EFETIVIDADE DO USO DO PPRA E MAPA DE RISCO PARA GESTÃO DE SEGURANÇA EM INDÚSTRIA DE ALIMENTOS.
Taiana França [email protected] Marco Ferreira [email protected]
A segurança do trabalho e cuidados com acidentes de trabalho, além de representar uma responsabilidade social e legal das empresas, torna-se um investimento para evitar custos com processos e reclamatórias trabalhistas. Sendo assim, o estudo tem por objetivo descrever a utilização e evidenciar a aplicabilidade do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), bem como mapas de risco na indústria de alimentos, identificando a efetividade da avaliação e controle dos riscos do ambiente de trabalho através destes dois documentos de gestão, em empresa do setor do agronegócio. Através da avaliação de dois diferentes modelos para o mapa de risco, com e sem rota de fuga, a fim de identificar o modelo mais adequado considerando as formas de comunicação interna da empresa e melhorias na gestão visual nos documentos. Para o estudo foram utilizados questionários e observação de diferentes documentos internos da empresa. O resultado deste estudo aponta que a inserção de elementos visuais aumenta a efetividade na compreensão dos riscos pelos usuários nos diferentes setores da indústria.
Palavras-chave: Comunicação interna, PPRA, Mapas de risco, Gestão da segurança do trabalho, indústria de alimentos
XXXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO “A Engenharia de Produção e suas contribuições para o desenvolvimento do Brasil”
Maceió, Alagoas, Brasil, 16 a 19 de outubro de 2018.
1. Introdução
A indústria de alimentos ou indústria alimentar ou indústria alimentícia é o conjunto de atividades industriais no qual se manipulam e preparam diversos produtos, em grandes quantidades para serem comercializadas, que se transformam em alimentos prontos para consumo ou ingredientes para a preparação de outros alimentos. Sendo assim, essa indústria é de grande importância na economia e é responsável por quase 15% do faturamento do setor industrial e emprega mais de 1 milhão de pessoas (GOUVEIA, 2006, p. 32).
Segundo dados do Ministério da previdência social em 2015 foram notificados através de CAT (Comunicado de Acidente do trabalho) 612.632 acidentes no Brasil, sendo que no estado do Paraná foram 47.337 neste mesmo ano. Os acidentes com óbito no Brasil chegam a 2841 vítimas. Neste contexto a gestão em segurança do trabalho torna- se prioritária para o setor produtivo brasileiro, na busca da diminuição de acidentes.
Sendo assim, a segurança do trabalho e cuidados com acidentes de trabalho além de representar uma responsabilidade social das empresas, torna-se um investimento para evitar custos com processos e reclamatórias trabalhistas.
Segundo Miranda (2004) todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PPRA, este documento foca na prevenção e o controle da exposição ocupacional aos riscos ambientais. A NR-9 estabelece a obrigatoriedade da existência de um cronograma que indique claramente os prazos para o cumprimento das metas estabelecidas.
O autor relata ainda que um aspecto importante deste programa é que o documento pode ser elaborado dentro dos conceitos mais modernos de gerenciamento e gestão, em que o empregador tem autonomia para adotar um conjunto de medidas e ações que considere necessárias para garantir a saúde e a integridade física dos seus trabalhadores. Além disso, cabe à própria empresa estabelecer as estratégias e as metodologias que serão utilizadas para o desenvolvimento das ações, bem como a forma de registro, manutenção e formas de comunicação dos dados gerados no desenvolvimento do programa.
Como a NR-05 apresenta o item de divulgação dos resultados obtidos anualmente no PPRA, buscou-se testar o fluxo de comunicação e a efetividade do reconhecimento dos riscos pelo trabalhador referente aos diferentes setores da indústria é o objetivo do trabalho. Bem como observar a implementação das ações propostas no documento e qualidade do mapa de risco implementado, através da análise dos documentos de
segurança disponíveis na empresa, tais como PPRA, mapas de risco, atas de reuniões da CIPA, atas do comitê de segurança, auditorias internas e demais documentos.
O presente trabalho tem por objetivo estudar e descrever a utilização de dois documentos de segurança importantes para gestão e evidenciar a aplicabilidade do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais(PPRA) e o mapa de risco na indústria de alimentos.
2. Relevância dos fluxos de comunicação para os sistemas de gestão em segurança
Os resultados desses estudos, sobre acidentes de trabalho, revelam que as empresas com menos acidentes apresentam uma maturidade da cultura de segurança mais avançada. Estas culturas são caracterizadas por fatores como, por exemplo, o comprometimento da direção da empresa, o envolvimento dos empregados e a existência de uma boa comunicação sobre segurança (SILVA; LIMA, 2004).
Para Westrum (1993, 2004), um dos fatores mais importante para a segurança é a informação, pois a falha no fluxo de informação está presente em muitos grandes acidentes. Ele observou que a informação flui bem em algumas organizações, mas, em outras, se acumula e emperra, por razões políticas ou por barreiras burocráticas, e que a qualidade do fluxo de informação não inclui somente o quanto dela flui de A para B, mas a relevância, a oportunidade e a conveniência da informação para o receptor (GONÇALVES FILHO et.al, 2011).
Conforme Oliveira (2010) relata que a comunicação de todo e qualquer sistema novo em um ambiente empresarial ou elemento essencial para o seu sucesso, pode ser realizada por meio de treinamentos internos e externos onde as pessoas tenham a oportunidade de se familiarizarem com o sistema e os documentos utilizados, bem como entender as suas responsabilidades individuais e os benefícios derivados deste projeto.
Segundo Vargas (2008, p.23 apud Olmos, 2008) afirma que:
"um dos principais erros que estão comprometidos hoje em relação a comunicação interna é esquecer o fator humano, aspecto que muitas vezes leva ao planejamento e executar dentro dos planos das organizações planos informativos e não comunicativos; isto é, a organização está limitada a informar (colocar em relação a pessoas com eventos) não se comunicar (colocar em relação a pessoas entre si, num processo que implica influência mútua entre os envolvidos) ".
A comunicação é a forma, a conveniência e a oportunidade que é feita à comunicação sobre os temas relativos à segurança do trabalho, e se há um canal aberto de comunicação entre os empregados e superiores hierárquicos. Inclui também se comunicação chega aos empregados, se é compreendida por eles e se a organização monitora a efetividade da comunicação (GONÇALVES FILHO et.al, 2011).
Segundo Tiburcio (2018), informar significa transmitir o tema sem entender se o receptor assimilou e entendeu corretamente, por outro lado comunicar é o processo de troca mútua de informações baseado no diálogo entre as pessoas, possibilitando a verificação da compreensão do assunto que emite resposta. Com objetivo de atingir de forma ampla, o publico interno, colaboradores e parceiros, a comunicação necessita de monitorado, além de agregar a comunicação interna como um valor estratégico e estar presente no contexto dos negócios praticados. Fatores como a definição do tema e resultado que se deseja obter definem a diferença entre comunicar e informar (TIBURCIO, 2018).
Conforme relatado por Tiburcio (2018), as mensagens variam de acordo com o publico que recebe a informação, o qual em muitas empresas há diferentes níveis de escolaridade em diferentes setores e posições, desde o chão de fabrica ate a alta diretoria. O veículo, os caminhos e canais a serem utilizados para comunicar poderão ser diferentes, mas deverá garantir que a linguagem respeite tais diferenças.
Com uma comunicação efetiva, os sistemas de gestão de segurança tornam-se fator definitivo na competitividade da empresa. Segundo Oliveira (2010, p.482 apud Trivelato 2002), o desempenho efetivo dos sistemas de gestão de segurança pode ser utilizado como benefício empresarial para minimizar os problemas social e econômico dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho aumenta a competitividade das empresas (TRIVELATO, 2002).
Ainda conforme Oliveira (2010), o efetivo sistema de gestão, quando usa o alinhamento das necessidades dos colaboradores com a política e diretrizes de segurança, aumenta a confiança para os clientes internos e externos e diminui da susceptibilidade da empresa em relação aos passivos trabalhistas e de fiscalização.
Os sistemas de gestão de saúde ocupacional e segurança nas empresas necessitam de medidas de melhoria visando minimizar os impactos e ameaças de fatores adversos ligados as força de trabalho da empresa. Como resultado das melhorias no sistema de gestão atribui a conformidade das necessidades e demandas do funcionário, alem de conquistar o reconhecimento por parte de clientes e público externo (GORNY, 2015).
3. Metodologia
A pesquisa descritiva, foi realizada em empresa com mais de cem empregados, sendo do segmento de alimentos e processa de soja no estado do Paraná. O grau de risco das empresas de acordo com o código de atividade 10.69-4-00 - Moagem e fabricação de produtos de origem vegetais não especificados anteriormente a empresa pertence ao grupo C-02 do Quadro I da NR-5 do Ministério do Trabalho e Emprego.
Foram avaliados documentos nos requisitos de elaboração e gestão visual para testara efetividade de divulgação por parte da CIPA em relação ao PPRA e avaliar a melhoria proposta nos mapas de risco com rotas de fuga, devido ao grau de periculosidade presentes neste segmento. A coleta de dados foi realizada através de dados primários e secundários.
Os dados primários foram coletados pelos próprios autores no período de 2017, a forma de análise foi através do questionário (checklist) especificamente elaborado para este tipo de avaliação com perguntas relacionadas ao PPRA e uma interpretação de duas figuras de mapa de risco (com ou sem rota de fuga). As entrevistas semiestruturadas com os técnicos de segurança, gerentes de produção e alguns funcionários-chave do chão-de-fábrica.
Os dados secundários foram estabelecidos através da identificação das inconsistências do PPRA, termo utilizado para expressar a qualidade ou estado de falta de consistência, de fundamento ou de coerência entre os dados e informações contidas nos documentos fornecidos pela empresa do ramo do agronegócio, bem como as sinalizações e informativos verificados fisicamente no local de trabalho pelos documentos. A forma de análise foram visitas a unidade fabril estudada foram realizadas no ano de 2017, e análise de documentoscomo atas de reuniões, cronogramas, auditorias nas áreas realizadas pelas equipes da CIPA.Foram analisados os documentos (PPRA) desde 2009 até 2017, comparando-se suas atualizações ao longo dos anos e mudanças de modelo e lay out para o mesmo fornecedor. Para análise dos mapas de risco foi procedido da mesma forma.
4. Apresentação dos dados
Os documentos analisados apresentaram oportunidade de melhoria. O PPRA apresentou pequena evolução em gestão visual com a inserção de cores para evidenciar o risco, mas o mapa de risco apresenta modelo padrão sem chamar atenção para rotas de fuga e saídas de emergência do setor. Entre os documentos de gestão da CIPA foram evidenciadas a divulgação do PPRA e realização de revisão anual, porém não foi
confirmada a efetividade na divulgação, através da entrevista e questionários aplicados.
4.1. Resultados obtidos através do levantamento dos PPRA’s
A indústria que processa soja apresenta diferentes setores produtivos que devem ser analisados isoladamente para compor o mapa de risco geral da fábrica. Os agentes de risco físicos, químicos e biológicos devem chegar de forma objetiva os colaboradores.
Neste segmento a baixa escolaridade pode significar um impasse para aplicação de um modelo de mapa de risco com rotas de fuga. A implementação deste tipo de gestão visual deve considerar a cultura organizacional da empresa, características regionais e aceitação deste modelo pelo empregador e pela CIPA.
O método utilizado para elaboração do PPRA fornecido pelo engenheiro responsável apresenta referência visual com as cores dos tipos de risco o que auxilia na leitura e interpretação do documento.
Comparando documentos no período citado, observa-se que ocorreu evolução pequena em lay out, conforme observado na figura 1, porém destaca-se a mudança do PPRA que destaca os riscos utilizando as cores indicativas de cada tipo de risco (químico, físico, biológico e de acidente).
Figura 1 –Modelo de tabela do PPRA - 2017, este que auxilia na confecção dos Mapas de risco.
Fonte: Dados internos da empresa.
Para a melhoria contínua dos modelos de gestão de segurança, tornam-se necessários critérios que conectem os documentos importantes da empresa, ou seja, criar os mapas de risco baseados no PPRA e validados por colaboradores da CIPA que apresentam conhecimento na área fabril torna a divulgação de ambos materiais mais efetivos acerca da sua divulgação e maior utilidade para aplicação nas áreas da indústria.
A presença da gestão visual através de cores torna o documento mais atrativo e útil para a revisão anual dos mapas de risco de setores, os colaboradores em sua maioria 90% dos envolvidos no estudo sabiam o significado do documento, bem como a periodicidade de revisão foi informada com o mesmo índice.
4.2 Resultados obtidos através da análise dos documentos da CIPA-Mapa de risco Os empregados terão participação efetiva neste programa, através dos seus representantes da CIPA que estiverem em gestão, dando sugestões e informando a administração sobre condições que julgarem de risco. O documento base, suas alterações e complementações deverão ser apresentados e discutidos na CIPA de acordo com a NR-5 do MTE, sendo uma cópia anexada ao livro de ata dessa comissão.
O modelo proposto e avaliado por 30% dos colaboradores do local inclui rotas de fuga para otimizar e popularizar o uso do documento nos diferentes setores. Além de elementos gráficos que chamam atenção para o número e posição das saídas de emergência.
A seguir as imagens referentes aos mapas de risco utilizados em esmagadora de soja para orientar os funcionários sobre os riscos de cada setor (figura 2). Além dos riscos apresentados no mapa pode ser observada as rotas de fuga de cada setor, simbolizadas pelas placas de saída e setas indicativas do caminho de rota de fuga. Conforme a norma NR-05, podemos notar que cada símbolo apresenta um tamanho e cores distintas conforme a legenda que é auto-explicativa e tem por função alertar os riscos presentes no ambiente de trabalho.
Figura 2 –Modelo de mapa de risco elaborado no ano de 2017.
Fonte: Dados internos da empresa.
Durante a pesquisa destaca-se que é baixa a percepção relativa ao número de saídas de emergência, pois foi reconhecido apenas por 23% dos participantes do estudo, o que evidencia a dificuldade de interpretação de elementos gráficos simples no mapa de risco. A partir da análise dos documentos e dados, nota-se que ao longo dos anos as ferramentas convencionais para divulgação de riscos tornam-se obsoleta e não efetiva.
Criar ferramentas e vias de comunicação simplificadas é o desafio das organizações.
5. Considerações finais
O objetivo da pesquisa estudar e descrever a utilização de dois documentos de segurança importantes para gestão e evidenciar a aplicabilidade do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais(PPRA) e o mapa de risco na indústria de alimentos foi alcançado e demonstrou que atribuindo elementos visuais o nível de percepção de risco nos setores e a efetiva compreensão dos riscos pelos usuários nos diferentes setores da indústria ocorre de forma facilitada, bem como as melhorias realizadas no último ano facilitam a interpretação por parte dos colaboradores apenas agregado cores aos layouts.
Foi descrito que a empresa promoveu a melhoria na comunicação do PPRA e iniciou novas discussões de formas de comunicação interna para gestão de segurança, além de inserir nas áreaso novo modelo de mapa de risco com rota de fuga. Acontribuição do estudo,para os profissionais da área que elaboram o PPRA e os membros da empresa
que elaboram os mapas de risco,foi a divulgação dos resultados da pesquisa aos profissionais para fazer uso da gestão visual e inovar o modelo na elaboração e divulgação dos documentos.A gestão visual torna os documentos relacionados a segurança mais efetivos no cotidiano do trabalhador, auxiliando a empresa a proporcionar um ambiente seguro e a consciência dos riscos a que o trabalhador está exposto em suas atividades cotidianas.
Entre as dificuldades observa-se que o tema é pouco estudado pelos profissionais da área de segurança, o que acarreta dificuldades para referencial teórico. Nota-se que a aplicabilidade do PPRA foi devidamente evidenciada informado aos setores através das reuniões da CIPA, porém a comunicação dos aspectos levantados não foi efetiva para o público interno. Outra dificuldade de abrangência da pesquisa foi atribuída a falta de retorno ao baixo percentual de participação dos colaboradores nas pesquisas de campo.
A contribuição para trabalhos futuros poderá abranger as formas de comunicação e o desenvolvimento de modelos que simplifiquem os documentos, reforçando a cultura de segurança do trabalho nas empresas e promovendo a discussão no que se referem aos pontos tratados. O desenvolvimento de novos estudos em fábricas de alimentos e empresas de diferentes ramos proporcionará o desenvolvimento de melhorias nos sistemas de gestão de segurança.
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