• Nenhum resultado encontrado

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE DIREITO

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2022

Share "UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE DIREITO"

Copied!
59
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE DIREITO

VIOLAÇÃO A DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DA CONSTITUIÇÃO DE 1937: UM ESTUDO A PARTIR DO CASO OLGA BENÁRIO NO STF

JOÃO RODOLPHO CABRAL DE SOUZA

NITERÓI 2017

(2)

VIOLAÇÃO A DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DA CONSTITUIÇÃO DE 1937: UM ESTUDO A PARTIR DO CASO OLGA BENÁRIO NO STF

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Dr. Enzo Bello

NITERÓI 2017

(3)

JOÃO RODOLPHO CABRAL DE SOUZA

VIOLAÇÃO A DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DA CONSTITUIÇÃO DE 1937: UM ESTUDO A PARTIR DO CASO OLGA BENÁRIO NO STF

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito

Aprovada em julho de 2017.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Enzo Bello – Orientador

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF)

Prof. Dr. Gustavo Silveira Siqueira

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ)

Profa. Dra. Gizlene Neder

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF)

Mestrando Jan Carlos da Silva

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF)

(4)

Universidade Federal Fluminense Superintendência de Documentação

Biblioteca da Faculdade de Direto

S729 Souza, João Rodolpho Cabral de.

Violação a direitos fundamentais no contexto da Constituição de 1937: um estudo a partir do caso Olga Benário no STF / João Rodolpho Cabral de Souza. – Niterói, 2017.

58 f.

Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito) Universidade Federal Fluminense, 2017.

1. História do direito. 2. Direitos e garantias individuais. 3.

Constituição. 4. Teoria do direito. 5. Habeas corpus. I. Universidade Federal Fluminense. Faculdade de Direito, Instituição responsável. II.

Título.

CDD 341.2

(5)

Dedico este trabalho aos meus pais, às minhas filhas e à memória dos meus avós.

(6)

Ao Professor Doutor Henrique César Monteiro Barahona Ramos, orientador do projeto deste trabalho, importantíssimo para a chegada ao tema que veio ser a abordado.

Ao Professor Doutor Enzo Bello, orientador a partir do projeto, pelo interesse franco em colaborar com o meu desenvolvimento enquanto estudante e por aceitar o desafio que foi a realização deste trabalho, a despeito de todos os meus limites e dificuldades.

A Lucília Antunes Solano, Antônio Silva Filho, Adilson Rosa de Anaide e Virgília Augusta da Costa Nunes, advogados com os quais tive o privilégio de trabalhar enquanto estagiário e servidor público, sempre generosos em compartilhar o conhecimento decorrente da experiência profissional e entusiasmados com a minha árdua evolução demonstrada nesta seara que é a do Direito.

A Ana Cristina Neves de Freitas, a Duda, que demonstrou a mim, mesmo tão afeito à conduta mais reclusa e reservada, que a verdadeira amizade pode ser, sim, decisiva.

A Washington José de Souza, in memoriam, avô paterno e Waldemar Manoel Silva de Souza, tio, irmão de meu pai, filiados ao PC do B, por servirem a mim como exemplo ao dedicarem a vida a uma causa que tem como objetivo a satisfação de uma realidade menos desigual social e politicamente.

A Débora Maria Cabral Santana, tia, irmã de minha mãe, pelo genuíno interesse demonstrado pelo meu bem-estar, desde muito tempo, sempre de forma afetuosa e espontânea.

A Júlia Alves Lyra Teixeira, minha companheira, a quem a vida destinou a conviver com o que há de bom e ruim em mim, por apostar nesta tentativa, sem nenhuma garantia de retorno, que é a vida a dois, sempre a me apoiar de forma ininterrupta, incessante e sublime.

Ao Professor Doutor Auto Lyra Teixeira, meu sogro, por sempre se mostrar respeitoso e interessado quanto à minha opinião sobre diversos assuntos, principalmente, os que envolvessem o Direito, apesar de sua colossal erudição.

A Lara e Stella, minhas filhas e Júlia, minha sobrinha, por representarem a exata medida de minha responsabilidade, bem como a esperança em um futuro mais belo e agradável.

(7)

Daisy Maria Cabral de Souza por incutirem em mim a noção de que o caminho à uma vida honrada, digna e com alguma utilidade para o bem comum, sem dúvidas, passa pela educação formal.

(8)

“Daí o preceito do Direito: sê uma pessoa e respeita os outros como pessoas.”

(Hegel)

(9)

Conforme se observa o cenário político nacional na década de 1930, é possível perceber alguma semelhança com fatos do momento presente. A pouco mais de um ano para o pleito que decidirá quem será o próximo Presidente da República, Jair Bolsonaro, deputado federal pelo PSC (Partido Social Cristão) do Rio de Janeiro, de retórica marcada pela intolerância, surge como possível candidato. O presente trabalho tem como objetivo geral, a partir de uma investigação histórica, examinar, através da obra de Carl Schmitt (expoente jurista no III Reich), Francisco Campos (principal autor de Constituição de 1937) e Evguiéni Pachukanis (criador de uma Teoria do Direito baseada em Karl Marx), como a centralização do poder, típica de governos autocráticos, pode ser atravessada por patentes violações a direitos fundamentais. A opção metodológica adotada consiste na crítico-metodológica, baseada em duas teorias de grande valor - no caso, elaboradas por Carl Schmitt e Evguiéni Pachukanis. Para chegar a conclusões pertinentes sobre o tema abordado, opta-se pelo raciocínio indutivo, partindo de uma análise de um caso em particular para tomada de conclusões de alcance geral, através da dialética. O objetivo específico remonta à análise do HC 26.155/1936 e a demonstração de que a despeito das garantias existentes de modo a garantir a mínima dignidade exigida, prevaleceu a mera vontade de um autocrata interessado em demonstrar o seu poder no cenário político em vigência o que acarretou no envio de Olga Benário Prestes à Alemanha nazista. O estudo se justifica pela necessidade de compreender o risco da repetição de um contexto político em que venha a prevalecer a violação a direitos humanos quando o intuito alegado é a moralização do Estado brasileiro.

Palavras-chave: História do Direito; Direitos Fundamentais; Constituição de 1937;

Olga Benário Prestes; HC 26.155/1936.

(10)

Conforme se observa el escenario político nacional en la década de 1930, es posible percibir alguna semejanza con hechos del momento presente. A poco más de un año para los comicios que decidirá quién será el próximo Presidente de la República, Jair Bolsonaro, diputado federal por el PSC (Partido Social Cristiano) de Río de Janeiro, de retórica marcada por la intolerancia, surge como posible candidato. El presente trabajo tiene como objetivo general, a partir de una investigación histórica, examinar, a través de la obra de Carl Schmitt (expoente jurista en el III Reich), Francisco Campos (principal autor de la Constitución de 1937) y Evguiéni Pachukanis (creador de una Teoría del Estado Derecho basado en Karl Marx), como la centralización del poder, típica de gobiernos autocráticos, puede ser atravesada por patentes violaciones a derechos fundamentales. La opción metodológica adoptada consiste en la crítica metodológica, basada en dos teorías de gran valor - en el caso, elaboradas por Carl Schmitt y Evguiéni Pachukanis. Para llegar a conclusiones pertinentes sobre el tema abordado, se opta por el raciocinio inductivo, partiendo de un análisis de un caso en particular para la toma de conclusiones de alcance general, a través de la dialéctica. El objetivo específico se remonta al análisis del HC 26.155 / 1936 y la demostración de que, a pesar de las garantías existentes para garantizar la mínima dignidad exigida, prevaleció la mera voluntad de un autócrata interesado en demostrar su poder en el escenario político en vigencia En el envío de Olga Benario Prestados a la Alemania nazi. El estudio se justifica por la necesidad de comprender el riesgo de la repetición de un contexto político en que venga a prevalecer la violación a derechos humanos en cuando a la intención alegada es la moralización del Estado brasileño.

Palabras clave: Historia del Derecho; Derechos Fundamentales; Constitución de 1937; Olga Benário Prestes; HC 26.155 / 1936.

(11)

INTRODUÇÃO ... 12

Do sujeito pesquisador ao objeto pesquisado ... 12

Apresentação do tema ... 13

Procedimentos metodológicos ... 16

1. O HC N° 26.155: O CASO OLGA BENÁRIO PRESTES ... 19

1.1 O Contexto político da década de 1930 no Brasil... 21

1.2 A caçada aos Prestes ... 26

1.3 Impetração e desconhecimento do pedido do HC 26.155/1936 ... 30

1.4 Conclusões parciais ... 33

2. A CONCENTRAÇÃO DO PODER: O ESTADO DE EXCEÇÃO NA ERA VARGAS ... 35

2.1 O estado de exceção para Carl Schmitt ... 37

2.2 Francisco Campos e o III Reich como modelo ... 39

2.3 O Estado Novo de Getúlio Vargas ... 41

2.4 Conclusões parciais ... 44

3. A COISIFICAÇÃO DO SUJEITO NA TEORIA CRÍTICA DO DIREITO ... 45

3.1 A coisificação do sujeito ... 47

3.2 A impossibilidade de um direito não burguês ... 50

3.3 Conclusões parciais ... 51

4. CONCLUSÃO ... 54

(12)

INTRODUÇÃO

Do sujeito pesquisador ao objeto pesquisado

A constituição de um país surge como instrumento de limitação ao poder do Estado frente ao indivíduo isolado. O Estado, no que diz respeito aos direitos fundamentais, - facilmente dedutíveis como o essencial a uma vida digna -, deve atuar como franco garantidor de sua adequada aplicação.

Entretanto, o documento que se estabelece como lei suprema de um povo, servindo como base a todo um ordenamento jurídico, em vez de garantir o bem comum, a legítima vontade de todo um povo, atua muitas vezes como mecanismo de dominação por parte de determinados setores políticos, violando direitos fundamentais e a democracia.

Atualmente, no Brasil, em decorrência de uma crescente descrença irrestrita e pouco criteriosa na classe política, após a manutenção de graves problemas sociais, políticos e econômicos a despeito do estabelecimento da Nova República - que tem como forte estigma a Constituição Federal de 1988 e seu apelo marcante aos direitos individuais e coletivos – há determinados grupos políticos que adotam abertamente uma retórica totalitarista e militarizada.

Em função disso, este momento histórico resta marcado como de enaltecimento do Regime Militar que entre 1964 e 1985 que torturou e matou inúmeros cidadãos, em franco desrespeito a qualquer garantia fundamental, numa constante e, praticamente ilimitada, violação a direitos humanos, por alguns setores como solução viável à atual crise.

Eu, enquanto brasileiro, baiano e nordestino, e, inevitavelmente, exposto a tal contexto social, sinto-me, particularmente, tocado, pois percebo, mesmo em dias atuais, os danos que pode causar uma ditadura militar a uma sociedade como um todo e até mesmo individualmente. Meu avô paterno, por ser filiado ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), desde sua fundação em 1962 até o ano de sua morte, em 2003 - de câncer no sistema urinário, em decorrência das torturas sofridas durante a Ditadura Militar de 1964 -, foi, de formas diversas, perseguido, fisicamente agredido e ultrajado. Os danos das consequências do abuso do Estado, a mim, mesmo ainda criança, ficaram patentes a partir da percepção do empobrecimento da família de meu pai (o que envolve avó e tios), decorrente das sucessivas prisões e impossibilidade de exercício pleno de uma profissão - no caso dele a de operário da

(13)

construção civil. Os desdobramentos dessa época se fizeram perceber durante muitos anos após a queda do regime, como a adoção de uma postura marcada pela violência contra grupos ligados ou assemelhados à esquerda e o moralismo, consequência de uma rigorosa repressão, iniciada nos anos de chumbo, a qualquer tipo de pensamento crítico, tendo adquirido cada vez mais uma proporção preocupante.

Apresentação do tema

Em dias atuais, pouco mais de um ano antes do pleito que decidirá quem será o Presidente da República, a partir de 2019, Jair Bolsonaro, militar da reserva, deputado federal pelo PSC (Partido Social Cristão) do Rio de Janeiro, surge como possível candidato. O político alcançou notoriedade em 2011, quando em entrevista ao programa de televisão CQC da rede Bandeirantes realizou críticas de cunho racista e homofóbico. Ao ser perguntado pela cantora Preta Gil sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro respondeu: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu".

A presença nas principais mídias por parte do deputado durante as semanas seguintes à exibição do programa, resultou em um aumento de manifestações neonazistas em redes sociais como o Twitter. Segundo Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, organização não governamental, sem fins lucrativos, voltada à defesa e promoção dos Direitos Humanos na internet, a ausência de retaliações a tal manifestação serviu como encorajamento a células neonazistas localizadas no Brasil para exposição de ideias discriminatórias e angariar novos simpatizantes.

Em pesquisa realizada pelo Datafolha nos dias 26 e 27 de abril de 2017, com 2.781 entrevistados em 172 municípios, considerando possíveis cenários para a corrida presidencial de 2018, Jair Bolsonaro aparece como favorito entre os mais escolarizados (22%, ante 18% de Luís Inácio Lula da Silva e 15% de Marina Silva) e entre os mais ricos (26% na faixa de renda mensal familiar de 5 a 10 salários, segmento no qual Luís Inácio Lula da Silva tem 18%, e Marina Silva, 15%; e 27% entre quem tem renda superior a 10 salários, ante 21%

de Luís Inácio Lula da Silva e 11% de Marina Silva). O deputado federal tem mais força entre

(14)

os jovens: na faixa de 16 a 24 anos, fica com 20% das intenções de voto, índice que cai conforme o avanço da faixa etária e fica em 7% entre os mais velhos. A preferência por seu nome também encontra mais respaldo entre os homens (20%) do que entre as mulheres (9%).”.

A crescente onda conservadora pode vir a repetir um triste quadro de violação a direitos fundamentais. Apesar de absurdo, isso é comum ao país que insiste na crença simplória de governo forte como algo adequado em situações de desordem. Ou pior, utiliza-se de uma retórica moralista, com forte apoio dos meios de comunicação, para retirar opositores do caminho a fim de estabelecer uma caminhada, com o mínimo de possível de obstáculos, em direção ao poder.

Conforme se observa o cenário político nacional na década de 1930, guardando as devidas proporções e idiossincrasias decorrentes das circunstâncias próprias de cada momento histórico, é possível observar alguma semelhança com fatos do momento presente. Getúlio Vargas, empossado chefe do Governo Provisório após a Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, marcada por uma forte oligarquia agrária, legitimado pela vitória sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 que exigia uma imediata Assembleia Constituinte e a sua retirada do Palácio do Catete, com a Constituição de 1934, garante assim mais tempo no poder.

Em meio a tais acontecimentos, Luís Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, é anistiado para atuar junto à Aliança Nacional Libertadora (ANL) de caráter anti-imperialista e antifascista, em outras palavras, contra Getúlio Vargas e a Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado. A repercussão da organização serviu como mote para a aplicação da Lei de Segurança Nacional, de autoria de Vicente Rao e Raul Fernandes, “uma verdadeira ‘caça às bruxas tupiniquim’” que terminou por se desdobrar na prisão de Prestes e Olga Benário a 05 de março de 1936. Em 11 de março do mesmo ano, a Lei nº 244 estabelece o Tribunal de Segurança Nacional com objetivo de julgar os envolvidos nos movimentos de viés comunista dos meses anteriores.

A violência que caracteriza a repressão aplicada às medidas de oposição ao governo, atrelada à censura pertinente ao DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), é uma das faces do Estado Autocrático que se firmará com a inauguração do Estado Novo a partir da Constituição de 1937 elaborada por Francisco Campos que, diga-se de passagem,

(15)

também foi o responsável pelo AI-1 (Ato Institucional nº 1) de 1964, no bojo de uma outra ditadura militarizada.

Exemplo da violação a direitos fundamentais, decorrente da aplicação de Lei de Segurança Nacional, num contexto pouco anterior à Constituição de 1937 que legitima o Estado Novo de Vargas é o julgamento do HC Nº 26.155/1936, que tem como paciente Maria Prestes (Olga Benário Prestes), presa e na iminência de ser expulsa do território nacional, apesar de grávida e sua extradição significar o seu envio à Alemanha Nazista, a despeito de sua condição de judia e comunista. À época, nesse país, prevalecia a teoria do jurista Carl Schmitt sobre a forma da Constituição concentrada numa unidade política, leia-se o Presidente do Reich.

A companheira de Prestes que evitou o seu assassinato, interpondo-se entre ele e os policiais varguistas, enviada pelo Governo de Getúlio Vargas ao Reich alemão em plena vigência do governo de Adolf Hitler, grávida de sete meses, demonstra, perfeitamente, a que ponto é possível chegar um grupo político calcado numa retórica moralizante em contexto de crise política e econômica - como a do capitalismo dos anos 30 de século XX.

O presente trabalho tem como escopo a demonstração de como a centralização do poder, típica de governos autocráticos, pode ser atravessada por patentes violações a direitos fundamentais, no sentido de destruição de uma oposição política, legitimada pelo texto constitucional que via de regra tem como função primordial a limitação do Estado, conferindo garantias individuais e coletivas.

Ao contrário do que deveria ocorrer, o direito, de forma mais patente nesses casos, termina por ser:

um processo real em que as relações humanas tornam-se jurídicas, que caminha par a par com o desenvolvimento da economia mercantil-monetária (e capitalista, na história europeia) e que acarreta profundas e múltiplas transformações de caráter objetivo. Aqui se coloca: o surgimento e a consolidação da propriedade privada, sua universalização nas relações tanto dos sujeitos quanto de todos os objetos possíveis (...) e, finalmente, dos poderes capitalistas distintos como forças especiais, ao lado do que aparece o dinheiro como poder puramente econômico e resulta mais ou menos nitidamente a separação entre as esferas das relações públicas e privadas, o direito público e o privado. (PACHUKANIS, 2017, p. 62).

Diante da possibilidade de reprodução de práticas assemelhadas através de processo eleitoral previsto na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu artigo 14 que prevê em seu caput: “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos”. Isso que garante a escolha através de um processo democrático, todavia oferece também a oportunidade para sua subversão, e com

(16)

isso, verifico a relevância deste estudo para a ciência do Direito. Essa lacuna, no meio acadêmico, reforça a repetição de uma prática que resulta na perpetuação de graves danos sociais e políticos.

Procedimentos metodológicos

Desse modo, delimito como objeto da pesquisa o HC Nº 26.155/1936 impetrado pelo advogado Heitor Lima, em favor de Olga Benário, prestes a ser expulsa do país, por ser considerada perigosa à ordem pública e nociva aos interesses brasileiros. Estabelecido o limite ao objeto, é firmada a situação-problema: o habeas corpus foi julgado num contexto em que prevaleceu o conflito entre os deveres do Estado - através da Corte Suprema dos Estados Unidos do Brasil (atual STF), como guardiã da Constituição - que deveriam estar submetidos a uma ordem constitucional e as práticas adotadas no intuito de satisfazer anseios totalitaristas, na figura de Getúlio Vargas e o Integralismo, em franca desconsideração a direitos fundamentais, indisponíveis. Como um texto constitucional e seu controle, que têm como função precípua a limitação do poder do Estado frente ao indivíduo, podem estabelecer, de forma paradoxal, a violação a direitos fundamentais quando concentrados na ação ente político e sua ideologia?

Estabeleço como hipótese a presença de grupos autocráticos com viés militarizado no poder como forma de violação dos direitos fundamentais mesmo quando perpassada por algum elemento típico de um processo democrático para o seu estabelecimento. Grupos autocráticos, conforme demonstra a história recente do país, tendem à politização da Lei Maior, no sentido de viabilizar a destruição de organizações políticas de esquerda a fim de estabelecer uma ideologia única, dominante, o que viria a se concretizar com a eleição no próximo ano de um grupo político aliado a essa retórica.

Como marco teórico, estabeleço a concepção da teoria crítica do direito de Evguiéni Pachukanis, baseada em Karl Marx, na qual se faz presente o esforço de estabelecer um paralelo entre o capitalismo, onde tudo pode ser reduzido a uma sociedade de proprietários de mercadorias, e uma coisificação do homem em que este aparece como destituído de vontade, em virtude de um tipo de lei natural que age de forma indiferente às suas necessidades.

Os objetivos gerais desta monografia consistem em: i) analisar o resultado da aplicação da teoria de Carl Schmitt, durante o governo de Getúlio Vargas, que confere a

(17)

centralização do poder em um ente político, e suas consequências possíveis; ii) verificar a coisificação presente no direito público em decorrência da mercantilização das relações humanas; iii) denunciar a violação a direitos fundamentais em um franco contexto de politização das relações jurídicas e iv) relacionar a presença de um estado de exceção à ausência de limites de poder do Estado.

Quanto aos objetivos específicos, busco limitá-los da seguinte maneira:

a) demonstrar o quanto a politização do judiciário pode afetar a dignidade humana em função de violações a direitos fundamentais a partir do HC Nº 26.155/1936;

b) estabelecer uma relação entre a teorização de Carl Schmitt quanto ao estado de exceção, o entendimento quanto a uma ideologia a Francisco Campos e a política adotada por Getúlio Vargas no contexto que antecede à Constituição da República Estados Unidos do Brasil de 1937;

c) apontar as formas de elaboração e aplicação do direito de viés burguês e capitalista a partir dos estudos realizados por Evguiéni Pachukanis;

d) demonstrar a violação a direitos fundamentais, num contexto de ditadura militarizada, e a possibilidade de repetição desse quadro na atualidade.

A opção metodológica adotada consiste na crítico-metodológica, baseada numa crítica da realidade, baseada em duas teorias de grande valor - no caso, elaboradas por Carl Schmitt e Evguiéni Pachukanis. Para chegar a conclusões pertinentes sobre o tema abordado, opto pelo raciocínio indutivo, partindo de uma análise de um caso em particular para tomada de conclusões de alcance geral, através da dialética. (GUSTIN, 2006).

Sendo assim, é possível classificar a pesquisa como de perfil qualitativo, interdisciplinar, tendo como técnicas de pesquisa a análise documental e revisão bibliográfica.

Estabeleço como fontes primárias para pesquisa o acórdão proferido pelo STF no HC 26.115/1936, a Lei 38, de 4 de abril de 1935 (Lei de Segurança Nacional), e como

(18)

fontes secundárias diversos artigos científicos, material jornalístico sobre o tema, bem como bibliografia baseada em autores especializados.

A demonstração da gravidade da intervenção política, de cunho militarista e totalitário, na análise pormenorizada (contexto, originalidade na fundamentação por parte de Heitor Lima, submissão ao contexto totalitarista do governo de Getúlio Vargas, leviandade na votação dos ministros) do HC 26.155/1936 que resultou, a despeito de flagrante violação a direitos fundamentais, na expulsão de Olga Benário do país, o que veio a redundar em sua morte.

Carl Schmitt e Francisco Campos estabelecem, como principais juristas de seus países (Alemanha e Brasil, respectivamente) naquele período, numa crítica ao liberalismo e ao positivismo normativista de Hans Kelsen, a ideia de concentração do Judiciário junto a uma unidade política, sendo o Estado, fortemente, centralizado com intervenção ampla na sociedade. A semelhança de ideais dos dois teóricos, marcada pela descrença decorrente do esgotamento do liberalismo, serve como base para a imposição de governos autocráticos (III Reich e Estado Novo) em oposição à Constituição de Weimar e à República Velha.

Por outro lado, Evguiéni Pachukanis, também contrário à concepção e prática jurídica liberal, demonstra através de uma teorização bastante particular que o direito não considera a realidade, atendo-se, exclusivamente às relações que envolvem uma lógica mercantil, configurando-se como uma ferramenta a favor da burguesia. O resultado de sua aplicação é a desumanização decorrente da coisificação do homem e tudo que lhe é concernente.

(19)

1. O HC N° 26.155: O CASO OLGA BENÁRIO PRESTES

O habeas corpus nº 26.155, foi impetrado no ano de 1936, em favor de Olga Benário ou Maria Prestes, pelo advogado Heitor Lima, perante a Corte Suprema dos Estados Unidos do Brasil (atual Supremo Tribunal Federal), sendo a autoridade coatora o Ministro da Justiça, Vicente Rao.

A paciente foi presa sob a acusação de ser perniciosa à segurança nacional e a impetração do referido instrumento judicial tinha em vista o julgamento da mesma no Brasil, considerando seu estado gravídico - Olga se encontrava grávida de Luís Carlos Prestes1.

O habeas corpus, remédio constitucional, em sentido amplo, tem por natureza a tutela dos direitos subjetivos de qualquer natureza, conforme defende Ruy Barbosa:

Logo o habeas corpus não está circunscrito aos casos de constrangimento corporal:

o habeas corpus hoje se estende a todos os casos em que um direito nosso, qualquer direito, estiver ameaçado, manietado, impossibilitado no seu exercício pela intervenção de um abuso de poder ou de uma ilegalidade. (BARBOSA in SILVA, 2006, p. 445).

Sendo assim, é possível a compreensão de que o objetivo, quando da impetração, é tutelar o direito de liberdade de locomoção, liberdade de ir, vir, parar e ficar, tendo natureza de ação penal constitucional2.

A Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (1934), em vigência à época do julgamento, previa o cabimento de habeas corpus em favor de brasileiro ou estrangeiro ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade, decorrente de ilegalidade ou abuso de poder.

Também vigente, a Lei nº 2.033 de 1871 previa que:

Art. 18. Os Juízes de Direito poderão expedir ordem de habeas-corpus a favor dos que estiverem illegalmente presos, ainda quando o fossem por determinação do Chefe de Policia ou de qualquer outra autoridade administrativa, e sem exclusão dos detidos a titulo de recrutamento, não estando ainda alistados como praças no exercito ou armada.

1 Disponível em:

http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=sobreStfConhecaStfJulgamentoHistorico&pagina=hc261 55. Acesso em: 10 de junho de 2017.

2 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 28. ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 445.

(20)

§1º Tem lugar o pedido e concessão da ordem de habeas-corpus ainda quando o impetrante não tenha chegado a soffrer o constrangimento corporal, mas se veja delle ameaçado.

§ 2º Não se poderá reconhecer constrangimento illegal na prisão determinada por despacho de pronuncia ou sentença da autoridade competente, qualquer que seja a arguição contra taes actos, que só pelos meios ordinarios podem ser nullificados.

§ 7º A plena concessão do habeas-corpus não põe termo ao processo nem obsta a qualquer procedimento judicial que possa ter lugar em Juizo competente.

§ 8º Não é vedado ao estrangeiro requerer para si ordem de habeas-corpus, nos casos em que esta tem lugar.

Todavia, a inicial protocolada pelo advogado Heitor Lima ficou marcada por uma característica pouco comum em matéria de habeas corpus. Via de regra, o interesse nas impetrações se concentra em tornar o réu livre de ameaça a direito fundamental (a liberdade) ou abuso cometido em nome do Estado.

O HC 2.6155, entretanto, tinha como objetivo primordial a manutenção de Olga Benário presa no Brasil. Assim consta da inaugural:

A paciente impetra habeas-corpus, não para ser posta em liberdade; não para neutralizar o constrangimento de qualquer processo; não para fugir ao julgamento dos seus actos pelo judiciário: mas, ao contrario, impetra habeas-corpus para não ser posta em liberdade; para continuar sujeita ao constrangimento do processo que contra ella se prepara na policia; para ser submettida a julgamento perante os tribunaes brasileiros. Em summa: habeas-corpus é impetrado afim de que a paciente não seja expulsa3.

O interesse na realização do julgamento em solo nacional consistia em evitar a extradição de Olga Benário à Alemanha nazista, o que terminou por ocorrer em seu sétimo mês de gravidez, a 23 de setembro de 1936, no navio cargueiro alemão La Coruña rumo a Hamburgo, após a prolação do acórdão em que resta expresso que a maioria dos membros da Corte não tomou conhecimento do pedido pela sua manutenção no Brasil.

Dessa feita, prevaleceu a “segurança nacional” sobre a dignidade humana. Em 1942, Olga Benário foi assassinada na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg4.

3 Habeas corpus nº 26.155/1936, fl. 4 (petição inicial, p. 3).

4 HELM, Sarah. Se isto é uma mulher. Dentro de Ravensbrück: o campo de concentração de Hitler para mulheres. Lisboa, Presença, 2015, p. 174.

(21)

1.1 O Contexto político da década de 1930 no Brasil

A década de trinta do século XX tem como marco inicial a Revolução liderada por Getúlio Vargas em 1930, que, com a ajuda de chefes militares, pôs fim a uma duradoura oligarquia agrária.

Essa preponderância de um pequeno grupo entrou para os anais da História como “política do café com leite”, uma vez que o poder se alternara, durante a República Velha, entre os maiores produtores de commodities, São Paulo e Minas Gerais, respectivamente.

Os anos 1920, marcados por tensões e disputas políticas, serviram como prelúdio àquilo que veio a se concretizar com um golpe de Estado realizado por Getúlio Vargas.

As diversas rebeliões militares do período ficaram registradas como as

“rebeliões tenentistas”5.

Como os movimentos mais relevantes e melhor exemplificativos do tenentismo no Brasil, é possível elencar: a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana (1922), a Revolta Paulista (1924) e a Coluna Prestes (1925 a 1927).

Nos dizeres de Boris Fausto, as insatisfações durante a República Velha eram contrárias ao liberalismo da época e em sintonia com aquilo que viria a se concretizar nos anos seguintes:

um modelo alternativo, ainda que formulado de forma tosca, foi proposto pelos

“tenentes”, ao criticar o liberalismo oligárquico, aproximando vários deles da ideologia autoritária. (FAUSTO, 2010, p. 21).

Outrossim, há que se levar em consideração a crise mundial de 1929, que atingiu em cheio a economia brasileira, aumentando o grau de insatisfação popular em relação ao governo do Presidente da República, à época, Washington Luís.

Tal contexto recebe observação sucinta e pertinente do supracitado autor:

5 VILLA, Marco Antônio. A História das Constituições Brasileiras: 200 anos de luta contra o arbítrio. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011, p. 31

(22)

Também aqui a crise de 1929 teve um papel importante, reforçando convicções autoritárias. Ela parecia demonstrar falência do capitalismo, ou pelo menos de certo tipo de capitalismo, associado ao livre mercado e democracia liberal; tanto mais que, no caso brasileiro como no dos outros países latino-americanos, a democracia liberal correspondia ao liberalismo oligárquico. Não por acaso a marca dominante do sistema político vigente entre 1930 e 1945 foi a ditadura autoritária, informal (Governo Provisório) ou formal (Estado Novo), cortada apenas pelos anos 1934- 1937, em que as liberdades democráticas foram sendo suprimidas, após a tentativa de golpe do PCB, em 1935. (FAUSTO, 2010, p. 23).

A crença em um Estado forte e centralizador - elaborada como forma de conter levantes, principalmente, de caráter operário - fica, posteriormente, patente em frase atribuída a Getúlio Vargas já alçado à Presidência da República:

O período ditatorial tem sido útil, permitindo a realização de medidas salvadoras, de difícil ou tardia execução dentro da órbita legal, A maior parte das reformas iniciadas e concluídas não poderia ser feita em um regime em que predominasse o interesse das conveniências políticas e das injunções partidárias. (NETO, 2013, p.

09).

O estopim para a Revolução de 1930, foi a eleição para Presidente da República, em 1º de março de 1930, que apontou Júlio Prestes como vencedor do pleito.

Getúlio Vargas concorria ao posto e, com o apoio da Aliança Liberal, deu início a uma rearticulação que culminou com a deposição de Washington Luís, impedindo a posse de Júlio Prestes.

Outro dado importante a ser considerado é o assassinato de João Pessoa, presidente da Paraíba e candidato derrotado à vice-presidência na chapa da Aliança Liberal, que causou forte comoção popular.

A tomada do poder político que dá início à Era Vargas é assim narrada:

Num gesto simbólico que representou a tomada do poder, os revolucionários gaúchos, chegando ao Rio, amarraram seus cavalos no Obelisco da avenida Rio Branco. Em 3 de novembro chegava ao fim a Primeira República e começava um novo período da história política brasileira, com Getúlio Vargas à frente do Governo Provisório. Era o início da Era Vargas6.

Para melhor compreensão desse período, não há como deixar de se considerar a polaridade estabelecida por grupos políticos de ideologias, francamente, antagônicas.

6 Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/Revolucao30. Acesso em:

12/06/2017.

(23)

O Governo Provisório de Getúlio Vargas fica marcado por uma forte concentração no Executivo, em detrimento de um Legislativo, cada vez menos participativo.

Houve crescimento em número de manifestações de cunho social, atreladas ao operariado, bem como da classe média em diversos Estados, radicalizando gradativamente a atividade política7.

Para construção de uma tensa polarização política, contribuíram, precipuamente, as fundações da AIB (Ação Integralista Brasileira) e da ANL (Ação Nacional Libertadora) - esta como resposta àquela.

A AIB estava baseada no fascismo de Benito Mussolini, com caracteres da cultura brasileira, fundada por Plínio Salgado em 1932.

O ideário integralista, basicamente, chauvinista tinha por base: defesa do nacionalismo, definido mais sobre bases culturais que econômicas, e do corporativismo, visto como esteio da organização do Estado e da sociedade; combate aos valores liberais e rejeição do socialismo como modo de organização social. O lema da organização era "Deus, Pátria e Família"8.

Como resposta ao crescimento de um arranjo de cunho totalitarista, formaram-se pequenas frentes antifascistas que reuniam comunistas, socialistas e antigos "tenentes"

insatisfeitos com a aproximação entre o governo de Getúlio Vargas e os grupos oligárquicos afastados do poder em 1930.

Como principal organização surge a Aliança Nacional Libertadora (ANL), voltada, principalmente, às causas populares9.

Em decorrência do prestígio adquirido com a Coluna Prestes, que na década anterior, foi às armas contra o governo estabelecido, Luís Carlos Prestes foi escolhido presidente de honra da ANL, apesar de ainda não se encontrar no Brasil por força de exílio cumprido no exterior.

Sobre essa organização, nos idos de 1934, um raciocínio de sobrepunha, sendo expresso, inclusive, pelo próprio Prestes:

7 Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/RadicalizacaoPolitica. Acesso em 12 de junho de 2017.

8 Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/RadicalizacaoPolitica/AIB.

Acesso em: 15/06/2017

9 Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/RadicalizacaoPolitica/ANL.

Acesso em: 15/06/2017

(24)

Num quadro em que se exacerbavam as contradições políticas, os comunistas, e Prestes em particular, sublinhavam a importância da questão do poder — a necessidade de constituição de um governo popular nacional e revolucionário, que seria fruto de uma revolução voltada contra as duas forças consideradas inimigas da sociedade, do povo e do país, o latifúndio e o imperialismo. Carta assinada por Prestes, divulgada em abril, mas datada de março, de Barcelona, para despistar a polícia, dizia: ‘Não há tempo a perder […]. Nas condições atuais […] pode a ANL chegar rapidamente a ser uma grande organização nacional revolucionária capaz de sustentar a luta de massas pela instauração de um governo popular nacional revolucionário em todo o Brasil’. (REIS, 2014, p. 149).

A intensidade dos conflitos entre integralistas e aliancistas, num crescente constante, teve como consequência a aprovação pelo Congresso da Lei de Segurança Nacional, que ordenava o fechamento da ANL, lançando-a à clandestinidade.

Enquanto o governo se precavia, fazendo aprovar pelo Congresso uma legislação repressiva e inovadora - uma Lei de Segurança Nacional até então inexistente, e por isso denominada pelas esquerdas e pela ANL de Lei Monstro -, multiplicavam-se os choques violentos entre integralistas e aliancistas, e também o descontentamento entre os trabalhadores urbanos e os militares. Nas alturas do Estado e da sociedade, como expressão desse processo, articulavam-se conspirações e projetos de golpes.

Em telegrama a Getúlio Vargas, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, advertia o presidente para um clima de “conspiração generalizada em todo o país”.

O general Guedes da Fontoura, a propósito dos soldos militares, ameaçava “derrubar o governo” caso não fossem rapidamente aprovados os reajustes reclamados.

Sucediam-se denúncias e ameaças, de direita e de esquerda, contra a ordem vigente.

(REIS, 2014, p. 150).

Getúlio Vargas, anticomunista, apoiava abertamente os integralistas, numa política de alinhamento com os países que nos anos subsequentes iriam constituir o Eixo, na vigência da Segunda Guerra Mundial.

Consequentemente, as medidas teriam que ser adotadas contra quem estivesse vinculado ao pensamento mais à esquerda do espectro político.

Desse modo, deu-se início a articulações, sobre bases legitimadas, para permitir que o caminho estivesse livre para aplicação do que intencionava, junto a Vicente Rao, seu Ministro da Justiça, e Agamenon Magalhães, Ministro do Trabalho:

Na reunião com Magalhães e Rao, Getúlio chamou a atenção para como grupos esquerdistas estavam aparelhando as associações operárias. Era preciso mais rigor para coibir os sindicatos independentes e fiscalizar a infiltração comunista nas entidades reconhecida pelo governo, exigiu. No que cabia à alçada de Vicente Rao, Getúlio cobrou sugestões objetivas para a implantação de mecanismos legais, portanto dentro dos limites da Constituição, capazes de impor freios aos extremistas.

A nova Carta Magna garantia ampla liberdade de reunião e de manifestação pública, mas o governo precisava estabelecer dispositivos jurídicos e normativos para se preservar contra a subversão. Uma saída seria aproveitar a brecha legal oferecida pelo parágrafo nono do artigo 113 da Constituição. Ao mesmo tempo em que garantia ser ‘livre a manifestação de pensamento, sem dependência de censura’, o

(25)

citado artigo ressalvava que não seria tolerada a ‘propaganda de guerra ou de processos violentos para subverter a ordem política e social’. Como os comunistas pregavam a revolução como forma de chegar ao poder, seus prosélitos podiam ser enquadrados - e silenciados - nos termos estritos da lei. (NETO, 2013, p. 199).

Para tanto, coube a Vicente Rao a elaboração de um projeto de lei a fim de ser apresentado ao Congresso, de modo a pôr termo às ações tidas como subversivas.

Em fins de janeiro, o Catete remetera à Câmara uma Lei de Segurança Nacional (LSN), que após célere tramitação iria ser votada em plenário exatamente naquele dia. A matéria do Correio, ilustrada com a foto dos integrantes da Comissão de Justiça reunidos em torno de um birô, trazia a íntegra do texto da nova legislação – a

‘Lei Monstro’, conforme classificava a imprensa e a organizações operária independentes.

(...)

O rol de penalidades alcançava todos os que ousassem ‘aliciar ou articular pessoas’,

‘fazer funcionar estações radiotransmissoras clandestinas’, ‘instigar desobediência coletiva ao cumprimento da lei’, ‘incitar militares à indisciplina’, ‘distribuir entre soldados e marinheiros quaisquer papéis, impressos, manuscritos, datilografados, mimeografados ou gravados em que se contenha material subversivo’, ‘divulgar notícias falsas’, ‘insuflar o ódio entre as classes sociais’, ‘preparar a paralisação de serviços públicos’ e ‘dirigir agremiações cuja atividade se exerça no sentido de modificar a ordem política ou social. Com a Lei Monstro, esses e outros crimes passavam a ser considerados inafiançáveis. Jornais podiam ser tirados de circulação, livros confiscados, revistas, apreendidas. Os infratores seriam submetidos a um rito sumário, sem as garantias processuais de ampla defesa. (LIRA NETO, 2013, p. 205- 206).

Assim, a Lei de Segurança Nacional (Lei nº 38, de 04 de abril de 1935) conferia a Getúlio Vargas o poder discricionário que houvera sido limitado pela Constituição de 1934, sendo um golpe acertado - no duplo sentido - contra os movimentos de matiz ideológico esquerdista.

O desdobramento desse acirramento resultou na criação do Tribunal de Segurança Nacional em 1936, subordinado à Justiça Militar.

A criação do TSN está ligada à repressão aos envolvidos no fracassado levante comunista de novembro de 1935, quando militantes da Aliança Nacional Libertadora se insurgiram contra o governo de Getúlio Vargas nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro. A função do tribunal era processar e julgar, em primeira instância, as pessoas acusadas de promover atividades contra a segurança externa do país e contra as instituições militares, políticas e sociais. Entre setembro de 1936 e dezembro de 1937, 1.420 pessoas foram por ele sentenciadas. (Disponível em:

http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos3037/RadicalizacaoPolitica/

TribunalSegurancaNacional. Acessado em: 16/06/2017).

(26)

Luís Carlos Prestes, após três anos exilado em Moscou, chegou sob disfarce ao país, em 1935, acompanhado por uma funcionária da Internacional Comunista, Olga Benário, para apoiar o golpe de Estado organizado pela ANL10.

Após manifesto redigido por Prestes e lido por Carlos Lacerda, então com apenas 21 anos, Getúlio Vargas, através de um decreto, com base na Lei de Segurança Nacional, proibiu as atividades da Aliança que, entretanto, continuou a agir na clandestinidade.

Com o fracasso daquela que foi uma tentativa de golpe de Estado - conhecida pela desmoralizante alcunha “Intentona Comunista” -, em novembro do mesmo ano Olga e Prestes foram presos.

A presença de estrangeiros no levante serviu como argumento cabal para sustentação da tese de que a infiltração comunista era uma conspiração internacional contra o Brasil.

Sobre o fracasso do levante:

Uma sucessão de erros e contratempos determinou a derrota precoce do movimento planejado por Luís Carlos Prestes, o até então imbatível líder da Coluna Invicta. Na fase preparatória, as avaliações exageradamente otimistas do PCB contribuíram em muito para o fracasso da investida contra Getúlio. Em vez de uma ação de massas, o ensaio de tomada de poder não passara de mais uma quartelada tenentista. Prestes calculara que a sublevação inicial das unidades do Exército sediadas no Rio de Janeiro despertaria o entusiasmo coletivo, espalhando a centelha da rebeldia pelas ruas, fábricas, escolas e campos de todo o país, A direção revolucionária não soubera aferir os limites e o alcance de suas precárias forças militares. Não existia uma mobilização real na caserna, assim como não havia uma coordenação efetiva entre as lideranças do levante e a base da tropa. Tudo fora arranjado na base do improviso. Segundo informações que inclusive o governo detinha, a insurreição estava prevista para explodir somente dali a alguns meses, A esperança de que em dezembro ou janeiro o terreno estivesse preparado para deflagrar a ofensiva era por demais fantasiosa. Imaginar que ainda em novembro houvesse alguma chance de êxito para o levante foi, por conseguinte, uma avaliação algo próxima do desatino.

(NETO, 2013, p. 248).

O HC 26.155/36 foi impetrado nesse contexto, como tentativa de permitir que Olga Benário tivesse a prisão cumprida no Brasil, sem ser extraditada à Alemanha nazista, por representar ameaça à segurança do país.

1.2 A caçada aos Prestes

10 VILLA, Marco Antônio. A História das Constituições Brasileiras: 200 anos de luta contra o arbítrio. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011, p. 47.

(27)

Antes disso, a prisão de Olga, junto a Prestes, deu-se no dia 05 de março de 1936 no bairro do Méier, Rio de Janeiro, sendo assim narrada:

A chegada do casal à Polícia Central foi um alvoroço. A euforia da caçada bem- sucedida. A excitação da cachorrada quando acua o animal que vai ser morto. A polícia política e o regime mal podiam acreditar que tinham, afinal, posto a mão no chefe político mais importante do comunismo brasileiro. Para comprovação da identidade, chamaram velhos camaradas da Coluna que haviam aderido ao regime.

Cordeiro de Farias prestou-se ao papel. O chefe de Polícia, Filinto Müller, exultava.

Prestes logo começou a ser inquirido pelos delegados Bellens Porto e Canabarro Pereira, encarregados do caso.

De Olga, a polícia quase nada sabia, embora as empregadas domésticas já houvessem se referido a ela e Ghioldi, mais tarde, tivesse confirmado a existência de uma ‘Olga’, ‘mulher branca, alta’, ‘que falava francês’ e que estava sempre com Prestes. Entretanto, ainda não se tinha conhecimento nem mesmo de seu nome real, pois na identidade dela constava o de Maria Bergner Vilar, esposa de Antonio Vilar, nomes conhecidos desde o estouro do aparelho em Ipanema. Conservando o sangue- frio, Olga se auto identificaria como Maria Prestes e se recusaria a falar sob o argumento de que não queria ‘comprometer o marido’.

A polícia separou o casal no próprio hall da Polícia Central. Prestes e Olga nunca mais se veriam. (REIS, 2014, p. 167).

Os fatos decorrentes do levante comunista de 1935 e a caçada aos responsáveis exigiu do governo uma série de medidas no sentido de estabelecer um final eficaz à ameaça representada pelo comunismo indesejado por Getúlio Vargas.

Em um balanço elaborado por Filinto Müller para a leitura e avaliação de Getúlio, o chefe de Polícia, em absoluta sintonia com o pensamento do presidente da República, lamentava que ‘na repressão, temos que nos conformar, de acordo com a Constituição, aos limites estabelecidos em lei’. Müller sugeria que a solução definitiva para os casos de subversão implicaria ‘profundas modificações do estatuto político brasileiro, a fim de que o governo seja dotado de meios rápidos e enérgicos para a repressão ao extremismo’. Em outras palavras, mesmo a Lei de Segurança Nacional, a famigerada Lei Monstro, era considerada leve demais para castigar os insurgentes. (NETO, 2013, p. 251).

Com a censura aplicada aos meios de comunicação, através do fechamento de jornais oposicionistas, a grande impressa tinha como garantir a opinião pública a favor da cruzada antibolchevique.

No Congresso, Vargas conseguiu, em 17 de dezembro de 1935, que a Câmara aprovasse três emendas constitucionais propostas em regime de urgência.

Tal medida exigiu a suspensão, no dia da votação, do estado de sítio, posto que era vedada, por força do artigo 178, qualquer reforma no texto constitucional durante períodos de exceção.

A primeira delas, aprovada por 210 votos contra 59, autorizava o presidente da República a comparar a então ‘comoção intestina grave’ ao estado de guerra, o que quando posto em prática significaria a abolição de praticamente todas as garantias

(28)

constitucionais. A segunda emenda, que passou com 216 votos a favor e 53 contra, determinava a perda de patente e de posto, por decreto do Executivo, de qualquer oficial da ativa ou da reserva que houvesse praticado crime de subversão. A terceira, por fim, aprovada com 216 sufrágios contra 51, definia que os funcionários públicos acusados de crimes políticos também estavam sujeitos à demissão sumária.

Tão logo conseguiu aprovar as três emendas, Getúlio restabeleceu o estado de sítio, prorrogando-o por mais noventa dias, período durante o qual os quartéis, as delegacias de polícia, e os presídios do país ficaram abarrotados de inimigos - reais e imaginários - do governo. (NETO, 2013, p. 254).

A proibição de máscaras, fantasias “atentatórias à moral das famílias” e a limitação de batalhas de confete a três por clube, durante o Carnaval de 1936, através de portarias atribuídas a Filinto Müller, na vigência do estado de sítio, ilustra bem os humores dessa época11.

Medida semelhante, após manifestações populares contra os governos Estadual e Federal, é possível observar, mais recentemente, com a Lei Estadual 6528/13 sancionada pelo ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho.

A referida lei regulamenta o artigo 23 da Constituição do Estado do Rio de Janeiro. Em seu artigo 2°, fica estabelecido: “É especialmente proibido o uso de máscara ou qualquer outra forma de ocultar o rosto do cidadão com o propósito de impedir-lhe a identificação”.

Esse era o quadro geral do período que antecede a prisão de Olga e Prestes em uma casa localizada na Rua Honório, 279, Méier.

Outrossim a ser levado em consideração é o apoio conferido pela Alemanha de Hitler, através de sua Geheime Staatspolizei, ou seja, a Gestapo, num intercâmbio realizado com as autoridades policiais brasileiras, no cerco ao casal ligado à Internacional Comunista (Comintern).

Era patente que a relação entre Adolf Hitler e Getúlio Vargas, em decorrência das medidas tomadas contra a ANL pelo segundo, tornavam-se cada vez mais amistosas.

O representante brasileiro em Berlim, José Joaquim Moniz de Aragão, ficou encantado com o tratamento que Adolfo Hitler lhe dispensou quando foi lhe apresentar as credenciais diplomáticas. ‘O Führer conversou comigo durante um longo tempo, tendo mesmo excedido ao que normalmente é concedido para audiências do gênero’, relatou, em despacho oficial o Ministério das Relações Exteriores. ‘Pediu-me sua excelência para agradecer vivamente ao excelentíssimo sr.

Getúlio Vargas aos cumprimentos que lhe transmiti em seu nome e, outrossim, encarregou-me de apresentar ao nosso presidente da República as suas mais efusivas

11 MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p. 133.

(29)

congratulações por ter podido dominar o recente movimento comunista que irrompeu no Brasil. (NETO, 2013, p. 262).

A Gestapo foi fundamental também para Filinto Müller na identificação de Olga, posto que durante os interrogatórios, ela se negara a indicar de onde provinha, identificando- se apenas como “Maria Prestes”.

Durante os dez dias em que foi mantida presa na Rua da Relação, Olga não desconhecia a possibilidade de ser deportada. Por conta disso, alegava ser brasileira, em decorrência de ser esposa de Luís Carlos Prestes.

Apesar da solicitação de sigilo quanto às informações obtidas através de documentos arquivado pelo governo alemão, as informações referentes à sua identidade verdadeira foram divulgadas pela imprensa no dia em que foi transferida para um presídio coletivo.

A prisão, na Rua Frei Caneca, é marcada por um fato de grande relevância: Olga descobre que está grávida de Prestes.

Um mês depois de ter sido transferida para a rua Frei Caneca, Olga anunciou às companheiras de cela que não tinha mais dúvidas: estava esperando um filho de Prestes. Sua primeira preocupação foi tentar comunicar isso ao marido. Ela procurou o chefe da carceragem, acompanhada da médica Nise da Silveira, presa com ela, para informar que a partir daquele momento exigia os cuidados necessários a uma grávida. E quis saber se podia escrever a Prestes para comunicar-lhe que seria pai ainda naquele ano. O policial não fez muito caso e disse apenas que ela escrevesse e que ele ia ver se era possível fazer chegar a carta às mãos do chefe comunista.

Seguindo a orientação do guarda, ela escreveu não uma, mas dezenas de cartas ao marido sempre em francês e sempre encerradas com um carinhoso la tienne - a tua.

Cartas que ele nunca receberia. A notícia da gravidez da mulher de Prestes transformou o presídio. Todos queriam ajudar a diminuir as dificuldades de uma gestação dentro da cadeia. Os presos que recebiam visitas começaram a pedir aos parentes que trouxessem comidas especiais e vitaminas, sempre seguindo as prescrições de Nise da Silveira, que a vida acabava de transformar de psiquiatra em ginecologista e obstetra. (MORAIS, 2008, p. 166).

A situação de Olga, mesmo tornada pública a jornalistas, oportunamente, por ela própria, quando conduzida a cartório para prestar depoimento, não fora capaz de causar qualquer consternação à polícia política, pois:

A ameaça de expulsão do Brasil era cada vez mais concreta. Nos primeiros dias de maio o delegado Eurico Bellens Porto, encarregado por Filinto Müller de presidir o inquérito sobre a revolta, anunciava que seu trabalho chegava ao fim: centenas de pessoas - brasileiros e estrangeiros, civis e militares - haviam sido indiciadas como participantes do levante, mas, no que se referia às três mulheres presas na Casa de Detenção, suas conclusões eram ambíguas. Primeiro ele dizia não ter como puni-las no Brasil, pois a nenhuma delas havia sido imputado nenhum crime. (...) Mas se a lei não previa qualquer punição para as três, pior para a lei. O inadmissível era

(30)

colocar em liberdade as mulheres dos três chefes comunistas. (MORAIS, 2008, p.

168).

Num dia de visita aos detentos, Olga tomou conhecimento da firme decisão do governo em deportá-la para a Alemanha. O Instituto dos Advogados designou Dyonisio da Silveira que se recusou a aceitar o encargo.

A gravidade da situação, todavia, permitiu que ela enviasse a primeira carta a Prestes, comunicando-lhe finalmente a gravidez. Em resposta, o advogado Heitor Lima foi indicado pelo esposo.

1.3 Impetração e desconhecimento do pedido do HC 26.155/1936

Olga Benário, tratada como Maria Prestes pela Corte Suprema dos Estados Unidos do Brasil, é a paciente do habeas corpus 26.155/1936, julgado em 17 de junho de 1936 por ser considerada perniciosa à segurança nacional, tendo, por conta disso, tolhidos os seus direitos fundamentais12.

Olga foi obrigada, por força de lei, a manifestar seu desejo de ser defendida por Heitor Lima, que apesar de liberal, sem qualquer ligação ideológica com a classe operária, tomou para si a causa:

A primeira medida adotada pelo advogado, três dias depois de aceitar a defesa de Olga - ou Maria Prestes, como ele insistiu em tratá-la durante todo o processo -, foi entrar com um pedido de habeas corpus junto à Corte Suprema. Não a colocar em liberdade, que disso nem se cogitava, mas para tentar impedir que se consumasse a expulsão já determinada pelo Ministro de Justiça, Vicente Rao, com base na exposição de motivos que lhe fizera Filinto Müller. Quanto mais Heitor Lima remexia as montanhas de depoimentos e denúncias do processo da revolta, tanto mais se materializava a certeza de que a decisão da expulsão se resumia a uma vingança pessoal de Getúlio Vargas e Filinto Müller. Não contra ela, que nenhum dos dois conhecia, mas contra o marido e pai do seu filho, Luís Carlos Prestes. Não havia, em todo o processo, uma só acusação, uma única imputação de qualquer delito que ela pudesse ter praticado no Brasil. Nem sequer a sua extradição havia sido pedida pelo governo de Adolf Hitler. Getúlio e Filinto tomavam espontaneamente a decisão de enviar ao Reich nazista uma judia, comunista e grávida de quatro meses. Contra a Constituição exibiam o parágrafo de três linhas da Lei de Segurança Nacional que o próprio Rao redigira meses antes:

A União poderá expulsar os estrangeiros perigosos à ordem pública ou nocivos aos interesses do país. (MORAIS, 2008, p. 180).

12 MUNIZ, Veyzon Campos. O Caso Olga Benário Prestes: um estudo crítico sobre o habeas corpus nº 26.155/1936. Direito & Justiça, Porto Alegre, v. 37, n. 2, p. 36-60, jan/jun. 2011.

(31)

Olga Benário encontrava-se entre centenas de pessoas que haviam sido indiciadas pelo Levante Comunista de 1935. A ambiguidade inerente à sua situação consistia no fato de que ela não poderia ser punida no Brasil, pois nenhum crime lhe foi imputado, todavia ela não poderia ser posta em liberdade por Filinto Müller e Bellens Porto já que era esposa de Luís Carlos Prestes.

O fato de Olga ser uma estrangeira, casada com Prestes, inimigo político de Vargas, a tornava perfeitamente indesejável à polícia política e sua expulsão se baseou nisso.

A inicial de Heitor Lima, entretanto, postulava que o período em que ela se manteve na Casa de Detenção foram decorrentes de crimes previsto pela Lei nº 38 de 04 de abril de 1935, cometidos em território nacional.

A mesma lei previa o julgamento dos criminosos no Brasil, sendo assim, não caberia a expulsão de Olga do Brasil. O advogado insistiu na tese de que havia crime a ser julgado e sua expulsão para o estrangeiro redundaria em sua liberdade.

Um fato a ser considerado era que além da ilegalidade concernente à expulsão, havia o feto que também sofreria as consequências de tal fato. A Constituição de 1934 vedava pena de morte, que seria o destino do feto, na tese do casuístico, caso o julgamento não fosse no país.

Outra ilegalidade patente cometida consiste na desconsideração do estado gravídico da paciente, uma vez que o artigo 4º do Código Civil de 1916 salvaguardava os direitos do nascituro desde a concepção, bem como o artigo 138 de Constituição de 1934 versava sobre o ampara à maternidade e a infância 13.

A paciente “encarcerada sem recursos” não possuía quase nada além de um vestido, restando claro que não tinha condições de arcar com as custas do processo.

Mesmo assim, o primeiro dos pedidos arrolados, o de gratuidade de justiça, foi denegado: a petição foi considerada sem preparo.

13 Art 138 - Incumbe à União, aos Estados e aos Municípios, nos termos das leis respectivas: a) assegurar amparo aos desvalidos, criando serviços especializados e animando os serviços sociais, cuja orientação procurarão coordenar; b) estimular a educação eugênica; c) amparar a maternidade e a infância; d) socorrer as famílias de prole numerosa; e) proteger a juventude contra toda exploração, bem como contra o abandono físico, moral e intelectual; f) adotar medidas legislativas e administrativas tendentes a restringir a moralidade e a morbidade infantis; e de higiene social, que impeçam a propagação das doenças transmissíveis; g) cuidar da higiene mental e incentivar a luta contra os venenos sociais. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm. Acesso em: 08/07/2017.

(32)

A paciente do HC 26.155/1936, nascida em Munique, Alemanha no dia 12 de fevereiro de 1908 era oriunda de uma família rica, tendo aderido, ainda adolescente, à militância comunista.

O seu caráter se diferenciava do ideal de mulher defendido pela propaganda do regime de Getúlio Vargas: dona de casa, submissa ao marido, prendada e católica.

Isso fez com que sofresse forte discriminação ao ser presa, reforçada pelo anticomunismo e antissemitismo decorrente da ligação entre o governo Vargas e o nazismo de Hitler. A sua expulsão na prática decorre de um interesse em realizar “uma profilaxia social”.

A autoridade coatora a compor os autos do HC 26.155/1936 é Vicente Rao, o Ministro da Justiça e Negócios Interiores do governo de Getúlio Vargas.

Ele elaborou a Lei de Segurança Nacional que deu início a política de esvaziamento das garantias constitucionais, de modo a dar início ao processo de eliminação dos opositores ao governo que vai atingir o seu auge com a Constituição de 1937, durante o Estado Novo.

A Constituição de 1934 previa a impetração de habeas corpus originariamente na Corte Suprema em caso de iminência de violência a direito. A sessão do HC 26.155/1936 foi instaurada em 17/06/1936.

Os ministros Edmundo Pereira Lins, Hermegildo Pereira de Barros, Plínio Castro Casado, Manoel da Costa Manso, Octávio Kelly, Ataulpho Nápoles de Paiva e Laudo Ferreira de Camargo seguiram o relator do caso, Antônio Bento de Faria, decidindo pelo não conhecimento do pedido.

Apenas Eduardo Espínola, João Martins de Carvalho Mourão e Carlos Maximiliano tomaram conhecimento do pedido, mas o indefiriram.

O Decreto nº 702, de 21 de março de 1936, como resposta de Getúlio Vargas ao Levante Comunista do ano anterior que declarava a aplicação de estado de guerra, o que configurava um estado de exceção por suspender a proteção a direitos fundamentais, foi utilizado como fundamentação dos ministros para o não conhecimento e denegação do pedido de habeas corpus em favor de Olga Benário.

O desfecho do pedido não poderia ser mais trágico. Designado relator do processo, o Ministro Bento de Faria indeferiu, uma por uma, todas as solicitações do advogado.

E, alegando que o instituto do habeas corpus estava suspenso pelo estado de sítio e pelo estado de guerra decretado por Getúlio Vargas, decidiu simplesmente não

Referências

Documentos relacionados

Essas informações são de caráter cadastral (técnico responsável pela equipe, logradouro, etc.), posicionamento da árvore (local na rua, dimensões da gola, distância da

Não podemos deixar de dizer que o sujeito pode não se importar com a distância do estabelecimento, dependendo do motivo pelo qual ingressa na academia, como

Outro ponto importante referente à inserção dos jovens no mercado de trabalho é a possibilidade de conciliar estudo e trabalho. Os dados demonstram as

Para Azevedo (2013), o planejamento dos gastos das entidades públicas é de suma importância para que se obtenha a implantação das políticas públicas, mas apenas

Para analisar as Componentes de Gestão foram utilizadas questões referentes à forma como o visitante considera as condições da ilha no momento da realização do

Esse trabalho tem o objetivo de apresentar as funções destinadas ao pedagogo no meio empresarial, dando a valorização necessária, visto que muitas pessoas não sabem

As práticas de gestão passaram a ter mais dinamicidade por meio da GIDE. A partir dessa mudança se projetaram todos os esforços da gestão escolar para que fossem

Dessa forma, diante das questões apontadas no segundo capítulo, com os entraves enfrentados pela Gerência de Pós-compra da UFJF, como a falta de aplicação de