num livro do mesmo nome. Ele comete um lapsus e o admite. Faltou no nosso modo de entender uma análise deste lapsus que talvez pudesse nos dar mais pistas para as involuções de um pesquisador na produção do conhecimento. Teria Lourau considerado já como análise uma citação bem significativa de Henri Lefebvre (1961), do livro Critique de la vie quotidienne : « As

transduções teóricas e os transdutores afetivos relevam de uma mesma teoria. » (LOURAU, ibid

p. XV), citação que colocou na introdução de Implicação Transdução ?

Lourau conhecia os trabalhos de Lefebvre sobre o conceito de transdução, nos quais este inclui a problemática periférica. No livro Metafilosofia ao se referir ao que chama de « resíduos » do sistema capitalista, este autor propõe como estratégia o « ... ajuntamento dos

« resíduos », sua coalizão para criar poieticamente na práxis, um universo mais real e mais ver-dadeiro (mais universal) que os mundos das potências especializadas.” (LEFEBVRE,

Métaphi-losofie, 2000, prefácio, tradução dos autores)

O ato falho que surpreendeu Lourau e tanto o mortificou, que ele eticamente admite, mas não analisa, nos parece, convida a uma reflexão: quantos atos falhos fazem parte do C de C do pesquisador que não explora a riqueza que portam? Os atos falhos, incoerências para o pen-samento racional são analisadores que expõem as limitações deste.

Uma outra aliança de Lourau é com Ravatin que faz parte da avant-garde de pesquisadores e cientistas que na prática e na teoria estudavam ligações do visivel e invisivel e a possível relação que poderiam ter com a consciência.

Nas suas pesquisas com sistemas não cartesianos Ravatin mostra que o universo físico é, portanto, apenas um aspecto, um caso particular, de um domínio maior. Nosso universo físico restrito é o que ele chama de local, já que sempre podemos localizar um objeto lá. Já o global compreende o universo total onde os marcadores do local desaparecem. Para ele existem áreas intermediárias, transições entre essas duas faces do real, do local ao global e projeções do global

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no Local. Este processo transdutivo produz emissões entre estas duas realidades. Tais pesquisas aprofundam as reflexões sobre quais aspectos do real revelariam as enigmáticas influências das formas. O autor se perguntava se não há nos domínios do universo em que os próprios marcos se tornam instáveis ou desaparecem (RAVATIN, 1992).

Ravatin era segundo Lourau um entusiasta das pesquisas de Simondon acerca dos sis-temas ricos em potenciais, metastáveis, com críticas profundas aos conceitos antigos da filosofia, de matéria e forma.

Este interesse pelo C de C de Ravatin contribui para a compreensão de um outro tipo de relação no campo da pesquisa: a relação global/local, plena de transduções: passagens do local ao global e projeções do global no local. O global, homogêneo, é perda de referências, desloca-lização. O local, heterogêneo, é constituído de referências em fuga: « ... localizações,

relocaliza-ções, sobrelocalizações se atualizam mas são potencializáveis no global. » (LOURAU, ibid. p.4,

tradução dos autores). A relação global /local dá lugar à transdução aureolar em que não cabem a dedução e indução, da lógica formal, interesse dos R.B.B.

No seu diário, Lourau faz um relato bem interessante sobre as duas visitas que fez a Ravatin, em que o encontra entusiasmado pelas pesquisas de Simondon, que o levam a ampliar o conceito de transdução, interessando-se sobremaneira pela fuga de localizações, traços, funcionalidades. Apesar de Ravatin lhe comunicar o conceito de « ... ultratransdução (ou hiper) ... » (LOURAU, ibid. p. 149, tradução dos autores ), Lourau aguarda seu livro a ser publicado para poder mergulhar neste conceito que o atrai.

As pesquisas de Lourau acerca do trabalho de Ravatin, como as de Lupasco e Simondon, como diferenças que se compõem, vão na direção do seu interesse pelo periférico na pesquisa. No C de C a crise da representação que é perda de referências está em análise. Trata-se de um C de C atravessado pelas deslocalizações, intervindo na via estreita do pensamento racio-nal, como escreveu Ravatin na dedicatória que fez à Lourau de um dos seus livros.

« A René Lourau – Os seres humanos estão colocados, no pensamento racional, numa

via estreita : cabe à vocês de deixá-la, a vida nos oferece esta chance dado que podemos apostar na liberdade » (LOURAU, ibid. p.153, tradução dos autores).

Para Ravatin o observador – pesquisador, que denomina Obs, deve se dar tal liberdade quando se inclui na situação observada, criando seu C de C, se lançando num processo transdutivo, « aureolar » (Lourau, id. p. 6). E não é localizável como o entende Lupasco com sua lógica antagonista nem como o faz Simondon com sua teoria da individuação, em que toda uma dinâmica evolutiva mostra que o observador-pesquisador sofre seus efeitos. Embora todos estes três pensadores sejam críticos da relação com a dedução-indução, o pensamento de Ravatin se interessa por uma espécie de movimento perpétuo. O observador deste C de C é diferente do

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observador na física. « O Obs. « lança » um C de C (campo de coerência) e se coloca no interior

deste C de C. » (LOURAU, ibid p. 7, tradução dos autores). E se deixa levar por este processo.

No entanto, a visibilidade – stoven - construção do observador que se lança no C de C, « ... não

é dada pelas « luzes » da ciência, pelo status do pesquisador, pela instituição científica.

(LOURAU, ibid p. 19, tradução dos autores) e sim pelas « emissões » deste processo.

Na oitava variação Lourau se pergunta se Fourier é realista ou utópico ? Trabalharia este com o real ou com o imaginário ? (LOURAU, ibid p. 44). Não valeriam estas perguntas para ele, Lourau, também ? Critica Einstein quando este ao acusar como diz, a academia de Copenhague de positivista, esquecia que os fatos a quem esta academia dava tanta importância, lhe mostravam que seu C de C era insuficienete para dar conta do real.

Diz que descobre tardiamente Le nouveau monde amoureux7 de Fourier (FOURIER, 1967) em que todas as paixões de amor são convocadas para restabelecer a harmonia. As « minorias » sexuais participam dos « jogos de séries » que o autor propõe e inspiram Lourau a considerar que no C de C as fantasias eróticas também o atravessam. E as « manias amorosas » nada mais são do que modos do amor acontecer, « essencialmente paixão da

desrazão »(LOURAU, ibid p. 50). Para Fourier a razão não é mais o árbitro dos destinos,

encontrando um equilibrio amoroso entre corpo e espírito. Segundo Debout Oleszkiewicz (1974), um Fourier fantástico e lúcido une as novas ciências, da loucura à religião, porque o amor « paixão da desrazão » é todo divino. Para ele a razão não soube lutar contra a escravidão, admitiu-a. A razão é um valor no caminho do desejo, mas segundo e necessário. O problema não é como diz Fourier de desejar demais; é desejar muito pouco.

Se com Fourier, Lourau convida o pesquisador a amar e sonhar, com Bachelard o convida a entrar na arte de imaginação do sonhar. O livro La Flamme d´une chandelle.8 (BACHELARD, 1961) dá visibilidade ao quanto que a imaginação tem do sonhar. E não se trata de perceber a chama da vela, mas de se deixar levar pela potência da imaginação que ela desper-ta. Lourau considera a chama um objeto fenista (da ave fênix) – denominação de Ravatin para designar o que tem suas funcionalidades parcialmente ou totalmente deslocalizáveis, num C de C (LOURAU, ibid p. 19). O pesquisador precisa ter um olhar para estes objetos fenistas que estão no C de C do pesquisador, que tais como a vela, um « operador de imagens », inflamam o espírito e o convida a sonhar, com suas de-formas leva-o para o passado dos primeiros fogos do mundo.

Bachelard na introdução deste livro dobra-se sobre si mesmo, numa interessante refle-xão, quando se pergunta se todo autor esgota suas convicções ao escrever um livro, pois acha que

7 O Novo Mundo Amoroso (tradução dos autores do texto) 8 A chama de uma vela (tradução dos autores do texto)

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O conceito de implicação e a problemática periférica na pesquisa em Ciências Sociais

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todos os autores conhecem seu ser sonhador produtor de sonhações. Perguntamos: todo pesqui-sador conhece seu ser sonhador produtor de sonhações? Como diz, um ser sonhador feliz em so-nhar, ativo nas suas sonhações, conserva, porta uma verdade do ser, um futuro do ser humano.

A pesquisa e seu campo de (in)coerências

Digamos que Lourau quando faz suas incursões ao pensamento de Lupasco, Simondon, Ravatin, Fourier e Bachelard, na sua caça ou pecado apaixonante pelo conceito de implicação, busca engrossar as fileiras dos que querem fazer na ciência – de olho no mundo e no universo - o que Fourier fez, inspirado em Bacon que propôs refazer um outro entendimento do humano. Lourau propõe um humano não apenas no mundo, mas no universo. Como fez Fourier que tal « ... como Virgílio ajudando Dante a sair do inferno, » (LOURAU, ibid p. 46, tradução dos autores), nos leva para muito longe do racionalismo dos RBB. Sabe que é muito o que nos percorre. Estamos em processos dos quais não nos damos conta.

Na verdade o devir minoritário que faz com estes autores nos convida a devir. André Breton (1994) faz sua Ode à Fourier. Lourau faz sua ode aos processos, ao estranho, ao provisório, às transições, ao sonho, esta flama, ao desejo, ao amor.

No seu diário Niponites Mirabillis em 8 de maio de 1994, uma semana após o encontro que teve com Ravatin, relatava a este suas involuções. Neste dia, conta que acabou de ler o livro Mille Plateaux, que denomina de livro-rizoma. Lourau diz que pelo menos no projeto,

desenvol-vido na introdução, “... é muito próximo do que ... tentei com Implicação/Transdução.» (LOURAU, 1997 p.153, tradução dos autores). O conceito de rizoma é de Deleuze e Guattari (1980 p. 291-292), autores deste livro, que fazem uma nítida diferenciação entre a raiz e o rizo-ma. A raiz, relacionam-na com o modelo, com a representação; o segundo com as pontas de dife-renciação, com o que não tem começo nem fim, está sempre no meio, pelo qual ele cresce e transborda. Como dizem, o devir é rizoma, é da ordem da desterritorialização de formas, das li-nhas de fuga. Os autores, críticos da dialética hegeliana, praticam uma ética de libertação da diferença, não graduada pela representação, implicados que estão com os processos de diferenci-ação e desterritorializdiferenci-ação de formas.

Esta passagem no seu diário de pesquisa mostra mais uma vez um Lourau desejoso de novas sistematizações conceituais implicadas com a problemática periférica, com o tanto que perturba as coerências – representações - no campo de pesquisa. Sua proximidade com Mille Pla-teaux, como diz, pode ser compreendida como um analisador do seu pensamento digamos, inten-so que como o entende Foucault, trata-se de um pensamento como irregularidade intensiva, dis-solução do eu (FOUCAULT, 1980 p. 60-61).

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E perguntamos: não estaria o processo de implicação atravessado por um pensamento pleno de intensidades, um pensamento que batalha para a libertação da diferença? O eu dissol-vendo-se das certezas não se deixa banhar pelas praias das iimanências do campo de pesquisa? O pensamento banhado pelas intensidades é anterior às graduações feitas pela representação.

Lourau em toda a sua obra não perde de olho a dialética hegeliana, embora dela faça uma leitura crítica. São conhecidas suas críticas à legitimidade que Hegel deu ao Estado, à « universalidade objetiva », ao « poder da razão na necessidade »(LOURAU, 1975 :41).

Concordamos com Foucault (ibid. p. 62-63) quando diz que a dialética não liberta a diferença. A contradição, motor da dialética, trabalha para a salvação do idêntico.

Este livro de Lourau Implicação Transdução não nos convida a pensar dialéticamente. Convida-nos a pensar problematicamente. O problema é uma multiplicidade dispersa.

Ao ler este livro não temos em momento nenhum a objetividade do conceito de implicação. Há uma renúncia, não sabemos se tão voluntária, à semelhança. É um conceito-processo que porta um convite ao teatro-devir. Implicar-se é se deixar devir- teatro, com cenas múltiplas nos percorrendo, nos dissolvendo, em que nós, pesquisadores, praticamos uma ciência que se percebe com muitas máscaras. Uma ciência que devém. Neste livro, temos muitas máscaras. Neste texto nos ocupamos de um Lourau que no seu devir minoritário usa máscaras de Fourier, Bachelard, Lupasco, Simondon, Ravatin e Deleuze e Guattari.

Daí pensarmos : o importante é nos deixar levar sei lá para onde, ao lê-lo, pelas intensidades que nos percorrem. E não seria bom se todos os livros que temos às mãos nos fizessem este convite ?

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Lúcia Ozório

Pesquisadora Laboratório Experice, França - Universidades Paris 8 e Paris 13-Nord; Laboratório Lipis - Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social, Puc. Membro do GT Psicologia

Comunitária – Anpepp. E-Mail:

[email protected] Benyounes Bellagnech

Editor Geral Da Revista Les IrrAIductibles, Universidade Paris 8. Diretor Da Coleção

Transductions Universidade Paris 8. Presidente Da

Associação Análise Institucional Sem Fronteiras. E-Mail : [email protected]

Referências

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