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CIDADANIA COM HORA MARCADA Um estudo sobre as interações comunicativas no programa de voluntariado da Usina da Belgo em João Monlevade

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Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Federal de Minas Gerais

CIDADANIA COM HORA MARCADA

Um estudo sobre as interações comunicativas no programa de voluntariado da Usina da Belgo em João Monlevade

DULCEMAR JACQUELINE DA COSTA Orientadora: Profa. Dra. Maria do Carmo de Souza Reis

Belo Horizonte

2004

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CIDADANIA COM HORA MARCADA

Um estudo sobre as interações comunicativas no programa de voluntariado da Usina da Belgo em João Monlevade

Dissertação apresentada junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Comunicação Social.

Área de concentração: Comunicação e práticas sociais

Orientadora: Profa. Dra. Maria do Carmo de Souza Reis

Belo Horizonte

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG

2004

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CIDADANIA COM HORA MARCADA

Um estudo sobre as interações comunicativas no programa de voluntariado da Usina da Belgo em João Monlevade

Dissertação apresentada junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Comunicação Social.

COMISSÃO EXAMINADORA

Profa. Dra. Maria do Carmo de Souza Reis Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Federal de Minas Gerais Profa. Dra. Vera Regina Veiga França Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Federal de Minas Gerais Prof.Dr. Mauro Tavares Calixta Faculdade de Ciências Econômicas Universidade Federal de Minas Gerais

Belo Horizonte, 21 de maio de 2004.

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Ao Marcelo, pelo apoio incondicional a tudo o que faço.

Ao meu pai, Ademar, por não ter medido esforços para que eu tivesse acesso a boas escolas, e à minha mãe, Conceição, que me ensinou as primeiras letras e acha que estudo “é a coisa mais fina do mundo”.

(5)

Agradecimentos

À minha orientadora, Maria do Carmo, pela enorme paciência nas vezes em que “a ficha demorou a cair”.

À amiga Ana Amélia, grande incentivadora.

A Daniela, Michael e Renner, meus irmãos.

À equipe da BH Press, pelo suporte para que eu pudesse parar e me dedicar a esta pesquisa.

Ao pessoal da Belgo, Leonardo, Wellerson, Jaime, João Carlos e a todos aqueles que abriram as portas para viabilizar este estudo.

Aos professores e aos colegas que encontrei pelo caminho e que se apresentaram com a intenção

de ajudar.

(6)

Este estudo se propõe a compreender um programa de voluntariado corporativo e o seu potencial para instituir práticas de cidadania na empresa, a partir da análise das interações comunicativas que se estabelecem entre os voluntários que aderem a tais programas e entre estes e a empresa.

Para isso, analisa o Pró-Voluntário, programa de voluntariado do Grupo Belgo, na Usina de João Monlevade (MG). Com base nas discussões de Deetz (1998) e Reis (2000) sobre interações comunicativas, o estudo aponta se - na dinâmica interna do programa de voluntariado - as interações comunicativas tendem mais para o modelo informacional ou para o modelo dialógico.

Mostra também em que medida tais programas podem abrir espaço para o exercício da cidadania na empresa, conforme prevêem os slogans do voluntariado empresarial e a literatura sobre o tema.

Palavras-chaves: interações comunicativas, modelo informacional, modelo dialógico,

voluntariado, responsabilidade social e cidadania.

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1. INTRODUÇÃO... 1

2. VOLUNTARIADO, COMUNICAÇÃO E CIDADANIA NAS EMPRESAS... 11

2.1. O poder das corporações nas sociedades contemporâneas... 11

2.2. Responsabilidade social corporativa...13

2.2.1. O conceito adotado...18

2.2.2. Como a responsabilidade social se configura nas empresas brasileiras...19

2.3. Trabalho voluntário no Brasil...22

2.3.1. Definições, história e perfil do voluntário...22

2.3.2. Voluntariado empresarial...28

2.3.2.1. Como se configura nas empresas brasileiras... 31

2.4. Como o tema tem sido abordado...34

2.4.1. A empresa e o voluntariado sob o ponto de vista da comunicação...39

2.4.2. Perspectiva de análise: o modelo informacional e o modelo dialógico... 42

2.4.3. O que está sendo chamado de cidadania...45

3.METODOLOGIA...49

3.1 . A seleção do caso estudado...51

3.2. Técnicas de pesquisa e de coleta de dados...54

3.3. A escolha dos entrevistados...55

3.4. Outras fontes de informação...57

3.5. Tratamento dos dados... 58

4.O CASO ESTUDADO...61

4.1. Um braço brasileiro do maior grupo siderúrgico do mundo...61

(8)

4.1.1.2. A Fundação Belgo...64

4.1.1.3.Pró-Voluntário...66

4.2. A Usina de Monlevade...69

4.2.1. Os espaços de participação...70

4.2.2. Grande família...73

4.2.3. Nasce uma empresa, nasce uma cidade...74

4.3. Análise dos dados...81

4.3.1. Como o voluntariado se configura na usina da Belgo em Monlevade...81

4.3.1.1. Implantação...81

4.3.1.2. Como o programa está estruturado... 83

4.3.1.3. Como eles operam...84

4.3.1.4. Contrapartida da empresa...88

4.3.1.5. O papel da área de Comunicação...89

4.3.1.6. Perfil dos voluntários... 91

4.3.2. Interações comunicativas a partir do programa de voluntariado... 94

5. CONCLUSÃO... 119

ABSTRACT... 129

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 130

APÊNDICE...136

ANEXOS... 139

(9)

Gráfico 1 – Empregados que já eram voluntários antes do programa... 91 Gráfico 2 – Empregados que nasceram na região ou quem vivem em Monlevade há mais

de 10 anos... 92 Gráfico 3 – Tempo de casa dos empregados que são agentes voluntários... 93

Gráfico 4 – Proporção de homens e mulheres participantes do Pró-Voluntário...94

(10)

1. INTRODUÇÃO

Não sei se te contaram. Há uns anos, ele ganhou um prêmio de operário do ano. Sabe o que ele fez? Alugou um ônibus e levou os velhinhos do asilo para ver o mar pela primeira vez. Esse aí é fora de série! 1

Programas de voluntariado empresarial podem ser descritos como um conjunto de ações de empresas ou instituições para incentivar o envolvimento de seus empregados em projetos sociais na comunidade. Tais iniciativas geralmente são associadas a slogans de estímulo à cidadania e à defesa de princípios nobres, como a prática da solidariedade, e se mostram ligadas à marca da empresa ou da instituição que as promove, coordena e patrocina.

Essas ações começaram a ganhar força, como movimento, durante a década de 1980 nos países desenvolvidos e, no universo das organizações brasileiras, na segunda metade da década de 1990. Atualmente, empresas e instituições brasileiras de todos os setores e tamanhos têm desenvolvido práticas de voluntariado empresarial; cada vez mais, o número de adeptos cresce. Com isso, as empresas viabilizaram um nicho de atividades permanentes, paralelo às suas atividades produtivas, em que o ponto central e agregador de competências dos trabalhadores é o incentivo institucional formalizado para que eles realizem trabalhos sociais voluntários.

Esses trabalhos, consolidados em programas institucionais, integram, conforme detalhado no capítulo seguinte, as práticas de responsabilidade social corporativa, segundo as quais as empresas devem conduzir seus negócios de forma a se tornarem parceiras e co- responsáveis pelo desenvolvimento social das comunidades onde atuam e, mais amplamente, da sociedade em geral.

1 História contada e repetida por vários dos agentes voluntários entrevistados para esta pesquisa (2003).

(11)

Fischer (2002, p.225) deixa clara essa relação entre responsabilidade social e voluntariado nas empresas, apontando este como derivado daquela: “a proposta do voluntariado decorre do clima favorável estabelecido para seu florescimento, sempre que a organização assume o compromisso de se transformar em ‘empresa cidadã’ ”. É importante assinalar ainda que “a responsabilidade social não pode ser exigida apenas das organizações de mercado, mas de toda e qualquer forma organizativa, independentemente de quais sejam suas finalidades expressas, sua constituição jurídica, sua estrutura administrativa e financeira”

(FISCHER, 2002, p.222). Também McIntosh et al. (2001) defendem que a responsabilidade social é para todas as organizações, sejam elas privadas, públicas ou voluntárias. Em suas palavras:

Não importa se estamos falando de uma grande empresa fabril, uma escola local, uma instituição de caridade nacional ou uma pequena loja de família, todas as organizações possuem responsabilidades sociais que as tornam cidadãs corporativas, responsáveis ou não (2001, p.43).

Em Minas, o programa Voluntários das Gerais, uma iniciativa da Federação das

Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para incentivar as empresas a estimularem o

trabalho voluntário, pretende que, até 2005, 15% das indústrias mineiras com mais de cem

empregados tenham programas de voluntariado implantados, o que atingiria cerca de dois

milhões de trabalhadores (CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002). Embora lançado por

uma instituição representativa do setor industrial, o programa possui parceiros nas áreas de

comércio, de serviços e entre instituições, como a Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG), que tem representante no conselho executivo do Voluntários das Gerais. O

programa auxilia as empresas na implantação de projetos de voluntariado, oferecendo suporte

técnico, como cursos de capacitação de voluntários, palestras e publicações especializadas.

(12)

Levantamento feito pela Fiemg, em 2000, entre suas afiliadas, indicou que em um universo de 553 indústrias mineiras, 89% realizavam algum tipo de trabalho social; destas, 42% estimulavam a participação de seus empregados em trabalhos voluntários, embora isso não significasse que possuíssem programas estruturados de voluntariado (CORULLÓN &

MEDEIROS FILHO, 2002). No cenário nacional, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 1998

2

, mostrou que, até aquele ano, 36% das empresas que tinham algum tipo de atuação social na comunidade desenvolviam ações formais para estimular o trabalho voluntário entre seus empregados. Em pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Administração do Terceiro Setor (CEATS)

3

, em 1999, com 273 empresas de todo o país, Fischer & Falconer (2001) apontam que 48% delas afirmaram que seus funcionários atuam como voluntários em projetos sociais, com ou sem o apoio da empresa.

Trata-se de um movimento que desperta a atenção não apenas por sua proposta, mas pelo poder dos atores envolvidos, como bem demonstram os depoimentos a seguir de uma acionista e de um presidente de instituições financeiras que estão entre as maiores do país.

Em vez de falar só em números, o banco tem que mostrar essa parte humana do trabalho. Quando eu participava dos conselhos lá, nunca ouvia ninguém mencionar a palavra social. Quando o Matias começou a falar sobre tudo o que o banco fazia, comecei a chorar e fui abraçá-lo.4

O banco não é para ficar à mercê dos acontecimentos, ele tem um papel enquanto agente do desenvolvimento socioeconômico [...] É fundamental valorizar o desenvolvimento do nosso futuro, apoiando e acelerando a transformação da sociedade a partir de uma relação mais equilibrada entre lucro, as pessoas e o planeta [...] Acreditamos que a sociedade e o mercado

2 A pesquisa foi realizada em 1998, mas seus dados só foram publicados em 2000. Cf. Ipea, 2000.

3 Intitulado “Voluntariado Empresarial, Estratégias de Empresas no Brasil”, a pesquisa constitui o primeiro estudo sobre voluntariado empresarial realizado no país. Foi desenvolvida pelo CEATS-FEA-USP para o Programa Voluntários do Conselho da Comunidade Solidária, com apoio do Centro de Integração Empresa- Escola (CIEE), do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) e do Centro de Educação Comunitária para o Trabalho do Serviço Nacional do Comércio (Senac) de São Paulo. Seu relatório foi divulgado em julho de 1999 pelo Conselho da Comunidade Solidária.

4 Depoimento de Milú Villela, proprietária do Banco Itaú, o segundo maior banco privado brasileiro, e então presidente do Comitê Brasileiro do Ano Internacional do Voluntariado, ao Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa, 2001.

(13)

vão nessa direção. Alguns estão fazendo por convicção, outros por conveniência. Nós estamos fazendo por convicção. Quem faz por convicção faz antes e pode liderar.5

Não obstante seu poder econômico-financeiro, muitas vezes superior ao dos Estados, é sabido que, no contexto atual, as empresas exercem influências que ultrapassam o campo econômico, atingindo também os campos social e político (DEETZ, 1992, 1998). Reis (2000) lembra, ainda, que as organizações são um local de produção e reprodução simbólica capaz de influenciar a sociedade em seus vários níveis, sem que essa influência seja notada.

Também chama a atenção a visibilidade que, nos primeiros anos desta década, o tema voluntariado, quando associado a projetos de cidadania corporativa, tem recebido nos meios de comunicação. A revista Exame, por exemplo, principal publicação de negócios do país, desde 2000, edita anualmente o Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa em que destaca as empresas com maior atuação nesta área. O levantamento é realizado pela revista, com assessoria do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social

6

. A partir de 2003, a atuação social passou a contar pontos também para a classificação das empresas no Guia Melhores e Maiores, publicado anualmente pela mesma revista, há 30 anos. O Guia relaciona as 500 empresas maiores e de melhor desempenho do Brasil.

Não se trata aqui de defender que o mundo das corporações finalmente tenha adotado a garantia da sustentabilidade ambiental e social de seus negócios como prioridade absoluta.

O que se quer é chamar a atenção para o fato de que práticas de sustentabilidade e responsabilidade social vêm ganhando terreno no mundo dos negócios e em outros campos da

5 Depoimento de Fábio Barbosa, presidente do Banco Real, apresentado no seminário RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL: I SEMINÁRIO ABERTO EM MINAS GERAIS, Belo Horizonte, junho de 2002.

6 O Instituto Ethos é uma associação sem fins lucrativos, mantida pelas empresas e que, desde 1998, quando foi criado, vem ganhando notabilidade pela mobilização e pelo suporte técnico fornecido às empresas que desejam gerir seus negócios com base nos princípios da responsabilidade social.

(14)

sociedade até porque começam a ser reconhecidas, por pressão dos investidores e dos consumidores, como indicadores de sucesso das organizações. No estudo em que identifica os doze atributos das organizações consideradas excelentes e suas implicações para as relações públicas, Grunig (1992) lista a responsabilidade social ao lado de características como o tratamento dado aos recursos humanos, a manutenção de estruturas que valorizam a tomada de decisões compartilhadas, o estímulo ao empreendedorismo, a existência de uma cultura organizacional forte e participativa e as habilidades do líder da organização.

No meio acadêmico, a responsabilidade social e o voluntariado nas empresas vêm sendo pesquisados, sobretudo, em cursos e centros de estudos criados na década de 1990 para refletir sobre os impactos sociais do rápido crescimento do Terceiro Setor

7

no Brasil. São exemplos o já mencionado Centro de Estudos de Administração do Terceiro Setor (CEATS), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, da Universidade de São Paulo (USP); o Núcleo de Estudos em Administração do Terceiro Setor (NEATS), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e o Centro de estudos do Terceiro Setor (CETS) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), da Fundação Getúlio Vargas. Conforme Fischer,

Pesquisas, estudos e artigos sobre responsabilidade social no Brasil são produzidos de forma crescente no campo da Administração e das Ciências Sociais nos últimos cinco anos, refletindo simultaneamente a percepção da lacuna existente, a constatação do baixo interesse que havia pelo tema e a necessidade de retomá-lo dentro de uma ótica que se globaliza (2002, p.221).

7 Gohn (2000, p.8-9) define o Terceiro Setor como “conjunto heterogêneo de entidades composto de organizações, associações comunitárias e filantrópicas ou caritativas, alguns tipos específicos de movimentos sociais, fundações, cooperativas, e até algumas empresas autodenominadas como cidadãs”. Tais entidades costumam fazer interface com as empresas oferecendo suporte técnico, gerenciando programas sociais que levam a chancela da empresa ou recebendo os voluntários da organização. Além disso, algumas empresas criam fundações e associações que se enquadram entre as entidades filantrópicas. Vem daí a relação entre responsabilidade social nas empresas e voluntariado empresarial e o Terceiro Setor. Este estudo não se inclui entre as pesquisas sobre Terceiro Setor visto que o seu foco são as dinâmicas internas de um programa de voluntariado no ambiente empresarial.

(15)

Apesar disso, ainda é escassa a produção científica sobre a responsabilidade social das empresas e, especialmente, sobre as suas práticas institucionais de voluntariado. Este trabalho pretende ajudar a preencher essa lacuna, contribuindo para uma melhor compreensão do voluntariado empresarial, com uma análise crítica e em profundidade do programa de voluntariado de uma empresa de grande porte – o Grupo Belgo em sua usina siderúrgica de João Monlevade (MG).

Para tanto, o estudo se serve dos recursos teórico-analíticos do campo da comunicação social, com um enfoque que foge à dimensão meramente instrumental, que equivaleria, segundo Reis (2004), a tratar a comunicação apenas como suporte para influenciar as relações que promove. Corullón & Medeiros Filho (2002) dão uma mostra do que seria esse papel instrumental da comunicação em um programa de voluntariado quando afirmam que “um bom trabalho de recrutamento [de voluntários] precisa ter como base a sensibilização dos funcionários a partir de uma estratégia de comunicação interna” (2002, p.87), ou ainda, que a divulgação interna do voluntariado é “fundamental para conquistar corações e mentes. Há muitas formas de divulgar o voluntariado: das reportagens do jornal interno ao button usado por quem participa do programa” (2002, p.103).

Em contraposição a essa abordagem, neste estudo, a comunicação será tratada em sua dimensão constitutiva dos processos sociais e, portanto, dos processos organizacionais entre os quais o programa de voluntariado está incluído. Isso significa que a comunicação será compreendida a partir de práticas e padrões interlocutivos que constituem e instituem as organizações (REIS, 2004). Trata-se, portanto, conforme detalhado no capítulo seguinte, de uma abordagem mais abrangente, que nos permite considerar o voluntariado empresarial como prática comunicativa.

Com base nessa perspectiva e nas discussões de Deetz (1998)

(16)

sobre formas de interação que se estabelecem entre as empresas e seus públicos ou

stakeholders8

- dos quais os empregados são parte – buscou-se responder à seguinte questão:

na dinâmica interna de um programa de voluntariado empresarial, as interações comunicativas

9

tendem mais para o modelo informacional ou para o modelo dialógico?

Conforme explicitado no capítulo seguinte, o primeiro desses modelos estaria mais voltado para o controle enquanto o segundo, para a participação e a negociação (DEETZ, 1998;REIS, 2000).

A partir dessa discussão, que constitui o eixo-central desta pesquisa, buscou-se levantar e responder a outras questões relativas à compreensão do voluntariado e que ainda estão por ser mais bem entendidas. A primeira delas é que tanto as empresas envolvidas em programas de voluntariado quanto os autores que tratam do tema (LANDIM & SCALON, 2000; FISCHER & FALCONER, 2001; GARAY, 2001; MELO NETO & FROES, 2001;

CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002; SILVEIRA, 2002, entre outros) relacionam o trabalho voluntário ao estímulo à cidadania, embora não se preocupem em definir claramente o que estão chamando de cidadania.

Os discursos das empresas e mesmo os estudos sobre voluntariado parecem referir-se à preocupação com questões sociais e ao maior envolvimento do empregado com os problemas de sua comunidade. Corullón & Medeiros Filho (2002, p.51) apontam o potencial do voluntariado para transformar a realidade: “Trata-se de fortalecer pessoas e organizações, ajudar a formar cidadãos capazes de se apoiar mutuamente para que eles próprios mudem a realidade de suas comunidades”.

8 Termo usado para se referir aos públicos com potencial de influenciar a atuação da organização (Freeman 1984 apud Carroll, 1999) e que, segundo Carroll (1999), dá nome e uma face para os grupos importantes para o negócio e aos quais a empresa deve ser sensível.

9 A expressão “interações comunicativas” é originária dos estudos de Habermas (1984). Neste estudo, o termo foi retirado de Deetz (1998), que reconhece abertamente a influência do autor alemão sobre sua obra, e pode ser entendido como processos de construção e negociação de significados (DEETZ, 1998; BRAGA, 2001;

FRANÇA, 2002a).

(17)

No entanto, não foram encontrados, na bibliografia pesquisada, estudos que contribuíssem para a discussão do potencial do voluntariado para conduzir à prática da cidadania pelos trabalhadores, no âmbito da empresa. Uma cidadania que, conforme a acepção defendida por Santos (2001) e adotada neste estudo, pode ser traduzida como maior abertura para que o trabalhador influencie no curso dos acontecimentos que dizem respeito ao seu dia-a-dia na empresa e para a prática de relações mais próximas, mais solidárias e menos marcadas pela rigidez das hierarquias, como é típico nas grandes organizações. É preciso esclarecer, por exemplo, se em empresas com programa de voluntariado próprio, o empregado teria voz ativa para decidir apenas com quais tintas pintar a fachada do prédio a ser reformado no próximo mutirão dos voluntários ou se também seria convocado para definir a destinação dos investimentos sociais da empresa ou para participar da escolha do melhor plano de carreira para os trabalhadores da organização. Corullón & Medeiros Filho (2002, p.57) sinalizam a relevância dessa discussão - embora não a desenvolvam - quando perguntam:

“Que reflexos o voluntariado terá sobre a rigidez hierárquica ainda comum em diversas empresas?”

Este estudo pretende fornecer elementos que ajudem a discutir a relação entre voluntariado e estímulo à cidadania no âmbito das empresas. Conforme exposto no capítulo seguinte, o modelo dialógico é o que está mais voltado para a participação dos sujeitos nos processos em que se vêem envolvidos. Segundo Deetz, no processo de comunicação dialógica, “o significado é sempre incompleto e parcial, e a razão de um sujeito se dirigir aos outros é melhor compreender o que ele e os outros querem dizer, esperando encontrar maneiras novas e mais satisfatórias de estar juntos” (Deetz, 1998, 97-98)

10

.

É importante esclarecer que entre as interações possíveis a partir da prática do

10 Traduzido do original em inglês: “Dialogic communication suggests that meaning is always incomplete and partial, and the reason I talk with others is to better understand what I and they mean, hoping to find new and more satisfying ways of being together”.(Deetz, 1998, 97-98)

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voluntariado (interações empresa/comunidade, empregados/comunidade, empresa/familiares, por exemplo), aquelas de interesse para este trabalho são as que ocorrem nas dinâmicas internas do programa, estabelecidas entre os empregados que aderiram ao voluntariado e entre estes e a empresa.

A partir do estudo dessas interações buscou-se compreender ainda: como o voluntariado - por definição uma prática espontânea, que depende da boa vontade de pessoas que se dispõem a trabalhar sem remuneração e sem contrapartida de qualquer espécie - se constitui no dia-a-dia de uma grande empresa? Ele é um desejo e opção próprios do trabalhador que se oferece como agente voluntário? É uma imposição da empresa aos seus trabalhadores, por exemplo, via valorização do trabalho voluntário na contabilidade dos planos de cargos e salários? É algo que se viabiliza dentro do tempo remunerado da jornada de trabalho ou necessariamente se estende ao tempo de lazer do trabalhador? Nas práticas de voluntariado das empresas, as interações se configuram, na maior parte do tempo, como coordenação de esforços dos envolvidos (empregados de diversos níveis hierárquicos da empresa, que trabalham como voluntários) ou como dominação da perspectiva de uns sobre os outros?

Enfim, a partir da análise das interações comunicativas nas dinâmicas internas do

voluntariado nas empresas, buscou-se abrir perspectivas para a compreensão do potencial

desses programas para instaurar – ou não - maior abertura para o diálogo, relações balizadas

mais pelo respeito do que pela subjugação hierárquica, discussão conjunta de regras e

implementação de práticas relacionadas à vida dos trabalhadores, ao destino das organizações

e à tomada de decisões compartilhadas, conduzindo à prática efetiva da cidadania dentro das

empresas. Trata-se de uma discussão importante, já que as práticas de comunicação dialógica

são centrais para o desenvolvimento de uma nova e vital democracia nas sociedades

contemporâneas (DEETZ, 1998).

(19)

O estudo está estruturado da seguinte forma: o capítulo II discorre sobre o papel das empresas como um dos mais – talvez o mais – importante ator do cenário da vida contemporânea. Além disso, resgata a origem do discurso e dos conceitos da responsabilidade social, descreve as suas práticas nas empresas brasileiras, antes de entrar especificamente na apresentação do voluntariado empresarial e no tratamento que o tema tem recebido em estudos recentes no Brasil. No capítulo II, é apresentada, também, a concepção de comunicação que possibilitou analisar o voluntariado como prática comunicativa e os modelos de interação que embasaram a análise de dados e direcionaram a busca de respostas para as questões da pesquisa. Além disso, o ambiente das empresas é caracterizado a partir dos mecanismos de controle existentes nas organizações. Buscou-se, ainda, explicar o que está sendo chamado de exercício da cidadania no âmbito das organizações, numa clara contraposição a essas práticas de controle.

O terceiro capítulo é a descrição do modo como a pesquisa foi conduzida para tentar apreender respostas às indagações apresentadas aqui. O quarto capítulo apresenta o caso estudado. Durante cinco meses, a pesquisadora acompanhou grupos de trabalhadores envolvidos no programa de voluntariado da Belgo em sua usina de João Monlevade. O capítulo descreve a empresa, seus programas sociais, com ênfase para o voluntariado empresarial, e traz a análise dos dados da pesquisa de campo.

O quinto e último capítulo é a conclusão, em que são discutidas as contribuições do

presente estudo para o entendimento das práticas de voluntariado corporativo e para a relação

entre voluntariado e cidadania nas empresas. Destaque é dado para como a análise a partir das

teorias da comunicação conduz a uma melhor compreensão do voluntariado empresarial, ele

próprio uma prática comunicativa. Adicionalmente, são destacadas algumas questões

suscitadas pelo estudo e que sugerem temas para futuras pesquisas.

(20)

2. VOLUNTARIADO, COMUNICAÇÃO E CIDADANIA NAS EMPRESAS

2.1. O poder das corporações nas sociedades contemporâneas

Já foi dito que o tema da cidadania empresarial tem ganhado destaque na última década e, no bojo dessas discussões, o tema do voluntariado empresarial. Isso se deve, em grande parte, à importância que as organizações empresariais, em especial as grandes corporações, conquistaram no contexto contemporâneo. Para se ter uma idéia, em 2000, o faturamento das dez maiores empresas do mundo (US$ 1,5 trilhão) foi 40% superior à soma dos Produtos Internos Brutos dos oito maiores países da América Latina (Brasil, México, Argentina, Venezuela, Colômbia, Peru, Uruguai e Chile)

11

.

Trata-se de um poder que não se restringe ao campo econômico; ao contrário, as decisões tomadas na esfera privada das corporações refletem-se nos vários campos da vida em sociedade, afetando seu nível de bem-estar, seus valores e estilo de vida. Deetz (1992) afirma que, em muitos aspectos, as corporações exercem influência na socialização dos indivíduos comparável ou superior a outras instituições, como o Estado, que cumpre o papel de assegurar a ordem e o crescimento econômico, a família e a religião, que provêem valores, identidade e suporte emocional aos indivíduos, e a escola, cuja função seria a de favorecer a autonomia e o pensamento crítico dos indivíduos. Segundo suas palavras, “os valores e práticas do local de trabalho estendem-se ao mundo do não trabalho através da estruturação do tempo, do conteúdo educacional, das distribuições econômicas, do desenvolvimento de produtos e da criação de demandas”

12

(1992, p.17).

11 INSTITUTO ETHOS REFLEXÃO (2001).

12 Traduzido do inglês: “Workplace values and practices extend into nonwork life through time structuring, educational content, economic distributions, product development, and creation of needs” (DEETZ, 1992, p.17).

(21)

Em reflexões posteriores, feitas nessa mesma direção, Deetz (1998) lembra que as organizações têm poder de decisão sobre o uso dos recursos naturais, o desenvolvimento de produtos, a distribuição de renda, a natureza do trabalho e do lazer, o desenvolvimento tecnológico, as relações de trabalho entre as pessoas, a produção de conhecimento, a divulgação de notícias, o padrão de consumo baseado em estilos de vida e a formação de identidades pessoais

13

. O autor afirma que as corporações comerciais são instituições políticas, com efeitos políticos, já que, mais do que o Estado, tomam decisões que afetam a sociedade em geral, seu bem-estar e comportamentos (DEETZ, 1998).

Beck (1997), em suas reflexões sobre a reinvenção da política na contemporaneidade

14

, refere-se às empresas como “catedrais do poder”. Citando Marx e Engels, ele relembra que o modo de produção capitalista, para se manter, precisa se renovar permanentemente. As conseqüências desse processo não ficam restritas ao âmbito produtivo, ao contrário, elas se alastram e atingem todos os relacionamentos sociais. Segundo Beck (1997), o que o marxismo não previu é que

[...] não é a luta de classes, mas a modernização normal e a modernização adicional que estão dissolvendo os contornos da sociedade industrial. A constelação que está surgindo como resultado disso também nada tem em comum com as utopias até agora fracassadas de uma sociedade socialista [...] o que se enfatiza é que o dinamismo industrial, extremamente veloz, está se transformando em uma nova sociedade sem a explosão primeva de uma revolução, sobrepondo-se a discussões e decisões políticas de parlamentos e governos. (1997, p.13).

O grande poder das corporações para tomar decisões que influenciam a vida coletiva constitui uma ameaça às democracias representativas, uma vez que são os membros dos

13 É certo que se trata de um poder relativo visto que é limitado, por exemplo, pela legislação ou pelas pressões dos grupos organizados da sociedade. O autor parece, no entanto, querer destacar a força das organizações e seu poder de lobby para garantir seus interesses.

14 Para se referir à era em que vivemos e à sociedade atual, BECK (1995), da mesma forma que outros autores, como GIDDENS (1995) E LASH (1995), usa o termo modernidade reflexiva definida por termos como

“modernização da modernização”, “radicalização da modernidade” e “desincorporação e reincorporação das formas sociais industriais por outra modernidade”. Segundo Beck, trata-se de um novo estágio, “em que o progresso pode se transformar em autodestruição, em que um tipo de modernização destrói outro e o modifica”. (Beck, 1995:12-13)

(22)

parlamentos e dos congressos nacionais – e não as corporações - os eleitos pela sociedade para a tomada de decisões públicas (DEETZ, 1992,1998). Aparentemente não há nada de errado com o fato de as corporações, ou de qualquer outro grupo, exercer influência sobre os meios de comunicação, a educação, o conhecimento, as famílias ou a cultura. O problema é não existirem outros grupos, incluindo as agências públicas, capazes de competir com os atores dominantes, representados pelas corporações e seus interesses privados (DEETZ, 1992, 1998). Nesse contexto, cabe a questão apresentada por Deetz (1998, p.31): “Nós queremos maximizar o consumo e o lucro ou há uma variedade de outros valores sociais importantes?”

15

. M. Santos (2002) aponta as conseqüências da estruturação da vida social com base na produção e no consumo:

Há um verdadeiro retrocesso quanto à noção de bem público e de solidariedade, do qual é emblemático o encolhimento das funções sociais e políticas do Estado com a ampliação da pobreza e os crescentes agravos à soberania, enquanto se amplia o papel político das grandes empresas na regulação da vida social (2002, p.38).

É nesse cenário, em que as empresas assumem funções e papéis tradicionalmente afetos ao Estado, que a questão da inserção das organizações na sociedade como cidadãs- institucionais se apresenta.

2.2. Responsabilidade social corporativa

Essa é uma discussão que, aparentemente, envolve paradoxos: se o principal objetivo das organizações produtivas capitalistas é o lucro e se seu poder de influência na sociedade contemporânea é tão grande, por que elas precisam ou querem ser identificadas como cidadãs, sujeitos com direitos e responsabilidades, com compromissos éticos e morais para com a sociedade?

15 Traduzido do inglês: “Do we wish to maximize consumption and profit, or are there a variety of other important social values?” (DEETZ, 1998, p.31)

(23)

Para responder a essa questão é preciso fazer um breve resgate do histórico da responsabilidade social das empresas, relacionando-a a fatores conjunturais ao longo dos anos, e apontar as características que marcaram sua prática em cada período e que contribuíram para a formação de um conceito contemporâneo de responsabilidade social.

Na revisão de literatura sobre a evolução do conceito de responsabilidade social ao longo das décadas, Carroll (1999) aponta referências à responsabilidade social na produção acadêmica norte-americana nas décadas de 1930 e 1940 (BARNARD, 1938; CLARK, 1939;

KREPS, 1940 apud CARROLL, 1999), embora evidências dessas práticas por parte das empresas possam ser identificadas em períodos anteriores. Um exemplo é o estudo de Heald (1970) apud Carroll (1999), intitulado The social responsabilities of business: company and

community, 1900-1960. É, porém, a partir da década de 1950 que começa a se configurar o

que se pode chamar de “era moderna” da responsabilidade social, cujo conceito passa a ser discutido tanto por acadêmicos quanto por profissionais do ramo dos negócios.

Carroll (1999) faz um apanhado da evolução do conceito da responsabilidade social ou

responsabilidade social corporativa e suas derivações ou conceitos alternativos, como

desempenho social corporativo, cidadania corporativa, teoria dos stakeholders e teoria da

ética nos negócios, abrangendo um período que compreende desde a década de 1950 até os

anos 90. Trata-se de uma discussão interessante e pormenorizada, mas que foge ao escopo do

presente estudo. Aqui é suficiente registrar apenas o que marca o conceito em cada década e

que contribui para a definição contemporânea do conceito de responsabilidade social. Nas

décadas de 1950 e 1960, e mesmo na década de 1970, a responsabilidade social era

relacionada a uma atribuição pessoal dos homens de negócios (proprietários ou altos

executivos das empresas) e não a uma função das organizações como instituições da

sociedade. Nota-se que, ainda hoje, conforme mostrado adiante, o envolvimento pessoal do

(24)

principal executivo ou das lideranças da organização parece ter contribuição decisiva para que a organização desempenhe a sua função social.

A partir da década de 1960, o colapso do Welfare State, entendido como capacidade do Estado de proporcionar à sociedade determinados níveis de proteção e de bem-estar, como assistência à saúde, segurança, educação e seguros para desempregados, abre espaço para que o mercado ocupe essa lacuna (SANTOS, 2001; DEETZ, 1992).

Nos anos de 1970, as discussões em torno do conceito de responsabilidade social corporativa proliferam. É interessante registrar que, no início daquela década, uma instituição formada por homens de negócios e por educadores – o Comitê para o Desenvolvimento Econômico ou Committee for Economic Development (CED) dos Estados Unidos – formula sua definição para responsabilidade social corporativa em que reconhece que as empresas deveriam não apenas prover a sociedade com seus produtos e serviços, mas servir à sociedade e atender às expectativas do público. A abordagem do CED representou um marco para o conceito de responsabilidade social na época e coincidiu com o crescimento dos movimentos sociais no final da década de 1960 e início da de 1970, com causas relacionadas ao meio ambiente, aos consumidores e aos direitos dos trabalhadores.

As reflexões surgidas nesse período incorporaram pontos que continuam a despertar

polêmica, como a inclusão ou não do desempenho econômico da organização e o

cumprimento de obrigações legais como fatores de responsabilidade social ou como definir a

extensão da responsabilidade social e as questões sociais que devem ser contempladas pelas

organizações. A conciliação entre as expectativas dos públicos e os objetivos e interesses da

organização e mesmo dúvidas sobre se as organizações devem desempenhar papéis que vão

além da produção de bens e serviços para a comunidade, a geração de empregados e o

recolhimento de impostos, ainda hoje, fomentam os debates (CARROLL, 1999). A esse

(25)

respeito, é clássica a opinião do economista prêmio Nobel em 1976, Milton Friedman (1962), para quem

Há uma e somente uma responsabilidade social do capital – usar seus recursos e dedicar-se a atividades destinadas a aumentar seus lucros até onde permaneça dentro das regras do jogo [...] doações feitas por empresas constituem um uso impróprio dos fundos da companhia numa sociedade de economia livre (apud CAVALCANTI, 2002, p.30).

A expansão da economia industrial, a globalização econômica e a difusão social da produção - transnacionalização do processo produtivo (a ‘fábrica difusa’), a fragmentação geográfica e social do processo do trabalho (SANTOS, 2001) - evidenciaram claramente o desequilíbrio mundial da distribuição de renda e as desigualdades entre incluídos e excluídos do mercado e seus efeitos perversos, sobretudo para os países pobres. Esses fatores contribuíram para que, a partir da década de 1990, as discussões sobre o papel social das empresas ganhassem força e novos contornos. Segundo Fischer (2002),

[...] mesmo nas economias mais equilibradas observa-se que a intensidade e a velocidade com que o capitalismo se acumula e reproduz provocam o aumento das distâncias sociais, reforçam as injustiças distributivas, propiciam movimentos monopolistas e de cartelização que deformam as relações entre os atores sociais, originalmente pensados como semelhantes em força e poder (2002, p.218).

No caso brasileiro, esse quadro é agravado, conforme mostra Naves (2003), pelo fato de que

[...] sucessivos governos, nas últimas décadas, recorreram a empréstimos internacionais e compactuaram com as diretrizes das grandes instituições bancárias. O resultado prático é que hoje, com o aumento da dívida nominal e dos juros pagos aos credores internacionais e nacionais, sobram poucos recursos para os serviços devidos pelo Estado brasileiro aos cidadãos do nosso país” (2003, p.566).

Nesse cenário, “é inevitável o surgimento de ´novas atitudes’ sociais que reformulem a

ordem social, nem que seja para, no mínimo, assegurar a existência de mercados

consumidores para os produtos e serviços produzidos pela economia global” (FISCHER,

2002, p.220). Soma-se a isso, o fato de que a globalização, por outro lado, deixou as

(26)

economias mais interdependentes e as empresas mais vulneráveis às instabilidades sociais.

Basta lembrar como a crise asiática no final de 1998 se fez sentir no mundo inteiro e as ameaças que os atentados terroristas de 11 de setembro impingiram à economia mundial.

Outros exemplos de como problemas locais ganham dimensões internacionais no mundo globalizado são as denúncias nas áreas de meio ambiente e direitos humanos e que configuram a existência de redes mundiais de cooperação em defesa de causas ecológicas, de justiça social e democracia (NAVES, 2003). Na área empresarial, um dos casos mais conhecidos é o da fábrica americana de materiais esportivos Nike cujos negócios em todo o mundo sofreram os impactos da divulgação na imprensa internacional de que seus tênis são produzidos em países asiáticos por mão-de-obra aviltada. Um levantamento em fábricas que servem à empresa na Indonésia, por exemplo, revelou que 56% de um universo de quatro mil trabalhadores queixam-se de insultos verbais, 15,7% das mulheres reclamam de bolinas e 13,7% afirmam ter sofrido coerção física no trabalho

16

.

Segundo Fischer (2002, p.220), “esse cenário complexo e contraditório, no qual as empresas têm grande poder de manipulação das forças de mercado mas são extremamente vulneráveis às mudanças do comportamento social, tornou-se propício ao ressurgimento da proposta de exercício da responsabilidade social”. Uma proposta que, não obstante os benefícios concretos proporcionados principalmente às comunidades de atuação direta das empresas, é marcada pela contradição e gera situações anteriormente impensáveis, como nos mostra Beck (1997) ao citar a união de forças entre a indústria química e seus arquicríticos do Partido Verde na Alemanha em favor de causas ecológicas. “Pode-se quase temer que as indústrias químicas venham a continuar com suas propagandas de página inteira e se reestabeleçam (sic) como uma associação conservacionista” (1997, p.30-31).

16 GASPARI, Élio. O micreiro do MIT pegou a Nike. O Globo, 24/03/01.

(27)

De acordo com Carvalho (2002), o compromisso das empresas com a responsabilidade social não é voluntário, mas gerado por demandas e exigências do público e do mercado, como condição de competitividade das empresas. Conforme lembra Bourdieu (2001), políticas sociais decorrem de conquistas de movimentos sociais. Dessa forma, a responsabilidade social das empresas decorre de um “movimento social que ‘civilizou’ a economia de mercado, contribuindo ao mesmo tempo enormemente para a sua eficiência”

(BOURDIEU, 2001, p.19). Fischer & Falconer (2001, p.18) afirmam que “já não é possível manter-se no próprio ambiente dos negócios se a imagem institucional da organização não mostrar sua dimensão voltada para o desenvolvimento da sociedade civil”. Também segundo Drucker (1994) apud Fischer (2002, p.218) ´as organizações têm a responsabilidade de achar uma abordagem para os problemas sociais básicos que podem estar dentro da sua competência e, até mesmo, serem transformados em oportunidades para elas´.

Essa discussão, no entanto, foge aos propósitos deste trabalho e não será aprofundada aqui.

2.2.1. O conceito adotado

Entre os vários conceitos de responsabilidade social e termos afins, como cidadania corporativa, filantropia empresarial e atuação social

17

, encontrados na revisão de literatura sobre o tema (GARAY, 2001; MCINTOSH, 2001; MELO NETO & FROES, 2001;

FISCHER, 2002; entre outros), a definição adotada neste estudo é aquela fornecida pelo Instituto Ethos. A entidade conceitua a responsabilidade social como:

17 Autores como Fischer (2002) fazem uma distinção entre os termos “responsabilidade social”, que inclui responsabilidades econômico-financeiras, políticas, culturais e sociais, “atuação social”, referindo-se às ações voltadas para a comunidade ou a sociedade, e cidadania organizacional, relacionado à coerência entre as práticas internas (dirigidas a empregados, proprietários ou acionistas) e externas da organização (voltadas para comunidade, clientes/consumidores etc.). Trata-se de uma discussão que não será aprofundada aqui por fugir aos propósitos deste estudo.

(28)

Forma de conduzir os negócios da empresa de tal maneira que a torna parceira e co- responsável pelo desenvolvimento social. A empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente) e conseguir incorporá-los no planejamento de suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas dos acionistas ou proprietários18.

Trata-se do conceito mais disseminado entre as empresas brasileiras e condizente com o modelo de responsabilidade social seguido pela organização onde foi realizado o estudo de caso apresentado neste trabalho. Seu conteúdo chama a atenção pelos seguintes aspectos:

reconhece a importância do bom desempenho econômico da empresa – de que outra maneira ela poderia assegurar a sua perenidade e contribuir para o desenvolvimento social? – para a responsabilidade social; põe ênfase nas interações da organização com seus stakeholders ou partes interessadas e afetadas por suas atividades e considera as empresas co-responsáveis - e não únicas responsáveis - pelo desenvolvimento social.

2.2.2. Como a responsabilidade social se configura nas empresas brasileiras

Fischer & Falconer (2001) constatam que a maioria das empresas não se preocupa em relacionar sua atuação social às suas estratégias negociais. Pelo contrário, algumas fazem questão de ressaltar que as ações sociais são totalmente desvinculadas do negócio, nos aspectos administrativos e objetivos estratégicos. Para essas empresas é como se o retorno proveniente das atividades de responsabilidade social descaracterizasse essa atuação, gerando perda de credibilidade. Isso não impede, no entanto, que as empresas observem resultados positivos para seus negócios, derivados do exercício da responsabilidade social.

18 Disponível em: <http//:www.ethos.org.br.> Acessado em 18/10/03.

(29)

Várias pesquisas (CEATS, 1999; IPEA, 2000; SEBRAE, 2000, entre outras) mostram como a responsabilidade social se configura nas empresas que atuam no mercado nacional (focos de atuação, caráter das atividades desenvolvidas, formas de apoio aos programas sociais, relação entre origem do capital, ramo de atividade e porte das empresas que desenvolvem trabalhos na comunidade). O estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea, 2000), intitulado Pesquisa Ação Social das Empresas, por exemplo, indica que na região Sudeste, em um universo de 445 mil empresas privadas, com um ou mais empregados, 67% delas – o equivalente a quase 300 mil empresas - realizaram algum tipo de ação social em benefício dos próprios empregados ou da comunidade no ano de 1998. O estudo considerou como ação social apenas as concessões que extrapolam as exigências legais, o que significa que medidas como a entrega de vale-transporte ou ações ambientais para garantir o cumprimento da legislação pertinente, por exemplo, não foram computadas. A pesquisa mostrou que dois terços das empresas que atuam nas comunidades realizam, simultaneamente, atividades sociais para seus empregados.

Ao todo foram investidos R$ 3,5 bilhões, o que, segundo comparação apresentada no próprio estudo, correspondeu, em 1998, a 30% dos gastos sociais do governo federal na região Sudeste (excluindo-se recursos destinados à Previdência Social), sendo que a quantia foi equivalente à totalidade dos recursos federais aplicados em ações assistenciais em todo o país.

Por outro lado, corresponderam a menos de 1% da receita bruta total dessas empresas no mesmo ano ou do Produto Interno Bruto (conjunto de bens e serviços produzidos) do Sudeste.

Cinqüenta e sete por cento das empresas afirmaram fazer investimentos sociais de forma habitual; no segmento das indústrias, esse percentual ficou em 79%; a maior parte das empresas (60%) concentrou suas ações nas comunidades vizinhas.

O trabalho das empresas nesse campo segue pelo menos três caminhos diferenciados e

não excludentes: a filantropia, que pode ser resumida na destinação de doações de recursos,

(30)

feitas de forma sistemática ou não, a entidades assistenciais ou diretamente aos beneficiários.

Segundo a referida pesquisa, essa é a forma mais comum de atuação social entre as empresas do Sudeste do Brasil. O segundo tipo são os investimentos para a autogestão, em que a própria empresa mantém e gerencia, de forma direta ou por meio de terceiros, projetos específicos que levam a sua chancela. A terceira via de atuação social é o estímulo ao voluntariado, que incentiva o engajamento do empregado em ações sociais voluntárias.

Dois terços das ações sociais das empresas beneficiaram crianças, sendo que, entre as grandes empresas (consideradas pela pesquisa como aquelas com mais de 500 empregados), a maior parte dos investimentos (43%) concentra-se na área de educação.

A pesquisa do Ipea (2000) apurou, ainda, as intenções das empresas em ampliar investimentos sociais: mais de um terço delas declararam ter planos de expandir os recursos e o atendimento à comunidade; à medida que aumenta o tamanho da empresa, cresce a intenção

de expandir as ações sociais.

É interessante reforçar que, apesar dessa tendência à expansão dos investimentos

sociais das empresas, existem argumentos consistentes contrários a esse papel e que

consideram que a única função social da empresa seria garantir o bom desempenho

econômico de seus negócios, isto é, a produção de bens e serviços, a geração de lucros e de

empregos e o pagamento de impostos. Levitt (1958) apud Cavalcanti (2002), da mesma forma

que o já citado Friedman (1962), é contra a existência de entidades centralizadas promotoras

do bem-estar social - sejam elas o Estado, os sindicatos ou as corporações - devido à forma de

poder centralizado e à disciplina social severa associadas a esses modelos. Segundo seus

argumentos, o problema estaria no preço a ser pago por esses serviços, isto é, o envolvimento

das empresas com a promoção do bem-estar social as transformaria ‘num equivalente da

igreja medieval. A corporação iria se auto-investir de deveres, obrigações e finalmente

(31)

poderes – atingindo todos os indivíduos e moldando-os à imagem das estreitas ambições da corporação´ ( apud CAVALCANTI, 1958, p.44). Carroll (1999), no entanto, defende que o desempenho econômico não pode ser a única missão da empresa, mas constitui a base da pirâmide de sua responsabilidade social (acima viriam o atendimento à legislação, a ética e a

filantropia, nesta ordem).

Fischer (2002) considera a prática da responsabilidade social um caminho sem volta para as organizações, embora reconheça que, na prática, a atuação social das empresas precise se ampliar e conquistar mais espaço no ambiente empresarial brasileiro. A pesquisa do Centro de Estudos Acadêmicos do Terceiro Setor (CEATS, 1999), coordenada pela autora, para conhecer as estratégias de atuação social das empresas no Brasil, mostrou que 56% delas investem em ações de cunho social ou comunitário, enquanto 43% declararam não fazer nada na área social; 1% não respondeu. Foi constatado, ainda, que é das empresas com tradição em atuação na comunidade ou que se mostram mais sensíveis à questão que emergem iniciativas consistentes de estímulo ao trabalho voluntário entre os empregados, prática que mais interessa ao presente estudo.

2.3. Trabalho voluntário no Brasil

2.3.1. Definições, história e perfil do voluntário

A lei 9.608/98, que regulamenta o trabalho voluntário no Brasil, define o voluntariado

como atividade não remunerada, prestada por pessoa física, a instituições públicas ou privadas

sem fins lucrativos, mediante a assinatura de termo de adesão em que devem constar o

objetivo e as condições do trabalho a ser realizado. Doação, solidariedade, cidadania e

espontaneidade são palavras geralmente associadas ao conceito de trabalho voluntário, como

(32)

a que é apresentada pelo Programa Voluntários do Conselho da Comunidade Solidária

19

, citada no relatório da pesquisa realizada pelo CEATS (1999): “O voluntário é o cidadão que, motivado por valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário”.

Para a Organização das Nações Unidas (ONU), “o voluntário é o jovem ou o adulto que, por interesse pessoal e espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem remuneração alguma, a atividades voltadas ao bem-estar social ou a outros campos” (apud CORULLÓN &

MEDEIROS FILHO, 2002, p.63). A Fundação Abrinq pela Defesa dos Direitos da Criança, entidade do Terceiro Setor criada por iniciativa de empresários, fornece a seguinte definição:

Voluntário é o ator social e agente de transformação, que presta serviços não remunerados em benefício da comunidade. Doando seu tempo e conhecimentos, realiza um trabalho gerado pela energia de seu impulso solidário, e atende não só às necessidades do próximo, como também aos imperativos de uma causa. O voluntário atende também suas próprias motivações pessoais, sejam elas de caráter religioso, cultural, filosófico ou emocional (apud DOMENEGHETTI, 2001, p.80).

Abordagens que ligam o trabalho voluntário e quem o pratica a sentimentos de compaixão, alegria e prazer também são comumente encontradas no tratamento do tema (DOMENEGHETTI, 2001; CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002; PEREZ &

JUNQUEIRA, 2002), como demonstra o trecho seguinte, proferido em 2001, pelo então coordenador do Programa Voluntários do Conselho da Comunidade Solidária:

O voluntariado é um imenso repositório de generosidade, compaixão, desejo de retribuir privilégios, vontade de aprender, de evidenciar experiências novas e muito mais. Esta vontade de agir concretiza-se, por decisão de foro íntimo, em doação de tempo, qualificação profissional e talentos [...] é um trabalhador que dispensa a remuneração financeira, vínculos empregatícios. Cada um pode e deve procurar o que mais gosta de fazer. É importante que o voluntário seja feliz com a oportunidade que escolhe. Todo mundo pode fazer alguma coisa sempre (LINS, 2002, p.66-67).

19 O Conselho da Comunidade Solidária foi criado em 1995, no mandato do presidente FHC, para mobilizar a sociedade civil como parceira do governo no enfrentamento da pobreza e da exclusão social.

(33)

García (2001) apud Corullón & Medeiros Filho (2002) dá conta de que, aos poucos, o voluntariado na América Latina, inicialmente baseado no `puro assistencialismo material e cultural´ e no princípio de que deveria `dar tudo sem receber nada em troca´, começa a admitir seu direito a receber: “alegria, valorização, prazer de servir. E também a reconhecer que, além de bom para quem recebe, é bom para quem faz” (CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002, p.27). Pinheiro & Cavedon (2002), numa referência a De Masi (2001), lembram que:

“Havendo tempo livre, é viável a dedicação ao voluntariado sem apropriação dos referenciais burocráticos do mundo do trabalho capitalista: surge uma via que conduz ao trabalho criativo, prazeroso, próximo do lazer”. Para Teodósio (2002),

[...] voluntários buscam remuneração não-material, seja ela espiritual, afetiva, política, ideológica ou mesmo de realização profissional. Muitos voluntários buscam instituições sociais para realizar sonhos profissionais que nunca tiveram chance de concretizar em suas carreiras, geralmente por falta de autonomia decisória nas empresas privadas, por carência de colaboradores e recursos, falta de tempo, dentre outros fatores.

Garay (2001) esclarece que, no Brasil, o voluntariado geralmente se dá por iniciativas individuais e informais, embora se destaque também nos movimentos sociais. Ela enumera os tipos de atividades desempenhadas pelo voluntário:

Na categoria trabalho voluntário enquadram-se as mais variadas possibilidades de ação, entre as quais o atendimento direto aos clientes-fim, a elaboração de trabalhos especializados, os treinamentos, a divulgação de ações, a busca de recursos para a implementação de projetos, o desenvolvimento de trabalhos auto-sustentáveis, assim como a participação em campanhas pontuais que vise ao atendimento de situações específicas como, por exemplo, catástrofes ambientais (2001, p.8).

As origens do trabalho voluntário no Brasil remontam ao período colonial (século

XVI) e estão ligadas aos serviços assistenciais prestados à comunidade pela igreja católica por

meio das Santas Casas de Misericórdia. Pesquisa realizada por Landim & Scalon (2000)

mostra que o domínio da igreja católica sobre o serviço social estendeu-se pelos primeiros três

séculos do Brasil-Colônia. A fundação da Santa Casa de Misericórdia de Santos, no interior

(34)

de São Paulo, em 1543, por padres jesuítas, marca a criação do primeiro hospital brasileiro e o início dos movimentos de caráter assistencialista, conforme modelo importado de Portugal (LANDIM & SCALON, 2000; DOMENEGHETTI, 2001; CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002; SILVEIRA, 2002). Ainda hoje as associações religiosas representam importante força de mobilização para o trabalho voluntário.

Nas décadas de 1930 e 1940, políticas assistencialistas despontam do governo (LANDIM & SCALON, 2000; DOMENEGHETTI, 2001), inaugurando o chamado Estado de Bem-Estar (Welfare State) no país. Em 1935, no governo de Getúlio Vargas, rotulado por seus admiradores como “pai dos pobres”, é instituída a lei da Declaração de Utilidade Pública, que discorre sobre a colaboração do Estado com entidades filantrópicas. O período mais autoritário do governo Vargas marca o avanço de políticas econômicas e sociais no país. São do Estado Novo (1937-1945) a criação do salário mínimo e do imposto sindical (1940), que permitiu ampliar os serviços estatais de aposentadoria, e a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT (1943). Em 1942, é criada a Legião Brasileira de Assistência (LBA), presidida pelas primeiras damas, dando início à chamada “era damista” do voluntariado e que ainda pode ser encontrada em diversas instituições do país (DOMENEGHETTI, 2001).

Esse modelo, segundo Domeneghetti (2001) caracterizou o voluntariado nas décadas de 1950 e 1960.

Chás de senhoras e eventos de caridade configuravam-se como as principais ferramentas utilizadas por este setor [...] Fruto do assistencialismo estatal, da Igreja e da segregação elitista que a sociedade mais rica da época impunha intencional ou involuntariamente aos mais necessitados, onde a filosofia reinante era ‘ajudemos estes pobres coitados pois também são gente’, ao invés de `vamos desenvolver nossa sociedade, auxiliando nossos irmãos, melhorando nossa comunidade e desenvolvendo nossa cidadania´(2001, p.109).

O fortalecimento do associativismo, do sindicalismo e dos movimentos sociais (muitos

deles voltados contra a ditadura militar) marca a história do voluntariado na década de 1970 e

(35)

1980, que se desenvolve em organizações da sociedade civil geralmente ligadas à militância política de esquerda.

Os anos da década de 1990 são o cenário da proliferação das organizações da sociedade civil voltadas para o bem público – entidades de direito privado e fins públicos – que compõem o Terceiro Setor. Após a redemocratização do Brasil, o fim da Guerra Fria e a queda dos regimes socialistas da Europa Oriental, muitos dos antigos militantes da esquerda aderiram a organizações não-governamentais voltadas para causas ecológicas, para a defesa dos direitos humanos, dos direitos do consumidor, entre outros, agregando ao voluntariado a proposta de transformação social presentes nesses movimentos (LANDIM & SCALON, 2000;

CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002). Um marco nessa direção foi o lançamento da

“Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida”, criada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, então presidente do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Desde então, as campanhas de doação de alimentos vêm mobilizando milhões de pessoas por meio de comitês com atuação em todo o país. A iniciativa é considerada pela ONU como ação de grande impacto global, a exemplo de outras ações voluntárias mundiais, como a campanha para a erradicação de minas pessoais em países da África e da Ásia (PEREZ & JUNQUEIRA, 2002).

Segundo Corullón & Medeiros Filho (2002),

A superação do assistencialismo é a tônica do novo padrão de voluntariado que se instalou no Brasil. Embora continue importante atender populações de risco, o conceito- chave não é mais apenas socorrer os necessitados – é promover a cidadania. A ênfase passa a ser a educação, a capacitação profissional. Novos temas entram no repertório do voluntariado: preservação ambiental, promoção da ética na política e nos negócios, cultura, defesa de direitos (2002, p.26).

É também na década de 1990 que o Comitê da Comunidade Solidária começa a

estimular as empresas a incentivarem o trabalho social voluntário entre seus empregados, o

(36)

que contribui ainda mais para a expansão e a profissionalização do voluntariado no país, conforme mostrado adiante.

O estudo de Landim & Scalon (2000) revela que os voluntários são 22,6% da população, o que corresponde a 19.748.388 habitantes. Desse total, 13.905.532 trabalham para instituições doando seis horas mensais, em média. As instituições que mais se beneficiam de trabalhos voluntários são as religiosas (57%) e as de assistência social (17%). Além disso, 8% dos voluntários prestam serviços a instituições de defesa de direitos e ação comunitária.

Foram ouvidas 1.200 pessoas maiores de 18 anos, moradores de cidades com mais de 10 mil habitantes, no ano de 1998. Outra pesquisa, realizada pelo Ibope no segundo semestre de 2001, informa que o Brasil teria 30 milhões de pessoas dedicadas a causas voluntárias (apud NAVES, 2003).

Landim & Scalon (2000) mostram ainda que, embora possam ser enquadrados na vaga nomeação de brasileiro médio comum (pessoas de diferentes idades, rendas, níveis educacionais e credos), os voluntários brasileiros têm ideais semelhantes: associam ao seu trabalho valores que vão além da caridade, sentimento de amor ao próximo e solidariedade.

Fatores como a prática da cidadania, a construção de um mundo melhor e uma forma de encontrar e conhecer pessoas são exemplos de benefícios com os quais os voluntários identificam seus trabalhos.

A instituição de 2001 como Ano Internacional do Voluntariado, feita pela ONU,

contribuiu, conforme um dos diretores regionais das Nações Unidas, para tirar o voluntariado

de uma “invisibilidade histórica”, e para ajudar no resgate e na ampliação do papel do

voluntariado para o desenvolvimento social (PEREZ & JUNQUEIRA, 2002). Entre as

medidas estabelecidas pelos governos e pela ONU para estimular o voluntariado estão, entre

outras, a sensibilização da opinião pública para o trabalho voluntário; a mobilização,

preparação, capacitação e reconhecimento dos voluntários; medidas fiscais e leis para

(37)

incentivar o voluntariado entre organizações sem fins lucrativos; o fomento a estudos sobre diversos aspectos do voluntariado e seus impactos sociais; a incorporação do voluntariado em planos nacionais de desenvolvimento social e a inclusão de atividades voluntárias em todos os setores da sociedade (PEREZ & JUNQUEIRA, 2002).

O balanço da expansão do voluntariado ao final de 2001 apontou que o Brasil foi o segundo país em que o voluntariado mais cresceu, entre os Estados-Membros da ONU. Em entrevista ao Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa (2001, p.18), Milú Villela, presidente do Comitê Brasileiro no Ano Internacional do Voluntariado, fornece uma medida dessa expansão: “Houve uma explosão de pessoas querendo participar de projetos sociais. De janeiro a setembro [...], 11.640 pessoas ligaram para o Centro de Voluntariado de São Paulo em busca de alguma atividade”.

Por fim, cabe observar que a popularização do trabalho voluntário no país, conforme atesta, por exemplo, o crescente interesse sobre o tema demonstrado pela mídia, pelo segmento empresarial e pelo setor acadêmico - como relatado no capítulo anterior - vem tendo seqüência mesmo após a movimentação em torno do Ano Internacional do Voluntariado.

Nesse sentido, as empresas e as entidades a elas ligadas vêm cumprindo papel de destaque, conforme poderá ser visto a seguir.

2.3.2. Voluntariado empresarial

É na década de 1990 – mais precisamente nos últimos anos da década - que pode ser

situado o surgimento do voluntariado empresarial no Brasil, conseqüência da disseminação

das idéias de responsabilidade social entre as empresas no final dos anos 80 e início dos anos

90. O voluntariado empresarial chegou ao país pelas multinacionais norte-americanas: “Trata-

se de uma prática já tradicional nos Estados Unidos e que, a partir daquele país, espalhou-se

pelo mundo, especialmente a partir da década de 90, como parte do processo de globalização”

(38)

(CORULLÓN & MEDEIROS FILHO, 2002, p.39). A partir de 1996, o voluntariado passou a ser estimulado entre as empresas como parte das ações do Programa Voluntários do Conselho da Comunidade Solidária. Pinheiro & Cavedon (2002) lembram, no entanto, que, “embora não se constitua como uma novidade, [o voluntariado] não tinha até então se apresentado como uma atividade formalizada no sistema capitalista”. O estímulo ao trabalho voluntário fomentado – e muitas vezes, patrocinado – pelas empresas encontra campo fértil na sociedade brasileira, onde o exército de órfãos do Welfare State é composto por uma parcela considerável da população

20

.

Segundo definição da Points of Light Foundation, a mais importante entidade norte- americana de incentivo ao voluntariado (apud FISCHER & FALCONER, 2001; CORULLÓN

& MEDEIROS FILHO, 2002;), “um programa de voluntariado empresarial é qualquer forma de apoio formal ou organizado de uma empresa a empregados ou aposentados que desejam servir, voluntariamente, uma comunidade, com o seu tempo e habilidades”. O Voluntários das Gerais, programa da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), fornece um conceito que detalha quais são os públicos a serem envolvidos e as possíveis áreas de atuação do voluntariado empresarial:

É organizar a disposição para o trabalho voluntário dentro da empresa, envolvendo os que nela trabalham ou que a dirigem: funcionários, diretores, acionistas, gerentes. Pode- se ainda incluir os familiares destas pessoas, aposentados que trabalharam na empresa, fornecedores, clientes, parceiros. O objetivo é gerar ações em benefício da comunidade, nas mais variadas áreas. Alguns exemplos: educação, formação profissional, preservação do meio ambiente, cultura, lazer, esportes, saúde, defesa de direitos21.

É importante observar que o fato de a empresa ter em seu quadro funcionários que já desenvolvem trabalhos voluntários na comunidade, não significa que possua um programa de voluntariado. Corullón & Medeiros Filho (2002) acreditam que a maior parte das empresas

20 Várias pesquisas fornecem estatísticas sobre a adesão das empresas brasileiras a programas de voluntariado.

Cf. Ceats (1999, op.cit), Fiemg (2000, op. cit), Ipea (2000, op.cit) e Sebrae (2000, op.cit.).

21 Disponível em: <http//:www.voluntariosdasgerais.com.br>. Acessado em 18/10/03.

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