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Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 número2

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Academic year: 2018

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Rev Assoc Med Bras 2003; 49(2): 117-36 133

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iscussão de caso

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O caso em apresentação refere-se a paciente do sexo feminino de 41 anos, viúva, previamente hígida, que após cinco dias da ingestão de carne crua (quibe cru) (19/02/2003) apresentou febre (39,0oC) diária, cefaléia holocraniana e mialgia. Na investigação retrospectiva, identifica-ram-se três pessoas do seu convívio com a mesma ingestão de carne crua, que de-senvolveram febre mialgia, e cefaléia, sen-do uma criança após três dias da ingestão, que foi tratada com a hipótese diagnóstica de sinusite e dois outros adultos após cin-co dias, cin-com sintomas atribuídos a resfria-do comum, toresfria-dos com boa evolução. A paciente em questão, após terapia com medicamentos sintomáticos, evoluiu com febre persistente tendo procurado a uni-dade de primeiro atendimento no Hospi-tal Israelita Albert Einstein, sendo interna-da na vigência de desconforto respiratório em 01/03/2003, nove dias após a ingestão de carne crua. Progrediu nesta mesma data para insuficiência respiratória aguda, sendo transferida para a Unidade de Tera-pia Intensiva, onde permaneceu com ne-cessidade de suporte ventilatório não invasivo. Foram realizados exames labo-ratoriais e radiológicos. O raio X de tórax revelava um padrão de infiltrado de apa-rente predomínio intersticial difuso e sig-nificativo. Iniciou terapia antimicrobiana empírica com sulfametoxazol-trimetro-prim endovenoso e claritorimicina oral. Foram realizadas sorologias para toxo-plasmose onde se observou IgM reagente 1/32 e IgG não reagente. Demais soro-logias (Chlamydia, Legionella, Myco-plasma e Citomegalovirus) foram negati-vas. Oito dias depois, desaparecimento do comprometimento intersticial difuso dos pulmões e do derrame pleural bilateral, indicando resolução completa do quadro pulmonar (Figura 2). A paciente evoluiu

Figura 1 – Corte tomográfico do tórax, realizado no segundo dia de internação hospitalar

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Rev Assoc Med Bras 2003; 49(2): 117-36

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RUY GUILHERME RODRIGUES CAL

ALEXANDRE RODRIGUES MARRA

DAVID SALOMÃO LEWI

SÉRGIO BARSANTI WEY

TRABALHOREALIZADO NO CENTRODE TERAPIA INTENSIVA DO HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN EM SÃO PAULO – SP

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iscussão de caso

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bem, recebendo alta hospitalar 11 dias após a internação.

Com grande distribuição em todo o planeta e incidência significativa, a toxo-plamose é uma doença comum a mamífe-ros e pássamamífe-ros causada por protozoário Toxoplasma gondii. No homem, o parasi-tismo na fase proliferativa intracelular pode se apresentar sem sintomas, ou cau-sar doença transitória caracterizada por febre, fadiga e linfadenopatia. As manifes-tações importantes são relacionadas ao acometimento principalmente no cére-bro, olhos, músculos, coração, fígado e pulmões. Com o desenvolvimento da imunidade, a proliferação decresce e pode haver a formação cistos (fase cística) com parasitas persistindo viáveis durante mui-tos anos. Os casos mais graves estão rela-cionados à infecção acometendo fetos e recém-natos na forma congênita com grande lesão ao sistema nervos central e nos pacientes com imunidade diminuída (patologia intercorrente ou transplantes). A eliminação de oocistos pelas fezes de

pequenos mamíferos, principalmente fe-linos, com infecção no trato gastroin-testinal, assim como a presença de orga-nismos viáveis encistados na musculatura e cérebro de animais consumidos na ali-mentação, são as principais fontes de con-taminação. Os dados epidemiológicos de convívio com gatos e hábito de ingerir carnes mal passadas ou cruas são impor-tantes no diagnóstico que deve ser mais preciso e rápido em mulheres grávidas. A forma pulmonar da toxoplamose tem sido relatada com mais freqüência na literatura relacionada a portadores de imunidade di-minuída, como nos pacientes submetidos a transplantes, portadores de neoplasia submetidos a quimioterapia e em porta-dores da síndrome de imunodeficiência adquirida. Nestes pacientes já existe a atenção na investigação desta patologia em casos de quadros pulmonares com diagnóstico a esclarecer.

Fazem parte do diagnóstico diferencial as infecções bacterianas e virais como a pneumonia por Pneumocystis carinii e a

infecção pelo citomegalovirus, que po-dem ocorrer associadas.

A evolução nestes pacientes imunodepri-midos geralmente é complicada, podendo ser fatal e são descritas encefalites, pneumonias, miocardites e paniculites em casos de formas disseminadas. O tratamento de escolha é a pirimetamina via oral 75mg primeiro dia e 25mg dia por um mês (crianças 1 a 2 mg/kg por 3 dias e 0,5mg/kg/dia a seguir) A sulfadia-zina usada por via oral 4g dia dividida 4x por um mês (crianças 100mg/kg/dia dividida 2x dia - na toxoplamose congênita por um ano). O sulfametoxazol-trimetropim apresenta-se como opção com possibilidade de uso parenteral.

A pirimetamina tem como efeito colateral importante inibição da síntese de folato com potencial mielotoxicidade: anemia megalo-blástica, leucopenia, plaquetopenia. O uso concomitante de ácido fólico 5mg/dia reduz esses efeitos.

Imagem

Figura 1 – Corte tomográfico do tórax, realizado no segundo dia de internação hospitalar

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