• Nenhum resultado encontrado

Impetração e desconhecimento do pedido do HC 26.155/1936

Olga Benário, tratada como Maria Prestes pela Corte Suprema dos Estados Unidos do Brasil, é a paciente do habeas corpus 26.155/1936, julgado em 17 de junho de 1936 por ser considerada perniciosa à segurança nacional, tendo, por conta disso, tolhidos os seus direitos fundamentais12.

Olga foi obrigada, por força de lei, a manifestar seu desejo de ser defendida por Heitor Lima, que apesar de liberal, sem qualquer ligação ideológica com a classe operária, tomou para si a causa:

A primeira medida adotada pelo advogado, três dias depois de aceitar a defesa de Olga - ou Maria Prestes, como ele insistiu em tratá-la durante todo o processo -, foi entrar com um pedido de habeas corpus junto à Corte Suprema. Não a colocar em liberdade, que disso nem se cogitava, mas para tentar impedir que se consumasse a expulsão já determinada pelo Ministro de Justiça, Vicente Rao, com base na exposição de motivos que lhe fizera Filinto Müller. Quanto mais Heitor Lima remexia as montanhas de depoimentos e denúncias do processo da revolta, tanto mais se materializava a certeza de que a decisão da expulsão se resumia a uma vingança pessoal de Getúlio Vargas e Filinto Müller. Não contra ela, que nenhum dos dois conhecia, mas contra o marido e pai do seu filho, Luís Carlos Prestes. Não havia, em todo o processo, uma só acusação, uma única imputação de qualquer delito que ela pudesse ter praticado no Brasil. Nem sequer a sua extradição havia sido pedida pelo governo de Adolf Hitler. Getúlio e Filinto tomavam espontaneamente a decisão de enviar ao Reich nazista uma judia, comunista e grávida de quatro meses. Contra a Constituição exibiam o parágrafo de três linhas da Lei de Segurança Nacional que o próprio Rao redigira meses antes:

A União poderá expulsar os estrangeiros perigosos à ordem pública ou nocivos aos interesses do país. (MORAIS, 2008, p. 180).

12 MUNIZ, Veyzon Campos. O Caso Olga Benário Prestes: um estudo crítico sobre o habeas corpus nº 26.155/1936. Direito & Justiça, Porto Alegre, v. 37, n. 2, p. 36-60, jan/jun. 2011.

Olga Benário encontrava-se entre centenas de pessoas que haviam sido indiciadas pelo Levante Comunista de 1935. A ambiguidade inerente à sua situação consistia no fato de que ela não poderia ser punida no Brasil, pois nenhum crime lhe foi imputado, todavia ela não poderia ser posta em liberdade por Filinto Müller e Bellens Porto já que era esposa de Luís Carlos Prestes.

O fato de Olga ser uma estrangeira, casada com Prestes, inimigo político de Vargas, a tornava perfeitamente indesejável à polícia política e sua expulsão se baseou nisso.

A inicial de Heitor Lima, entretanto, postulava que o período em que ela se manteve na Casa de Detenção foram decorrentes de crimes previsto pela Lei nº 38 de 04 de abril de 1935, cometidos em território nacional.

A mesma lei previa o julgamento dos criminosos no Brasil, sendo assim, não caberia a expulsão de Olga do Brasil. O advogado insistiu na tese de que havia crime a ser julgado e sua expulsão para o estrangeiro redundaria em sua liberdade.

Um fato a ser considerado era que além da ilegalidade concernente à expulsão, havia o feto que também sofreria as consequências de tal fato. A Constituição de 1934 vedava pena de morte, que seria o destino do feto, na tese do casuístico, caso o julgamento não fosse no país.

Outra ilegalidade patente cometida consiste na desconsideração do estado gravídico da paciente, uma vez que o artigo 4º do Código Civil de 1916 salvaguardava os direitos do nascituro desde a concepção, bem como o artigo 138 de Constituição de 1934 versava sobre o ampara à maternidade e a infância 13.

A paciente “encarcerada sem recursos” não possuía quase nada além de um vestido, restando claro que não tinha condições de arcar com as custas do processo.

Mesmo assim, o primeiro dos pedidos arrolados, o de gratuidade de justiça, foi denegado: a petição foi considerada sem preparo.

13 Art 138 - Incumbe à União, aos Estados e aos Municípios, nos termos das leis respectivas: a) assegurar amparo aos desvalidos, criando serviços especializados e animando os serviços sociais, cuja orientação procurarão coordenar; b) estimular a educação eugênica; c) amparar a maternidade e a infância; d) socorrer as famílias de prole numerosa; e) proteger a juventude contra toda exploração, bem como contra o abandono físico, moral e intelectual; f) adotar medidas legislativas e administrativas tendentes a restringir a moralidade e a morbidade infantis; e de higiene social, que impeçam a propagação das doenças transmissíveis; g) cuidar da higiene mental e incentivar a luta contra os venenos sociais. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm. Acesso em: 08/07/2017.

A paciente do HC 26.155/1936, nascida em Munique, Alemanha no dia 12 de fevereiro de 1908 era oriunda de uma família rica, tendo aderido, ainda adolescente, à militância comunista.

O seu caráter se diferenciava do ideal de mulher defendido pela propaganda do regime de Getúlio Vargas: dona de casa, submissa ao marido, prendada e católica.

Isso fez com que sofresse forte discriminação ao ser presa, reforçada pelo anticomunismo e antissemitismo decorrente da ligação entre o governo Vargas e o nazismo de Hitler. A sua expulsão na prática decorre de um interesse em realizar “uma profilaxia social”.

A autoridade coatora a compor os autos do HC 26.155/1936 é Vicente Rao, o Ministro da Justiça e Negócios Interiores do governo de Getúlio Vargas.

Ele elaborou a Lei de Segurança Nacional que deu início a política de esvaziamento das garantias constitucionais, de modo a dar início ao processo de eliminação dos opositores ao governo que vai atingir o seu auge com a Constituição de 1937, durante o Estado Novo.

A Constituição de 1934 previa a impetração de habeas corpus originariamente na Corte Suprema em caso de iminência de violência a direito. A sessão do HC 26.155/1936 foi instaurada em 17/06/1936.

Os ministros Edmundo Pereira Lins, Hermegildo Pereira de Barros, Plínio Castro Casado, Manoel da Costa Manso, Octávio Kelly, Ataulpho Nápoles de Paiva e Laudo Ferreira de Camargo seguiram o relator do caso, Antônio Bento de Faria, decidindo pelo não conhecimento do pedido.

Apenas Eduardo Espínola, João Martins de Carvalho Mourão e Carlos Maximiliano tomaram conhecimento do pedido, mas o indefiriram.

O Decreto nº 702, de 21 de março de 1936, como resposta de Getúlio Vargas ao Levante Comunista do ano anterior que declarava a aplicação de estado de guerra, o que configurava um estado de exceção por suspender a proteção a direitos fundamentais, foi utilizado como fundamentação dos ministros para o não conhecimento e denegação do pedido de habeas corpus em favor de Olga Benário.

O desfecho do pedido não poderia ser mais trágico. Designado relator do processo, o Ministro Bento de Faria indeferiu, uma por uma, todas as solicitações do advogado.

E, alegando que o instituto do habeas corpus estava suspenso pelo estado de sítio e pelo estado de guerra decretado por Getúlio Vargas, decidiu simplesmente não

tomar conhecimento do pedido. Votaram com o relator o presidente da Corte Suprema e os ministros Hermenegildo de Barros, Plínio Casado, Laudo de Camargo, Costa Mando, Otávio Kelly e Ataulpho de Paiva. Os três ministros restantes - Eduardo Espínola, Carvalho Mourão e Carlos Maximiliano - criaram um artifício para evitar simplesmente desconhecer o pedido: conheceram, mas negaram o habeas corpus. (MORAIS, 2008, p. 181).

Em outras palavras, Olga Benário (ou Maria Prestes), judia, comunista, ligada ao Comintern, grávida de Luís Carlos Prestes, considerado líder do levante de 27 de novembro, inimigo político de Getúlio Vargas e Filinto Müller, expulsa do Brasil rumo à Alemanha nazista, estava condenada à morte.