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LAÍSA ALIANDRO DOS SANTOS

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Academic year: 2022

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LAÍSA ALIANDRO DOS SANTOS

COSMÉTICOS PARA A POPULAÇÃO NEGRA: UMA REVISÃO DA LITERATURA

DIADEMA

2021

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COSMÉTICOS PARA A POPULAÇÃO NEGRA: UMA REVISÃO DA LITERATURA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do título de Bacharel em Farmácia, ao Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo – Campus Diadema.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Vânia Rodrigues Leite e Silva.

DIADEMA

2021

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Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) dos Santos, Laísa Aliandro

Cosméticos para a população negra: uma revisão da literatura / Laísa Aliandro dos Santos. – – Diadema, 2021.

65 f.

Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Farmácia) - Universidade Federal de São Paulo - Campus Diadema, 2021.

Orientadora: Vânia Rodrigues Leite e Silva

1. Cosméticos. 2. População negra. 3. Produtos capilares. 4. Maquiagem. I.

Título.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas, Campus Diadema da Universidade Federal de São Paulo, com os dados fornecidos pela autora.

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COSMÉTICOS PARA A POPULAÇÃO NEGRA: UMA REVISÃO DA LITERATURA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do título de Bacharel em Farmácia, ao Instituto de Ciência Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo – Campus Diadema.

Aprovado em: 04/08/2021.

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________________

Prof.ª Dr.ª Vânia Rodrigues Leite e Silva – UNIFESP

______________________________________________________________

Prof. Dr. João Paulo dos Santos Fernandes – UNIFESP

______________________________________________________________

Prof. Dr. Paulo Roberto Regazi Minarini – UNIFESP

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Meu primeiro agradecimento vai para minha família, eu não teria chegado até aqui sem vocês. Sou muito grata aos meus pais, Luiz Carlos e Marta, por todo esforço que vocês colocaram na minha criação e vida acadêmica. O orgulho que vocês sentem por mim é o que me faz continuar e querer sempre mais. Às minhas irmãs, Jacqueline e Mirelle, eu agradeço pelo companheirismo, pela inspiração e, principalmente, pela sinceridade, vocês não têm medo de me dizer quando algo não está bom e eu amo vocês por isso. Muito obrigada também por não me deixarem surtar e sempre me resgatarem quando eu começo a deixar a graduação me consumir. Vocês, meus Ridículos e Debochados, são os amores da minha vida!!

Às minhas tias, por sempre acreditarem em mim. E também àqueles da família que não estão mais conosco, mas sei que estariam orgulhosos da minha trajetória.

Muito obrigada também às minhas amigas Sensatas (Thais, Raquel e Daniella), por estarem comigo nos meus piores momentos na graduação e também por estarem comigo para celebrar minhas vitórias. Aproveito para agradecer Os 9 (Thais, Nikollye, Juliana, João Pedro, Gabriele, Emidio e Bárbara), especialmente ao JP por me inspirar a colocar minhas lutas da vida no meu trabalho. Mesmo não estando fisicamente perto, sinto o apoio e orgulho de vocês sempre. Obrigada também às minhas amigas Nablen e Rafaela, por sempre me colocarem pra cima, estarem ao meu lado e acharem que eu sou mais inteligente do que eu sou. Amo vocês!

À professora Vânia por ter aceitado me orientar nesse trabalho super importante para mim, obrigada pela ajuda, aprendizados e paciência.

Muito obrigada também a todas as pessoas com as quais convivi ao longo desses anos de curso e que tiveram impacto na minha formação acadêmica, especialmente ao Quarteto (Deborah, Flávia, Gabriela e Nathalia) por me aguentarem tirando dúvida das matérias.

Por último, mas não menos importante, muito obrigada a Deus pela dádiva da

vida e por me abençoar na realização dos meus sonhos.

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O Brasil é o quarto maior país do mundo em consumo de produtos de higiene, cosméticos e artigos de perfumaria. Entretanto, negros (pretos e pardos), que representam 54% da população, ainda são minoria no escopo destes produtos. Neste contexto, esse trabalho tem como objetivo estudar o desenvolvimento e formulação de produtos capilares e maquiagem, considerando as diferenças entre negros e caucasianos e também analisar tendências de mercado, padrões de consumo e comunicação com o consumidor final. Foi observado o aumento no número de produtos que atendessem características específicas e/ou predominantes da população negra como pele escura e cabelo crespo, respectivamente. Na última década houve aumento da oferta de maquiagem em tons escuros, especialmente base e corretivo, e linhas capilares especialmente para cabelos crespos e cacheados.

Apesar desse movimento da indústria, pouca produção acadêmica sobre o tema foi encontrada.

Palavras-chave: Cosméticos. População negra. Produtos capilares. Maquiagem.

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Brazil is the world’s fourth largest country in terms of consumption of toiletries, cosmetics and perfumery. However, negroes (blacks and browns), who represents 54% of the population, are still a minority in the scope of these products. In this context, this work aims to study the development and formulation of hair care and makeup products, considering the differences between negros and Caucasians and also analyze market trends, consumption patterns and communication with the final consumer. There was an increase in number of products that met specific and/or predominant characteristics of the black population, such as dark skin and frizzy hair, respectively. In the last decade there was an increase in the offer of makeup in dark tones, especially foundation and concealer, and hair care lines especially for frizzy and curly hair. Despite this industry movement, little academic production on the subject was found.

Key words: Cosmetics. Black population. Hair care products. Make-up.

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Figura 1. Estrutura de α-hélice da queratina...19

Figura 2. Estrutura do fio capilar...20

Figura 3. Comparação da secção transversal e diâmetro dos três tipos de cabelo...21

Figura 4. Investigação imuno-histoquímica da distribuição de queratina no folículo capilar...22

Figura 5. Classificação de Walker de acordo com a curvatura...23

Figura 6. Lantionização...30

Figura 7. Diversas texturas de base...35

Figura 8. Óxidos de ferro usados em maquiagem...36

Figura 9. Estrela de Oswald...37

Figura 10. Seleção de shampoos da década de 1990...39

Figura 11. Seda linha Hidraloe...39

Figura 12. Creme para pentear da linha Seda Hidraloe...40

Figura 13. Seda linha Cachos Comportados...40

Figura 14. Seda linha Keraforce...41

Figura 15. Garnier linha Quimi-Resist...42

Figura 16. Elsève linha Hydra-Max...43

Figura 17. Coleção de linhas específicas para cabelos crespos e cacheados...44

Figura 18. Seda linha BOOM...45

Figura 19. Coleção de shampoos para determinadas curvaturas de fios...46

Figura 20. Reprodução do gráfico de número de lançamentos de produtos sulfate free no mercado brasileiro...47

Figura 21. Marcas de maquiagem especializadas em pele negra...48

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Figura 24. Cartela de cores base Power Stay da Avon...51

Figura 25. Guia para escolha de cor dos produtos Avon...51

Figura 26. Nova nomenclatura das bases Power Stay da Avon...52

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Tabela 1. Composição básica de xampu líquido...25

Tabela 2. Classificação de surfactantes...26

Tabela 3. Compração entre os métodos...28

Tabela 4. Fototipos de pele de Fitzpatrick...33

Tabela 5. Correlação entre a cor a ser neutralizada e a coloração do corretivo...36

Tabela 6. Distribuição da nomenclatura de bases em diferentes categorias de

tonalidade...50

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2. METODOLOGIA ... 13

3. HISTÓRICO ... 14

4. MERCADO COSMÉTICO BRASILEIRO ... 18

5. CABELO ... 19

5.1 ESTRUTURA CAPILAR ... 19

5.2 CLASSIFICAÇÃO ... 20

5.2.1 Por etnia ... 20

5.2.2 Por textura ... 22

5.3 XAMPUS E CONDICIONADORES ... 24

5.3.1 Xampu ... 24

5.3.2 Condicionador ... 26

5.4 CO-WASHING, LOW-POO E NO-POO ... 27

5.5 ALISANTES ... 29

6. FACE... 32

6.1 ESTRUTURA DA PELE ... 32

6.2 CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE PELE ... 32

6.3 PIGMENTAÇÃO ... 33

6.4 COSMÉTICOS COM COR ... 34

7. COMUNICAÇÃO DOS PRODUTOS COM O CONSUMIDOR FINAL ... 38

7.1 PRODUTOS CAPILARES ... 38

7.1.1 Décadas de 1980-2000... 38

7.1.2 Décadas de 2010-2020... 43

7.2 PRODUTOS FACIAIS ... 47

7.2.1 Diversidade de cores ... 47

7.2.2 Nomenclatura dos produtos ... 49

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1. INTRODUÇÃO

A indústria cosmética é um setor importante da economia brasileira, com crescimento de 2,2% no ano de 2020 apesar da pandemia de COVID-19. O Brasil se classifica como o 4º maior consumidor de produtos de higiene e cosméticos do mundo, sendo o 4º maior para produtos de cuidados capilares e o 5º maior em maquiagem (ABIHPEC, 2021). Apesar desses números, cerca de 115 milhões de brasileiros, aproximadamente 54% da população (IBGE, 2021) não encontram ou têm dificuldade em encontrar produtos que atendam às suas necessidades.

Produtos específicos para a população negra (pretos e pardos) não eram uma realidade até pouco tempo devido à pouca segmentação do mercado nesse sentido.

A falta de produtos específicos para essa população era justificada pela indústria como falta de procura ou baixo poder de compra (ALMEIDA, 2011; JARDIM, 2014).

Atualmente se observa o crescimento da oferta destes produtos, ocasionalmente apresentados em “linhas étnicas”.

Apesar de raça ser um conceito histórico e social, há algumas diferenças na estrutura da pele negra para a pele branca, assim como há diferenças estruturais entre os diversos tipos de cabelo (ALCHORNE, MAURICIO MOTA DE AVELAR; DE ABREU, 2008). Essa distinção é importante tanto para o desenvolvimento de cosméticos específicos para cada necessidade quanto para a comunicação com os consumidores finais.

Além da baixa oferta de produtos específicos para essa parcela da população, é perceptível a dificuldade em encontrar literatura científica, especialmente nacional, sobre as necessidades específicas para o desenvolvimento de cosméticos, principalmente maquiagem, adequados para a pessoas negras, assim como também é difícil encontrar artigos sobre o consumo desses produtos e características desse nicho de mercado (DA SILVA, 2017; LUZ, 2018).

É nesse contexto em que se insere o presente trabalho, com objetivo de buscar na literatura artigos sobre cosméticos voltados para a população negra, considerando seu desenvolvimento, formulação, padrões de consumo e tendências de mercado.

Também faz parte do escopo deste trabalho a análise do mercado, considerando sua

evolução e adaptação para se tornar mais diverso e abrangente.

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2. METODOLOGIA

Para o desenvolvimento deste trabalho foram buscados artigos científicos, datados de 2000 a 2020, nas seguintes bases de dados: Biblioteca Científica Eletrônica Online (Scientific Electronic Library Online – SCIELO), PUBMED e Google

Schoolar. Em casos em que os artigos não eram suficientes, também foram

considerados livros, matérias de revistas e jornais, assim como vídeos de plataformas digitais, como o Youtube, que abordassem o tema proposto.

A pesquisa foi elaborada de acordo com o tema proposto para cada capítulo.

Para o capítulo “Histórico” os termos pesquisados foram cosméticos, produtos de higiene, história dos cosméticos e outros, tanto em português como em inglês. A composição deste capítulo teve embasamento em Chaudhri & Jain (2009), Willet (2010) e outros.

A análise do mercado cosmético brasileiro foi fundamentada nos Cadernos de Tendência das últimas duas décadas e Panorama do Setor desenvolvidos pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) e outras referências.

O capítulo “Cabelo” aborda a estrutura e função dos fios, amparados em artigos publicados, principalmente, nas revistas

Cosmetics & Toiletries (nas versões

internacional e Brasil) e

International Journal of Cosmetic Science. Também foram

abordadas as diferenças entre os tipos de cabelo e os produtos utilizados para os cuidados dos fios. Nesse contexto, os principais autores citados foram Abraham et al.

(2009), Gavazzoni Dias (2007, 2015, 2019), Aguh & Okoye (2016); Draelos (2000a, 2010, 2013) e Haskin; Kwatra & Aguh (2017).

A estrutura da pele e suas funções, primeira parte do capítulo “Face” foi

fundamentada em Lai-Cheong & McGrath (2017), enquanto a classificação dos tipos

de pele foi discutida com base em Gupta & Sharma (2019), Roberts (2009) e Ware et

al. (2020). A análise dos cosméticos com cor foi feita, principalmente, a partir de

Draelos (2000b) e Guichard & Roulier (2010).

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3. HISTÓRICO

Os cosméticos são produtos que têm uso na manutenção da higiene e na melhora ou embelezamento da aparência de um indivíduo (STERCHELE, 2005).

Apesar de o uso dessas substâncias ter crescido significativamente ao longo das últimas décadas, estes produtos têm sido empregados desde a Antiguidade, fazendo parte do desenvolvimento da sociedade. Além de produtos para embelezamento e higiene, para algumas culturas ancestrais, os cosméticos eram utilizados para rituais religiosos e como símbolo da conexão com a natureza. Os egípcios, por exemplo, produziam perfumes a partir de flores, ervas e óleos vegetais para uso em rituais religiosos e para o embalsamento dos mortos (CHAUDHRI; JAIN, 2009), enquanto os samurais japoneses utilizavam maquiagem para “purificar o corpo, acalmar o espírito e decorar a alma com bravura” (NOZAKI, 2017, p. 7).

No Antigo Egito, os cosméticos eram produzidos e utilizados visando manter a limpeza e a aparência. Óleos e cremes eram utilizados para proteção contra o sol, calor e vento seco da região. Em papiros deste período são encontradas receitas de cosméticos preparados para prevenir e diminuir marcas de rugas (CHAUDHRI; JAIN, 2009; STUTTGEN, 1996).

Cerca de 2000 anos antes de Cristo, a Mesopotâmia se tornava uma região bastante rica e próspera, onde ocorria troca de plantas e temperos que eram utilizados para preparo de medicamentos, cosméticos e tinturas. Com a conquista dos persas sobre os babilônicos, o costume da região em usar maquiagem no rosto, foi adquirido pelos conquistadores e passou a ser espalhado por toda a região do Mediterrâneo (BLANCO-DÁVILA, 2000).

Durante a Idade Média, a população de maior status econômico e social da Europa passava mais tempo em ambientes internos, ao contrário da classe trabalhadora que, por sua vez, se expunha mais ao sol, adquirindo um tom mais escuro na pele. Por conta disso, o padrão de beleza girava em torno de tons de pele mais claros, fazendo com que homens e mulheres passassem a cobrir seus corpos com pó branco (CHAUDHRI; JAIN, 2009; DAVIS, 2013).

No final do século XIX, com o desenvolvimento tecnológico no contexto do

teatro, com ampliação de recursos cênicos, o alemão Karl Bodden desenvolveu

cosméticos para ornamentação dos atores (STUTTGEN, 1996). Entretanto, foi apenas

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em 1936 que foi criada a primeira base facial que adicionava cor e proporcionava uma aparência de veludo à pele (DAVIS, 2013). O produto foi criado por Max Factor, fabricante que já havia estabelecido uma boa reputação na indústria e com celebridades, utilizando sua influência para vender sua linha de produtos (WILLET, 2010).

Até o final do século XIX, era comum nos Estados Unidos da América que as mulheres consumissem cosméticos preparados em casa, principalmente produtos capilares (WILLET, 2010).

Segundo Willet (2010), por conta da segregação racial na América e a busca de empresários por criar um mercado de beleza voltado para a cor da pele e a textura do cabelo de afrodescendentes, no início do século XX, a indústria de beleza afro- americana surgiu. A princípio, os produtos eram voltados exclusivamente para o cabelo das pessoas pretas que se apresenta em fios fortemente enrolados (HOLLOWAY, 2003). Uma das primeiras linhas de produtos para cabelo foi criada por Annie Turnbo Malone, com o objetivo de alisar os cabelos das mulheres afro- americanas, sem causar danos aos fios (DAVIS, 2013; WILLET, 2010). Madame C.J.

Walker também entrou no mercado com produtos alisantes de produção caseira e venda de porta em porta. Eventualmente os negócios se transformaram em empresas, a Poro Company e a

Madam C.J. Walker Company, respectivamente, que se tornaram

nacionalmente famosas, através de agentes de vendas associados e publicidade em jornais da comunidade negra (WILLET, 2010).

Entretanto, o alisamento dos cabelos gerava críticas na comunidade por seguir um padrão de beleza branco, fazendo com que essas empresas dedicassem mais propaganda a seus produtos reivindicando que estes ofereciam uma boa preparação para o cabelo e melhora da saúde do mesmo (MCANDREW, 2010; WILLET, 2010), como o “Madam Walker’s Wonderful Hair Grower”, produto para o couro cabeludo com fórmula que tratava queda de cabelo (DAVIS, 2013).

Na década de 1920, essas empresas começaram a ofertar produtos

direcionados para o cuidado da pele e produtos com cor, principalmente pó compacto

(DAVIS, 2013). Apesar de controversos, nesse período começaram a surgir os cremes

clareadores de pele. Alguns empreendedores negros produziam esse tipo de

cosmético, mas por conta da polêmica, não faziam tanta propaganda destes, ao

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contrário dos empresários brancos, que faziam promoções agressivas, com imagens insensíveis de mulheres negras se tornando brancas (DAVIS, 2013; WILLET, 2010).

Apesar do sucesso que essas empresas e produtos faziam, os empresários negros ainda enfrentavam discriminação nos Estados Unidos e, por isso, durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, buscaram a expansão dos negócios para outros países (MCANDREW, 2010). A expansão se iniciou na Europa, onde os afro- americanos buscavam apoderar-se de parte do prestígio desse mercado, além de aperfeiçoar métodos e técnicas. Em seguida, houve interesse nos países da África e em alguns países das Américas, com a intenção de conquistar novos clientes e estabelecer essas marcas como referência em beleza negra (MCANDREW, 2010).

Ainda nesse período, iniciou-se um movimento de criação de companhias de cosméticos voltados para a comunidade afro-americana gerenciadas por pessoas não-negras. A principal expressão desse fenômeno foi a venda de perucas para mulheres negras por empresários asiáticos (WILLET, 2010).

No final da década de 1960 e durante as décadas de 1970 e 1980, os afro- americanos passaram a utilizar mais seus cabelos ao natural, com a ascensão do estilo Afro e das tranças e com o crescimento de serviços e produtos para cabelos não-alisados (WILLET, 2010). Muitos empresários atribuíram o declínio dos negócios à essa nova realidade, entretanto, durante esse período, os produtos alisantes ainda dominavam o mercado (WALKER, 2008; WILLET, 2010).

No decorrer destas décadas, houve declínio do mercado de beleza negra nos Estados Unidos devido às conquistas do movimento pelos Direitos Civis e Direitos das Mulheres, que alcançaram mais espaços para a população negra e, desse modo, mais oportunidades de carreira para essa comunidade, especialmente para as pessoas de classe média (WALKER, 2008).

No início da década de 1990, grande parte da produção de cosméticos era

voltada para a população branca (TALAKOUB; WESLEY, 2009). Enquanto os poucos

produtos para a comunidade negra estavam sendo tomados por grandes empresas

administradas por pessoas não pertencentes à comunidade, como a L’Oréal e Revlon,

que se utilizavam de celebridades negras para fazer a publicidade desses produtos

(WILLET, 2010). Mesmo após a virada do século, os produtos cosméticos voltados

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para a população negra eram majoritariamente produtos para cabelo, com uma pequena porcentagem de produtos para o cuidado da pele (HOLLOWAY, 2003).

GLEASON-ALLURED (2016) discute que na década de 2010 houve um

aumento na produção de cosméticos para populações multiculturais devido ao

surgimento de tendências por todo o mundo, em especial na Ásia; a mudança

demográfica (com crescimento da população etnicamente minoritária em países como

os Estados Unidos); e novas e tradicionais multinacionais levando esses produtos

para a grande mídia. Novas empresas voltadas para etnias específicas têm surgido

cada vez mais, com foco não apenas na comunidade negra, mas também em

asiáticos, hispânicos, pessoas do Oriente Médio e outros (JINDAL, 2016).

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4. MERCADO COSMÉTICO BRASILEIRO

O Brasil é o quarto maior mercado consumidor de produtos cosméticos, com consumo de aproximadamente 29 bilhões de dólares no ano de 2019, ficando atrás apenas dos EUA, China e Japão, sendo este último um país culturalmente propenso a um maior consumo deste tipo de produto (ABIHPEC, 2021; CAPANEMA, L.X.L;

VELASCO, L.O.M; PALMEIRA FILHO, P.L.; NOGUTI, M.B, 2007).

Estruturalmente o setor se organiza em pequenas e médias empresas nacionais com produção exclusiva de cosméticos e grandes empresas transnacionais que podem ter atuação diversificada, como Unilever, P&G e Johnson & Johnson, ou focada em produtos de higiene, perfumaria e cosméticos, como L’Oreal, Shiseido e Revlon ( CAPANEMA, L.X.L; VELASCO, L.O.M; PALMEIRA FILHO, P.L.; NOGUTI, M.B, 2007; GARCIA, 2005).

O Brasil é um mercado potencial para o setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (HPPC) por, além de ser importante fonte de insumos e princípios ativos, principalmente de origem natural, ter alta demanda por produtos diversos que atendam à pluralidade de tipos de cabelo e tons de pele existentes no país devido à alta taxa de miscigenação da população (ABIHPEC, 2011; MESQUITA et al., 2020).

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC, 2019) o movimento mundial de empoderamento feminino tem tido grande influência no setor HPPC, tendência também observada no Brasil.

Como um atributo para expressão da individualidade, e com a celebração da identidade pessoal, a população, principalmente as mulheres, têm passado a enaltecer e exibir seus cabelos ao natural como forma de reforçar a aceitação e orgulho conquistados com o empoderamento. Com esse rompimento da cultura de alisamento capilar surge a transição capilar, definida por Carvalho (2019) como:

Um processo que tem início com a decisão de parar de alisar quimicamente ou termicamente os cabelos, deixá-lo crescer até um comprimento desejado, e cortar as partes quimicamente alisadas que restaram, ou de uma vez só – ação que recebe o nome de Big Chop, ou grande corte, e se estende até o momento em que os cabelos estão completamente sem química, apresentando suas características naturais. (CARVALHO, 2019, p. 58)

Consequentemente, nos últimos anos, têm crescido a busca por produtos

específicos para cabelos cacheados e crespos, tipos predominantes no Brasil.

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5. CABELO

5.1. ESTRUTURA CAPILAR

O couro cabeludo tem cerca de 100.000 folículos pilosos que se estendem a partir da derme e através da epiderme até a superfície da pele e, além de conter a fibra capilar, é circundado por diversas estruturas envolvidas no crescimento do fio (ABRAHAM et al., 2009a; PINHEIRO et al., 2013; ROBBINS, 2012).

O cabelo é constituído majoritariamente por queratina, proteína organizada em α-hélice (figura 1) que, quando comparada a outros tipos de proteína, apresenta grande quantidade de enxofre, proveniente do aminoácido cisteína (PINHEIRO et al., 2013). Desse modo, quando as α-hélices estão próximas, as cadeias laterais formam ligações covalentes entre os átomos de enxofre – ligação dissulfeto –, que conferem estabilidade, firmeza e flexibilidade aos fios (ABRAHAM et al., 2009a).

Figura 1. Estrutura de α-hélice da queratina.

Fonte: Oliveira (2013)

A fibra capilar é formada por 3 camadas concêntricas, representadas na figura 2, cada qual com suas próprias características. A cutícula, parte mais externa do fio, é formada por células retangulares que se sobrepõem em camadas e tem como função controle do fluxo de água do fio e proteção do córtex, sendo a estrutura mais afetada pelo uso de cosméticos (OLIVEIRA; FERREIRA, 2020; ROGERS, 2019;

VELASCO et al., 2009). O córtex, região intermediária, corresponde à maior parte do fio, cerca de 80% em massa e formado por macro e microfibrilas. É nessa camada que estão presentes os grânulos de melanina, responsáveis pela coloração do cabelo (OLIVEIRA, 2013). Já a medula se apresenta como uma fina camada cilíndrica no centro do fio com alta concentração de lipídios e pouca concentração de proteínas.

Está presente apenas em cabelos terminais e sua função ainda não foi elucidada (LAI-

CHEONG; MCGRATH, 2017; VELASCO et al., 2009).

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Figura 2. Estrutura do fio capilar

Na figura a cutícula está identificada como escamas. Fonte: Oliver (2019)

5.2. CLASSIFICAÇÃO

5.2.1. Por etnia

Determinadas características do cabelo como diâmetro e segmento, forma da fibra (textura), propriedades mecânicas, penteabilidade, composição química e padrão de crescimento diferem entre as etnias e sua composição genética e, por tanto, o cabelo humano é geralmente classificado de acordo com os grupos étnicos em:

cabelo afro, cabelo asiático e cabelo caucasiano (DERMATOLOGIA, 2020;

FRANBOURG et al., 2003). Parte destas características como brilho, aparência geral, pontas duplas e penteabilidade podem ser reflexos dos cuidados com a cutícula (OLIVEIRA, 2013).

O cabelo afro apresenta eixo mais longo e em formato elíptico achatado, com

folículos também curvos, caracterizando o cabelo crespo. Os fios asiáticos

apresentam forma lisa e arredondada, enquanto o cabelo da população caucasiana é

intermediário (RICHARDS; ORESAJO; HALDER, 2003). O formato da haste capilar é

determinado pelo bulbo. Em cabelos crespos, um lado da cutícula se desenvolve

primeiro, caracterizando a textura enrolada, enquanto que em cabelos lisos a cutícula

se desenvolve uniformemente, gerando um fio reto e uniforme (ABRAHAM et al.,

2009a). Os três tipos de cabelo estão representados abaixo na figura 3.

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Figura 3. Comparação da secção transversal e diâmetro dos três tipos de cabelo.

Fonte: adaptado de Aguh & Okoye (2016)

Os cabelos crespos têm variação de diâmetro ao longo da fibra, apresentando menor diâmetro nos pontos de torção (DIAS et al., 2007). Esta característica, aliada ao fato de o cabelo crespo apresentar cachos com ângulos pequenos, leva a susceptibilidade de quebra quando mecanicamente manipulado (AGUH; OKOYE, 2016; DIAS, 2015; RICHARDS; ORESAJO; HALDER, 2003).

A composição de aminoácidos entre os 3 tipos de cabelo é semelhante,

entretanto a disposição dos aminoácidos contendo átomos de enxofre é diferente,

originando contrastes na estrutura dos fios (DIAS et al., 2007). As proteínas que

formam o fio são essencialmente proteínas estruturais, sendo a queratina a principal

delas (CRUZ et al., 2013). Segundo Thibaut et al. (2007, p. 3), num estudo da rede de

queratina no cabelo humano “conforme o grau dos cachos aumenta, a distribuição de

hHa8 [tipo de queratina ácida] passa a ser assimétrica, independentemente da origem

étnica”. Os autores ainda demonstram que no cabelo crespo, a queratina é

preferencialmente acumulada no lado côncavo da curvatura, paralela ao longo eixo

da elipse, de acordo com a figura 4 abaixo.

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Figura 4. Investigação imuno-histoquímica da distribuição de queratina no folículo capilar.

Em vermelho as células sem presença hHa8 e em verde as células com presença de hHa8.

Padrão de hHa8 em corte transversal de cabelo liso (d) e de cabelo cacheado (e). Fonte:

adaptado de Thibaut et al. (2007).

O cabelo humano possui lipídios no interior da fibra, dentre os quais se destacam colesterol, ácidos graxos livres e ceramidas (LISBÔA, 2007). Cruz et al.

(2013) mostram que a diferença mais significativa no conteúdo lipídico do cabelo crespo em relação aos outros tipos de cabelo é a quantidade de lipídios internos.

Também é demonstrado um leve aumento do conteúdo geral de lipídios no cabelo afro quando comparado aos cabelos asiático e caucasiano, o que pode justificar o menor índice de hidratação dos fios, uma vez que os domínios hidrofóbicos dificultam a entrada de água nos fios. Os lipídios em excesso também se intercalam aos dímeros de queratina, alterando sua estrutura. Já o sebo, produzido pelas glândulas sebáceas presentes no couro cabeludo, é um óleo natural que tem por objetivo proteger o fio de danos que podem ser causados pelo ambiente. Em cabelos mais lisos, este componente se move rapidamente da raiz às pontas dos fios, podendo causar a impressão de cabelo oleoso, processo que ocorre mais lentamente em cabelos cacheados e crespos (AGUH; OKOYE, 2016).

5.2.2. Por textura

No Brasil, devido à vasta miscigenação da população, a classificação dos tipos

de cabelo de acordo com a etnia não é viável, pois as mais diversas texturas se

manifestam em todas as raças. Este aspecto pode explicar a popularização da

classificação de Walker no país, que devido à boa aceitação da população, passou a

ser utilizada por diversas marcas em suas linhas capilares (LUZ, 2018).

(24)

Na década 1990, cabelereiro estadunidense Andre Walker, desenvolveu um sistema de classificação dos fios baseado em sua textura e curvatura (figura 5). Este modelo de categorização é, atualmente, o mais difundido entre profissionais e consumidores (KYMBERLEE et al., 2018). Segundo Walker, os cabelos podem ser categorizados em quatro tipos distintos: liso, ondulado, cacheado e crespo, numerados de 1 a 4, respectivamente, com subcategorizações – A, B e C – diferenciando a curvatura dentro da classe geral (WALKER, 2021).

Figura 5. Classificação de Walker de acordo com a curvatura

Fonte: Walker (2021)

O tipo 1 é o cabelo liso, caracterizado por ser fino, ter textura de frágil a áspera

e apresentar resistência a formação de curvas. Dentre os subtipos de cabelo liso, as

maiores diferenças estão no volume do cabelo e sua textura, sendo o tipo 1C o mais

áspero e resistente ao enrolamento. O cabelo enrolado, tipo 2, apresenta as mesmas

características de textura que o tipo anterior, mas apresenta frizz, ou seja, os fios não

se alinham uns aos outros, criando uma textura levemente difusa. As ondas

características desse tipo de cabelo tendem a seguir o formato da cabeça. O terceiro

tipo de cabelo, o cacheado, apresenta cachos que podem ser soltos, característicos

do tipo 3A, ou com aparência variando de espirais a saca-rolhas, como no caso do

tipo 3B. Por último, o cabelo crespo apresenta fios frágeis e finos que, geralmente

estão agrupados juntos, criando a impressão de maior densidade. As curvas são

(25)

justas e, no tipo 4B, apresentam padrão de zigue-zague (KYMBERLEE et al., 2018;

WALKER, 2021).

À esta classificação foram acrescentados mais dois subtipos de cabelo, o 3C e o 4C, categorias com as quais os consumidores brasileiros tiveram grande identificação (LUZ, 2018). O cabelo 3C tem cachos mais fechados e estreitos que os outros tipos de cabelo cacheado, assim como também apresenta maior volume e frizz.

Já o cabelo 4C é considerado crespíssimo e não tem definição dos cachos. A curvatura é em formato de Z e os fios são mais ressecados e opacos que os demais (SALON LINE, 2016a, 2016b).

A popularização desta classificação ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos, se deve à propagação da ideologia de autoaceitação do cabelo natural, impulsionada pelo sucesso da metodologia de cuidado capilar introduzida no livro Curly Girl: The Handbook, escrito pela americana Lorraine Massey, cofundadora da marca Deva Curl, especializada em cabelos crespos e cacheados (LUZ, 2018;

MASSEY; BENDER, 2010). Nesta publicação, Massey introduz a ideia de que cada curvatura deve ter uma rotina de cuidados personalizada, com xampus com pouco ou nenhum sulfato ou mesmo abolindo o uso deste produto de higiene (MASSEY;

BENDER, 2010).

5.3. XAMPUS E CONDICIONADORES

5.3.1. Xampu

Primeiramente, a função do xampu é limpar o cabelo e o couro cabeludo do sebo produzido e as sujeiras que nele estão contidas. Na atualidade funções secundárias são esperadas das formulações e podem ser a razão da escolha de um determinado produto em detrimento de outros (CRUZ et al., 2016).

Até a metade da década de 1930, os cabelos eram lavados com sabão em

barra. Entretanto, a mistura desse sabão com a água alcalina, gerava uma espuma

responsável por deixar os fios com aparência opaca. Em substituição ao sabão em

barra foram introduzidas as primeiras formulações de xampu, que consistiam de

sabonetes líquidos a base de óleo de coco que ensaboavam e enxaguavam melhor

que os sabões em barra. Ainda no final da década de 1930 foram criados os xampus

surfactantes, que têm bom desempenho mesmo com a água alcalina (DRAELOS,

2013).

(26)

Atualmente os xampus são formulados com agentes tensoativos com poder de eliminar a sujeira e o sebo do cabelo sem danificar o fio. São produtos que atuam diminuindo as tensões superficiais entre a água e a sujeira, permitindo que as sujidades sejam removidas durante o enxágue (AGUH; OKOYE, 2016). O processo de limpeza do cabelo envolve ainda um componente físico, pois parte dos resíduos se desentrelaçam do fio pelo atrito promovido pelo espalhamento do produto no início da lavagem (LUZ, 2018).

Tabela 1. Composição básica de xampu líquido

CLASSE DE SUBSTÂNCIA FUNÇÃO

TENSOATIVOS

Remover o sebo, as sujeiras ambientais e resíduos de produtos capilares do couro cabeludo e dos fios.

CONDICIONADORES Devolver parte do sebo ao cabelo, promovendo maciez.

CONSERVANTES Prevenir ou adiar a contaminação do produto durante sua produção e uso.

ESPESSANTES Aumentar a viscosidade do produto final.

REGULADORES DE PH Regular o pH da formulação.

PEROLIZANTES/OPACIFICANTES Propriedade organoléptica (visual).

UMECTANTES Reter água na formulação e nos cabelos.

ESSÊNCIAS/FRAGRÂNCIAS Propriedade organoléptica (odor).

VEÍCULO Homogeneizar a solução.

Fonte: Adaptado deAmiralian & Fernandes (2018a)

O tensoativo, ou surfactante, é o principal ingrediente do xampu e o responsável pela função de limpeza. O tensoativo é uma molécula detergente anfifílica, com sítios tanto hidrofílicos quanto lipofílicos (DRAELOS, 2010). O sebo e suas sujidades se ligam à porção lipofílica da molécula, enquanto a água é vinculada ao sítio hidrofílico, formando uma micela com o interior hidrofóbico. Com a redução da tensão superficial entre o sebo e a água, a sujeira é mais facilmente removida do cabelo e couro cabeludo (CLINE; UWAKWE; MCMICHAEL, 2018).

As moléculas detergentes são classificadas de acordo com sua tensoatividade em: aniônica, catiônica, anfotérica e não-iônica (AMIRALIAN; FERNANDES, 2018a).

Geralmente os xampus são elaborados a partir de uma combinação de alguns

(27)

tensoativos a fim de alcançar o efeito desejado, com o uso de uma molécula para limpeza e formação de espuma e outras para alterar a formação de espuma ou a viscosidade do produto final (CRUZ et al., 2016; DRAELOS, 2010).

Tabela 2. Classificação de surfactantes

CLASSE CARACTERÍSTICAS EXEMPLOS

ANIÔNICO Alto poder de detergência (limpeza profunda);

resseca o cabelo.

Lauril sulfato de sódio;

amônio lauril éter sulfato;

estearato de sódio.

CATIÔNICO

Baixo poder de

detergência; grande afinidade pelos fios;

promove maciez e penteabilidade

Quaternários de amônio:

cloreto de cetil-trimetil amônio; cloreto de benzalcônio.

ANFÓTERO

Detergência suave; pode agir como tensoativo catiônico ou aniônico dependendo do pH; não causa irritação nos olhos;

menos agressivos ao meio ambiente.

Cocamidopropil betaína;

ocoamidopropil hidroxisultaina.

NÃO-IÔNICO

Moderado poder de detergência, alto poder espessante, baixa irritação da pele e olhos; baixo custo.

Álcoois graxos; álcool estearílico; éster sorbitol.

Fonte: Adaptado de Luz (2018)

5.3.2. Condicionador

O papel primário de um condicionador é recuperar as cutículas alteradas pelas cargas negativas deixadas nos fios após a limpeza com o xampu, devolvendo a maciez e boa penteabilidade. É função desses produtos também recondicionar os fios danificados por traumas químicos ou mecânicos – escovação excessiva, secagem à quente, descoloração, permanentes e alisamentos – processo mínimo e temporário pois o cabelo não é um tecido vivo (DRAELOS, 2013). Podem ser produtos com ou sem enxágue, a diferença sendo o tipo e a concentração dos agentes condicionantes (AMIRALIAN; FERNANDES, 2018b).

Os agentes condicionantes podem ser divididos em duas categorias:

condicionadores catiônicos – surfactantes e polímeros – e condicionadores não-

iônicos – silicones, ésteres e óleos (HOLLOWAY, 2003). Os condicionadores

(28)

catiônicos apresentam ação antiestática, pois têm cargas positivas na molécula, o que permite a neutralização da carga negativa presente no cabelo após a lavagem. Suas cargas positivas também são a razão da rápida absorção do produto, pois interagem facilmente com o cabelo, aumentando seu brilho (RODRIGUES et al., 2019). Já os condicionantes não-iônicos são moléculas que interagem apenas com a superfície do cabelo, formando uma camada protetora ao redor dos fios, promovendo brilho, controle de frizz e proteção térmica (AMIRALIAN; FERNANDES, 2018a).

Produtos sem enxágue são formulados com menor concentração dos agentes condicionantes, pois, devido ao maior tempo de contato com os fios, pode haver contato com o couro cabeludo e consequente sensibilização deste (AMIRALIAN;

FERNANDES, 2018b).

O condicionador é o único produto utilizado na higienização do cabelo na popular técnica conhecida como

co-washing ou conditioner washing – lavagem com

condicionador em tradução livre (GAVAZZONI DIAS, 2019).

5.4. CO-WASHING, LOW-POO E NO-POO

Co-wahsing, low-poo, no-poo são técnicas de higienização e cuidados capilares

que utilizam produtos que não contenham ou contenham pouco sulfato em sua formulação. Associadas a essas técnicas há também o uso de produtos livres de petrolatos, silicones e parabenos (FLOR; MAZIN; FERREIRA, 2019).

Co-washing, técnica popularizada por pessoas de cabelos cacheados e

crespos, substitui o uso do shampoo na rotina de cuidados capilares por condicionadores enxaguáveis, promovendo uma limpeza mais gentil do cabelo (HASKIN; KWATRA; AGUH, 2017). Os produtos utilizados nesta técnica são condicionadores que usam tensoativos não-iônicos como principal surfactante, mas podem conter também tensoativos catiônicos e óleos em sua composição. Por não terem poder detergente muito grande, estes produtos podem não serem capazes de remover todo o sebo e sujidades acumulados principalmente no couro cabeludo (GAVAZZONI DIAS, 2019).

Os métodos de low-poo e

no-poo foram criados por Lorraine Massey (MASSEY;

BENDER, 2010). Esse sistema foi desenvolvido inicialmente para cuidados de cabelos

(29)

cacheados e crespos, mas atualmente é utilizada também para cabelos quimicamente tratados, danificados e sensíveis (GAVAZZONI DIAS, 2019).

O termo no-poo – sem xampu em tradução livre – se refere à higienização do cabelo sem produtos que contenham sulfatos. Diversas metodologias são abrangidas nessa definição como, por exemplo, limpeza com bicarbonato de sódio, vinagre de maça ou apenas água (GAVAZZONI DIAS, 2019). Enquanto o low-poo – pouco xampu em tradução livre – se refere à higienização com utilização de xampus sem sulfatos, petrolados e silicones insolúveis em sua composição. Os produtos que se encaixam nessa definição são comumente denominados “liberados” e contêm tensoativos anfotéricos (TOSTI; ASZ-SIGALL; PIRMEZ, 2020).

Tabela 3. Comparação entre os métodos

TÉCNICA

CO-WASHING NO-POO LOW-POO

DEFINIÇÃO Lavagem apenas com condicionadores

Lavagem com produtos livres de sulfatos

Lavagem com produtos com pouco sulfato

PRODUTOS À base de

tensoativos não- iônicos e catiônicos

Nenhum tensoativo

À base de tensoativos não- iônicos

TIPO DE CABELO

Crespos e

cacheados; sensíveis

Crespos e

cacheados;

danificados

Crespos e

cacheados;

sensíveis;

quimicamente tratados VANTAGENS Limpeza gentil, sem

ressecamento; não remove os lipídios naturais do cabelo;

limpa e desembaraça

Limpeza sem ressecamento;

manutenção da hidratação e nutrição dos fios, consequentemente aumentando a definição dos cachos

Limpeza sem ressecamento

DESVANTAGENS Não é suficiente para remover sujeiras

pesadas; uso

concomitante com

produtos com

silicones, petrolatos e óleos minerais pode causar acúmulo no

Não promove limpeza necessária para cabelos oleosos

Não promove limpeza

necessária para

cabelos oleosos

(30)

couro cabeludo; é necessário o uso de xampus tradicionais periodicamente para remoção de resíduos.

Fonte: Adaptado de Gavazonni Dias (2019); Tosti; Asz-Sigall & Pirmez (2020)

Estas tendências vêm na contramão do que foi padrão para os cabelos durante muitos anos: o alisamento. Segundo a ABIHPEC (2011), na segunda metade da década de 2000, os alisantes e afins tiveram crescimento de cerca de 80%, número motivado parcialmente pela multiplicidade de produtos com finalidade de alisar os fios, os deixando mais maleáveis e macios, sejam henês, relaxantes ou alisantes.

5.5. ALISANTES

O alisamento promove a quebra das ligações químicas presentes na molécula de queratina, de forma permanente ou temporária, alterando a estrutura tridimensional dos fios (ABRAHAM et al., 2009b). Alterações temporárias no formato do cabelo são obtidas pelo uso de aparelhos como secador e prancha modeladora e ocorrem pela quebra das pontes de hidrogênio da queratina na presença de água e modelagem do cabelo no formato pretendido. Estas ligações são restabelecidas com o aumento da umidade e, portanto, o alisamento só dura até a lavagem seguinte (CRUZ et al., 2016).

Já os alisamentos permanentes funcionam através da quebra das pontes dissulfeto presentes na queratina, tornando a fibra momentaneamente plástica, sendo possível alterar sua forma (ABRAHAM et al., 2009b; MELLO, 2010). Estas ligações são reconstituídas uma vez que o formato desejado é obtido.

Segundo Dias (2015) e Aguh & Okoye (2016), um dos primeiros procedimentos voltados para o alisamento dos fios foi realizado em cabelos afro, através da aplicação de óleos derivados do petróleo no cabelo, seguido da passagem de ferros ou pentes quentes, para ordenar os fios de forma esticada, método introduzido por Madame C.

J. Walker. Essa técnica sucedeu o uso de uma mistura caseira de ovos, batatas e

soda cáustica – deixada no cabelo até que a sensação de queimadura não fosse mais

suportada pelo indivíduo –, procedimento popular na década de 1940, quando o

químico George Johnson formulou a soda cáustica em uma base petrolada

(HOLLOWAY, 2003).

(31)

Entre as décadas de 1960 e 1970, alisantes químicos com fórmulas melhor desenvolvidas passaram a surgir no mercado, fazendo o uso de pentes quentes cada vez menos populares (MCMICHAEL, 2003). Atualmente, os alisantes são encontrados em formulações tanto para uso caseiro, quanto para uso profissional em ambiente adequado (TOSTI; ASZ-SIGALL; PIRMEZ, 2020). No Brasil, o uso de produtos para alisar e ondular os cabelos é regulamentado pela RDC 409 publicada no ano de 2020 (BRASIL, 2020).

Os alisantes a base de hidróxido são os mais utilizados em cabelos crespos por serem os mais eficazes (ABRAHAM et al., 2009b; TOSTI; ASZ-SIGALL; PIRMEZ, 2020). O hidróxido de sódio é o mais eficiente, mas pode causar irritação no couro cabeludo, enquanto o hidróxido de guanidina tem eficácia semelhante e não causa irritação, mas consiste de dois produtos diferentes (hidróxido de cálcio e carbonato de guanidina), que devem ser misturados no momento do uso. Hidróxido de lítio e de potássio também são usados para alisamento dos fios, mas com menor efetividade (AGUH; OKOYE, 2016; BOLDUC; SHAPIRO, 2001; DIAS et al., 2007; MELLO, 2010).

A ação dos alisantes dessa classe se inicia com a abertura das cutículas do fio, promovida pelo alto pH do produto, permitindo que o agente alcalino penetre na fibra capilar até atingir o córtex (DIAS, 2015). Os íons hidróxido rompem a ligação dissulfeto, substituindo os aminoácidos cistina por lantionina, em um processo denominado lantionização, representado na figura 6 (ABRAHAM et al., 2009b; CRUZ et al., 2016).

Figura 6. Lantionização.

Fonte: Martins Junior (2015)

(32)

Após esse processo o cabelo é bem lavado com um xampu ácido, para interromper a reação. O alisamento é refeito, idealmente, a cada 6-8 semanas, apenas no cabelo que acabou de emergir do couro cabeludo (HOLLOWAY, 2003).

Os tiós, como são conhecidos os derivados do ácido tioglicólico, constituem outra classe de produtos alisantes. Tioglicolato de amônio e tioglicolato de etanolamina são os principais representantes dessa classe, que promove alisamento mais suave que os produtos à base de hidróxidos (ABRAHAM et al., 2009b). Segundo DIAS (2015), são agentes redutores que enfraquecem as pontes dissulfeto dos aminoácidos cistina, ao invés de desfazer toda a proteína. A queratina então se torna maleável permitindo que seja enrolada ou alisada, com uso de bobes ou pranchas, respectivamente. O produto então é removido do cabelo através de lavagem e em seguida é aplicada uma solução neutralizante, geralmente peróxido de hidrogênio (DIAS, 2015; HARRISON; SINCLAIR, 2003).

Além da preocupação com o cabelo, o povo brasileiro, reconhecidamente

vaidoso, se preocupa com os cuidados com a pele, segunda categoria de produtos de

higiene e cosméticos no país, segundo a ABIHPEC (2011).

(33)

6. FACE

6.1. ESTRUTURA DA PELE

A pele é o maior e mais externo órgão do corpo humano e, portanto, tem grande influência na aparência de uma pessoa. Samson; Fink & Matts (2010) discutem que a condição da pele, assim como sua cor, são fatores que influenciam a percepção de atração de uma pessoa, podendo até influenciar na escolha de parceiros.

É dividida em 3 regiões principais: epiderme, derme e tecido subcutâneo. Este último compõe a camada mais interna da pele. A derme é a camada intermediária, enquanto a epiderme é a camada mais externa, onde ocorre a aplicação de cosméticos e produtos de higiene (LAI-CHEONG; MCGRATH, 2017).

A epiderme consiste de um epitélio estratificado composto principalmente por queratinócitos e, em menor quantidade, melanócitos (KOSTER, 2009). Os melanócitos são as células responsáveis pela síntese de melanina, que é armazenada em melanossomos que formam uma barreira ao redor dos queratinócitos, protegendo seus núcleos dos danos causados pela radiação ultravioleta (LAI-CHEONG;

MCGRATH, 2017). A camada mais externa da epiderme é constituída por corneócitos, queratinócitos que sofreram diferenciação e perderam o núcleo e as organelas citoplasmáticas, formando o extrato córneo, que age como uma inerte barreira de água (HARDING, C. R.; WATKINSON, A.; RAWLINGS, A. V.; SCOTT, 2000; LAI- CHEONG; MCGRATH, 2017).

6.2. CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE PELE

A pele geralmente é classificada de acordo com sua resposta a um estímulo, como luz ultravioleta, procedimento cosmético ou algum tipo de dano (GUPTA;

SHARMA, 2019). A mais reconhecida e utilizada é a classificação de Fitzpatrick,

introduzida em 1975, que classifica os tipos de pele de acordo com sua capacidade

de queimar e bronzear mediante radiação ultravioleta. Inicialmente esta classificação

contava com apenas 4 tipos de pele, mas foi atualizada em 1988 para incluir tons de

pele mais escuros (ROBERTS, 2009). A classificação está descrita na tabela abaixo.

(34)

Tabela 4. Fototipos de pele de Fitzpatrick.

FOTOTIPO CARACTERÍSTICAS SENSIBILIDADE AO

SOL I – BRANCA Queima com facilidade,

nunca bronzeia Muito sensível II – BRANCA Queima com facilidade,

bronzeia muito pouco Sensível III – MORENA CLARA Queima moderadamente,

bronzeia moderadamente Normal IV – MORENA Queima pouco, bronzeia

moderadamente Normal

V – MORENA ESCURA Queima raramente,

bronzeia bastante Pouco sensível VI – NEGRA Nunca queima, totalmente

pigmentada Insensível

Fonte: adaptado de Roberts (2009)

Roberts (2009) discute que essa classificação falha ao não permitir a avaliação de danos causados por procedimentos, como uso de laser, e também ao atestar que as peles mais escuras não sofrem nenhum impacto da radiação ultravioleta. Segundo Gupta e Sharma (2019), a cor da pele e seu fototipo são conceitos fundamentalmente distintos. Apesar disso, médicos e dermatologistas têm usado a categorização de Fitzpatrick para descrever a cor da pele de pacientes (WARE et al., 2020).

Outros métodos de classificação do tipo de pele estão disponíveis, entre eles:

escala de etnia de Lancer, classificação de Fanous, escala mundial de classificação de Goldman, escala de hiperpigmentação de Taylor e sistema de classificação de Roberts (GUPTA; SHARMA, 2019). Apesar disso, Ware et al. (2020) discute que devem ser desenvolvidos novos métodos para classificação e descrição da cor da pele que sejam culturalmente apropriados e clinicamente relevantes.

6.3. PIGMENTAÇÃO

A pigmentação é a principal característica, no que se refere a pele, que

diferencia as etnias. A cor é definida não pelo número de melanócitos – que não

apresenta variação considerável entre os grupos étnicos –, mas pelo número e

(35)

tamanho dos melanossomos, assim como o tipo de melanina majoritariamente presente (eumelanina ou feomelanina) (LAI-CHEONG; MCGRATH, 2017).

A variação de cores e tons na pele humana se dá pela ação de outros cromóforos além da melanina: hemoglobina, oxiemoglobina e carotenoides. Os tons de marrom encontrados em peles pretas, marrons e bronzeadas são provenientes da melanina, enquanto os carotenoides são responsáveis por tons amarelados e alaranjados. A hemoglobina e a oxiemoglobina refletem a luz em comprimentos de onda específicos, permitindo a reflexão do vermelho, característico em peles mais claras (RAWLINGS, 2006).

6.4. COSMÉTICOS COM COR

Segundo Draelos (2000) cosméticos faciais com cor são produtos desenvolvidos com o objetivo de, além de atender ao estilo individual, adicionar cor e camuflar imperfeições de pigmentação. Esta última função acrescenta importância médica, mesmo que o aspecto médico não seja uma grande motivação para o uso destes produtos.

Essa categoria de cosméticos é geralmente representada pela base, mas também abrange corretivos, pós, blushes, sombras, delineadores e outros, cada um com uma função específica (DRAELOS, 2000b; HOLLOWAY, 2003).

As bases são produtos geralmente aplicados no rosto inteiro para harmonizar sua cor. Podem ser formuladas a base de óleo, a base de água, livre de óleo e livre de água. Formulações a base de óleo são emulsões do tipo água em óleo (A/O), com os pigmentos suspensos na fase oleosa, direcionadas para peles secas. Após a aplicação, a água evapora, mantendo apenas o pigmento em base oleosa na face.

Formulações a base água são emulsões do tipo óleo em água (O/A), com apenas

pequenas quantidades de óleo, onde estão inseridos os pigmentos. São produtos

desenvolvidos para peles secas e normais e, apesar de serem menos estáveis que as

emulsões A/O, são mais populares. As bases livres de óleo são desenvolvidas para

peles oleosas, substituindo os óleos de origem mineral, vegetal e animal por derivados

de silicone. Já as bases livres de água são feitas a partir da mistura de diversos tipos

de óleos (animal, vegetal, mineral e derivados siliconados) com ceras para formação

(36)

de produtos com grande concentração de pigmentos (ANTONIOU; STEFANAKI, 2006; DRAELOS, 2000b). São produtos que podem ser formulados nas mais diversas formas e texturas, desde pós e pastas até emulsões fluidas e mousses, conforme demonstrado na figura 7.

Figura 7. Diversas texturas de base.

Fonte: Guichard & Roulier (2010)

A principal função da base é pigmentar a pele. Para peles brancas, é possível alcançar todos os tons com 7 ou 8 cores de base, enquanto para peles negras, são necessárias de 10 a 12 tons diferentes (DRAELOS, 2000b; WESTMORE, 2001).

Segundo GUICHARD e ROULIER (2010), a cor dos produtos é alcançada a partir de

uma série de colorantes aprovados pela legislação local, com certificação de serem

inofensivos para a pele, quimicamente puros e microbiologicamente limpos. São

pigmentos inorgânicos, como óxidos metálicos, nas cores amarelo, vermelho, branco

e preto – azul pode ser utilizado no lugar do preto para iluminar as bases mais escuras

–, como mostrado na imagem abaixo, aos quais podem ser adicionados perolizantes

com ou sem cor para acrescentar efeito lustroso à cor final.

(37)

Figura 8. Óxidos de ferro usados em maquiagem

Fonte: Guichard & Roulier (2010)

Com o uso das cores primárias (azul, vermelho e amarelo) já é possível recriar as cores de pele. O ajuste da intensidade da cor (clara ou escura) é feito com adição de pigmentos brancos, com exceção de bases para pele escura, onde o uso do branco deve ser feito apenas no final do processo, caso seja indispensável. Produtos para pele negra devem ser clareados usando tons dourados ou vermelhos brilhantes. Para escurecer a cor, são utilizados tons de azul e roxo, pois o uso de preto ou cinza pode causar diminuição da intensidade da cor obtida, ou ainda, deixar uma impressão de pele acinzentada após a aplicação do produto final (MIDDLETON, 2018).

Outro produto muito utilizado para harmonização da cor da pele é o corretivo.

Corretivos coloridos são utilizados para neutralizar as cores da pele provenientes de olheiras ou ainda de lesões e doenças (GUICHARD; ROULIER, 2010; OLIVEIRA et al., 2012). Abaixo é apresentada uma tabela com a relação de cores a serem utilizadas para neutralizar outras.

Tabela 5. Correlação entre a cor a ser neutralizada e a coloração do corretivo

COR A SER NEUTRALIZADA COR DO CORRETIVO

Vermelho Verde

Azul Laranja

(38)

Roxo Amarelo

Marrom Branco

Branco/ Rosa Marrom

Fonte: Oliveira et al. (2012)

A escolha da cor ideal para corrigir determinada imperfeição não é aleatória, mas é feita a partir da relação das cores obtida na estrela cromática de Oswald, representada na figura abaixo, onde cores opostas se neutralizam.

Figura 9. Estrela de Oswald.

Fonte: adaptado de Middleton (2018).

Vermelho

Verde

Laranja Roxo

Azul Amarelo

(39)

7. COMUNICAÇÃO DOS PRODUTOS COM O CONSUMIDOR FINAL

Segundo Kotler & Armstrong (2007), a embalagem de um produto é um fator que contribui para a decisão de compra do consumidor. Riaz et al. (2015) concluem em sua pesquisa que um bom design de embalagem de cosméticos aumenta a compra por consumidoras mulheres.

7.1. PRODUTOS CAPILARES

A popularização da transição capilar, com cada vez mais pessoas adeptas, assim como a divulgação das técnicas de low-poo, no-poo e co-wash, impulsionadas pela valorização do cabelo em sua textura natural, levou a uma mudança no mercado de produtos capilares. As empresas se voltaram a esse nicho em ascensão, alterando a comunicação na embalagem de seus produtos de modo a atender a demanda crescente por produtos que valorizassem o natural.

7.1.1. Décadas de 1980-2000

Dentre os produtos para cabelo, o xampu é a categoria com maior penetração

na sociedade, sendo utilizado por 90% dos brasileiros, segundos dados da ABIHPEC

(2011) e, portanto, foi a primeira categoria de produtos a diversificar seu escopo, tendo

produtos mais específicos para determinadas necessidades. Ainda segundo a

ABIHPEC (2011), até o início da década de 1990, os xampus tinham apenas quatro

variantes: para cabelos secos, para cabelos oleosos, para cabelos normais e

anticaspa (figura 9). Este último continha, além dos ingredientes básicos, ativos para

o tratamento da caspa, enquanto os outros xampus se diferenciavam pelo tipo e

quantidade de surfactante (TRÜEB, 2007).

(40)

Figura 10. Seleção de shampoos da década de 1990.

Na primeira linha, da esquerda para a direita: shampoo para cabelos secos, cabelos oleosos e todos os tipos de cabelo da marca Karina; na linha de baixo, shampoos Wella para cabelos secos, normais

e oleosos (da esquerda para a direita) e shampoo anti-caspa Selsun Azul. Fonte: Garcia (2018);

“Shampoo Karina” (2012).

Em meados dos anos 1990 começaram a surgir no mercado os xampus voltados para grupos étnicos específicos (ABIHPEC, 2017). A Seda, por exemplo, lançou no final da década sua primeira linha voltada exclusivamente para cabelos cacheados, conhecida como Hidraloe, com extrato de babosa (figura 10).

Figura 11. Seda linha Hidraloe.

Lançada em 1999, primeira linha da marca SEDA para cabelos cacheados. Fonte: “Seda Hidraloe 30s - Brazil, 2000” (2020).

(41)

Foi também durante na década de 1990 que os cremes para pentear foram introduzidos no mercado (ABIHPEC, 2017). A linha de Seda já tinha este produto no portifólio (figura 11), que tinha como claim o controle do frizz, característica de cabelos crespos e cacheados (GONÇALVES, 2007).

Figura 12. Creme para pentear da linha Seda Hidraloe.

Fonte: “Seda Hidraloe 30s - Brazil, 2000” (2020)

Posteriormente, a linha Hidraloe se tornou Cachos Comportados (figura 13). Essa linha, que até então continha uma mulher negra nas embalagens dos produtos, passou a ser representada por uma modelo branca e afirmava controlar “cachos rebeldes” e “com volume” (BARBOSA, 2020).

Figura 13. Seda linha Cachos Comportados

Fonte: “Beleza em cachos” (2021).

(42)

Introduzida na virada do milênio, outro lançamento da mesma marca foi a linha Keraforce (figura 14) que promovia o prolongamento do efeito liso obtido através de tratamento químico (BARBOSA, 2020). Apesar de ser direcionada especificamente para cabelos crespos e cacheados, os produtos não valorizavam as características naturais destes tipos de fios.

Figura 14. Seda linha Keraforce.

Lançada em 2000, primeira linha da marca SEDA para cabelos crespos quimicamente tratados.

Fonte: “Seda Keraforce - Brazil, 2000 ” (2012).

Em 2006, a Garnier lançou a linha Quimi-Resist inovando ao ser a primeira

linha para cuidados dos cabelos quimicamente tratados com ativos de frutas. A

divulgação publicitária da linha, apresentada abaixo na figura 15, trazia o texto “Rolou

uma química? Com cabelos 100% mais resistentes pode rolar muito mais”.

(43)

Figura 15. Garnier linha Quimi-Resist.

Anúncio da linha Quimi-Resist de Garnier Fructis para cabelos quimicamente tratados. Fonte: Cesario de Souza (2021).

Ao final da década de 2000, iniciou-se um movimento de valorização dos

cabelos ao natural. Nesse contexto, a Elsève lançou a linha Hydra-max (figura 16),

que prometia manter os cachos de cabelos “muito cacheados a crespos” hidratados e

definidos por até 24 horas. Apesar da linha também ter indicação para cabelos

crespos, é importante ressaltar que nem todos os cabelos crespos formam cachos

(CLOETE; KHUMALO; NGOEPE, 2019; NATURA, 2019).

(44)

Figura 16. Elsève linha Hydra-Max.

Fonte: “Novo ELSÈVE Hydra-Max de L´Oréal Paris” (2010)

7.1.2. Décadas de 2010-2020

Com o avançar da década de 2010, houve a consolidação da tendência de

valorizar os fios em suas características naturais ao invés de realizar tratamentos

químicos para promover o alisamento das fibras. Com isso, houve aumento na

quantidade de produtos e linhas específicas para cabelos crespos e cacheados.

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Figura 17. Coleção de linhas específicas para cabelos crespos e cacheados.

Linhas das marcas APSE, O Boticário, Skala e Salon Line específicas para cabelos cacheados e crespos. Fonte: Google imagens / reprodução

Nesse contexto, em 2017, a Seda lançou a linha BOOM (figura 18), que tinha

como conceito “Se eu sou cacheada, pra que alisar?” e apresentava produtos

assinados como cocriações de blogueiras (BARBOSA, 2020).

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Figura 18. Seda linha BOOM

Fonte: Gomes (2017)

Apesar de cabelos cacheados e, principalmente, crespos terem sido associados, por muito tempo, a pessoas negras, essas curvaturas podem estar presentes nos mais diversos tipos de pessoas, sem estar relação com a cor da pele.

Nesse sentido, as embalagens dos produtos apresentam cada vez menos o uso de

modelos e as marcas adotam uma comunicação mais diversa, utilizando a curvatura

dos fios para descrever a especificidade do produto (figura 19).

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Figura 19. Coleção de shampoos para determinadas curvaturas de fios

Da direita para esquerda: shampoo Pantene Pro-V para cabelos 2C-4C, shampoo Salon Line SOS Cachos para cabelos 3A-4C e shampoo Palmolive Cachos Livres para fios 4ABC. Fonte: Pinterest /

reprodução.

Outra mudança observada no mercado na última década foi o aumento da

procura por produtos que não contivessem sulfatos em sua formulação. Segundo

Matias (2018), a partir de dados obtidos de uma empresa de pesquisa de mercado,

durante a década de 2010, no Brasil, houve crescimento no lançamento de produtos

sem uso de sulfato na fórmula e também houve aumento na quantidade de produtos

que tenham “livre de sulfato” como claim. Esse fenômeno pode estar relacionado com

o aumento do interesse por técnicas de low-poo e no-poo.

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Figura 20. Reprodução do gráfico de número de lançamento de produtos sulfate free no mercado brasileiro.

Fonte: Matias (2018)

7.2. PRODUTOS FACIAIS

7.2.1. Diversidade de cores

Segundo Jardim (2014), até meados da década de 1980, maquiagem era um artigo de luxo para pessoas que tinham a oportunidade de viajar para o exterior ou ter contato com marcas estrangeiras. A indústria local era pequena e recente, oferecendo uma gama restrita de produtos. De acordo com a ABIHPEC (2011), esse setor vem apresentando crescimento desde 2004.

Apesar do crescimento da categoria, por muitos anos o que se viu no mercado foi a falta de produtos específicos para peles negras, mesmo num país onde aproximadamente 54% da população se autodeclara negra (preta ou parda), realidade justificada por muitos anos pelo mercado como falta de procura (JARDIM, 2014).

A falta de produtos específicos que atendessem às necessidades desse público

justifica a criação de pequenas marcas de maquiagem voltadas exclusivamente para

a população negra, como por exemplo a Muene – que em um dialeto angolano

significa “minha senhora” ou “meu senhor” – e a Negra Rosa, representadas abaixo

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