Evolução dos indicadores relacionados ao empreendedorismo no Brasil, uma análise do relatório GEM

Texto

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Evolução dos indicadores relacionados ao empreendedorismo no Brasil, uma análise do relatório GEM

Adriana Queiroz Silva (UNICENTRO) aqueirozsilva@uol.com.br

Resumo:

Diversas pesquisas têm dado importância ao empreendedorismo como um fator essencial para o crescimento e desenvolvimento econômico dos países. O empreendedor pode ser considerado como o motor da economia, um agente de mudanças. Devido a vários fatores, o comportamento dos empreendedores brasileiros vem se alterando na última década. Isso é o que tem mostrado a pesquisa internacional Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que é considerada como a mais abrangente pesquisa sobre empreendedorismo no mundo. De forma que o objetivo deste estudo foi descrever e avaliar a evolução dos indicadores relacionados ao empreendedorismo no Brasil, no período de 2000 a 2010 com base nos relatórios do GEM. A pesquisa foi realizada por meio de análise de conteúdo dos relatórios executivos da Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor - GEM a partir do ano 2000 até 2010, com uma análise comparativa entre os principais indicadores. Os resultados demonstram que, no Brasil, índices relacionados ao empreendedorismo vem melhorando ano a ano, mas estes ainda se encontram distantes de um empreendedorismo inovador, tendo em vista que os setores empreendidos são essencialmente tradicionais, ou seja, o brasileiro tem medo de arriscar em novos setores que demonstrem oportunidades de negócios.

Palavras chave

: Empreendedorismo, indicadores, GEM.

Evolution of indicators related to entrepreneurship in Brazil, an analysis of the GEM report

Abstract

Several researches have given importance to entrepreneurship as a key factor for growth and economic development of countries. The entrepreneur can be considered as the engine of the economy, a change agent. Due to various factors, the behavior of Brazilian entrepreneurs has been changing in the last decade. That's what research has shown the international Global Entrepreneurship Monitor (GEM), which is considered the most comprehensive research on entrepreneurship in the world. So that the objective of this study was to describe and assess the evolution of the indicators related to entrepreneurship in Brazil, in the period 2000 to 2010 based on the reports of the GEM. The research was conducted by analyzing the content of business reports Research Global Entrepreneurship Monitor - GEM from 2000 to 2010, performing a comparative analysis of the main indicators. The results demonstrate that indices related to entrepreneurship in Brazil is improving year by year, but still they are far from innovative entrepreneurship, considering that the work undertaken are essentially traditional sectors, the Brazilian afraid to venture into new sectors that demonstrate business opportunities.

Key-words:

Entrepreneurship, indicators, GEM.

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1 Introdução

Diversas pesquisas têm dado importância ao empreendedorismo como um fator essencial para o crescimento e desenvolvimento econômico dos países, podendo-se citar Schumpeter (1982) como um dos precursores em evidenciar a importância do empreendedor no desenvolvimento econômico, quando este afirma que “a essência do empreendedorismo está na percepção e no aproveitamento das novas oportunidades no âmbito dos negócios, e sempre tem haver com criar uma forma de uso dos recursos nacionais, em que eles sejam deslocados de seu emprego tradicional e sujeitos a novas combinações.”

Ainda, seguindo esta linha de pensamento, Dolabela (2004), afirma ser o empreendedor, o motor da economia, um agente de mudanças e que o termo empreendedorismo designa uma grande área de abrangência, abordando vários temas, além da criação de empresa, que são citados a seguir:

a) geração de auto-emprego (trabalhador autônomo);

b) empreendedorismo comunitário (como as comunidades empreendem);

c) intra-empreendedorismo (o empregado empreendedor);

d) políticas públicas (políticas governamentais para o setor);

e) pessoa que compra uma empresa e introduz inovações, assumindo riscos, seja na forma de administrar, vender, fabricar, distribuir, seja na forma de fazer propaganda dos seus produtos e/ou serviços, agregando novos valores.

Para Dornelas (2008),

o empreendedorismo é o envolvimento de pessoas e processos que, em conjunto, levam á transformação de ideias em oportunidades. E a perfeita implementação destas oportunidades leva á criação de negócios de sucesso.

Devido a vários fatores, o comportamento dos empreendedores brasileiros vem se alterando na última década. Isso é o que tem mostrado a pesquisa internacional Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que é considerada como a mais abrangente pesquisa sobre empreendedorismo no mundo. O presente estudo vem sendo executado anualmente, no Brasil, desde o ano 2000 pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade – IBQP e mede a evolução do empreendedorismo no Brasil e em outros países, permitindo a identificação de fatores críticos que contribuem ou inibem a iniciativa empreendedora. Segundo o Sebrae (2011), o referido estudo revela, entre vários aspectos, a taxa de empreendedorismo no País, o desempenho das mulheres empreendedoras, a participação dos jovens no universo empresarial e a motivação para empreender e além disso, revela tendências econômicas e sociais que podem ser determinantes para tomadas de decisões.

Os dados do GEM podem ser considerados relevantes indicadores como fonte de informação às organizações públicas e privadas, que estudam, investem, praticam e lecionam sobre empreendedorismo. Sandu (2008) aponta a falta de pesquisas sobre empreendedorismo em países emergentes. Tendo em vista que o Brasil é considerado um país emergente, é essencial intensificar forças para estudos direcionados ao empreendedorismo neste país, devido a relação entre a atividade empreendedora com o crescimento econômico.

Em uma investigação inicial, pode-se encontrar pesquisas incipientes relacionadas a análise temporal do relatório GEM em revistas, eventos, e instituições tais como, Revista da Micro e Pequena Empresa, SEMEAD, ENANPAD, Sebrae, entre outros.

Diante do exposto acima, identificou-se como problema de pesquisa: Como tem se

apresentado a evolução do comportamento da atividade empreendedora, no Brasil, no período

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de 2000 a 2010? De forma que o objetivo do estudo é descrever e avaliar a evolução do comportamento das variáveis relacionadas ao empreendedorismo no Brasil, no período de 2000 a 2010 com base nos relatórios do GEM – Global Entrepreneurship Monitor.

O interesse em refletir sobre a evolução do empreendedorismo no Brasil, entre 2000 a 2010 se deve, principalmente, a falta, nos livros atuais, de uma análise temporal da evolução do empreendedorismo no Brasil, ou seja, vários autores da área do empreendedorismo realizam análises referentes a este tema em determinado ano, mas não comparam os resultados ao longo do tempo a respeito da atividade empreendedora, no Brasil. Tal fato, traz uma visão distorcida e desatualizada da realidade do empreendedorismo no Brasil, pois uma vez em que os dados são expostos somente em determinado ano, há dificuldade em se obter uma compreensão mais aprofundada do fenômeno empreendedor no país e sua importância no crescimento econômico e na geração de empregos.

De forma que a presente pesquisa auxiliará pesquisadores, educadores e professores de empreendedorismo de todas as categorias de ensino.

2 Pesquisa Internacional Global Entrepreneurship Monitor (GEM)

O GEM - Global Entrepreneurship Monitor divulga, anualmente, o relatório das pesquisas realizadas em vários países, cujo objetivo é analisar como a atividade empreendedora se constitui em diferentes partes do mundo. Atualmente, o GEM é administrado pelo Global Entrepreneurship Research Association – GERA – organização esta fundada pela London Business School, no Reino Unido, e pela Babson College (EUA). Esta pesquisa global se iniciou no ano de 1999, e o Brasil participa desta pesquisa desde o ano de 2000, sob a coordenação do IBPQ – Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade. A tabela 1 mostra o número de países que participaram da pesquisa GEM, desde o ano de 1999.

Ano 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 número

de países 10 21 29 37 31 34 35 42 40 43 56 59 Fonte: elaborado pela autora

Tabela 1 – Número de países que participaram da pesquisa GEM anualmente

O GEM explora o papel do empreendedorismo no crescimento econômico nacional, revelando aspectos e características nacionais detalhados associados à atividade empresarial. O programa tem três objetivos principais:

- Medir as diferenças no nível de atividade empreendedora entre os países, identificando os diferentes tipos e fases do empreendedorismo;

- Descobrir os fatores que determinam, em cada país, seu nível de atividade empreendedora;

- Identificar as políticas públicas que podem favorecer a atividade empreendedora local.

Vale ressaltar que a pesquisa feita pelo GEM divide os países participantes em três categorias, de acordo com a sua fase de desenvolvimento econômico, conforme critérios definidos pelo Fórum Econômico Mundial. A seguir são explicitadas as características de cada uma destas categorias:

- Empreendedorismo em países factor-driven.

Países com baixos níveis de desenvolvimento econômico (factor-driven countries) têm,

tipicamente, um grande setor agrícola, que fornece subsistência para a maior parte da

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população, que na sua maioria ainda vive no campo. Essa situação altera-se assim que a atividade industrial começa a se desenvolver, muitas vezes em torno da extração de recursos naturais. Com a indústria extrativa se desenvolvendo, ocorre crescimento econômico, levando população excedente da agricultura a migrar em direção a setores industriais intensivos em mão de obra, que são muitas vezes localizados em regiões específicas. O resultado do excesso de oferta de mão de obra alimenta o empreendedorismo de subsistência (por necessidade) em aglomerações regionais, com os trabalhadores procurando criar oportunidades de autoemprego a fim de ganhar a vida.

- Empreendedorismo em países efficiency-driven

Com o setor industrial se desenvolvendo mais, instituições começam a surgir para apoiar a industrialização e a busca de maior produtividade por meio de economias de escala.

Normalmente, as políticas econômicas nacionais nessas economias emergentes moldam suas instituições econômicas e financeiras para favorecerem grandes empresas nacionais. Como o aumento da produtividade econômica contribui para a formação do capital financeiro, nichos podem ser abertos nas cadeias de fornecimento de serviços industriais. Combinado com o fornecimento de capital financeiro do setor bancário, isso estimula oportunidades para o desenvolvimento de pequenas e micro empresas da indústria de transformação que atuam em pequena escala. O Brasil se enquadra nesta categoria.

- Empreendedorismo em economias baseada na inovação – innovation-driven

Quando uma economia amadurece e aumenta sua riqueza, pode-se esperar que a ênfase na atividade industrial mude, gradualmente, em direção a uma expansão em setores voltados às necessidades de uma população cada vez mais rica, provendo serviços normalmente esperados em uma sociedade de alta renda. O setor industrial evolui, gerando melhorias em termos de variedade e sofisticação da produção. Tal desenvolvimento está tipicamente associado ao aumento nas atividades de P&D e a intensidade de conhecimento empregado nas atividades produtivas. Concomitantemente, ganham destaque instituições geradoras de conhecimento, tais como os institutos de pesquisa, universidades, incubadoras de empresas, entre outros arranjos institucionais. Esse desenvolvimento abre o caminho para o desenvolvimento do empreendedorismo inovador baseado na oportunidade. Muitas vezes, as pequenas empresas inovadoras e empreendedoras desfrutam de uma vantagem em relação às grandes empresas: a capacidade de inovar permite-lhes funcionar como “agentes de destruição criativa”. À medida que as instituições econômicas e financeiras criadas durante a fase de expansão da escala de produção da economia são capazes de acolher e apoiar a atividade empreendedora inovadora, baseada na oportunidade, podem emergir como importantes motores do crescimento econômico e da criação de riqueza.

Conforme ressaltam Nogami e Machado (2011), antes dos relatórios GEM não era possível comparar, detalhadamente, as nações em termos de empreendedorismo, e que a partir desta pesquisa global, há a possibilidade de realizar esta comparação por regiões, indicadores específicos, tipos de economia, períodos, e muitas outras informações que constam neste relatório.

3 Metodologia

Em função dos objetivos propostos, o trabalho foi realizado segundo uma metodologia descritiva, pois de acordo com Gil (2002), tem a intenção de investigar os elementos de um fenômeno relacionando diferentes variáveis.

Quanto ao seu delineamento, a pesquisa é considerada uma revisão bibliográfica, por meio de

análise de conteúdo dos relatórios executivos da Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor -

GEM a partir do ano 2000 até 2010, realizando uma análise comparativa entre os principais

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indicadores. De acordo com Vergara (1999) este é um tipo de estudo retrospectivo secundário que identifica, seleciona e avalia criticamente estudos primários, transformando a informação em conhecimento.

Utilizando-se do método qualitativo, o estudo irá descrever e avaliar a evolução do comportamento das variáveis relacionadas ao empreendedorismo no Brasil, no período de 2000 a 2010. Segundo

Ghauri e Gronhaug (1995), a pesquisa qualitativa é adequada para a realização de estudos sobre assuntos complexos relacionados ao comportamento, permitindo que o pesquisador obtenha informações muito mais detalhadas.

Este estudo apresenta como limitação focar-se apenas em referências bibliográficas de cunho descritivo. Para futuros estudos, sugere-se a aplicação de pesquisas quantitativas e/ou qualitativas, a nível local, regional ou nacional.

4 Evolução dos indicadores relacionados ao empreendedorismo no Brasil, uma análise do relatório GEM

Neste tópico são descritos e analisados cinco indicadores relacionados ao empreendedorismo no Brasil, com base nos relatórios GEM, no período de 2000 a 2010. Os indicadores selecionados para esta pesquisa foram: Taxa de empreendedores inicias (TEA), gênero, faixa etária, empreendedor por oportunidade ou por necessidade e grau de instrução. É importante comentar que o relatório consta de outros indicadores, além dos apresentados nesta pesquisa, que também são relevantes para pesquisas futuras.

A pesquisa GEM ocorre desde o ano de 1999 sendo que o Brasil participa desde 2000 e, atualmente, são mais de 50 países que participam desta pesquisa

A metodologia da pesquisa GEM se aperfeiçoa a cada ano, de modo que há informações e indicadores que vão sendo acrescentados e a cada ano um novo olhar para o fenômeno empreendedor é trazido para o relatório. Porém, há uma fator limitador, tendo em vista que nem sempre se consegue obter uma visão global de uma determinada variável, pois algumas variáveis não são comentadas em todos os anos do referido relatório.

4.1 TEA – Taxa de Empreendedores Iniciais

Para se entender o que significa a variável denominada TEA (taxa de empreendedores iniciais), se faz necessário descrever o processo empreendedor, que de acordo com o relatório GEM (2010), é composto de quatro etapas:

Etapa 1 - se refere aos empreendedores potenciais, que ainda estão no reconhecimento das necessidades ou que já estão com a ideia na cabeça, é a fase de concepção do empreendimento;

Etapa 2 – esta é a fase de nascimento da empresa (chamado de negócio nascente), quando a abertura do negócio já está tramitando, que compreende o período de 0 a 3 meses.

Etapa 3 – é a fase do novo negócio (chamado de negócio novo), que compreende a organização que tem de 3 até 42 meses de vida.

Etapa 4 – se refere a empresa já estabelecida, que possui mais de 42 meses de vida.

A Taxa de Empreendedorismo em Estágio Inicial (TEA), é a proporção de pessoas na faixa etária entre 18 e 64 anos envolvidas em atividades empreendedoras na condição de empreendedores de negócios nascentes ou empreendedores à frente de negócios novos, ou seja, com até 42 (quarenta e dois) meses de existência.

A tabela 2 mostra o comportamento do TEA, no Brasil, no período de 2000-2010.

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No decorrer do período 2000-2008, a taxa de empreendedores iniciais (TEA), no Brasil, obteve uma média em torno de 12,67%.

2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 12,30% 14,21% 13,52% 12,89% 13,48% 11,30% 11,65% 12,72% 12% 15,30% 17,50%

Fonte: elaborado pela autora, baseado em todos os relatórios GEM

Tabela 2 - Taxa de Empreendedores Iniciais (TEA)

Em 2004, o TEA era de 13,48% e o Brasil se encontrava como o sétimo país mais empreendedor entre os 34 países pesquisados.

Segundo o GEM (2010), no ano de 2010, o Brasil ocupou a 10ª posição no ranking mundial de empreendedorismo. A Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial (TEA) brasileira foi de 17,5%, registrando o melhor resultado dos 11 anos em que participava da pesquisa. Se for considerada, neste período, a população adulta brasileira (18 a 64 anos) de 120 milhões de pessoas, essa taxa representaria cerca de 21,1 milhões de brasileiros empreendedores. Essa foi a maior TEA desde que a pesquisa GEM é realizada no país, demonstrando a tendência de crescimento da atividade empreendedora. Sendo que neste mesmo ano, nos países do BRIC, o Brasil teve a população mais empreendedora em estágio inicial, a China teve 14,4%, a Rússia 3,9%, enquanto a Índia não participou da pesquisa nos últimos 2 (dois) anos. A figura 1, demonstra a evolução da TEA, no período 2002:2010.

De acordo com o relatório GEM, a variação de posição no ranking mundial de empreendedorismo sugere, por sua vez, a natureza dinâmica do empreendedorismo e sua íntima interdependência com os grandes fatores do desenvolvimento nacional. O número de países que participam da pesquisa a cada ano, a redução dos investimentos estrangeiros, o encolhimento dos mercados locais, a instabilidade dos parâmetros econômicos, as incertezas no contexto político, limitações na infraestrutura básica entre outros, têm impacto direto na exploração de novas oportunidades e na própria intenção em assumir riscos de difícil cálculo por parte do empreendedor.

Fonte: GEM (2010)

Figura 1 – Evolução da taxa de empreendedores iniciais (TEA) 2002:2010

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4.2 Gênero

Em 2001, a proporção era de 71 empreendedores para 29 empreendedoras em cada 100 novos negócios. Esta proporção foi diminuindo, até que em 2007, as mulheres ultrapassaram a taxa masculina (homens – 48; mulheres – 52, em cada 100). No entanto, neste ano de 2007, foi possível observar características diferentes da atividade empreendedora entre os gêneros. O negócio motivado pela necessidade era mais praticado por mulheres ao iniciar um negócio, pois enquanto 38% dos homens empreenderam por necessidade, essa proporção aumentou para 63% para as mulheres. Mas, quanto ao empreendedorismo motivado pela oportunidade, os homens representavam 60%, e as mulheres 40%. Esses dados indicam que as mulheres buscam alternativa de empreendimentos para complementar a renda familiar, ou ainda porque nos últimos anos elas vêm assumindo cada vez mais o sustento do lar como chefe da família (MACHADO, 2009).

Em 2005, as mulheres brasileiras eram menos atuantes em empreendimentos estabelecidos do que os homens. Dados acumulados de 2001 a 2005 revelavam haver dois homens para cada mulher à frente de negócios com mais de 42 meses.

Em 2009, para cada 100 novos negócios 53 são geridos por mulheres e 47 por homens. Em 2010, para cada 100 novos negócios 49 são geridos por mulheres e 51 por homens, mantendo o equilíbrio entre gêneros no empreendedorismo nacional. No ano de 2010, entre os 21,1 milhões de empreendedores iniciais brasileiros, 10,7 milhões pertencem ao sexo masculino e 10,4 milhões ao feminino.

A pesquisa revela que a mulher brasileira é, historicamente, uma das que mais empreende no mundo, perdendo apenas em Gana, país onde as mulheres atingiram TEAs mais altas que os homens, entre todos os 59 (cinqüenta e nove) países participantes da pesquisa em 2010. A tabela 3 demonstra a evolução, por gênero, do percentual de empreendedores iniciais.

Fonte: Freire, Corrêa, Ribeiro (2011)

Tabela 3 - Evolução do percentual de empreendedores, no Brasil, por gênero

4.3 Faixa etária

No ano de 2000, quanto ao perfil etário, no Brasil, o jovem iniciava mais cedo que os demais países, seu envolvimento com algum tipo de empreendimento. A faixa entre 18 e 24 anos representava uma taxa muito próxima da faixa de 25 a 34 anos, que era o segmento de maior incidência no âmbito internacional.

No ano de 2001, a maior concentração de empreendedores estava entre as pessoas com 25 a

44 anos. Já em 2003, a maior concentração de empreendedores estava na faixa de 25 a 34

anos.

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No ano de 2004, o comportamento da distribuição por idades do empreendedor brasileiro segue praticamente o mesmo padrão observado em todo o conjunto dos países pesquisados:

indivíduos na faixa dos 25 a 34 anos apresentam a maior taxa de empreendedorismo, sendo que, após os 35 anos, a atividade empreendedora declina, progressivamente.

No ano de 2005, o Brasil reproduz a dinâmica internacional. Aqui, a taxa de empreendedores entre os 25 e os 34 anos que estão em estágio inicial é de 16,6%; em seguida aparece a categoria dos 35 aos 44 anos, com taxa de 14,7%. Entre os empreendedores estabelecidos, a taxa daqueles entre de 45 a 54 anos é de 14,0%.

Em 2009, a faixa etária que tem a mais alta taxa é a que vai dos 35 aos 44 anos (18,7%), Em 2010, no Brasil, todas as faixas etárias tiveram aumentos nas taxas de empreendedorismo.

Verificou-se que a faixa etária que obteve a mais alta taxa é aquela que vai dos 25 aos 34 anos com 22,2%. Isto quer dizer que, neste ano, entre os brasileiros com idades entre 25 e 34 anos, 22,2% estavam envolvidos em algum empreendimento. Neste quesito, o Brasil segue a mesma tendência dos grupos de demais países analisados, nos quais esta é a faixa etária que prevalece.

A partir de 2008, os jovens de 18 a 24 anos ampliaram sua participação no universo empreendedor brasileiro. Em 2010, sem considerar a faixa etária mais empreendedora, de 25 a 34 anos, os jovens de 18 a 24 anos tiveram taxas superiores a dos brasileiros com 35 anos ou mais, demonstrando a jovialidade dos empreendedores em estágio inicial. Mais da metade, ou seja, 56,9%, dos empreendedores ainda não estavam na faixa etária de 35 anos de idade. O Brasil e a Rússia são os únicos países do G20 em que a faixa de 18 a 24 anos é mais empreendedora que a de 35 a 44 anos, após a faixa etária mais empreendedora de ambos os países, que é dos 25 a 34 anos. Ainda, se comparado ao grupo de países impulsionados pela eficiência, cuja taxa média é de 9,4%, o Brasil se destaca significativamente com uma taxa 85% mais alta.

4.4 Empreendedor por necessidade ou por oportunidade

O empreendedorismo por oportunidade representa atividades relacionadas com a criação de novas empresas (start-ups) que têm por objetivo explorar uma oportunidade específica de negócio, muitas vezes por iniciativa de indivíduos que mantêm ao mesmo tempo um vínculo normal de emprego. O empreendedorismo por necessidade é representado por atividades que são iniciadas pelo fato de o indivíduo não encontrar opções melhores de trabalho.

A distinção entre esses dois tipos de empreendedorismo permite uma percepção mais acurada do processo de criação de um negócio e, em consequência, uma melhor compreensão dos diferentes instrumentos e abordagens necessários na definição de políticas e ações dirigidas a este segmento. Estas 2 unidades foram incluídas na pesquisa a partir de 2001.

Quanto a esse aspecto, o Brasil apresenta desde 2003 mais empreendedores por oportunidade do que empreendedores por necessidade e em 2007, o Brasil atinge a razão de dois empreendedores por oportunidade para cada empreendedor por necessidade, fato a ser comemorado como o primeiro degrau de uma longa escada de desenvolvimento.

Em 2010, o Brasil supera a razão de dois empreendedores por oportunidade para cada empreendedor por necessidade, o que já havia ocorrido em 2008. Em 2010, para cada empreendedor por necessidade havia outros 2,1 que empreenderam por oportunidade. Este valor é semelhante à média dos países que participaram do estudo neste ano, que foi de 2,2 empreendedores por oportunidade para cada um por necessidade.

Contudo, o caso brasileiro, aparentemente, parece fugir das regras quando são analisados

outros aspectos. Enumerando os principais setores que concentram as novas empresas no

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Brasil, nota-se uma predominância de empresas ligadas ao comércio varejista (29% do total).

Em seguida aparecem empresas da indústria de transformação (14%) e alojamento e alimentação (11%). Estas três categorias respondem, assim, por mais de 50% do total. (GEM, 2010). Isso explica, por exemplo, o fato de que o empreendedorismo por oportunidade já é maior, mas os setores ainda são essencialmente tradicionais. O relatório GEM (2009) evidencia que o Brasil apresenta baixos índices de inovação nos negócios.

4.5 Grau de Instrução

No ano de 2002, quanto ao aspecto escolaridade, os dados extraídos para o Brasil mostravam que a maior incidência de criação de empresas (nascentes) se encontrava na população com o segundo grau completo, com 13,2%, seguida da população com o terceiro grau completo, com 12,8%, ficando o grupo sem educação formal com um taxa de participação de 5,9%. Se, por um lado, esse dado indica que a iniciativa empreendedora é um pouco maior no grupo com formação de 2.º grau, por outro lado, as taxas TEA e de novas empresas, ambas maiores no grupo com 3.º grau, sugerem que a formação educacional mais elevada favorece a manutenção de empresas. Esta afirmação se confirma pela correlação existente entre formação universitária e níveis de empreendedorismo.

Em 2004, apenas 14% dos empreendedores no Brasil tinham formação superior (completa ou incompleta), 30% dos empreendedores passaram menos de 5 anos nos bancos escolares, estando bem distante de completarem o ensino fundamental.

No que diz respeito ao estágio dos negócios, em 2005, a taxa de empreendedores iniciais com mais de 11 anos de estudo era de 16,7%, contra 10,9% para aqueles com até quatro anos de estudo. Em empreendedores estabelecidos, entre os que tinham mais de 11 anos de estudo, a taxa era de 12%, ao passo que entre aqueles com até quatro anos de estudo, essa taxa era de 8,3%

É evidenciado, em 2010, que a porcentagem de empreendedores com maior escolaridade tem aumentado nos últimos anos, vindo ao encontro do crescimento na escolaridade da população do país. Neste sentido, retornando as taxas de empreendedorismo para os níveis de escolaridade, as quais expressam a dinâmica do empreendedorismo em cada categoria, observa-se que a média do período de 2002 a 2010 revela, claramente, que à medida que aumentam os anos de estudo da população, crescem as taxas de empreendedorismo.

Conforme evidenciado na tabela 4, esse fato é ainda mais expressivo quando analisados sob a ótica da motivação. Quando avaliada a razão oportunidade/necessidade, nota-se a inexistência da influência da motivação no ato de empreender nas primeiras faixas de escolaridade.

Contudo, essa diferença torna-se significativa para as faixas de escolaridade mais altas, chegando a ter 4,6 empreendedores por oportunidade para cada 1 (um) por necessidade na faixa da população com mais de 11 (onze) anos de estudo.

Fonte: Pesquisa GEM 2010

Tabela 4 – Empreendedores iniciais segundo motivação e escolaridade – Brasil - 2010 – taxas %

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5 Papel dos pequenos negócios na geração de empregos

Os pequenos negócios são responsáveis pela maior parte das vagas de trabalho no Brasil.

Dados referentes a 2010 da Pesquisa de Emprego e Desemprego do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que os pequenos negócios geram dois em cada três postos de trabalho no setor privado.

O relatório GEM (2010) indica que boa parte das pequenas empresas pretende ampliar seus quadros. Entre os negócios com menos de 42 meses de existência, quase a metade planeja contratar entre um e cinco funcionários nos próximos cinco anos. Apenas um terço não pretende abrir vagas e o restante deve empregar mais de cinco pessoas nesse período. Com relação aos negócios estabelecidos, para os que têm mais de 3,5 anos, a previsão é de que 44% deles contratem entre um e cinco funcionários, 45% permaneçam com os quadros estáveis e o restante empregue mais de cinco pessoas.

6 Obstáculos e facilitadores do empreendedorismo Facilitadores

Como fatores facilitadores ao empreendedorismo podem ser citadas, de acordo com o relatório GEM, as incubadoras e parques tecnológicos. Sendo que o movimento de criação de incubadoras de empresas tradicionais e de base tecnológica, impulsionado na década de 1990, é um forte desencadeador de negócios, principalmente em áreas que usam alta tecnologia.

A crescente implantação de programas voltados ao ensino de empreendedorismo nas instituições de ensino, tanto fundamental, médio e superior, além de outros programas direcionados para o estímulo e preparo ao empreendedorismo são citados como impulsionadores do empreendedorismo.

Obstáculos

O acesso ao capital é considerado um dos maiores obstáculos. Os esforços feitos pelo governo para melhorar a situação ainda não evidenciaram um impacto real. Apesar da maior disponibilidade de capital, hoje, no Brasil, a dificuldade do pequeno empreendedor para o acesso a esse capital, ainda é fator restritivo. O principal entrave continua na pouca flexibilidade do sistema financeiro, incluindo instituições governamentais, no tocante a avaliação e co-participação no risco. A exigência de garantias reais afasta, na grande maioria dos casos, a busca efetiva de capitalização de projetos empreendedores.

A capacitação gerencial consequente de um sistema educacional inadequado e pouco voltado à criação de uma cultura empreendedora, também é considerado uma limitação ao empreendedorismo.

A estrutura educacional brasileira não estimula a criatividade, a autonomia e a independência, características que levam ao empreendedorismo. Este tipo de estrutura, também, desfavorece o desenvolvimento do empreendedorismo, principalmente devido a dois aspectos: a baixa qualidade da educação, principalmente nos níveis mais elementares, produzindo resultados negativos para a formação da força de trabalho em geral; por outro lado, os currículos escolares não preveem, de forma massiva e sistemática, a presença de conteúdos de ensino e promoção do empreendedorismo.

O Estado aparece como um algoz dos negócios, pois, além de não os apoiar, impõe um fardo tributário e regulatório extremamente pesado aos empreendedores brasileiros. A burocracia, o excesso de procedimentos para se abrir um negócio, é um emblema desta realidade.

As informações e os programas voltados ao empreendedorismo estão dispersos. Não há

integração, o que dificulta o acesso a ambos.

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A cultura brasileira é uma barreira quando privilegia a busca pelo emprego formal, a carreira em grandes e estabelecidas empresas, e não reforça a figura do empreendedor como alguém a ser admirado e imitado.

7 Considerações

Com relação a Taxa de Empreendedores Iniciais (TEA), no período pesquisado, esta vem demonstrando uma tendência de crescimento da atividade empreendedora.

Outro fator evidenciado é a elevada participação da mulher na criação de empreendimentos.

De acordo com os resultados das pesquisas, em 2010, confirmou-se o fato de que a mulher brasileira está entre as que mais empreendem no mundo. Desta forma, tendo em vista os fatores sociais e culturais que restringem, profissionalmente, a atuação feminina, se faz necessário uma política que estimule e facilite esta atividade, de modo que os negócios iniciais geridos por mulheres se transformem em negócios estabelecidos.

Sobre a faixa etária dos empreendedores, os jovens de 18 a 24 anos vem ampliando sua participação no universo empreendedor brasileiro. E o incentivo a participação dos jovens deve ser realizada por meio de programas direcionados a capacitação para o gerenciamento do negócio.

No que se refere ao empreendedorismo por oportunidade e por necessidade, o Brasil apresenta desde 2003 mais empreendedores por oportunidade do que empreendedores por necessidade e no ano de 2010 para cada empreendedor por necessidade havia outros 2,1 que empreenderam por oportunidade, sendo este valor, comparativamente, semelhante à média dos países que participaram no referido ano.

O empreendedorismo motivado por necessidade, muitas vezes, é guiado por empreendedores de baixo grau de instrução, o que instiga a pensar que os empreendimentos gerados nesse contexto tenham poucas chances de crescimento, ou baixo potencial para se tornarem importantes na geração de emprego, renda ou desenvolvimento para as famílias ou localidades onde estão inseridos. É claro que o empreendedorismo por necessidade gera empregos e renda, principalmente para o próprio empreendedor e sua família, auxiliando para o desenvolvimento do país.

A participação de empreendedores com maior escolaridade tem aumentado nos últimos anos, o que sugere que a formação educacional mais elevada auxilia na manutenção das empresas.

Outra informação interessante é que o nível de escolaridade mais alto influencia na motivação do ato de empreender. Na realidade, quanto maior a escolaridade, mais se empreende, realizando isto com uma melhor capacitação e qualidade.

A pesquisa GEM fornece uma visão ampla do empreendedorismo de modo regional e global.

O que se pode perceber, a nível Brasil é o que os índices relacionados ao empreendedorismo vem melhorando ano a ano, mas estes ainda se encontram distantes de um empreendedorismo inovador, tendo em vista que os setores empreendidos são essencialmente tradicionais, ou seja, o brasileiro tem medo de arriscar em setores inovadores que demonstrem oportunidades de negócios.

No Brasil, o GEM tem constituído uma rica base de dados e análises, cuja capacidade de descrição e avaliação das tendências do comportamento deste fenômeno tem subsidiado os mais variados agentes atuantes na área, na avaliação e formulação de políticas e programas.

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