Título original: P a ris: B iography o f a C ity
C apa: adaptada da edição inglesa da Penguin Books. (Fotos: construção da Torre Eiffel, de de zembro de 1887 a abril de 1889, fotógrafo anónimo, Museu d’Orsay. Agence photograph)qde de la R M N -R .G . Ojeda).
Fato do autor na orelha: Molly Rogers
T raduçãoriosé Carlos Volcato e Henrique Guerra Preparação: Jó Saldanha
Revisão: Lia Cremonese
Cip-BRASIL. Catalogaçao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
167p
Jones, Colin,
1947-París: biografia de uma cidade / Colin Jones; [tradução José Carlos Volcato e Henrique Guerra], - Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.
592 p .: il.
Tradução de: Paris: Biography o f a City Contém glossário
Incluí bibliografia e índice ISBN 978-85-254-1873-9
I. Paris (França) - História. I. Título.
09-0707. CDD: 944.361
CDU: 94(443.61)
Copyright © Colin Jones, 2004
Todos os direitos desta edição reservados a L8tPM Editores Rua Comendador Coruja, 314, loja 9 - Floresta - 90.220-180 Porto Alegre - RS - Brasil / Fone: 51.3225.5777 - Fax: 51.3221-5380
Pedidos & Depto. Comercial: [email protected]
Faleconosco: [email protected] www.lpm.com.br
1 0
O ESPETÁCULO ANSIOSO
1 8 8 9 - 1 9 1 8
A história de Paris perto do começo do século X X podería ser contada com o o relato de dois eventos - as exposições internacionais de 1889 e 1900. Moldadas ao estilo das exposições de 1855, 1867 e 1878, centradas no Champ de Mars, essas duas exposições realçaram outra vez Paris com o a “Cidade Luz” (de fato, as duas tiveram iluminação elétrica) e alcançaram esplendoroso sucesso. A Exposição Universal de 1889 atraiu 32 milhões de visitantes — o dobro do que em 1878 - , enquanto os 51 milhões de visitantes em 1900 a tornaram a mos tra internacional de maior público no mundo, até Osaka no Japão abiscoitar o título em 1970,, Planejada para coincidir com o centenário da Revolução Francesa, a mostra de 1889 ambicionou representar o momento inaugural da era moderna; por sua vez, o tema da Exposição Universal de 1900 foi “Paris, capital do mundo civilizado”. Reputado torrão natal da democracia e então ponto culminante da civilização moderna, Paris revelou sua personalidade es petacular neste período de dois gumes: fin de siècle e belle époque.
Precisou topete, com certeza, para organizar mostras tão grandes, levan do em conta a atmosfera política e social que distinguira a Terceira República desde o principio. As duas Exposições buscaram oferecer uma imagem unifi cada de um regime político que permanecia causticamente dividido e que ain da não se livrara por completo da ressaca da Comuna. Durante boa parte dos anos 1870, o partido monarquista estivera a ponto de reconquistar o poder, e a república parecia frágil. Na verdade, em 1873, o regime andava a um passo da restauração monarquista. O aspirante Bourbon, o conde de Chambord, neto de Charles X , que m orara na França só a partir de 1871, chegou mesmo a ir a Versalhes atrás da ratificação de sua candidatura na Assembléia. A teimosia em recusar o abandono da bandeira branca pela tricolor com o emblema na cional afundou suas chances. O gesto revelou uma hipersensibilidade com a qual ele provavelmente não duraria muito no poder, dc qualquer forma.
Só em 1879 que o governo, terminado o flerte com a monarquia, trans feriu-se a Paris de Versalhes, onde estivera desde os dias sombrios da C om u na. No mesmo ano, a primeira leva de prisioneiros communards pôde entrar novamente na jurisdição municipal. (As autoridades os desembarcaram fur tivamente na Gare d’Orléans às quatro da manhã e surpreenderam-se com as
O ESPETÁCULO ANSIOSO
calorosas boas-vindas de quar enta mi) operários de braços dados). Em 1880, o 14 de julho virou feriado nacional, demonstrando a acomodação progressiva da república com o legado histórico antimonárquico. De meados a fins dus anos i860, porém, esse instante de calina relativa sofreu reviravolta devido a uma estrela cadente política, o general Boulanger, espécie de Napoieão com dificuldades intelectuais. Seu apelo por revisão constitucional e por uma guer ra de revanche contra o império alemão recebeu considerável apoio eleitoral entre parisienses das classes operária e média. Até 1891, entretanto, o general queimara seus cartuchos {um deles em si próprio, sobre o túmulo da am ante)1, mas os apos 1890 presenciaram o surgimento de novas fontes de instabilidade política. O alio nível de corrupção financeira nos círcuios políticos engendrou vários escândalos que provocaram a indisposição de parte substancial da opi nião pública. Também houve escândalos sexuais, entre os quais se destaca a morte do presidente Eélix Faure, em 1889, em pleno intercurso sexual com a amanle/Hmbora em 1892 o papa tenha instado o apoio dos católicos franceses ao regime republicano, este às vezes mostrava-se agressivamente anticlerical. Também existia bastante anti-republicanismo clerical: o aristocrático Fau bourg Saint-Germain, cujos habitantes passaram pela esmiuçada análise de Marcel Proust, permaneceu um de seus focos.
A constituição da Terceira República estendera o direito de voto a to dos os homens adultos; por consequência, o regime consagrou a emergência do que Leon Michel Gambetta, um dos heróis durante o cerco prussiano em 1870, chamou de “novo estrato social". Mas esse alargamento da base social da política francesa pareceu apenas estimular novas percepções de direito - e novas ansiedades sobre os caminhos da política de massa. Na Esquerda, das cinzas da Comuna começara a emergir um movimento socialista; em meados da década de 1890, já estabelecera presença parlamentar. Além disso, a ala pa cifista do Movimento Socialista manteve a critica ao expansionismo colonial, uma das estratégias da Terceira República. O engajamento político da classe trabalhadora crescia a passo acelerado. Em Ia de maio de 1890, mais de cem mil trabalhadores celebraram o primeiro Dia do Trabalho em Paris - em vio lação à lei. Em 1895, formou-se a Confédération Générale du Travail (CGT), que evoluiria para se tom ar o mais poderoso sindicato trabalhista da França e logo sc envolvería na agitação em prol da jornada de trabalho de oito horas. Além disso, o setor mais militante dos grupos esquerdistas lançou violenta campanha anarquista no rastro do caso Boulanger. Hotéis, restaurantes, resi dências de magistrados e outros locais parisienses tornaram-se alvos; mortes aconteceram. Esse tipo de política selvagem atraiu a condenação de rotina -mas também níveis surpreendentes de apoio entre os ativistas da classe operá ria e a vanguarda artística e literária.
fv ■ r r • 'T.- ■ -' :.- -'Kglß^r. ■ :■; -;?o • • ■' • ,- • A -i ; ; :-*v s' ■
Pa r i s - b i o g r a f i a d e u m ac i d a d e
Se a política e as classes dividiam o regime, com o gênero isso não era diferente. Um crescente lobby feminista reivindicava medidas para ampliar os direitos sociais e políticos das mulheres. Em 1897, Marguerite Durand criou o primeiro jornal feminista de publicação diária, com o título provocativamente parisiense La Fronde. Durand criticava com sagacidade a situação altamente patriarcal em que as mulheres francesas se encontravam no século XIX , con denadas ao confinamento em quartos e cozinhas. As conquistas femininas no que tange a possibilidades educacionais, oportunidades profissionais, igualda de jurídica, controle sobre propriedade e direito de divórcio não chamaram muito a atenção, mas tiveram solidez. O impacto cultural do movimento fe minista transcendeu o músculo político, particularmente em Paris, onde con centrou a maior parte de sua atividade.
As tensões no coração da política concernentes aos direitos femininos e à política de massa receberam novo foco étnico-político no meio dos anos 1890, com o caso Dreyfus .E m 1895, a prisão injusta do judeu da Alsácia e oficial do exército Alfred Dreyfus, acusado de espionagem a favor dos alemães, dividiu a nação política em dois grupos antagonistas. Defendida pela Liga dos Direitos do Homem, a causa pró-Dreyfus encontrou expressão clara no famoso artigo do romancista Émile Zola “J’accuse” (“Eu acuso”). Publicado em 1898 no jor nal do político radical Georges Clemenceau, L'Aurore, o artigo desencadeou grande clamor, inclusive tumultos nas ruas de Paris e de outras cidades, obri gando Zola a se refugiar um tempo em Londres. "J’accuse" expunha ao ridículo o movimento anti-Dreyfus no exército, na igreja Católica e nas instituições po líticas, assim com o os odiosos ingredientes anti-semitas embutidos na questão. £ m 1899, Dreyfus recebeu perdão provisório e isso por um tempo amainou os ânimos ao redor da disputa. No entanto, certas inimizades originadas por ela perdurariam. Degas e Pissarro, antigos companheiros do Impressionismo, nunca mais dirigiram a palavra um ao outro devido a discordâncias sobre o caso Dreyfiis; ressentido, o anti-Dreyfus Degas inclusive demitiu sua modelo de pintura (protestante e pró-Dreyfus). O caso não terminaria até 1906, quando Dreyfus recebeu perdão completo e recuperou sua posição no exército/
Paris parecia não se abalar com a turbulência política. Durante uma sessão da Câmara dos Deputados em 1893, uma bomba foi jogada contra o presidente da sessão. Ele se abaixou, e a bomba destruiu a parede atrás de sua cadeira?/Então ele reergueu-se detrás da bancada para anunciar a todos, im perturbável: “La séance continue...”, com o se estivesse atuando numa peça de Edmond Rostand (e, de fato, Cyrano de Bergerac, de autoria de Rostand, seria um dos sucessos no teatro de bulevar às vésperas da Exposição Universal de 1900). Essa indiferença aparentemente normal revestia a ansiedade pulsando no coração do regime.
O E S P E T Á C U L O A N S I O S O
t\s Exposições de 1889 e de 1900 almejaram curar as feridas políticas da combalida mas resiliente Terceira República e apresentar a melhor imagem possívefde uma França unificada em torno das noções de progresso e moder nidade, Porém, por trás dessas pretensões internacionais e universais e do su cesso comercial dos dois empreendimentos, jaziam contínuos debates sobre o futuro do regime, a natureza da modernidade e o caráLer da cidade de Paris,
O organizador da Exposição,Universal de 1889, Alphand (ex-colabora dor do barão Haussmann), impregnou-a de valores haussmannianos. O pon to alto, a Torre Eiffel, era uma espetacular ode à ciência e ao progresso que a exposição em seu conjunto planejava servir de exemplo. Desde o Segundo Império, construções com estrutura de ferro eram numerosas em Paris, mas essa estrutura de trezentos metros de altura superava qualquer outra edifica ção moderna. Tornava-se ainda maís impressionante com sua base conectada à enorme Galerie des Machines, construída de ferro e de vidro, que se van gloriava de ter a maior área construída do mundo e que abrigou muitas das mostras. Édouard Lockroy, o diretor do comitê da exposição, organizou uma mostra sobre a construção da torre que enfatizava a audácia conceituai do projeto de Eiffel, seu status com o realização de engenhada avançada e a equipe de trabalho necessária para erigi-la dentro do cronograma. Ele a comparou à Enciclopédia de Diderot, por envolver trabalho coletivo baseado em rigor intelectual, valorizar a mão-de-obra, mobilizar energias e exercer ampla fun ção pedagógica no seio da sociedade. Esses objetivos combinavam harmonio samente com o fervor patriótico da Terceira República e sua auto-atribuída “missão civüizadora” nas coiônias.
I ^ Iü.I:AlPHAND ■ '
Jean-Charles-Adolphe Alphand (1817-1892), nas palavras do pres.-
dente do cohselhd-gcral do départámentõ do Sena proíeridas durante, ., :
' *o funeral d= Alphand no P « e-Larhane em, 1892, k m a a,d„ o “mago
organ,zador de todas as grandes fesuvrdades naeronais e pansrenses, o
:
magnífico decorador de nossas exposições, q criador de parques,
pra-r - '> s -e avenidas”. Louvopra-r adequado papra-ra um nnpopra-rtante'(embopra-ra, desde
.
sua morte, poucoxòhhecidoji Viiltb político que combinava òs(..papéis
de “engenheiro, árqúitetd, financista e administrador’’,, é cujo Elinor
i
apaixonado por Paris Ibi calorosamente saudado por outros mslintos
oradores.
■
. .
. .
i '/O barão Haussmann lançara sombra tão grandena historia da-Paris do sécu o XIX-que o papei de seus colaboradores tem sido negligencia-'.-m negligencia-'.-m negligencia-'.-m
dcí.
Porém,Úmidos dons administrativos niais notáveiside-HanSL.,^....
. “v Ü H Í Jett
G rand es Co n stiu c tio ns
i W
Enlsjller au \ dés loule ligne - ponctuée
marquee du signe x . Valeur TDUFrjFFEL- Jiairieur 3oo m’r?ï' TTFvalion Wmm W/êr Côihn.'h. hun.-ik'ïF wty** "
Y 2a m /lm ij& '&
rtt.-r 7.Pièce * hpècoY.
K Pie c e i coVeras
ï c i î f f l M
w iy ' Coller des a dos.Tes piecçsB \ça % forinaril "Noire-Dame de Pans ^
t Ce moTTumenl sert de tarit . -parai son entanteui* mis à cole •'■ ;- de kim rr DHTel.-Celte pièce ne te c à t ;^arej}atre’ 5c Pariÿjnfoseîi?-r/rs i V-. i . “s . •--- - .1 iFBiT a l IMJO t
1
1m
|si!-lIlKÎf »[gig i l * y f ■ Il Hy
i r a ikîSp 08^* f i # i ; |II
. ü i p , , ■ • - Ji l i aHÜíI. .-**■■■■■ - ■ïr 77“ :—-. -.—Pa r i s - b i o g r a f i a d e u m ac i d a d e
era o faro na escolha ele pessoas incansáveis e competentes pára a cké-cução dos trabalhos erh pauta. A vasta rede de esgotos desenvolvida sob á Paris haussniamii/.ada deve muito ao árduo trabalho île Eugènellel-grandf nomeado diretor dos Serviços Hídricos' de Paris por Hàussniáiin cm 185-1. Até 1867, ano em que ocorreram as primenasiexcúrsõê.s turísr ticasaos esgotos durante a expósiçâó, Belgrand quintuplicam a dimen são dá rede subterrânea e revolucionara p abastecimento e ò descarte do sistema de águas da capital. Outro escolhido por Haussmanh, o ar quiteto Gabriel Dayíoud, cuidou da paisagem das novas ruás_e em par ticular encarregou se do projeto e fornecimento dos acessórios das vias públicas (postes de lâmpadas, mictórios, bancos de. praça c assim por diante). Jacques Hittorff era o arquiteto favorito de Haussmann para a remodelagem das principais praças urbauas, com o a Htoilee a Place Saint-Michel, enquanto o paisagista Barillet-1 ic.schájiips assúmiua còn siderável responsabilidade de cuidar dos viveiros de Paris: ele replantou 1’aris. No início, esses indivíduos podem 1er escutado as recomendações de I laussmann, mas ta! era.o alcance de suas responsabilidades que tra balhavam de modo independente. Tanto isso é verdadeiro que, mesmo depois de I laussmann ter deixado o cargo de chefe dei departamento em 1870, eles continuaram a exercer suas funções; por exemplo, Belgrand permaneceu até 1878 e Alphand até falecer, em 1892 - uní ano depois do mestre Haussmann.
.■/ DpS colaboradores do barão, Alphand era talvez o mais importân-te: Haussmann o considerava’seu “braço direito”. Seu papel especifico era o desenvolvimento do espaço verde, uma das partes do programa baussmanniano niais acalentadas por Napoleâo 1I|. Mas ele estendei! sua influência a todas as obras públicas;(em especial após 18 7 í ); alem disso, foi o principal empresário das exposições internacionais até a de 1889. Seu talento para a administração tornou essa última cm particular um completo sucesso internacional. Foi ÀJpharid quem selecionou o ; projeto de Eíffèl para construir uma torre de ferro de trezentos metros
de altura de um total de setecentos projetos// ’
lie modo característico, esse gnmde parisiense viera da provincial Nascido em Grenoble, d e (á exemplo de Belgrand) estudou ua ['co le des Poiits et Chaussées ern Paris. TrábãlHou cbm ó engenheiro civil em Bordeaux, onde conheceu i laussmann, prefeito de Gironde entre b; 1850 c .1855. F ni 1854, Hayssmann convoccui: o para traballiàr em Pa
ris.como engenheîrqrchefe ÿè Parques e Jardins - cargo que manteve por 37 anos e áò qual ele juntou uma série dc outros compromissos. A I posição de diretor-de Obras Públicas de'Paris,Áriada páfá ele’‘durante
O ESPETÁCULO ANSIOSO
a -'Terceira República em 1871, dêu-lhe o contrôle sqbre.as rodóvias,; as-avenidas, a cartografia e .a arquitetura. Mm 1,878, após a morte ÜtT Belgrahd, ele assumiu também o setor de Água e Esgotos. Com o se isso nãô i8istassevigua]níentêexerceu-inipòrtanle papéfnd plaiiõjamento UiV departamento do ScMiá.aíém dos limites de Paris. "■
O ’, papel de Alphánd em çónsolidiuve- ampliar .ás .'conquistas, de. Haiissmami por mais-dé cluas.deçadãs após a saída de Haussinann é provavelmente sua realização mais apreciável.' Más é seguida de perlo por seu trabalho iniagmativo edriativo nós"espaços verdes de Parts- Élçl: repensou e remodelou toda a hierarquia dos párqúés municipais, descle o bois de Boulqugnt e ò Uois de Vincermes, passando pçlds: principais parques do coração da.cidade, com o o Búttes-Ghãiimóht, p-Parç M on ceau e o ihtrc Moiusòúris; ate às'dezenas de prácinhas salpicadas pelosç-bairrós de ParisiTnqiiarito o Haussmannismo lidava com estradas retas e perspectivas diretas,'a,obra páiságista.dc Alphaiid seguiu rumo,a’rt.ís: | tico distinto. De lato,: nó Bois dê Buuloúghe na prática èle'.erradicou'as trilhas florestais háússmannianás em üiiba rela herdadas de Luís p<IV e substitiiiu: as por caininhcis ondulados que realçavam ps inúmeros de tailles pitorescos do parque. Muito cio charrue (para não dizer bizárri çe) reriiaiicscente dós parques du Kiris - a cascata de ÍÁtngçhariips e.as grutas no Bois cie lk>idougne;;âs:protc\pes de.ferro ao redor.dá' base,de; niilbáres de furores; ãs;é‘sta)agniites c estalactites-artilidais em -Buttes-C hagm õnt; o templo grego dominando a colina desse ultimo parque; a cerca viva com estrutura de concreto que ele gostava dé;instalar nos parques importantes - deve-se a .Alph.md/
De modo característico, assim com o Bdgiand produziu uma odira-prinia explicando suas próprias realizações tio setor cie abastecimento de água, Alphaiid escreveu o livro Promenades.''dé.Paris. Não cira apenas a expjicaçáo de tudo que ele fizera a esse respeito, mas também u iiirc lato 'erudito sobre a história do paisagismo desciè a Antiguidade, procii randòdelinearas maneiras com qué séü próprio trabalho hiárcóú úm novo patamar no espaço urbano verde. Mas para conhecer o verdadeiro monumento de Alpha fiei não é preciso 1er, o livro: basta entrar num
parque parisiense e olhar ao redor. .'.
Alguém pode questionar se todos os visitantes da Exposição Universal de 1889 compartilhavam dessa grandiosa visão cívica. Até mesmo o próprio Lockroy ficou bastante desapontado com a atmosfera em torno da exibição da T orre Eiffel, que, segundo ele (com certo exagero), lembrava mais Les Fo lies-Bergère do que a sala de aula republicana. Se n?. mostra de 1889 o ar de
Pa r i s - b i o g r a f i ad e u m a c i d a d e
frivolidade, o espetáculo^de massa e p puro entretenimento haviam diminuído o orgulho da ciência e do__progresso, onze anos depois tudo isso se intensifi cou. A_ Exposição Universal de 1900 absteve-se do estilo pedagógico um tanto, espalhafatoso e cerebral e da obsessão por ciência útil que caracterizaram a exposição precedente. Preferiu enfatizar os prazeres dos sentidos e encorajar, os visitantes a pensarem mais com o consumidores e menos como cidadãos. A essa altura, o decorativo e o feminino prevaleciam sobre a funcionalidade e a virilidade do estilo Eiffel de engenharia. Mesmo assim, houve um grande número d? demonstrações e competições científicas. "A França transformou a contínua excelência científica em fonte de força nacional: os nomes de Louis Pastem, de Claude Bernard e do casal Curie foram incessantemente aclama dos na literatura sobre a mostra. Mas os alemães levaram para casa os princi pais prêmios de ciência e tecnologia. Causava apreensão o fato de que o mais feroz oponente internacional da França tivesse triunfado assírn/Ós franceses estavam ficando frouxos? Essa questão ganhou pertinência adicional com o advento do feminismo. De modo significativo, os pavilhões mais comenta dos no Champ de Mars foram o Pavilhão de Artes Decorativas e o Palácio da Mulher. A mostra do Palácio da Moda foi a segunda mais visitada dê toda a exposição. (Seu público, de 1,3 milhão de pessoas, só foi ultrapassado pelos!1,] milhões que se aglomeraram na mostra da aldeia suíça, com vacas vivas, vistas montanhesas trompe-Voiele apresentações dos corais Yodel e suas alternâncias de modos vocais.) Além disso, o ponto tòcal da entrada da exposição, la Pa- risienne - efígie feminina de cinco metros de altura — exibia as criações mais atualizadas da alta-costura de Paris. O que os contemporâneos chamavam de contornos “graciosos e vitais”3 desse manequim de moda contrastava com a tensa rigidez da Torre Eiffel, já parecendo estranhamente arcaica.
Isso não quer dizer que a arte prevaleceu sobre a ciência na Exposi ção Universal de 1900 ou que o estilo triunfou sobre a substância; mais do que isso, a exibição pareceu demonstrar que o estilo — um tanto feminizãdõ e decorativo — era a substância que tornava Paris tão especial, tão radiante, tão atualizada e tão m odem acA exposição dirigiu a atenção para a cidade na condição de lar da boa vida moderna, excitante mescla de consurnismo que incluía tecidos brilhantes, alta-costura (mas também roupas prontas), papéis de parede estampados, bicicletas, câmeras, lâmpadas, máquinas de costura e inúmeros confortos domésticos disponíveis nos grandes magazines, A indús tria passara a ajoelhar-se perante a cultura: no flanco sul da Champs-Í.iysées, o Palácio da Indústria da Exposição Universal de ] 855 foi demolido para abrir espaço para dois enormes salões de exibição - o Cirand Palais e o Petit Fa lais — que recebiam mostras de arte. Até mesmo as conquistas tecnológicas da exposição foram enfeitadas. A estrutura de ferro da Galeric des Machines
O e s p f.tAc u l o a n s i o s o
revestia-se de pedra e estuque, com grutas elegantes e fontes ornamentais. As estruturas de ferro tanto do Grand como do Petit Palais exibiam roupagem semelhante, com características rococós c neobarrocas, assim com o a recém -construída Pont Alexandre-111, a mais gloriosamente exuberante de todas as pontes parisienses, que ligava a Champs-Elysées aos Invalides.
Mesmo dedicada ao efémero e às coisas da moda, a Exposição Universal de 1900 teve impacto mais duradouro sobre d meio ambiente físico de Paris do que a predecessora de 1889.5 Mintas obras realizadas para a Exposição Uni versal de 1900, abertamente orientadas ao lazer e ao prazer, permaneceram e contribuíram de modo duradouro com a infra-estrutura parisiense. Os melho ramentos nos meios de transporte de massa projetados para atender as grandes multidões esperadas constituíram característica particular e permanente da Ex-, posição Universal de 1900. Esses não se limitaram a inovações anteriores nesse domínio - incluindo até a escada rolante introduzida na Exposição Universal de_i_889. p_irunsporte.veicular teve.significativo aumento d u ian tea década de 1890, de modo que esforços especiais eram necessários para assegurar que Paris não se tornasse obstruída pelo tráfego Já Pont Alexandre-III - que recebera O nome do czar russo, uma das muitas cabeças coroadas a comparecer e com quem a França assinara recentemente uma aliança de defesa - foi construída. A Gare de Lyon passou por ampliações e recebeu seu característico campanário. Abriu-se uma nova estação na margem esquerda do Sena, a Gare d’Orsay, co nectada corn a Gare d’Austerlitz a leste, (Fechado para o tráfego às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o prédio seria reaberto em 1986 na forma do Museu d’Orsay, um dos grandes projetos da Quinta República.)'1 Mas, sem dúvida, o maior impacto sobre o futuro da cidade veio com a criação da Unha ferroviária metropolitana parisiense - o Métro, o mais bem-sucedido empreendimento de Paris no setor do transporte público na aurora da era das multidões.
Sonhadores utópicos se iludiram com a idéia de uma linha ferroviária subterrânea em Paris por mais de meio século. Mas enquanto Paris titubeava, O resto do mundo corria na frente: Londres inaugurou o seu metrô na década de 186U e Nova York em 1872/fem contraste, em Paris, pairava uma atmos fera dc indodlidade em torno da idéia do métropolitain. Do ponto de vista financeiro, havia a dúvida de com o os custos seriam alocados e divididos entre estado, municipalidade e iniciativa privada. Do ponto de vista técnico, ha via o problema relativo à energia responsável pelo sistema - eletricidade (cuja eficiência energética parecia incerta) ou vapor (os usuários não morreriam sufocados?). Sob o prisma estético, era preciso determinar se os trilhos corre riam acima da terra (se fosse assim, que espécie de destruição seria infligida ao famoso horizonte de Paris?) ou no subterrâneo (o sistema seria à prova d’âgiia?}. A Exposição Universal de 1900 serviu de espora para a ação. Enfim
Pa r t s - b i o g r a f i a d f. u m a c i d a d e
o planejamento iniciou-se com seriedade a partir de 1895 e as obras em 1898. Com algumas exceções - em grande parte ao Longo do perímetro do velho muro dos Arrecadadores-Gerais, ern que se adotou os trilhos na superfície - o metrô situava-se no subterrâneo. Utilizou-se a tração elétrica. A Linha Um do m etrô foi inaugurada em julho de 1900: ia desde Vincennes até Porte iMaillot e incluía paradas convenientes ao longo da Champs-Elysées para os visitantes da exposiçâo^Ò novo serviço veio a ser um sucesso brilhante e permanente. Dezessete milhões de passageiros foram transportados de julho a dezembro de 1900; os números do ano seguinte alcançaram os 55 milhões. Rapidamente abriram-se novas linhas. Por volta de 1914, a utilização havia decuplicado, com aproximadamente quinhentos milhões de passageiros,
A presença da Torre Eiffei, a mais impressionante realização tecnológica da Exposição Universal de 1889, é sentida em toda a cidade, mas a utilidade não é seu ponto torte. A surpreendente proeminência da torre contrasta com o metrô, a conquista tecnológica mais significativa da Exposição Universal de 1900. Do metrô apenas eram visíveis as entradas para as estações, cujo pro jeto vencedor, após passar pelo tradicional nível de disputa política, coube a Hector Guimard, campeão do style moderne, ou, com o ficou conhecida, da art nouveau. As linhas curvilíneas, tortuosas e vegetais das esculturas urbanas de Guimard (que, depois de um período de desprezo, receberam finalmente a classificação de monumentos históricos em J965) pareciam quase fazer es cárnio da g e o m e tria de Haussmann e da modernidade te cn o ló g ica da T o rre EiffeLíNo entanto, apesar de subterrâneo e fora do campo de visão, o metrô, evocado pelas esculturas de Guimard, teve uma utilidade social e urbana para os parisienses não equiparada pela Torre Eiffei.
O metrô contribuiu principalmente para a melhor integração da eco nomia local. As décadas de 1870 e 1880 presenciaram um colapso econômico nacional, com impacto agravado na capital pela ruptura que a haussmanniza-ção — e também a Comuna — causou aos tradicionais modelos de serviços. A partirdps. 1890, porém, a economia de Paris recuperou-se com força. O tipo de consumismo patrocinado pela Exposição Universal de 1900 era bom indi cador nesse aspecto.yÒs anos anteriores ao romper da Primeira Guerra M un dial em 1914 viram uma transformação nos hábitos de consumo não apenas no seio da elite social, mas também no seio dos agora emancipados "novos estratos sociais” através da nação. O consumo de pão c vinho aumentou em ritmo constante, o de chá e café triplicou e o de álcool aumentou em dnis ter ços (embora a produção de absinto tenha decuplicado). O consumo de bens duráveis apresentou dinamismo parecido. Na vanguarda dessa transformação, estava a orientação de Paris em torno de lazer e prazer. Por volta de 1900, a loja de departamentos Bon Marche começou a manter estoque de utensílios
O ESPETÁCULO ANSIOSO
de cozinha, cosméticos, equipamento fotográfico e instrumentos musicais — tudo sinal de que os clientes dispunham de mais para gastar. A Joja também tinha uma galeria de arte, onde os parisienses poderiam, se assim o desejassem, adquirir cópias baratas de pinturas impressionistas.
Em 1900, uma nova e resiliente geografia de produção emergia em Paris e arredores. Com aluguéis estratosféricos nas áreas centrais submetidas aos melh ora mentos haussmannianos, muitas antigas fábricas locais faliram ou se não transferiram-se em direção à periferia urbana, ou além dela. A legislação governamental sobre a localização de indústrias nocivas endossava essa m u dança. Igualmente, também a endossava a tendência de remanejar instituições públicas e elementos básicos de infra-estrutura com o asilos, hospitais, depósi tos, pistas de corrida e instalações para a prática de esportes (mais aeroportos em seu devido tempo) para fora dos bairros centrais.
Por volta do começo do novo século, três novos e importantes pólos industriais haviam emergido no âmbito dos vinte arrondissements de Paris: o nordeste, ao redor do Canal Saint-Denis e a enseada de La Villette (18Q-19-); o sudoeste, em torno de Javel e Grenelle, no 152; e o sudeste, nos 12Q e 13“ (Picpus, Charonne, Bercy). Ainda mais consistente, porém, foi o desenvolvi mento industria! além das fortificações da velha muralha Thiers. O número de empreendimentos comerciais em Paris caiu de 76 mil para 60 mil entre 1872 e 1896, enquanto nas áreas suburbanas - a banlieu- esse número subiu de onze mil para treze mil. Se a maior parte da indústria de grande escala migrara para fora, atrás dela seguiram não apenas empreendimentos menores, mas também grande número de trabalhadores. A população crescia em ritmo mais rápido nos arrondissements externos que nos internos, mas a m aior expansão aconte cia nos subúrbios. A população dessa “coroa” além-urbe triplicou entre 1860 e 1914, A partir de 1851 até as vésperas da Primeira Guerra Mundial, as localida des com fábricas importantes presenciaram um espetacular crescimento po pulacional: Saint-Denis, de 15.700 para 71.800, Asnières, de 1.200 para 42.600, Boulogne-Billancourt, de 7.600 para 57 mil, e Ivry, de 7.056 para 38.307.
^ a r i s perdera para Londres a posição de maior cidade do mundo no século XVIII; por volta de 1900, estava sendo ultrapassada também por Nova York, com Berlim, Viena e São Petersburgo aproximando-se com rapidez /A taxa de natalidade, tradicional mente baixa em Paris, baixava ainda mais devi do à difusão de técnicas de controle de natalidade. (Dispositivos intra-uterinos e preservativos - com a borracha vulcanizada sendo uma das principais con quistas nessa fase de industrialização - passaram a fazer parte da vida moderna tanto quanto telefones, bicicletas e encanamento residencial decente. }/M ais perceptível era o fato de que o dinamismo demográfico da capital france sa dependia cada vez mais de sua periferia e de seus arredores dó que de
pAÍUS - BIO O RA FIA DE UMA CIDADE
seu centro histórico^Éssa situação continuaria durante e depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1861, a banlieue representava 13% do toda a população metropolitana de Paris; em 1901, somava 26% , com tendência de aumento. A maior parte do crescimento consistia em novos migrantes, na maioria traba lhadores inexperientes dos departamentos do norte e do centro. Havia tam bém boa mescla de estrangeiros, incluindo um grande influxo judaico da Eu ropa oriental. Os estrangeiros respondiam por 6% da população regional em 1890 - proporção bem maior do que em qualquer outra capital importante.
./Â palavra “subúrbio”, com suas conotações anglo-americanas de refú gios arborizados e residências individuais ou conjugadas, faz pouca justiça ao termo francês banlieue.5 A partir de meados do século XIX, as classes médias dos Estado^ Unidos, da Inglaterra e de outros países europeus transferiram suas residências para longe dos centros das cidades, considerados por elas com o sujos, poluídos e superpopulosos. Na França, cm contraste, Haussmann havia aberto boa parte do centro dc Paris, de modo que a classe média estava contente em permanecer ali. Assim, não havia a necessidade de refúgios subur banos. Enquanto os arrondissements externos e os subúrbios eram invadidos pela produção industrial, o coração da cidade primava em tornar-se mostruá rio do consumo^Oaro que nem tudo a burguesia conseguia à sua própria m a neira dentro dos limites da cidade. Havia tensões relativas aos direitos urbanos dos trabalhadores e desprivílegiados ainda radicados dentro da cidade. Mais da metade da população total de Paris continuava pertencendo à classe traba lhadora, e nos arrondissements externos essa proporção aumentava. Embora a cidade contivesse em tom o de um quarto da riqueza nacional, mais da metade daqueles que morriam na cidade eram enterrados em covas pobres. Tensões de classes, ainda mais aguçadas na periferia, criaram uma enorme fissura no tecido mais amplo da comunidade urbana.
A força de trabalho em sua maioria inexperiente encontrada na perife ria constituía a base de uma transformação fundamental em curso no perfil industria! da região. Por tradição, a manufatura parisiense era principal mente direcionada ao mercado de consumo e liderada pelo setor têxtil. Em 1847, o setor têxtil envolvia ainda 11% da força de trabalho; em 1860, esse número baixou para 3% , com tendência de queda. As indústrias de ferro e de produtos químicos começaram a crescer bastante, oferecendo suas mercadorias menos aos consumidores de Paris e mais ao mercado n acio n al. Fábricas com quinhen tos ou mais trabalhadores eram três vezes mais numerosas na periferia/^ rede de rios e canais da região auxiliou nesse remodelamento da indústria parisien se, mas a ferrovia representou a influência mais importante. À linha circular do cinturão ferroviário dentro das muralha Thiers - a chamada petite ceinture — adicionou-se, em 1875, outra externa ou grande ceinture-co m u n ican d o todos
O ESPETÁCULO ANSIOSO
os subúrbios industriais- Isso possibilitou à indústria tirar ainda mais proveito do foco. parisiense em sistemas de transportes nacionais.
Ds trabalhadores da indústria de grande escala concentrada no cinturão periférico cada vez mais se viam submetidos aos processos da "Segunda Re volução Industrial”, ou seja, a criação de um proletariado por meio da perda de capacitação e do envolvimento forçoso na produção mecanizada. Isso se tornou particularmente verdadeiro com a explosão econômica desencadeada a partir de 1900 pelo desenvolvimento da indústria automobilística. Na vira da do século, havia cerca He seiscentos fabricantes de veículos na região, com centros particularmente significativos em Javel, no 15° arrondissement, e em Boulogne-Billancourt, nos subúrbios do oeste. A força de trabalho nos dois lugares estava cada vez mais sujeita à competição com a produção mecaniza da. A indústria automobilística era apenas uma da série de novas indústrias emergentes na região nessa época: produção de aeronaves, ferramentas para máquinas, eletrodomésticos e cinema. Cinco dos sete estúdios cinematográfi cos da França localizavam-se na região de Paris,
A m ão-de-obra remanescente em Paris teve destinos distintos. Muitas indústrias de artesanato industrial prosperaram. Em 1914, havia bern mais fa bricantes de sapatos e alfaiates na região do que trabalhadores envolvidos na fabricação de carros. Além disso, os trabalhadores habilitados ainda numero sos na cidade constituíam importante fonte de mão-de-obra para a distribui ção de contratos a fornecedores da indústria pesada da periferia, especialmen-tc antes do predomínio dos métodos de produção auto matiza a verdade, para muitos industriais, uma das atrações da periferia era exatamente a proxi midade a um importante reservatório de trabalhadores habilitados. O tipo de oficio manual de alta habilidade e alta qualidade peio qual Paris sempre tivera excelente reputação ainda era capaz de prosperar. Porém, abaixo do nível das elites, com frequência as empresas precisavam se ajustar ao mercado de massa por meio da subdivisão de tarefas e tornando os métodos de produção mais simples e eficientes. Em boa parte do ramo de roupas e de móveis, isso inva riavelmente resultava em aumento no número de operários trabalhando em condições de penúria em pequenas oficinas.
buas outras evoluções complicaram os modelos de trabalho dentro da cidade. O primeiro envolveu a mudança acelerada da indústria rumo ao setor terciário (serviços), em especial rumo a ocupações de colarinho branco. Nn rastro do Segundo Império, Paris evoluíra para tornar-se urn grande centro de serviços financeiros e, até 1914, o número de funcionários de escritório traba lhando em bancos, correios, companhias de seguro e ferrovias multiplicou-se por três. O mercado de m ão-de-obra no setor terciário parisiense subiu de 17% em 1866 para 38% em 1906. A segunda evolução — ligada à primeira, na
Pa r i s - b i o g r a f i a d e u m ac i d a d e
verdade - consistiu no súbito aumento na proporção de mulheres empregadas no mercado de trabalho. As funções femininas tornaram-se cada vez mais fre-qüentes nos setores de vendas, escritórios e contabilidade. Em 1870 , as m ulhe res representavam 15% das posições nesses grupos; em 1914, essa proporção subiu para um terço. Em comparação a outros países, esse núm eroFraaTto -”é* cada ve2 mais digno de nota, levando-se em conta que a ..cultura, da..época , de modo invariável, consagrava às mulheres fun çâ o essencial nien ted eco ra ti va no lar o u no quarto.
No começo do século XX , o escritor Daniel Halévy lançou o olhar a partir da colina de M ontmartre, perto da basílica do Sacré-Coeur, sobre uma Paris cujo horizonte, historicamente dominado por pináculos e abóbadas, es tava ornamentado com prédios mais novos, ao estilo haussmanniano. Volven do O olhar para longe desse panorama familiar, espiou rumo ao norte, “outra cidade, aparentemente tão vasta quanto a outra, cidade imensa, com telhados plebeus de uma tristeza morfética, uniformemente sem pináculos ou palácios e desprovida de história, uma cidade desconhecida ainda a ser descoberta”. Toda e qualquer construção que se destacasse parecia comicamente anacró nica — assim com o a basílica medieval no bairro proletário Sainl-Denis, que lembrava “um mamute com o aqueles às vezes encontrados intactos na neve e no gelo da Sibéria”.6
Halévy e seus contemporâneos consideravam difícil saber o que fazer desses arrabaldes/Á periferia também parecia perder a identidade: “esse mun do intermediário”, observou o romancista e dramaturgo Octave Mirbeau em 1888, “não é mais cidade, mas ainda não é campo. AJi nada termina e nada com eça”.7 Esse sentimento de diversidade indócil enLre a cidade e a banlieue tornava-se ainda mais evidente visto de perto. Os lúgubres e indistintos pré dios de dois a três andares além da muralha Thiers, reunidos sem qualquer plano nem discernimento, contrastavam com a aparência cada vez mais so fisticada da Paris pós-haussmanniana, onde era dada plena consideração ao impacto de prédios individuais sobre a silhueta e a perspectiva urbanas,/
O espírito do plano diretor de construção criado em 1783-1784 e modi ficado por Haussmann em 1859 e ! 864 era ainda muito respeitado dentro dos vinte arrondissements da ridade^burante os anus 1880, porém, o trabalho de Haussmann passou a receber críticas estéticas. Houve ataques a “estes bule vares sem curvas, sem perspectiva de aventura, de retidão implacável (...) que Jembram alguma futura BabjJônia,Americana”.8 Em 1885, o arquiteto Charles^
Garnier posicionou-se de forma incisiva contra “o uso odioso da linha reta”7 A retórica anti-haussmanniana foi também empregada por unj,crescente movi mento conservacionista, cuia ponta-de-lança era a Çommjssion. d_u Viemc Paris,
O ESPETÁCULO ANSIOSO
fundada era 1897, De fato, uma das mostras mais visitadas na Exposição Uni ver saí de 190Ó seria a que mostrava k Vieiíx Paris em toda a sua glória pitoresca.,
A crescente crítica ao Haussmannismo provocou certas concessões e mudanças nas normas de construção em 1884 e em 1902. A legislação de 1902, em especial, estipulava uma medida para “favorecer tendências pitorescas” e “permitir efeitos mais inesperados e pitorescos”.10 Essa defesa do pitoresco não teve aplicação no projeto das ruas - raríssimas vias importantes foram abertas ao longo do começo do século X X -/m a s realmente influenciou a construção de prédios individuais. A série anual de competições municipais de projeto de fachadas que durou até 1914 dava uma idéia do que era possível realizar-se. A Rue Réaumur (2a) contém vários projetos rigorosos, com uso inovador de fer ro, concreto armado e vidro laminado, que rompiam a monotonia observada nas linhas haussmannianasjfAs normas de 1902 também permitiram prédios mais altos. Mas isso equivalia a apenas um ou {no máximo) dois andares ex tras. Os novos andares tendiam a ficar acima da Linha da cornija, no espaço do telhado que os elevadores mecânicos agora haviam tornado mais desejáveis. Características decorativas no nível do telhado eram acompanliadas por escul tura mais elaborada e harmoniosa, por janelas de sacada em formato curvo e por acessórios de fachada em tijolo, gesso, azulejo colorido e vidro que ecoa vam os excessos rococós dos pavilhões da Exposição Universal de 1900,fIsso era claro nos bairros em que houve muitas construções residenciais a partir de 1902, tendo com o clientela-alvo a burguesia abastada. Embora ainda reconhe cíveis dentro do cânone de Haussmann, as novas construções, por exemplo, em Auteuil, Passy e Cahillot, no 16-, atrás da redesenhada Gare de Lyon, no 122, e ao redor do Hôtel Lutétia e do Boulevard Raspail (6a-7a) eram altamente ornadas e decorativa mente pitorescas.
Paris na virada do século era um dos maiores centros financeiros do mundo. O capital era mobilizado para construir ferrovias russas e infra-estru tura nas colônias, assim como residências burguesas de alto nível na cidade. Mas os interesses financeiros eram menos efetivos quando se tratava de prover acomodação para as classes operárias parisienses: ali simplesmente não bavia lucros a serem reaUzadosÁ Js princípios do laissez-faire no cerne da ideologia da Terceira República inibiram o desenvolvimento pelo governo de habita ções de fins sociais para pesSQas de baixa renda. Na verdade, o único passo que o governo deu nessa direção foi encorajar empreendimentos privados e filaiitrópicos. As operações sem diretrizes dq mercado habitacional privado demonstraram-se extremamente deletérias para os trabalhadores da cidade/ Havia uma variedade incrível na qualidade e no design dos conjuntos habi
Pa r i s - b k k.r a f i ad í u m ac i d a d e
que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, cerca de 43% dos parisienses moravam em conjuntos habitacionais superlotados e insalubres. A munici palidade viu-se compelida a identificar vários adensamentos populacionais de Paris com o ihts insalubres (blocos insalubres), selecionados para medidas de saúde pública. Na realidade, só depois da guerra essas zonas passaram a receber atenção.
■ . 1 0 .2 : Îl o tin s a l u b r es t jm é r o 16
A noção do îlot insalubre - bloco residencial urbano ou conjunto de blocos designados com o de risco à saúde pública - era a de uma nota promissória para a renovação urbana. A idéia éra que os distritos com essa designação deveriam ser isolados para importantes reformas sa nitárias, inclusive ampla reconstrução. Embora essa categoria tenha se originado na virada do século XX, demorou meio século até que se es timulasse a adoção de medidas sistemáticas nos 'îlots insalubres, Para a maioria deles, a promessa permaneceu nãq-cumprida até os anos 1960, quando se tentou nova abordagem.
/ A preocupação crescente com questões-de saúde pública nas partes mais pobres e carentes da cidade antes da Primeira Guerra Mundial ha via sitio exacerbada por pesquisas sugerindo que habitações pobres e superlotadas causavam altos índices de tuberculose. Em 1906, uma re- . - solução municipal propôs a demolição de seis dessas áreas com taxas de
tuberculose assustadoramente elevadas. A guerra impediu a implemen tação da idéia de erradicar os îlots insalubres. Após 1918, quando a idéia voltou à tona, ern torno de dezessete dessas áreas, compreendendo cerca de quatro mil prédios, receberam essa designação. Elas cobriam 3% da área de Paris, mas 6% dos parisienses habitavam nelas. Nada menos que uma epidemia de peste bubônica em uni dos îlots, nas imediações da Eue Championnet (17°), conduziu à sua demolição instantânea e •vubseqüente reconstrução. Mas a falta de verbas impediu que algo com parável a isso acontecesse em outros lugarcsJ/í
z/Outro ponto complicador era o fato de que a municipalidade reco nhecia que certos îlots situavam-se em piédios, de valor histórico. Era esse o caso, por exemplo, dos îlots número 1, que cobria o Plateau beau bourg (3°-4fi;- localizado no atual Centro Georges-Pompidou); número 3, cobrindo boa parte da margem esquerda defronte à île de la Cité até a Place Maubert (5a); e número 16, área no Marais que ia desde o rio Sena até a Rue Saint-Antoine„A imigração recente para este último distrito de grande número de judeus do Leste europeu imprimira- lhe eáraeterist icas
O ESPETÁCULO ANSIOSO
muito distintas; fazia parte do Pletzl, área judaica de trabalho árduo no
ramo do vestuário. . ,. ,
Jissas três áreas tiveram destinos diferentes no decurso do século XX, que iluminaram tanto a lentidão quanto a incoerência da política pari siense de planejamento ate as décadas de 1950 e 1960/Í9 Plateau Beau bourg, em primeiro lugar, passou por completa demolição no começo dos anos 1930. Mas o estado da economia nacional e das finanças munici pais não permitiu a reconstruçãoí e a área permaneceu um espaço aberto desorganizado - até seu vazio e sua localização central chamarem á liter, ção do presidente Georges Pompidou, que planejava construir um cen tro artístico internacional. Surgia o Centro Georges-Pompidou,/fda outra ponta do espectro, o ilot insalubre número 3 encontrava-se simplesmente / : abandonado, e de fato permaneceu um centro deplorável dê condições r precárias de habitação (embora o escritor americano Elliot Paul tivesse conseguido descrevê-lo de modo a parecer encantadoramente folclórico em fluente relalò sobre a vida na Rue de la Huchette nos anos 1920). Por volta de 1960, as residências ali eram arrematadas por agentes imobiliá rios para yuppies boêmios que apreciavam a cor local. A área permanece uma versão/asséptica, quase fossilizada, de uma m a medieval (com habi tações medievais e tudo, de fato, ao longo da Rue Calande)/
A história dc ílot insalubre número 16 jaz em lugar intermediário entre esses destinos de extinção (número 1) e fossilização (número 3). Seu destino foi ambíguo e, por isso, permanece a mais típica dessas áreas insalubres. Apesar de alguns toques haussmannianos no final do século XIX mais precisa mente a construção de um quartel na Rúe l.obaú e a criação do Liceu Charlemagne, atrás da' igreja de Saint Paul — a área manteve a. conformação de rua medieval e a major parte dos prédios, que em sua maioria datam desde cm torno de 1650 até princípios dq século XIX. Devido à necessidade do Hotel de Ville de prédios nós quais pudesse expandir seus serviços, a partir dos anos 1920 c até os primeiros anos da década de 1960, invariavelmente, pretextos de saúde.pública foram usados para justificar demolição, reconstrução e remanejo de finalidade. A area perdeu espaço residencial de considerável interesse histórico para blocos comerciais, não obstante as reclamações da Com mission dti Vieux Paris. "Há casos”, observou-se em 1939^,“ern que ' a conservação excessiva de casas, velhas é um crime sociál.^Rni. 1941,
decidiu-se adotar um programa radical de demolição.;/ : . ;
■ 1 /E n tretan to, uma lei criada rio regime de Vichy em 19,42'estabeleceu : ' qitc.p ar pitoresco, e p valor histórico ç|õ bairro conio uni todo pptk
Pa r i s b i o g r a f i a í>eg a iac i d a d e
ruptura das políticas estatais cuja tendência era até então sé fixar na derru bada de prédios adjacentes aos monumentos históricos. Porém, o regime de Vichy não cumpriu o prometido nesse setor; na verdade,' endureceu a política de demolição por motivos sanitários. Além disso, devido às polí ticas anti-semitas na Paris ocupada, lomou-sè fácil pára os planejadores urbanos tomarem conta das propriedades pertencentes ou alugadas por judeus, que ou haviam abandonado suas cisas ou estavam sem condições de resistir. A demolição iniciada em 1942 compreendeu um número bem maior de imóveis do que o número origmalmente planejado, inclusive áreas que não impunham quaisquer riscos à saúde pública,-/
/T in i 1944, um grupo de intelectuais e. escritores ativos em Paris -incluindo Colette, Valéry, Mauriaç, Giraudoux, Cocteau, Gallimard e . o compositor Poulenc - redigiu uma carta coletiva ao marechal Pétáih 1 “defendendo e apoiando a beleza de Paris”. Isso conteve a plena imple mentação do plano de demolição, e, depois da guerra, ele foi abandona-do^Deíxou, contudo, o terreno livre para gananciosos empreendedores imobiliários e um conselho municipal expànsionista, assim como pára saqueadores do comércio de antiguidades. Embora os edifícios histó ricos mais significativos da área, o Hotel de Sens e o Hotel d’Aumont. tivessem sido restaurados, muitos prédios históricos se perderam num descontrolado vale-tudo. Grande parte da histórica Ruo Geoffroy-1’Asnier se perdeu, enquanto parte do Quai des CéíesLins foi demolida entre 1959 e 1964 e o terreno foi utilizado na construção de uma Cite des Arts para artistas estrangeiros boa idéia materializada num desas tre arquitetônico. Virtual mente todas as novas construções não apre sentavam distinção arquitetônica alguma; muitas eram simplesmente horríveis. A essa altura, porém, a idéia do ilot insalubre soçobraraíbos dezessete ilots insalubres designados após a Primeira Guerra Mundial, só três receberam melhorias dignas de nota. A partir daí; Paris seria desen volvida em ZACs (zóties ti’arnênágemcnt concerte) e zonas semelhantes./ Nessa fase de renovação urbana pós-1945, a aparência externa dos prédios era preservada também pela prática de limpar e reformar os in teriores de mu itos blocos residenciais sem decorar ou.mesmo restaurar as fachadas. Mas de várias maneiras a experiência na área fofa sombria. Mui tos itens de valor liistórieo foram perdidos, e o aspecto do bairro foi mo dificado palra sempre. Urna pessoa bastante otimista poderia nrgumciüàr. que a experiência do ilot insalubre número 16 havia sido uma experiência js. redentora/Êornecendo ao governo e à opinião pública unialiçãò cie como : não conservar áreas históricas, lançou fundamentos de uma legislação conservacionista bem mais eficiente, a lei dc MaJraiix de 1962, que ppssi-. j bilitou a realização de um trabalho bem nielhor no restante do M aniisi/
O E S P E T Á C U L O A N S I O S O
As condições devida da classe trabalhadora eram piores nos arrondisse-ments externos do norte e do leste do que em qualquer outro lugar da cidade, mas nos subúrbios a situação era ainda mais crítica,'Por exemplo, em Saint-Denis, cerca de 58% dos bimUeiisards viviam em moradias insalubres, e esse número subia para 62% em Saint-Ouen e 65% em Aubervilliers. Nove entre dez casas de Paris tinham água encanada; em muitos setores da banlieue essa situação mudava para entre um quirjlo e um terço, Uma em cada quatro casas parisienses tinha banheiro privativo'“ além das fortificações esse número caía pela metade. Hm adição a isso, além do cinturão industrial adjacente à linha das fortificações, desenvolvia-se uma segunda "coroa” externa de subúrbios, onde a situação era ainda pior. Por exemplo, na virada do século XX, Bobigny, a leste da cidade, não tinha hospital nem instalações de saúde, não tinha delegada nem água corrente, não tinha sistema de esgotos nem fornecimento de eletri cidade. O gás era suficiente apenas para suprir urna deploravelmente precária iluminação das vias públicas.
O atendimento em transporte e em comunicações na periferia também era desconsiderado. Peia primeira vez na história de Paris, a maioria da população trabalhava num bairro diferente do que residia - e esse fenômeno era particu-lannentc evidente na periferia. Certos subúrbios,em especial aqueles da “coroa” externa, como Bobigny, consistiam de fato em cidades-dormitório para pessoas que trabalhavam em Paris. O número de passageiros partindo da haníkue a Pa ris em 1869 era de três milhões; em 1900 chegou a quarenta milhões; e em 1913 elevou-se para 120 milhões. Em meados do século XIX, os banlieusurds estive ram à mercê de companhias de transporte público com carruagens, que em ge ral consideravam pouco lucrativos os percursos rumo às áreas de trabalhadores pobres, e de companhias ferroviárias cujo loco eram viagens de longo percurso. As companhias de bonde foram mais responsivas: por volta dos anos 1880, havia linhas até Saint-Denís, Genncvilliers, Suresncs e Pantin, ao norte, e Charenton, Ivry e Clamart, ao sul. Porém, a viagem diária ao trabalho era dificultada, pois nenhum esforço era feito para levar o novo metrô até a periferia. Na verdade, apesar do espalhafato em torno da abertura do metrô em 1900 e dc seu sucesso incontestável, ele não era tão integrado ao transporte existente cm Paris como seria desejável, tomando o transporte a distâncias maiores uma verdadeira pro vação. As linhas do metrô não se conectavam com as do serviço ferroviário na cional. Os trens até mesmo corriam em direções opostas e, de modo deliberado, os túneis do metrô foram construídos muito pequenos para comportar os trens normais. Além disso, o impressionante aumento no número de usuários do me trô logo deixou uma coisa desapontadoramente dara: o novo serviço falhara em retirar o trânsito das ruas. Parecia apenas ter estimulado maior mobilidade en Ire os parisienses, criando problemas adicionais de transporte.
Pa r i s - b i o g r a f i a lieu m ac i d a d e
A haussmannização fora um tanto desastrosa ao incrementar a mobi lidade viária. Apesar do compromisso do barão com a estética da rapidez e da mobilidade, defeitos conceituais resultaram numa colheita amarga a seus sucessores. A ligação entre os terminais ferroviários era precária; as conexões com a periferia, mais precárias ainda; os bulevares retos despejavam o tráfego velozmente em cruzamentos causando enormes engarrafamentos. O metrô atraiu realmente os passageiros dos bateaux-mouches, resultando no declí nio do transporte fluvial de passageiros - o que, por sua vez, obrigou muitos usuários dos barcos a procurar meios alternativos de transporte. (O serviço de bateaux-mouches passou a uma curadoria antes de ser ressuscitado em 1937 na forma de uma bem-sucedida operação turística.}Í9e acordo com estimati vas, havia 23 mil veículos nas ruas de Paris em 1819, 45 mil em 1891 e 430 mil cm 1910, Mas se os carros representavam a novidade do fin de siède, o meio mais característico de transporte era a carruagem puxada por cavalos, e o odor público mais característico do fin de sièdeera o de esterco eqiiino. Pm 1900, só as empresas de transportes tinham cerca de dezesseis mil cavalos, muitos deles em péssimo estado, expostos a quedas nas ruas escorregadias devido à chuva. Mas a era do cavalo estava com os dias contados: os veículos de transporte público tracionados por cavalos saíram dc circulação em 1913. No começo da guerra, bondes movidos a vapor e (a partir de 1900 ) a eletricidade eram o meio de transporte mais comum, assim como ônibus e automóveis, introduzidos em 1907.^fentativas foram feitas para impor certa ordem nessa coleção anárquica. Haussmann impusera o tráfego pela direita nos bulevares e, antes da Primeira Guerra Mundial, Louis 1 épine, seu sucessor no cargo de chefe do departamento, estabeleceu a preferência de quem vem pela direita. Em 1910, introduziu-se a primeira rua de mão única. Semáforos surgiriam apenas em 1923.
A era dourada do cavalo seguiu-se a. era dourada da bicicleta. Por volta de um quarto de milhão delas cruzavam-se pelas ruas parisienses no começo da guerra. Saudadas como promotoras da liberdade pessoal, as bicicletas ainda eram relativamente caras. Só mesmo a pobreza e as hemorroidas eram capazes de inibir o seu uso, como um sábio observou." Mas as principais fortalezas da classe trabalhadora, com o Ménilmontant e Belleville, tinham topografia acidentada, o que somado ao preço alto tornava a bicicleta mais uma conve niência burguesa do que uma liberdade proletária.
Devido às injustiças sofridas por eles, inclusive o acesso precário a trans porte decente, os trabalhadores na periferia eram mais e mais atraídos pelos movimentos políticos de esquerda, em especial o socialismo, o unionismo mi litante e o sindicalismo revolucionário. Os partidos de esquerda atuaram para isso. Panfletos socialistas em Bobigny em 1910 alegavam que os trabalhadores haviam sido expulsos de Paris pelos aluguéis altos apenas para encontrarem
O ESPETÁCULO ANSIOSO
“transporte absurdamente precário, ruas esburacadas, iluminação insuficien te, montes de lixo, falta de água potável e inexistência de escolas [adequadas J” 1! - o que não era tanto exagero assim. A burguesia de Paris, por sua vez, logo estaria expressando inquietude pelo fato de a cidade estar progressivamente sendo circundada por uma ceinture rouge— uma “cinta” ou “cinturão verme lho" de locais carentes que abrigavam anarquistas e criminosos.;jornais sen sacionalistas aproveitavam-se desse medo, fabricando pânico moral sempre que possível. Motivo constante de/pavor eram os chamados apaches (violen tos criminosos juvenis) de Belleville, de Montmartre e da periferia industrial. “Eles desrespeitam a lei sem pestanejar”, observou chocado Le Petit Parisien.Li Em 1911, a gangue de Bonnot deu outro motivo de alarme: começou a assaltar bancos usando armas automáticas e carro de fuga. Até mesmo os criminosos da cidade pareciam arrebatados pela modernidade de Paris.
A periferia não era o lugar em que visitantes e turistas queriam pensar. Diários de viajantes numa época em que Paris era destino turístico impor tante mostram os visitantes passando o tempo nos monumentos da cidade C nos bares e ambientes de vida regalada. Quando se aventuravam além das fortificações da cidade, era para ir a Versalhes ou Fontainebleau, não para ir aos subúrbios industriais. Em vez disso, os turistas — e mesmo a maioria dos parisienses abastados - centravam seus interesses na Paris apresentada pelos pintores impressionistas. Desde 1860, com o vimos14, esses artistas vinham ofe recendo não apenas uma nova filosofia artística, mas também um novo co n teúdo, a pintura da vida moderna. Porém, a vida moderna seria encontrada de modo invariável em locais onde a burguesia parisiense sentia-se feliz e não-am eaçad a- na verdade, no mundo do consumo, e não no meio caracterizado pela produção industrial.
Por volta dos anos 1890, é verdade, novas abordagens emergiam das bandas impressionistas. Alguns dos fundadores do movimento estavam se vi rando contra a Cidade Luz. As ruas agitadas de tráfego interminável e a exces siva rigidez da maior parte da paisagem urbana lhes causavam repulsa. Nos anos 1860, Reunir contentava-se em camuflar as características haussmannia-nas com ramos de árvores estrategicamente situados, mas agora ele censurava com raiva os edifícios parisienses, “frios e enfileirados com o soldados numa revista de tropa”. Ele deplorava a presença de “todas as máquinas modernas", enquanto Degas condenava “aquelas sujas carruagens sem cavalos”.15 Pissarro cunhou a expressão “digno da época da Torre Eilfel" para descrever o mau gosto inefável.16 Certos pintores pós-impressionistas - que, inspirados nos im pressionistas, procuravam ampliar a abordagem experimenta] no retrato da luz - pensavam parecido. Gauguin, por exemplo, preferia as paisagens singelas